A PERCEPÇÃO MEMORIALÍSTICA NAS CRÔNICAS DE JOSÉ CHAGAS

THE MEMORY-BASED PERCEPTION IN THE CHRONICLES OF JOSÉ CHAGAS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781747715

RESUMO
Este artigo objetiva apresentar a relevância, como também a fecundidade da literatura local, apoiando-se nos estudos apresentados pelos seguintes teóricos: Maurice Halbwachs; Michael Pollak e , com base na ótica do escritor José Chagas, o qual apresenta a cidade de São Luís como espaço literário em suas crônicas. Tem-se, inicialmente, um estudo sobre o gênero textual crônica, com destaque para o escritor José Chagas, ao abordar-se o especial olhar do cronista sobre as memórias da cidade e o seu cotidiano. Além do que, a relação estabelecida da percepção memorialística na narrativa curta de José Chagas em sua obra literária: Pedra de Assunto; Da Arte de Falar Bem.
Palavras-chave: Literatura Maranhense; Crônica; José Chagas; Memória.

ABSTRACT
This article aims to present the relevance and richness of local literature, based on studies presented by the following theorists: Maurice Halbwachs; Michael Pollak and, based on the perspective of the writer José Chagas, who presents the city of São Luís as a literary space in his chronicles. Initially, there is a study on the textual genre of the chronicle, highlighting the writer José Chagas, addressing the chronicler's special perspective on the city's memories and its daily life. In addition, the relationship established between the memorialistic perception in José Chagas' short narrative in his literary work: Pedra de Assunto; Da Arte de Falar Bem.
Keywords: Maranhão Literature; Chronicle; José Chagas; Memory.

1. INTRODUÇÃO

Segundo Leyla Moisés- uma das mais significativas reflexões sobre a literatura e a grandiosidade que ela representa na construção e preservação da história; memória, cultura de uma nação. ‘’ A literatura tem futuro’’ ( 2016). Ora, faz-se necessário ressaltar que o século XX ficou conhecido como o século do ‘’fim’’. (da literatura; artes, história, utopias, etc) Leyla Moisés, em sua obra proporciona ao leitor um encontro e por que não dizer um reencontro com a boa literatura, destacando o comportamento da sociedade no século XX e apontando para o que poderíamos verificar na atualidade no que se refere ao campo da literatura. Diante do exposto, podemos observar à cidade de São Luís do Maranhão, a qual apresenta uma plêiade de artistas; cronistas, poetas, os quais foram responsáveis pelo título de Ilha dos Poetas ( de Fernando Gullar; Sousândrade a José Chagas), encontramos um ambiente marcado pela ‘’boa literatura’’ e encantando leitores; educadores, pesquisadores, estudiosos da língua.

Desta forma, a literatura vem ajudando na construção de uma nação, de um povo e de sua história. Só para ilustrar, lembremos os poemas épicos e fundantes da literatura clássica, Ilíada e Odisseia, de Homero, até hoje presentes nos registros literários e históricos da Grécia. A literatura exerce um papel ímpar ao ‘’fazer registros’’, histórias e memórias de uma nação, assim, destacamos a vasta e rica literatura brasileira e, nesse recorte a maranhense, especificamente a de São Luís-terra de grandes nomes literários que se precisam ser disseminados.

O homem, a fim de demarcar seu estar no mundo e na vida, dentre muitas possibilidades, procura compreender as relações sociais, suscitando sobre elas algumas reflexões. Esse processo se realiza quando ele busca entender o circundante e as exigências do cotidiano. Sob esse aspecto e sob a ótica de alguns cronistas, tem-se um texto nascido na cidade e que dar suas mãos à sociedade, buscando significá-la, compreendê-la etc. A crônica auxilia o processo crítico-reflexivo do meio e do momento histórico por que passam os segmento histórico, social, cultural, possibilitando analisar algumas ações cotidianas, às vezes despercebidas, mas eternizadas pelo olhar ‘’ miúdo’’ do cronista.

Neste sentido, é essencial a busca por esse olhar minucioso, pois o cotidiano é uma palavra facilmente associada ao gênero, o que não causa admiração, pois, este olhar, tem como gênero, o relato do dia-a-dia, que às vezes passa despercebido, dada a urgência do tempo. No entanto, para Walter Benjamim (1994, p.209), ‘’o cronista é o narrador da história’’. Ele traz em seus escritos relatos do cotidiano, eternizando acontecimentos de maneira fluida e leve, causando a fácil associação do gênero a uma conversa. Quando o leitor ler uma crônica, geralmente, se vê como personagem e percebe nela um pouco de sua própria história.

Característica que, segundo Sá (1965, p.27), assim associada, quando há cumplicidade entre o narrador e o leitor, e, somente alcançada em textos bem elaborados que possuam a magia inexplicável da arte. Além disso, o cronista não é individual, ele traz o coletivo, desnuda a sociedade e por isso funciona como porta- voz, porque revela mazelas e frustrações, além de ser parceiro em algumas revoluções.

O Maranhão, apesar da pobreza que teima em nos ameaçar, pontua entre os estados ricos em gastronomia, cultura, folclore e literatura. Para mais o significar, é agraciado com escritores que o eternizaram em versos e prosas, trazendo temas que o apresentam em sua mais autêntica essência. Muitos desses temas são romances, poesias e crônicas que falam da história e do cotidiano da cidade e de sua gente, revelando arte e costumes da terra.

A crônica, por ser um texto aparentemente simples, dirige-se, inicialmente àqueles que têm pressa, ‘’que leem nos pequenos intervalos da luta diária, no transporte, ou no raro momento da trégua com a televisão’’ ( Sá 1985, p.10). No entanto, realizar um estudo teórico-reflexivo sobre essas narrativas, nos permitirá observar o valor histórico literário do gênero, transformando ofício e prazer aliados para os que se propõem a estudá-lo. Assim, não propomos um estudo estilístico ou formal, apenas, mas, funcional desse gênero, buscando o próprio cronista como auxiliar nesse exercício.

O estudo de algumas crônicas que narram sobre a cidade de São Luís mostra-se essencial por inúmeras razões, afinal, muitos são os autores que cantam seus encantos e desencantos, revelando o cotidiano com habilidade estética. Neste sentido, destacamos um escritor fantástico que muito contribui para o crescimento literário da nossa Ilha: José Chagas que se propõe com bastante responsabilidade e engenhosidade, proporcionar aos amantes da leitura literária, um mover linguístico, artístico e social por meio de suas obras em especial destaque: Pedra de Assunto (1961); Da Arte de Falar Bem (2004).

A obra literária de Chagas é encantadora, o cronista, cujo sentimento se aproxima da realidade e da verdade com muita sensibilidade, se faz porta-voz da cidade e por que não da sociedade maranhense? Seus textos, narram vidas, trazem pessoas, sentimentos e críticas reais, por isso são de muita beleza estética. Por essas características, encontramos a devida justificativa da escolha da cidade de São Luís e do cronista José Chagas que, em suas crônicas, aborda temos diversos, desde os mais simples até os mais delicados.

Ainda que de maneira circunstancial, José Chagas faz reflexões que despertam o interesse, ensejando uma leitura que pense São Luís e suas memórias. Sua escrita veicula os assuntos da Cidade, numa linguagem simples e, por isso, acessível ao leitor. Suas crônicas ao serem publicadas democratizam esses assuntos e o estudo deles. Assim este trabalho objetiva analisar, de forma crítico -reflexiva o cotidiano maranhense por meio do gênero literário crônica. Buscando compreender as relações sociais, focando no aspecto social e histórico, trazendo recortes de teóricos e estudiosos da área: Cândido ( 1992), Moisés ( 1995), Sá ( 1985), Halbwachs ( 1945) dentre outros que ajudarão a alcançar o proposto.

Para melhor abordagem do tema em questão, o presente trabalho será secciona-se em quatro capítulos. O primeiro discorre sobre a história do gênero literário crônica, trazendo a sua gênese, bem como algumas considerações sobre o conteúdo.

O segundo, apresenta uma abordagem sobre a presença do gênero no século XIX. O terceiro vai abordar o gênero na literatura maranhense, bem como sobre alguns dos principais cronistas de São Luís e destacamos o cronista José Chagas, expondo sua vida e obra. No quarto, trazemos algumas de suas crônicas , espaços em que ele declara as memórias pela cidade de São Luís, discutindo alguns temas- o principal foco do estudo.

2. NASCIMENTO E HISTÓRIA DA CRÔNICA

Do grego chronikós, relativo a tempo (chrónos), passando para o latim chronica, temos o vocábulo crônica. Na abordagem do estudo sobre esse gênero percebemos que ele é carregado de definições, resultado de sua evolução no decorrer da sua história e no passar do tempo. Neste contexto, Massaud Moisés, em A criação literária, dedica um capítulo inteiro ao estudá-la, não somente do ponto de vista da sua etimologia. Para ele, a crônica

Designava, no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo, isto é, uma sequência cronológica. Situada entre os anais e a história, limitava-se a registrar os eventos sem aprofundar-lhes as causas ou tentar interpretá-los. (Moisés, 1995, p.101)

Ademais, se fizermos uma busca em um dicionário de termos literários, observamos para a palavra crônica, a explicação seguinte:

Derivada de um termo grego que significa tempo, a palavra crônica reporta-se a uma resenha de acontecimentos em sua ordem temporal e tem um significado vizinho do histórico. O termo crônica emprega-se geralmente, em referência a qualquer narração sistemática de acontecimentos, com pouco ou nenhum empenho na sua análise e interpretação. (Shan, 1982:130)

As definições apontam que a crônica, desde o seu início, relaciona-se com o tempo, ato de narrar acontecimentos cronologicamente de forma mais específica. Retomando o enfoque dado por Moisés fica evidente o papel inicial do gênero, ou seja, que ele fazia registros cronológicos sem pormenores ou comentários, ou seja, registrava acontecimentos, sem interpretá-los.

Entendemos, então, que era crônica apenas aquilo que fosse relevante para a história de uma determinada nação. Ou seja, tinham registro desde as grandes aventuras dos reis, aos acontecimentos relevantes de seus reinados. Ao se referir aos cronistas portugueses, por exemplo, França ( 2007:136) comenta que seus escritos eram de circulação restrita, só acessível à corte e quando lida de forma pública. Fora isso, apenas os eruditos buscavam informações verídicas, uma vez que o gênero servia como certidão de fatos do reino.

Foi exatamente esse tipo de crônica que ficou conhecido como crônica histórica. Tipo que alcançou ápice na Idade Média, quando a escrita surgiu como validação do passado, juntamente com a crença de que o passado lançava luz no presente. Essa ideia hoje já possui maior validação pelos estudos filosóficos,ou seja, pelo entendimento de ações de gerações anteriores de uma dada sociedade, no cotidiano. O presente/futuro fica mais claro, e até mesmo algumas ações são justificáveis.

Nesse sentido, o gênero servia estritamente para fazer relatos cronológicos da história, definição que ainda se faz válida em países europeus, com exceção de Portugal e lugares em que se fala o português, conforme lemos nas palavras de Coutinho.

Feitio que assumiu a historiografia particularmente na Idade Média e no Renascimento, em todas as partes da Europa, a princípio em latim e depois em diversas línguas vulgares inclusive o português, em que se deram verdadeiras obras-primas. Foi esse o sentido que mais prevaleceu nos vários idiomas europeus modernos, menos o português, até hoje.

Em inglês, espanhol, francês, italiano, a palavra só tem esse sentido: crônica é um gênero histórico. E como crônica, ‘’ croniqueiro’’ e ‘’ cronista’’ só se empregam relativamente à crônica naquele sentido: eram o indivíduo que escrevia crônica, do mesmo modo que no francês chroniqueure chronique. (Coutinho, 1987:790).

2.1. O Século XIX: A Crônica no Brasil

O século XVIII, no Brasil, foi marcado por um ideário literário com a criação da Escola Mineira, na região de Minas Gerais, mas frustrado em virtude da extinção da Academia dos Esquecidos- sua base. Uma das grandes importâncias dessas escolas e academias é o vestígio dos Iluministas que definiram a criação das academias em seu sentido mais restrito e necessário. Com a produção literária, prosseguimos num alto crescimento quantitativo e qualitativo, como não havia sido registrado até o momento.

Com essa evolução, não apenas literária, mas política e econômica, adentramos no século XIX com produções de diferentes vertentes, e em diferentes momentos que caracterizam diversas expressões da realidade social, tendo em vista, por exemplo, a Independência do Brasil em 1822. Esse fato clamava pelo surgimento de visões mais liberais que fez brotar o sentimento que viria a ser pedra de toque do Romantismo.

Essa escola literária produziu com abundância não somente a poesia, mas a prosa, donde se destaca José Martiniano de Alencar que teve reconhecimento acelerado comparado aos outros escritores. Como romancista, conservou todos os gêneros até agora criados; o indianismo, romance mundano, romance histórico, romance regional e o romance social. Alencar, publicando, inicialmente em um jornal, pincelou as suas obras de tinturas cronistas, pois relatou, poeticamente, o nascimento da raça brasileira em suas mais variadas terras e costumes.

Outro romancista que surgiu ainda na segunda geração do romantismo, e não foi adepto de tendência literária alguma, foi Machado de Assis. Dizem alguns críticos que ele foi o maior escritor que esse século já teve, pois, construiu uma linha própria, pessoal e extensa. Machado foi uma figura singular e serviu como quadro de influência para diversos escritores de diversas vertentes. Dentro de sua vasta produção, a crônica também mereceu um especial destaque.

Foi no século XIX, no Brasil, que a crônica tornou-se um gênero diferente, pois não lhe cabia apenas fazer relatos do passado, em termos práticos, mas tomar para si a responsabilidade de refletir esteticamente sobre relatos do cotidiano. Construída de forma leve e despretensiosa, com uma linguagem acessível e descomplicada ela foi ganhando lugar entre o povo e tornou-se fértil na cidade, e, progressivamente foi angariando alcunha de gênero literário.

Pelas mãos dos cronistas, as informações que ocupavam apenas uma nota de rodapé sobre assuntos do cotidiano nas mais diversas formas e diferentes eixos temáticos, literatura, arte, política, etc., transformaram-se em crônica. Com o tempo, ela deixou de ser relato e transformou-se em acontecimento, tornando-se um gênero comumente associado ao diálogo com os fatos presentes. Por este seu caráter, ela, ainda hoje, exige leitura obrigatória nos jornais impressos, pois, embora de veio ficcional, aborda o social em suas diversas manifestações, conservando um olhar crítico sobre a vida e o cotidiano.

Desta maneira, situações comumente despercebidas pela urgência do tempo ou percebidas por poucos que não têm voz para serem ouvidos, são matéria das mais belas crônicas. Ao cronista, então, cabe interpretar e, habitualmente compreender a cidade e o sentimento de sua gente por meio de situações cotidianas. Assim, o papel dele não se restringe somente a exaltar belezas, mas, e, também, evidenciar mazelas e injustiças às quais o povo está sujeito.

Citadino por excelência, o gênero dá conta do que acontece na cidade, seja com o próprio cronista ou com outros cidadãos. Fatos verdadeiros que atingem a população, a cidade e seus locais é alimento para boa parte das crônicas. Às vezes, elas se encontram associadas às notícias veiculadas em jornais, declaração de alguns fatos e acontecimentos. Daí entendermos o que diz Beatriz Resende: ‘’ o cronista é o confidente de nossas pequenas reclamações, cúmplice de nossas revoltas, solidário em nossas perdas e em nossas alegrias’’ (1995, p.35)

Será que podemos falar do gosto do povo brasileiro pela crônica? Talvez sim, devido a grande variedade de cronistas que temos hoje. Isso, talvez, resida no fato de que a certidão de nascimento do Brasil seja uma crônica. Apesar de ser uma carta de Pero Vaz de Caminha endereçada ao rei dom Manuel, nela a descrição poética da nova terra. ‘’ Caminha rompe com os moldes de escrita europeus para retratar o circunstancial e produzir um texto rico e fidedigno em que as miudezas nele encontradas são essenciais para melhor entendimento do todo’’, diz Sá (1985, p. 5-6).

Por ser publicada em edições diárias ou semanais, muito se exigia da sensibilidade do cronista para sua produção, pois há de se reconhecer que este não era um ofício fácil, pois pela natureza anfíbia do texto, cabia ao cronista a responsabilidade de amenizar a linha tênue que se criara entre o jornalismo e a literatura, mas sem deixar de exercer a função de operar na vida da sociedade e dos seres que nela se encontravam.

Assim é que, a crônica, hoje, pelo seu papel social, rotineiramente se utiliza de notícias veiculadas no jornal, mas não segue a risca os preceitos para ser um texto essencialmente jornalístico. Este é um gênero que detêm margens bem definidas para aqueles que o têm como ofício, diferente do cronista que possui liberdade para percorrer todos os acontecimentos , a passar do gracejo ao assunto sério, do riso e do prazer às misérias e às chagas da sociedade; e isto com a mesma graça e a mesma nonchalance com que uma senhora volta às páginas douradas de seu álbum, com toda finura e delicadeza com que uma mocinha loureira dá sota e basto a três dúzias de adoradores! Fazerem do escritor uma espécie de colibri a esvoaçar em ziguezague, e a sugar, como o mel das flores, a graça, e a sal, o espírito que deve descobrir no fato mais comezinho. (Alencar, apud Bender; Laurito, 1983, p.18).

Nesse sentido, a diferença entre o trabalho do cronista e do jornalista é nítida. Ao jornalista cabe fazer a descrição dos fatos, sem comentários ou qualquer intervenção. No entanto, quem faz crônica não só descreve, mas comenta e traduz os acontecimentos de modo mais acessível à compreensão ou deleite do leitor. Em outros termos, constantemente, o cronista transforma suas notas em atividade prazerosa, considerando aqueles que têm pressa, se permitindo o ato de ler nos pequenos intervalos.

O cronista aguarda com expectativa’’ tiques’’ que lhe darão glória e linguagem merecidas, ou seja, um acontecimento ‘’ frívolo’’ e sem relevo pode ser a condição para a criação. Nesse sentido, uma crônica de Rubem Braga, ‘’ O pavão’’, cujo lirismo nos chama a atenção. Nessa crônica, Braga, utiliza uma linguagem simbólica para falar sobre as cores das plumas do pavão. Ele diz que elas surgem no olhar de quem as observa e se aproximam do ato de amar. Por esse fenômeno óptico, que faz com que os amantes vislumbrem beleza e luz um no outro.

Nessa linha de pensamento, Machado de Assis (1977, p.12), assim comenta sobre as frivolidades que podem fazer nascer uma crônica.

Não posso dizer positivamente em que ano nasceu a crônica; mas há toda a probabilidade de crer que foi coetânea das primeiras duas vizinhas. Essas duas vizinhas, entre o jantar e a merenda, sentaram-se à porta para debicar os sucessos do dia. Provavelmente começaram a lastima-se do calor.

Uma dizia que não poderia comer o jantar, outra que tinha a camisa mais ensopada do que as ervas que comera. Passar das ervas às plantações do morador fronteiro, e logo às tropelias amatórias do dito morador, e ao resto, era a coisa mais fácil, natural e possível do mundo. Eis a origem da Crônica.

O crítico Antônio Cândido que teve papel importante no assunto declara que a crônica pertence ao rés-do-chão, ou seja, à base, ao andar térreo. A vida ao rés-do-chão é o estudo sobre o gênero feito pelo crítico para prefaciar um dos volumes de Para gostar de Ler. Nele, o autor fala sobre a história da crônica e sua evolução no Brasil.

Diz Candido (1980, p. 16-9) que ‘’ o grande prestígio é um bom sintoma do processo de busca de oralidade na escrita, sito é, de quebra de artifício e de uma aproximação com o que há de mais natural no modo de ser do nosso tempo. E isto é humanização da melhor!’’.

Candido explica que a crônica está literalmente relacionada à simplicidade da palavra e foi ao longo do tempo que ela tornou-se tão próximo até ser brasileira graças a José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac entre outros. Candido lembra que esses cronistas ( folhetinistas) contribuíram significativamente para que o gênero se tornasse nosso pela naturalidade com que se aclimatizou aqui e a originalidade com que se desenvolveu. O crítico acrescenta ainda:

Antes de ser crônica propriamente dita foi ‘’ folhetim’’, ou seja, um artigo de rodapé sobre as questões políticas, sociais, artísticas, literárias [...] Aos poucos o ‘’folhetim’’ foi encurtando e ganhando certa gratuidade, certo ar de quem está escrevendo à toa, sem dar muita importância. Depois, entrou francamente pelo tom ligeiro e encolheu de tamanho, até chegar ao que é hoje. (1984, p.7)

Observe que Antônio Cândido explica por que essa literatura se tornou tão próxima do leitor: a oralidade na escrita e a simplicidade da linguagem. Elas tornaram-se um casamento perfeito, e conforme o teórico, por ser uma narrativa curta, pede um novo olhar. Ou seja, algo familiar, íntimo que pouco a pouco desperta no leitor o ‘’conviver intimamente com a palavra’’. Um texto que, ao mesmo tempo em que diverte o leitor, também proporciona reflexões sobre si mesmo e sob uma ótica diferente acerca do mundo.

Esse prestígio sobre o qual fala Candido nos possibilita dialogar sobre referidos temas com muita leveza. A crônica não apenas informa, mas oferece uma excelente sintonia com o autor, ou seja, uma imediata interpretação é realizada nesse canal linguístico. Em Comentário-mediação-notícia, de Luciana Stegagno Picchio ( 1997:543), ela diz que o grande prestígio da crônica é que ela proporciona ao leitor; autor, crítico, teórico esses três aspectos a serem trabalhados, acessórios fundamentais e que enriquecem a sua construção.

Vale ressaltar, ainda, que nascida no jornal como folhetim, e tendo um local próprio ou rodapé, o gênero guarda uma relação direta com o rés-do-chão, ou seja, um artigo de rodapé sobre as questões do dia, assuntos policiais, sociais, artísticos, literários. Ainda segundo Antônio Cândido, esse ‘’ folhetim’’ aos poucos, foi encurtando e ganhando certa gratuidade, certo ar de quem está escrevendo a toa, sem ter muita importância. Depois, ‘’ entrou francamente pelo tom ligeiro e encolheu de tamanho, até chegar que é hoje’’. (1984, p.7) Completa o crítico com o seguinte:

Por isso mesmo consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nos verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria a pensava. ( 1984, p. 6)

Se desde seu nascimento, o Brasil tem forte ligação com a crônica sobre a terra e sua gente transformadas em literatura, o gênero conta sobre nós e sobre a nossa história. Essa carta, ou primeira crônica brasileira, não foi o único legado que escreveu o Brasil, sua paisagem e seu povo no cenário da literatura como um todo. Cronistas foram surgindo e deixando seu legado, não somente pela quantidade, mas pela qualidade, só para lembrar alguns: José de Alencar; Machado de Assis, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Arnaldo Jabor, entre outros.

3. A CRÔNICA NA LITERATURA MARANHENSE NO SÉCULO XIX

O cronista, geralmente, é aquele que tem a capacidade de se indignar com uma notícia, com um fato observado, mas que se pode, também, compreender o desvio de um indivíduo ou desse na sociedade. Ele pode, também, perceber o lado oculto do cotidiano e prever o inusitado, oferecendo sugestões.

Ser cronista é ser um mágico das palavras e satisfaz o leitor com suas ações e magias. Assim, o êxito de quem faz crônica é provocar no leitor um prazer, um sorrir de satisfação. E, ainda que haja uma reação contrária de quem leu sua opinião, quase sempre o leitor experimenta um sentimento de prazer por compartilhar do assunto comentado.

De qualquer forma, o gênero é, e continuará sendo um lugar de expressão do escritor para levar um momento de leveza ao leitor. Para produzir esse efeito, ele precisa, além da simplicidade e da clareza, não enveredar por caminhos obscuros nem tão pouco, usar uma linguagem rebuscada. Nas palavras de Lourival Serejo (2011), ‘’ deve fluir como um rio, obedecendo aos limites das margens, sem, contudo, deixar de causar-lhe erosão para alargar seu espaço de criatividade’’. Serejo acrescenta, ainda, que o

Que engrandece a crônica é a maneira de conversar com o leitor sobre um assunto às vezes tão banal ou, até mesmo, a falta de assunto. Manuel Bandeira gostava das crônicas sem assunto de Rubem Braga porque, segundo ele, era nelas que o cronista expandia melhor o seu gênio. ( O Estado do Maranhão, 21/08/2011)

Infelizmente, esse gênero ainda é pouco estudado, por isso, é essencial nos debruçarmos sobre alguns textos que nos permitam um trabalho reflexivo e teórico sobre a sua importância e validade, assim como para conhecer a plêiade de artistas que se ocupam habilmente desse registro feito em tempo real. Nessa perspectiva, entendemos que a crônica maranhense oferece sua contribuição literária capaz de encantar, despertar e preservar na memória, não somente local, mas nacional, os assuntos abordados.

Assim, ao oferecer um novo olhar, a crônica pode guiar o leitor, seja ele um jovem estudante ou um experiente educador para novos saberes. Por isso, ela oferece, promove e presenteia, pelo seu universo, principalmente no que se refere à cidade de São Luís com sua vasta riqueza literária. Como tal, essa literatura necessita ser apreciada pelos ludovicenses. Daí, portanto, a apresentação e construção desta pesquisa que extrapola o meramente acadêmico, para oferecer uma colaboração social, educacional e pedagógica.

Conhecer a cidade de São Luís evoca a memória de vários cronistas, dentre eles, talvez aquele que mais a tenha cantado em suas crônicas: José Chagas. Embora não sendo maranhense, ele chega a personificar São Luís. Nauro Machado diz que o poeta é, de fato, ‘’a projeção introspectivamente unificadora de uma história secular: aquela que se estende da Santana dos Garrotes, seu chão de origem, ao coração da Ilha onde fez aportar e espraiar-se no coro múltiplo da sua voz particular’’ (2012, p. 136).

Estudar crônicas que narram São Luís é essencial por inúmeras razões. Os autores que contam seus encantos e desencantos, revelando o cotidiano com sensibilidade e habilidade estética, mostram sentimentos verdadeiros, por isso tido como porta-vozes da sociedade. Por essas características, encontramos a devida justificativa da escolha de crônicas e temas diversos em Da Arte de Falar Bem, de José Chagas.

Estudos revelam que a literatura maranhense e os seus mais destacados autores têm dado o devido merecimento que a atualidade exige. Portanto, é necessário que demonstremos esta presença, não só no espaço escolar, como também na sociedade de modo geral. Precisamos despertar no maranhense o sentimento de pertença, pois quem assim se sente cuida. Um exemplo disso, são os cronistas que notoriamente percebem a importância de um despertar para a preservação, a memória e o conhecimento dessa literatura dos cronistas locais.

Mediante a necessidade de valorizar e elevar a literatura local e de suma importância tornar os autores maranhenses mais conhecidos já que essa literatura participa da formação de um povo e de sua história. Sem dúvida alguma, essa plêiade de autores e obras constará nos registros históricos de uma sociedade como um todo. Por essas razões, abordaremos questionamentos e discussões que envolvem o gênero e seu conteúdo linguístico e literário, mas ao mesmo tempo, social na obra do escritor José Chagas.

Ora, por que não demonstrar a importância desse conhecimento nos espaços acadêmicos? Oferecer ao aluno uma visita ao passado e um novo olhar para o futuro por meio da nossa literatura, é fundamental. Podemos fazer isso nos debruçando no fantástico que somente o universo literário proporciona, promove e oferece de uma forma bastante prazerosa e com diversos temas do cotidiano que também a narrativa curta pontua.

A crônica está relacionada diretamente com a efemeridade, caráter que lhe é próprio. Como a própria etimologia define ‘’ Khrónos’’, significa tempo, ou seja, essa espécie narrativa está envolvida no que é passageiro e efêmero. Nessa perspectiva, destacamos alguns nomes que dão a esse universo artístico, literário e linguístico, uma nobre contribuição para a memória da nossa cidade. Essa arte literária que expressa à construção da cidade, também enriquece e dá ‘’ testemunho’’, do papel do cronista.

Em geral, esse é o comportamento do cronista e. em São Luís essas ações são similares. Diversos escritores cronistas exercem influência da nossa literatura maranhense e brasileira, notadamente de relevância. Assim, a lista de cronistas que imprimiram seu nome na história da crônica maranhense é vasta, e, na cidade de São Luís, não é diferente, pois ela conta, hoje, com uma plêiade de renomados cronistas, como José Chagas; Ubiratan Teixeira, Ivan Sarney, Joaquim Itapary, Américo Azevedo Neto dentre outros não menos importantes.

3.1. O Cronista José Chagas

José Francisco das Chagas nascido em 29 de outubro de 1924, o poeta José Chagas deixou grande legado cultural em mais de 20 livros publicados, a maioria deles dedicados à São Luís. Paraibano de nascimento, mas maranhense de alma e coração, José Francisco das Chagas, o José Chagas, soube como poucos cantar as belezas e as mazelas de São Luís em verso e prosa. Nascido no sítio Aroeiras, município de Piancó, na Paraíba (atual Santana dos Garrotes), a 29 de outubro de 1924, o poeta, se vivo, celebraria 95 anos hoje. Uma missa em memória do poeta será celebrada hoje, às 18h, na Igreja dos Remédios.

Falecido em 13 de maio de 2014, o poeta deixou uma enorme contribuição à cultura do Maranhão por meio de obras como “Canhões do Silêncio”, “Os Telhados”, “Azulejos do Tempo”, “Apanhados do Chão” e “Maré/Memória”, entre outros.

Por ocasião do recebimento do título de Cidadão Maranhense, oficializado no dia 27 de outubro de 2004 pela Assembleia Legislativa como parte das comemorações pela passagem dos seus 80 anos, o poeta disse: “Vejo este momento de forma emocionante, um presente dos mais inesquecíveis. Este título vem complementar o envolvimento que já tenho com a cidade, desde o início, pois fui integrado por São Luís e São Luís integrada por mim”.

Radicado no Maranhão desde 1948, onde fez toda a sua vida literária, José Chagas foi funcionário aposentado da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi vereador da Câmara Municipal de São Luís por um mandato, onde também serviu como diretor da Secretaria-Geral. Jornalista profissional, exerceu as funções de técnico em Comunicação Social na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) até aposentar-se. Foi cronista no jornal O Estado do Maranhão, no qual mantinha coluna semanal.

Apaixonado pela terra de Gonçalves Dias, o poeta é autor de mais de 20 livros, a maioria deles dedicada à cidade. O poeta estreou em 1955 com o livro “Canção da Expectativa”.

José Chagas assumiu a Cadeira nº 28 da Academia Maranhense de Letras (AML) no dia 3 de abril de 1975. Ele foi de patrono da 5ª edição da Feira do Livro de São Luís, promovida em 2011 pela Prefeitura.

José Francisco das Chagas possui um acervo de diversas obras, conforme o acima referido. Desse modo, é evidente a sua contribuição literária, linguística social, cultural e por que não dizer pedagógica, já que a literatura nos leva à reflexão sobre nós e o mundo no qual habitamos. A expressão que esse cidadão exerce na formação de nossa pluralidade cultural é farta. Portanto, essa notoriedade é importante compreender e, bem mais que isso, inserir sua obra para conhecimento, de forma que nessa troca de saberes entre escritor-obra- leitor uma preciosa oportunidade seja vislumbrada: o mergulho na literatura maranhense.

4. SÃO LUÍS SOB A ÓTICA DE JOSÉ CHAGAS

Da Arte de falar bem, publicado em 2004, é o terceiro livro de crônicas selecionadas por Duarte, com a assistência do cronista. O cronista escolhe fazer a defesa de alguns filhos da terra, e, essencialmente, do patrimônio cultural maranhense. Chagas preserva finíssima ironia, qualidade que sempre lhe foi peculiar. Junta-se a isto um espírito pleno de dedicação pela sua apaixonante cidade e tudo o que lhe inspira e transpira reflexão. Ao narrar certos acontecimentos, ele presta um tributo à verdade histórica geográfica e literária da São Luís de ontem, e por que não dizer da São Luís de hoje? Seus textos constituem uma espécie de mapa da cidade, especialmente de São Luís. Ele também dedica a Alcântara, cidade histórica-maranhense, um dos mais longos e belos poemas: Alcântara: negociação do azul ou a castração dos anjos. Para evidenciar tais informações, vamos acompanhar a sequência de textos estudados.

4.1. Oitenta Anos Vividos A Gosto

Sobre a cultura maranhense, diz José Chagas: “nenhum mês tem sido mais favorável à cultura do Maranhão do que agosto”. Na crônica, Oitenta anos vividos a gosto, o cronista fala da Academia Maranhense de Letras e elenca o nome de alguns aniversariantes do mês, com destaque especial para o poeta Gonçalves Dias, cuja data de nascimento foi escolhida para demarcar o dia de fundação da casa. Mas o homenageado na crônica é o romancista Josué Montello. Para Chagas, ele é “autor da mais bela saga maranhense, ao longo de vários romances, nos quais São Luís se faz presente, em todos os seus aspectos, como fonte de fabulação e ambiência propícia à criatividade de um dos autores mais fecundos de nossos tempos” (2004, p. 214). Nessa crônica, ao falar sobre Josué Montello, Chagas parece dizer de si próprio:

Creio que nunca uma cidade esteve tão arraigada na alma de um escritor, e nunca um escritor esteve tão integrado ao espírito de uma cidade, como é o caso desse profundo amor entre São Luís e Josué, paixão explícita, porque revelada à luz do dia e na memória coletiva, nas ruas, nas praças, nos becos, nos sobradões e em todos os recônditos ângulos da urbe assinalada. Com tão acirrado afeto, ele desce ao mais profundo da alma são-luisense. Costumo dizer que um homem só é verdadeiramente habitante de uma cidade, quando a cidade é que mora nele, mais do que ele nela, porque afinal, como diria Saramago, a gente habita é a memória. Daí a razão de Montello estar mais em São Luís, mesmo quando fora dela, do que muitos que, dentro dela, não sabem vê-la nem amá-la e, portanto, não a habitam, apenas a ela se habituam. Habitar é uma coisa, habituar-se é outra muito diferente. Daí São Luís ser desprezada por muitos que nela vivem. (Chagas, 2004, p. 215-6)

4.2. A Grandeza de Ser Pequeno

A grandeza de ser pequeno é uma crônica dedicada ao jornalista Ribamar Bogéa, dono do Jornal Pequeno, o diário de notícias mais lido em São Luís, principalmente quando em momentos de crises políticas. Sobre Bogéa e o seu jornal, o cronista fala com carinho: “Eu me lembro de ter chegado a São Luís no período heroico em que nossa capital teve realmente jornais de oposição. Quando a Ilha era de fato rebelde. Havia O Combate, o Jornal do Povo e depois o Jornal Pequeno, fundado por Bogéa em 1951” (2004, p. 233) Este jornalista, um homem de ideias livres, não se contentava em trabalhar para os outros, por isso, criou o seu próprio órgão de imprensa, para da melhor forma dar vazão as suas ideias. Chagas, continua falando em defesa do jornalista.

Com o seu modo muito pessoal de agir e de pensar, mostrou aos iniciantes a importância da liberdade de expressão e quanto ela custa a quem a queira exercer, já que é preciso ter espírito de independência e muita abnegação, o que não é fácil num mundo como o nosso. (...) Na verdade, muitos morrem se dizendo grandes e o tempo nos mostra que não passavam de anões insignificantes. Poucos são os que sabem morrer pequenos, mas de tal modo que os outros possam, depois, com justiça, chamá-los grandes. Bogéa deixou esse exemplo. (Chagas, 2004, p. 234-5)

Na coletânea de crônicas Pedra de Assunto (que também faz parte do corpus desta pesquisa) , José Chagas revela o seu lado poético, abordando temas variados sobre a nossa cidade, falando do cotidiano com muita criatividade, mas também, se debruça sobre um cenário de denúncia, apoiando-se na crônica para demonstrar seu lado elegante e singular. De modo geral, podemos dizer da atualidade e envolvimento real do autor com os problemas citadinos, o que demonstra seu grau de cidadania e envolvimento com as questões da cidade. O autor se debruça sobre à cidade de São Luís do Maranhão, revelando o seu olhar quanto a cultura e memória de uma forma bastante poética, para dar um aviso e ao mesmo tempo um convite a passear pela cidade. Por isso, pela imensurável capacidade de nascer de novo, e de novo ser bela na crônica admirável de José Chagas, ele vai pondo em evidência a realidade social da cidade. O interessante é que suas crônicas foram escritas há mais de dez anos, contudo perfeitamente coerentes com o atual contexto, comprovando como a literatura dialoga com a história da sociedade.

4.3. Mirante

Sobre os Mirantes o escritor se rendeu e se encantou à cidade de São Luís do Maranhão. Com a perspectiva de observar os detalhes e com muita poeticidade, verifica-se o quanto a sua crônica permanece tão viva, pois para conhecer a cidade, de fato, é essencial ler José Chagas, pois ele ‘’brinca com as palavras’’ e transformou as belezas e mazelas em escrita, de tal modo que conseguiu eternizar arte; literatura e memória em suas obras. A sua constatação singular tornou-se eterna, pois José Chagas revelou a alma de São Luís de forma poética e atemporal através da poesia e da prosa. O maestro da memória desenha com muita elegância e fina ironia em suas crônicas, pois a denúncia, a preocupação era latente em sua escrita. Uma costura linguística fascinante. A força e a contundência de quem sabe escrever com bastante coerência na percepção da cidade, de maneira que ela estava entranhada no próprio escritor.

Ora, quanta riqueza abarca na crônica de José Chagas.

Dessa janela acompanho a dinâmica vida dos telhados e a vertical insistência das torres e não creio que haja melhor diversão do que assistir à ginástica dos tetos ou ao balé dos ângulos, sacudindo cumieiras e desvãos, em variados ritmos. Aqui a fisionomia da cidade é sempre a mesma e contudo é outra. O invariável também varia em seu campo de profunda constância. Tudo é uma questão de saber ver, de procurar ser um pouco mais atento na contemplação. Aqui como diante de uma obra de arte, é preciso ter vontade para com o objeto contemplado. (Chagas, José. Pedra de Assunto. Pág.15)

5. MEMÓRIA

Um elemento essencial na construção e preservação de uma sociedade certamente é a memória, pois ela está enraizada no cotidiano do indivíduo, quer seja de forma individual ou coletiva, desse modo, percebemos que o estudo da memória é a senha para um campo de estudo, para além disso os lugares de memória, tais como: Igrejas; Instituições de ensino, museus entre outros espaços destinados a manter e por que não dizer fortalecer o uso de tais conceitos ideológicos por meio do uso da memória.

Em meados dos anos 20 e 30 do século XX, Maurice Halbwachs examinava essa temática, de tal forma que o teórico já revelara qual seria a discussão no meio acadêmico, bem como a importância das análises do discurso como fonte de pesquisa a ser utilizada pela história, como fonte de pesquisa a ser utilizada pela história, enaltecendo o espaço de pesquisa historiográfica.

Nesse contexto, podemos acrescentar que as maiores discussões sobre o tema da memória ganharam relevo com os estudos dos seguintes autores: Pierre Nora e Michel Pollak, ambos nas décadas de 80 e 90, englobando o ambiente acadêmico e fortalecendo a fonte histórica como pesquisa acadêmica. De antemão, faz-se necessário destacar o que Borges ( 2013, p. 1), ‘’ o primeiro teórico a falar sobre memória coletiva foi o sociólogo Maurice Halbwachs, investigando e comprovando que a relação da memória individual é produzida socialmente, visto que uma parcela significativa das pessoas viveram em grupos, sendo assim organizam-se em coletividade, ou seja, criando laços de afinidades, experenciando trocas afetivas, memórias comuns de modo geral, robustecendo uma identidade coletiva e consequentemente uma memória social.

‘’De todas as interferências coletivas que correspondem à vida dos grupos, a lembrança é como a fronteira e o limite; coloca-se na intersecção de várias correntes do pensamento coletivo. Eis por que experimentamos tanta dificuldade para nos lembrar dos acontecimentos que apenas nos concernem. Vemos então que não se trata dos acontecimentos que apenas nos concernem. Vemos então que não se trata de explicitar uma essência ou uma realidade fenomenal, mas de compreender uma relação fenomenal.’’(Halbwachs,1990, p.13).

Com efeito, a partir das considerações de Halbwachs (1990), as memórias são compostas ao longo do tempo, pois os indivíduos que lembram e determinam na coletividade o que vai ser lembrado, ou seja, quanto mais íntimo o grupo social, mais robusta serão as memórias, pois é através dos grupos que estamos integrados é que alinham a nossa memória, além do que, as rememorações vem conforme a vivência do tempo que se vive, portanto recordamos uma imagem do passado e ela seria a intuição, sentimento deixado pelos eventos realizados e permanece viva nas memórias dos indivíduos.

Nesse sentido, Paul Ricouer ( 2007, p.27) pontua que: [...] quando narramos coisas verdadeiras, mas passadas, é da memória que extraímos não as próprias coisas, que passaram, mas as palavras concebidas a partir das imagens que elas gravaram no espírito, como impressões passando pelos sentidos. Nesta abordagem, a memória se apresenta como um retrato de um determinado período em que Halbwachs ( 1990, p.51) pontua que a memória coletiva consiste na participação da memória individual sobre determinado evento que ele apresenta que ‘’ diríamos voluntariamente que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva’’.

Ora, a memória pode ser entendida como reminiscências do passado onde surgem no presente, no pensamento de cada indivíduo, mas também como forma da capacidade humana de armazenar informações dos acontecimentos que foram experenciados no passado, em função ao nosso convívio social, por isso que a nossa lembrança necessita de uma comunidade afetiva.

‘’ Mesmo que fatos desse gênero fossem bastante raros, ou mesmo excepcionais, bastaria que pudéssemos atestar alguns deles para mostrar que a memória coletiva não explica todas as nossas lembranças e, talvez, que ela não explica por si mesma a evocação de qualquer lembrança’’. (Halbwachs, 1990, p. 36)

Assim sendo, a nossa lembrança precisa de uma comunidade, a qual é construída pelo convívio social, pois dessa maneira, podemos então fundamentar em nossa própria impressão nas memórias de outras pessoas, as quais estão criando a mesma comunidade da qual estamos integrados, por isso Halbwachs declara (1990, p. 39) Não basta constituir pedaço por pedaço a imagem de um acontecimento passado para obter uma lembrança. É preciso que esta reconstituição funcione a partir de dados ou de noções comuns que estejam em nosso espírito e também nos outros, porque elas estão sempre passando destes para aquecer e vice-versa, o que será possível se somente estiverem feito e continuarem fazendo parte de uma mesma sociedade, de um mesmo grupo. Halbwachs demonstra que embora tenhamos a compreensão de objetos, diversos fatores influenciam nossas vivências ‘’ para confirmar ou recordar uma lembrança não são necessários testemunhos no sentido literal da palavra, ou seja, indivíduos presentes sob uma forma material e sensível’’. ( Halbwachs, 2013.p.31) para o teórico vivenciar inúmeros eventos e memórias, ou até mesmo nossas lembranças, as quais permanecem coletivas e podem ser evocadas por outros sujeitos, o autor declara que jamais estaremos sozinhos, mesmo que outras pessoas não estejam fisicamente presentes, certamente trazemos no pensamento sobretudo em nossa memória.

Pollak apresenta inovações relevantes para a abordagem no universo da memória, porém não rompe com a obra de Halbwachs. Pollak e Halbwachs se debruçam na memória como um fenômeno coletivo, ou seja, definindo-a como uma estrutura social. Ambos definem a memória como uma construção do passado realizada no presente, de tal forma que os teóricos apontam o papel fundamental da memória para o surgimento de identidade. Pollak compreende que a memória é coletiva, pois ela tem uma dimensão social, sendo parcialmente herdada pelos sujeitos, entretanto o indivíduo também tem suas lembranças , diferentemente de Halbwachs, para o teórico o social se define em oposição ao individual. Para Pollak, o indivíduo também é capaz de formar e acessar memórias, participando ativamente da construção das recordações dos grupos. O sujeito administra as influências que lhe chegam de fora afim de elaborar suas próprias recordações. Sendo assim, o indivíduo não é refém aos ‘’ quadros sociais da memória’’.

Nessa ótica, Pollak demonstra que as memórias (individuais ou coletivas) englobam três elementos: acontecimentos; pessoas ou personagens e lugares. Os acontecimentos referem-se aos eventos dos quais uma pessoa pode ter participado diretamente ou não, isto é, que podem ter sido vivenciados a partir do pertencimento do indivíduo a um grupo. De igual modo, as personagens, as quais participam das lembranças de alguém podem ter feito parte do seu círculo de convívio. Por fim, os lugares, que servem de base para o desenvolvimento das memórias de um sujeito podem ter sido frequentados durante certo tempo, ou podem ter sido inseridos de modo indireto as suas experiências.

Em suma, a construção da memória engloba experiências vividas, mas também experiências herdadas, aprendidas, transmitidas, do grupo pelo processo de socialização. Vale ressaltar que, embora os acontecimentos; pessoas, lugares, os quais compõem as experiências dos grupos são alteradas quando registradas na forma de lembranças. As memórias podem abarcar elementos que ultrapassam o espaço-tempo de duração de vida dos grupos, indivíduos.

Assim sendo, as memórias podem se basear em fatos reais ou não-reais. Esse processo de lembranças transcendem invenções, ‘’ confusões, projeções’’, envolvendo silêncios e esquecimentos, os quais ocorrem de modo consciente ou inconsciente. Para Pollak, a semelhança de Halbwachs, a memória contribui para a criação do sentimento de identidade dos indivíduos e grupos. Em sua definição, a identidade e a auto-imagem que os indivíduos e grupos constroem para si mesmos e para outros.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os estudos, debates, teorias explorados que fizeram menção a história da crônica, de acordo com o recorte histórico do século XIX, levaram-me, com base em diversos teóricos e estudiosos da literatura, como Antônio Cândido, Eduardo Portella, Massaud Moises, Paul Ricouer dentre outros, à compreensão que a crônica possui um papel de expressividade na literatura, além do que ela exerce bastante influência para o entendimento dos problemas que emergem no cotidiano da cidade. Assim, é possível concluir que a crônica possui um papel de expressividade na literatura, além do que exerce, também, bastante influência na sociedade.

Para chegar ao que é hoje essa narrativa curta teve fortes influências no fazer literário de cada autor, cujo toque e olhar se diferencia, embora com o mesmo objetivo, ou seja, fazer a literatura de um povo. A partir das várias transformações pelas quais a crônica sofreu ao longo do tempo até ser exercitada em nossa literatura foi um longo caminho.

Nessa perspectiva, a cidade de São Luís, rica em assuntos a serem desvelados pelos amantes das letras, escritores e poetas que colaboraram com excelência na preservação da memória e da identidade da nossa capital, mas ao mesmo tempo, que lhe dedicaram um olhar crítico, conforme percebemos ao estudar as crônicas de José Francisco das Chagas. Suas crônicas que falam sobre a capital maranhense na obra Da Arte De Falar Bem , por isso, de importante leitura para ser divulgada, conhecida em qualquer ambiente de leitura e estudo.

Por esta razão, são muitos os benefícios que essa literatura oferece ao estudante, por isso, a necessidade de conhecer, estudar e valorizar, cujo valor é imensurável. Em outros termos, a crônica oferece para o leitor de modo geral, a criação de projetos de pesquisa, trabalhos monográficos, artigos, a exemplo deste trabalho, nascido a partir da necessidade do desconhecimento da nossa riqueza literária e da necessária conservação da nossa identidade enquanto cidadão ludovicense, habitantes de uma terra rica em escritores, porém pouco explorados.

Desta forma, acreditamos que a percepção memorialística nas crônicas de José Chagas é um acesso para um despertar de todos, principalmente dos que pleiteiam serem educadores.

Precisamos, de forma urgente, observar como e de que forma podemos trabalhar, no universo educacional a literatura maranhense, por meio desse gênero maravilhoso que é a crônica.

Assim estaremos permitindo aos alunos um encontro fantástico e troca de saberes, em que todos consigam participar de forma direta ou indireta da formação de uma sociedade, revisitando o passado, mas também olhando para o futuro por meio de sua própria literatura.

Por esse motivo, compreendo que este trabalho é relevante e que, através dos conhecimentos adquiridos, despertou nesta pesquisadora em construção, maior compromisso e empenho para com a nossa literatura maranhense, por meio dos cronistas de nossa cidade de São Luís.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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COUTINHO, Afrânio. Crítica e teoria literária. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Fortaleza: Edições UFCE-PROERD,1987.

CANDIDO, Antônio, et.al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1992.

Da arte de falar bem. São Luís: Instituto Geia, 2004. CARDOSO, Ney Farias. José Chagas. O ESTADO DO MARANHÃO. 28.jul.2008.

FRANÇA,S.S.L. ‘’ Os saberes históricos: A concepção de história dos cronistas oficiais’’. In: IDEM. Os reinos dos cronistas medievais (séc XV). São Paulo: Annablume, 2007.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Editora Vértice, 1990. MOISÉS, Massaud. A criação literária. Prosa-II.19; ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio (Tradução de Dora Rocha Flaksman). Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2. n. 3, p. 3-15, 1989. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/2278/14

SÁ, Jorge de. A CRÔNICA, 6ºed. São Paulo: Editora Ática, Col. Princípios, 1985. TESE Camila Maria Silva Nascimento.


1 Mestranda em Letras-Estudos Teóricos e Críticos em Literatura no Programa de Pós-Graduação em Letras - São Luís (PGLETRAS), da Universidade Federal do Maranhão-UFMA, integrante do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense (GELMA/UFMA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras- São-Luís (PGLETRAS), da Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Professor do Departamento de Letras, Coordenador do Departamento de Letras-DELER/CCH-UFMA. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail