O ATO DE LER: CULTURA, BIBLIOTECAS E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

THE ACT OF READING: CULTURE, LIBRARIES, AND SOCIAL TRANSFORMATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779068278

RESUMO
A leitura constitui uma prática social indispensável para a formação crítica, cultural e cidadã dos indivíduos. O estudo analisou o ato de ler em sua dimensão histórica, cultural e educacional, destacando o papel das bibliotecas na formação de leitores e na democratização do acesso ao conhecimento. Desenvolveu-se uma revisão bibliográfica com base em livros, artigos científicos, dissertações e teses selecionados conforme critérios de relevância e atualidade, possibilitando uma análise crítica das concepções sobre leitura, alfabetização e práticas pedagógicas. Os resultados evidenciaram que o ensino da leitura no Brasil ainda apresenta contradições históricas relacionadas aos métodos de alfabetização centrados na memorização e na oralização, o que pode limitar a compreensão crítica dos textos. Observou-se também que as bibliotecas exercem função essencial na disseminação da cultura, no incentivo à leitura e na ampliação do repertório cultural dos indivíduos, especialmente quando associadas à mediação de profissionais qualificados e a práticas educativas voltadas à autonomia e ao pensamento crítico. Conclui-se que o fortalecimento das bibliotecas e a valorização da leitura como prática cultural são fundamentais para o desenvolvimento humano, educacional e social, contribuindo para uma sociedade mais democrática, inclusiva e consciente.
Palavras-chave: leitura; bibliotecas; cultura; alfabetização; formação de leitores.

ABSTRACT
Reading is an indispensable social practice for the critical, cultural, and civic development of individuals. The study analyzed the act of reading in its historical, cultural, and educational dimensions, highlighting the role of libraries in the formation of readers and in the democratization of access to knowledge. A literature review was conducted based on books, scientific articles, dissertations, and theses selected according to criteria of relevance and timeliness, enabling a critical analysis of conceptions regarding reading, literacy, and pedagogical practices. The results showed that reading instruction in Brazil still exhibits historical contradictions related to literacy methods centered on memorization and oralization, which can limit critical comprehension of texts. It was also noted that libraries play an essential role in disseminating culture, encouraging reading, and broadening individuals’ cultural horizons, especially when supported by qualified professionals and educational practices focused on autonomy and critical thinking. It is concluded that strengthening libraries and valuing reading as a cultural practice are fundamental to human, educational, and social development, contributing to a more democratic, inclusive, and conscious society.
Keywords: reading; libraries; culture; literacy; reader development.

1. INTRODUÇÃO

Ler e escrever são habilidades desenvolvidas dentro e fora do ambiente escolar, que se caracterizam como potentes ferramentas para exercer cidadania, bem como gozar de seus direitos e deveres, tais como: aprender, laborar e ensinar. No entanto, no Brasil, infelizmente, a prática da educação bancária, que coloca o aluno como um receptor de conteúdos e o professor como único detentor do conhecimento, é muito presente em nossa sociedade (Freire, 2011)

Nesse cenário, na Academia, é vivenciada de forma teórica e prática a necessidade de estimular educandos a se tornarem sujeitos questionadores, visto que no Brasil enfrenta-se muitas dificuldades nesse processo, como o descaso na educação pública pelos governantes e a pobreza da população, que interfere na qualidade do ensino ofertado no país (Arroyo, 2000).

As bibliotecas devem ser um local de leitura significativa, uma vez que são mais do que um depósito de livros, são, na verdade, um lugar de aprendizagens distintas, que propicia conhecimentos e alimenta conexões entre saberes e ideias através da leitura. Pela leitura é possível garantir os direitos presentes no Estatuto da Criança e do Adolescente, tais como: educação, lazer, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária, para um bom desenvolvimento em sociedade (Rizzi, 2016).

A relevância desse trabalho volta-se às minorias, para que desfrutem da possibilidade de ser cada vez mais autônomas, e que percebam que a linguagem (oral e escrita) é inerente a vida, tanto que foi necessário criar uma biblioteca em uma praia, ou seja, fora do ambiente escolar, como reflexo da importância da leitura na vida das pessoas. Nesse sentido, esse trabalho teve como objetivo analisar o ato de ler como prática cultural e social, destacando o papel das bibliotecas na formação de leitores e na democratização do acesso ao conhecimento.

2. REFERÊNCIAL TEÓRICO

2.1. A Leitura Como Prática Cultural

O ato de ler é algo fundamental na vida de todos os cidadãos, visto que é um instrumento de poder. No entanto, é possível observar que a apropriação legítima desse ato ainda não é a realidade de muitos brasileiros, mesmo estes tendo frequentado a escola.

Levando em consideração os dados de alfabetização no Brasil, no que se refere especificamente ao estado do Maranhão, este possui um dos maiores índices de analfabetismo do país. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínuas (Pnad), de 2019, a taxa de analfabetos no estado era de 16,6%, deixando-o em primeiro lugar no percentual de pessoas sem instrução.

Não podemos desconsiderar, que tal problemática apresentada é um reflexo da “luta de classes e incoerências presentes na sociedade brasileira. Diante disso, é indubitável que as pessoas compreendam a importância da leitura, visando a transformação de sua realidade”. (SILVA; GALVÃO; FRANCO, 2019). É neste sentido que se faz necessário refletir sobre a responsabilidade da escola no ensino do ato de ler, pois, o modo como esta instituição desenvolve esse ensino tem grande influência para a formação de crianças leitoras, podendo contribuir ou não para que o aluno a conceba como uma prática cultural.

Paulo Freire (1981, p.39) afirma que:

Aprender a ler [...] já não é, pois, memorizar sílabas, palavras ou frases, mas refletir criticamente sobre o próprio processo de ler [...] sobre o profundo significado da linguagem.

Nessa perspectiva, o ato de ler exerce um importante papel social na vida dos alfabetizandos e deve ser concebido como uma ação criadora e política, pois por meio dele o educando passa a compreender criticamente sua realidade, adquirindo liberdade de pensamento, tornando-se mais crítico quanto às ideologias dominantes impostas socialmente (FREIRE, 1981).

Nesse sentido, esta seção tem por objetivo compreender o ato de ler como prática cultural. Para tanto, faz-se necessário, inicialmente, discutir algumas questões acerca das concepções e contradições históricas que permeiam esse ato e, no segundo momento, situar pontos importantes que permitem caracterizar o ato cultural de ler.

2.2. O Ensino do Ato de Ler: Concepções e Contradições Históricas

Conforme a tradição educacional, o ato de ler ocorreria logo após o aprendizado da técnica, cujo processo se dá pela relação grafema/fonema, em que o alfabetizando conseguiria decodificar de forma gradual o registro escrito (ARENA, 2010). Para tanto, o seu contato inicial se voltava para as palavras consideradas simples e, somente ao final do processo, teria acesso aos pseudotextos.

A consequência desse processo vai se materializar em anteriores posteriores

[...] como uma incapacidade, porque no percurso inicial os alunos aprenderam a ler, mas depois não mais sabem. Esse desconcerto revela o empenho apoiado sobre a crença de que a produção de sentido dar-se-ia pela própria pronúncia, porque, por esse raciocínio, quem fala teria, consequentemente, de compreender a sua própria fala (ARENA, 2010, p. 240).

Nesse sentido, observa-se uma contradição essencial no ensino do ato de ler, pois os alunos, no início de sua trajetória escolar, são ensinados a decodificar as palavras e, posteriormente, cobrados em sua capacidade de compreender textos. No entanto, nos questionamos: Como vão adquirir esta capacidade se foram ensinados somente a oralizar/pronunciar? Assim, notamos que existe uma dicotomia em termos do que é ensinado e o que é cobrado aos alunos, ocasionando a incapacidade mencionada por Arena (2010).

Ao negligenciar a importância do ato de ler como prática cultural, o sistema educacional contribui para o “desconcerto”, em que os alunos parecem perder a habilidade de ler. Isso acontece porque não lhes foram atribuídas vivências relacionadas à compreensão os textos.

A dificuldade do educando de se apropriar desse ato não se dá somente pelo processo de aprendizagem abordado nas escolas, mas ao movimento histórico que está relacionado às concepções do ato de ler no decorrer do tempo (ARENA, 2010), por isso, consideramos importante trazer, a partir desse momento, essa discussão.

No século XIX, o cenário político brasileiro da Proclamação da República tinha como pilar a universalização do acesso à educação pelas “massas iletradas”, cujo debate se voltava para as adversidades relacionadas às dificuldades dos alfabetizandos na leitura (MORTATTI, 2006). Nesse cenário, apresenta-se a querela dos métodos de alfabetização, sendo eles os principais: sintético, analítico e o eclético.

O método sintético foi adotado no período de transição entre o Brasil Império e a Proclamação da República, consistia no ensino pautado nos elementos mais simples da língua materna (sons, letras e sílabas) para, posteriormente, se focar na formação de palavras e frases. Esse método ficou conhecido como “marcha sintética”, uma vez que sua prática se inicia da “parte” para o “todo”, ou seja, inicia-se

[...] o ensino da leitura com a apresentação das letras e seus nomes (método da soletração/alfabético), ou de seus sons (método fônico), ou das famílias silábicas (método da silabação), sempre de acordo com certa ordem crescente de dificuldade. Posteriormente, reunidas as letras ou os sons em sílabas, ou conhecidas as famílias silábicas, ensinava-se a ler palavras formadas com essas letras e/ou sons e/ou sílabas e, por fim, ensinavam-se frases isoladas ou agrupadas. Quanto à escrita, esta se restringia à caligrafia e ortografia, e seu ensino, à cópia, ditados e formação de frases, enfatizando-se o desenho correto das letras. (MORTATTI, 2006, p.5).

Nesse panorama, verifica-se que em relação ao período do Brasil-Império houve uma evolução acerca da utilização de métodos sistemáticos, visto que, antes, o modelo adotado eram as “aulas-régeas”, que consistiam em aulas de formas avulsas, sem estarem interligadas, ou seja, não dependiam uma da outra para que o processo de aprendizado ocorresse. Porém, o método de marcha sintética sofreu muitas críticas, devido a imposição da aprendizagem por via da memorização, cujo principal material utilizado era a cartilha.

Conforme Freire (1981, p. 11):

As cartilhas, por boas que sejam, do ponto de vista metodológico ou sociológico, não podem escapar, porém, a uma espécie de 'pecado original', enquanto são o instrumento através do qual se vão 'depositando' as palavras do educador, como também seus textos, nos alfabetizandos. E por limitar-lhes o poder de expressão, de criatividade, são instrumentos domesticadores.

A crítica contundente às cartilhas educacionais está ao descrevê-las como instrumentos nos quais as palavras e textos do educador são "depositados" nos alunos durante o processo de alfabetização, na qual enfatiza-se a natureza limitadora desses materiais. A expressão "pecado original" sugere uma falha inerente que compromete as cartilhas, apontando para sua propensão a domesticar os alfabetizandos, restringindo sua capacidade de expressão e criatividade.

Sendo então necessário repensar abordagens educacionais que promovam a emancipação e a participação ativa dos alunos, contrapondo-se a métodos que os submetam passivamente, um novo olhar para a criança foi sendo consolidado, por meio da influência da pedagogia norte-americana.

Nesse sentido, uma nova metodologia ganha força na alfabetização, o método analítico, que, segundo Mortatti (2006, p.7):

[...] baseava-se em princípios didáticos derivados de uma nova concepção — de caráter biopsicofisiológico — da criança, cuja forma de apreensão do mundo era entendida como sincrética. A despeito das disputas sobre as diferentes formas de processuação do método analítico, o ponto em comum entre seus defensores consistia na necessidade de se adaptar o ensino da leitura a essa nova concepção de criança.

Conforme Frade (2005.), esse método possui três processos distintos: palavração, sentenciação, contos e historietas. No primeiro, as palavras são inicialmente apreendidas globalmente e reconhecidas como um todo, antes de serem decompostas em sílabas, em contrapartida ao método silábico. No segundo processo, a sentença é primeiramente identificada como um todo e compreendida globalmente, para então ser analisada em suas palavras e, por fim, em sílabas. Finalmente, o terceiro compreende que o ponto de partida é o texto, depois analisa-se as palavras, e, posteriormente, as sílabas. Este método foi alvo de duras críticas, uma vez que não conseguiu acabar com as dificuldades de leitura dos alunos.

Por meio da fusão dos métodos sintéticos e analíticos surge no cenário educacional os chamados métodos ecléticos ou contos e historietas, no qual:

parte do reconhecimento global de um texto que é memorizado e “lido” durante um período, para o reconhecimento de sentenças, seguida do reconhecimento de expressões (porções de sentido), de palavras e, finalmente, das sílabas. Aqui, não estamos falando de um processo seqüencial e quase simultâneo entre as fases já descritas. Tomando como foco o sentido, o professor encaminhava o processo utilizando-se, por um período, de textos completos das várias lições seguidas. Somente após esse convívio maior com o texto é que viria uma forma de decomposição, mas com o cuidado de fragmentar o texto em parcelas maiores como primeiro a sentença e depois a palavra. (FRADE, 2007, p. 27).

Nesse contexto, destaca-se a pertinência deste método, uma vez que, nas palavras de Frade (2005), "apresentam algumas características, como a de trabalhar simultaneamente a análise e a síntese ou de trabalhar várias unidades de análise sem se preocupar com um tempo rígido para cada fase", oferecendo ao professor a liberdade de escolher estratégias mais coerentes com a situação pedagógica em questão, apresentando-se como uma alternativa dinâmica em comparação aos métodos mais tradicionais.

A flexibilidade inerente a abordagem dessa metodologia não apenas atende à diversidade de contextos de aprendizagem, mas também amplia o potencial de impacto, proporcionando uma resposta mais eficaz às demandas contemporâneas da educação.

Acerca dos métodos de alfabetização, percebe-se que existem diferentes experiências brasileiras e que cada um se mostra revolucionária à anterior.

Arena (2010. p.), defende que

a tradição histórica predominante do ensino das línguas alfabéticas, e no nosso caso, do português, a ênfase do ensino do ato de ler é colocada sobre a relação grafofônica, como se fosse o essencial a ser dominado, isolado do aspecto semântico, que seria entendido como consequência natural daquela relação, uma vez que a compreensão seria conquistada naturalmente pela verbalização durante o ato de ler.

Ao longo da história, as transformações no ato de ler têm ocorrido, devido a influência do ambiente circundante afetar significativamente a concepção que o aprendiz tem sobre a leitura, bem como sua compreensão (ARENA, 2010). Portanto, é importante reconhecer que o contexto social, cultural e familiar desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do ato de ler.

A disponibilidade de livros, as interações com pessoas mais experientes e o estímulo à leitura em diferentes contextos contribuem para esse processo, possibilitando ainda a compreensão da leitura em seu real significado social e atribuindo sentido aos textos. Nesse panorama, é possível compreender que o meio desempenha um papel crucial no desenvolvimento da leitura, proporcionando trocas de conhecimento, mediação e internalização da leitura como prática cultural, mas apenas se a escola.

Na próxima seção, dedicaremos nossa atenção à análise e contextualização dos elementos fundamentais do ato de ler. Procuraremos situar pontos cruciais que não apenas delineiam, mas também enriquecem a compreensão deste ato como uma expressão cultural significativa.

2.3. O Ato Cultural de Ler

O ato de ler está intimamente ligada ao contexto social, histórico e cultural em que o indivíduo está inserido, por isso faz sentido a afirmação de Vygotski (1991) de que "a leitura e a escrita devem ser algo de que a criança necessite". Fundamentada neste teórico, podemos dizer, ainda, que ler é um instrumento capaz de contribuir significativamente para o desenvolvimento da capacidade mental do ser humano. Como diz Giroto (2013) o ato de ler é “uma operação complexa, que exige a percepção de relações entre texto e o contexto do autor e do leitor”.

Nesse sentido, podemos estabelecer que o ato de ler permite ao indivíduo refletir sobre o contexto no qual está inserido e, assim, estimular indagações pertinentes para a sua realidade social, uma vez que, conforme Arena (2010, p. 245):

O dado que alimenta o ato de ler é a ação intencional do leitor de elaborar perguntas, efêmeras e precárias, em busca de respostas também efêmeras e provisórias, desde o início de seu processo de escolarização. Saber ler, entre tantas conceituações, seria aprender a fazer perguntas e a procurar as suas respostas no texto.

É fundamental que o professor esteja plenamente consciente da necessidade de que o ensino do ato de ler seja ensinado de forma a torná-lo necessário às crianças (VYGOTSKI, 1991). Isso pode ocorrer de diferentes maneiras, como por exemplo: possibilitando aos alunos o acesso aos gêneros textuais, sessões de filmes e rodas de conversa sobre obras literárias.

Conforme Arena (2010, p.242):

A importância do meio constituído pela cultura e pelas relações entre seus membros revela a necessidade de, desde o início, colocar em prática atitudes do ato de ler que indiquem para a criança a intenção clara de que ler é a ação de atribuir sentido por meio de sinais gráficos, em situações elaboradas pela cultura humana. Essas atitudes, constituem do entorno, são desenvolvidas nas relações com os gêneros enunciativos porque são as relações culturais que orientam os modos de ler”.

É crucial que as relações estabelecidas no ambiente cultural sejam valorizadas. A interação com professores, colegas, familiares e outros membros da comunidade desempenha um papel significativo no desenvolvimento das competências leitoras. Por meio dessas relações, a criança é exposta a diferentes perspectivas, discussões e reflexões sobre os textos, permitindo-lhe construir significados mais profundos e desenvolver sua própria visão de mundo.

Além disso, Arena (2010, p. 246) define que

A função do professor é a de ensinar, por isso deve oferecer as melhores condições e essas condições exigem que o aluno tenha objetivos para ler, conhecimentos a mobilizar e perguntas a elaborar.

Destaca-se, portanto, que para atingir o propósito de ensinar, é imperativo que o professor crie as melhores condições possíveis. Essas condições, por sua vez, demandam que o aluno esteja munido de objetivos claros para a leitura, possua conhecimentos a serem mobilizados e esteja apto a formular perguntas pertinentes. Nesse contexto, a responsabilidade do educador vai além da simples transmissão de informações, abrangendo a capacitação do aluno para uma abordagem ativa e questionadora do ato de ler, sendo fundamental que desde cedo sejam proporcionadas experiências enriquecedoras de leitura, com interações significativas e diversidade de gêneros textuais.

Nesse panorama, a criança compreenderá que este ato é uma atividade socialmente construída, sendo capaz de atribuir sentido e promover a participação ativa na cultura em que ela está inserida. Portanto, a importância do meio cultural e das relações no processo de leitura é fundamental para orientar as práticas pedagógicas (ARENA, 2010).

Nesse panorama, destaca-se a necessidade de formar alunos capazes não apenas de ler obras literárias, mas também de considerar a cultura humana presente em sua realidade, para que possam se tornar agentes ativos e participantes na transformação de seu ambiente social.

3. METODOLOGIA

Este trabalho de conclusão de curso adotou a metodologia de revisão bibliográfica para a realização da pesquisa. A revisão bibliográfica é uma abordagem amplamente utilizada em pesquisas acadêmicas, permitindo a coleta e análise de informações relevantes existentes na literatura especializada sobre o tema proposto.

Para a realização da revisão bibliográfica, foram selecionados artigos científicos, dissertações e teses relacionadas ao tema proposto dos últimos. A escolha dessas fontes de informação baseou-se em critérios de relevância, confiabilidade e atualidade. O acesso às fontes de informação foi feito por meio de bases de dados acadêmicas, bibliotecas digitais e outros recursos disponíveis, garantindo uma ampla cobertura dos estudos relevantes.

A leitura crítica foi adotada como parte essencial da metodologia de revisão bibliográfica. Ao analisar cada fonte selecionada, foi aplicada uma abordagem crítica, considerando a qualidade do estudo, a validade dos resultados apresentados e a consistência dos argumentos. A leitura crítica permitiu uma avaliação rigorosa da literatura, identificando lacunas de conhecimento, contradições ou pontos de vista diferentes sobre o tema.

Além disso, a análise e síntese dos principais pontos abordados pelos autores foram realizadas como parte do processo de revisão bibliográfica. Por meio dessa análise, foram identificadas as principais ideias, conceitos e conclusões apresentadas pelos diferentes autores, possibilitando uma compreensão aprofundada do estado atual do conhecimento sobre o tema proposto.

A metodologia de revisão bibliográfica adotada neste trabalho de conclusão de curso permitiu reunir informações relevantes, analisar criticamente a literatura existente e sintetizar os principais pontos abordados pelos autores. Essa abordagem contribuiu para embasar teoricamente o estudo e fundamentar as discussões e conclusões apresentadas neste trabalho.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. A Biblioteca Como Disseminação da Cultura

Na seção anterior, discutimos o ato de ler como sendo uma prática cultural, nos distanciando da ideia que define esse ato como sendo meramente mecânico. Nesse sentido, discorremos acerca das concepções e métodos de alfabetização que foram adotados ao longo da história. Dessa forma foi possível elencar algumas contradições que ainda se perpetuam no ensino do ato de ler.

No entanto, é de suma importância destacar que a formação de leitores ultrapassa o espaço da sala de aula. O ato de ler é uma atividade inerentemente social, que ocorre em ambientes educacional formal ou em outros espaços de uma comunidade. Compreender o ato de ler como uma função social implica reconhecer que ela permeia não apenas as instituições, mas também os ambientes cotidianos.

Nesse contexto, é essencial ressaltar que o propósito fundamental desta seção está em reconhecer a função da biblioteca como núcleo de formação de leitores. Almejamos não apenas destacar a importância das bibliotecas como potenciadoras do acesso ao universo literário, mas também ressaltar sua função na promoção da cultura leitora, influenciando de maneira marcante o desenvolvimento intelectual e cultural da comunidade que atende. Por meio desta exploração, visamos oferecer uma compreensão mais profunda do impacto transformador que as bibliotecas têm na formação dos frequentadores.

4.2. A Biblioteca Como Lugar de Formação de Leitores

A Lei nº 12.244, promulgada em 24 de maio de 2010, dispõe sobre a universalização das bibliotecas escolares nas instituições de ensino do país. Ela estabelece que todas as escolas, públicas e privadas, de educação básica (ensino fundamental e médio), devem contar com bibliotecas, com acervo atualizado e adequado ao nível de ensino, proporcionando acesso aos estudantes materiais de leitura e recursos informacionais. A lei tem como objetivo garantir o acesso à informação, incentivar a leitura e promover a formação de leitores desde a infância, contribuindo para a democratização do acesso à cultura e ao conhecimento.

A biblioteca escolar se torna um espaço privilegiado para o enriquecimento intelectual dos estudantes, proporcionando-lhes um ambiente propício para a descoberta, a pesquisa, o desenvolvimento do pensamento crítico e a ampliação de horizontes. Dependendo da forma como os profissionais destes espaços atuam, os estudantes podem ser incentivados a explorarem e aprofundarem seus interesses, ampliando seus repertórios. Dessa forma, a biblioteca como disseminadora da cultura desempenha um papel essencial na formação de cidadãos conscientes, informados e capazes de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.

Além da presença física da biblioteca nas escolas, é crucial ressaltar a importância de sua operacionalização adequada. A correta gestão e organização da biblioteca são elementos essenciais para garantir que ela cumpra plenamente seu papel como disseminadora da cultural.

O papel crucial das bibliotecas na sociedade é ressaltado, segundo Arena (2003), por atender às necessidades que surgem das relações entre as pessoas, fundamentadas no conhecimento que o leitor possui sobre si mesmo, sobre a língua e sobre as operações que estabelecem a conexão entre o texto e o seu significado.

Portanto, as bibliotecas devem ser espaços acolhedores e diversos, proporcionando acesso a um amplo repertório de obras literárias, permitindo que os indivíduos explorem, aprendam e se envolvam em atividades culturais. Essa visão reforça a importância de espaços tanto dentro quanto fora da escola na formação leitora das pessoas.

Nesse sentido, Arena (2003) nos convida ainda a refletir sobre as expressões: “hábitos de leitura, gosto pela leitura, prazer pela leitura”, visto que este o autor argumenta que tais expressões não são criadas ou desenvolvidas, mas impostos muitas vezes pela mercantilização da leitura.

Conforme Arena (2010), o prazer não deve ser considerado como o elemento determinante de um bom leitor, nem deve servir como o principal guia no processo de ensino do ato de ler. Nesse sentido, a perspectiva proposta aponta para a importância de cultivar necessidades que instiguem a formulação de perguntas pelos alunos, as quais demandam respostas.

Assim, essa abordagem, centrada na geração de questionamentos, é fundamental para a formação de um leitor contemporâneo caracterizado por sua flexibilidade e capacidade de abordar múltiplos aspectos da leitura. Dessa maneira, o foco na criação de estímulos questionadores emerge como a corrente fundamental na promoção de uma prática de leitura mais adaptável e enriquecedora nos tempos atuais. (ARENA, 2010).

A biblioteca, ao disponibilizar um vasto acervo, deve permitir que os leitores tenham a liberdade de escolha e a oportunidade de explorar diferentes estilos, gêneros e autores. Esses espaços de diálogo e compartilhamento contribuem para a ampliação das perspectivas e reflexões, fortalecendo o processo de formação de leitores críticos e engajados. Portanto, a biblioteca está intrinsecamente relacionada à ideia de que não se trata de criar hábitos, gostos e prazeres artificiais, mas de oferecer um ambiente que responda às necessidades dos leitores.

Chartier (1999), ao explorar a evolução do livro e da leitura, ressalta a relevância das bibliotecas como instituições que desempenham um papel fundamental na formação de leitores desde cedo. Nesse sentido, os espaços de leitura assumem um papel ativo na disponibilização de obras que refletem a diversidade cultural, permitindo que os leitores entrem em contato com diferentes perspectivas e vivências, tornando-se espaços de encontro com a pluralidade de vozes presentes na literatura.

Outro aspecto relevante é a presença de profissionais qualificados nas bibliotecas, como bibliotecários e mediadores de leitura, que auxiliam os leitores na escolha de obras adequadas, fornecem orientações e promovem o diálogo em torno dos livros. Essa interação e mediação são fundamentais para incentivar a descoberta de novos autores e gêneros. Portanto, as bibliotecas desempenham um papel-chave na promoção da ampliação do repertório literário e no desenvolvimento de habilidades que acompanharão os leitores ao longo de suas vidas.

5. CONCLUSÃO

Após explorar a relação entre o ato de ler, cultura e o papel das bibliotecas, fica evidente que este ato transcende a mera atividade individual, tornando-se um componente fundamental da identidade cultural e do desenvolvimento social. Através do ato de ler, as pessoas se conectam com narrativas, ideias e perspectivas que moldam suas visões de mundo e influenciam suas interações com a sociedade.

Nesse contexto, as bibliotecas assumem um papel crucial como agentes de disseminação da cultura e como locais de formação de leitores. Elas proporcionam acesso a uma vasta gama de materiais, bem como oferecem espaços de encontro e troca de ideias, promovendo um ambiente propício para o aprendizado e o enriquecimento cultural.

Assim, entende-se que investir na promoção do ato de ler e no fortalecimento das bibliotecas é investir no desenvolvimento humano, na educação e na construção de uma sociedade mais inclusiva e democrática. Ao reconhecer o poder transformador do ato de ler e o papel central das bibliotecas, podemos trabalhar em prol de um futuro onde o acesso ao conhecimento e à cultura seja garantido a todos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARENA, Dagoberto Buim. Dilemas didáticos no ensino do ato de ler. CONGRESO LATINO AMERICANO DE COMPRESION LECTORA, 1., 2008, Huancayo, Peru. Anais … Universidad del Centro de Peru, 2008, v. 1. p. 129-136.

ARENA, Dagoberto Buim. O ensino da ação de ler e suas contradições. Ensino em Re-vista, p. 237-247, 2010.

ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. 2000.

BAJARD, Éllie. Nova embalagem, mercadoria antiga. Educação e Pesquisa, São Paulo. v.32, n.3, p. 493-507, set./dez. 2006.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Edições 70. Lisboa: (Obra original publicada em 1977)

BOCCATO, V. R. C. Metodologia da pesquisa bibliográfica na área odontológica e o artigo científico como forma de comunicação. Rev. Odontol. Univ. Cidade São Paulo, São Paulo, v. 18, n. 3, p. 265-274, 2006.

FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva. Métodos de alfabetização, métodos de ensino e conteúdo da alfabetização: perspectivas históricas e desafios atuais. Revista UFSM. Santa Maria. v. 32 - n. 01, p. 21-40, 2007.

FRADE. Isabel Cristina Alves da Silva. Métodos e Didáticas de Alfabetização: História, Características e Modos de fazer de Professores. Ceale/FaE/UFMG, Belo Horizonte, 2005.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. Editora Inovar. 5ª ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1981.

GIROTTO, C. G. G. S. Reflexões sobre a formação do leitor mirim: leitura, literatura infantil e biblioteca escolar. Ensino Em Re-Vista, [S.l], v. 20, n. 2, p. 341-356, jul./dez. 2013. Disponível em: https://goo.gl/BtJxWv. Acesso em: 01 mai. 2022.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Fundamentos metodologia científica. 5.ed. São Paulo: Atlas, 2003.

LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. A" querela dos métodos" de alfabetização no Brasil: contribuições para metodizar o debate. Acolhendo a alfabetização nos países de língua portuguesa, v. 3, n. 5, p. 91-114, 2009.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. História dos métodos de alfabetização no Brasil. Seminário Alfabetização e Letramento em Debate, p. 1-16, 2006.

RIZZI, Iuri Rocio Franco. As cinco leis da biblioteconomia no Brasil. AS CONTRIBUIÇÕES DE RANGANATHAN PARA A BIBLIOTECONOMIA, p. 30, 2016.


1 Mestranda em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação, Campus Cidade Universitária. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestranda em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para Inovação, Campus Cidade Universitária. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Mestrando em Saúde da Família, Campus Cidade Universitária. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail