HERÓIS DESLOCADOS: ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE DOM QUIXOTE E SHREK

DISPLACED HEROES: COMPARATIVE ANALYSIS BETWEEN DON QUIXOTE AND SHREK

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778732861

RESUMO
O estudo da figura do herói exige sua contextualização histórica, uma vez que cada representação heroica corresponde aos valores, às concepções sociais e às estruturas culturais de seu tempo. Nesse sentido, o presente artigo propõe uma análise comparativa entre dois personagens pertencentes a contextos distintos: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Shrek, protagonista da animação produzida pela DreamWorks em 2001. Embora separados por séculos, linguagens e concepções estéticas, ambos apresentam características que os aproximam enquanto heróis deslocados, isto é, figuras que não se adequam plenamente ao espaço social e simbólico em que estão inseridas. Dom Quixote, marcado pelo idealismo cavaleiresco e pelo conflito entre imaginação e realidade, representa a transição entre o herói épico e o herói moderno; Shrek, por sua vez, configura-se como um herói contemporâneo que subverte os padrões tradicionais dos contos de fadas ao assumir a posição de protagonista mesmo estando à margem do modelo heroico convencional. A partir dessa perspectiva, o artigo investiga como tais personagens, apesar de suas diferenças, compartilham elementos estruturais relacionados à ruptura do arquétipo clássico do herói. Para o desenvolvimento da análise, adota-se uma abordagem bibliográfica fundamentada nos estudos sobre o heroísmo, estabelecendo diálogo com autores como Flávio Kothe (2000), Joseph Campbell (1994) e outros teóricos que discutem a construção, transformação e permanência do arquétipo heroico na literatura e na cultura contemporânea.
Palavras-chave: Herói; Dom Quixote; Shrek; Arquétipo; Heroísmo moderno.

ABSTRACT
The study of the hero figure requires its historical contextualization, since each heroic representation corresponds to the values, social conceptions, and cultural structures of its time. In this sense, the present article proposes a comparative analysis between two characters from distinct contexts: Don Quixote, by Miguel de Cervantes, and Shrek, protagonist of the 2001 DreamWorks animated film. Although separated by centuries, languages, and aesthetic conceptions, both characters share characteristics that bring them closer as displaced heroes, that is, figures who do not fully fit into the social and symbolic spaces in which they are inserted. Don Quixote, marked by chivalric idealism and by the conflict between imagination and reality, represents the transition between the epic hero and the modern hero; Shrek, in turn, emerges as a contemporary hero who subverts traditional fairy-tale patterns by assuming the role of protagonist despite existing outside the conventional heroic model. From this perspective, the article investigates how these characters, despite their differences, share structural elements related to the rupture of the classical hero archetype. The analysis is based on a bibliographic approach grounded in studies on heroism, establishing dialogue with authors such as Flávio Kothe (2000), Joseph Campbell (1994), and other theorists who discuss the construction, transformation, and permanence of the heroic archetype in literature and contemporary culture.
Keywords: Hero; Don Quixote; Shrek; Archetype; Modern heroism.

1. INTRODUÇÃO

A compreensão da figura arquetípica do herói evoca, invariavelmente, a imagem de seres extraordinários, dotados de habilidades incomuns ou naturezas metafísicas, cujas ações são orientadas pela coragem, pela abnegação e pelo caráter superlativo. Entretanto, o conceito de herói ultrapassa amplamente a percepção cristalizada pelo senso comum e pelas representações midiáticas contemporâneas. O herói constitui um arquétipo em permanente transformação, moldado pelas mudanças históricas, sociais, culturais e estéticas de cada civilização. Como observa Flávio Kothe, em O Herói (2000), essa figura pode assumir múltiplas configurações: épica, trágica, bíblica, picaresca ou moderna, desde que sua trajetória dialogue com as tensões e necessidades simbólicas de sua época.

Nesse sentido, o herói não pode ser compreendido como uma entidade fixa e universal, mas como uma construção histórica que acompanha as transformações das sociedades. Mircea Eliade (1972), ao discutir a permanência dos mitos nas civilizações, argumenta que o herói é constantemente ressignificado para responder às inquietações humanas de cada período histórico. Da mesma forma, Carl Gustav Jung (2008) compreende o herói como um arquétipo do inconsciente coletivo, representando o indivíduo em busca de superação e identidade diante das adversidades impostas pelo mundo.

Historicamente, a gênese do termo “herói” designava indivíduos de coragem sobre-humana e ascendência divina. Lord Raglan, em The Hero (1956), utiliza figuras como Hércules, Perseu e Rômulo para exemplificar o herói de linhagem sagrada, vinculado ao imaginário mítico das sociedades antigas. Posteriormente, essa figura desloca-se para o guerreiro histórico e nacional, como Espártaco, alcançando seu auge estético na Idade Média por meio da cavalaria, representada por personagens como Rei Arthur e Sir Lancelot. O cavaleiro medieval era concebido como um modelo ideal de honra, coragem e fidelidade, reunindo virtudes morais e militares em defesa de um código ético rigidamente estruturado.

Todavia, a transição para a modernidade promove uma profunda crise no modelo heroico tradicional. O fim das grandes guerras medievais, o fortalecimento da racionalidade moderna e a fragmentação das certezas coletivas deslocaram o herói épico para figuras cada vez mais humanas, contraditórias e problemáticas. Georg Lukács (2000), ao analisar o romance moderno, afirma que o herói contemporâneo é marcado pela inadequação entre sujeito e mundo, vivendo em constante conflito com a realidade histórica em que está inserido. Assim, o herói moderno deixa de ser plenamente integrado ao seu meio e passa a existir em condição de deslocamento.

É precisamente nesse contexto de transformação arquetípica que este artigo propõe uma análise comparativa entre dois heróis aparentemente antitéticos: Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1605/1615), e Shrek, protagonista da animação produzida pela DreamWorks em 2001. Embora separados por séculos, linguagens e formas de representação distintas, ambos compartilham uma característica fundamental: o desajuste em relação ao mundo ao qual pertencem.

Dom Quixote, apesar de desejar encarnar o herói cavaleiresco medieval, vive em uma sociedade que já não comporta tal modelo. Seu heroísmo nasce justamente da incompatibilidade entre imaginação e realidade. Shrek, por outro lado, surge em um universo medieval típico dos contos de fadas, mas comporta-se como um sujeito contemporâneo, irônico, individualista e avesso às convenções heroicas clássicas. Enquanto o cavaleiro cervantino deseja viver em um passado idealizado, o ogro da DreamWorks rompe deliberadamente com as expectativas do mundo fantástico em que habita.

A hipótese central deste trabalho é que ambos configuram “heróis deslocados”. Para estudar o herói, torna-se imprescindível contextualizá-lo historicamente, pois seu comportamento deve refletir os valores e as expectativas de seu tempo e espaço. Contudo, Quixote e Shrek operam em um “não-lugar”, uma vez que suas ações, discursos e perspectivas entram em choque com os sistemas simbólicos que os cercam. A partir desse critério de deslocamento, este estudo busca compreender como a subversão do modelo clássico aproxima o cavaleiro e o ogro, revelando novas formas de heroísmo pautadas na autenticidade, na crítica social e na ruptura das convenções tradicionais.

Para tanto, serão mobilizados os estudos de Flávio Kothe (2000), Joseph Campbell (1994), Carl Jung (2008), Georg Lukács (2000), entre outros teóricos que discutem a construção e a transformação do arquétipo heroico na literatura e na cultura contemporânea.

2. DOM QUIXOTE: UM CAVALEIRO PERDIDO NA MODERNIDADE

2.1. A Crise do Herói Cavaleiresco

Dom Quixote de La Mancha é considerada por grande parte da crítica como a primeira novela moderna da literatura ocidental. Publicada em duas partes, em 1605 e 1615, a obra de Miguel de Cervantes ultrapassou os limites da literatura espanhola, consolidando-se como uma referência universal. Sua relevância manifesta-se não apenas pela permanência editorial e pelas inúmeras traduções, mas também pela influência exercida sobre diferentes manifestações artísticas e culturais.

Cervantes constrói uma sátira das novelas de cavalaria ao inserir, em pleno século XVII, um protagonista incapaz de reconhecer as transformações históricas de sua época. Alonso Quijano, após consumir excessivamente romances cavaleirescos, enlouquece e decide tornar-se cavaleiro andante sob o nome de Dom Quixote. Seu objetivo é restaurar os ideais de honra, justiça e heroísmo típicos da cavalaria medieval.

Conforme observa Antônio Lopes (2013), Cervantes ridiculariza o ideal cavaleiresco ao apresentar “o cavaleiro da triste figura” lutando contra moinhos de vento, rebanhos de carneiros e estalagens que imagina serem castelos. Entretanto, essa comicidade não anula a profundidade trágica da personagem. Ao contrário, evidencia a incompatibilidade entre os ideais heroicos do passado e a racionalidade pragmática da modernidade emergente.

Dom Quixote é, portanto, um herói deslocado temporalmente. Sua mente permanece vinculada ao universo medieval, enquanto o mundo ao seu redor já se estrutura segundo novos valores sociais, econômicos e culturais. Como afirma Lukács (2000), o romance moderno nasce justamente dessa cisão entre indivíduo e realidade.

2.2. Heroísmo, Idealismo e Loucura

Apesar de não corresponder ao modelo heroico vigente de sua época, Dom Quixote preserva características fundamentais do herói épico. Segundo Kothe (2000, p. 15), o herói épico representa “o sonho de o homem fazer a sua própria história”, e Quixote realiza exatamente esse movimento ao reinventar a si mesmo.

Seu heroísmo manifesta-se na disposição constante de lutar contra injustiças, proteger os inocentes e transformar o mundo. Em uma de suas falas mais emblemáticas, afirma:

“Então — disse Dom Quixote — tenho que vingar sua morte. Sou um cavaleiro de La Mancha, chamado Dom Quixote. Meu trabalho é endireitar erros e desfazer ofensas.” (CERVANTES, 2007, p. 70).

Mesmo ridicularizado, Quixote mantém uma ética heroica baseada na solidariedade, no amor cortês e na busca pela justiça. Diferentemente do herói moderno individualista, suas ações são orientadas por um ideal coletivo e altruísta.

Ao mesmo tempo, Cervantes humaniza o herói ao aproximá-lo da fragilidade humana. Dom Quixote sofre física e psicologicamente, fracassa constantemente e vive entre o delírio e a lucidez. Essa ambiguidade faz dele uma figura profundamente moderna.

2.3. Sancho Pança e a Tensão Entre Imaginação e Realidade

A relação entre Dom Quixote e Sancho Pança constitui um dos elementos centrais da obra. Enquanto Quixote representa o idealismo e a imaginação, Sancho simboliza o pragmatismo e a materialidade.

Sancho acompanha o cavaleiro movido inicialmente pelo desejo de ascensão social e recompensa material. Contudo, ao longo da narrativa, ambos passam por um processo de contaminação simbólica: Quixote aproxima-se gradualmente da realidade, enquanto Sancho absorve parte do idealismo do amo.

Como afirma Bakhtin (1998), o romance cervantino instaura uma multiplicidade de vozes e perspectivas, colocando em tensão o imaginário heroico e a experiência concreta do cotidiano. Sancho atua justamente como ponte entre esses dois universos.

3. SHREK: UM HERÓI MODERNO EM TEMPOS DE CAVALARIA OU DOM QUIXOTE ÀS AVESSAS

3.1. A Desconstrução do Príncipe Encantado

Joseph Campbell, em O Poder do Mito (1994), salienta que existem dois tipos de proezas heroicas: “uma proeza é física, em que o herói pratica um ato de coragem durante a batalha (...). O outro tipo de proeza é espiritual, na qual o herói aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual humana” (CAMPBELL, 1994, p. 131). Essa reflexão é fundamental para compreender a estrutura narrativa de Shrek (2001), pois o protagonista desloca o heroísmo da esfera da glória épica para a dimensão da subjetividade e da aceitação identitária.

Enquanto Dom Quixote procura viver concretamente os ideais heroicos da cavalaria medieval, Shrek representa o herói contemporâneo que rejeita conscientemente tais convenções. Sua jornada não está ligada à fama, à honra ou ao reconhecimento público, mas à tentativa de preservar sua individualidade em uma sociedade excludente. O ogro não deseja salvar o reino, conquistar poder ou receber títulos nobiliárquicos; deseja apenas recuperar o próprio pântano e permanecer isolado do convívio social. Trata-se de um herói profundamente moderno, marcado pelo individualismo e pela descrença nas instituições heroicas tradicionais.

O filme, dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson, apresenta uma releitura crítica dos contos de fadas clássicos. Desde o início da narrativa, percebe-se a intenção de satirizar os modelos heroicos convencionais, sobretudo o arquétipo do príncipe encantado. O reino governado por Lorde Farquaad representa uma sociedade fundada na aparência, na normatividade e na exclusão. Farquaad, embora ocupe simbolicamente a posição do príncipe, é incapaz de realizar a própria jornada heroica, necessitando terceirizar o resgate da princesa. Assim, o “verdadeiro” herói da narrativa é justamente aquele que não corresponde ao ideal físico, moral ou estético esperado.

Shrek rompe radicalmente com o modelo clássico do herói belo, elegante e virtuoso. Seu corpo grotesco, sua linguagem rude e seus hábitos considerados repulsivos constituem elementos que o afastam do imaginário heroico medieval. Contudo, é justamente essa inadequação que o transforma em um herói contemporâneo. Conforme Bakhtin (1999), o grotesco possui função regeneradora e crítica, pois desestabiliza padrões cristalizados e relativiza hierarquias sociais. Em Shrek, o grotesco deixa de ser apenas motivo de comicidade para transformar-se em instrumento de crítica cultural.

O deslocamento do herói manifesta-se, portanto, na ruptura entre aparência e valor moral. Diferentemente dos contos tradicionais, nos quais beleza física e virtude caminham juntas, o filme demonstra que o heroísmo pode emergir justamente da marginalidade. Shrek não possui a estética do príncipe, mas demonstra coragem, sensibilidade, lealdade e capacidade de transformação interior.

Essa inversão aproxima-se daquilo que Umberto Eco (2004) denomina “desconstrução do mito heroico”, característica recorrente das narrativas pós-modernas. O herói contemporâneo já não representa um modelo absoluto de perfeição; ele é contraditório, inseguro, falho e humanizado. Nesse sentido, Shrek encarna um herói antiépico, cuja relevância não reside na perfeição moral, mas na autenticidade.

3.2. O Herói Deslocado e a Crítica aos Contos de Fadas

Shrek é um herói deslocado porque vive em um universo que espera dele comportamentos incompatíveis com sua identidade. A sociedade medieval retratada no filme espera um cavaleiro belo, refinado, eloquente e disposto a cumprir os rituais do amor cortês. Fiona, inicialmente, também compartilha dessa expectativa. Sua visão de mundo foi construída a partir das convenções dos contos de fadas tradicionais. Assim, ela aguarda um príncipe idealizado que chegue montado em um cavalo branco, recite poemas e mate o dragão em nome da honra.

Todavia, o encontro entre Fiona e Shrek desfaz imediatamente tais expectativas:

— “Aguardo um cavaleiro corajoso que venha me salvar.”
— “Ah, legal! Agora vamos!”
— “Não deveria este ser um momento maravilhoso, romântico!?”
— “É... desculpe madame, não temos tempo!”
(SHREK, 2001)

O diálogo evidencia o choque entre dois modelos narrativos distintos: de um lado, a lógica idealizada dos contos clássicos; de outro, o pragmatismo moderno do protagonista. Fiona deseja viver uma cena literária; Shrek preocupa-se apenas em concluir rapidamente sua missão. A comicidade da cena nasce justamente desse conflito de expectativas.

Essa ruptura revela que o filme constrói uma paródia das estruturas narrativas tradicionais. Linda Hutcheon (1985) afirma que a paródia pós-moderna não destrói completamente os modelos anteriores; ela os reutiliza criticamente. Shrek faz exatamente isso: reaproveita os elementos clássicos dos contos de fadas — princesa, castelo, dragão, cavaleiro — para questionar seus pressupostos ideológicos.

O dragão, por exemplo, deixa de ser apenas o monstro que deve ser eliminado. Shrek não o derrota por bravura cavaleiresca; utiliza astúcia e improviso para sobreviver. Essa atitude aproxima-o da figura do trickster, arquétipo estudado por Jung (2000), caracterizado pela irreverência, pela inteligência prática e pela subversão das regras sociais. O herói moderno já não vence pela força física, mas pela capacidade de adaptação.

Outro aspecto fundamental da modernidade de Shrek é sua relação com o individualismo. Diferentemente do herói épico, que sacrifica sua vida pela coletividade, Shrek age inicialmente motivado por interesses pessoais. Seu objetivo é recuperar a tranquilidade do próprio pântano:

“— Nós? Burro, não tem ‘nós’, não tem ‘nosso’. Só tem ‘eu’ e ‘meu’ pântano.”
(SHREK, 2001)

Essa postura evidencia a lógica individualista do sujeito contemporâneo, marcado pela fragmentação social e pela valorização da autonomia pessoal. Entretanto, ao longo da narrativa, Shrek sofre uma transformação interna. O contato com Fiona e Burro rompe suas barreiras emocionais, permitindo-lhe desenvolver vínculos afetivos e senso de pertencimento. Sua jornada heroica, portanto, é menos física que psicológica.

A trajetória de Fiona também amplia a crítica social presente no filme. A princesa rompe com os padrões femininos dos contos clássicos ao rejeitar a posição passiva tradicionalmente atribuída às mulheres. Diferentemente das princesas submissas da tradição europeia, Fiona luta, argumenta, toma decisões e escolhe conscientemente permanecer ogra.

Esse gesto representa uma recusa simbólica dos padrões estéticos impostos pela sociedade.

Ao escolher permanecer em sua forma monstruosa, Fiona rejeita o ideal de beleza normativa associado ao “felizes para sempre”. O amor deixa de estar condicionado à aparência física e passa a fundamentar-se na aceitação da diferença. Desse modo, Shrek propõe uma releitura contemporânea do amor romântico, deslocando-o do ideal estético para a autenticidade emocional.

3.3. Shrek e a Crise do Heroísmo Contemporâneo

A construção de Shrek enquanto herói evidencia também a crise das narrativas heroicas tradicionais no contexto contemporâneo. Segundo Bauman (2001), a modernidade líquida dissolveu modelos fixos de identidade e comportamento, produzindo sujeitos instáveis e fragmentados. O herói moderno não possui mais certezas absolutas nem códigos morais rígidos; ele constrói sua identidade em meio às contradições sociais.

Shrek representa exatamente esse sujeito deslocado. Ele vive à margem da sociedade, rejeitado por sua aparência e constantemente associado ao medo e à monstruosidade. Sua condição remete à discussão proposta por Erving Goffman (1988) sobre o estigma social: determinados indivíduos são marginalizados porque não correspondem aos padrões considerados aceitáveis pela coletividade.

O ogro internaliza inicialmente essa exclusão, preferindo o isolamento como mecanismo de defesa. Seu pântano funciona simbolicamente como espaço de proteção contra uma sociedade preconceituosa. Contudo, ao longo da narrativa, o personagem compreende que o afastamento social não elimina a necessidade humana de afeto, reconhecimento e pertencimento.

Nesse aspecto, o filme ultrapassa a simples sátira dos contos de fadas e transforma-se em reflexão sobre identidade, alteridade e exclusão social. Shrek é um herói porque enfrenta não apenas obstáculos externos, mas também seus próprios medos emocionais. Sua grande batalha não é contra o dragão, mas contra a rejeição e a incapacidade de aceitar a si mesmo.

Assim como Dom Quixote, Shrek vive em desacordo com o mundo ao seu redor. Ambos são figuras deslocadas, inadequadas aos contextos em que se inserem. Entretanto, enquanto Quixote deseja retornar ao passado heroico, Shrek aponta para um novo paradigma de heroísmo, marcado pela imperfeição, pela subjetividade e pela crítica às normas sociais estabelecidas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo comparativo entre Dom Quixote de La Mancha e Shrek permite compreender como a figura do herói sofre constantes reformulações históricas, culturais e estéticas. Embora separados por séculos, linguagens e suportes distintos, ambos os protagonistas compartilham um elemento central: o deslocamento em relação ao mundo que habitam. É justamente essa inadequação que os transforma em figuras heroicas complexas e profundamente representativas de seus respectivos contextos históricos.

Miguel de Cervantes constrói, em Dom Quixote, uma personagem que tenta reviver os valores da cavalaria medieval em uma sociedade que já não comporta tais ideais. O cavaleiro da triste figura move-se guiado por códigos de honra, amor cortês e heroísmo épico em um mundo dominado pela racionalidade moderna. Seu heroísmo nasce da contradição. Quixote não compreende plenamente a realidade objetiva porque interpreta o mundo através do imaginário cavaleiresco. Contudo, é justamente essa capacidade de imaginar outro mundo possível que o torna uma figura grandiosa.

A obra cervantina revela, portanto, a crise do herói clássico. O cavaleiro medieval torna-se anacrônico diante das transformações sociais e culturais da modernidade. Ainda assim, Dom Quixote permanece heroico porque insiste em lutar contra as injustiças, defender os vulneráveis e atribuir sentido ético à existência. Seu fracasso material não anula sua dimensão simbólica; pelo contrário, intensifica-a.

Shrek, por sua vez, representa o movimento inverso. Enquanto Quixote possui mentalidade medieval em um mundo moderno, Shrek possui mentalidade moderna em um universo medievalizado. O ogro não acredita nos ideais heroicos tradicionais, rejeita formalidades sociais e desconstrói continuamente as convenções dos contos de fadas. Sua existência rompe expectativas narrativas e culturais, evidenciando a crise das representações clássicas do heroísmo.

Ao contrário do cavaleiro tradicional, Shrek não busca glória, honra ou reconhecimento coletivo. Age inicialmente por interesse próprio, preocupado apenas com seu espaço individual. Entretanto, ao longo da narrativa, desenvolve empatia, afeto e responsabilidade emocional, revelando que o heroísmo contemporâneo pode manifestar-se de formas menos grandiosas, porém igualmente significativas.

Ambas as obras utilizam a paródia como instrumento crítico. Cervantes satiriza os romances de cavalaria; Shrek satiriza os contos de fadas tradicionais. Contudo, em ambos os casos, a sátira não implica simples destruição dos modelos anteriores. Há, na verdade, um diálogo crítico com a tradição. As narrativas questionam padrões cristalizados de heroísmo, beleza, coragem e amor, propondo novas possibilidades de representação.

Outro ponto de aproximação entre as obras é a presença do companheiro fiel. Sancho Pança e Burro cumprem funções semelhantes: atuam como contraponto pragmático aos protagonistas e auxiliam na construção do equilíbrio narrativo. Ambos transitam entre comicidade e profundidade reflexiva, humanizando ainda mais os heróis deslocados que acompanham.

Além disso, tanto Dom Quixote quanto Shrek revelam que o heroísmo não depende necessariamente da adequação às normas sociais. Pelo contrário, muitas vezes o herói nasce justamente da ruptura com essas convenções. O deslocamento transforma-se, assim, em potência crítica. Ao não se encaixarem plenamente em seus contextos, os personagens expõem as limitações ideológicas das sociedades em que vivem.

Dom Quixote sonha com um mundo mais justo em uma época incapaz de compreender seus ideais. Shrek deseja apenas ser aceito em uma sociedade que o marginaliza por sua aparência. Ambos enfrentam rejeições, incompreensões e conflitos identitários. Ambos desafiam modelos fixos de heroísmo. E ambos demonstram que o verdadeiro herói talvez não seja aquele que se adapta perfeitamente ao mundo, mas aquele que resiste às imposições desse mundo para afirmar sua própria forma de existir.

Dessa maneira, o conceito de “herói deslocado” revela-se uma importante categoria de análise literária e cultural. Ele permite compreender personagens que vivem em desacordo com os valores dominantes de seu tempo e espaço, produzindo tensões entre sujeito e sociedade. Tal deslocamento não representa fraqueza narrativa, mas potência simbólica, pois evidencia os conflitos históricos, culturais e ideológicos presentes em cada contexto.

Conclui-se, portanto, que Dom Quixote e Shrek, embora pertencentes a universos distintos, aproximam-se na medida em que subvertem os modelos tradicionais de heroísmo e instauram novas possibilidades de leitura acerca da condição humana. São personagens que desafiam convenções, questionam padrões sociais e demonstram que o heroísmo pode emergir justamente da diferença, da inadequação e da resistência ao convencional.

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SHREK. Direção: Andrew Adamson e Vicky Jenson. Roteiro: Ted Elliott, Terry Rossio, Joe Stillman e Roger S. H. Schulman. Produção: Aron Warner, John H. Williams e Jeffrey Katzenberg. Estados Unidos: DreamWorks Pictures, 2001. 1 DVD (91 min.), son., color.


1 Doutora em Linguística e Língua Portuguesa, mestre em Estudos da Linguagem e docente no Instituto Federal Goiano, Campus Iporá. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Doutor em Estudos literários, mestre em Estudos da Linguagem e docente no Instituto Federal Goiano, Campus Iporá. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.