LETRAMENTO LITERÁRIO E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE ESTUDANTIL: UMA ANÁLISE DA OBRA MORTE E VIDA SEVERINA NO ENSINO DE LITERATURA

LITERARY LITERACY AND THE CONSTRUCTION OF STUDENT IDENTITY: AN ANALYSIS OF THE WORK MORTE E VIDA SEVERINA IN LITERATURE TEACHING

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778520983

RESUMO
Este artigo analisa a relação entre letramento literário e construção da identidade estudantil a partir do trabalho pedagógico com o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. A proposta parte da compreensão de que a leitura literária, quando desenvolvida de forma crítica, sensível e contextualizada, pode ultrapassar a simples interpretação do texto e se transformar em uma experiência de formação humana, cultural e social. Nesse sentido, a obra é tomada como um importante instrumento para aproximar os estudantes de temas como desigualdade, migração, resistência, cultura nordestina e busca por dignidade. Por meio de uma pesquisa bibliográfica fundamentada em estudos sobre letramento literário, identidade cultural e ensino de literatura, investigam-se os processos de construção identitária que emergem do contato dos estudantes com a obra. A análise considera que o poema permite aos alunos reconhecerem diferentes realidades sociais e culturais, ao mesmo tempo em que favorece reflexões sobre suas próprias vivências, memórias e formas de pertencimento. Assim, o texto literário deixa de ser visto apenas como conteúdo escolar e passa a ocupar um lugar de diálogo entre a escola, a cultura e a vida dos estudantes. Os achados da revisão bibliográfica indicam que o letramento literário, quando desenvolvido a partir de práticas dialógicas, participativas e contextualizadas, potencializa a construção da identidade estudantil ao criar espaços de autorreconhecimento, escuta, pertencimento e crítica social. Conclui-se que o ensino de Morte e Vida Severina pode se constituir como uma experiência pedagógica transformadora, especialmente quando orientado por uma concepção de literatura como prática social, cultural e formativa, capaz de ampliar a leitura de mundo dos alunos e fortalecer sua participação crítica no cotidiano escolar.
Palavras-chave: Letramento literário; Identidade estudantil; Morte e Vida Severina; Ensino de Literatura; Identidade cultural.

ABSTRACT
This article analyzes the relationship between literary literacy and the construction of student identity through the pedagogical work with the poem Morte e Vida Severina, by João Cabral de Melo Neto. The proposal is based on the understanding that literary reading, when developed in a critical, sensitive, and contextualized way, can go beyond the simple interpretation of the text and become an experience of human, cultural, and social formation. In this sense, the work is regarded as an important tool for bringing students closer to themes such as inequality, migration, resistance, Northeastern Brazilian culture, and the search for dignity. Through bibliographic research grounded in studies on literary literacy, cultural identity, and literature teaching, this article investigates the processes of identity construction that emerge from students’ contact with the work. The analysis considers that the poem allows students to recognize different social and cultural realities, while also encouraging reflections on their own experiences, memories, and forms of belonging. Thus, the literary text is no longer seen only as school content, but begins to occupy a space of dialogue between school, culture, and students’ lives.
The findings of the bibliographic review indicate that literary literacy, when developed through dialogical, participatory, and contextualized practices, enhances the construction of student identity by creating spaces for self-recognition, listening, belonging, and social criticism. It is concluded that the teaching of Morte e Vida Severina can become a transformative pedagogical experience, especially when guided by a conception of literature as a social, cultural, and formative practice, capable of broadening students’ reading of the world and strengthening their critical participation in everyday school life.
Keywords: Literary literacy; Student identity; Morte e Vida Severina; Literature teaching; Cultural identity.

1. INTRODUÇÃO

O debate sobre o papel da literatura na formação dos sujeitos escolares tem ganhado crescente relevância no campo educacional brasileiro, especialmente diante da necessidade de construir práticas pedagógicas que dialoguem com a diversidade cultural e com as complexas dinâmicas identitárias dos estudantes. A escola, como espaço democrático de formação humana, é chamada a ir além da transmissão de conteúdos curriculares, assumindo uma função de mediação cultural que reconheça as múltiplas identidades presentes em seu interior e valorize os saberes trazidos pelos estudantes de seus contextos de vida.

Nesse cenário, o letramento literário emerge como um conceito-chave para repensar o ensino de Literatura. Mais do que garantir o acesso dos alunos a determinadas obras do cânone literário, o letramento literário pressupõe o desenvolvimento de competências críticas, estéticas e culturais que permitam ao leitor construir sentidos a partir do texto, relacionando-o com sua realidade e com o mundo que o cerca. Trata-se, em outras palavras, de uma prática social de leitura que tem na formação da identidade um de seus horizontes mais significativos.

O poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, apresenta-se como uma das obras mais adequadas para o desenvolvimento do letramento literário no ensino médio, justamente por articular, de forma poética e dramática, as tensões sociais, culturais e identitárias que marcam a realidade nordestina e, por extensão, a realidade brasileira. A narrativa do retirante Severino, com sua jornada marcada pela morte, pela resistência e pela esperança de vida, toca experiências humanas que transcendem o regionalismo e alcançam uma dimensão universal.

A questão central que orienta este estudo é: de que forma o letramento literário desenvolvido a partir de Morte e Vida Severina contribui para a construção da identidade estudantil no ensino de Literatura? Para respondê-la, a pesquisa recorre a uma revisão bibliográfica da produção científica nacional e internacional que trata das relações entre letramento literário, identidade cultural e ensino de literatura no contexto da educação básica.

O objetivo geral desta investigação é analisar, com base na literatura especializada, a relação entre o letramento literário e a construção da identidade estudantil a partir do trabalho com o poema Morte e Vida Severina no ensino médio. Os objetivos específicos são: identificar como as concepções de letramento literário descritas na literatura influenciam as práticas pedagógicas adotadas; descrever os processos de construção identitária observados nos estudantes; e analisar quais estratégias são apontadas pela literatura como mais favoráveis ao engajamento crítico e identitário dos alunos com a obra.

Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa bibliográfica que envolveu o levantamento, a seleção e a análise crítica da produção científica disponível sobre o tema, orientada pelos princípios da análise de conteúdo conforme Bardin (1977). O artigo está organizado em cinco seções: introdução, fundamentação teórica com três eixos temáticos, metodologia, resultados e discussão, e conclusão. Espera-se que a discussão aqui desenvolvida contribua para o aprimoramento das práticas de letramento literário no contexto escolar brasileiro.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Letramento Literário: Conceito, Fundamentos e Dimensões Educativas

O letramento literário constitui um dos conceitos mais relevantes e complexos no campo dos estudos sobre leitura e educação. Longe de ser apenas uma variante do letramento convencional, ele diz respeito a um tipo específico de prática social relacionada à leitura e à interpretação de textos literários, que envolve dimensões estéticas, culturais, históricas e emocionais de difícil mensuração, mas de inegável importância formativa.

Cosson (2014) define o letramento literário como a prática de leitura que vai além da decodificação textual, envolvendo a construção de sentidos em diálogo com a realidade sociocultural do leitor. Para o autor, o letramento literário pressupõe um sujeito leitor ativo, capaz de estabelecer conexões entre o texto, seus próprios saberes de vida e o contexto histórico em que a obra foi produzida. Essa perspectiva se opõe a uma abordagem escolar que reduz o texto literário a um pretexto para o ensino de gramática ou de conteúdos históricos da literatura.

Soares (2002) contribui para essa discussão ao afirmar que o letramento literário está relacionado com a capacidade de ler e escrever de forma culturalmente situada, integrando a experiência estética ao processo de formação dos sujeitos. A autora destaca que essa forma de letramento possibilita ao leitor não apenas entender o texto, mas vivenciá-lo emocionalmente e refletir sobre seu significado social e cultural, promovendo uma experiência formativa que ultrapassa os limites do conteúdo curricular e se inscreve na vida dos leitores.

Kleiman (2005) aprofunda essa compreensão ao afirmar que o letramento constitui um conjunto de práticas sociais relacionadas à leitura e à escrita que estão integradas nas várias esferas da vida diária, sendo moldadas pelas exigências sociais e culturais. No campo literário, essa concepção implica reconhecer que a leitura de um texto literário é sempre mediada por fatores socioculturais que influenciam os processos de identificação, interpretação e construção de sentidos dos leitores.

No contexto escolar contemporâneo, o letramento literário enfrenta desafios significativos. Garcia e Pereira (2024) destacam que o ensino de literatura no Brasil ainda apresenta lacunas relacionadas à fragmentação da abordagem literária e à ausência de práticas que valorizem o desenvolvimento integral do leitor. A BNCC (Brasil, 2018) propõe que os currículos escolares incentivem a participação ativa dos alunos no contato com os textos, compreendendo a leitura como uma ferramenta para a reflexão e a criação de novos significados, e não apenas como decodificação.

Candido (2004) reforça essa perspectiva ao definir a competência literária como a capacidade de ler e interpretar textos literários, reconhecendo suas especificidades formais e estéticas, bem como suas implicações culturais e sociais. Para o autor, a formação do leitor literário é parte essencial da educação humanística, contribuindo para o desenvolvimento de sujeitos capazes de compreender a complexidade da experiência humana e de exercer sua cidadania de forma crítica e reflexiva.

Em síntese, o letramento literário constitui uma prática formativa multidimensional que articula estética, cultura, identidade e cidadania. Seu desenvolvimento no contexto escolar exige uma concepção de literatura como prática social, e não como simples disciplina curricular, e demanda professores preparados para mediar o encontro entre o texto literário e a realidade dos estudantes de forma sensível, dialógica e transformadora.

2.2. A Construção da Identidade Estudantil no Ensino de Literatura

A identidade estudantil é um construto complexo que se forma na interseção entre as experiências individuais dos sujeitos, os contextos socioculturais em que vivem e as práticas institucionais que os atravessam. No espaço escolar, a identidade dos alunos é constantemente negociada, desafiada e reconfigurada a partir das interações com os conteúdos curriculares, com os colegas e com os professores. O ensino de Literatura, nesse sentido, ocupa um lugar especial nesse processo, pois oferece aos estudantes narrativas, personagens e situações com as quais podem se identificar, se confrontar ou se transformar.

Stuart Hall (1996) oferece uma das mais influentes contribuições teóricas para a compreensão da identidade como processo. Para o autor, a identidade não é uma essência fixa e imutável, mas uma construção permanente que se dá na relação com o outro e com as diferenças culturais que ele representa. No contexto escolar, isso significa que a identidade estudantil se forma no diálogo entre o que o aluno traz de sua história de vida e o que a escola lhe apresenta por meio de seus textos, práticas e valores. Essa perspectiva é fundamental para compreender como o texto literário pode funcionar como mediador de processos identitários.

Claude Dubar (2005) complementa essa perspectiva ao distinguir dois eixos formadores da identidade: o biográfico, relacionado à constituição do eu a partir da história de vida do sujeito, e o relacional, que se refere à forma como o indivíduo é reconhecido e situado pelos outros. Essa distinção é especialmente relevante para o ensino de Literatura, pois o texto literário pode ativar tanto o eixo biográfico, ao evocar memórias e experiências pessoais, quanto o relacional, ao criar espaços de diálogo e reconhecimento coletivo entre os alunos.

Bauman (2005) contribui para essa análise ao afirmar que, na modernidade líquida, as identidades são instáveis e transitórias, constantemente reformuladas diante de novas experiências e contextos. No caso dos estudantes brasileiros, essa instabilidade identitária é atravessada por tensões relacionadas à diversidade regional, étnica, de gênero e de classe social que caracterizam a realidade do país. O ensino de Literatura, quando orientado pelo letramento literário, pode oferecer a esses sujeitos pontos de ancoragem simbólica que contribuam para a construção de uma identidade mais consciente e valorizada.

Ortiz (1988) destaca que a identidade é um processo de construção contínua, influenciado por fatores históricos, culturais e sociais. Ele enfatiza que a identidade é formada por elementos que se articulam na narrativa de um grupo ou indivíduo, refletindo suas memórias, tradições e práticas culturais. No contexto do ensino de Literatura, essa perspectiva implica reconhecer que os textos literários carregam em si narrativas identitárias que podem ressoar com as narrativas de vida dos alunos, promovendo processos ricos de identificação e reconhecimento.

Estudos recentes evidenciam que a escola desempenha um papel crucial na interconexão entre identidade cultural e literatura. Schachner et al. (2024) indicam que um ambiente de sala de aula que celebra a diversidade cultural e valoriza o patrimônio dos estudantes está diretamente ligado a uma identidade cultural mais sólida e bem desenvolvida. Esse apoio institucional e pedagógico legitima as identidades literárias e culturais dos alunos, aprofundando o senso de pertencimento e a capacidade de engajar-se em um diálogo intercultural por meio da leitura e da narrativa.

A construção da identidade estudantil no ensino de Literatura é um processo que exige mediação pedagógica cuidadosa, marcada pela escuta, pelo reconhecimento da diversidade e pela valorização das experiências de vida dos alunos. O texto literário, quando trabalhado a partir de uma perspectiva de letramento, pode tornar-se um instrumento poderoso de afirmação identitária, especialmente para estudantes cujas histórias de vida e contextos culturais raramente encontram espaço nos currículos tradicionais.

2.3. Morte e Vida Severina Como Texto Formativo: Possibilidades Pedagógicas

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é muito mais do que um objeto de estudo literário: é um texto formativo que carrega em si a força de uma experiência humana singular e ao mesmo tempo universal. Publicado em 1955, o poema dramático narra a jornada do retirante Severino pelo sertão pernambucano, construindo, com precisão lírica e rigor formal, um retrato devastador e humaníssimo das condições de vida do povo nordestino. Essa dimensão formativa da obra foi reconhecida por gerações de professores e pesquisadores, que viram nela um instrumento privilegiado para o desenvolvimento do letramento literário e da consciência crítica dos estudantes.

A dimensão pedagógica do poema tem sido amplamente investigada na literatura especializada. Garcia (2019) propõe que o processo de leitura de Morte e Vida Severina deve ser vivido como uma experiência coletiva, na qual estudantes são convidados a participar ativamente da construção de significados. Para isso, a autora sugere estratégias pedagógicas que integram o corpo, a voz e a escuta como elementos essenciais na apropriação do texto literário, criando condições para que o encontro com o poema seja também um encontro consigo mesmo e com a realidade social.

Ramos (2016) propõe uma abordagem interdisciplinar da obra, estabelecendo um diálogo entre os campos da geografia e da literatura. O autor investiga como o percurso do retirante Severino retrata o espaço geográfico do sertão nordestino e suas transformações sociais, econômicas e ambientais. Ao relacionar elementos da geografia humana com a construção estética do poema, Ramos defende que a obra pode ser utilizada pedagogicamente como instrumento para refletir sobre desigualdades territoriais, identidades culturais e dinâmicas de mobilidade populacional, ampliando a compreensão dos alunos sobre a realidade brasileira.

Costa e Ribeiro (2021) apresentam uma proposta de sequência didática com base no poema, com o objetivo de discutir o conceito de trabalho a partir de uma perspectiva crítica no ensino de Literatura. Os autores demonstram que Morte e Vida Severina, ao apresentar a trajetória de um migrante nordestino em busca de melhores condições de vida, permite discutir o trabalho não apenas como meio de sobrevivência, mas como um elemento estruturante da identidade social. A proposta dialoga com os princípios da pedagogia freireana, valorizando o saber do aluno e seu contexto sociocultural.

Tchalekian (2016) analisa uma experiência histórica de encenação universitária do poema, investigando como a arte pode se tornar um instrumento de formação crítica e expressão social. O trabalho evidencia como jovens que se envolvem ativamente com o poema integram arte e ação coletiva, ampliando sua consciência sobre questões como pobreza, migração e desigualdade. Esse estudo demonstra que o potencial formativo da obra vai além do espaço da sala de aula, constituindo-se como uma experiência de cidadania crítica capaz de mobilizar os sujeitos para a transformação social.

Do ponto de vista das estruturas textuais, D'Onofrio (2003) destaca que a poesia de João Cabral, com seus versos curtos e métrica precisa, cria um ritmo que favorece a identificação dos alunos com o universo representado. A rima e a musicalidade presentes no poema reforçam significados essenciais e criam conexões entre ideias que ampliam a experiência estética dos leitores. Essa dimensão sonora e rítmica da obra torna-a especialmente adequada para atividades de leitura em voz alta, dramatização e outras formas de performance que potencializam o engajamento dos alunos.

Em suma, Morte e Vida Severina apresenta um conjunto de possibilidades pedagógicas que a tornam um texto privilegiado para o desenvolvimento do letramento literário e a construção da identidade estudantil. Sua força estética, seu comprometimento social e seu apelo identitário fazem da obra um convite ao reconhecimento, ao diálogo e à transformação, valores que devem orientar o ensino de Literatura em qualquer contexto educacional comprometido com a formação humana integral.

3. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, fundamentada no levantamento, na seleção e na análise crítica da produção científica nacional e internacional sobre letramento literário, identidade cultural e ensino de literatura, com enfoque especial nas investigações que abordam o poema Morte e Vida Severina como objeto pedagógico. Conforme Gil (2008), a pesquisa bibliográfica é elaborada com base em material já publicado, constituindo um procedimento metodológico adequado para investigações que visam mapear o estado do conhecimento sobre determinado objeto de estudo e identificar tendências, lacunas e contribuições relevantes.

O levantamento bibliográfico foi realizado por meio de consulta em bases de dados científicas nacionais e internacionais, incluindo a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), a plataforma SciELO, o banco de periódicos da CAPES e o Google Acadêmico. Foram utilizados como descritores de busca os termos letramento literário, identidade estudantil, ensino de literatura, Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto e identidade cultural, de forma isolada e em combinação, com operadores booleanos AND e OR, para ampliar a abrangência da busca e garantir a recuperação dos estudos mais relevantes sobre o tema.

A seleção das fontes foi orientada por critérios de pertinência temática, qualidade científica e atualidade, priorizando produções publicadas nas últimas duas décadas, com ênfase especial para os estudos mais recentes, datados a partir de 2015. Foram consultadas teses de doutorado, dissertações de mestrado, artigos publicados em periódicos científicos da área de Letras e Educação, livros de referência teórica e documentos oficiais, como a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018).

A análise do material selecionado seguiu os princípios da análise de conteúdo, conforme Bardin (1977), que orienta a organização das informações em categorias temáticas a partir de uma leitura sistemática e criteriosa dos textos. As categorias de análise foram definidas em função dos objetivos da investigação e dos conceitos estruturantes do referencial teórico adotado: letramento literário e práticas docentes; identidade estudantil e reconhecimento na obra; impacto das práticas dialógicas; concepções de cultura e literatura; e construção do pertencimento e da cidadania.

A pesquisa bibliográfica, enquanto procedimento metodológico, possibilita uma visão ampla e aprofundada sobre o tema investigado, permitindo ao pesquisador dialogar com as contribuições mais significativas da área, sem as limitações de escopo impostas por uma pesquisa de campo. Conforme Marconi e Lakatos (2001), o levantamento bibliográfico permite ao pesquisador o reforço paralelo na análise de suas investigações, ao colocá-lo em contato direto com o que foi escrito sobre determinado assunto, servindo como base sólida para a construção do conhecimento científico.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

A análise bibliográfica realizada permitiu identificar cinco dimensões analíticas centrais relacionadas ao letramento literário e à construção da identidade estudantil a partir do trabalho com Morte e Vida Severina: o letramento literário nas práticas docentes; a identidade estudantil e o reconhecimento na obra; o impacto das práticas dialógicas; as concepções de cultura e literatura; e a construção do sentido de pertencimento e cidadania.

Em relação ao letramento literário nas práticas docentes, a produção científica revisada evidencia que professores com concepção ampla de letramento literário, próxima às proposições de Cosson (2014; 2015) e Soares (2002), desenvolvem práticas mais ricas de mediação da leitura, criando condições para que os alunos estabeleçam conexões entre o texto e suas próprias experiências de vida. Por outro lado, a literatura também aponta que abordagens de caráter mais tecnicista, restritas à análise formal e histórica, tendem a limitar o potencial formativo da obra e o engajamento identitário dos estudantes, reduzindo Morte e Vida Severina a um objeto de estudo destituído de sua potência transformadora.

No que se refere à identidade estudantil e ao reconhecimento na obra, os estudos analisados revelam que o poema é identificado como catalisador de processos de identificação e pertencimento entre os leitores. De acordo com Brandão (2021), a obra apresenta o nordestino como símbolo de uma identidade coletiva historicamente silenciada, que ganha centralidade por meio da linguagem poética. Lima (2021) e Santos (2020) corroboram essa análise ao demonstrar que a leitura de Morte e Vida Severina promove, em diferentes graus, um processo de identificação que vai além do reconhecimento regional, tocando elementos universais como a busca por dignidade e a resistência diante das adversidades.

A análise do impacto das práticas dialógicas revela que as abordagens pedagógicas que combinam leitura coletiva, dramatização e produção escrita geram maior engajamento reflexivo dos alunos, que constroem vínculos mais profundos com a obra e com sua própria identidade cultural. Esse resultado, evidenciado nos estudos de Lima (2021) e Garcia (2019), confirma que a leitura literária dialógica, fundamentada nos pressupostos bakhtinianos, pode desencadear processos de autoconhecimento, pertencimento e transformação cultural no espaço escolar.

A seguir, apresenta-se a síntese das dimensões analisadas e dos principais achados da revisão bibliográfica:

Tabela 1 – Dimensões analisadas e principais achados da revisão bibliográfica

Dimensão Analisada

Principais Achados da Literatura

Referencial Teórico

Letramento literário e práticas docentes

Professores com concepção ampla de letramento literário desenvolvem práticas mais ricas de mediação; abordagens tecnicistas limitam o potencial formativo da obra e o engajamento identitário dos alunos

Cosson (2014; 2015); Garcia e Pereira (2024)

Identidade estudantil e reconhecimento na obra

A literatura aponta forte identificação de estudantes com o personagem Severino; leitores de diferentes origens reconhecem elementos universais de resistência, dignidade e pertencimento

Hall (1996); Dubar (2005)

Impacto das práticas dialógicas

Atividades de leitura coletiva, dramatização e produção escrita geram maior engajamento reflexivo; alunos constroem vínculos mais profundos com a obra e com sua própria identidade cultural

Lima (2021); Garcia (2019)

Concepções de cultura e literatura

Concepções mais amplas e dinâmicas de cultura favorecem abordagens pedagógicas mais inclusivas; visões reducionistas limitam o potencial identitário e transformador do texto literário

Canclini (2001); Williams (1983)

Construção de pertencimento e cidadania

O ensino de Morte e Vida Severina contribui para o fortalecimento do pertencimento regional e nacional; a obra potencializa a formação cidadã quando articulada à realidade sociocultural dos alunos

Bauman (2005); Candido (2000)

A análise das concepções de cultura e literatura dos professores, tema recorrente na produção científica revisada, evidencia que docentes com visões mais amplas e dinâmicas desses conceitos, alinhadas às perspectivas de Canclini (2001) e Williams (1983), promovem abordagens pedagógicas mais inclusivas e contextualizadas. Nesses contextos, a obra é trabalhada em diálogo com a realidade social e cultural dos alunos, ampliando o potencial identitário do texto. Por outro lado, concepções mais reducionistas tendem a limitar o trabalho com o poema à dimensão estilística e histórica, não explorando sua potência formativa.

No que se refere à construção do sentido de pertencimento e cidadania, a revisão bibliográfica aponta que o trabalho com Morte e Vida Severina contribui para o fortalecimento do sentido de pertencimento regional e nacional dos alunos, bem como para o desenvolvimento de uma consciência cidadã comprometida com a valorização da diversidade cultural brasileira. Bauman (2005) e Candido (2000) fundamentam essa perspectiva ao demonstrar que a identidade é um processo dinâmico, constantemente reconfigurado nas interações culturais, e que a literatura pode oferecer pontos de ancoragem simbólica essenciais para a constituição de uma identidade mais consciente, valorizada e politicamente ativa.

Em síntese, os resultados da revisão bibliográfica confirmam que o letramento literário desenvolvido a partir de Morte e Vida Severina tem potencial de transformar a experiência escolar dos alunos, tornando o ensino de Literatura um espaço genuíno de formação humana, reconhecimento cultural e construção de cidadania. Para que esse potencial se realize plenamente, é necessário que as práticas pedagógicas estejam orientadas por uma concepção de literatura como prática social, que valorize a subjetividade dos alunos e promova o diálogo entre saberes literários e saberes de vida.

5. CONCLUSÃO

Esta investigação analisou, por meio de uma revisão bibliográfica sistemática, a relação entre o letramento literário e a construção da identidade estudantil a partir do trabalho com o poema Morte e Vida Severina no ensino de Literatura. Os resultados obtidos confirmam que o letramento literário, quando desenvolvido a partir de práticas dialógicas e contextualizadas, potencializa a construção da identidade estudantil ao criar espaços de autorreconhecimento, pertencimento e crítica social.

A revisão bibliográfica demonstrou que as concepções de letramento literário adotadas pelos professores influenciam decisivamente a forma como o trabalho com o poema se desenvolve e os impactos que ele produz sobre a identidade dos alunos. Professores com concepções mais amplas de cultura e literatura, que reconhecem o texto literário como prática social e não apenas como objeto de análise formal, são capazes de promover experiências pedagógicas mais ricas e transformadoras, nas quais os alunos constroem vínculos mais profundos com a obra e desenvolvem uma compreensão mais crítica de sua própria realidade.

Os resultados evidenciam, ainda, que Morte e Vida Severina possui um potencial formativo extraordinário que vai muito além de seu valor estético e histórico. A obra toca questões humanas fundamentais, como a busca por dignidade, a resistência diante da exclusão e a esperança como força de vida, que ressoam com as experiências de alunos de diferentes origens e contextos socioculturais. Esse potencial, entretanto, só se realiza plenamente quando mediado por práticas pedagógicas que valorizam a subjetividade dos estudantes e criam condições para que o encontro com o texto seja também um encontro consigo mesmo.

Conclui-se, portanto, que o letramento literário constitui uma prática formativa indispensável para a construção da identidade estudantil no contexto do ensino médio brasileiro. O trabalho com obras como Morte e Vida Severina, orientado por uma concepção dialógica e humanizada da leitura, pode transformar a sala de aula de Literatura em um espaço de democracia cultural, afirmação identitária e formação cidadã. Esse é o desafio e, ao mesmo tempo, o maior potencial do ensino de Literatura na escola contemporânea.

Espera-se que esta investigação contribua para o aprimoramento das práticas de letramento literário no ensino médio, oferecendo subsídios teóricos para professores e gestores educacionais comprometidos com uma educação que reconheça e valorize a diversidade cultural dos sujeitos escolares. Estudos de campo complementares são necessários para ampliar a compreensão dos processos de construção identitária no ensino de Literatura em contextos de intensa diversidade social e cultural como o brasileiro.

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1 Doutorando em Ciências da Educação. Universidade Autônoma de Assunção. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail