REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775964725
RESUMO
Este artigo analisa a juventude como uma construção social e simbólica, compreendida a partir da intersecção entre família, sociedade e cultura. Partindo de uma perspectiva sociológica crítica, o estudo busca superar abordagens naturalizantes da juventude, entendendo-a como uma categoria relacional, historicamente situada e atravessada por desigualdades estruturais, transformações culturais e impasses do laço social contemporâneo. O referencial teórico articula as contribuições de Pierre Bourdieu, Zygmunt Bauman e Maria Rita Kehl, estabelecendo um diálogo crítico entre sociologia, teoria social da modernidade e psicanálise. Em Bourdieu, a juventude é analisada como posição no espaço social, marcada pela distribuição desigual dos capitais e pela reprodução das desigualdades educacionais. Bauman contribui ao compreender a juventude como figura paradigmática da modernidade líquida, caracterizada pela instabilidade dos vínculos, pela precarização das instituições e pela diluição dos marcos de passagem à vida adulta. Já Maria Rita Kehl permite interpretar a juventude como sintoma da cultura, evidenciando os efeitos subjetivos do enfraquecimento da transmissão simbólica, da autoridade e dos limites. Metodologicamente, trata-se de um estudo teórico-conceitual, de natureza qualitativa, fundamentado na análise crítica das obras dos autores selecionados. Conclui-se que a juventude não constitui um problema em si, mas expressa contradições estruturais e culturais da sociedade contemporânea, especialmente visíveis no campo da educação, o que exige práticas e políticas educacionais sensíveis às condições sociais e simbólicas que atravessam as experiências juvenis.
Palavras-chave: Juventude. Intersecção. Cultura. Modernidade líquida. Transmissão simbólica.
ABSTRACT
This article analyzes youth as a social and symbolic construction, understood from the intersection between family, society, and culture. Grounded in a critical sociological perspective, the study seeks to overcome naturalized approaches to youth by conceiving it as a relational category, historically situated and shaped by structural inequalities, cultural transformations, and contemporary social bond impasses. The theoretical framework articulates the contributions of Pierre Bourdieu, Zygmunt Bauman, and Maria Rita Kehl, establishing a critical dialogue between sociology, social theory of modernity, and psychoanalysis. In Bourdieu’s work, youth is understood as a position within social space, marked by unequal distributions of capital and by the reproduction of educational inequalities. Bauman contributes by conceptualizing youth as a paradigmatic condition of liquid modernity, characterized by unstable social bonds, institutional precariousness, and the dissolution of traditional rites of passage into adulthood. Maria Rita Kehl, in turn, interprets youth as a symptom of culture, highlighting the subjective effects of the weakening of symbolic transmission, authority, and limits. Methodologically, the article adopts a qualitative, theoretical-conceptual approach based on a critical analysis of the selected authors’ works. The study concludes that youth should not be viewed as a social problem in itself, but rather as an expression of broader structural and cultural contradictions, particularly evident in the field of education, which calls for educational practices and policies attentive to the social and symbolic conditions shaping contemporary youth experiences.
Keywords: Youth. Education. Culture. Liquid modernity. Symbolic transmission.
1. INTRODUÇÃO
A juventude tem ocupado lugar central nos debates educacionais e sociológicos contemporâneos, sendo frequentemente tratada como uma fase natural do desenvolvimento humano, delimitada por critérios etários e associada a características supostamente universais. Tal abordagem, no entanto, tende a desconsiderar os condicionantes sociais, históricos e culturais que produzem as diferentes formas de vivenciar a condição juvenil. No campo da educação, essa naturalização contribui para interpretações simplificadoras das trajetórias escolares, frequentemente atribuindo aos jovens a responsabilidade por fenômenos como evasão, fracasso escolar e desengajamento, sem considerar as estruturas sociais que os atravessam.
