REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781746935
RESUMO
Este artigo objetiva analisar a memória a partir do personagem André, o qual está presente na obra escolhida, como também demonstrar de que forma a memória está relacionada com o compromisso ético na família, debruçando-se na perspectiva apresentada pelos estudos dos seguintes teóricos: Maurice Halbwachs; Márcio Seligmann Silva, Michael Pollak. A obra de Nassar tem como personagem principal e narrador André, o qual se apaixona por sua irmã Ana, onde surgem os conflitos com os valores paternos. Em um cenário marcado pelo autoritarismo imposto principalmente pelo pai, o personagem André consegue descortinar tal narrativa, por meio da sua ruptura com o passado opressor e ferrenho apresentado ao longo da obra Lavoura Arcaica. Observando tais elementos, iremos pontuar acerca da memória com enfoque na teoria literária e filosófica para subsidiar este trabalho.
Palavras-chave: Memória; Raduan Nassar; Lavoura Arcaica; Opressão.
ABSTRACT
This article aims to analyze memory through the character of André, who is present in the chosen work, as well as to demonstrate how memory is related to ethical commitment within the family, focusing on the perspective presented by the studies of the following theorists: Maurice Halbwachs; Márcio Seligmann Silva, Michael Pollak. Nassar's work features André as the main character and narrator, who falls in love with his sister Ana, leading to conflicts with paternal values. In a scenario marked by authoritarianism imposed mainly by his father, the character André manages to unveil this narrative through his break with the oppressive and harsh past presented throughout the work Lavoura Arcaica. Observing these elements, we will discuss memory with a focus on literary and philosophical theory to support this work.
Keywords: Memory; Raduan Nassar; Lavoura Arcaica; Oppression.
1. INTRODUÇÃO
Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama (São Paulo). Filho de imigrantes libaneses, na juventude mudou-se com a família para a capital de São Paulo. Nos anos 50, começou a cursar letras clássicas e direito na USP, mas abandonou ambos os cursos para estudar filosofia na mesma universidade. Trabalhou como redator-chefe no Jornal do Bairro, fundado por ele e seus irmãos, com intuito de disseminar informação através de um posicionamento de esquerda. Fez sua estreia na literatura em 1975, com a obra prima Lavoura Arcaica, que traz muitos elementos das vivências do autor, como a vida no campo e a criação em uma família de origem libanesa. Publicou também o romance Um copo de cólera (1978) e a coletânea de contos Menina a caminho (1997), formada por contos escritos pelo autor antes de deixar o ofício da escrita, em 1983, para dedicar-se à vida rural. Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, é o primeiro romance e a obra mais conhecida do escritor brasileiro. Foi publicado em 1975 e constitui-se em um romance arrebatador, pois a beleza estética e a linguagem apresentada ao longo da narrativa proporcionam ao leitor uma viagem reflexiva, principalmente no período em que foi produzido (Ditatura Militar).
O romance foi eleito pela crítica versada que conquistou importantes premiações literárias, dentre elas: prêmio Coelho Neto (1976), da Academia Brasileira de Letras, na categoria romance, prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria autor revelação, dentre outros. O escritor recebeu o Prêmio Camões 2016, uma das importantes premiações da literatura em língua portuguesa.
O principal tema, o qual ainda é um tabu universal na sociedade hodierna, é escrito de forma singular, de tal modo que podemos olhar para as relações amorosas incestuosas com reflexão, ou seja, com um olhar filosófico, pois o escritor tem um poder narrativo, além do que, o domínio de linguagem único, ao passo que ‘’brinca’’ com a língua. O romance Lavoura Arcaica é um texto poético com diversas camadas e um enredo avassalador.
O monólogo interior apresenta diálogos ‘’invisíveis’’, memórias narradas, sobretudo a narrativa em primeira pessoa é a principal característica. O jovem André nasceu e cresceu em uma família de origem árabe, a qual vive uma atmosfera rural, mas também com um patriarca opressor e uma religiosidade acentuada. Os ‘’sermões’’ do pai representam e comprovam essa rigidez na família. O autor apresenta o enredo de forma magnífica ao longo da narrativa, pois o símbolo da mesa, o pai; o centro, a lei desencadeia um fazer literário impactante e curioso.
Uma das formas de compreender essa história, certamente é a releitura do conto bíblico: O Filho Pródigo – a metáfora estabelecida pelo escritor como um possível olhar sobre a obra: Lavoura Arcaica despertando desse modo a imaginação do leitor, como também a reflexão sobre a transgressão, a revolta vivenciada pelo personagem André e diversos acontecimentos, os quais circundam a família do romance apresentado.
A narrativa está subdivida em duas partes: A Partida e O Retorno. O escritor apresenta o personagem André, o qual está em um quarto de pensão, após ter partido de sua casa ( opressora, família estritamente religiosa e com uma forte moral), por isso André está em busca de uma transgressão da família; cultura, origem. Logo, ele nutre uma superação do seu lar. A narrativa apresenta um monólogo, pois ouvimos apenas a voz de André, embora saibamos que Pedro está ouvindo e, talvez, questionando o seu irmão (um momento de rememorar a infância; o relacionamento com o pai e com a sua mãe), a qual apresenta um contraste com a figura do pai. Diante desse cenário, surge a indagação: qual o limite da memória e da ficção?
O retorno do ‘’ filho pródigo’’ é um momento de reencontro com a família, mas também com a religião, moral e os sermões que o pai faz à mesa. Uma narrativa cíclica e marcada pelo desejo a qual move o leitor a caminhar com o personagem André, a ida e volta do filho pródigo para o seu lar, além do que as diversas lavouras metaforizadas no título da obra.
A lavoura da qual a família do André depende, pois é uma família rural e de forma curiosa o escritor também apresenta ao longo da narrativa o personagem André tendo contato com a terra e olhando a sua irmã Ana (‘’André enfia os pés na terra úmida”), evidenciando o desejo, o fazer poético e promovendo uma metáfora singular. A lavoura que simboliza uma herança de gerações. A lavoura da língua que Nassar incute no leitor e soa de maneira febril. A lavoura de si- da formação do eu (pois o personagem André experiencia isto na prática).
Raduan Nassar, portanto, evidencia a memória por meio da fala de André, que verdadeiramente reconstrói seu passado fracionado e conturbado em uma família patriarcal, cuja voz paterna é seguida por todos como algo inquestionável. Vale ressaltar que, esses elementos servirão como pano de fundo para a tessitura das memórias de André ao redor de sua família, e, em seguida, o momento de violação com a ideia de tradição abordada no romance Lavoura Arcaica.
Além disso, as relações familiares são enfatizadas durante todo o enredo da obra literária, contudo é o desejo que envolve e fica mascarado ao apontar para a sensualidade; ao prazer, tristeza e sofrimento. À proporção que a narrativa vai sendo relatada pelo personagem André, o desejo vai cercando a vida dos personagens de forma bastante específica e empolgante evidenciada no discurso de cada um. André consegue combinar passado e presente, emoções e ações, em um movimento constante entre suas memórias e seu presente.
Lavoura Arcaica perpassa esse caminho, que coloca o leitor ora como acompanhante do processo de memória, ora no lugar de Pedro, o qual toma conhecimento dos fatos até então ignorados, ora no lugar de André, que nutre um sentimento de revolta pelas situações de transgressão em relação à palavra do pai e por não se reconhecer participante da família. Uma obra que apresenta um grande desabafo de André, onde o leitor tem a nítida impressão de poder acompanhar o fluxo de pensamentos do protagonista.
Para melhor abordagem do tema em questão, o presente trabalho secciona-se em três capítulos. O primeiro discorre sobre a memória e o romance, ou seja, de que forma podemos compreender e evidenciar ao longo da obra a presença da memória coletiva e individual que é explorada em Lavoura Arcaica. Logo, trazemos alguns trechos da obra, espaços em que é possível visualizar de que forma o protagonista André declara as memórias pela fazenda; família, discutindo alguns temas- o principal foco do estudo.
O segundo, uma abordagem sobre a memória e de que forma podemos observar a memória no romance. Para tanto, dividimos esse capítulo em especial, além do que apresentamos as classificações da memória explorando na narrativa, de modo que possa comprovar a relevância dos estudos dos teóricos sobre o assunto.
O terceiro vai abordar a influência da moral; ética no romance de modo que possibilite um diálogo com a memória estabelecida ao longo da narrativa. Nesse capítulo, escolhemos alguns trechos da obra para proporcionar uma análise e compreensão deste estudo.
2. A MEMÓRIA E O ROMANCE LAVOURA ARCAICA
Ao lermos a obra Lavoura Arcaica, conseguimos observar ambientes, situações ‘’atípicas’’ e por que não dizer inquietantes. Ora, o cenário apresentado, onde o personagem e narrador André narra as suas memórias configura-se de um personagem particular em relação aos outros personagens presentes no romance. A lavoura, espaço que verdadeiramente prende a atenção do leitor, pois ela proporciona diversas reflexões no que se refere àquilo que possa representar. De um lado, a lavoura que apresenta a tradição familiar, as marcas do tempo. De outro lado, um local sombrio, pois o sofrimento, silenciamento, renúncia desencadeia concomitantemente revoltas e conflitos internos vivenciados pelo personagem André.
Nesse contexto, podemos verificar um lugar que fomenta memórias, sobretudo familiares, pois a casa onde André nasceu e cresceu é apresentada em toda a narrativa como um local diferente. Com base nisso, André nutre pensamentos e procedimentos de reflexão, mas também revoltantes, pois o ambiente que suscita memórias é marcado pela opressão, a dominação adotada pela figura paterna. ‘’ [...] o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinais graves marcando as horas’’( NASSAR, 1989, p.47).
As memórias do personagem André determinam literalmente o movimento da narrativa Lavoura Arcaica, a relação que ele nutre com a mãe, o pai, irmãos, a irmã, principalmente, constitui-se em um enredo envolvente, o qual aponta para a religiosidade, costumes, tradição em especial da família, mas também ao questionamento de tais crenças que permeiam a psiquê de André. Diante disso, a mãe é uma personagem que compreende as inquietações do filho, ela é conhecedora do sofrimento que André vive, contudo ao longo da narrativa, é notória a figura de uma mãe que se mostra impotente devido à própria posição que ocupa na família, mediante o tradicionalismo que ultrapassa gerações. ‘’ [...] caí pensando nos seus olhos, nos olhos de minha mãe nas horas mais silenciosas da tarde, ali onde o carinho e as apreensões de uma família inteira se escondiam por trás’’ (NASSAR,1989,p.15)
É nesse cenário que André constantemente visita o passado através de memórias melancólicas, opressoras, dolorosas de modo que perturbavam a sua história. Para o crítico e teórico Michael Pollak: ‘’ A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que compõem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementariedade, mas também as posições irredutíveis’’( POLLAK,1989,p.9).
Faz-se necessário refletir também sobre a esfera memória, a qual requer, conforme expôs Seligmann Silva [...]’’ O trauma é caracterizado por ser uma memória de um passado que não passa.’’( SELIGMANN,2008,p.69]. Portanto, atravessar ou refletir a tradição observando o rompimento como possibilidade interpretativa abarca a visão de Raduan Nassar, o qual apresenta esse atravessamento pelo tempo em articulação com o campo da memória.
Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! Tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse’’ para onde estamos indo?’’-não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ’’estamos indo sempre para casa’’( NASSAR, 2008,p.33-34)
Com base no exposto, verifica-se que a tradição é apresentada com o viés de rompimento, de modo que com a interpretação construída em toda a narrativa, podemos depreender que características que se evidenciam inconciliáveis com determinados pensamentos e procedimento de André, o qual desde o início da obra mostra-se como alguém inconformado e que de certa forma alimenta os traumas experimentados no contexto familiar que está inserido, de tal forma que ele vislumbra a fuga de sua casa como a solução/libertação de um passado extremamente opressor, ou seja, um anseio pelo novo e a possibilidade de mudança de vida.
No começo de suas memórias, André declara que ‘’ bastava que um de nós pisasse em falso para que toda a família caísse atrás’’ (NASSAR, 2008, p.21) Em seguida, o seu irmão mais novo manifesta o desejo de seguir os passos do seu irmão:
‘’Só foi partir, André, e eu já vivia empoleirado lá na porteira, sonhando com estradas, esticando os olhos até onde podia, era só na tua aventura que eu pensava... Quero conhecer muitas cidades, quero correr todo este mundo, vou trocar meu embornal por uma mochila, vou me transformar num andarilho que anda de praça em praça cruzando as ruas feito um vagabundo: quero conhecer também os lugares mais proibidos, desses lugares onde os ladrões se encontram, onde se joga a dinheiro, onde se bebe muito vinho, onde se cometem todos os vícios, onde criminosos tramam seus crimes; vou ter a companhia de mulheres, quero ser conhecido nos bordéis e nos becos onde mendigos dorme, quero fazer coisas diferentes, ser generoso com o meu próprio corpo, ter emoções que nunca tive: e quando a intimidade da noite me cansar, vou caminhar a esmo, pelas ruas escuras, vou sentir o orvalho da madrugada em cima de mim, vou ver o dia amanhecendo estirado em um banco de jardim; quero viver tudo isso, André, vou sair de casa para abraçar o mundo, vou partir para nunca mais voltar, não vou ceder a nenhum apelo, tenho coragem, André, não vou falhar como você...( NASSAR, 2008, p.178-179)
A fala do irmão mais novo, Lula, é figurativa, pois ele quer viver novas experiências, experienciar novas sensações, embora também esteja inserido em um ambiente ditador, pois o pai evoca a figura de guardião e detentor das regras, o único capaz de estabelecer a moral e leis a serem seguidas:
O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com farpas de tantas afiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sabe viva, cerrada e pujante que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa (NASSAR, 2008, p.55).
Em diálogo com o irmão, André a desunião, que ele nutria desde a sua infância, demonstrando as memórias de uma etapa a qual ele era religioso: [...] a nossa desunião começou muito mais cedo do que você pensa, foi no tempo em que a fé me crescia virulenta na infância e em que eu era mais fervoroso que qualquer outro em casa. Eu poderia dizer com segurança, mas não era hora de especular sobre os serviços obscuros da fé, levantar suas partes devassas, o consumo sacramental da carne e do sangue, investigando a volúpia e os tremores da devoção. (NASSAR, 2008, p.24)
A religiosidade é um tema abordado no romance. Embora os dogmas e ensinamentos religiosos estivessem latentes na construção da família, não foi suficiente para impedir que um relacionamento amoroso entre irmãos acontecesse e culminasse em uma tragédia. A desestruturação familiar, o esfacelamento da moral e a marca profunda do rompimento da tradição. Desse modo, quais memórias nós (leitores) podemos projetar diante de tal narrativa?
‘’Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na hora dos sermões: o pai à cabeceira: à sua direita, por ordem de idade, vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika, e Huda; à sua esquerda, vinha a mãe, em seguida, eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já que o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, um enxerto junto ao tronco talvez funesto, pela carga de afeto: podia-se quem sabe dizer que a distribuição dos lugares na mesa (eram caprichos do tempo) definia as duas linhas da família. (NASSAR, 2008, p.157).
Conforme o personagem André, a participação da mãe na família, configura-se como uma anomalia. Dela surgem o narrador, Ana, Lula. A mãe representa a figura amorosa e subalterna, passiva, consciente e sem voz na família, o pai, extremamente frio; ditador e opressor. Características herdadas do avô de André. Será que a família está fadada a uma maldição? Quais memórias serão imprimidas nos parentes vindouros dessa família? A partida e o retorno de André reverbera um descortinar definitivo? André ao regressar não apresenta um desejo de recuperar a posição na família, pelo contrário, mas sim de reencontrar a sua irmã Ana.
‘’Ninguém em nossa casa há de falar com presumida profundidade, mudando o lugar das palavras, embaralhando as ideias, desintegrando as coisas numa poeira, pois aqueles que abrem demais os olhos acabam só por ficar com a própria cegueira; ninguém em nossa casa há de padecer também de um suposto e pretencioso excesso de luz, capaz como a escuridão de nos cegar [...], e por isso, dobre a língua, eu já disse, nenhuma sabedoria devassa há de contaminar os modos da família! Não foi o amor, como eu pensava, mas o orgulho, o desprezo e o egoísmo que te trouxeram de volta à casa! (NASSAR, 2008, p.167-168).
O pai de André nesta ocasião reafirma a tradição, de forma que repudia qualquer experiência, conhecimento que o filho pródigo tenha adquirido fora do âmbito familiar na fazenda, por isso não permite que André venha denegrir os costumes, preceitos familiares. Contudo, na festa de comemoração do retorno de André que seu pai descobre o relacionamento incestuoso dos dois irmãos e a tragédia acontece: o pai golpeia a filha com um alfanje.
Após o golpe desferido pelo pai, o efeito dominó envolve a família de André, pois cada um dos membros da família, ao seu modo desestrutura-se, rompendo com a tradição, mas também a memória, sobretudo do avô que fora marcada agora pela morte.
‘’Pai! E de outra voz, um uivo Cavernoso, cheio de desespero
Pai! E de todos os lados, de Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido
Desamparado
Pai! Eram balidos Estrangulados
Pai! Pai! Onde a nossa segurança? Onde a nossa proteção?
Pai! E de Pedro, prosternado
Na terra
Pai! E vi Lula, essa criança tão cedo Transtornada, rolando no chão
Pai! Pai! Onde a união da família?
Pai!
E vi a mãe perdida, no seu juízo, arrancando punhados de cabelo, descobrindo grotescamente as coxas, expondo as cordas roxas das varizes, batendo a pedra do punho contra o peito. Iohána! Iohána! Iohána! E foram inúteis todos os socorros, e recusando qualquer consolo, andando entre aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse entre os escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.’’(NASSAR, 2008,p.96-98).
2.1. Tecendo a Memória
A composição da memória na obra Lavoura Arcaica apresenta uma marca indissociável da composição narrativa, pois durante o romance, o narrador-personagem se debruça nas suas memórias para contar a narrativa. Além do que, a memória serve como base para a preservação da moral, tradição na família do personagem André. Em A Memória Coletiva, Maurice Halbwachs adverte que é impossível construir um problema da evocação das lembranças caso não tivermos como parâmetro os elementos presentes nas relações sociais para a reconstrução da memória, pois a memória constitui um dos fundamentos e maneiras pelas quais estabelecemos a nossa história.
As memórias demonstradas no romance de Raduan Nassar são evidenciadas não apenas pelas lembranças que o narrador- personagem conta ao apresentando suas inquietações e revoltas dentro da família, mas também comprovamos que a memória é latente principalmente na composição estética do romance, pois em toda a obra verificamos as alternâncias de capítulos que evidenciam o passado e presente, de modo que a voz do personagem André se faz ouvir em diferentes níveis, ou seja, a respeito dessa alternância entre o tempo da rememoração e da enunciação se faz de modo bastante recorrente.
Ora, existe uma reconstituição da história por meio da memória. Para episódios que buscam na memória as respostas enquanto sujeito, pois, por meio dela o homem consegue construir e desconstruir, rememorar e reforçar o que se sabe de acordo com um determinado acontecimento. Desse modo, existem diversas classificações no campo da memória, tais como: a memória individual, memória coletiva, memória biológica, memória histórica; cada uma neste universo possibilita, um refazer e um perpetuar de componentes culturais (HALBWACHS, 1990). Porém, mesmo com a diversidade das memórias, neste trabalho, nossa perspectiva se apoia na memória coletiva e memória individual.
Segundo o teórico Maurice Halbwachs ( 1990) apresenta que para ratificar fatos do passado, podemos associar nossas rememorações com as de outras pessoas; entretanto, sabemos é habitual que o relato de um mesmo acontecimento pode apresentar pontos de vista diferentes. Desse modo, o foco na busca desses relatos não deve ser para o que está em desacordo entre um e outro, mas para aquilo que os aproximam. A rememoração de um indivíduo quando somada com a de um outro ajuda na reconstrução dos fatos a ponto de torna-lo inteligível por qualquer um dos que estiverem envolvidos naquele momento, caso este seja o enfoque desejável (HALBWACHS, 1990).
Muitas lembranças surgem por conta dos relatos dos outros, mas isso só não implica em dizer que a memória só se refira a acontecimentos que, de fato foram vivenciados. A memória não esta restrita à presença dos acontecimentos; o estudo da história da humanidade é um exemplo em que isso comprova; muitos dos acontecimentos tidos como de suma relevância para a humanidade; que ainda hoje são tidos de tal forma, não foram meramente presenciados por muitos, mas por terem servidos e tidos por relevância, por algum aspecto em específico o faz deixar seu registro e a memória como sendo um destes; pois quando estes fatos são rememorados, eles passam a compor elementos que podem construir a identidade da sociedade. (HALBWACHS, 1990).
Diante disso, faz-se necessário ressaltar que a memória coletiva perpassa a memória individual. Para o autor, podemos comentar sobre a memória coletiva quando rememoramos um acontecimento ocorrido, por exemplo, em uma época anterior e a lembrança dessa época conserva o elo de pertencimento, pois concomitantemente a memória consegue registrar as experiências vividas em grupo, as individuais também serão registradas.
Portanto, podemos compreender que as lembranças têm a sua gênese numa relação dos aspectos individuais com a coletividade, por isso a memória coletiva não é dissociada da memória individual. Seguindo esse pensamento, o teórico francês, afirma que raramente encontramos lembranças que nos ‘’ conduza a um momento em que nossas sensações fossem apenas o reflexo dos objetos exteriores, no qual não misturávamos nenhuma das imagens, nenhum dos pensamentos que nos prendiam aos homens e aos grupos que nos rodeavam’’ ( HALBWACHS, 1990, p.25). O teórico e crítico literário enfatiza as funções positivas elencadas com base no que há de comum nas memórias, gerando a sociabilidade, logo, quanto mais os acontecimentos estiverem sendo rememorados e as convivências forem trocadas, mais elas estarão próximas da memória. A respeito dessas relações, Halbwachs afirma:
Por vezes, essas relações ou esses contatos são permanentes ou então, em todo caso, se repetem muito frequentemente, se prolongam durante uma duração bastante longa. Por exemplo, quando uma família viveu durante muito tempo numa mesma cidade, ou na proximidade dos mesmos amigos, cidade e família, amigos e família constituem como que sociedade complexas. Então nascem as lembranças, compreendidas em dois quadros de pensamentos que são comuns aos membros dos dois grupos. Para reconhecer uma lembrança desse gênero, é preciso fazer parte ao mesmo tempo de um e de outro. É uma condição que é preenchida, durante algum tempo, por uma parte dos habitantes da cidade, por uma parte dos membros da família’’. (1990,p.30)
Diante disso, entende-se que a memória provavelmente reforça os elos de época diferentes. Pollak (1989), com a sua perspectiva, apresenta outra vertente, para ele, a rememoração do que se quer conservar do passado, integra-se na busca de reforçar sentimentos; afinidades em grupos e ou camadas sociais nos diversos contextos, portanto a rememoração do passado coopera de forma significativa para manter a relação direta entre grupos que fazem parte da nossa sociedade.
A memória mantém o inter-relacionamento social e além disso, propõe a difusão do que o grupo divide socialmente. Além disso, ela ajuda na manutenção de identidades em comum, haja vista, por exemplo, que a conduta de uma geração muito comumente influencia outra. É o que afirma Pollak (1989, p.9) associa a ‘’ fornecer um quadro de referências ‘’ e de pontos de referências; para ele, todo trabalho de memória de grupo tem um ponto limite, pois a memória, conforme Pollak não pode ser construída arbitrariamente, ela deve abarcar a ideia de satisfação.
Esse material pode ser sem dúvida interpretado e combinado a um sem-número de referências associadas; guiadas pela preocupação não apenas de manter as fronteiras sociais, mas também de modificá-las, esse trabalho reinterpreta incessantemente o passado em função dos combates do presente e do futuro’’ (POLLAK, 1989, p.8)
Por conseguinte, a subjetividade individual fortalece a memória do grupo. No entrelaçamento entre a memória coletiva e a memória individual, temos que o enquadramento pode ser verificado em vários objetos e bens materiais que compõem os círculos sociais, como os monumentos, museus, bibliotecas, etc. (POLLAK, 1989). Desse modo, a memória é conservada em diversos contextos do pensamento. Para Michaell Pollak (1989, p.9) as memórias coletivas‘’
acontecem como ingrediente importante para a perenidade do tecido social e das estruturas institucionais de uma sociedade’’. Para Maurice Halbwachs: ‘’Se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobe nossa lembrança, mas também sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa vocação será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias (HALBWACHS, 1990, p. 25).Observando a visão dos teóricos, sobretudo a ótica apresentada por Maurice Halbwachs, podemos enfatizar que a memória colabora para a nossa formação de dados que constituem a história dos indivíduos, de tal modo que fortalece e se permite tão presente aquilo que o tempo cronológico aponta como distante.
2.2. Percorrendo os Caminhos da Memória em Lavoura Arcaica
No romance Lavoura Arcaica, Raduan Nassar apresenta elementos memorialísticos, pois a narrativa inicia com o filho arredio vivendo distante do seu lar, o narrador-personagem, apresenta por meio do fluxo de consciência fatos do tempo que apontava para o seu irmão Pedro, resolvesse buscá-lo. Segundo Maurice Halbwachs, a memória serve para manter e fortalecer os laços sociais, os costumes; valores sociais, elementos socioculturais. Porém como a postura adotada pelo personagem André é revolucionária, pois é contrária aos fundamentos e preceitos religiosos da família, principalmente da tradição, podemos compreender que a ideia de memória configura-se como uma dualidade, ao estar relacionada tanto ao caráter individual quanto ao caráter coletivo. A fim de exemplificar como essa dualidade se aplica, RICOUER (2007) explica que a individualidade da memória seria simbolizada pela ‘ tradição do olhar interior, e ‘ o olhar exterior’, conforme o olhar da alteridade.
Em Lavoura Arcaica, André, consegue enxergar o comportamento violento do pai. Embora os seus irmãos talvez não observassem isto, mas o modelo violento adotado pelo pai refletia na sua conduta de forma que André menciona:
(Em memória do avô, faço este registro, ao sol e as chuvas e aos ventos, assim como as outras manifestações da natureza que faziam vingar ou destruir lavoura, o avô, ao contrário dos discernimentos promíscuos do pai- em que apareciam enxertos de várias geografias, respondia com um arroto tosco que valia por toa as ciências, por todas as igrejas e por todos os sermões do pai’’Maktub’’) ( NASSAR, 2012, p.89)
A rememoração apresentada pelo personagem André em relação ao seu avô aponta para os elementos memorialistas apresentados por Maurice Halbwachs (1990), os quais mesmo que alguns parentes não estejam presentes fisicamente, suas lembranças reaparecem porque sua memória é rememorada por outras pessoas. Para o teórico, é dos sujeitos mais antigos ‘’ e mais do que de seus familiares mais próximos, que as crianças recebem o legado dos costumes e das tradições de toda a espécie’’ (HALBWACHS, 1990, p.44). Para robustecer o pensamento apresentado, podemos destacar a segunda geração apresentada na narrativa, lohana mantinha o status quo da família a qual vinha do seio ancestral, evidenciado no seu discurso, pautados em textos sagrados e clássicos, que foram herdados dos ensinamentos de seu pai, e do seu avô, de modo que ele queria que continuasse a ser perpetuada de pai para filho: ‘’na doçura da velhice está a sabedoria, e , nesta mesa, na cadeira vazia de outra cabeceira , está o exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo’’ ( NASSAR, 2012,p.58).
Com base nos estudos de Halbwachs, lembranças individuais se entrelaçam porque múltiplos acontecimentos fazem parte do nosso social: ‘’ somos arrastados em múltiplas direções, como se a lembrança fosse um ponto de referência que nos permitisse situar em meio à variação contínua dos quadros sociais’’ (HALBWACHS,1990, p.37), Para ele, esses dois tipos de memórias são indissociáveis. De modo contrário a André, Pedro consegue fazer a relação da memória individual e coletiva, pois o ensinamento do seu pai oferecido a ele em especial já o preparava para o prolongamento do ciclo familiar. Nas palavras de Maurice Halbwachs:
A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo e onde é possível encontrar um grande número dessas correntes antigas que haviam desaparecido somente na aparência. Se não fosse assim, teríamos nós o direito de falar em memória, e que serviço poderiam nos prestar quadros que subsistiriam apenas em um estado de informações históricas, impessoais e indesejadas? Os grupos, nos seios dos quais outrora se elaboraram concepções e um espírito que reinara algum tempo sobre toda a sociedade, recuam logo e deixam lugar para outros, que seguram, por sua vez, durante certo período, o cetra dos costumes e que modificam a opinião segundo novos modelos’’ (1990. p.45).
Nessa perspectiva, o teórico pontua que a memória individual é um desdobramento da memória coletiva; contudo, por mais que a memória coletiva se adeque como suporte para o momento atual, sobretudo no que abrange aos valores; normas que formam a identidade dos indivíduos, entendemos que as interfaces sobre a memória coletiva não são processos homogêneos, logo a memória coletiva/histórica pode sofrer mudanças de acordo com a variação das gerações. Para Halbwachs, à medida que o indivíduo cresce, e torna-se adulto, ele participa de modo mais ativo e reflexivo da vida, e dos pensamentos dos grupos, os quais fazia parte e nutria tais pensamentos em incialmente perceber: “[...] A lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções em épocas anteriores’’ [...] ( HALBWACHS, 1990, p.48).
Após a partida de André, ainda que todos os filhos estivessem preocupados para saber o motivo nenhum dos irmãos teve coragem para fazer tal interrogação, nem mesmo Pedro, que por ser primogênito poderia ter alguma regalia, mas não conseguiu fazer isso.
[...] Ficamos quietos e de olhos baixos, a mãe fazendo nossos pratos, nenhum de nós ousando perguntar pelo teu paradeiro; e foi um atarde arrastada a nossa tarde de trabalho com o pai, o pensamento ocupado em nossas irmãs em casa, perdidas entre os afazeres na cozinha e os bordados na varanda, na máquina de costura ou pondo ordem na despensa; não importava onde estivessem, elas já não seriam as mesmas nesse dia, enchendo como sempre a casa de alegria, elas haveriam de estar no abandono e desconforto que sentiam; era preciso que você estivesse lá, André, era preciso isso; e era preciso ver o pai trancado no seu silêncio: assim que terminou o jantar, deixou a mesa e foi pra a varanda; ninguém viu o pai se recolher, ficou ali junto da balaustrada, de pé, olhando o quê não se sabe na noite na escura; só na hora de deitar, quando entrei no teu quarto e abri o guarda-roupa e puxei as gavetas vazias, só então é que compreendi, como irmão mais velho, o alcance do que se passava: tinha começado a desunião na família [...] (1989, p.23-24)
3. A MORAL, ÉTICA E A MEMÓRIA NA FAMÍLIA
Neste tópico, pretendemos demonstrar a memória como guardiã na família, através da moral, ética, como também os traços literário e a percepção da moral na obra de modo geral. Por isso, destacamos alguns trechos de Lavoura Arcaica. Raduan Nassar.
Era meu irmão mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus ombros e nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, e eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse:’’ não te esperava’’[...] ( NASSAR, 1989, p.09)
No primeiro capítulo, observamos o reencontro de André com seu irmão Pedro. Ele era responsável pela união do narrador ao seio familiar. A força e bravura da união da família estão visíveis na construção moral que permeia a obra, pois tudo é norteado pelo contexto união-desunião, desse modo a força dos laços fraternos é apresentada como uma das principais virtudes morais presentes no romance Lavoura Arcaica.
Ora, é notório um clima de tensão nesse reencontro ‘’e não nos dizíamos nada’’, ladeado por um ‘’espaço de terra seca ‘’ que distancia todo o diálogo inicial: representação que pode ser compreendida através do caminho tortuoso experimentado pelo personagem André. Logo, a desunião familiar é tida como problema moral central no romance, e nesse trecho fica claro esse desconforto: ‘’e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira’’. Ou seja, esse peso nos braços já estão indicando a ruptura familiar, o desfecho da obra.
[...]‘’ Não te esperava’’ foi o que eu disse confuso com o desajeito do que eu dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava o que eu fosse lá dizer, mesmo assim, eu repeti’’ não te esperava’’ foi o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia ‘’ nós te amamos muito, nós te amamos muito’’ e era tudo que dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse ‘’ abotoe a camisa, André’’. (NASSAR, 1989, p 09-10)
O primeiro capítulo encerra com o trecho em destaque. É notório que ainda existe um cenário de silêncio e receio entre os irmãos. Por outro lado,
Pedro diz: ‘’ nós te amamos muito’’ evidenciando todo o sentimento guardado e dolorido da família. Um desabafo! O primeiro capítulo é uma apresentação da moral conservadora da família, seja pelas proibições e restrições contra o corpo, seja pelos desejos.
E me lembrei que a gente sempre ouvia nos sermões do pai que os olhos são a candeia do corpo, e que se eles eram bons é porque o corpo tinha luz, e se os olhos não eram limpos é que eles revelavam um corpo tenebroso, e eu ali, diante do meu irmão, respirando um cheiro exaltado de vinho, sabia que meus olhos eram dois caroços repulsivos. [...]. (NASSAR,1989, p.13)
No trecho acima é perceptível, que se trata de uma família pautada moralmente na religiosidade, sobretudo na base patriarcal’’ sempre ouvia aos sermões do pai’’, ou seja, a moral estabelecida sempre estará com base na fala do pai. Além disso, pela voz-memória de André, entramos em contato com o senhorio do pai: ‘’ os olhos são a candeia do corpo’’. Ora, observando esses ensinamentos, os olhos são uma espécie de guia moral para o corpo, portanto é necessário ter uma visão sadia, jamais uma visão doentia. Ao longo da narrativa, observamos como André se enquadra, pois segundo o narrador: ‘’ meus olhos eram dois caroços repulsivos’’. Ele prossegue: ‘’ eu estava era escuro por dentro, não conseguia sair da carne dos meus sentimentos, e ali junto da mesa eu só estava certo de ter os olhos exasperados em cima do vinho rosado que eu entornava nos copos’’. (NASSAR, 1989, p.14).
O narrador tem a consciência de estar distante da moral doutrinada pelo seu pai, em decorrência da problemática construída no romance: a sua relação incestuosa com a sua irmã. Além disso, podemos destacar a relação existente entre André e seu irmão mais velho, a qual ora possui uma relação de respeito, ora atinge níveis agressivos e que ferem a moral da família. Para tanto, elencamos alguns trechos da obra:
‘’Arrumei as coisas em cima da mesa, passei um pano na superfície, esvaziei o cinzeiro no cesto, dei uma alisada no lençol da cama, dobrei a toalha na cabeceira[...] (NASSAR, 1989,p.14)
Nesse trecho, fica explícito uma relação moral de respeito do narrador para com o irmão, de tal forma que há uma preocupação em colocar ordem, sugerindo uma varredura moral naquele ambiente marcado pelo desejo de André.
‘’As venezianas’’ ele disse, por que as venezianas estão fechadas? ‘’ ele disse da cadeira do canto onde se sentava e eu não pensei duas vezes e corri abrir a janela e fora tinha um fim de tarde tenro e quase frio, feito de um sol fibroso e alaranjado que tingiu amplamente o poço de penumbra do me quarto’’. ( NASSAR,1989, p.14)
Nessa cena também observamos que há entre os irmãos uma relação de respeito, pois Pedro, naquele momento, representa a figura do pai, além disso, essa cena aponta para um jogo de metáforas entre trevas e luz, representado através de Pedro- o lado luminoso e André- o lado obscuro da família. No final do capítulo, André declara:
Ele cumpria a sublime missão de devolver o filho tresmelhado ao seio da família, a voz de meu irmão, calma e serena como convinha, era uma oração que ele dizia quando começou a falar (era o meu pai) da cal e das pedras de nossa catedral. (NASSAR,1989, p.16)
No capítulo três, André denuncia o seguinte pensamento, decorrente dessa relação de respeito:
E foram os seus olhos plenos de luz em cima de mim, não tenho dúvida, que me fizeram envenenado, e foi uma onda curta e quieta que me ameaçou de perto, me levando impulsivo quase a incitá-lo num grito’’ não se constranja meu irmão, encontre logo a voz solene que você procura, uma voz potente de reprimenda, pergunte sem demora o que acontece comigo desde sempre, componha gestos, me desconforme depressa a cara, me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa. (NASSAR, 1989, p.15)
Com base nesse trecho, André sugere como culpa de sua inquietação interna os olhos moralmente luminosos do irmão ‘’ e foram seus olhos plenos de luz em cima de mim, não tenho dúvida, que me fizeram envenenado’’. Essa luz moral o envenena e o constrange. Como também, desperta André a um grito de ira, embora ele não o faça. Um grito que estaria imbuído de uma ordem extremamente conflituosa que abarca os laços primitivos e afetuosos da família ‘’ me quebre contra os olhos a velha louça lá de casa’’. Principalmente nessa fala, demonstra uma relação moral conflituosa de respeito, ainda que não concretizada, fica ao menos sugerida pelas palavras de André.
A moral, em sua gênese, está atrelada a uma coletividade, trazendo o pressuposto do social, portanto a família também tem a noção de comunidade, de tal forma que, moral e família, são indissociáveis:
A moral só pode surgir- e efetivamente surge- quando o homem supera a sua natureza puramente natural, instintiva, e possui já uma natureza social: isto é, quando já é membro de uma coletividade (gens, várias famílias apresentadas entre si, ou tribo constituída por várias gens). [...] a moral exige necessariamente não só que o homem esteja em relação com os demais, mas também de certa consciência- por limitada e imprecisa que seja-desta relação para que se possa comportar de acordo com as normas ou prescrições que o governam. (VÁZQUEZ, 2007,p.39)
Nessa perspectiva, a moral só faz sentido diante da relação com os demais. Na obra Lavoura Arcaica, está intimamente associada à união e ao trabalho de família, além disso, essa mesma relação tem de estar permeada pela consciência de dever em cumprimento das normas e prescrições impostas pela sociedade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos, debates, teorias explorados que fizeram menção à história da memória debruçando-se no romance lavoura Arcaica, Raduan Nassar levaram-me com base em diversos teóricos e estudiosos da análise e crítica literária, tais como: Maurice Halbwachs; Michael Pollak, Márcio Seligmann Silva, dentre outros, à compreensão de que é possível estabelecer um diálogo entre a memória, tradição e a ética na família em destaque do romance escolhido: Lavoura Arcaica, Raduan Nassar.
A narrativa de André apresenta a força do confrontamento com a tradição, concomitantemente com as memórias, distante do lar opressor, ditador, constituem em marcas de um indivíduo que foi revolucionário, sobretudo considerando a época e contexto familiar, André se posicionou de forma contrária ao sistema imposto pelo pai, de modo ferrenho e opressor, pois o personagem André vivia em um sistema que visava a subjugação de seus familiares e de valores antigos inquestionáveis, sobretudo no âmbito religioso, pois a tradição, os costumes rígidos da família acaba por não encontrar apoio em tempos hodiernos. O conflito com a tradição e com o tempo permeiam o romance e quais memórias podemos imprimir ao analisar a obra?
A temática do retorno, a moral, ética explorada no romance desencadeiam inquietações em uma pesquisadora em construção, de modo que a proposta deste artigo reflete sobre a obra de Ruan Nassar, observando principalmente o campo da memória como um resgate na família de forma que seja possível perceber as diversas implicações e motivações para a memória do protagonista-em especial, mas também a memória da família apresentada em uma narrativa fazendo com que o personagem André possa confrontar o tempo, a família e descortinar através da literatura situações que permeiam a sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Lauret Léon Schaffter. São Paulo. Revista dos Tribunais Ltda, 1990.
Lavoura Arcaica. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. de pucsp.br/bitstream/handle/14893/1/Edner%20Morelli.pdf. Acessado em 04.12 às 15.00h
LEAL, Julie. Memória e ruptura em lavoura arcaica. Revista de Letras e Norteamentos. 2023. Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/norteamentos/article/view/10674/7616. Acesso em: 29 nov. 2024.
PIATTI, Deise. NARRAÇÃO E MEMÓRIA EM LAVOURA ARCAICA. Travessias número 01. 2007. Disponível em: https://saber.unioeste.br/index.php/travessias/article/view/2720/2111. Acesso em: 08 dez. 2024.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento, Silencio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François. Campinas, SP: UNICAMP, 2007.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Ler o livro do mundo: Walter Benjamin, romantismo e crítica poética. São Paulo: Iluminuras, 1999.
VÁZQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. T rad. João Dell’ Anna,29. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
1 Mestranda em Letras do Programa de Pós-graduação em Letras- São Luís (PG LETRAS), da Universidade Federal do Maranhão- UFMA; integrante do Grupo de Estudos em Literatura Maranhense (GELMA/UFMA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail