REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775524183
RESUMO
A gravidez na adolescência permanece como um relevante problema de saúde pública, associado a determinantes sociais, limitações no acesso à informação e vulnerabilidades em saúde sexual e reprodutiva. Nesse contexto, a escola configura-se como espaço estratégico para ações educativas voltadas à promoção da saúde. Este estudo tem como objetivo relatar a experiência de uma intervenção educativa realizada em uma escola de ensino médio no município de Sobral, Ceará, com foco na prevenção da gravidez na adolescência. Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, desenvolvido no âmbito de um projeto de extensão universitária por acadêmicos de Medicina da Faculdade 5 de Julho, no segundo semestre de 2025. As atividades ocorreram em dois encontros com estudantes do 1º ano do ensino médio, utilizando metodologias ativas, como dinâmicas educativas, rodas de conversa, exposição dialogada sobre métodos contraceptivos e caixa de perguntas anônimas. Observou-se participação ativa dos estudantes, interesse nas discussões e identificação de dúvidas frequentes relacionadas à sexualidade e prevenção. As estratégias adotadas favoreceram um ambiente seguro para o diálogo, contribuindo para a ampliação do conhecimento, desconstrução de mitos e fortalecimento do autocuidado. Além disso, a experiência contribuiu para a formação dos acadêmicos, especialmente no desenvolvimento de habilidades comunicativas e abordagem humanizada. Conclui-se que intervenções educativas no ambiente escolar possuem potencial significativo para a promoção da saúde e prevenção da gravidez na adolescência.
Palavras-chave: Gravidez na adolescência. Educação em saúde. Promoção da saúde. Adolescência. Saúde sexual e reprodutiva.
ABSTRACT
Adolescent pregnancy remains a significant public health issue, associated with social determinants, limited access to information, and vulnerabilities related to sexual and reproductive health. In this context, the school environment is considered a strategic setting for educational actions aimed at health promotion. This study aims to report the experience of an educational intervention carried out in a high school in the municipality of Sobral, Ceará, Brazil, focusing on the prevention of adolescent pregnancy. This is a descriptive study, classified as an experience report, developed within a university extension project conducted by medical students from Faculdade 5 de Julho during the second semester of 2025. The activities were conducted in two meetings with first-year high school students and were based on active learning methodologies, including educational dynamics, group discussions, interactive lectures on contraceptive methods, and an anonymous question box. Active student participation was observed, as well as engagement in discussions and the identification of frequent doubts related to sexuality and prevention. The strategies adopted promoted a safe environment for dialogue, contributing to knowledge expansion, myth deconstruction, and strengthening of self-care. Additionally, the experience contributed to the academic training of the students involved, particularly in the development of communication skills and a humanized approach. It is concluded that educational interventions in the school setting have significant potential for promoting health and preventing adolescent pregnancy.
Keywords: Adolescent pregnancy. Health education. Health promotion. Adolescence. Sexual and reproductive health.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência constitui uma fase do desenvolvimento humano marcada por intensas transformações físicas, emocionais e sociais, período no qual ocorre a consolidação da identidade, a construção de projetos de vida e o desenvolvimento da autonomia. Nesse contexto, a sexualidade assume papel relevante na formação do indivíduo, exigindo acesso a informações qualificadas, orientação adequada e suporte social que favoreçam escolhas conscientes e seguras. Entretanto, quando tais condições são limitadas, aumentam-se as vulnerabilidades associadas à saúde sexual e reprodutiva, entre elas a ocorrência da gravidez na adolescência, que permanece como um importante desafio de saúde pública em nível global, nacional e regional.
Estudos internacionais recentes reforçam a magnitude dessa problemática. Em 2025, a Organização Mundial da Saúde destacou a necessidade de fortalecer estratégias de prevenção da gravidez na adolescência e ampliar o acesso de meninas e jovens a serviços de saúde sexual e reprodutiva, especialmente em países de baixa e média renda. Estima-se que, anualmente, mais de 21 milhões de adolescentes entre 15 e 19 anos engravidem no mundo, muitas vezes de forma não planejada, o que pode resultar em impactos significativos na continuidade dos estudos, nas oportunidades socioeconômicas e no desenvolvimento pessoal dessas jovens. Vale ressaltar que, a educação sexual abrangente e o acesso a serviços de saúde reprodutiva são apontados como estratégias fundamentais para a redução das taxas de gestação precoce e para a promoção da autonomia juvenil.
No contexto brasileiro, a gravidez na adolescência também se mantém como um fenômeno relevante e associado a desigualdades sociais. Dados divulgados em 2025 pelo Centro Internacional de Equidade em Saúde (ICEH/UFPEL) indicam que, anualmente, aproximadamente uma em cada 23 adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos se torna mãe. Entre os anos de 2020 e 2022, foram registrados mais de um milhão de nascimentos de filhos de adolescentes nessa faixa etária, além de mais de 49 mil nascimentos entre meninas de 10 a 14 anos. Ressalta-se que, segundo a legislação brasileira, toda gestação nessa última faixa etária é considerada indicativa de violência sexual, configurando-se como grave violação de direitos e evidenciando a complexidade social e institucional que envolve a temática.
Além disso, estudos recentes apontam importantes desigualdades regionais na ocorrência da gravidez na adolescência no país. Pesquisa nacional publicada em 2025 identificou que a Região Norte apresenta as maiores taxas de fecundidade entre adolescentes, atingindo 77,1 nascimentos por mil meninas entre 15 e 19 anos, valor superior ao dobro da média nacional. Paralelamente, cerca de 30,5% dos municípios da Região Nordeste também apresentam taxas comparáveis às observadas em países de baixa renda. Esses achados evidenciam a forte influência de determinantes sociais, como pobreza, baixa escolaridade, acesso limitado à informação e desigualdades estruturais, que contribuem para a manutenção da gestação precoce como problema de saúde pública.
A produção científica recente também tem se dedicado a compreender as múltiplas dimensões relacionadas à gravidez na adolescência. Estudos publicados em 2025 indicam que o tema permanece em evidência no campo da pesquisa em saúde pública, com investigações que abordam desde determinantes sociais até estratégias de prevenção e promoção da saúde. Análises bibliométricas recentes apontam, contudo, a necessidade de ampliar estudos que articulem políticas públicas, educação sexual e intervenções educativas capazes de impactar diretamente o cotidiano de adolescentes em diferentes contextos sociais.
Nesse cenário, o ambiente escolar destaca-se como espaço estratégico para o desenvolvimento de ações educativas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva. A escola constitui um local privilegiado para o diálogo, a construção de conhecimento e o fortalecimento de práticas de prevenção, possibilitando que adolescentes tenham acesso a informações seguras e reflexões críticas sobre sexualidade, relações afetivas e planejamento de vida (ARAÚJO; NOGUEIRA; RAMOS, 1997).
A partir da vivência em uma escola de ensino médio localizada no distrito de Jordão, no município de Sobral, Ceará, foram identificadas dúvidas recorrentes entre os estudantes acerca de sexualidade, métodos contraceptivos e prevenção da gravidez, além da ocorrência de casos de gestação entre alunas. Diante desse contexto, emergiu o seguinte questionamento: de que forma ações educativas desenvolvidas no ambiente escolar podem contribuir para a prevenção da gravidez na adolescência e para a promoção do conhecimento entre jovens?
Assim, o presente estudo tem como objetivo relatar a experiência de uma intervenção educativa realizada em uma escola de ensino médio do município de Sobral, Ceará, destacando sua contribuição para a promoção da saúde e para o fortalecimento de práticas de prevenção entre adolescentes. A relevância deste relato fundamenta-se na necessidade de ampliar estratégias educativas que contribuam para a redução de vulnerabilidades sociais e para a formação de jovens mais conscientes, informados e capazes de tomar decisões responsáveis sobre sua saúde e seu futuro.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A adolescência constitui um período de transição caracterizado por profundas transformações físicas, emocionais, cognitivas e sociais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, essa fase compreende a faixa etária entre 10 e 19 anos e representa um momento fundamental para o desenvolvimento humano, marcado pela construção da identidade, pela ampliação da autonomia e pela definição de projetos de vida (OMS, 2023). Nesse contexto, a vivência da sexualidade assume papel central no processo de formação do adolescente, exigindo acesso a informações qualificadas, apoio familiar e acompanhamento institucional que favoreçam escolhas conscientes e responsáveis.
Entretanto, quando o acesso à informação e aos serviços de saúde sexual e reprodutiva é limitado, ampliam-se as vulnerabilidades associadas à adolescência, entre elas a ocorrência da gravidez precoce. Estudos recentes apontam que a gravidez na adolescência permanece como um importante desafio de saúde pública em âmbito global. Estimativas indicam que milhões de adolescentes entre 15 e 19 anos engravidam anualmente, sendo grande parte dessas gestações não planejadas (OMS, 2025). A maternidade precoce pode acarretar diversos impactos na vida das jovens, incluindo maior risco de complicações obstétricas, interrupção da trajetória escolar e redução de oportunidades socioeconômicas, afetando principalmente adolescentes em situação de vulnerabilidade social (UNICEF, 2024).
No Brasil, embora tenha sido observada redução gradual das taxas de fecundidade na adolescência nas últimas décadas, os indicadores ainda são considerados elevados quando comparados aos de países desenvolvidos. Dados do Ministério da Saúde apontam a ocorrência de milhares de nascimentos anuais entre adolescentes, incluindo casos na faixa etária de 10 a 14 anos, situação que evidencia alto grau de vulnerabilidade e demanda ações preventivas e protetivas mais efetivas (BRASIL, 2024).
No âmbito regional, estudos indicam que a Região Nordeste apresenta maior concentração de casos de gravidez na adolescência, sobretudo em municípios com baixos índices de desenvolvimento socioeconômico. Fatores como desigualdade social, evasão escolar, acesso limitado a métodos contraceptivos e fragilidade das redes de apoio familiar e institucional estão diretamente associados à maior incidência de gestações precoces nesse contexto (SILVA; MONTEIRO, 2022).
A literatura científica contemporânea reconhece a gravidez na adolescência como um fenômeno multifatorial, influenciado por determinantes sociais, culturais, econômicos e educacionais. A ausência de diálogo aberto sobre sexualidade, a desinformação acerca de métodos contraceptivos e a limitação de políticas públicas efetivas voltadas para a educação sexual e reprodutiva contribuem para a persistência do problema (BORGES et al., 2021). Nesse sentido, destaca-se a importância da atuação integrada entre os setores da saúde, educação e assistência social, com vistas à promoção de estratégias preventivas e de fortalecimento da autonomia juvenil.
No campo jurídico, o Brasil dispõe de um conjunto de dispositivos legais voltados à proteção integral da infância e da adolescência. A Constituição Federal de 1988 estabelece a saúde e a educação como direitos fundamentais e dever do Estado, garantindo políticas públicas destinadas à promoção do bem-estar social (BRASIL, 1988). O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei nº 8.069/1990, reforça o princípio da prioridade absoluta na formulação e execução de políticas voltadas à proteção e ao desenvolvimento de crianças e adolescentes (BRASIL, 1990).
Paralelamente, a Lei nº 8.080/1990, que institui o Sistema Único de Saúde (SUS), assegura o acesso universal, integral e equitativo aos serviços de saúde, incluindo ações relacionadas à saúde sexual e reprodutiva (BRASIL, 1990a). Ademais, o Código Penal Brasileiro estabelece que qualquer relação sexual com menores de 14 anos configura crime de estupro de vulnerável, evidenciando a gravidade das gestações nessa faixa etária e a necessidade de atuação institucional para proteção de direitos (BRASIL, 1940).
Entre as políticas públicas intersetoriais voltadas à promoção da saúde de crianças e adolescentes, destaca-se o Programa Saúde na Escola (PSE), instituído pelo Decreto nº 6.286/2007. O programa integra ações das áreas da saúde e da educação com o objetivo de promover a formação integral dos estudantes da rede pública de ensino, contemplando atividades de promoção da saúde sexual e reprodutiva, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e prevenção da gravidez na adolescência (BRASIL, 2007; BRASIL, 2023). Dessa forma, o PSE fortalece a articulação entre as Unidades Básicas de Saúde e as instituições escolares, ampliando o acesso de adolescentes a informações e práticas educativas voltadas ao autocuidado e à prevenção.
No contexto do município de Sobral, no estado do Ceará, destaca-se a Estratégia Trevo de Quatro Folhas, implantada em 2001 com o objetivo de reduzir a mortalidade materna e infantil e garantir acompanhamento integral às gestantes e puérperas em situação de vulnerabilidade social (SOBRAL, 2023). A estratégia atua por meio de acompanhamento domiciliar, apoio comunitário e fortalecimento da atenção básica, promovendo cuidado humanizado e ampliando a rede de proteção às famílias.
Além disso, a Estratégia Trevo de Quatro Folhas desenvolve ações específicas voltadas à promoção da saúde por meio do Projeto Flor do Mandacaru, iniciativa direcionada ao fortalecimento de atividades educativas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva de adolescentes. O projeto busca ampliar o diálogo sobre sexualidade, oferecer orientação qualificada e fortalecer a rede de proteção social no território, contribuindo para a prevenção da gravidez na adolescência e para o enfrentamento de situações de vulnerabilidade juvenil.
Dessa forma, observa-se que, apesar da existência de dispositivos legais e de políticas públicas estruturadas, como o Programa Saúde na Escola e a Estratégia Trevo de Quatro Folhas, com apoio do Projeto Flor do Mandacaru, a gravidez na adolescência permanece como uma questão relevante de saúde pública, especialmente em contextos socialmente vulneráveis. Nesse sentido, a literatura destaca a importância de intervenções educativas contínuas, contextualizadas e articuladas às políticas públicas locais.
Assim, compreende-se que o ambiente escolar constitui um espaço estratégico para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde e prevenção de agravos, favorecendo o diálogo, o acesso à informação e a construção de conhecimentos sobre sexualidade e direitos reprodutivos. Dessa forma, iniciativas educativas desenvolvidas nesse contexto podem contribuir significativamente para a formação de adolescentes mais conscientes, críticos e preparados para exercer sua autonomia e seus direitos de maneira responsável.
3. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de natureza descritiva, do tipo relato de experiência, que apresenta as vivências decorrentes de um projeto de extensão universitária desenvolvido por acadêmicos do curso de Medicina da Faculdade 5 de Julho, no município de Sobral, Ceará. O projeto foi realizado durante o segundo semestre de 2025 e esteve vinculado à iniciativa extensionista intitulada “De Repente Grávida… e Agora? Saúde em Debate: Gravidez na Adolescência”, cuja proposta central consistiu na promoção de ações educativas voltadas à saúde sexual e reprodutiva de adolescentes.
As atividades extensionistas ocorreram nos dias 05 de setembro de 2025 e 07 de novembro de 2025, tendo como cenário a Escola de Ensino Médio José Euclides Ferreira Gomes Júnior, localizada no município de Sobral–CE. O público-alvo das ações foi composto por estudantes regularmente matriculados no 1º ano do Ensino Médio, selecionados pela instituição escolar em parceria com a equipe extensionista, considerando a relevância do tema para a faixa etária e a necessidade de fortalecimento de estratégias educativas voltadas à prevenção da gravidez na adolescência.
O projeto teve como objetivo desenvolver ações educativas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva, com ênfase na prevenção da gravidez na adolescência, no fortalecimento do autocuidado, na responsabilidade afetiva, na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e na reflexão sobre projetos de vida. Para isso, foram utilizadas metodologias ativas de ensino-aprendizagem, fundamentadas na participação dos estudantes, no diálogo horizontal e na construção coletiva do conhecimento.
Inicialmente, realizou-se um momento de acolhimento dos participantes, no qual os estudantes e professores foram recepcionados pela equipe extensionista. Nesse momento, ocorreu a apresentação dos integrantes do projeto, a exposição dos objetivos das atividades e a explicação da dinâmica das ações que seriam desenvolvidas. Também foram coletados os termos de autorização para uso de imagem e realizados os registros de presença, garantindo a organização e a formalização das atividades educativas.
A primeira ação educativa teve como foco a educação em saúde sexual e reprodutiva, sendo estruturada a partir de estratégias participativas que possibilitaram identificar conhecimentos prévios e esclarecer dúvidas dos estudantes. Inicialmente, foi realizada a dinâmica denominada “Mitos e Verdades”, na qual foram utilizados balões de cores distintas, verdes, representando afirmações verdadeiras, e vermelhos, indicando mitos, relacionados a temas como sexualidade, métodos contraceptivos, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência. A atividade possibilitou identificar percepções, crenças e possíveis desinformações presentes entre os adolescentes, estimulando o debate coletivo e a construção de conhecimento a partir das respostas apresentadas.
Na sequência, foi realizada uma exposição dialogada utilizando um kit demonstrativo de métodos contraceptivos, no qual foram apresentados e discutidos diferentes métodos disponíveis, incluindo preservativos masculinos e femininos, contraceptivos hormonais e outros métodos de prevenção. Durante a atividade, foram abordados aspectos relacionados ao funcionamento, eficácia, formas corretas de uso e possibilidades de acesso gratuito aos métodos contraceptivos por meio do Sistema Único de Saúde. Esse momento permitiu ampliar o conhecimento dos estudantes sobre estratégias de prevenção e promover maior conscientização sobre o cuidado com a saúde sexual.
Posteriormente, foi introduzida a atividade denominada “Caixa de Perguntas Anônimas”, na qual os estudantes tiveram a oportunidade de registrar dúvidas relacionadas à sexualidade, prevenção, relacionamentos afetivos e questões pessoais. As perguntas foram depositadas em uma caixa e respondidas pela equipe extensionista durante a atividade, preservando o anonimato dos participantes e garantindo um ambiente educativo seguro, acolhedor e livre de constrangimentos.
A segunda ação educativa apresentou caráter formativo e reflexivo, tendo início com uma roda de conversa introdutória, na qual foram retomados alguns conteúdos abordados no encontro anterior, como gravidez na adolescência, prevenção de doenças, uso de métodos contraceptivos, autocuidado e responsabilidade nas relações afetivas. Esse momento permitiu reforçar conhecimentos previamente discutidos e estimular a participação ativa dos estudantes por meio do diálogo e da troca de experiências.
Em seguida, foi realizada a dinâmica intitulada “Roda de Perguntas, Como você reagiria se...”, baseada na apresentação de situações hipotéticas relacionadas ao cotidiano dos adolescentes. As situações propostas abordavam temas como descoberta de uma possível gravidez, pressão de parceiros para relações sexuais sem proteção, necessidade de diálogo sobre prevenção e tomada de decisões responsáveis. A dinâmica teve como objetivo estimular a reflexão crítica, promover o debate coletivo e incentivar a construção de posicionamentos conscientes diante de situações que podem ocorrer na vida real.
Na etapa seguinte, desenvolveu-se a dinâmica denominada “Linha do Tempo”, atividade reflexiva na qual os estudantes foram convidados a registrar, de forma escrita, seus planos, metas e projetos de vida. A proposta consistiu em estimular os adolescentes a refletirem sobre suas perspectivas futuras, considerando aspectos como continuidade dos estudos, realização profissional e construção de objetivos pessoais. Alguns estudantes compartilharam voluntariamente suas reflexões com o grupo, de forma espontânea e anônima, favorecendo a troca de experiências e o fortalecimento da motivação coletiva para a construção de trajetórias de vida planejadas.
Cada uma das ações educativas teve duração média aproximada de 40 minutos, sendo conduzidas por acadêmicos de Medicina com apoio da equipe docente responsável pelo projeto. Como recursos metodológicos, foram utilizadas rodas de conversa, dinâmicas educativas participativas, kit demonstrativo de métodos contraceptivos, balões temáticos, caixa de perguntas anônimas, panfletos informativos, materiais impressos e brindes educativos, além de estratégias pedagógicas voltadas à participação ativa dos estudantes.
O encerramento das atividades ocorreu com um momento de confraternização entre participantes e equipe extensionista, acompanhado de lanche coletivo e agradecimentos, fortalecendo o vínculo entre estudantes, professores e facilitadores e promovendo um ambiente de acolhimento e valorização da participação juvenil.
Os dados produzidos durante a experiência possuem natureza qualitativa, sendo provenientes das observações realizadas pela equipe extensionista, dos registros de campo, da participação dos estudantes nas atividades, das interações estabelecidas durante as dinâmicas e das respostas espontâneas apresentadas pelos participantes. Não foram aplicados instrumentos quantitativos estruturados. A análise dos dados ocorreu de forma descritiva e interpretativa, por meio da sistematização das experiências vivenciadas, permitindo compreender os aspectos educativos, sociais e formativos decorrentes da intervenção realizada.
Por se tratar de um relato de experiência com caráter educativo, foram respeitados os princípios éticos de confidencialidade, anonimato e participação voluntária dos estudantes, garantindo que nenhuma informação individual fosse identificada durante o processo de sistematização e análise da experiência.
4. RESULTADOS
A execução da ação educativa com os adolescentes permitiu a construção de um espaço de diálogo e aprendizado voltado à compreensão de aspectos relacionados à saúde sexual e reprodutiva, com ênfase na prevenção da gravidez na adolescência. As atividades desenvolvidas buscaram articular conhecimentos provenientes da literatura médica sobre sexualidade, fisiologia reprodutiva e métodos contraceptivos com a realidade vivenciada pelos estudantes, favorecendo uma abordagem educativa sensível às situações de vulnerabilidade e às dúvidas presentes no cotidiano juvenil.
Durante as dinâmicas e rodas de conversa, observou-se participação ativa dos estudantes, que demonstraram interesse em discutir temas relacionados à sexualidade, autocuidado, prevenção e relacionamentos afetivos. A utilização de estratégias participativas, como atividades interativas e espaços de perguntas anônimas, possibilitou a identificação de crenças, percepções e lacunas de conhecimento acerca da temática, contribuindo para a desconstrução de mitos e estereótipos frequentemente associados à sexualidade na adolescência.
As atividades integrativas também favoreceram a vivência de práticas de escuta ativa e expressão livre entre os participantes, em um ambiente caracterizado pelo respeito, pela confidencialidade e pela ausência de julgamentos. Esse contexto contribuiu para ampliar a confiança dos estudantes no processo educativo, facilitando a abordagem de temas sensíveis e estimulando reflexões sobre responsabilidade, prevenção e tomada de decisões conscientes.
Além dos benefícios observados entre os estudantes, a experiência também contribuiu para o processo formativo dos acadêmicos envolvidos no projeto de extensão. A participação nas atividades possibilitou o desenvolvimento de habilidades relacionadas à comunicação em saúde, empatia, escuta qualificada e abordagem humanizada, competências consideradas essenciais para a formação de profissionais de saúde capazes de atuar em contextos sociais diversos e complexos.
4.1. Discussão
Os resultados observados nesta intervenção são convergentes com a literatura científica que reconhece a educação em saúde como uma estratégia fundamental na prevenção da gravidez na adolescência. Estudos apontam que o acesso a informações qualificadas sobre sexualidade, aliado à disponibilidade de métodos contraceptivos e ao fortalecimento de práticas educativas, constitui fator essencial para a redução da incidência de gestações precoces (SILVA; PEREIRA, 2020).
Nesse contexto, iniciativas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva têm sido incentivadas em diferentes esferas institucionais. A Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, por exemplo, representa importante estratégia de mobilização social e educativa, ao estimular a articulação entre instituições de ensino, serviços de saúde e universidades na construção de ações intersetoriais voltadas à prevenção e ao cuidado.
A abordagem participativa e lúdica adotada no presente projeto mostrou-se particularmente eficaz para estimular o envolvimento dos estudantes e favorecer a aproximação entre a universidade e o ambiente escolar. Ao promover atividades interativas e espaços de diálogo aberto, foi possível reduzir barreiras comunicacionais e contribuir para a superação de tabus historicamente associados às discussões sobre sexualidade. Essa estratégia é especialmente relevante quando analisada à luz dos determinantes sociais da gravidez na adolescência, como desigualdades socioeconômicas, limitações no acesso à informação, baixos níveis de escolaridade e fragilidade das redes de apoio familiar e institucional.
Outro aspecto relevante refere-se ao impacto formativo da experiência para os acadêmicos de Medicina participantes da ação extensionista. A vivência em atividades educativas comunitárias favorece o desenvolvimento de competências relacionadas à comunicação em saúde, empatia, escuta qualificada e educação cidadã, ampliando a compreensão dos futuros profissionais sobre as dimensões sociais do processo saúde-doença. Dessa forma, a extensão universitária fortalece o papel social da universidade como agente transformador da realidade, contribuindo para a formação de profissionais comprometidos com práticas de cuidado humanizadas e socialmente responsáveis.
Embora a intervenção não tenha incluído instrumentos de mensuração quantitativa estruturados, os resultados qualitativos observados, expressos na participação dos estudantes, nas interações durante as atividades e nas reflexões compartilhadas ao longo das dinâmicas, indicam impacto positivo da ação educativa. Esses achados reforçam a importância da continuidade e ampliação de iniciativas semelhantes, bem como da sistematização de experiências extensionistas que contribuam para o fortalecimento de estratégias de promoção da saúde entre adolescentes.
4.2. Dificuldades Encontradas
Durante a execução do projeto, foram identificados alguns desafios operacionais e pedagógicos:
Cronograma escolar com pouca disponibilidade, exigindo reorganização do cronograma previamente estabelecido;
ocorrência de perguntas inadequadas ou sensíveis, que demandaram filtragem cuidadosa sem constrangimento dos participantes;
limitação de tempo disponível, o que levou à priorização de conteúdos essenciais e à restrição de discussões mais aprofundadas;
timidez inicial de parte dos adolescentes, demandando estratégias adicionais de engajamento, dinâmicas participativas e estímulo à interação.
Essas dificuldades forneceram aprendizados relevantes para o aprimoramento do projeto, evidenciando a necessidade de planejamento mais detalhado, diversificação de estratégias pedagógicas, ampliação do tempo de execução das atividades e maior flexibilidade organizacional.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento do projeto de extensão “De Repente Grávida… e Agora? Saúde em Debate: Gravidez na Adolescência” possibilitou a implementação de ações educativas voltadas à promoção da saúde sexual e reprodutiva entre adolescentes no contexto escolar. A experiência evidenciou a relevância de estratégias educativas que favoreçam o diálogo aberto sobre sexualidade, contracepção e prevenção da gravidez precoce, contribuindo para a ampliação do conhecimento e para a construção de atitudes mais conscientes em relação ao autocuidado e às escolhas de vida.
As atividades realizadas demonstraram que intervenções baseadas em metodologias participativas e interativas favorecem o engajamento dos estudantes e estimulam a reflexão crítica acerca de temas frequentemente permeados por tabus e desinformação. Ao promover espaços de escuta, troca de experiências e construção coletiva do conhecimento, tais iniciativas contribuem para o fortalecimento da autonomia e do protagonismo juvenil, elementos fundamentais para a promoção da saúde e para a prevenção de situações de vulnerabilidade.
Além dos impactos observados entre os estudantes, a experiência também evidenciou a importância da extensão universitária como instrumento formativo e socialmente comprometido. A participação dos acadêmicos de Medicina em atividades educativas no ambiente escolar favoreceu o desenvolvimento de competências relacionadas à comunicação em saúde, empatia, escuta qualificada e abordagem humanizada, ampliando a compreensão sobre as dimensões sociais que influenciam o processo saúde-doença.
Dessa forma, iniciativas educativas desenvolvidas em parceria entre universidade e escola demonstram potencial significativo para contribuir com a prevenção da gravidez na adolescência e com a promoção da saúde entre jovens. A ampliação e a institucionalização de projetos dessa natureza podem fortalecer redes intersetoriais de cuidado, potencializar seus impactos no território e consolidar práticas educativas voltadas à formação de adolescentes mais informados, críticos e preparados para exercer seus direitos de forma responsável.
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1 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade 5 de Julho (F5), Campus Sobral-CE. E-mail: [email protected]
2 Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade 5 de Julho (F5), Campus Sobral-CE. E-mail: [email protected]
3 Enfermeira. Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Docente da Faculdade 5 de Julho (F5). E-mail: [email protected]
4 Enfermeira. Coordenadora da Atenção Primária à Saúde de Sobral-CE. E-mail: [email protected]
5 Docente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário INTA (UNINTA), Campus Sobral-CE. Mestre em Ciências da Saúde (UFC). E-mail: [email protected]
6 Docente do Curso Superior de Medicina da Faculdade 5 de Julho (F5), Campus Sobral-CE. Doutora em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO/UFC). E-mail: [email protected]