HOMOEROTISMO, NARRATIVA DE SI E METAFICÇÃO NAS OBRAS SIM, SOU GAY... E DAÍ?, DE VALDECK ALMEIDA DE JESUS E ALMA GÊMEA, DE LUIZ CARLOS ÁUSTRIA DE ANDRADE E ARAÚJO

HOMOEROTICISM, METAFICTION AND NARRATIVE OF YOURSELF IN THE WORKS YES, I AM GAY ... SO WHAT? OF VALDECK ALMEIDA DE JESUS AND SOULMATE OF LUIZ CARLOS ÁUSTRIA DE ANDRADE E ARAÚJO

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780196842

RESUMO
O presente artigo tem por objetivo fazer uma leitura da obra Sim, sou gay... e daí?, do escritor Valdeck Almeida de Jesus e da obra Alma gêmea, de Luiz Carlos Áustria, depreendendo delas os aspectos que se referem ao homoerotismo, a narrativa de si e a metaficção, com narradores protagonistas envoltos com suas aventuras, perigos e desejos. As obras selecionadas são pouco conhecidas e de autores pouco estudados na academia. São narrativas em primeira pessoa que fazem relatos com o intuito de evidenciar experiências homoeróticas de si. Os romances apresentam narrativas de si associadas às experiências homoeróticas e, como afirma Virgínia Ferrer Cerveró: “compartir a historicidade narrativa e a expressão biográfica dos fatos percorridos se converte em um elemento catártico de desalienação individual e coletiva, que permite situar-se desde uma nova posição no mundo”. (FERRER, 1995, p.178). Os romances também apresentam feições metaficcionais na medida em que se questionam e pedem a atenção do leitor. Os autores ficcionalizam suas experiências de sexualidade homoerótica. Os narradores, ao buscarem a si mesmos, encontram, inevitavelmente, o outro ou outros, de acordo com determinada obra e assim acabam por realçarem o caráter ficcional, teórico e social das obras num constante relato emblemático de suas experiências sexuais homoeróticas.
Palavras-chave: Homoerotismo; Narrativa de si; Metaficção.

ABSTRACT
The purpose of this article is to read the work “Yes, I'm gay... so what?” by the writer Valdeck Almeida de Jesus and the work “Soulmate” by Luiz Carlos Áustria, deducing from them the aspects that refer to homoeroticism, self-narrative and metafiction with protagonist narrators involved with their adventures, dangers and desires. The selected works are little known and by authors little studied in the academies. They are first-person narratives that make reports in order to highlight homoerotic experiences. The novels present narratives of themselves associated with homoerotic experiences and as Virgínia Ferrer Cerveró affirms: “sharing the narrative historicity and the biographical expression of the events covered becomes a cathartic element of individual and collective de-alienation, which allows it to be located from a new position in the world”. (FERRER, 1995, p.178). The novels also have metafictional features as they are questioned and I asked the reader for attention. The authors are fictionalizing their experiences of homoerotic sexuality. The narrators, when searching for themselves, inevitably find the other, or others, according to a particular work, thus end up highlighting the fictional, theoretical and social character of the works in a constant emblematic account of their homoerotic sexual experiences.
Keywords: Homoeroticism; self-narrative; metafiction.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo desse artigo é fazer uma leitura dos romances em primeira pessoa Sim, sou gay... e daí? Desabafos do gay Alice no País das Maravilhas de Valdeck Almeida de Jesus e de Almas gêmeas. Transcendendo as formas e os limites convencionais do amor do autor Luiz Carlos Áustria de Andrade e Araújo. Ambas se inserem numa perspectiva homoerótica e se constituem narrativas de si. O homoerotismo representado nos romances citados está dentro da perspectiva comentada por Barcellos:

O homoerotismo, tal qual o estamos entendendo a partir do trabalho pioneiro de Jurandir Freire Costa (Cf. COSTA, 1992: 21ss), é um conceito abrangente que procura dar conta das diferentes formas de relacionamento erótico entre homens (ou mulheres, claro), independentemente das configurações histórico-culturais que assumem e das percepções pessoais e sociais que geram, bem como da presença ou ausência de elementos genitais, emocionais ou identitários específicos (Barcellos, 2006, p. 20).

A primeira obra, cujo relato traz as descobertas do personagem protagonista e narrador, dá visibilidade às relações homoeróticas vividas por ele, suas descobertas, angústias, vivências, conflitos e soluções encontradas. O autor de Sim, sou gay... e daí? Desabafos do gay Alice no País das Maravilhas, Valdeck Almeida de Jesus, é jornalista, funcionário público, escritor e poeta. Embaixador Universal da Paz, membro da Academia de Letras de Jequié, Academia de Cultura da Bahia, Academia de Letras de Teófilo Otoni, Poetas del Mundo, Fala Escritor, Confraria dos Artistas e Poetas pela Paz e da União Brasileira dos Escritores. Publicou Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden; Feitiço contra o Feiticeiro; Valdeck é Prosa; Vanise é Poesia entre outros. Participa de mais de 80 antologias, organiza e patrocina o Prêmio Literário Valdeck de Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005. Colabora em sites e tem textos divulgados nas rádios online Sol (Diadema São Paulo), Raiz Online (Portugal) e CBN (Globo).

No prefácio do livro, o autor explica o que seria a expressão Alice na gíria gay:

Alice, no jargão gay, é uma gíria utilizada para se referir a homossexuais facilmente enganáveis. Aqueles que, assim como a personagem deste livro, fazem tudo por amor e se dedicam aos seus parceiros, tentam agir de modo correto, e acabam, invariavelmente, vitimados pela maldade alheia. (De Jesus, 2015, p. 09)

Nesse prefácio o autor dá dicas de como será a narrativa e o que se desenrolará adiante, indicando um processo de autorreferência. Também há uma explicação prévia sobre o desenvolvimento do que é narrado retomando também o subtítulo da obra.

Já o romance Almas gêmeas. Transcendendo as formas e os limites convencionais do amor, do autor Luiz Carlos Áustria de Andrade e Araújo, é seu segundo livro e há poucas informações sobre o escritor, dentre elas estão na orelha do livro e na apresentação do romance. A narrativa fala abertamente sobre desejos e relações homoeróticas do narrador-personagem. Alma gêmea, de Luiz Carlos Áustria, mostra um personagem que conta a sua história antes da narrativa em si começar, há uma dedicatória a todos os homossexuais: “A todos os homossexuais, os quais, renhidamente e com inquebrantável bravura e heroísmo, lutam por sua sobrevivência, enfrentando corajosamente os preconceitos e a discriminação da sociedade.” (Araújo, 1992, p. 13)

Deste modo, trata-se de narrativas corajosas no aspecto de explanar e problematizar vivências homoeróticas de maneira clara e objetiva, expondo relacionamentos e desejos nem sempre compreendidos.

2. HOMOEROTISMO, NARRATIVA DE SI E METAFICÇÃO EM SIM, SOU GAY... E DAÍ?

As duas obras relatam histórias sobre relacionamentos homoeróticos, alguns acontecimentos são tratados dentro do que se considera erótico, assim:

O erotismo pressupõe a ausência de preocupações com a pessoa com quem se está tendo relações. Se existem problemas, envolvimentos externos desagradáveis, é preciso que haja um ato positivo de alheamento, de liberação. A área liberada e iluminada pode ser preenchida pelo erotismo. Não é um espaço vazio, é um espaço esvaziado. Nele é possível concentrar-se exclusivamente no prazer erótico e sua perfeição. (Alberoni, 1986, p. 54)

Nos relacionamentos homoeróticos mostrados nas obras, há o que se pode chamar de liberação, onde os atos sexuais buscam excluir as preocupações com os fatos externos. Muitos contatos sexuais buscam isso, no momento do ato sexual até conseguem um afastamento total dos fatos externos, mas isso não se efetiva depois.

No romance Sim, sou gay... E daí? Desabafos do gay Alice no País das Maravilhas, os fatos são narrados por um narrador protagonista que fala da sua vida desde a infância. Há relatos de descobertas, aventuras, perigos e desafios, tudo contado de maneira objetiva, reveladora. Os acontecimentos relatados se articulam diretamente com o subtítulo da obra: Desabafos do gay Alice no País das Maravilhas e mesmo que eles guardem relação com muitos que se verificam na vida real, atuam então como verossímeis:

Assim, os fatos de uma história não precisam ser verdadeiros (no sentido de corresponderem exatamente a fatos ocorridos no universo exterior ao texto), mas devem ser verossímeis; isto quer dizer que, mesmo sendo inventados, o leitor deve acreditar no que lê. Esta credibilidade advém da organização lógica dos fatos dentro do enredo, da relação entre os vários elementos da história. Cada fato da história tem uma motivação (causa), nunca é gratuito e sua ocorrência desencadeia inevitavelmente novos fatos (conseqüência). [...] A verossimilhança é verificável na relação causal do enredo, isto é, cada fato tem uma causa e desencadeia uma conseqüência. (Gancho, 2008, p.12)

Neste caso, na construção ficcional, o autor deixa pistas ao leitor para que haja uma interação maior num cenário institucional:

Quando escreve um texto, o escritor normalmente sabe que esse texto virá a ser entendido como texto literário; tal facto estimula não apenas a observância de determinados protocolos de escrita literária, mas também a integração dessa escrita num cenário institucional. (Reis, 1995, p. 103)

O narrador protagonista faz descobertas desde a infância até a idade adulta, no que diz respeito a sua sexualidade nas suas mais diversas formas de efetivação. O romance traz a personagem principal envolto em peripécias homoeróticas ou, como diz Jurandir Freire Costa:

Primeiro, por que imaginamos que exista uma atração única, uniforme e suficiente para definir a identidade sexual, social e moral de uma pessoa por trás de todos esses desejos e condutas díspares? Por acaso tal atração é feita de uma “mesma substância”, reconhecível em suas propriedades estáveis e capaz de produzir-se e repetir-se emocionalmente em pessoas tão diversas quanto àquelas que acabamos de descrever? (Costa, 2002, p. 29)

Desta maneira, existem diversas formas de se efetivar o desejo homoerótico, mesmo nos primeiros momentos de descoberta da sexualidade, onde existe a atração pelo sexo oposto, assim como o personagem expressa suas formas de relacionamentos no trecho que se segue:

As coisas só começaram mesmo a se esclarecer aos meus oito anos de idade, quando nos mudamos novamente e fomos morar no campo – na fazenda Deus Dará. Nessa época, comecei a perceber meu interesse crescente por meninos e meninas, apaixonei-me por uma das garotas de lá e descobri espontaneamente a arte da masturbação. (De Jesus, 2005, p. 14)

Nesse trecho observamos que o narrador demonstra o interesse tanto por meninos quanto por meninas e, na sua fantasia, acontecia algo diferente para a descoberta do garoto de 8 anos: o prazer da masturbação é associado à penetração anal e à imagem da menina. Próximo trecho:

Pois bem, enquanto eu me masturbava pensando nessa menininha da fazenda, percebi intuitivamente que sentia muito prazer na região anal. Sem dar mais voltas no assunto, conto que me escondia numa antiga barcaça para enfiar bananas-da-china na minha bunda, e assim seguia, gozando e pensando na garota que eu queria ter como namorada. (De Jesus, 2005, p. 15)

Fazendo um arranjo em seu relato, o narrador sintetiza o assunto operacionalizando um sumário narrativo como vimos na citação. Mais adiante, o personagem narrador começa a identificar as variações do comportamento homoerótico de garotos, alguns se escondiam ou deslocavam determinados desejos sentidos, mas não compreendidos, para a então heteronormatividade:

Fato é que, durante a adolescência, vi muito enrustimento e observei um sem-número de cenas tipo “vem aqui mamar no meu pau, viadinho”. Certo, eles ficavam me mostrando o pau e contando histórias, mas no fim eu é que era viado. Dividíamos o mundo dos adolescentes entre viados e Anjos-do-Senhor: os Viados seriam as criaturas silenciosas e tímidas, com relações sociais escassas; e os Anjos-do-Senhor aqueles com a braguilha aberta e as picas balançando, pra chamar a nossa atenção sobre como um homem de verdade deve se comportar. (De Jesus, 2005, p. 17)

Aqui é interessante observar, além da marcação da oralidade do personagem no texto, que na adolescência do personagem houve uma demarcação entre os viados e os anjos-do-senhor, as bichas e os machos “resolvidos”, delimitando espaços complexos e movediços, como se determinados comportamentos não se configurassem também como homoeróticos. A narrativa se instaura como memória de um tempo passado real, mas também interior, pois está na memória afetiva do narrador, um lembrar, assim sendo “a escrita dos movimentos interiores é a escrita do tempo, dos sentimentos, dos ressentimentos, ou seja, a escrita de si. Escrita dessa experiência inebriante do homem no tempo ou do tempo avizinhado ao homem.” (Sousa, 2018, p. 44).

Também se pode perceber constantemente o diálogo entre as narrativas, o “contar” histórias entre os personagens se torna uma condição vital para se trocar experiências sexuais. O personagem protagonista escuta as histórias contadas por outros, há uma necessidade extrema de se contar algo, o outro fala de suas relações sexuais também.

A necessidade do contar uma história para se afirmar dentro de uma determinada identidade sexual se efetiva na obra, ocorrendo o que Todorov chama de narrativa encaixante:

A estrutura da narrativa nos fornece a resposta: o encaixe é uma explicitação da propriedade mais profunda de toda narrativa. Pois a narrativa encaixante é a narrativa de uma narrativa. Contando a história de outra narrativa, a primeira atinge seu tema essencial e, ao mesmo tempo, se reflete nessa imagem de si mesma; a narrativa é ao mesmo tempo a imagem dessa grande narrativa abstrata da qual todas as outras são apenas partes ínfimas, e também da narrativa encaixante, que a precede diretamente. (Todorov, 1970, p.126)

Contando a história de outra narrativa, a narrativa primeira se torna metaficcional. Outro momento importante no relato é quando Sueli, a irmã homofóbica de Maria das Dores, que foi a primeira namorada séria do narrador, esta insinua várias vezes que o personagem narrador, André, é gay e isso causa um desespero total nele, provocando a tentativa de suicídio como solução para o conflito:

Além disso, as provocações de Sueli estavam literalmente me enlouquecendo. Ela andava atrás de mim fazendo perguntas desconcertantes, de uma fixação anal tão ridícula que deixaria até Freud acabrunhado. Fiquei tão perturbado que tentei me matar, tomando uma cartela de barbitúricos com cachaça artesanal. Como vocês podem perceber, já que meus relatos são narrados em primeira pessoa do singular, falhei na tentativa e fui parar na UTI, onde fiquei por mais de uma semana. (De Jesus, 2005, p. 19)

Aqui o narrador dialoga com o leitor, efetivando um processo de aproximação com os acontecimentos narrados, buscando a veracidade dos fatos e a cumplicidade do leitor para o que se está discutindo; além de colocar em debate a questão do suicídio como possibilidade de resolução de conflitos homofóbicos. Nesta parte, há um diálogo com a realidade social vivida por diversas pessoas homoafetivas que, muitas vezes, sofrem pressões sociais: “(...) compartir a historicidade narrativa e a expressão biográfica dos fatos percorridos se converte em um elemento catártico de desalienação individual e coletiva, que permite situar-se desde uma nova posição no mundo.” (Ferrer, 1995, p.178)

Desta forma, acreditamos que o relato cumpre o papel de dialogar com a realidade numa tentativa de compartilhar conflitos gays e engendrar identificação do personagem homoafetivo com os leitores. Assim, o leitor é convidado a olhar cuidadosamente o texto:

O leitor deve estar atento às textualizações dos códigos culturais de um estilo de vida gay, ou seja, ele deve prestar muita atenção ao modo como as experiências subjetivas dos sujeitos homoafetivos são apresentadas, questionadas, reafirmadas ou discriminadas na tessitura do texto, pois há modos diversos de negação e também de reconhecimento de uma subjetividade gay circunscrita no texto literário (Camargo, 2012, p. 04)

O protagonista mais maduro busca outros relacionamentos e uma maneira de efetivar encontros. Naquela época o telefone surge como um meio de se marcar encontros, era a década de 80, por meio das chamadas linhas cruzadas, onde se esperava ouvir uma voz do outro lado da linha e que esta voz se interessasse por um encontro real. Foi num desses encontros que o personagem central, André, encontrou um rapaz de 17 anos, Anselmo, pelo qual se apaixonou, mas, infelizmente, o relacionamento não durou muito tempo. A orientação homoerótica ainda era associada ao pecado, alguma coisa do demônio segundo uma visão religiosa fundamentalista. O fim desse relacionamento amoroso se deu por causa da igreja, como podemos ver no fragmento a seguir:

Fiquei hospedado na república de um amigo, e de lá mandei uma carta para Anselmo. Ele respondeu a carta, mas uma das meninas que moravam na república, de cérebro pouco privilegiado, devolveu a resposta ao carteiro dizendo que naquela casa não havia nenhum André. Finalmente, voltei para Jequié e Anselmo telefonou. Mas suas novidades cortaram-me o coração: convertera-se a Cristo, numa igreja evangélica, e arrependera-se de todos os pecados, ou, mais claramente dizendo, do nosso amor. Foi um golpe muito forte. Ainda hoje, ao lembrar-me desse episódio, sinto uma grande tristeza. (De Jesus, 2005, p. 22)

Observa-se que a lembrança do fato provoca no narrador certa angústia, aqui a memória provoca, via narrativa de um fato passado, dor e sofrimento. Alguns relacionamentos pelos quais o personagem principal, André, passou foram puramente ligados aos interesses econômicos, até um rapaz explicitou isso, colocando na sua própria fala discursiva o de contador de histórias, a falácia em relação aos acontecimentos relatados a André: o inventar histórias. O aspecto imaginativo para convencer o outro impressiona o narrador:

Quando chegamos ao restaurante, aquele homem imoral e sem alma confessou-me que a razão de seu choro no hospital não era porque me amava, mas porque não queria que eu morresse sem saber da verdade. E a verdade, leitores, foi que ele tinha inventado tudo aquilo apenas para tirar meu dinheiro. Fiquei estupefato, mas não reagi. Eu ainda me recobrava de uma cirurgia evasiva. Edvan queria que eu fizesse um escândalo, que brigasse muito com ele, talvez na esperança de que algum dia eu pudesse lhe perdoar. Respondi a toda aquela sordidez com o desprezo, a única coisa que o julguei digno de receber de mim. (De Jesus, 2005, p. 22)

Como se pode verificar, o diálogo com o leitor implícito é uma constante na obra, desta forma: “um texto requer movimentos cooperativos, conscientes e ativos da parte do leitor” (ECO, 1986, p. 36) e na citação feita percebe-se o quanto foi inventada a história de Anselmo, com o intuito de obter dinheiro de André. A narrativa de Sim, sou gay...E daí também é construída por intertextualidade, está é uma constante no romance como forma de interagir com outros textos para construir ou facilitar a recepção:

Conforme Beaugrande e Dressler, a intertextualidade compreende as diversas maneiras pelas quais a produção e recepção de dado texto depende do conhecimento de outros textos por parte dos interlocutores, isto é, diz respeito aos fatores que tornam a utilização de um texto dependente de um ou mais textos previamente existentes. (Koch E Travaglia, 1995, p. 88).

A intertextualidade aparece tanto no diálogo indireto com Freud em citação já feita, como também em outras obras lidas pelo protagonista. Deste modo, em alguns momentos da narrativa, o narrador expressa o caráter da enunciação de seu discurso, remetendo a sua própria feitura narrativa que dialoga com outros textos. Na medida em que desnuda a construção do seu texto como retalhos de uma realidade passada e presente, o narrador vai amalgamando discursos buscando dar veracidade a sua fala. Assim:

Agora, nesse exato momento em que escrevo, dou-me conta das situações terríveis que passei ao longo da minha vida. É claro que a maioria das pessoas do mundo já vivenciou pelo menos uma merda braba no trajeto de sua existência, e eu não me sinto mais especial por causa disso. Afinal, como diz Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. Também não me sinto vitimado, nem coitado, nem sofrido, “escolhas são escolhas”, fiz todas por opção própria, sabendo que era necessário arcar com suas consequências. E eu escolhi o risco. (De Jesus, 2005, p. 32)

O discurso, através da intertextualidade com a obra de Guimarães Rosa, coloca em evidência o aspecto da realidade movediça. Surge então o relato de perigo no que diz respeito às relações homoeróticas:

No dia da matrícula, viajei para Jequié e deixei um cheque com o valor da inscrição. Ele me disse que seu avô e seu tio iriam ajudá-lo com o pagamento das mensalidades – mais uma de suas historinhas, já que ele não via nem o tio nem o avô há mais de seis meses. Quando eu voltei, Eduardo disse que não havia conseguido se matricular e que rasgou o cheque. Desconfiei na mesma hora e sustei o pagamento que foi compensado (depois devolvido) três dias depois. Suspiro. Eu tentava, em uma experiência muito pouco científica, calcular quanto tempo Eduardo havia sido falso e quanto tempo eu perdia, a cada dia, reescrevendo mentalmente nossa história de amor, com o que eu suspeitava ser a verdade. Cada hora mentirosa que Eduardo encenava pra mim era um número a mais no meu contador imaginário. E eu simulava obsessivamente na minha cabeça as loucuras que ele pudesse estar fazendo por aí. Resolvi que já estava passando da hora de dar um basta definitivo nessa história. Sabia que Eduardo me desrespeitava, me traía, fazia pouco de mim e ainda me usava. (De Jesus, 2005, p. 84-85)

Assim, o personagem protagonista, André, se dá conta, mais uma vez, das mentiras contadas por Eduardo e o que ele vivencia com esse tipo de pessoa só traz a certeza de encenações de situações imaginadas, narradas como se fossem verdadeiras, o que implica numa narrativa encaixada, imaginária. São muitas as histórias contadas com a intensão de enganar, ludibriar o narrador que se dá conta do logro em que se encontra “mais uma de suas historinhas.” A citação longa teve o intuito de explicitar o percurso de descobertas feitas pelo narrador. Aqui, parece que o personagem nomeia suas experiências, desta maneira:

Apenas quando podemos nomear nossas experiências – dar voz a nosso próprio mundo e afirmar a nós mesmos como agentes sociais ativos, com vontade e um propósito – podemos começar a transformar o significado daquelas experiências, ao examinar criticamente os pressupostos sobre os quais elas estão construídas. (Giroux & Mclaren, 1993, p. 26)

Ao citar as histórias contadas por outro, o narrador evidencia a sua percepção em relação à sua própria realidade, tal atitude só vem reforçar as experiências vividas e a certeza de que não pode viver novamente uma relação semelhante que só causaria dor e sofrimento.

Para se livrar desse emaranhado de coisas vividas, mas não suportadas mais, o narrador toma a decisão de deixar uma carta para Eduardo, assim:

Eu não precisava nem ao menos fazer uma carta, mas achei que seria bom deixar as coisas bem claras. Quando comecei a escrevê-la, vacilei. Meus sentimentos prevaleceram, as nuvens da dúvida taparam a minha visão. Escrevi e reescrevi a carta sete vezes. Coloquei a versão final dentro de um envelope, bem em frente à porta de entrada. A mensagem ficou assim:

Eduardo,

Eu te amo. Mas, muito mais do que te amar, tenho medo de você. Em primeiro lugar, porque você não me ama igual, não gosta de mim à altura e nem da forma que mereço; em segundo lugar, porque você não me conta a verdade e nunca hesitou em mentir para mim. Eduardo, Eduardo, Eduardo. Eu posso ser ingênuo, posso ser medroso, mas não sou um idiota. (De Jesus, 2005, p. 88)

Aqui a escrita, a leitura e a reescrita da carta explanam o processo criativo da escritura, a própria feitura narrativa, a tessitura discursiva do narrador. Essa construção textual arquitetada pelo narrador vai se constituindo numa metaficção que se define como “o termo dado à escrita ficcional que autoconsciente e sistematicamente chama atenção para o seu status de produto com a intenção de suscitar questionamentos sobre a relação entre ficção e realidade” (Waugh, 1984, p. 2). Mentiroso seria o discurso de Eduardo e verdadeiro seria o discurso do narrador André, ambos estão dentro do universo ficcional. São narrativas que necessitam de outras quando se fala do próprio eu, quando se fala de si, não há como não encaixar outras narrativas na enunciação primeira, na autobiográfica, como é o caso, desta forma:

Toda a narrativa deve tornar explícito o seu processo de enunciação; mas para isso é necessário que apareça uma nova narrativa em que esse processo de enunciação seja apenas uma parte do enunciado. Assim, a história que conta torna-se também e sempre uma história contada, na qual a nova história se reflete e encontra a sua própria imagem. Por outro lado, toda a narrativa deve criar novas narrativas: dentro de si, para que seus personagens possam viver; e fora, para que o suplemento que ela inevitavelmente comporta, possa ser utilizado. (Todorov, 1970, p.93)

Tanto a narrativa de Eduardo, quanto a narrativa de André, constituem matéria textual, matéria ficcional, lembrando que os discursos estão dentro de um discurso maior, ou melhor, dentro do discurso que fala de si, mas que necessariamente precisa do outro para se justificar, para ter vida. Outra citação:

Nas duas semanas que se seguiram não tive notícia alguma de Eduardo. E foi aí que se deu uma sucessão inacreditável de acasos e absurdos, que me forçaram a estar agora terminando este livro em Paris, onde atualmente moro com Celso, e não mais em nossa saudosa cobertura em Salvador. (De Jesus, 2005, p. 128)

Interessante notar que a última citação que fizemos da obra vai se alinhar com o término do livro, o narrador faz um flashback dos últimos acontecimentos e encerra o livro estando em Paris. Deixemos para os leitores desse romance a surpresa que ocorre no desfecho da história.

3. ALMA GÊMEA: O HOMOEROTISMO À FLOR DA PELE

Uma das grandes façanhas do livro Alma gêmea é manter o leitor preso à contação dos fatos através de um artifício criador de expectativas com relação ao que vai acontecer a cada capítulo. O narrador fala de sua criação com uma família evangélica e a repressão. A narração em primeira pessoa se constitui como narrativa de si, deste modo, é situado o narrador principal, sua família e suas memórias iniciais sobre sexualidade:

Nasci a 30 de janeiro de 1937, em Santa Marta, cidade do sul do País. De família pobre, oito irmãos, com uma menina adotiva. Tive educação familiar comum, porém muito severa. Minha formação religiosa foi evangélica, na qual me foram ensinados, por minha mãe e meus professores, os santos mandamentos das Sagradas Escrituras. Tive educação escolar primária, incentivada e providenciada por minha mãe, pois meu pai pouco se interessava pelo estudo dos filhos. O relacionamento entre meus irmãos era conflitante, com fortes desajustes entre o casal. (Araújo, 1992, p. 13)

Observa-se que o narrador teve uma infância difícil, marcada pela pobreza, pela severidade e pela religiosidade evangélica. Os conflitos dos pais o levaram a odiar o pai, tudo isso influenciará a vida do narrador protagonista. Várias partes da narrativa revelam o desejo homossexual do personagem principal e a frustração do primeiro encontro:

Uma ocasião, numa das raras vezes em que brincava com meninos no quintal, vi dois deles na prática de relações homossexuais. Fiquei curiosos e despertado para fazer o mesmo. Numa oportunidade com um menino mais velho, vi seu membro genital ereto, o que despertou em mim o desejo de fazer o que eu imaginava ser o papel de mulher com ele. Supliquei-lhe, fui recusado, sentindo eu grande frustração. (Araújo, 1992, p. 13)

Outra ocasião, devido à repressão religiosa em casa, a ideia do ser invertido provoca no narrador a internalização do pecado e do medo. Aos quinze anos tenta uma relação sexual homoerótica com um alfaiate que era freguês da loja em que trabalhava como balconista. Ele, sentindo-se um pouco mais à vontade, convida o alfaiate e eles vão a um bosque, contudo:

Sentados à relva, ele mostrou-me seu pênis, então ereto. Era grande. A seguir, pediu-me que o acariciasse, com o que não concordei, tomada que fui de reação contrária àquilo. Sem saber o motivo de minha inesperada reação, pedi-lhe que fôssemos embora, no que fui atendido. (Araújo, 1992, p. 14).

Como se percebe no trecho citado, o narrador protagonista não consegue realizar seu desejo, devido à opressão, ele se sentiu oprimido, assim:

O oprimido parece estar condenado a não saber de si mesmo senão sob a forma de falsa consciência. Por sua vez, a falsa consciência, em qualquer de suas formas - mistificação, ambigüidade, reconciliações ilusórias, autocomplacência narcisista - é a cumplicidade mais eficaz e profunda que pode encontrar um sistema de dominação. Todo sistema de dominação sabe bem como formular os termos do insolúvel dilema do oprimido: suas reivindicações de igualdade serão irremissivelmente reconduzidas à integração no sistema; suas reivindicações radicais de diferença a condenarão à irremissível marginalização (Amorós, 1991, 72).

Aos dezenove anos, o narrador ingressou no exército, fez carreira e se tornou sargento: “Aos dezenove anos, ingressei no Exército, fazendo carreira como sargento, após cursar com aproveitamento a escola de Sargentos Infantes.” (Araújo, 1992, p. 14). Nesse período se apaixonou por um jovem recruta, mas nunca teve coragem de expressar seus sentimentos, ocorrendo mais uma vez a não efetivação sexual homoerótica devido a sentir-se oprimido: “Continuei sem ter experiências homossexuais. Até os vinte e cinco anos de idade, vivi oprimido pelas circunstâncias e com medo das más consequências de um relacionamento erótico com homens.” (Araújo, 1992, p. 15). Só aos vinte e cinco anos teve coragem e procurou um praça do exército e declarou seu desejo pelo rapaz chamado Sandri, foi a sua primeira relação homoerótica:

- Vamos com muito cuidado, bem devagarinho porque eu nunca fiz isso.

Controlando seu ímpeto, Sandri começou a introduzir-me sua “vara” dura e quente. Suas mãos fortes como a de um predador, massageavam minhas nádegas.

Sandri sentia dificuldade em atingir o orgasmo, em desenfreados e ávidos golpes, prolongava meu prazer. Após tanta insistência, o jovem cessou os movimentos e ejaculou profundamente. Meu deleite atingiu o clímax, dando-me a sensação de que tinha seu corpo todo dentro de mim.

A partir daí, continuei tendo relacionamentos homoeróticos esporádicos. (Araújo, 1992, p. 16-17)

Assim, iniciam-se os relacionamentos homoeróticos do narrador o que provoca, depois de doze anos, a sua exclusão do exército:

Transcorrido um período de doze anos em Santa Marta, minha conduta homossexual foi levada ao conhecimento dos oficiais, tendo o Comandante do Quartel decidido por aquilo que seria para mim uma desgraça: minha exclusão do Exército a bem da disciplina. (Araújo, 1992, p. 17)

Daí mais uma repressão, agora dentro da instituição militar. Logo após, foi trabalhar numa farmácia onde depois de certo tempo se tornou sócio e mais tarde dono absoluto, mas devido à concorrência, acabou vendendo seu estabelecimento e gastou todas as economias viajando. Depois conseguiu um emprego de faturista num hospital onde se aposentou. Daí começou a escrever livros e a contar como foi, aos poucos, se afastando do que ele chamou de “fé cristã” e dos “preceitos do evangelho”. Contou como ganhou na loteria, de como começou a conviver com isso, viajando e conhecendo cidades. Numa dessas viagens conhece Bruno. Ele e Bruno decidem ir a uma casa de sauna e lá começam a se conhecer melhor. Assim:

Desvencilhados de nossas toalhas, inteiramente nus, começamos a trocar carícias em ritmo progressivo. Bruno comportava-se de modo ativo, e eu, passivo. Entendiamo-nos. Naqueles instantes começávamos a satisfazer os ardentes desejos da carne. Esta reclamava mais, insatisfeita. Passamos a nos beijar boca-a-boca, num ritmo alucinante, com nossas línguas a misturar nossas salivas, atingindo um delírio indescritível. A carne exigia ainda mais. Deitamos. O pênis de Bruno, ereto e quente, roçava gulosamente minhas nádegas, procurando meu ânus para alojar-se e despejar seu esperma quente e gostoso. De repente, comecei a sentir a penetração daquela massa rígida a varar minhas entranhas, em estocadas violentas e profundas, num vai-vém acelerado e gostoso, apesar da dor, fazendo-me delirar.

A consumação do ato ocorreu quando senti a ejaculação latejante do pênis de Bruno.

Após breve relaxamento mental e físico, partimos para o banho em forte e massageante ducha.

Retornamos ao bar, sorridentes e felizes. (Araújo, 1992, p. 52)

Daí pode-se perceber que a narrativa explicita o ato homoerótico sem rodeios, sem adereços, um leitor não acostumado com esse tipo de escrita despojada de censura pode estranhar ou rejeitar, contudo, essa seria a intencionalidade de certa escritura gay, a de chocar, a de abalar convenções prévias pautada numa certa escrita da convenção, da conformidade ou do lugar comum. A luta está aí esboçada para que haja outro tipo de posicionamento, outra forma de extirpar a repressão ou como defende Mieli:

(...) a luta homossexual revolucionária não tem como objetivo conseguir a tolerância social para os gays, mas liberar o desejo homoerótico em todos os seres humanos (pois) enquanto houver pessoas ‘normais’ que ‘aceitam’ os homossexuais, a espécie não terá reconhecido o próprio desejo homossexual profundo, não se terá dado conta de sua presença universal e sofrerá irremediavelmente as consequências dessa amputação que é repressão. (Mieli, 1978, 63)

Desta forma, para Mieli, a fixação de uma identidade é uma das formas de luta e resistência à homofobia e a escrita de Luiz Carlos Áustria vai nessa esteira. Mais adiante na narrativa, há os planos de Pedro, o narrador protagonista, em comprar um apartamento para viver com Bruno; Pedro já estava envolvido com aquele que acreditava ser seu grande amor. Começaram a viver juntos e com o tempo as coisas começaram a ficar diferentes devido às atitudes de Bruno. Pedro, num dado momento da narrativa, dialoga com o leitor numa forma de se aproximar do destinatário. Desta forma, é notável a tentativa do narrador em buscar um cúmplice ou alguém que o compreenda:

O comportamento de Bruno se alterava gradativamente: demonstrava insatisfação em nossas relações sexuais, agora raras; saía sozinho por frequentes noites, sem uma explicação plausível, retornando tarde para casa; embora com certo controle, às vezes, se irritava sem motivo aparente; esfriava suas manifestações de afeto para comigo; raramente me convidava para passeios; conversava pouco comigo e tomava outras atitudes não condizentes com nosso relacionamento. Deve parecer estranho ao leitor que esse relacionamento amoroso, tão profundo, espontâneo e sincero, começasse a desmoronar. (Araújo, 1992, p. 95)

Daí houve uma conversa com Bruno e este confessou que estava apaixonado por outro, um amigo de Pedro, o Rafael. Então os dois terminam e a ausência de Bruno machuca muito Pedro nos primeiros dias sem o seu companheiro. Pedro decide comprar um sítio e outro amigo o ajuda nessa tarefa. Pedro e Bruno se reencontram numa festa e na saída desta ocorre um acidente de carro onde Pedro e Bruno estavam. Pedro foi parar no hospital. Depois de um mês de visitas fraternas entre ambos, acabam voltando ao relacionamento assim que Pedro obtém alta. A volta, num determinado momento, foi coroada por uma relação homoerótica, assim o foi:

Deitamos na clássica posição “sessenta e nove”. Bruno por baixo, eu por cima. Comecei a cheirar seu priapo e seu escroto. O odor emanado por aqueles órgãos era embriagador. Minha língua lambia aquelas partes, sentindo o seu gosto gostoso. Bruno acariciava e beijava minhas nádegas, dando pequenas mordidas. Senti sua língua a lamber-me. Agora eu começava a introduzir lentamente em minha boca o falo de Bruno, pressionando fortemente meus lábios num vai-vém. Bruno pedia:

- Mais rápido, meu tesão! Ai!... Que bom... Assim... Não aguento mais... Vou gozar...

O coito bucal completou-se quando Bruno ejaculou seu esperma, inundando minha boca.

Relaxamos. (Araújo, 1992, p. 118-119)

Logo depois há a aparição de um elemento novo nessa relação, deste modo:

Bruno, demonstrando insatisfação, começou a acariciar meu ventre. Lentamente sua mão começou a descer, atingindo meu púbis. Meu lado ativo surpreendentemente começava a se manifestar. Quando Bruno atingiu meu pênis, provocando a ereção, comecei a perceber a manifestação de seu lado passivo. Passei a tomar as iniciativas. Bruno compreendia. Em silêncio, comecei a desempenhar meu novo papel nas nossas relações íntimas, procurando com meu pênis o ânus do meu parceiro.

Num grande esforço mental e físico, consegui atingir o domínio dos meus instintos ativos, que por longo tempo foram reprimidos. A satisfação que sentia agora, na iminência do orgasmo tão raramente atingido por mim num relacionamento íntimo a dois, era diferente e muito mais excitante que aquele a que estava acostumado a conseguir com meus atos masturbatórios solitários.

Tudo se consumou. (Araújo, 1992, p. 119)

Agora o personagem principal descobre mais uma efetivação do desejo homoerótico: as relações sexuais ativas com o parceiro são como identificações de perspectivas homossexuais diferenciadas e descobertas ao longo da convivência e intimidade. São como textos evidenciados numa cultura homossexual, como definida a seguir:

(...) cultura homossexual é o amplo corpus de textos que se inspiram na experiência homossexual num momento dado - e que, portanto, requerem um conhecimento de certos códigos de construção da homossexualidade e freqüentemente uma empatia ou identificação com uma perspectiva homossexual (Mira, 1999, 21)

Aqui, no relacionamento entre Pedro e Bruno e na nova realização homoerótica do primeiro, opera-se então uma identificação na troca, na permuta ou na mudança de sentir prazer com o parceiro. Depois de viver intensamente com Bruno, viajando e conhecendo lugares diferentes, percebem-se claramente as alusões a Foz do Iguaçu e ao Rio de Janeiro, e dois anos depois de completar 54 anos, a narrativa mostra a personagem num leito de hospital e a descoberta da AIDS.

O companheiro Bruno mostra o resultado a Pedro e este se consola dizendo palavras cristãs ao grande amor de sua vida. Na investigação sobre como ele adquiriu o vírus, foi descoberto que foi nas diversas transfusões de sangue que o personagem teve quando estava internado devido ao grave acidente de carro relatado em capítulos anteriores na obra. Não é revelado na obra se Bruno também adquiriu o vírus. Pedro faz seu testamento deixando apartamento, sítio e metade de todo o dinheiro que estava no banco em forma de ações e outras aplicações para Bruno. No final do romance, o narrador-protagonista se despede de todos os amigos, da família e dos leitores:

Meu estado agora voltou a se agravar. Minha alma pressente a iminente separação deste corpo mortal. Fui reinternado no hospital. Agora sinto-me sem forças físicas e mentais suficientes para continuar o relato deste livro. Todos os sintomas da terrível doença se agravaram. Minha lucidez diminui. Decidi, então, encerrar minha conversa com vocês... Adeus...

FIM

(Araújo, 1992, p. 143)

Nesta última citação da obra, o narrador evidencia o caráter metaficcional de seu relato: o encerramento do livro e a despedida dos leitores. Algo parecido com o que o narrador de Sim, sou gay... e daí? faz.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A narrativa de si, operacionalizada pelo narrador André em Sim, sou gay... E daí? vem pôr em evidência um personagem que, no decorrer da narrativa, vai se desenvolvendo, se descobrindo, tornando-se confiante e seguro de sua orientação sexual, aqui não importando se ele se apresenta como assumido, afeminado, enrustido, o que vai ser bem delineado na história é a contação de suas experiências como forma de amadurecimento pessoal e de (re) existência social.

A despedida do personagem-narrador no final da narrativa de Alma gêmea reitera o relato de si na obra, uma narração em primeira pessoa que conta a alguém no leito do hospital toda a sua vida, desde a infância até os seus momentos finais. Desde a infância, com toda repressão religiosa que teve até as suas relações homoeróticas durante sua permanência no exército e depois nos encontros casuais até o encontro do grande amor da sua vida, o Bruno, que em certo momento o abandonou, mas devido ao acidente de carro, percebe como a vida é frágil e efêmera, volta para o parceiro e ficam juntos até o final da vida da personagem.

Assim, as duas obras evidenciam o que Philippe Willemart fala sobre a escrita do desejo:

Na sua preocupação de dizer algo de novo ou de diferente, e acredito que todo artista é marcado por esse desejo, o escritor não se coloca somente a serviço da escritura, da história, da geografia ou de sua comunidade, mas ele deixa falar também a dimensão inconsciente de tudo o que toca. Não me refiro aqui ao Imaginário – o sentido que o autor dá às palavras ou que o leitor lhe empresta, conscientemente ou não – nem ao Simbólico – as estruturas de toda espécie que cercam o autor e seus leitores, saibam eles ou não, mas ao Real, esse terceiro registro inventado por Lacan a partir do “isso” de Freud. (Willemart In: Passos & Rosenbaum, 2011, p. 120-121)

Desta maneira, os narradores, ao escreverem sobre suas experiências homoeróticas, constituem narrativas de si, o que pode também fazer referência à dimensão inconsciente do autor ao representar o real, como defende Lacan. Real da linguagem, real do vivido, real do experimentado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Docente do Curso de Mestrado Profletras-UESPI e da Graduação em Letras Português-UESPI, Campus Torquato Neto em Teresina e Campus Josefina Demes em Floriano, respectivamente. PI. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail