MÉTODOS PARTICIPATIVOS DE PROJETO PARA A CONCEPÇÃO DE AMBIENTES HABITACIONAIS PARA PESSOAS IDOSAS

PARTICIPATORY DESIGN METHODS FOR THE CONCEPTION OF RESIDENTIAL ENVIRONMENTS FOR OLDER PEOPLE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790838372

RESUMO
O envelhecimento populacional é uma transformação demográfica relevante mundial e nacionalmente. Associado, entre outros fatores, aos avanços na área da saúde e ao aumento da longevidade, evoca um compromisso da arquitetura com o sujeito desse fenômeno: compreender melhor as necessidades e os anseios da pessoa idosa quanto à sua habitação. Este artigo investiga como métodos participativos de projeto podem favorecer a consideração dessas necessidades e anseios na concepção de ambientes habitacionais. Por meio de uma abordagem qualitativa e integrativa, este estudo articula resultados de duas pesquisas prévias sobre envelhecimento, relação pessoa-ambiente e participação do usuário no processo de projeto. Parte-se da compreensão das necessidades das pessoas idosas e dos significados atribuídos à habitação, associada à classificação de 40 métodos participativos de projeto em arquitetura e urbanismo. Assim fundamentada, a pesquisa constrói contextos projetuais exemplares do mercado de trabalho em arquitetura e arquitetura de interiores, no nicho residencial para a pessoa idosa, e seleciona 11 métodos participativos de projeto. O trabalho apresenta e correlaciona esses métodos, explicitando sua capacidade de apoiar o projetista na compreensão dos usuários e na transposição desse conhecimento para a construção conceitual e para a definição de diretrizes projetuais. Os resultados indicam que escolhas mais adequadas dependem tanto da compreensão das particularidades dos usuários e contratantes quanto do repertório do profissional sobre meios de comunicação, combinações, adaptações e alternativas possíveis em cada processo. A expectativa deste trabalho é, portanto, contribuir para a prática profissional de arquitetos e arquitetas que projetam ambientes habitacionais para pessoas idosas.
Palavras-chave: Arquitetura e urbanismo; Processo de projeto; Habitação para pessoas idosas; Métodos Participativos de Projeto; Envelhecimento.

ABSTRACT
Population ageing is a significant demographic transformation globally and nationally. Associated, among other factors, with advances in healthcare and increased longevity, it evokes a commitment from architecture toward the people at the center of this phenomenon: to better understand the needs and aspirations of older people regarding their housing. This article investigates how participatory design methods can support the consideration of these needs and aspirations in the conception of residential environments. Through a qualitative and integrative approach, this study articulates the results of two previous studies on ageing, person-environment relationships, and user participation in the design process. It starts from an understanding of older people’s needs and the meanings attributed to housing, in association with the classification of 40 participatory design methods in architecture and urban planning. Grounded in this framework, the research constructs exemplary design contexts representative of professional practice in architecture and interior architecture, within the residential niche for older people, and selects 11 participatory design methods. The study presents and correlates these methods, highlighting their capacity to support designers in understanding users and in translating this knowledge into conceptual development and the definition of design guidelines. The results indicate that more appropriate choices depend both on understanding the particularities of users and clients and on the professional’s repertoire of communication tools, combinations, adaptations, and possible alternatives for each process. The expectation of this study is, therefore, to contribute to the professional practice of architects who design residential environments for older people.
Keywords: Architecture and urbanism; Design process; Housing for older people; Participatory Design Methods; Ageing.

1. INTRODUÇÃO

Nas primeiras décadas do século XXI, o envelhecimento populacional consolidou-se como uma das transformações demográficas mais relevantes em escala nacional e mundial. No Brasil, pessoas com 60 anos ou mais já representam 15,6% da população, proporção que poderá alcançar 37,8% em 2070 (IBGE, 2024) e, no âmbito mundial, esse contingente deve chegar a 2,1 bilhões em 2050 (WHO, 2025). O aumento da longevidade vem acompanhado de desafios que ultrapassam as alterações físicas do envelhecimento, alcançando também as questões cognitivas. Estima-se que até 45% do risco de demência esteja associado a fatores potencialmente modificáveis, entre eles condições comportamentais, de saúde e ambientais ao longo da vida (WHO, 2026). O último destes fatores apontados pela World Health Organization (WHO) é diretamente relacionado à esfera de ação da arquitetura.

Esse cenário reforça a importância de ambientes capazes de favorecer a autonomia e a independência da pessoa idosa e sua permanência no lar pelo maior tempo possível (Bins Ely; Cavalcanti, 2024). A relação pessoa-ambiente é dinâmica e recíproca: as pessoas vivenciam, interpretam e transformam os espaços, enquanto estes influenciam suas experiências, comportamentos e possibilidades de ação (Oswald, 2024). Como a pessoa idosa tende a permanecer mais tempo no lar, a habitação assume papel central nessa relação ao longo do processo de envelhecimento (Silveira, 2019; Tissot; Vergara, 2024). Projetar o ambiente construído pressupõe, por princípio, considerar os usuários e suas necessidades no processo de concepção (Noebauer; Bins Ely, 2019). Sendo o usuário uma pessoa idosa, isso implica reconhecer a diversidade de experiências, condições, preferências e necessidades que permeiam o envelhecimento e o habitar (Silveira, 2019; Silveira; Bins Ely, 2025). Paradoxalmente, o amplo espectro de conhecimentos exigido pela complexidade projetual pode criar uma lente própria pela qual o arquiteto vê o mundo, distanciando-o dos usuários e dificultando a identificação de suas reais demandas (Noebauer, 2016).

No caso das pessoas idosas, essa lacuna assume especial relevância diante da maior permanência no lar, das transformações associadas ao envelhecimento e da diversidade de necessidades a serem consideradas no projeto, que incluem dimensões físicas, informativas e sociais (Silveira; Bins Ely, 2025). Responder às necessidades deste público exige compreender como o conhecimento sobre o envelhecer e o habitar pode ser efetivo no processo de projeto. Diante disso, pergunta-se: como métodos participativos de projeto podem favorecer a consideração das necessidades e anseios de pessoas idosas nas decisões projetuais, em diferentes contextos? Este artigo articula envelhecimento, relação pessoa-ambiente e participação do usuário no processo de projeto. Seu objetivo é identificar métodos participativos com potencial contribuição para a concepção de ambientes habitacionais voltados ao público idoso.

2. ASPECTOS METODOLÓGICOS

Este estudo adota uma abordagem qualitativa e integrativa, construída a partir da articulação de resultados provenientes de duas pesquisas prévias. A nova questão de investigação possibilitou o cruzamento e a interpretação conjunta de resultados originalmente produzidos com objetivos distintos.

A abordagem qualitativa mostra-se adequada por privilegiar a compreensão e a interpretação de significados, relações e contextos, permitindo examinar os conhecimentos produzidos pelas pesquisas integradas nesta análise à luz dessa nova questão de investigação (Minayo, 2015; Yin, 2016). A lógica integrativa aproxima-se dos princípios discutidos por Souza, Silva e Carvalho (2010), especialmente quanto à valorização conjunta do conhecimento teórico, da experiência prática e dos procedimentos de redução, comparação, síntese e verificação dos dados.

De modo cíclico e iterativo, são articulados os conhecimentos produzidos por Silveira (2019) e seus desdobramentos e por Noebauer (2016), com a experiência vinculada à prática profissional em arquitetura e uma nova reflexão orientada pelo objetivo de identificar métodos participativos com potencial contribuição para a concepção de ambientes habitacionais voltados ao público idoso. O processo envolveu a construção de contextos projetuais exemplares, a escolha de critérios previamente estabelecidos para a seleção dos métodos participativos e, posteriormente, a análise comparativa e interpretativa dos 11 métodos selecionados. Esse percurso articula os conhecimentos apresentados no referencial teórico aos resultados e à discussão desenvolvidos na sequência.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A relação pessoa-ambiente constitui objeto consolidado de investigação no âmbito da Psicologia Ambiental, cujo desenvolvimento se intensificou no período pós-Segunda Guerra Mundial, com importante desenvolvimento nos Estados Unidos e, posteriormente, também no Brasil (Rivlin, 2003; Pinheiro, 2001). Seus estudos articulam contribuições de diferentes campos, entre eles Arquitetura, Urbanismo, Geografia, Psicologia e Sociologia, caracterizando-se por sua natureza inter, multi e transdisciplinar (Günther; Elali; Pinheiro, 2008).

Diferentes estudos pessoa-ambiente (EPA) apontam que o habitar ultrapassa a dimensão física do espaço e sua função de abrigo. Habitar envolve dimensões funcionais e comportamentais, de modo que o ambiente adquire significado a partir da vivência do sujeito no espaço habitado. Tal compreensão vem sendo construída e consolidada no Brasil ao longo das últimas décadas, em um percurso aqui representado cronologicamente por Ornstein (1995), Bins Ely (1997), Pinheiro (2001), Okamoto (2002), Günther, Elali e Pinheiro (2008), Hodecker et al. (2019) e Silveira e Bins Ely (2025), dentre outros.

No contexto habitacional, essa relação adquire especial significado, pois, além de abrigar, a arquitetura participa das possibilidades de autonomia, expressão pessoal e controle sobre o próprio espaço (Silveira, 2019; Silveira; Bins Ely, 2019). Estas autoras apontam, ainda, que no caso do envelhecimento, tanto o existir quanto o habitar expressam a diversidade das trajetórias individuais e das condições pessoais, ambientais e socioculturais, refletida em diferentes capacidades, preferências, necessidades e maneiras de habitar. Assim, não há uma resposta habitacional única para pessoas idosas, mas diferentes possibilidades de suporte relacionadas, entre outros aspectos, aos níveis de autonomia, independência e assistência necessários em cada contexto.

Na pesquisa de Silveira (2019), a escuta de pessoas idosas por meio de entrevistas e a sistematização de suas necessidades espaciais, a partir de Hunt (1991), produziram resultados complementares, posteriormente desenvolvidos em Silveira, Bins Ely e Vergara (2020) e Silveira e Bins Ely (2025). Neste artigo, esses resultados são correlacionados, buscando evidenciar relações ainda não exploradas nestes estudos, em especial entre o que emergiu da fala das pessoas idosas e o conjunto de necessidades espaciais ampliado e sistematizado por Silveira e Bins Ely (2025) a partir da literatura. A Figura 1, disposta a seguir, apresenta essa síntese e encaminha a discussão desenvolvida na sequência.

Figura 1. Resultados das entrevistas (Silveira; Bins Ely; Vergara, 2020) e sistematização e ampliação em subcategorias propostas por (Silveira; Bins Ely, 2025)

Fonte: Silveira, Bins Ely e Vergara (2020); Silveira e Bins Ely (2025). Adaptação gráfica: Autoras, 2026.

A leitura integrada dos dois conjuntos de resultados amplia a compreensão das necessidades e expectativas das pessoas idosas, evidenciando diferentes possíveis aprofundamentos para apoio à prática projetual neste campo. A Figura 2, disposta a seguir, sintetiza essa análise.

Figura 2. Correlação entre os resultados de Silveira; Bins Ely; Vergara 2020) e de Silveira; Bins Ely (2025)

Fonte: Autoras, 2026.

A articulação destes estudos oferece base consistente para a concepção de ambientes destinados a pessoas idosas. Esse conhecimento pode ser potencializado se conectado a estudos facilitadores de processos de projeto. Em especial, àqueles que valorizam a voz dos usuários e trazem meios para ampliar o entendimento das necessidades e expectativas de quem verdadeiramente vai habitar os ambientes em concepção.

Em pesquisas no campo projetual em arquitetura e urbanismo, existem três tipos de pesquisa: sobre o projeto, no projeto e em projeto (Caldana, 2013). Aydemir e Jacoby (2022, p. 657, tradução nossa) discutem uma divisão análoga: “pesquisa sobre o projeto / para o projeto / por meio do projeto”. Tanto a pesquisa “no projeto” quanto a pesquisa “para o projeto” referem-se às buscas realizadas durante um processo projetual para embasar suas soluções. Este artigo une conhecimentos sobre o envelhecer e diferentes possibilidades de morar a estudos sobre o processo de projeto para contribuir com a concepção de projetos reais que sejam focados no público idoso.

Projetistas são, em alguma medida, “futurólogos”; sua atividade implica antecipar situações ainda inexistentes e tomar decisões para sugerir como o mundo poderia ser (Lawson, 2011, p. 110). Projetar parte de elevado nível de incerteza acerca do problema, cuja compreensão é progressivamente construída rumo à proposição de um primeiro nível de solução (Silva, 1998). Problemas de projeto, em razão de suas variáveis, muitas delas relacionadas às interações sociais e à comunicação entre os atores do processo, são complexos (Andrade; Ruschel; Moreira, 2013). Para ampliar a compreensão do problema de projeto, indica-se neste artigo a adoção de uma estratégia comum em pesquisas acadêmicas, a abordagem multimétodos, recorrente nos estudos pessoa-ambiente (EPA), que busca informações por caminhos distintos, de modo a contemplar dimensões complementares de um mesmo fenômeno (Günther; Elali; Pinheiro, 2008).

Tendo a voz do usuário como foco e alicerce do processo projetual, Noebauer (2016) propõe o Instrumento de Briefing, um veículo de comunicação flexível que reúne diferentes métodos participativos de projeto. É essencial, nessa proposição, a possibilidade de acomodar variados métodos, selecionados a cada processo de projeto, de acordo com a sua situação projetual, estruturando o problema por meio do levantamento e processamento de informações. A aplicação deste Instrumento de Briefing é particularmente útil nos momentos iniciais de projeto, ou ideação, termos aportados por Silva (1998), que os caracteriza como um período com alto índice de incerteza. Na medida em que as informações são levantadas e processadas, as incertezas diminuem, rumo à solução. Assim, embora a participação do usuário possa ocorrer ao longo de todo o processo, é nos momentos iniciais de projeto, coroados pelo estudo preliminar, que se encontra a melhor janela de oportunidade para sua aplicação e onde se torna especialmente relevante (Noebauer, 2016).

Antes de selecionar métodos participativos, é necessário conhecer alguns conceitos basilares do processo de projeto definidos por Noebauer (2016): situação projetual, grau de acesso do projetista aos usuários, bem como as funções que cada método pode desempenhar. Tais informações são apresentadas na Figura 3, disposta a seguir.

Figura 3. Síntese conceitual para embasar a seleção de métodos participativos de projeto

Fonte: Noebauer (2016). Adaptação gráfica: Autoras, 2026.

Uma situação projetual é definida pelo exercício profissional do projetista em um dado processo de projeto. Consideram-se três variáveis: área de atuação, nicho de mercado e caracterização dos possíveis clientes. Essa caracterização considera se o cliente é uma pessoa física, empresa, instituição, entre outras possibilidades, condição que influencia a relação estabelecida com os usuários. Essa relação, por sua vez, contribui para a definição do Grau de Acesso Projetista-Usuário (GAP-U). Este é um critério que compreende quatro graus de acesso do projetista aos usuários. No grau A, cliente e usuário coincidem e o acesso é direto e irrestrito; nos graus B e C, cliente e usuário diferem e o acesso é, respectivamente, direto parcial e indireto; no grau D, não há acesso aos usuários (Noebauer, 2016).

Em projetos habitacionais voltados à pessoa idosa, entretanto, a compreensão do problema exige considerar também condições relativas ao envelhecimento e ao habitar. A partir das classificações apresentadas pela Portaria nº 73/2001 e pela RDC nº 283/2005, Silveira (2019) adota três graus de dependência da pessoa idosa: independente, semidependente e dependente, relacionados à capacidade funcional para o desempenho das atividades da vida diária. Existe uma relação entre o grau de dependência e o nível de assistência necessário, que tende a aumentar à medida que se amplia a necessidade de suporte de terceiros para a realização das atividades da vida diária. Em sua pesquisa, Silveira (2019) organiza as possibilidades de habitação para pessoas idosas em torno de três conceitos: envelhecer em casa, habitação de suporte e habitação com cuidados continuados. Nessa síntese, articulam-se o grau de dependência da pessoa idosa, o nível de assistência à dependência e as diferentes possibilidades de suporte. A Figura 4 sintetiza essas variáveis.

Figura 4. Síntese das condições do contexto habitacional da pessoa idosa

Fonte: Silveira (2019). Adaptação gráfica: Autoras, 2026.

Consideradas em conjunto, as Figuras 2, 3 e 4 articulam contribuições das pesquisas de Silveira (2019) e Noebauer (2016) para a compreensão do problema investigado. De um lado, as Figuras 2 e 4 reúnem necessidades e anseios da pessoa idosa, bem como características do seu habitar relacionadas ao grau de dependência, ao nível de assistência e às diferentes possibilidades de suporte. De outro, a Figura 3 apresenta elementos relativos ao processo de projeto, à situação projetual e às possibilidades de acesso do projetista aos usuários.

Visando identificar métodos participativos adequados à ideação projetual nas 4 grandes áreas de atuação da profissão: arquitetura, arquitetura de interiores, urbanismo e paisagismo (CAU/BR, 2012), Noebauer (2016) propôs uma classificação construída a partir de 8 critérios de classificação. Foram estudados 137 métodos, oriundos de diferentes áreas do conhecimento, selecionados por terem potencial para apoiar a participação do usuário nos momentos de ideação de processos de projeto em arquitetura e urbanismo. Sucessivas análises e seleções reduziram esse conjunto a 34 métodos, aos quais foram incorporados outros 6, criados pela pesquisadora e testados em processos projetuais reais de sua prática profissional, nas áreas de arquitetura e arquitetura de interiores. A classificação reúne, assim, 40 métodos participativos aplicáveis aos momentos iniciais de projeto em arquitetura e urbanismo.

A partir desse repertório, este artigo visa contribuir para a prática profissional no nicho residencial, com um recorte temporal e temático: a concepção de ambientes habitacionais para pessoas idosas, criando um novo nível específico de seleção. Os 40 métodos participativos de projeto classificados por Noebauer (2016) são filtrados a partir da criação de 3 contextos projetuais exemplares cuja característica comum é ter, no centro, a pessoa idosa. Os exemplos foram construídos a partir de condições de contratação recorrentes na práxis de escritórios de arquitetura no Brasil.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

As características aportadas pelas pesquisas de Silveira, como as condições de independência, de suporte e de habitar da pessoa idosa (Figuras 2 e 4), e os contextos projetuais exemplares ajudam a definir as situações projetuais, formadas por características do projeto e da contratação profissional, como o papel de clientes e usuários e diferentes possibilidades de acesso do projetista aos futuros moradores. A Figura 5, disposta a seguir, apresenta a síntese dos 3 contextos projetuais exemplares construídos para a análise.

Figura 5. Contextos projetuais exemplares

Fonte: Autoras, 2026.

Para realizar esta análise, aplicam-se, a partir das informações dos Contextos Projetuais exemplares, 3 dos 8 critérios da classificação (Noebauer, 2016). Destes, 2 já foram sintetizados na Figura 3: o Grau de Acesso Projetista-Usuário (GAP-U) e a função do método. O novo critério a ser aplicado diz respeito ao nível de dificuldade que cada método apresenta. Sua consideração se relaciona com o preparo prévio exigido do arquiteto, a obtenção ou preparação dos materiais para a sua aplicação e as exigências de apreensão e resposta do participante (Noebauer, 2016). Neste artigo este critério assume um caráter orientativo, não necessariamente eliminatório, uma vez que entre os 40 métodos classificados já se encontram apenas métodos muito fáceis, fáceis e de facilidade média, não havendo métodos considerados difíceis.

No Contexto Projetual 01, considera-se uma pessoa idosa independente, envelhecendo em sua própria casa, com funções cognitivas preservadas, em uma situação de adequação ou reforma residencial. A pessoa idosa pode morar sozinha ou com seu parceiro de vida, familiares ou, ainda, com outras pessoas, sem que essa composição altere o foco da seleção de métodos participativos de projeto. Interessa, sobretudo, identificar quais destes meios melhor permitem conhecer necessidades e anseios da pessoa idosa em relação a sua casa. Quando pertinente, esses mesmos métodos podem envolver também outros moradores ou participantes do contexto doméstico. O GAP-U é A, com acesso direto e irrestrito a quase todos ou a todos os usuários, fato que não restringe o repertório disponível, pois os 40 métodos classificados são compatíveis e aplicáveis para este tipo de situação projetual.

No Contexto Projetual 02, uma pessoa idosa independente está se tornando semidependente e passará a morar com familiares, em uma situação de projeto arquitetônico residencial, para uma nova casa. Essa pessoa não é o usuário principal, e o declínio das suas funções cognitivas é um pressuposto. Nessa condição cognitiva, é possível que esta pessoa idosa não seja a única participante do processo de projeto ou, mesmo, que ela não participe. Familiares e outras pessoas envolvidas no contexto doméstico podem contribuir com informações relevantes, sem que se perca o foco nas necessidades e anseios dessa pessoa idosa para quem o ambiente também está sendo concebido. O GAP-U pode ser B, que permite o contato com uma amostra da população de usuários, ou pode ser C, em que o acesso é indireto, condição em que o contratante é um dos usuários e decide quem participa e quem não participa do processo. Uma vez que os métodos compatíveis com o GAP-U C também são aplicáveis ao GAP-U B, adotou-se o grau C como referência.

No Contexto Projetual 03, considera-se a concepção de uma nova habitação destinada a pessoas idosas independentes, com funções cognitivas preservadas, em uma situação de projeto arquitetônico residencial multifamiliar. Os futuros usuários têm moradias individuais, associadas a ambientes sociais de uso comum. Neste tipo de projeto, é frequente que o cliente seja uma construtora, incorporadora ou investidor imobiliário, e não o futuro morador. Nestes casos, apenas excepcionalmente o projetista tem acesso indireto a uma pequena amostra desses usuários, condição correspondente ao GAP-U C em Noebauer (2016). O caso clássico é não ter acesso a eles, o que caracteriza o GAP-U D. A classificação indica que os métodos participativos de projeto compatíveis com o GAP-U D também são aplicáveis ao GAP-U C e, considerando que o acesso nulo aos usuários é a situação mais frequente neste exemplo, adotou-se o grau D como referência.

A Figura 6, disposta abaixo, apresenta os 3 contextos projetuais, com suas características e respectivos métodos selecionados de acordo com os 3 critérios adotados nesta pesquisa. Cada critério, isoladamente, abrange um conjunto mais amplo de métodos; a seleção resulta de sua aplicação combinada e da convergência entre eles em cada contexto projetual. O GAP-U estabelece a compatibilidade dos métodos com as condições de acesso aos usuários; quanto à função, foram priorizados aqueles que reúnem 3 ou 4 funções; e o nível de dificuldade atua como critério de ponderação, podendo ou não produzir novo refinamento conforme as condições do contexto.

Figura 6. Síntese da seleção dos métodos participativos nos contextos projetuais exemplares

Fonte: Autoras, 2026.

A aplicação combinada dos três critérios aos contextos projetuais exemplares produziu seleções distintas, sintetizadas na Figura 6. Considerados em conjunto, e sem repetir os métodos presentes em mais de um contexto, os resultados correspondem a 11 métodos participativos de projeto distintos, todos adequados para aplicação em pelo menos um dos contextos projetuais exemplares. A Figura 7 reorganiza esse resultado por método, indicando os contextos em que cada um permaneceu após a análise e apresentando uma síntese de suas principais características, de modo a facilitar a leitura comparativa e apoiar sua consideração em contextos projetuais semelhantes.

Figura 7. Síntese dos métodos participativos selecionados nos contextos projetuais exemplares

Fonte: Autoras, 2026.

Uma perspectiva comum a todos fica clara quando analisados em conjunto: que um método participativo precisa ser um facilitador da comunicação é um pressuposto. O que importa ao projetista é perceber, a cada método selecionado, como essa comunicação é mediada e de que modo compreender essa mediação pode facilitar a escolha de um conjunto de métodos para um processo de projeto que esteja prestes a ser iniciado.

Em cada método do conjunto, a comunicação é mediada por diferentes combinações entre palavras e imagens. Em alguns, predomina a palavra, falada ou escrita; em outros, as imagens assumem papel central; e há aqueles em que ambas as maneiras de se comunicar são associadas para expressar, organizar e discutir informações ao longo do processo. A combinação de alguns desses métodos pode constituir uma estratégia de tradução entre o saber vivencial dos participantes e o pensamento projetual, favorecendo a compreensão compartilhada de necessidades, expectativas, conceitos e possíveis soluções de projeto (Noebauer, 2016).

A apresentação dos métodos, a seguir, foi organizada de acordo com esta sequência: parte-se daqueles em que predomina a palavra como meio de comunicação (M04, M05, M17) e segue-se para aqueles de maior caráter visual (M08, M20, M26). Em seguida, dá-se destaque ao método Persona Cenário (M29), por envolver tanto a palavra quanto as imagens e por ter sido o único que, após a filtragem dos 3 critérios de classificação, permaneceu como possibilidade de aplicação nos 3 contextos projetuais exemplares. A apresentação é finalizada com 2 pares de métodos que operam de modo sequencial. O primeiro, oriundo da área do design de produto (M27, M28), é apontado por Noebauer (2016) como facilmente adaptável para aplicação em processos de projeto de arquitetura e arquitetura de interiores. Por fim, apresenta-se o segundo par, de uso nativo nessas áreas, criado na prática profissional de Noebauer e posteriormente estudado e validado em sua pesquisa (Noebauer, 2016).

Entre os métodos em que predomina a palavra como meio de comunicação, Brainstorming (M04), Brainwriting 635 (M05) e Grupos Focais (M17) favorecem a participação de maneiras distintas. Nos dois primeiros, a palavra atua diretamente na expressão de ideias existentes, na geração de novas ideias e na sua filtragem e refinamento. No Brainstorming (M04), o processo se dá por meio de uma discussão coletiva; no Brainwriting 635 (M05), pelo registro escrito e pela circulação sucessiva das contribuições entre os participantes, ambos dirigidos por um facilitador: o projetista ou alguém de sua equipe. Nos Grupos Focais (M17), por sua vez, a interação verbal é utilizada principalmente para levantar necessidades e expectativas e, ao mesmo tempo, fazer emergir convergências, divergências e conflitos entre diferentes pontos de vista. A qualidade dos resultados obtidos depende de uma mediação equilibrada e atenta, atribuição que, neste contexto, igualmente deve, preferencialmente, ser assumida pelo próprio projetista ou por uma pessoa de sua equipe.

Entre os métodos em que a dimensão visual ganha protagonismo, Colagem (M08), Mapa Mental (M20) e Painéis de Imagens (M26) também operam de maneiras distintas. O método Colagem (M08) utiliza imagens e outros recursos visuais para favorecer a expressão de experiências, sentimentos, necessidades e desejos, inclusive daqueles de difícil verbalização. No caso das pessoas idosas, para as quais a memória e as referências biográficas assumem especial relevância na relação com o lugar (Silveira, 2019), recursos visuais e sensoriais, como fotografias, imagens e materiais capazes de evocar lembranças, podem favorecer a expressão de conteúdos que posteriormente sejam aprofundados por relatos falados ou escritos. Desse modo, a Colagem pode anteceder ou ser combinada a outros métodos, ampliando as possibilidades de compreensão, pelo projetista, das experiências, sentimentos e desejos dos participantes.

O Mapa Mental (M20) também integra o conjunto visual de métodos. Dentre os métodos participativos pesquisados por Noebauer (2016), é um dos que apresenta grande diversidade de versões e referências, o que permite compreender e adaptar sua aplicação à realidade dos participantes e aos objetivos de cada processo, sendo bastante versátil. Sua riqueza vai além da combinação de palavras relevantes ao projeto, que auxiliam a explicitação e a organização visual das ideias. Linhas, setas e outros recursos gráficos tornam visíveis as relações estabelecidas entre essas ideias, permitindo que associações, aproximações e conexões também façam parte da informação produzida. Esse método participativo também possui a vantagem de ser facilmente aplicado tanto em processos presenciais quanto remotos. Além da construção manual, o Mapa Mental (M20) pode ser desenvolvido em plataformas digitais, gratuitas ou pagas, que permitem organizar e relacionar informações e, em alguns casos, construir o mapa de maneira colaborativa e simultânea entre os participantes.

Já os Painéis de Imagens (M26), amplamente conhecidos como moodboards, reúnem referências visuais capazes de comunicar a essência de um conceito, estimular associações e apoiar a discussão entre os participantes. A força do método está em reunir imagens selecionadas que, isoladamente, não teriam o mesmo sentido, mas que, quando combinadas, comunicam uma atmosfera. Assim, embora Colagem (M08), Mapa Mental (M20) e Painéis de Imagens (M26) compartilhem o uso de recursos visuais, diferenciam-se pelo que ajudam a tornar visível: experiências, sentimentos e desejos; relações entre ideias; ou referências capazes de orientar a construção conceitual do projeto.

O método participativo Persona Cenário (M29) tem sua particularidade na associação de 2 procedimentos complementares. O método Persona, comum nas áreas do marketing e do design de produto, nas quais nem sempre há contato direto com os usuários, sintetiza, a partir de dados estatísticos obtidos em pesquisas com pessoas reais, características representativas desses futuros usuários. Os dados são relacionados ao perfil, comportamento, atividades, preferências, necessidades e desejos. Já o método Cenário, por sua vez, situa essa persona em uma condição de uso, descrevendo ações, interações e circunstâncias prováveis. Assim, enquanto a Persona ajuda a responder quem é o usuário, o Cenário permite explorar como esse usuário poderá agir e experimentar determinado ambiente (Pazmino, 2015).

Essa combinação permite ao projetista aproximar-se de situações de uso mesmo quando o acesso direto aos futuros usuários é limitado ou inexistente. Também ajuda a compreender sua permanência nas 3 triagens realizadas: diferentemente de métodos dependentes da presença do usuário durante a aplicação, Persona Cenário pode operar sob diferentes GAP-Us, sem abandonar o foco sobre quem utilizará o ambiente. Quando o acesso é possível, a voz do usuário real deve participar da construção dessas representações.

Essa distinção é particularmente importante porque a aplicação do método Persona Cenário não se encerra no momento da criação da(s) persona(s). Para a área do design de produto, Pazmino (2015) situa sua construção na fase de análise do público-alvo, mas afirma que sua aplicação ocorre nas fases posteriores de síntese e criatividade. No recorte deste artigo, voltado às áreas de arquitetura e arquitetura de interiores, aos momentos iniciais de projeto e para o público idoso, essa lógica permite considerar a Persona Cenário como uma síntese posterior ao emprego de outros métodos participativos de projeto. Informações inicialmente obtidas com os usuários podem ser analisadas e organizadas por diferentes procedimentos e, posteriormente, reunidas na construção de uma ou mais personas. Associadas aos cenários, essas personas podem acompanhar a passagem para a ideação, a construção conceitual e o próprio desenvolvimento do projeto, recolocando diante do projetista características, experiências, atividades, necessidades e desejos dos usuários nos momentos em que as decisões projetuais são formuladas.

O primeiro par de métodos que atua em sequência é composto pelo método Painel de Conceito ou Significado (M27) e pelo método Painel Visual do Produto (M28). O primeiro deles (M27), originalmente, não é um método participativo de projeto. Oriundo do design de produto, busca expressar visualmente o significado que se pretende comunicar por meio do produto em projetação. Para isso, a equipe de projeto primeiro considera as necessidades, estilo e comportamento previamente levantados em pesquisas sobre o público-alvo, e com essa base, define as emoções, recordações ou sensações que pretende despertar por meio do produto e, então, reúne imagens capazes de sintetizar esse conceito que vai orientar o processo criativo. Na sequência, o segundo método, Painel Visual do Produto (M28), reúne imagens de outros produtos, existentes no mercado e que de algum modo têm a capacidade de traduzir aquele significado pretendido. A partir dessa pesquisa a equipe de projeto identifica os atributos desses produtos, como estilo, cor, material, forma e configuração, aproximando a síntese conceitual da geração de alternativas para o novo projeto (Pazmino, 2015).

Ao analisar esses métodos, Noebauer (2016) considera que ambos podem ser adaptados para aplicações em processos projetuais nas áreas de arquitetura e arquitetura de interiores. No caso do método Painel de Conceito ou Significado (M27), a principal adaptação é tornar o método participativo. Pressupõe-se que necessidades e expectativas dos usuários e demais condicionantes do projeto tenham sido previamente levantados por outros métodos que tiveram a participação dos usuários no processo. A partir dessas informações, o arquiteto elabora uma síntese conceitual por meio de imagens, que deve ser apresentada aos participantes para discussão, possíveis ajustes e validação.

Em projetos habitacionais destinados a pessoas idosas, essa aplicação ganha especial interesse diante da dimensão subjetiva atribuída ao lar. Ao investigar a percepção de pessoas idosas sobre sua habitação, Silveira (2019) aprofunda o tema significado do lar, apoiando a identificação das informações que podem alimentar essa síntese. Sua pesquisa identificou significados associados a abrigo, bem-estar e família, além de preferências, vínculos com experiências, memórias, pertencimento e história pessoal, expressos na apropriação da habitação. Em Silveira (2019), esses significados emergiram de entrevistas sobre a percepção do lar por parte dos participantes de seus estudos.

A ponte deste artigo é conectar estes estudos à prática profissional, em projetos reais para a pessoa idosa. Neste caso, indica-se que, em situações projetuais com acesso direto aos usuários, como no Contexto Projetual 01, outros métodos já apresentados podem facilitar que os próprios participantes revelem suas percepções do lar e seus significados. Os Grupos Focais (M17) podem estimular essa expressão por meio da conversa guiada e da discussão entre os participantes; a Colagem (M08), por meio de fotografias, imagens e materiais capazes de evocar experiências e lembranças; e o Mapa Mental (M20), pela explicitação e organização das associações estabelecidas entre ideias. São os resultados de métodos dessa natureza que podem ser os insumos necessários para que a síntese conceitual seja elaborada no método Painel de Conceito ou Significado (M27). A variação do GAP-U evidencia que quanto menor o acesso aos futuros usuários, mais o conhecimento sobre significados, experiências e modos de habitar precisa ser alimentado por outras fontes. Pesquisas anteriores com pessoas idosas, como Silveira (2019), estudos de Avaliação Pós-Ocupação (APO) em situações habitacionais para este público e investigações provenientes de áreas como a Psicologia Ambiental e a Antropologia podem aproximar o projetista desses insumos.

Claramente definido na literatura como sequência do método Painel de Conceito ou Significado (M27), o método Painel Visual do Produto (M28) é construído a partir dos resultados obtidos pelo seu antecessor (Noebauer, 2016; Pazmino, 2015). Para sua aplicação nas áreas de arquitetura e arquitetura de interiores, Noebauer (2016) aponta como principal adaptação a própria natureza das referências selecionadas, que passam a incluir edificações, ambientes, componentes arquitetônicos, mobiliário, materiais e outras soluções espaciais. Essas referências podem ser analisadas, combinadas, adaptadas ou refinadas para apoiar a passagem entre o conceito anteriormente construído e as primeiras possibilidades de projeto.

O Mote Criativo foi criado por Noebauer como um veículo de comunicação para apoiar a reunião em que projetista e participantes discutem os resultados do processo participativo e as primeiras sínteses formuladas pela equipe de projeto. Sua estrutura articula diferentes conjuntos de informações. Aos elementos introdutórios fixos, que são dados administrativos, como nome dos contratantes, tipo de projeto, dentre outras informações, seguem-se os resultados dos métodos anteriormente aplicados. Apresenta-se esse tratamento de dados método a método, de modo que os participantes não apenas retomem as informações que contribuíram para produzir, mas o façam de modo que suas contribuições estão equilibradas às contribuições dos demais participantes. Esta parte do Mote Criativo é o preparo necessário para que os usuários conheçam e discutam, com um bom embasamento, as sínteses formuladas pela equipe de projeto. Somente então são apresentados os elementos relacionados ao conceito, ainda anteriores ao projeto propriamente dito, que se inicia no Estudo Preliminar (Noebauer, 2016).

Nesse conjunto conceitual distinguem-se duas sínteses complementares: uma de natureza estritamente conceitual, relacionada ao universo dos significados do futuro ambiente em criação, correspondente ao método Mote Criativo Conceitual (M39); e outra de natureza mais técnica, embora ainda conceitual, no sentido de que ainda antecede o Estudo Preliminar, e que para diferenciação da natureza do que apresenta, foi denominada projetual, correspondente ao método Mote Criativo Projetual (M40). Assim, Mote Criativo Conceitual (M39) e Mote Criativo Projetual (M40) são um par sequencial apresentado após o tratamento dos dados anteriormente coletados. Um sintetiza significados e valores; o outro aproxima o conceito de diretrizes, referências, materiais e questões técnicas capazes de orientar a posterior criação da primeira etapa técnica do projeto, o estudo preliminar. A Figura 8 sintetiza a estrutura do Mote Criativo.

Figura 8. Esquema estrutural de um Mote Criativo (MC)

Fonte: Noebauer (2016). Adaptação gráfica: Autoras, 2026.

O método Mote Criativo Conceitual (M39) corresponde à primeira das duas sínteses do Mote Criativo e busca sintetizar e comunicar, por meio de imagens e palavras de apoio, os significados e valores dos usuários percebidos pela equipe de projeto. A intenção é dupla: verificar se a leitura realizada pelo projetista corresponde ao que os usuários expressaram, corrigindo-a quando necessário, e discutir a síntese conceitual antes que fundamentos formais e técnicos mais arraigados sejam incorporados ao futuro projeto. Desse modo, o conceito não é apresentado como uma conclusão da equipe, mas como uma proposição a ser discutida, ajustada e construída consensualmente com os participantes (Noebauer, 2016).

No Contexto Projetual 02, essa característica do método Mote Criativo Conceitual (M39) ganha especial relevância diante da própria natureza da coabitação intergeracional. Silveira (2019) aponta que morar com familiares pode favorecer o suporte, a integração social e as trocas entre gerações, mas também envolver desafios relacionados à autonomia, à privacidade, à segurança e à gestão da habitação e da vida. No contexto aqui considerado, uma pessoa idosa em processo de perda de independência e declínio cognitivo passará a morar com familiares e pode ou não participar diretamente do processo de projeto. A discussão pode, portanto, envolver pessoas de distintas gerações, experiências e posições dentro da família, cujas necessidades e prioridades em relação ao futuro ambiente não necessariamente coincidem, assim como variam suas possibilidades reais de tomar decisões.

Nessa situação, a apresentação dos resultados tratados dos métodos anteriormente aplicados adquire particular importância: antes de conhecer a síntese formulada pela equipe de projeto, os participantes retomam as diferentes contribuições que a fundamentaram. Convergências, divergências e possíveis conflitos podem, assim, tornar-se mais visíveis, permitindo que a síntese conceitual seja discutida não apenas quanto à fidelidade da interpretação realizada pelo projetista, mas também quanto à construção de um entendimento compartilhado entre os participantes, sem perder de vista as necessidades da pessoa idosa para quem o ambiente também está sendo concebido.

O método Mote Criativo Projetual (M40) corresponde à segunda síntese do Mote Criativo e é desenvolvido a partir do conceito proposto pela equipe de projeto, discutido com os participantes e, se necessário, ajustado no início da mesma reunião por meio do método Mote Criativo Conceitual (M39). O propósito é aproximar esse conceito de conteúdos de natureza mais técnica, ainda anteriores ao projeto propriamente dito. Diretrizes projetuais, possibilidades de linguagem visual e sensorial, composição, materiais, técnicas construtivas e referências visuais podem ser apresentados de modo a tornar compreensível como os significados e valores anteriormente acordados poderão orientar a futura concepção do ambiente. As imagens assumem especial importância nesse momento, pois permitem exemplificar as proposições e apoiar sua discussão antes de se tornarem decisões de projeto. O conteúdo apresentado não constitui, portanto, uma solução acabada: deve ser discutido, ajustado e validado com os participantes antes de se tornar o fio condutor do Estudo Preliminar (Noebauer, 2016).

No caso do Contexto Projetual 02, onde uma família está envolvida, o método Mote Criativo Projetual (M40) permite avançar da construção de um entendimento compartilhado para a discussão de como esse entendimento poderá repercutir no ambiente. Questões como autonomia e privacidade da pessoa idosa, segurança, possibilidades de convivência e organização dos espaços compartilhados podem ser traduzidas em diretrizes e referências visuais e discutidas entre os participantes. Desse modo, decisões de natureza mais técnica deixam de surgir apenas como resposta do arquiteto e passam a ser compreendidas e debatidas em relação aos significados, necessidades e prioridades anteriormente explicitados no processo.

Considerados em conjunto, os 11 métodos evidenciam que a seleção não deve ser interpretada como uma lista fechada de soluções, mas como um repertório orientado pelas características do contexto e da situação projetual, assim como das pessoas envolvidas. A escolha feita em relação aos critérios utilizados amplia o repertório do projetista sobre conhecer métodos participativos de projeto e suas particularidades e apoia suas escolhas nesse sentido. Os resultados, no entanto, não esgotam as possibilidades disponíveis ao projetista. Essa questão é aprofundada na seção seguinte.

4.1. Critérios de Seleção: Limites e Ampliação do Repertório

O cruzamento entre GAP-U, função do método e nível de dificuldade permitiu tornar visíveis as diferenças entre os métodos e aproximá-los de contextos concretos do exercício profissional. Ao mesmo tempo, a própria filtragem exige cautela: um método pode deixar de integrar o conjunto final por não atender a um dos critérios estabelecidos para este recorte e, ainda assim, conservar grande pertinência em determinados contextos e situações projetuais. Do mesmo modo, o domínio dos critérios de classificação pode apoiar a consideração de outros métodos que não integraram a classificação de Noebauer (2016), desde que suas funções sejam compreendidas e se mostrem adequadas às necessidades de determinado processo projetual. Assim, esta seção considera duas possibilidades de ampliação do repertório: (1) métodos pertencentes à classificação, mas que não permaneceram entre os 11 selecionados; e (2) procedimentos, externos a ela, que possam contribuir para o processo de projeto com foco na pessoa idosa.

O método Poema dos Desejos (M31) permite evidenciar a primeira dessas situações. Embora faça parte dos 40 métodos participativos classificados por Noebauer (2016) e apresente condições favoráveis de aplicação nos Contextos Projetuais 01 e 02, não permaneceu entre os 11 métodos resultantes da seleção realizada neste artigo. Sua exclusão decorreu especificamente do critério de função: para produzir um refinamento maior do conjunto, foram priorizados métodos que desempenham 3 ou 4 funções, enquanto o Poema dos Desejos (M31) desempenha 2. Esse resultado não indica menor pertinência ou menor potencial de contribuição do método, mas constitui apenas uma consequência do recorte estabelecido para esta análise.

Criado por Henry Sanoff e denominado originalmente Wish Poem, o Poema dos Desejos propõe que os participantes expressem livremente seus desejos em relação a um ambiente, por meio da escrita ou do desenho (Sanoff, 1991). Noebauer (2016) adaptou sua aplicação à prática profissional, convidando os participantes dos processos de projeto que conduzia a imaginar o ambiente desejado sem limitações financeiras, de tempo ou de espaço. A autora destaca sua facilidade de aplicação, bem como a abrangência e a profundidade das informações obtidas, características que levaram à utilização do método nos 4 estudos de caso realizados em sua pesquisa. Os resultados produzidos também puderam alimentar etapas posteriores de tratamento e síntese das informações, sendo incorporados ao Mote Criativo.

Em estudo voltado à concepção de uma habitação com cuidados continuados para pessoas idosas com Doença de Alzheimer (DA), Noebauer e Habitzreuter (2020) adotaram, como fundamento para a caracterização da modalidade habitacional a ser projetada, a conceituação desenvolvida por Silveira (2019), que diferencia possibilidades de habitar segundo as condições de independência e os níveis de assistência necessários. Segundo Silveira (2019), a habitação com cuidados continuados caracteriza-se pelo caráter residencial e acolhedor associado a elevado nível de assistência à dependência. Essa compreensão orientou a concepção projetual adotada por Noebauer e Habitzreuter (2020), por não reduzir essa modalidade à institucionalização de longa permanência.

O estudo também permite observar uma situação particular quanto ao acesso aos usuários. Por se tratar de um Trabalho de Conclusão de Curso e, portanto, de uma proposta projetual ainda inexistente, não havia acesso aos futuros usuários reais daquela habitação, condição correspondente ao GAP-U D. Segundo Noebauer (2016), essa condição não precisa significar ausência de participação. Nesse tipo de contexto projetual, onde o GAP-U é D, ou seja, nulo, a aplicação do Poema dos Desejos pode ter como suporte o método Painel de Especialistas (PE), não integrante da classificação proposta por Noebauer (2016). Elali e Pinheiro (2013) definem o PE como um levantamento da opinião de pessoas consideradas capazes de contribuir para a elucidação das questões envolvidas no foco da pesquisa. A especialidade dos integrantes pode estar relacionada aos ambientes ou situações de interesse, às pessoas pesquisadas ou aos fenômenos ou conceitos abordados. Essa característica torna o método propício para auxiliar na escolha de uma amostra variada e relevante.

Diante da impossibilidade de acessar os futuros usuários reais daquele processo de projeto, foi constituído um Painel de Especialistas (PE) com 10 participantes selecionados por sua proximidade com pessoas com Doença de Alzheimer (DA), seja por parentesco, seja pela atuação profissional relacionada a esse público. O grupo reuniu familiares, médicos, fisioterapeutas, técnicos de enfermagem, administradores de Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI), arquitetos e urbanistas, compondo uma amostra variada de participantes vinculados a diferentes categorias de usuários de ambientes dessa natureza. Embora as pessoas idosas com DA constituíssem o público-alvo principal, suas condições clínicas impossibilitavam a participação direta, enquanto a amostra do PE poderia contribuir a partir de experiências distintas de convivência, cuidado, atendimento e uso desses ambientes, aportando conhecimentos oriundos da convivência, do cuidado, do atendimento profissional e da experiência com ambientes destinados a pessoas idosas com DA.

Aos participantes propôs-se imaginar, sem limitações de tempo, espaço ou recursos financeiros, como seria um local ideal para acomodar uma pessoa idosa acometida pela Doença de Alzheimer, podendo a resposta ser apresentada por meio da escrita ou do desenho. As informações obtidas complementaram aquelas produzidas pelas demais aproximações realizadas na pesquisa e evidenciaram, especialmente, a valorização de áreas livres e do contato com a natureza, a humanização dos ambientes, os cuidados relacionados ao atendimento de saúde e as possibilidades de socialização (Noebauer; Habitzreuter, 2020).

A experiência evidencia, portanto, que o número de funções desempenhadas por um método constitui um critério útil para sua classificação e para o refinamento de uma seleção, mas não representa uma medida absoluta de sua pertinência. O Poema dos Desejos não permaneceu entre os 11 métodos porque o recorte adotado privilegiou maior multifuncionalidade, e não porque se mostrasse inadequado à investigação das necessidades e dos anseios relacionados aos usuários. Sua aplicação nesse estudo demonstra que um método relativamente simples pode produzir informações relevantes quando escolhido de acordo com aquilo que se pretende conhecer e com as características do contexto e da situação projetual.

Além de reafirmar a pertinência de um método que não permaneceu na seleção realizada neste artigo, essa experiência evidencia que procedimentos não integrantes da classificação original, como o Painel de Especialistas (PE), podem ampliar o repertório disponível quando sua função responde às necessidades de determinado contexto projetual. Assim, a articulação entre os conhecimentos sobre envelhecimento, graus de dependência e possibilidades de habitar, percepção e significado do lar para a pessoa idosa, sistematizados por Silveira (2019), e os conhecimentos sobre métodos participativos de projeto e critérios de sua classificação, propostos por Noebauer (2016), amplia a compreensão do contexto projetual e oferece ao projetista maior domínio para realizar escolhas situadas, inclusive para considerar procedimentos que não integrem a classificação original.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo de identificar métodos participativos com potencial contribuição para a concepção de ambientes habitacionais voltados às pessoas idosas foi atendido por meio da articulação de conhecimentos sobre relação pessoa-ambiente, envelhecimento e possibilidades de habitar com critérios de classificação desses métodos. Os resultados evidenciam que essa escolha depende da compreensão do contexto projetual, incluindo as características das pessoas envolvidas, as condições de acesso dos projetistas aos usuários, bem como daquilo que o projetista precisa conhecer em cada processo.

Mais do que indicar 11 métodos, o estudo demonstra a importância de ampliar o repertório do projetista sobre tais métodos, para que compreenda as funções, possibilidades de combinação e exigências dos diferentes procedimentos. A seleção apresentada não constitui, portanto, uma lista prescritiva: métodos que não permaneceram no recorte podem ser pertinentes em recortes menos restritivos, por exemplo, na escolha de um método que pode não acumular 3 ou mais funções, mas que cumpra com maestria uma ou duas funções. E como também se mostrou, outros procedimentos podem ser incorporados quando contribuírem para aproximar o processo de projeto das experiências, das necessidades e anseios dos usuários, neste caso, em especial, de pessoas idosas.

Como limitação, os contextos projetuais construídos são exemplares e não abrangem a diversidade de situações possíveis na prática profissional. Estudos futuros podem aplicar e avaliar diferentes combinações de métodos em processos reais de projeto, envolvendo pessoas idosas com distintos graus de dependência, condições de habitar e possibilidades de participação.

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1 Mestra em arquitetura e urbanismo. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestra em arquitetura e urbanismo. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutora em arquitetura e urbanismo. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail