O AVANÇO DOS DIREITOS FEMININOS NA OBRA BISA BIA, BISA BEL, DE ANA MARIA MACHADO

THE ADVANCEMENT OF WOMEN'S RIGHTS IN THE WORK BISA BIA, BISA BEL, BY ANA MARIA MACHADO

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789105178

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo analisar a representação das transformações relacionadas aos direitos e à condição das mulheres na obra Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado. A narrativa apresenta Isabel, uma menina que, por meio de um diálogo imaginário com sua bisavó Bisa Bia e com sua futura bisneta, estabelece uma relação simbólica entre passado, presente e futuro. A partir dessa estrutura narrativa, a obra possibilita reflexões sobre identidade, memória, relações familiares, autonomia feminina e transformações sociais. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza bibliográfica, fundamentada na leitura da obra literária e em estudos que discutem a literatura infantil, a memória, a identidade e a condição feminina. A análise evidencia que as diferentes personagens femininas representam mudanças nos modos de compreender o papel da mulher na sociedade. Enquanto Bisa Bia está relacionada a valores e comportamentos tradicionalmente atribuídos às mulheres de gerações anteriores, Isabel representa um momento de transição e construção da autonomia, e sua futura descendente simboliza possibilidades de transformação. Dessa forma, a obra de Ana Maria Machado contribui para a reflexão sobre as conquistas femininas e sobre a importância da literatura infantil na formação de leitores críticos e conscientes das transformações sociais.
Palavras-chave: Literatura infantil; Direitos das mulheres; Feminismo; Memória; Identidade.

ABSTRACT
This article aims to analyze the representation of transformations regarding women's rights and status in the work *Bisa Bia, Bisa Bel* by Ana Maria Machado. The narrative introduces Isabel, a girl who establishes a symbolic connection between past, present, and future through an imaginary dialogue with her great-grandmother, Bisa Bia, and her future great-granddaughter. Based on this narrative structure, the work fosters reflection on identity, memory, family relationships, female autonomy, and social change. The research is qualitative and bibliographic in nature, grounded in a reading of the literary work and in studies discussing children's literature, memory, identity, and the female condition. The analysis reveals that the various female characters represent shifts in how women's roles in society are understood. While Bisa Bia embodies values ​​and behaviors traditionally associated with women of earlier generations, Isabel represents a period of transition and the forging of autonomy, and her future descendant symbolizes possibilities for transformation. Thus, Ana Maria Machado’s work contributes to reflections on women's achievements and the importance of children's literature in shaping critical readers who are aware of social transformations.
Keywords: Children's literature; Women's rights; Feminism; Memory; Identity.

INTRODUÇÃO

A literatura infantil desempenha um importante papel na formação das crianças, não apenas por proporcionar experiências de leitura e imaginação, mas também por possibilitar reflexões sobre questões sociais, culturais e históricas. As obras destinadas ao público infantil podem apresentar diferentes formas de compreender a sociedade, permitindo que os leitores tenham contato com temas relacionados à identidade, às relações familiares, às diferenças entre gerações e às transformações sociais.

Nesse contexto, destaca-se a obra Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado, publicada em 1981. A narrativa apresenta a trajetória de Isabel, uma menina que encontra uma fotografia de sua bisavó Beatriz, chamada de Bisa Bia. A partir desse encontro com a memória familiar, estabelece-se um diálogo imaginário entre diferentes gerações femininas.

A obra apresenta uma relação entre passado, presente e futuro. Bisa Bia representa uma geração marcada por valores e comportamentos tradicionais em relação à mulher; Isabel vivencia os conflitos e transformações de seu próprio tempo; e a personagem associada ao futuro representa novas possibilidades para a condição feminina. Dessa maneira, a narrativa permite observar como os papéis atribuídos às mulheres se modificam ao longo das gerações.

O objetivo deste artigo é analisar de que maneira Bisa Bia, Bisa Bel representa as transformações relacionadas à condição feminina e aos direitos das mulheres, considerando especialmente as relações entre as personagens femininas, a memória e a construção da identidade.

A relevância desta pesquisa está na possibilidade de compreender como a literatura infantil pode contribuir para discussões relacionadas à igualdade de gênero e à formação de sujeitos capazes de refletir criticamente sobre os valores presentes na sociedade.

METODOLOGIA

A pesquisa desenvolvida neste artigo possui abordagem qualitativa e caráter bibliográfico. O estudo foi realizado a partir da leitura e análise da obra Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado, articulada à consulta de estudos acadêmicos relacionados à literatura infantil, à memória, à identidade e às transformações sociais relacionadas à condição feminina.

A análise concentra-se nas personagens femininas e nas relações estabelecidas entre passado, presente e futuro. Também são considerados estudos utilizados como referência para compreender a representação da mulher e a importância da memória na construção da identidade.

Dessa forma, busca-se estabelecer uma interpretação da obra a partir de seus elementos literários e das discussões apresentadas pela bibliografia utilizada, compreendendo a literatura infantil como espaço de construção de sentidos e reflexão social.

AS TRANSFORMAÇÕES DOS DIREITOS DAS MULHERES

Nas últimas décadas, o movimento feminista contribuiu para ampliar os debates relacionados à igualdade de gênero e aos direitos das mulheres. A partir da década de 1970, essas discussões ganharam maior visibilidade social, política e acadêmica, questionando desigualdades que durante muito tempo foram consideradas naturais.

A compreensão de que os papéis atribuídos às mulheres são construídos social e culturalmente contribuiu para questionar modelos tradicionais de comportamento. Simone de Beauvoir, por exemplo, destaca a importância dos condicionamentos históricos e culturais na construção da condição feminina.

No campo dos direitos, diferentes transformações ocorreram ao longo das últimas décadas. A ampliação do acesso das mulheres à educação, ao mercado de trabalho e à participação social representa parte desse processo. Entretanto, a existência de desigualdades salariais, violência de gênero e dificuldades de acesso a determinados espaços de poder demonstra que a igualdade ainda constitui um desafio.

Biroli (2018) discute as desigualdades relacionadas à divisão sexual do trabalho e à participação das mulheres na sociedade, contribuindo para compreender que as relações entre homens e mulheres também estão associadas às estruturas sociais.

Outro aspecto importante refere-se à autonomia feminina. O direito de participar das decisões relacionadas à própria vida constitui uma dimensão fundamental da igualdade. Nesse sentido, as discussões feministas ampliaram a compreensão sobre liberdade, autonomia e participação social das mulheres.

A partir das décadas de 1990 e 2000, os estudos feministas também passaram a considerar de maneira mais ampla a relação entre gênero, raça, classe social e outras formas de desigualdade. No Brasil, essas discussões contribuíram para o fortalecimento de políticas públicas e para o enfrentamento de diferentes formas de violência contra as mulheres.

Assim, embora importantes conquistas tenham sido alcançadas, a luta pela igualdade de gênero permanece necessária. É nesse processo histórico de mudanças que a literatura também pode desempenhar um papel relevante, apresentando personagens femininas que questionam modelos tradicionais e representam novas possibilidades de existência.

BISA BIA, BISA BEL: PASSADO, PRESENTE E FUTURO

A narrativa de Bisa Bia, Bisa Bel começa quando Isabel encontra uma fotografia antiga de sua bisavó. A imagem desperta sua curiosidade e estabelece uma ligação entre a menina e uma geração anterior de sua família.

A partir desse momento, Bisa Bia passa a fazer parte da imaginação de Isabel. A menina começa a ouvir a voz da bisavó e a confrontar seus pensamentos com os valores que aprendeu em seu próprio tempo.

Bisa Bia representa uma geração na qual eram comuns expectativas relacionadas ao comportamento feminino, como a necessidade de ser obediente, delicada, recatada e responsável pelas atividades domésticas. Esses valores não são apresentados apenas como características individuais da personagem, mas como elementos relacionados ao contexto social em que ela viveu.

Isabel, por sua vez, representa uma geração que possui maiores possibilidades de escolha. Ela questiona algumas das orientações recebidas da bisavó e procura construir sua própria identidade. Dessa forma, a personagem vivencia um conflito entre aquilo que recebeu de sua família e aquilo que deseja construir para sua própria vida.

A presença da personagem associada ao futuro amplia essa discussão. A futura descendente de Isabel apresenta uma perspectiva diferente sobre os papéis femininos, demonstrando que as transformações sociais não terminam em uma única geração.

A relação entre essas personagens permite compreender que a construção da identidade feminina ocorre em meio a diferentes experiências históricas. O passado influencia o presente, mas não determina completamente o futuro.

MEMÓRIA E IDENTIDADE FEMININA

A memória constitui um dos elementos centrais de Bisa Bia, Bisa Bel. A fotografia encontrada por Isabel funciona como uma ligação entre diferentes gerações e permite que a menina entre em contato com aspectos da história familiar.

De acordo com os estudos analisados, a memória não possui apenas a função de preservar acontecimentos passados. Ela também participa da construção da identidade. Ao conhecer a história de sua bisavó, Isabel passa a compreender melhor suas próprias origens e a refletir sobre quem deseja ser.

Nesse sentido, a memória estabelece uma relação entre passado, presente e futuro. Isabel reconhece a influência de sua família, mas também compreende que possui liberdade para fazer escolhas diferentes.

Essa perspectiva pode ser relacionada à condição feminina. As conquistas das mulheres não surgiram de forma isolada ou repentina. Elas resultam de processos históricos construídos por diferentes gerações de mulheres que buscaram acesso à educação, ao trabalho, à participação social e à autonomia.

A ideia de uma “trança”, apresentada nos estudos sobre a obra, contribui para essa compreensão. Os diferentes fios podem representar as experiências de mulheres de diferentes gerações. Quando esses fios se unem, formam uma trajetória coletiva marcada por mudanças, conflitos, conquistas e possibilidades.

Assim, a memória feminina apresentada na obra não significa permanecer presa ao passado. Pelo contrário, conhecer o passado permite compreender as transformações ocorridas e pensar criticamente sobre o futuro.

A CONTRIBUIÇÃO DE ANA MARIA MACHADO PARA A LITERATURA INFANTIL

Ana Maria Machado possui importante trajetória na literatura brasileira. Sua produção literária apresenta obras destinadas a diferentes públicos e aborda temas relacionados à identidade, diversidade, liberdade e relações sociais.

Em Bisa Bia, Bisa Bel, a autora utiliza uma linguagem acessível para apresentar questões complexas relacionadas ao crescimento, à identidade e às relações entre gerações. A narrativa permite que crianças e jovens tenham contato com diferentes perspectivas sobre a condição feminina.

A escolha de três gerações femininas é especialmente significativa. Bisa Bia, Isabel e sua descendente representam diferentes momentos históricos e permitem observar mudanças nos comportamentos e nas expectativas relacionadas às mulheres.

A literatura infantil, nesse sentido, pode contribuir para questionar estereótipos. Ao apresentar uma protagonista que pensa, questiona e participa ativamente da construção de sua identidade, a obra oferece uma representação feminina que ultrapassa os papéis tradicionais.

A literatura também possibilita que os leitores compreendam que os costumes não são imutáveis. As sociedades se transformam e, com elas, também podem mudar as formas de compreender a infância, a família, a educação e os papéis atribuídos às mulheres.

Por isso, Bisa Bia, Bisa Bel apresenta relevância não apenas literária, mas também educativa. A obra pode ser utilizada como instrumento para promover discussões sobre memória, identidade, relações familiares, igualdade e transformações sociais.

ANÁLISE DA OBRA A PARTIR DOS ESTUDOS CONSULTADOS

Os estudos utilizados nesta pesquisa apresentam diferentes perspectivas sobre Bisa Bia, Bisa Bel, mas convergem ao reconhecer a importância das relações entre memória, identidade e gerações.

O estudo de Maria Amélia destaca a ideia da “trança” como representação das diferentes vozes femininas presentes na narrativa. Essa perspectiva evidencia que as experiências das mulheres não devem ser analisadas de maneira isolada, pois estão relacionadas às histórias familiares e às transformações da sociedade.

Já o estudo de Poliana Bernabé Leonardeli, Eliandra Silva de Souza e Manuella Ferreira da Fonseca enfatiza a contribuição de Ana Maria Machado para a literatura infantil e a possibilidade de compreender a obra a partir das transformações do papel da mulher na sociedade.

A pesquisa de Alice Gomes Xavier, por sua vez, destaca a importância da memória na construção da identidade. A fotografia de Bisa Bia funciona como elemento desencadeador de uma relação entre passado, presente e futuro, permitindo que Isabel reflita sobre sua própria trajetória.

A aproximação entre esses estudos permite compreender que a obra não apresenta apenas uma relação familiar entre bisavó, menina e bisneta. Ela constrói uma reflexão sobre as mudanças sociais e sobre a maneira como diferentes gerações femininas participam da construção de suas próprias identidades.

A partir dessas perspectivas, percebe-se que a obra de Ana Maria Machado possibilita uma leitura relacionada à evolução da condição feminina. As diferenças entre Bisa Bia, Isabel e a personagem do futuro demonstram que os valores sociais podem ser transformados e que cada geração participa desse processo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise de Bisa Bia, Bisa Bel demonstra que a obra de Ana Maria Machado ultrapassa uma narrativa voltada exclusivamente ao entretenimento infantil. Por meio da relação entre diferentes gerações femininas, a autora constrói uma reflexão sobre memória, identidade, liberdade e transformações sociais.

Bisa Bia representa valores associados a uma geração em que as possibilidades de escolha das mulheres eram mais limitadas. Isabel representa uma geração marcada pelo questionamento desses valores e pela busca de maior autonomia. A personagem relacionada ao futuro amplia essa perspectiva ao apresentar novas possibilidades para as gerações seguintes.

A obra demonstra, portanto, que as transformações relacionadas à condição feminina são construídas historicamente. As conquistas alcançadas pelas mulheres resultam de processos de mudança que envolvem diferentes gerações.

A memória possui papel fundamental nesse processo, pois permite que Isabel conheça suas raízes sem precisar reproduzir integralmente os valores do passado. A personagem aprende com sua história familiar, mas também reconhece seu direito de construir sua própria trajetória.

Dessa maneira, Bisa Bia, Bisa Bel constitui uma obra relevante para a literatura infantil brasileira e para o trabalho educativo. Sua leitura pode favorecer discussões sobre identidade, relações entre gerações, igualdade de gênero e transformação social.

Conclui-se que Ana Maria Machado contribui para ampliar a representação das personagens femininas na literatura infantil ao apresentar uma protagonista que participa ativamente da construção de sua identidade. A obra demonstra que conhecer o passado pode contribuir para compreender o presente e construir novas possibilidades para o futuro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BIROLI, Flávia. Gênero e desigualdades: os limites da democracia no Brasil.

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MACHADO, Ana Maria. Bisa Bia, Bisa Bel. São Paulo: Salamandra.

XAVIER, Alice Gomes. A memória em Bisa Bia, Bisa Bel de Ana Maria Machado.