Sob uma perspectiva sociológica crítica, a juventude deve ser compreendida não como um dado biológico, mas como uma categoria relacional, produzida no interior das relações sociais e marcada por desigualdades estruturais. Essa compreensão permite situar a experiência juvenil no cruzamento entre condições materiais de existência, processos de socialização e dinâmicas culturais próprias de cada contexto histórico. Assim, a juventude não constitui um grupo homogêneo, mas uma posição social atravessada por classe, gênero, raça e acesso diferencial aos bens simbólicos e educacionais.
Neste artigo, parte-se da hipótese de que a juventude pode ser analisada como um ponto de intersecção entre três instâncias fundamentais da vida social: família, sociedade e cultura. Inspirado em um modelo analítico de inter-relações de conjuntos, propõe-se compreender a juventude como um espaço de condensação de tensões estruturais, transformações culturais e impasses simbólicos que caracterizam a sociedade contemporânea. Essa perspectiva permite deslocar o foco da juventude como “problema social” para compreendê-la como expressão dos conflitos e contradições do próprio tecido social, particularmente visíveis no campo educacional.
Para sustentar essa análise, estabelece-se um diálogo crítico entre Pierre Bourdieu, Zygmunt Bauman e Maria Rita Kehl. Em Bourdieu (1983), a juventude é entendida como uma posição no espaço social, profundamente determinada pela distribuição desigual dos capitais econômico, cultural e simbólico, o que incide diretamente sobre as trajetórias escolares e as possibilidades de mobilidade social. Para ele, a juventude não passaria de uma palavra, uma vez que o que realmente existiria seriam jovens situados em diferentes posições no espaço social, com experiências e expectativas que variariam conforme suas condições objetivas de existência. Bauman (2001) contribui ao analisar a juventude como condição emblemática da modernidade líquida, marcada pela instabilidade, pela precarização dos vínculos e pela exigência permanente de flexibilidade. Já Maria Rita Kehl (2004), a partir da psicanálise, compreende a juventude como um sintoma da cultura, ou seja, como um lugar privilegiado de manifestação do mal-estar social decorrente do enfraquecimento das funções simbólicas, da autoridade e dos processos de transmissão intergeracional. Kehl entende que a juventude se tornou um sintoma da cultura contemporânea, justificando que ela concentra e expressa os impasses referentes ao laço social e à transmissão simbólica entre as gerações.
O objetivo deste artigo é analisar a juventude como intersecção entre estrutura social, transformações culturais e processos subjetivos, compreendendo-a como sintoma da cultura contemporânea no campo da educação. Metodologicamente, trata-se de um estudo teórico-conceitual, de natureza qualitativa, baseado na análise crítica das contribuições dos autores selecionados, buscando articular seus conceitos em um eixo comum de problematização sociológica e educacional.
Ao adotar esse enquadramento, pretende-se contribuir para uma leitura mais complexa da juventude no contexto educacional, capaz de superar explicações individualizantes e oferecer subsídios teóricos para práticas pedagógicas e políticas educacionais que reconheçam os jovens como sujeitos socialmente situados, portadores das tensões e contradições de seu tempo histórico.
2. JUVENTUDE, EDUCAÇÃO E ESTRUTURA SOCIAL: CONTRIBUIÇÕES DE PIERRE BOURDIEU
Para Pierre Bourdieu, a juventude não constitui um grupo social homogêneo nem uma etapa natural da vida, mas uma posição relacional no interior do espaço social, definida pelas condições objetivas de existência e pela distribuição desigual dos capitais econômico, cultural e simbólico. Assim, ser jovem significa ocupar uma posição específica em uma rede de relações estruturadas, nas quais as possibilidades de ação, escolha e projeção de futuro são profundamente condicionadas pelas trajetórias familiares e pelas estruturas sociais mais amplas. Nesse sentido, “O espaço social não é neutro: nele cada agente ocupa uma posição definida pela distribuição desigual de capitais, e é essa posição que condiciona as possibilidades de ação e de percepção do mundo.” (Bourdieu, 1989, p. 21).
No caso da adolescência, especificamente, Charles Klemz (2023, p. 59) destaca que ela é entendida como uma construção social oriunda da Revolução Industrial, a adolescência ganha relevo ao final do século XIX, consolidando-se a partir das políticas de proteção à infância e à maternidade surgidas anteriormente. Trata-se, contudo, de um conceito em constante mutação, atravessado por marcadores como classe, religião, etnia e gênero, e igualmente vulnerável às dinâmicas da sociedade do espetáculo, de forma análoga a outros grupos geracionais.
A partir Marco Antônio Teixeira de Paula et al (2026, p. 10-11), verifica-se que a adolescência contemporânea evidencia-se como uma construção social multifacetada, distanciando-se da antiga concepção do jovem como "adulto em miniatura" para focar em suas subjetividades e crises identitárias. Não se pode falar em uma experiência juvenil universal, mas em múltiplas adolescências, condicionadas por desigualdades socioeconômicas que ditam o acesso ao lazer, à educação e ao trabalho. Nesse cenário, a família atua como núcleo de mediação sob a tensão entre autoridade e diálogo em uma era tecnológica que fragiliza vínculos. Paralelamente, a escola configura-se como espaço de alteridade e cidadania, embora abismos estruturais ainda empurrem jovens vulneráveis ao abandono escolar pela subsistência. Assim, o trabalho manifesta-se de forma ambivalente: como especialização para uns e como interrupção precoce de trajetórias para outros.
No campo educacional, essa compreensão é fundamental, pois permite problematizar a ideia de que os jovens fracassam ou têm sucesso exclusivamente em função de seus esforços individuais. As trajetórias escolares são atravessadas por heranças simbólicas e materiais transmitidas no interior das famílias, bem como pelas expectativas sociais associadas à classe social de origem. Desse modo, a juventude se constitui como um momento privilegiado de visibilização das desigualdades sociais, e não como um intervalo neutro entre infância e vida adulta.
A família ocupa lugar central na teoria bourdieusiana como instância primordial de produção e transmissão do habitus, entendido como um sistema de disposições duráveis e incorporadas que orientam percepções, práticas e expectativas. É no espaço familiar que os jovens internalizam esquemas de avaliação do mundo social, inclusive no que diz respeito à escola, ao trabalho e às possibilidades de futuro. Como observa Bourdieu, “As disposições incorporadas nos agentes, adquiridas por meio da socialização familiar, tendem a reproduzir as estruturas objetivas de dominação social, transformando-se em hábitos que regulam a percepção, a apreciação e a ação no mundo.” (Bourdieu, 1996, p. 82).
Entretanto, nas sociedades contemporâneas, marcadas por rápidas transformações sociais e econômicas, observa-se uma crescente defasagem entre o habitus das gerações parentais e as exigências impostas às gerações mais jovens. Essa defasagem produz uma experiência particular da juventude: ao olhar para seus pais, muitos jovens não os reconhecem mais como modelos eficazes de orientação para o mundo social atual. Os percursos parentais, antes relativamente estáveis, aparecem como insuficientes ou inadequados frente às exigências de flexibilidade, mobilidade e adaptação que caracterizam o presente.
Nesse sentido, o jovem passa a se perceber como um “espelho deformado” da geração anterior: reconhece-se como herdeiro de determinadas disposições, mas, ao mesmo tempo, identifica nelas limites e fracassos que não deseja reproduzir. Tal percepção não deve ser interpretada como simples rejeição moral dos pais, mas como efeito das transformações estruturais que desestabilizam os mecanismos tradicionais de transmissão intergeracional.
Embora Bourdieu não trabalhe diretamente com categorias psicanalíticas, sua análise da crise dos mecanismos de reprodução simbólica permite dialogar com a noção de enfraquecimento da autoridade. Quando os capitais transmitidos pela família perdem valor no campo social - especialmente no campo educacional e no mercado de trabalho —, a autoridade simbólica dos pais tende a se fragilizar.
Para muitos jovens, os pais deixam de ocupar o lugar de referência segura para a construção de projetos de vida. Isso produz uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que os jovens permanecem dependentes material e afetivamente de suas famílias por mais tempo, eles já não reconhecem nelas um modelo legítimo de sucesso ou realização social. Essa tensão impacta diretamente o processo de socialização escolar, gerando sentimentos de desorientação, insegurança e desconfiança em relação às promessas educacionais.
No contexto educacional, essa crise da autoridade parental frequentemente é deslocada para a escola, que passa a ser demandada não apenas como espaço de transmissão de conhecimentos, mas também como instância de regulação simbólica e orientação existencial - função para a qual nem sempre está preparada.
É possível interpretar, a partir desse quadro sociológico, o que alguns autores contemporâneos denominam alongamento do complexo de Édipo, não como um problema psíquico individual, mas como um efeito social das transformações nas relações entre gerações. Se, nas formações sociais tradicionais, o conflito edípico era atravessado por figuras de autoridade relativamente estáveis, hoje ele se prolonga em um cenário marcado pela fragilização dessas referências.
O jovem contemporâneo encontra dificuldades em realizar simbolicamente a separação em relação aos pais, não porque estes sejam excessivamente autoritários, mas porque frequentemente se mostram desprovidos de legitimidade simbólica para ocupar o lugar de representantes da lei, do limite e da transmissão. O resultado é uma ambivalência geracional: os pais são simultaneamente criticados como “maus exemplos” e mantidos como suporte material e afetivo prolongado.
Essa configuração contribui para a produção de uma juventude marcada pela suspensão da passagem à vida adulta, fenômeno que se manifesta tanto no prolongamento da escolarização quanto na dificuldade de inserção estável no mundo do trabalho. Assim, o alongamento do Édipo pode ser compreendido como expressão subjetiva de uma crise estrutural das formas tradicionais de reprodução social.
No campo da educação, esses processos produzem efeitos significativos. A escola passa a lidar com jovens que carregam expectativas contraditórias: por um lado, são pressionados a “ter sucesso” em um mundo altamente competitivo; por outro, carecem de modelos simbólicos consistentes que lhes ofereçam orientação e sentido. Essa tensão frequentemente se traduz em desinvestimento escolar, sofrimento psíquico e conflitos com as instituições educativas.
A partir da perspectiva bourdieusiana, é possível afirmar que tais dificuldades não decorrem de uma suposta incapacidade juvenil, mas de uma desarticulação entre estruturas sociais, processos de transmissão familiar e exigências institucionais. A juventude, nesse sentido, aparece como um ponto sensível onde se tornam visíveis as fissuras do processo de reprodução social.
Esse quadro prepara o terreno para as análises de Zygmunt Bauman, que aprofundará a compreensão da instabilidade estrutural da modernidade líquida, e de Maria Rita Kehl, que interpretará esses impasses como sintomas da cultura contemporânea, nos quais a juventude ocupa lugar central.
3. JUVENTUDE E MODERNIDADE LÍQUIDA: VÍNCULOS FRÁGEIS, EXOGAMIA E CRISE DOS LIMITES PARTIR DE BAUMAN
Zygmunt Bauman compreende a modernidade contemporânea como um estágio marcado pela fluidez das relações sociais, pela instabilidade das instituições e pela fragilização dos vínculos de maior durabilidade. Nesse contexto, as referências sólidas que preteritamente norteavam os processos de socialização, família, trabalho, escola e autoridade, hoje tornam-se incertas, provisórias, instáveis e frequentemente substituíveis. A juventude, longe de ser apenas um grupo etário, emerge como figura paradigmática dessa condição líquida, expressando de modo intenso as contradições do tempo presente.
Na modernidade líquida, o lapso temporal da juventude para a vida adulta deixa de ser claramente delimitado por marcos simbólicos estáveis. A ideia de projeto de vida, dá cedência à lógica da adaptação constante, do curto prazo e da flexibilidade permanente, e porque não do momento flash. Essa condição impacta profundamente os jovens, que se veem pressionados a construir identidades transitórias em um cenário no qual os referenciais tradicionais de autoridade e transmissão encontram-se fragilizados.
Em diálogo com Maria Rita Kehl, torna-se possível aprofundar a análise de Bauman ao compreender que, no campo simbólico, nenhum lugar permanece vazio por muito tempo. Quando figuras tradicionalmente responsáveis pela transmissão da lei, do limite e das orientações, como pais e instituições, se retraem, se desconectam ou se deslegitimam, outros discursos e práticas rapidamente ocupam esse espaço, de forma provisória, ou também permanente.
No contexto da modernidade líquida, observa-se que o enfraquecimento da autoridade parental não implica ausência literal de influência, mas sua substituição por referências difusas, frequentemente mediadas pela mercantilização, pela cultura do consumo e pelas redes digitais. “Quando os capitais simbólicos que os pais transmitem perdem valor no campo social, a autoridade que eles exercem sobre os filhos se fragiliza, criando tensões na socialização e nos processos de transmissão cultural.” (Bourdieu, 1998, p. 34)
As pessoas jovens passam a ser interpeladas por múltiplos discursos que prometem pertencimento, reconhecimento e satisfação imediata, sem a mediação de limites simbólicos consistentes, coesos como também coerentes.
Essa dinâmica evidencia a importância do diálogo com os jovens, não como simples estratégia comunicativa, mas como reconhecimento de que a ausência de escuta e de orientação simbólica abre espaço para formas precárias de inscrição subjetiva. O silêncio ou a indiferença das gerações adultas não produzem autonomia, mas desamparo simbólico.
A exogamia, entendida como o movimento simbólico de saída do espaço familiar em direção ao mundo social mais amplo, constitui um elemento central no processo de constituição subjetiva e social dos jovens. Tradicionalmente, esse movimento era mediado por rituais de passagem, pela escolarização e pela inserção progressiva no mundo do trabalho. No entanto, na modernidade líquida, esses mediadores encontram-se fragilizados.
A dificuldade contemporânea de efetivar a exogamia não se deve apenas à dependência material prolongada, mas à ausência de referências simbólicas capazes de sustentar a separação entre gerações. Pais que se colocam excessivamente como “pares” dos filhos - compartilhando os mesmos gostos musicais, linguagens e práticas culturais - acabam por enfraquecer a diferença geracional necessária à constituição do limite. Ao tentar ser “iguais”, perdem a posição simbólica que sustenta a função de orientação.
Nesse cenário, a exogamia deixa de ser um movimento sustentado e passa a ocorrer de forma fragmentada, precária ou fantasiosa, gerando insegurança tanto para os jovens quanto para as próprias famílias.
Outro aspecto relevante da modernidade líquida diz respeito à forma como as relações entre pais e filhos passam a ser mediadas pela lógica do consumo. Quando pais e mães buscam compartilhar os mesmos gostos musicais, linguagens e práticas culturais dos filhos como estratégia de aproximação, ocorre frequentemente uma diluição das fronteiras geracionais.
Embora essa aproximação possa ser interpretada como tentativa de diálogo, ela também pode resultar na perda da função simbólica do limite, fundamental para a constituição subjetiva dos jovens. Ao abdicar da posição de referência, os adultos deixam de oferecer parâmetros claros de autoridade, o que contribui para a confusão entre os lugares geracionais.
Na leitura de Bauman, essa dinâmica reflete a lógica da modernidade líquida, na qual a valorização da juventude, da flexibilidade e do consumo transforma os adultos em consumidores de uma juventude idealizada, em vez de mediadores simbólicos entre gerações.
A articulação entre Bauman e Maria Rita Kehl permite compreender que os impasses vividos pela juventude contemporânea não são resultado de uma suposta falha individual ou familiar, mas expressão de um contexto social marcado pela fragilização dos vínculos, pela instabilidade institucional e pela crise da transmissão simbólica.
No campo da educação, esses processos se traduzem em desafios significativos. A escola passa a ocupar, muitas vezes de forma precária, o lugar deixado vago por outras instâncias de socialização, sendo demandada a oferecer não apenas conhecimentos formais, mas também referências simbólicas, limites e escuta. Essa sobrecarga institucional evidencia a necessidade de repensar o papel da educação na mediação entre gerações, especialmente em um contexto de modernidade líquida. “Os jovens de hoje refletem a tensão de uma cultura que já não oferece modelos claros de autoridade nem trajetórias de realização social, tornando a juventude um sintoma visível das contradições da contemporaneidade” (Kehl, 2009, p. 56).
Essa perspectiva indica que os impasses vividos pelos jovens não são somente derivados de uma suposta incapacidade ou desorientação pessoal, mas são marcas do mal-estar cultural e estrutural proveniente da contemporaneidade. A juventude emerge, assim, como um indicador das fragilidades sociais, da instabilidade institucional e da liquidez dos vínculos, exigindo da escola e de outras instituições educativas um papel mais reflexivo e crítico, que venha a mediar a constituição de identidades, sentidos, emoções e pertencimentos.
4. A JUVENTUDE COMO UM SINTOMA DA CULTURA: CONTRIBUIÇÕES DE MARIA RITA KEHL
Em A juventude como sintoma da cultura, Maria Rita Kehl propõe um deslocamento fundamental na forma de compreender a juventude contemporânea. Em vez de tratá-la como fase do desenvolvimento ou como problema social específico, a autora sugere que a juventude seja lida como um sintoma social, isto é, como uma formação que expressa, de modo concentrado, os impasses, contradições e mal-estares da cultura em determinado momento histórico.
Na tradição psicanalítica, o sintoma não é um erro ou desvio a ser eliminado, mas uma resposta possível do sujeito diante de um conflito que não encontrou outra forma de simbolização. Ao transpor essa lógica para o campo social, Kehl permite compreender a juventude como lugar privilegiado de manifestação de conflitos que não pertencem apenas aos jovens, mas à própria organização simbólica da sociedade contemporânea. Assim, o sofrimento juvenil, a dificuldade de inserção social e a instabilidade identitária não são falhas individuais, mas efeitos de um contexto marcado pela fragilização das referências simbólicas.
Essa leitura dialoga diretamente com os aportes de Bourdieu e Bauman: se o primeiro evidencia as desigualdades estruturais que atravessam as trajetórias juvenis, e o segundo analisa a fluidez e a instabilidade da modernidade líquida, Kehl contribui ao explicitar os efeitos subjetivos e simbólicos desses processos sobre os jovens.
Um dos eixos centrais da análise de Kehl é o enfraquecimento da função simbólica da autoridade nas sociedades contemporâneas. A autora argumenta que a crise da autoridade não se confunde com autoritarismo, mas com a dificuldade crescente de sustentar lugares simbólicos que organizem a transmissão entre gerações. Quando esses lugares se fragilizam, os jovens deixam de encontrar referências consistentes para orientar seus processos de identificação e separação.
Nesse contexto, a autoridade parental e institucional perde legitimidade, não necessariamente por excesso de repressão, mas por sua diluição. Pais que evitam ocupar o lugar de adultos, escolas que hesitam em sustentar limites e uma cultura que valoriza a juventude como ideal permanente contribuem para a produção de um cenário no qual os jovens se veem desamparados simbolicamente. Como afirma Kehl, nenhum lugar simbólico permanece vazio por muito tempo: quando a autoridade se ausenta, outros discursos — frequentemente ligados ao mercado, ao consumo e ao gozo imediato — ocupam esse espaço.
Essa dinâmica reforça a leitura da juventude como sintoma: aquilo que aparece como “excesso” ou “desvio” juvenil revela, na verdade, a dificuldade da sociedade adulta em sustentar sua função de transmissão.
Outro aspecto central da leitura de Kehl diz respeito à relação entre juventude, gozo e cultura do consumo. Na contemporaneidade, observa-se uma crescente valorização do prazer imediato, da satisfação rápida e da eliminação de qualquer forma de espera ou frustração. Essa lógica, amplamente difundida pela indústria cultural, impacta diretamente os processos de subjetivação juvenil.
A juventude passa a ser interpelada não como tempo de elaboração e construção, mas como ideal de gozo permanente. Nessa lógica, o limite deixa de ser reconhecido como elemento estruturante da vida psíquica e social, passando a ser percebido como obstáculo à realização individual. “Na modernidade líquida, as condições da vida social são caracterizadas pela incerteza, pela fragilidade das instituições e pela instabilidade das relações humanas, que se tornam transitórias e substituíveis” (Bauman, 2001, p. 18)
O resultado é uma dificuldade crescente de lidar com a falta, a frustração e o tempo de maturação - elementos fundamentais tanto para a constituição subjetiva quanto para os processos educativos.
Kehl aponta que esse cenário produz jovens frequentemente capturados por exigências contraditórias: ao mesmo tempo em que são convocados a “aproveitar a vida”, também são cobrados por desempenho, sucesso e autonomia precoce. O sintoma juvenil emerge, assim, como resposta a uma cultura que promete satisfação ilimitada, mas oferece poucas condições simbólicas para sustentá-la.
A leitura da juventude como sintoma da cultura permite compreender o alongamento do complexo de Édipo como fenômeno social e histórico, e não apenas clínico. Para Kehl, a dificuldade contemporânea de separação entre pais e filhos está diretamente relacionada à fragilização das figuras de autoridade e à confusão entre os lugares geracionais.
Quando os adultos recusam ou perdem a capacidade de sustentar a função simbólica do limite, o processo edípico deixa de operar como organizador da entrada do sujeito no laço social. O jovem permanece, então, em uma posição ambígua: criticamente distanciado dos pais, que aparecem como “maus exemplos”, mas simultaneamente dependente deles, tanto material quanto afetivamente.
Essa ambivalência contribui para a suspensão da passagem à vida adulta, fenômeno amplamente discutido na literatura contemporânea. A juventude prolongada não deve ser interpretada como escolha individual ou comodismo, mas como efeito de uma crise mais ampla dos dispositivos de transmissão intergeracional.
Ao articular as contribuições de Maria Rita Kehl com os aportes de Bourdieu e Bauman, torna-se possível compreender a juventude como ponto de intersecção entre família, sociedade e cultura, conforme proposto no diagrama que orienta este trabalho. Na família, observa-se a fragilização da transmissão simbólica e da autoridade; na sociedade, a intensificação das desigualdades e da precarização; na cultura, a valorização do consumo, do gozo e da juventude como ideal.
A juventude emerge, assim, como lugar onde essas dimensões se cruzam e se tensionam. O sintoma juvenil não pertence apenas ao jovem, mas revela os impasses das instituições responsáveis por sua formação. Nesse sentido, compreender a juventude como sintoma da cultura implica deslocar o olhar das condutas individuais para os modos de organização do laço social.
No campo educacional, a leitura da juventude como sintoma da cultura impõe desafios significativos. A escola passa a ser convocada a ocupar lugares simbólicos que extrapolam sua função tradicional de transmissão de conhecimentos, sendo frequentemente demandada a oferecer escuta, limites e reconhecimento. No entanto, sem uma reflexão crítica sobre as condições sociais e culturais que produzem o sintoma juvenil, corre-se o risco de responsabilizar a instituição escolar por problemas que a excedem.
A partir da perspectiva de Kehl, torna-se fundamental que a educação reconheça os jovens não como sujeitos deficitários, mas como portadores de questões que dizem respeito ao conjunto da sociedade. Isso implica repensar práticas pedagógicas, políticas educacionais e formas de relação que sustentem a diferença geracional e a transmissão simbólica, sem recorrer ao autoritarismo nem à completa abdicação do limite.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo teve como objetivo analisar a juventude como uma categoria social e simbólica, compreendida a partir da intersecção entre família, sociedade e cultura, conforme o modelo analítico proposto no diagrama relativo a como os conjuntos inter-relacionam-se em uma linguagem do mundo matemático, complexo e abrangente e a isso se relativa as inter-relações entre as pessoas jovens, a cultura e sociedade que orientou a investigação. Ao adotar uma perspectiva sociológica crítica, buscou-se superar abordagens estáticas da juventude, compreendendo-a como construção histórica, relacional e profundamente atravessada por desigualdades estruturais, transformações culturais e impasses do laço social contemporâneo.
O diálogo estabelecido entre Pierre Bourdieu, Zygmunt Bauman e Maria Rita Kehl permitiu evidenciar que a juventude não pode ser pensada de forma isolada ou homogênea. Em Bourdieu, a juventude aparece como posição relacional no espaço social, marcada pela distribuição desigual dos capitais e pelas condições objetivas de existência, o que impacta diretamente as trajetórias educacionais e as possibilidades de mobilidade social. Bauman contribuiu ao situar a juventude como figura paradigmática da modernidade líquida, caracterizada pela instabilidade dos vínculos, pela precarização das instituições e pela dissolução dos marcos tradicionais de passagem para a vida adulta. Já Maria Rita Kehl possibilitou compreender a juventude como sintoma da cultura, isto é, como lugar privilegiado de manifestação do mal-estar social decorrente do enfraquecimento da transmissão simbólica, da autoridade e dos limites.
A articulação entre esses autores evidenciou que os impasses vividos pelos jovens - como a dificuldade de separação em relação à família, o prolongamento da dependência, a fragilização da exogamia e a busca por formas alternativas de inscrição simbólica - não constituem falhas individuais ou geracionais, mas expressam contradições estruturais e culturais mais amplas. A juventude, nesse sentido, revela-se menos como causa e mais como efeito das transformações sociais que atravessam a contemporaneidade.
No campo da educação, essa leitura impõe deslocamentos importantes. Ao compreender a juventude como intersecção e sintoma, torna-se possível questionar práticas pedagógicas e políticas educacionais que tendem a responsabilizar os jovens por processos de fracasso, evasão ou desengajamento, sem considerar as condições sociais e simbólicas que os produzem. A escola, frequentemente convocada a ocupar lugares deixados vagos por outras instâncias de socialização, enfrenta o desafio de sustentar a transmissão do conhecimento e do limite em um contexto marcado pela fragilização da autoridade e pela valorização da fluidez e do consumo.
Assim, mais do que propor respostas normativas, este artigo buscou oferecer uma chave interpretativa para a compreensão da juventude contemporânea, reconhecendo-a como categoria analítica central para a leitura dos impasses da sociedade atual. Compreender a juventude como sintoma da cultura implica, sobretudo, interrogar o lugar dos adultos, das instituições e das formas de organização social na produção do mal-estar que se manifesta nas experiências juvenis.
Considera-se que os elementos discutidos ao longo deste trabalho abrem caminhos para investigações futuras, especialmente no que diz respeito às práticas educativas que possam sustentar a transmissão simbólica sem recorrer ao autoritarismo nem à abdicação dos limites. A juventude, longe de ser um problema a ser corrigido, constitui um ponto sensível a partir do qual se tornam visíveis as tensões e possibilidades de reinvenção do laço social na contemporaneidade.
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1 Mestrando em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: [email protected]
2 Mestranda em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: [email protected]
3 Doutor em Teologia, Faculdades EST, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil. E-mail: [email protected]