LUGAR E MEMÓRIA EM "QUARENTA DIAS, DE MARIA VALÉRIA REZENDE"

PLACE AND MEMORY IN "FORTY DAYS, BY MARIA VALÉRIA REZENDE"

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781748456

RESUMO
Este artigo objetiva analisar a memória a partir da personagem Alice, protagonista da obra Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende, evidenciando a memória coletiva, a qual parece passar sempre pelo filtro da memória individual, e, nesse caso, debruçando-se na perspectiva apresentada pelos estudos de Maurice Halbwachs, Michael Pollak. Além disso, demonstrar de que forma podemos verificar a presença da espacialidade e lugar, explorados no romance. Para tanto, este trabalho investigativo é pautado nas contribuições de Yi-Fu Tuan. Um diálogo marcado pelas descobertas, mas também ressignificação do espaço. As divergências e até surpresas são elaboradas com maestria proporcionando ao leitor uma viagem única a Porto Alegre. Um romance que apresenta uma dicotomia magnífica- denúncia e reflexão. A ‘’brasileirinha’’ desperta um encontro literário, por meio do lugar e da memória, de modo enriquecedor com uma escrita leve que somente Maria Valéria Rezende consegue revelar.
Palavras-chave: Literatura; Lugar; Memória; Maria Valéria Rezende; Quarenta Dias.

ABSTRACT
This article aims to analyze memory through the character Alice, protagonist of the work Forty Days, by Maria Valéria Rezende, highlighting collective memory, which always seems to pass through the filter of individual memory, and, in this case, focusing on the perspective presented by the studies of Maurice Halbwachs and Michael Pollak. In addition, it demonstrates how we can verify the presence of spatiality and place, explored in the novel. To this end, this investigative work is based on the contributions of Yi-Fu Tuan. A dialogue marked by discoveries, but also a re-signification of space. The divergences and even surprises are masterfully crafted, providing the reader with a unique journey to Porto Alegre. A novel that presents a magnificent dichotomy - denunciation and reflection. The "little Brazilian girl" awakens a literary encounter, through place and memory, in an enriching way with a light writing style that only Maria Valéria Rezende can reveal.
Keywords: Literature; Place; Memory; Maria Valéria Rezende; Forty Days.

1. INTRODUÇÃO

Os estudiosos, críticos da teoria literária, em geral, afirmam que literatura é a arte da palavra. De fato, essa definição é bastante aceita no âmbito da crítica literária, há quem diga, ainda, que ‘’ a literatura desenvolve em nós a quota da humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos à natureza, à sociedade e ao semelhante’’. (Antonio Candido).

É nesse cenário que compreendemos o papel social; enriquecedor que a literatura exerce na vida de um cidadão, como também de uma nação. Para Erza Pound ‘’a literatura é a linguagem carregada de significados’’. Porém, faz-se necessário refletirmos também quando é literatura. Eis a recomendação de Antoine Compagnon, na obra o demônio da teoria. Vale ressaltar o pensamento de um dos maiores nomes da Língua Portuguesa, Fernando Pessoa, definir literatura é tarefa árdua. Segundo Pessoa, ‘’podemos especular, mas jamais afirmar categoricamente o que ela é’’.

Nessa seara, Coelho apresenta uma valiosa contribuição sobre a literatura. Conforme Coelho (2000)

Desde as suas origens, a Literatura aparece ligada à função essencial de atuar sobre as mentes, nas quais se decidem as vontades ou as ações, e sobre os espíritos, nos quais se decidem as vontades ou as ações, e sobre os espíritos, nos quais decidem as emoções, paixões, desejos, sentimentos de toda ordem. No encontro com a Literatura, os homens têm a oportunidade de ampliar. Transformar ou enriquecer sua própria experiência de vida em grau de intensidade não igualada por nenhuma outra atividade. (Coelho,2000,p.29)

Logo, compreendemos a grandiosidade desse termo, além disso, a sua importância, sobretudo a vasta contribuição para a variedade de textos e gêneros literários existentes na construção de uma historiografia literária.

Diante disso, Afrânio Coutinho, promove uma discussão daquilo que não é literatura, uma discussão extremamente necessária. Coutinho afirma que:

‘’Dessa forma, distingue-se claramente literatura o que é o que não é literatura, e ficam excluídas muitas atividades do espírito, que outrora, segundo a poesia neoclássica, se consideravam os ‘’ gêneros literários: o jornalismo, a história, a conversa, o gênero didático e gênero mistos, sem falar até na filosofia, os quais, informando, ensinando, construindo sistemas de explicação do mundo, escapam ao objetivo especificamente literário que é comunicar prazer’’. (Coutinho, 1997, p. 50).

A literatura exerce um papel singular ao ‘’ realizar registros’’, histórias e memórias da sociedade, portanto destacamos a vasta literatura brasileira e, nesse sentido, por intermédio da literatura, a qual oferece um meio de preservar a memória e identidade cultural com enfoque na literatura, como pontua Candido (1992):

[...] A literatura é o sonho das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio sem social sem a literatura. Deste modo, ela é o fator indispensável de humanização, e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade.

Diante do exposto, é importante destacar A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov, foi publicado na França em 2007 e aqui no Brasil em 2009. Nesta obra, o autor faz uma crítica ao estudo da literatura, particularmente na França, e comprova-se o quanto pode ser aplicado ao estudo desta disciplina, em nosso país. Neste viés, a professora Lígia Chiappini, do Departamento de Teoria Literária e de Literatura Comparada da USP, afirma que:

[…] O ensino de literatura se limita na maior parte das vezes a traçar panoramas de tendências e escolas literárias, de modo esquemático e desconectada do trabalho analítico e interpretativo. O ensino de língua e literatura se apresenta também de forma inteiramente separada e, se no ensino fundamental, quem conduz alunos e professores é o livro didático, no médio são as apostilas que nada mais são do que compilações de vários deles. (Chiappini, 2002, p.8)

Sendo assim, o homem, a fim de demarcar seu estar no mundo e na vida, dentre muitas possibilidades, procura compreender as relações sociais, suscitando sobre elas algumas reflexões. Esse processo se realiza quando ele busca entender o circundante e as exigências do cotidiano. ‘’ Eu respirei o mundo inteiro, e isso entrou pelos meus cinco sentidos. Há uma variedade de lembranças, sensações, impressões... e é com isso que eu construo a minha literatura’’.Maria Valéria Rezende.

Para melhor abordagem do tema em questão, o presente trabalho secciona-se em três capítulos. O primeiro discorre sobre a memória no romance, ou seja, de que maneira podemos compreender e evidenciar ao longo da obra a memória coletiva e individual que é explorada em Quarenta dias. Nesse sentido, trazemos alguns trechos do romance, espaços em que é possível visualizar de que forma a protagonista Alice declara as memórias pela cidade; família, discutindo alguns temas- foco principal deste estudo.

O segundo, uma abordagem sobre a memória e de que forma podemos observar a mesma no romance. Para tanto, dividimos esse capítulo em especial, além do que, apresentamos as classificações da memória exploradas na narrativa, de modo que possa comprovar a relevância dos estudos dos teóricos sobre o assunto.

O terceiro, por sua vez, apresenta a influência dos estudos de Yi-Fu Tuan, de modo que possibilite um diálogo com a memória estabelecida ao longo da narrativa. Nesse capítulo, escolhemos alguns trechos da obra para proporcionar uma análise e compreensão deste estudo.

2. A MEMÓRIA E O ROMANCE QUARENTA DIAS

A composição da memória na obra Quarenta dias apresenta uma marca indissociável da composição narrativa. Ora, a narradora-personagem se debruça nas memórias para contar a narrativa. Além disso, a memória serve como base para registrar a escrita, por meio do olhar da protagonista Alice. Em A Memória Coletiva , Maurice Halbwachs adverte que é impossível construir um problema da evocação das lembranças, caso não tivermos como parâmetro os elementos presentes nas relações sociais para a reconstrução da memória, pois ela constitui um dos fundamentos e maneiras pelas quais estabelecemos a nossa história.

As memórias demonstradas no romance de Maria Valéria Rezende são evidenciadas não apenas pelas lembranças que a narradora-personagem conta ao apresentando suas inquietações; angústias, principalmente durante a sua peregrinação em Porto Alegre, mas também detectamos que a memória é latente na composição estética do romance Quarenta dias, pois ao longo da narrativa evidenciamos a alternância de capítulos expressos no diário de Alice, a qual revela o passado e presente, de tal forma que a voz da personagem se faz ouvir em diferentes níveis, ou seja, a respeito dessa alternância entre o tempo da rememoração e da enunciação se faz de modo bastante recorrente.

Este caderno de ninguém e esta estereográfica barata que a Milena largou aqui são exatamente do que eu preciso. Um alívio, uma tarefa e coisas familiares pra antiga professora, uma fresta por onde respirar e deixar entrar alguma luz, volta a pensar, com certa clareza, reencontrar as palavras, minhas velhas ferramentas de trabalho. Me tranquiliza. (Rezende,2014,p.14).

Conforme a personagem Alice, nota-se que a obscuridade sentida ao longo da sua peregrinação em Porto Alegre, reforça a necessidade de ‘’dialogar’’ com o seu caderno, apoiando-se na escrita na tentativa de romper a solidão sentida por Alice. Por isso, no trecho acima, é notório que Alice é envolvida pela leveza; paz ao retornar a prática da escrita. Promovendo efeitos de imagens remanescentes que abarcam através da memória. Por isso, o caderno desencadeia o desejo pelo diálogo constante com o outro, a Barbie. Observe:

Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá pra fazer meia-volta-volver. Mas tento, por isso deixo quieto lá no quarto-de-hóspedes-escritório o meu dinossauro eletrônico tão bem conservadinho e quero mesmo é o manuscrito, deixar escorrer tudo direto do corpo pra caneta e pro papel. A única coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo pra sempre. Será? (Rezende,2014,p.18)

A paixão pela escrita é o refúgio de Alice e a solução para ressignificar suas lembranças, pois, após sua chegada em Porto Alegre, Alice vivencia conflitos interiores e refém da solidão. Invisível! Esquecida em um apartamento e posteriormente em não-lugares, Alice se sente marginalizada e infeliz. ‘’ E cá estou de novo metida nesta cozinha alheia, ‘’showroom’’ de móveis modernosos, com minha angústia e meu desacerto’’ (REZENDE, 2014, p.23). O sentimento de profunda solidão é um convite a fuga desse apartamento e um ‘’passeio’’ pela cidade, portanto Alice torna-se uma moradora de rua por ‘’ quarenta dias de andanças ao léu’’. (REZENDE, 2014, p.45).

Estou aqui de novo, ninguém me viu, o porteiro deve estar ainda fazendo sua sesta clandestina em algum canto do prédio e me sinto mais segura assim, quando ninguém me vê, invisibilidade defensiva que aprendi nas ruas. E vamos lá, Barbie, prefiro você que certamente não vê nada, com seus olhos de tinta e papel, tenha paciência comigo. (Rezende, 2014, p.46)

Assim sendo, Alice decide retornar ao apartamento e realiza uma limpeza em sua memória. Sim! Ela recompõe todas as experiências e impressões que alcançou nas ruas; becos, vielas de Porto Alegre e convida o leitor atento a segui-la através da escrita em seu diário, evidenciada com as marcas as quais conduziram a personagem Alice durante os quarenta dias.

Desse modo, podemos compreender que o ato de escrever para ela é também uma ferramenta de rememoração, porque Alice sentiu solidão e foi silenciada pela filha Norinha. Alice, percebe que não consegue mais conversar com a sua filha e, assim, olha para o diário como o seu próprio confidente. Observe:

Sei lá!, a isso, sim, eu resisti até o fim, agarrei-me com o caderno como a uma boia, vai ver que foi só mesmo pra dizer não a alguém, fincar a pé contra mais uma vontade alheia querendo tomar o controle da minha vida, já escapando feito água usada pelo ralo que me decidi, ou cedi? O caderno veio[...] pra me resgatar do meio dessa confusão que me engoliu. (Rezende,2014,p.9)

Faz-se necessário destacar que Alice também rememora um passado, o qual desencadeia mágoas, cicatrizes profundas e originam um comportamento no presente de culpa, revolta e tristeza, pois Norinha obriga a sua própria mãe a vivenciar tal lembrança:

Foi pela cicatriz que ela me pegou e não largou mais, chantageando: por minha culpa ela tinha crescido praticamente sozinha, eu me ausentava, só pensando em trabalhar pra esquecer a tragédia da minha juventude, ela não tinha culpa de nada, fui eu que nem tive coragem de recomeçar a vida, de lhe dar um novo pai, que ela, a bem- dizer, nunca teve nenhum, não lhe dei irmãos, eu nem imaginava como doía ver Umberto, eufórico, assando churrasco sua enorme filha gaúcha, o bando de irmãos que ele tinha, os sobrinhos, os pais, um casal feliz e realizado, recebendo a todos de braços abertos, inclusive a ela, mas não era a mesma coisa, não eram do mesmo sangue, ela se sentia sempre uma estranha no meio deles, e agora eu ainda queria que ela enfrentasse sozinha o desafio de ter filhos?, e os filhos dela iam crescer numa família alheia sem o traço da família da mãe, longe e ignorantes das raízes dela? (Rezende, 2014,p.27)

2.1. Entrelaçando a Memória

Ao lermos a obra Quarenta dias, conseguimos observar ambientes; situações ‘’ atípicas’’ e por que não dizer inquietantes. Ora, um texto manuscrito que desencadeia experiências únicas através da personagem principal: Alice. O enredo que será analisado, apresenta a professora aposentada, a qual mora em em João Pessoa, Paraíba. Norinha, filha de Alice. Norinha, mora em Porto Alegre e decide que irá ter uma criança, mas irá entregar a sua mãe tamanha tarefa. Por isso, antes da gestação, Norinha vende os pertences da sua própria mãe, de tal modo que a obriga nessa mudança ‘’caprichosa’’. Um conflito iniciado. Ou seja, um deslocamento que provoca estranheza, concomitantemente a inserção em um cenário de pobreza. A busca incessante por um personagem- Cícero Araújo. Uma história com diversos elementos e surpresas dentro da cidade Porto Alegre.

Nesse contexto, Alice consegue resgatar somente um caderno antigo que na sua capa apresenta a boneca Barbie. Um caderno que posteriormente torna-se um diário – elemento relevante na obra, pois ao longo de toda a narrativa percebemos os relatos, desabafos e medos que a personagem Alice enfrenta em seu novo espaço. Após a sua chegada, Alice é surpreendida mais uma vez, pois descobre que a filha ainda não está gestante, pelo contrário, Norinha e Humberto (antagonistas da história) estão indo estudar na Europa, logo Alice ficará sozinha em uma cidade que não conhecia.

Por esse motivo, Alice que estava inconformada e entregue a solidão, decide procurar Cícero, filho de uma conhecida. Um rapaz que há anos trabalhava no Sul, entretanto não mantinha contato com a sua mãe. Diante disso, Alice procura o personagem e se perde passando quarenta dias, caminhando em toda a cidade-periferia; becos, ladainhas e conhecendo pessoas subalternas, mas também alegres, desconhecidos que são reféns da violência; abandono social em uma cidade que não é tão diferente das outras cidades. Nesse contexto, podemos verificar um lugar que fomenta memórias e nutre pensamentos de reflexão, mas também revela um olhar crítico e poético sobre a realidade que a cerca.

‘’ São de, afinal, quase nada a ver de tão estranho assim neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros Gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidades’’. (Rezende,2014, p. 81)

A personagem Alice foi produzida por uma das melhores escritoras da literatura nacional contemporânea: Maria Valéria Rezende a qual nasceu em São Paulo, entretanto viveu na Paraíba na década de 70. A professora-aposentada; escritora, freira, missionária e atuante nas pautas feministas e na esfera política. Por meio dessa obra, Maria Valéria Rezende recebeu o prêmio Jabuti (2015), um dos prêmios mais importantes da literatura brasileira. Militante associada a causas sociais na Ditadura Militar e decidiu viver a literatura para escrever e contar a experiência da sua personagem Alice em Quarenta dias (2014).

É nesse cenário que Alice constantemente visita o passado através de memórias melancólicas e até dolorosas que perturbavam a sua história. Pois, Alice se debruça na escrita memorialística registrando as suas experiências no diário, o qual ela dialoga constantemente ao longo da narrativa. Ou seja, a memória na escrita da narradora-protagonista. A memória que constrói e reconstrói suas vivências do passado com o presente. Assim sendo, Alice ao contar suas experiências em Porto Alegre quebra o silêncio, a solidão criados pelo abandono da sua filha Norinha. Para o crítico e teórico Michael Pollak: ‘’A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementariedade, mas também as posições irredutíveis.’’(Pollak,1989, p.9).

Ora, existe uma reconstituição da história por meio da memória. Para episódios que buscam na memória as respostas enquanto sujeito, pois, por meio dela o homem consegue construir e desconstruir, rememorar e reforçar o que se sabe de acordo com determinado acontecimento. Desse modo, existem diversas classificações no campo da memória, tais como: memória individual; memória coletiva; memória biológica; memória; memória histórica; cada uma neste universo possibilita, um refazer e um perpetuar de componentes culturais. (Halbwachs, 1990). Porém, mesmo com a diversidade de memórias, neste trabalho, nossa perspectiva se apoia na memória coletiva e memória individual.

Conforme o teórico Maurice Halbwachs (1990), apresenta que para ratificar do passado, podemos associar nossas rememorações com as de outras pessoas, contudo, sabemos é habitual que o relato de um mesmo acontecimento pode apresentar pontos de vista diferentes.

Desse modo, o foco na busca desses relatos não deve ser para o que está em desacordo entre um e outro, mas para aquilo que os aproximam. A rememoração de um indivíduo quando somada com a de um outro ajuda na reconstrução dos fatos a ponto de torná-lo inteligível por qualquer um dos que estiverem envolvidos naquele momento, caso este seja o enfoque desejável. (Halbwachs, 1990)

Muitas lembranças surgem por conta dos relatos dos outros, mas isso só não implica em dizer que a memória só se refira a acontecimentos que, de fato, foram vivenciados. A memória não está restrita à presença dos acontecimentos; o estudo da história da humanidade é um exemplo que isso comprova; muitos dos acontecimentos tidos como de suma relevância para a humanidade; que ainda hoje são de tal forma, não foram meramente presenciados por muitos, mas por terem servidos e tidos de tal forma, não foram meramente presenciados por muitos, mas por terem sidos e tidos por relevância, por algum aspecto em específico o faz deixar seu registro e a memória como sendo um destes; pois quando estes fatos são rememorados, eles passam a compor elementos que podem construir a identidade da sociedade. (Halbwachs, 1990).

Diante disso, faz-se necessário ressaltar que a memória coletiva perpassa a memória individual. Para o autor, podemos comentar sobre a memória coletiva quando rememoramos um acontecimento ocorrido, por exemplo, em uma época anterior e a lembrança dessa época conserva o elo de pertencimento, pois concomitantemente a memória consegue registrar as experiências vividas em grupo, as individuais também serão registradas.

Logo, podemos compreender que as lembranças têm a sua gênese numa relação dos aspectos individuais com a coletividade, por isso a memória coletiva não é dissociada da memória individual. Ora, o teórico francês, afirma que raramente encontramos lembranças que ‘’ nos conduza a um momento em que as nossas sensações fossem apenas o reflexo dos objetos exteriores, no qual não misturávamos nenhuma das imagens, nenhum dos pensamentos que nos prendiam aos homens e aos grupos que nos rodeavam.’’. (Halbwachs,1990,p.25) O teórico e crítico literário enfatiza as funções positivas elencadas com base no que há de comum nas memórias, gerando a sociabilidade, logo, quanto mais os acontecimentos estiverem sendo rememorados e as convivências forem trocadas, mais elas estarão próximas da memória. A respeito dessas relações, Halbwachs afirma:

Por vezes, essas relações ou contatos são permanentes ou então, em todo caso, se repetem muito frequentemente, se prolongam durante uma duração bastante longa. ‘’Por exemplo, quando uma família viveu durante muito tempo numa mesma cidade, ou na proximidade dos mesmos amigos, cidade e família, amigos e família, constituem como que sociedades complexas. Então nascem as lembranças, compreendidas em dois quadros de pensamentos que são comuns aos membros dos dois grupos. Para reconhecer uma lembrança desse gênero, é preciso fazer parte ao mesmo tempo de um e de outro. É uma condição que é preenchida, por uma parte dos habitantes da cidade, por uma parte dos membros da família.’’(1990,p.30)

Diante do exposto, entende-se que a memória provavelmente reforça os elos de época diferentes. Pollak (1989), com a sua ótica, apresenta outra vertente, para ele, a rememoração do que se quer conservar do passado, integra-se na busca de reforçar sentimentos; afinidades em grupos e ou camadas sociais nos diversos contextos, portanto a rememoração do passado coopera de forma significativa para manter a relação direta entre grupos que fazem parte da nossa sociedade.

A memória mantém o inter-relacionamento social e além disso, propõe a difusão do que o grupo divide socialmente. Além disso, ela ajuda na manutenção de identidades em comum, haja vista, por exemplo, que a conduta de uma geração muito comumente influencia a outra. É o que afirma Pollak (1989,p.9) associa a ‘’ fornecer um quadro de referências’’ e de ponto de referências; para ele, todo trabalho de memória de grupo tem um ponto de limite, pois a memória, conforme Pollak não pode ser construída arbitrariamente, ela deve abarcar a ideia de satisfação.

‘’Esse material pode ser sem dúvida interpretado e combinado a um sem número de referência associadas; guiadas pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais, mas também de modificá-las, esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do presente e do futuro’’. (Pollak, 1989, p.8).

Por conseguinte, a subjetividade individual fortalece a memória do grupo. No entrelaçamento entre memória coletiva e a memória individual, temos que o enquadramento pode ser verificado em vários objetos e bens materiais que compõem os círculos sociais, como os monumentos, museus, bibliotecas, etc. (Pollak,1989). Desse modo, a memória é conservada em diversos contextos do pensamento. Para Michaell Pollak (1989,p.9), as memórias coletivas ‘’ acontecem como ingrediente importante para a perenidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade’’. De acordo com Maurice Halbwachs: ‘’ Se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre a nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa vocação será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias. (HALBWACHS,1990,p.25). Observando a visão dos teóricos, sobretudo a ótica apresentada por Maurice Halbwachs, podemos enfatizar que a memória colabora para a nossa formação de dados que constituem a história dos indivíduos, de tal modo que fortalece e se permite tão presente aquilo que o tempo cronológico aponta como distante.

2.2. Atravessando as Estradas da Memória em Quarenta Dias

O romance Quarenta dias apresenta elementos memorialísticos, pois a narrativa revela um tom confessional, que Alice revela suas memórias através do seu caderno e ou diário, sobretudo com as memórias mais novas, desde a sua ‘’mudança’’.Segundo Maurice Halbwachs, a memória serve para manter e fortalecer os laços sociais, os costumes, valores sociais, elementos socioculturais. Podemos compreender que a ideia de memória configura-se como uma dualidade, ao estar relacionada tanto ao caráter individual quanto ao caráter coletivo. (Ricouer, 2007). Em Quarenta dias, a rememoração apresentada pela personagem Alice, aponta para os elementos memorialistas apresentados por Maurice Halbwachs (1990), os quais mesmo que alguns parentes não estejam presentes fisicamente, suas lembranças reaparecem porque sua memória é rememorada por outras pessoas. Para o teórico, é dos sujeitos mais antigos ‘’ e mais do que de seus familiares mais próximos, que as crianças recebem o legado dos costumes e das tradições de toda a espécie.’’ (Halbwachs, 1990,p.44). Nessa linha de pensamento, Maria Valéria Rezende, em sua obra Quarenta dias escreve:

‘’Que nada, Barbie, afinal não consegui ficar horas debaixo do chuveiro, nem meia hora. Preciso escrever pra que não sufocar agora, assim mesmo, escrevendo à mão, sentada à mesa da cozinha, cercada de pedaços de papel amassado, até sujo, que ajuntei pelas ruas pra fazer anotações atrás, como esses que já copiei frente e verso aqui, a coletânea bilíngue de poemas do Borges, catada num selo sebo e ensebada mesmo, algumas páginas arrancadas de livros velhos, mias três fotografias de desconhecidos, o telefone celular do morto, sempre mudo, que ninguém reclamará, e, projetadas pela minha memória ainda recente e recendendo a humanidade ou inumanidade?, as caras de todos eles por toda parte; nas paredes, no chão, no teto, no fogão, na porta da geladeira, no guarda-louça.’’(Rezende,2014, p.16)

Com base nos estudos de Halbwachs, lembranças individuais se entrelaçam, porque múltiplos acontecimentos fazem parte do nosso social: ‘’ somos arrastados em múltiplas direções, como se fosse um ponto de referência que nos permitisse situar em meio à variação contínua dos quadros sociais’’.(Halbwachs, 1990, p.37) Para ele, esses dois tipos de memórias são indissociáveis. Nas palavras de Maurice Halbwachs:

A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que nos resta do presente. Ou, se dissermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo e onde é possível encontrar um grande número dessas correntes antigas que haviam desaparecido somente na aparência. Se não fosse assim teríamos nós o direito de falar em memória, e que serviço poderiam nos prestar quadros que substituiriam apenas em um estado de informações históricas, impessoais e indesejadas? Os grupos, nos seios dos quais outrora se elaboraram concepções e um espírito que reinara algum tempo sobre toda a sociedade, recuam logo e deixam lugar para outros, que seguram, por sua vez, durante certo período o cetra dos costumes e que modificam a opinião segundo novos modelos. (1990, p.45)

Nessa perspectiva, o teórico pontua que a memória individual é um desdobramento da memória coletiva; entretanto, por mais que a memória coletiva se adeque como suporte para o momento atual, sobretudo no que engloba os valores; normas que formam a identidade dos indivíduos, entendemos que a interface sobre a memória coletiva não são processos homogêneos, logo a memória coletiva/histórica pode sofrer mudanças de acordo com a variação das gerações.

Conforme Halbwachs, à medida que o indivíduo cresce, e torna-se adulto, ele participa de modo mais ativo e reflexivo da vida, e dos pensamentos dos grupos, os quais fazia parte e nutria tais pensamentos em inicialmente perceber: ‘’[...] A lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções em épocas anteriores’’. {...]. (Halbwachs,1990,p.48). Dessa forma, podemos verificar no seguinte trecho da narrativa:

‘’ Ontem á noite, saí daqui da cozinha feito bêbada, achando que ia cair na cama e dormir como uma pedra. Que nada! , o sono da pedra não durou nem duas horas, o resto da noite foi uma batalha sem trégua, aquela gente toda e eu mesma, fora de mim, outra Alice nos pesadelos, numa sarabanda da qual eu não consegui escapar, até o sol entrar pela janela, largada aberta sem querer, e me acordar no meio de um redemoinho de lençóis amarfanhados, exausta e desarvorada, como ontem, anteontem, antes de anteontem, antes.

Ainda meio adormecida, fechei a janela e voltei pra cama, naquela madorna, já perto de acordar de vez, e então comecei a reviver cenas bobas, de muito tempo atrás, sem importância, completamente esquecidas, agora nítidas em sonho ou na minha memória?... coisas assim como o dia em que eu estava em um friozinho excepcional pra João Pessoa e resolvi fazer uma sopa quente pro jantar, aproveitando umas baroas que tinha achado no mercado. Batata-baroa, saudade do sítio do meu avó! , uma raridade na cidade, mais batata-inglesa, cenoura, cebola e caldo de galinha, tudo de bom! O cheiro da sopa no fogo já tinha impregnado a casa quando Nora chegou.

Vai fazer sopa hoje, Mainha? Que horas? Já está pronta, se quiser é so bater no liquidificador... Como nunca me esperava pra cear, pois ia correndo pra faculdade, apenas ouvi vagamente que estava mexendo na cozinha, enquanto eu assistia à novelinha das seis. Tão distraída com a novela, nem percebi que ela já tinha saído.

Tudo bem, até que fui tratar de pôr a mesa pra mim. Só tinha sobrado menos de uma concha rasa de sopa! Pasme, Barbie, ela tinha se servido na tigela de feijão. Fiquei danada, na hora, nada mais a fazer do que usar a imaginação... já eram quase sete e meia da noite. Então botei mais um copo d’água com uma colher de maisena, meio tablete a mais de caldo de galinha e cozinhei ali dentro de uma porção, de massinha pra sopa...que bom que tinha em casa! Tomei então o resultado, como se estivesse tudo normal, com apenas um leve gostinho de batata-baroa... mas quando ela voltou não dei um pio, pra não ser chamada de mão-de-vaca. Incrível eu me lembrar de tudo isso nos mínimos detalhes, até o cheiro da sopa! Acordei de vez com minha própria voz dizendo: amanhã compro mais.’’ (REZENDE, 2014,p.19)

3. LUGAR E NÃO-LUGAR NO ROMANCE QUARENTA DIAS

Para ter uma ideia da relevância dessa esfera nos estudos literários, Yi-Fu Tuan promove um estudo sobre o tema em questão. Os cinco sentidos estão diretamente relacionados na perspectiva espacial de cada sujeito, ao se correlacionar com lugar, por isso essa relação da personagem com o meio ambiente a qual está inserida também será explorada neste estudo.

Experiência é um termo que abrange as diferentes maneiras por intermédio das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade. Essas maneiras variam desde os sentidos mais diretos e passivos como o olfato, paladar e tato, até a percepção visual ativa e a maneira indireta de simbolização. (Tuan, 2015, p.13)

O geógrafo Yi-Fu Tuan, em sua pesquisa( Espaço e Lugar) realiza um estudo no que tange as potencialidades do ser humano para experimentar. Ele foi o responsável a disseminar reflexões sobre o lugar no mundo, na década de 1970. O pesquisador faz uma abordagem descritiva, em sua obra, traçando uma pesquisa etnográfica; geográfica, literária , humanista- a qual constitui-se um marco nos estudos sobre o tema abordado. Tuan propõe uma reflexão ímpar. Ora, de que maneira o ser humano se relaciona ou pode se relacionar com a própria natureza e sua prática com o objeto de um habitat mais humano. (Tuan, 2015).

Quando residimos por muito tempo em determinado lugar, podemos conhece-lo intimamente, porém a sua imaginação não pode ser nítida, a menos que possamos também vê-lo de fora e pensemos em nossa experiência. A outro lugar pode não faltar o peso da realidade porque o conhecemos apenas de fora- através dos olhos de turistas e da leitura de um guia turístico. (TUAN, 1988,p.22)

Yi-Fu Tuan (1980) no que se refere a noção de espaço, acrescenta com os seguintes questionamentos: ‘’Quais são as nossas visões de meio ambiente físico, natural e humanizado?

Como o percebemos, estruturamos e avaliamos? Quais foram, e quais são, os nossos ideais ambientais?’’ (Tuan, 1980,p.1) É nesse cenário que Tuan resume os seus conceitos declarando que:

Percepção é tanto a resposta dos sentido aos estímulos externos, como a atividade proposital, na qual certos fenômenos são claramente registrados, enquanto outros retrocedem para a sombra ou são bloqueados. Atitude é primariamente uma postura cultural, uma posição que se toma frente ao mundo. Ela tem maior estabilidade do que a percepção e é formada de uma longa sucessão de percepções, isto é, de experiências.

A visão do mundo é a experiência conceitualizada. Ela é parcialmente pessoal, em grande parte social. Ela é uma atitude ou um sistema de crenças; a palavra sistema implica que as atitudes e crenças estão estruturadas, por mais arbitrária que as ligações possam parecer, sob uma perspectiva impessoal (objetiva). (Tuan, 5)

Nessa perspectiva, podemos perceber que nas primeiras cenas do romance Quarenta dias, o enredo se debruça na viagem da narradora-personagem a qual leva um caderno, ou seja, o objeto no qual ela irá escrever suas caminhadas pela cidade Porto Alegre, observações e relato do que vivencia na cidade: ‘’ O caderno veio na minha bagagem por pura teimosia, mas com um destino oculto, tábua de salvação pra me resgatar do meio dessa confusão que me engoliu.

Talvez’’. (Resende, 2014, p.9). O romance cujo tema é o tempo passado nas ruas e faz referência ao deslocamento geográfico, ou seja, ao longo da narrativa, percebe-se que Alice é literalmente obrigada a sair da sua casa, vivência com os seus amigos na Paraíba e morar em Porto Alegre, com a sua filha Norinha, a fim de cuidar de uma criança a qual ainda não nasceu.

A composição narrativa se baseia em contextos simples. As cenas apresentadas proporcionam beleza estética e riqueza literária a medida que as ruas vão ganhando vida nos espaços da ambientação, consequentemente, relacionando-se com a temática de pensar nesse espaço.

‘’ Pronto, my friend, viu que promovi você a ‘’friend’’, Barbie? Saí andando, pensando em tudo o que ainda preciso escrever pra não sentir mais aquele frio na barriga, aquele aperreio que me dá quando me vejo de novo na rua, como se ela me agarrasse e não quisesse mais largar, arrastando-me, rua rio de novo. [...] Acho que meus quarenta dias de loucas andanças me tornaram uma atleta.’’ (Rezende,2014, p.65)

Alice representa o olhar com base na perspectiva do visitante. A rua ao lado é comparada ao mar. A imagem do mar remete a imensidão, por isso o sentimento de criar formas ao perceber esse espaço. Alice percorre por quarenta dias em busca de Cícero Araújo, conhecendo lugares que afloram lembranças e até choques culturais, afinal Alice está em um ambiente estrangeiro. ‘’ O espaço seria, em primeiro lugar, aquilo que podemos perceber ´por meio de nosso corpo. O espaço que ocupo seria, especialmente, aquele que vejo’’. Nessa linha de pensamento, Tuan pontua que: ‘’ O ponto de vista, do visitante pode ser simples, é facilmente enunciado. A confrontação com a novidade, também pode levar a manifestar-se’’. (Tuan, 1980, p.73) Por fim, são as emoções que fornecem a palheta das cores a toda a experiência humana, a contar pelos níveis altos do pensamento. (Tuan, 2015). Assim sendo, Alice apresenta um quadro de descobertas ao observar o pôr do sol e o nome das ruas:

‘’Eu que sempre achei uma bússola na ponta do nariz, não conseguia me orientar nesta terra onde o sol está sempre perdendo pra algum lado impossível de identificar.
(Rezende, 2014 , p.97)

[...]

Só depois fui aprendendo que aqui as avenidas são andróginas: a Bento, a Borges, a Protásio, a Sertório, a Nilo e por aí vai.’’
(Rezende, 2014, p.98)

De um lado, verifica-se que há um estranhamento voltado para a desorientação na cidade, que segundo Tuan (2015), o espaço é dado pela capacidade de se movimentar. Por outro lado, a narradora do romance, apresenta uma gama de sentidos e significados para permanecer existindo na cidade, logo: ‘’Ontem descansei um bocado, estirado no sofá branco e agarrada com um livro, lendo o que os outros contaram. Fiquei imaginando o quanto lhes custou escrever ou se, como eu, escreveram pra desabafar e se aliviar. Agora é minha vez.’’ (Rezende, 2014, p.127).

Vale ressaltar que Bachelard (1993), a casa é o local que acolhe o devaneio, como um lugar seguro e de pertencimento, o que não acontece no apartamento para Alice, pois ela considera que esse lugar protetor seria a sua própria casa em João Pessoa. Leia:

‘’ Emburaquei pela viela, Alice em novo buraco, dentro de outro buraco, de outro...

O vão se alargava um pouco, logo adiante, barracos, dos dois lados, tralhas de todo tipo sob os telheiros junto às portinhas, decerto catadas nas ruas da vizinhança, eu de volta aos becos da Maria Degolada, despejando, de porta em porta, a versão enriquecida e mais dramática da história de Cícero Araújo recriada na terra da santa, ouvida com um ar penalizado por muitas mulheres. [...] Senta um pouco, mulher, tu deve de estar cansada’’. (Rezende, 2014, p.106)

Perceba que Alice mais uma vez se refere ao ato de adentrar pela cidade, como adentrar em um buraco, pois a sua procura por Cícero não lhe traz resultados e nem respostas sobre o seu paradeiro, por isso ela caminha pela rodoviária (não-lugar), mas também traz consigo marcas deixadas pelos locais que passou e pelas pessoas com que conviveu.

‘’ Vai, sai desse buraco, isso não é pra ti, tu só não esquece da gente. Obedeci, sem resistência. Lola me deu a metade de um pão dormido, uns goles do seu chimarrão. Toma, pra tu aguentar até lá, levou-me a um orelhão, talvez o último que ainda funcionava, telefonei pra Elizete, a cobrar, tirei-a da cama de madrugada. Na rodoviária, é, voltando de Jaguarão, esqueci o endereço, que cabeça a minha!
A prima, estremunhada, não aguentou mais nada, me deu a informação. Voltei, assim, à superfície ainda por explorar. Suas rachaduras já as conheço todas e não esqueço.
Chega, Barbie, agora eu paro mesmo, que já está clareando o dia. Agradeço a paciência, guria, a solidariedade silenciosa, mas agora vou te trancar numa gaveta, tu não leva a mal, tá?, não digo que seja pra sempre, quem sabe ainda reabro estas páginas, passo tudo a limpo.’’(Rezende, 2014, p. 135).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos, debates, teorias explorados que fizeram menção à história da memória, lugar, espaço debruçando-se no romance Quarenta dias, Maria Valéria Rezende levaram-me com base em diversos teóricos e estudiosos da análise e crítica literária, geografia humanística tais como: Maurice Halbwachs; Michael Pollak, Yi-Fu Tuan dentre outros, à compreensão que é possível estabelecer um diálogo entre a memória, lugar e não-lugar em destaque do romance escolhido: Quarenta dias.

A narrativa de Alice, apresenta uma personagem que percorre em uma cidade, a qual as identidades são reconstruídas e a memória pode ser manipulada. A protagonista se depara com uma cidade dividia e torna-se refém de vários conflitos internos, pois está entregue ao abandono social e a solidão. As memórias são vividas pela protagonista no passado e no presente e falar sobre Alice é mergulhar nessas memórias, mas também compreender a ressignificação de uma forma poética e surpreendente.

A literatura é responsável pelos novos significados adquiridos por meio da história e das experiências dos seus personagens. Ela é capaz de proporcionar a preservação de uma história, nação. Basta lembrarmos dos poemas fundantes da literatura grega, Ilíada e Odisseia de Homero e até hoje estão presentes na história. Ao escolhermos falar de Alice, podemos compreender a riqueza que somente a literatura é habilitada para dialogar de forma única, pois descortina os conflitos que diversas ‘’Alices’’ podem enfrentar na sociedade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

CONCEIÇÃO OLIVEIRA COSTA, Cindy; BRAGA DE OLIVEIRA BRITO, Herasmo. QUARENTA DIAS NO DESERTO DA METRÓPOLE: A INFLUÊNCIA DO ESPAÇO NA CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM ALICE. Afluente: Revista de Letras e Linguística, v. 9, n. 26, p. 1–17, 13 Fev 2025 Disponível em: . Acesso em: 31 jul 2025. https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/afluente/article/view/24217. Acesso em: 31 jul 2025.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Lauret Léon Schaffter. São Paulo. Revista dos Tribunais Ltda, 1990.

POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silencio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.

REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014.

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François. Campinas, SP: UNICAMP, 2007.

TUAN, Y. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. Tradução de Lívia de Oliveira. Londrina: Eduel, 2013.Enviado em: 14de agostode 2024Aprovado em: 23 de novembrode2024


1 Mestranda em Letras do Programa de Pós-Graduação em Letras- São Luís (PGLETRAS), da Universidade Federal do Maranhão- UFMA; integrante do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense (GELMA/UFMA).

2 Professor do Programa de Pós- Graduação em Letras- São Luís (PGLETRAS), da Universidade Federal do Maranhão-UFMA, Coordenador e Professor do Departamento de Letras-DELER/CCH-UFMA.