REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784397516
RESUMO
Este artigo apresenta uma revisão integrativa da literatura sobre a relação entre a formação inicial de professores e o desenvolvimento da identidade docente, tomando como base estudos indexados na Scientific Electronic Library Online (SciELO). Objetivou-se mapear e sistematizar a produção científica que discute os processos, os espaços formativos e os desafios envolvidos na construção da identidade profissional docente ao longo da licenciatura. A busca foi realizada por meio de estratégias booleanas combinando os descritores “formação inicial de professores”, “formação de professores” e “desenvolvimento/construção/constituição da identidade docente”, seguindo as recomendações do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Foram incluídos 12 estudos elegíveis, publicados entre 2006 e 2025, analisados quanto a autoria, periódico, objetivo, método e principais achados. Os resultados foram organizados em cinco eixos temáticos: (i) estágio supervisionado e PIBID como espaços privilegiados de constituição identitária; (ii) narrativas, discurso e produção escrita na formação da identidade docente; (iii) identidade docente em áreas específicas do conhecimento; (iv) saberes da práxis, rupturas formativas e a relação universidade-escola; e (v) panorama teórico-metodológico do campo, a partir de revisões de literatura sobre o tema. A síntese dos estudos evidencia que a identidade docente não é um atributo dado a priori, mas um processo relacional, situado e inacabado, construído na tensão entre experiências escolares prévias, referenciais teóricos da formação e as primeiras vivências da prática profissional, sobretudo no estágio supervisionado e em programas como o PIBID. Conclui-se que a consolidação de espaços formativos dialógicos, reflexivos e articulados entre universidade e escola é condição necessária para o fortalecimento de identidades docentes críticas e reflexivas desde a formação inicial.
Palavras-chave: Formação Inicial de Professores; Identidade Docente; Identidade Profissional; Revisão Integrativa; Estágio Supervisionado.
ABSTRACT
This article presents an integrative literature review on the relationship between initial teacher education and the development of teacher identity, based on studies indexed in the Scientific Electronic Library Online (SciELO). The aim was to map and systematize the scientific production discussing the processes, formative spaces, and challenges involved in the construction of professional teacher identity during pre-service education. The search was conducted using Boolean strategies combining the descriptors “initial teacher education”, “teacher education”, and “development/construction/constitution of teacher identity”, following the recommendations of the PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) protocol. Twelve eligible studies, published between 2006 and 2025, were included and analyzed regarding authorship, journal, objective, method, and main findings. The results were organized into five thematic axes: (i) supervised practicum and PIBID as privileged spaces for identity constitution; (ii) narratives, discourse, and written production in teacher identity formation; (iii) teacher identity in specific fields of knowledge; (iv) praxis-based knowledge, formative turning points, and the university-school relationship; and (v) the theoretical-methodological landscape of the field, drawn from literature reviews on the topic. The synthesis shows that teacher identity is not a given attribute but a relational, situated, and unfinished process, built through the tension between prior school experiences, theoretical references from teacher education, and the first experiences of professional practice, particularly during the supervised practicum and programs such as PIBID. It is concluded that consolidating dialogical, reflective formative spaces articulated between university and school is a necessary condition for strengthening critical and reflective teacher identities from the earliest stages of pre-service education.
Keywords: Initial Teacher Education; Teacher Identity; Professional Identity; Integrative Review; Supervised Practicum.
1. INTRODUÇÃO
A formação inicial de professores constitui um dos campos mais consolidados e, ao mesmo tempo, mais tensionados da pesquisa educacional contemporânea. Além da apropriação de conhecimentos disciplinares e pedagógicos, a licenciatura é reconhecida como o período formativo em que se inicia um processo mais amplo e contínuo: a construção da identidade docente, entendida não como um atributo fixo ou dado a priori, mas como um processo relacional, situado e permanentemente inacabado, construído na tensão entre experiências pessoais, referenciais teóricos e as primeiras vivências da prática profissional (PIETRI; RODRIGUES; SANCHEZ, 2019).
Historicamente, a formação de professores no Brasil oscilou entre modelos de racionalidade técnica, centrados na aplicação de conhecimentos científicos e pedagógicos previamente sistematizados, e perspectivas mais recentes, de matriz reflexiva e práxica, que reconhecem no exercício da docência um espaço de produção de saberes próprios. Nesse deslocamento, o estágio curricular supervisionado e programas como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) assumiram papel central como espaços privilegiados de aproximação entre licenciandos e a cultura escolar, funcionando como território de transição entre a condição de estudante e a de professor (ASSAI; BROIETTI; ARRUDA, 2018; MACÊDO; ROMANOWSKI, 2025).
A identidade docente, nesse contexto, não se constitui de modo linear ou cumulativo, mas por meio de processos discursivos, narrativos e relacionais em que o licenciando negocia, a todo momento, entre as representações de escola e de docência trazidas de sua trajetória escolar prévia e as experiências concretas vividas nos espaços de formação (GUEDES-PINTO; KLEIMAN, 2021). Estudos recentes evidenciam ainda que episódios de ruptura — tensões, conflitos e situações inesperadas vividas na prática — podem funcionar como turning points formativos, capazes de deslocar interpretações prévias e intensificar o desenvolvimento profissional dos futuros professores (TEIXEIRA ANDRADE; GARCIA CAMPOS DUARTE, 2025).
Apesar do volume crescente de pesquisas sobre o tema, revisões de literatura recentes apontam para a persistência de uma multiplicidade de perspectivas teóricas e metodológicas na conceituação da identidade profissional docente — sociológica, cultural, psicológica/psicanalítica, narrativa e discursiva —, sem que se tenha alcançado consenso conceitual consolidado no campo (MEYER; LOSANO; FIORENTINI, 2022; ALMEIDA; PENSO; FREITAS, 2019). Essa dispersão teórico-metodológica reforça a relevância de estudos de revisão integrativa capazes de sistematizar e organizar criticamente o conhecimento já produzido sobre a articulação entre formação inicial e desenvolvimento identitário docente.
Diante do exposto, este artigo tem como objetivo geral mapear, sistematizar e analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura indexada na base SciELO, os processos, os espaços formativos e os desafios evidenciados pela produção científica para o desenvolvimento da identidade docente durante a formação inicial de professores. Como objetivos específicos, busca-se: (i) caracterizar a produção científica sobre o tema quanto a autoria, período, periódicos e delineamentos metodológicos; (ii) identificar os principais eixos temáticos abordados pelos estudos; e (iii) discutir, à luz da literatura, os processos formativos que favorecem (ou dificultam) a construção de identidades docentes críticas e reflexivas. O artigo está estruturado, além desta introdução, em seções de metodologia, resultados, discussão e considerações finais.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, método que permite reunir, sintetizar e analisar criticamente estudos de diferentes delineamentos metodológicos sobre um mesmo fenômeno. O percurso metodológico seguiu as seis etapas propostas por Whittemore e Knafl (2005): (1) identificação do tema e formulação da questão de pesquisa; (2) busca na literatura; (3) categorização dos estudos; (4) avaliação dos estudos incluídos; (5) interpretação dos resultados; e (6) síntese do conhecimento. Adotou-se, complementarmente, o protocolo PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) para orientar a transparência do processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos.
2.1. Questão Norteadora
A questão de pesquisa foi elaborada com base em uma adaptação da estratégia PICo (Population, Interest, Context), tomando-se: População/Contexto — professores em formação inicial (licenciandos); Interesse/Fenômeno — o desenvolvimento e a construção da identidade docente. Formulou-se a seguinte pergunta norteadora: “Como a produção científica indexada na SciELO caracteriza o processo de desenvolvimento da identidade docente durante a formação inicial de professores?”
2.2. Fonte de Dados e Estratégia de Busca
A busca foi realizada diretamente na base Scientific Electronic Library Online (SciELO), em julho de 2026. Foram utilizadas estratégias de busca booleana combinando os principais descritores do tema, com uso de aspas para expressões exatas e operadores AND/OR, conforme as strings a seguir:
(“formação inicial de professores” OR “formação de professores”) AND (“desenvolvimento da identidade docente” OR “construção da identidade docente” OR “constituição da identidade docente”) “formação inicial de professores” AND “identidade profissional docente” PIBID AND “identidade docente” AND “formação inicial”
Cabe registrar, com a transparência metodológica exigida por este tipo de estudo, que um arquivo de exportação (.ris) inicialmente fornecido para compor este corpus revelou-se, após conferência, um export genérico da plataforma SciELO, não filtrado pelos descritores do tema (contendo registros de áreas tão diversas quanto ciência política, oncologia e agronomia). Diante disso, optou-se por realizar a busca diretamente na base SciELO com as strings acima, verificando-se manualmente, para cada estudo candidato, a autoria, o periódico, o volume e o DOI, de modo a assegurar a rastreabilidade e a veracidade das referências incluídas nesta revisão.
2.3. Critérios de Elegibilidade
Foram incluídos: artigos originais, relatos de pesquisa e revisões publicados em periódicos e preprints indexados na SciELO; que versassem diretamente sobre a intersecção entre formação inicial de professores (licenciatura, estágio supervisionado, PIBID) e identidade/identidade profissional docente; disponíveis em texto completo, no idioma português; com metadados de autoria, periódico e ano plenamente verificáveis. Foram excluídos: registros duplicados; estudos cujo foco central não fosse a formação inicial (por exemplo, voltados exclusivamente à formação continuada ou à identidade de professores já em exercício há muitos anos, sem relação com o período de licenciatura); e candidatos cujos dados bibliográficos completos não puderam ser confirmados no processo de verificação.
2.4. Seleção dos Estudos e Diagrama PRISMA
O processo de seleção seguiu as quatro fases recomendadas pelo PRISMA: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão. Na fase de identificação, as buscas realizadas diretamente na base SciELO, a partir da estratégia booleana, resultaram em 20 registros candidatos distintos. Na triagem por título e resumo, 3 registros foram excluídos por não tratarem diretamente da intersecção entre formação inicial e identidade docente (com foco, por exemplo, exclusivamente na identidade de professores experientes ou na formação continuada), restando 17 estudos. Na fase de elegibilidade, buscou-se confirmar a autoria completa, o periódico, o volume e o DOI de cada estudo; 5 candidatos foram excluídos por não ter sido possível confirmar integralmente seus dados bibliográficos no processo de verificação, adotado como critério de rigor desta revisão. Dessa forma, 12 estudos foram incluídos na síntese qualitativa. O fluxo é apresentado na Figura 1.
Figura 1. Fluxograma PRISMA de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos
IDENTIFICAÇÃO Registros identificados na base SciELO por meio da estratégia de busca booleana (n = 20) |
↓
TRIAGEM Registros triados por título e resumo (n = 17) Registros excluídos (foco não centrado em formação inicial/identidade docente): n = 3 |
↓
ELEGIBILIDADE Estudos com dados bibliográficos verificados (autoria, periódico, volume, DOI) (n = 12) Estudos excluídos (metadados não plenamente verificáveis): n = 5 |
↓
INCLUSÃO Estudos incluídos na síntese qualitativa da revisão integrativa (n = 12) |
Fonte: elaborado pelos autores (2026), com base no modelo PRISMA 2020 (PAGE et al., 2021).
2.5. Extração e Análise dos Dados
Para a extração dos dados, elaborou-se instrumento contendo: autoria, ano de publicação, periódico, objetivo, delineamento metodológico e principais achados de cada estudo (Tabela 1). A análise dos dados seguiu abordagem qualitativa de análise temática indutiva, que permitiu o agrupamento dos 12 estudos em cinco eixos temáticos convergentes, apresentados na seção de discussão: (i) estágio supervisionado e PIBID como espaços privilegiados de constituição identitária; (ii) narrativas, discurso e produção escrita na formação da identidade docente; (iii) identidade docente em áreas específicas do conhecimento; (iv) saberes da práxis, rupturas formativas e a relação universidade-escola; e (v) panorama teórico-metodológico do campo, a partir das revisões de literatura incluídas.
3. RESULTADOS
3.1. Caracterização Geral dos Estudos Incluídos
Os 12 estudos incluídos foram publicados entre 2006 e 2025, com concentração de publicações a partir de 2017, o que acompanha a expansão de programas como o PIBID e a consolidação de linhas de pesquisa sobre identidade docente nos programas de pós-graduação em Educação e Ensino de Ciências no Brasil. Quanto ao delineamento metodológico, predominam estudos qualitativos — estudos de caso, análise de narrativas e de produção escrita, entrevistas semiestruturadas —, havendo ainda três revisões de literatura (estado da arte, revisão integrativa e metassíntese) que sintetizam parte expressiva da produção nacional e internacional sobre o tema (ASSAI; BROIETTI; ARRUDA, 2018; MACÊDO; ROMANOWSKI, 2025; MEYER; LOSANO; FIORENTINI, 2022; ALMEIDA; PENSO; FREITAS, 2019). Quanto à distribuição por periódico, observa-se concentração em revistas da área de Educação e de Ensino de Ciências, conforme sintetizado na Tabela 2.
Tabela 1. Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa (SciELO, 2006–2025)
Nº | Autor(es)/Ano | Periódico | Objetivo / Método | Principais achados |
1 | Teixeira Andrade; Garcia Campos Duarte (2025) | SciELO Preprints, preprint | Analisar turning points (episódios de ruptura) na formação inicial de professores de História. Etnografia Interacional; depoimentos, memoriais reflexivos e registros institucionais. | O desenvolvimento profissional se intensifica quando licenciandos reconhecem os estudantes como sujeitos do processo formativo; turning points configuram espaço de formação compartilhada universidade-escola que favorece identidades docentes crítico-reflexivas. |
2 | Macêdo; Romanowski (2025) | Educar em Revista, v. 41 | Examinar abordagens epistemológicas da prática como componente basilar da formação inicial de professores. Revisão integrativa/sistemática; reanálise de 65 artigos nacionais e internacionais (Bardin). | A prática é elemento fundante da formação inicial em quatro vertentes: relação teoria-prática; prática na aprendizagem da docência; estágios supervisionados; prática reflexiva. |
3 | Meyer; Losano; Fiorentini (2022) | Educação e Pesquisa, v. 48 | Compreender e discutir múltiplas perspectivas e conceitualizações da identidade profissional docente. Revisão sistemática do tipo metassíntese de cinco revisões de literatura nacionais e internacionais. | Há multiplicidade de perspectivas epistemológicas (sociológica, cultural, psicológica/psicanalítica, narrativa, discursiva) para conceituar identidade docente, sem consenso conceitual consolidado no campo. |
4 | Guedes-Pinto; Kleiman (2021) | Cadernos de Pesquisa, v. 51 | Analisar elementos discursivos que indiciam a construção de identidades docentes na produção escrita de estagiários. Pesquisa participante, qualitativo-interpretativista; estudos do letramento e abordagem bakhtiniana do discurso. | A identidade profissional não é totalmente determinada nem completamente livre de restrições sócio-históricas, mas construída passo a passo na interação institucional; “o dizer do outro” afeta a constituição identitária dos estagiários. |
5 | Almeida; Penso; Freitas (2019) | Educação em Revista, v. 35 | Realizar levantamento da produção científica sobre identidade docente e dos aportes teóricos que a fundamentam. Revisão sistemática; 52 artigos (Portal Capes, BVS, SciELO Brasil, Brased), 2006–2018. | Identificam-se quatro categorias de identidade docente — missionária, instrumental, proletária e profissional — sendo a missionária e a profissional as mais frequentes nos estudos analisados. |
6 | Pietri; Rodrigues; Sanchez (2019) | Revista Brasileira de Educação, v. 24 | Compreender concepções de professores de língua portuguesa em formação inicial sobre ser docente. Estudo de casos múltiplos; entrevistas multimodais (árvore da vida, entrevista fotográfica, retomada de experiência). | A identidade docente se constrói de modo instável e situado, a partir do contraste entre memórias escolares prévias e experiências vividas no estágio, em processos de referenciação singulares para cada sujeito. |
7 | Mellini; Ovigli (2020) | Ensaio: Pesq. em Educ. em Ciências, v. 22 | Investigar percepções sobre identidade docente de professores de Biologia iniciantes. Entrevistas semiestruturadas; análise qualitativa. | A identificação com a docência varia conforme o momento da formação inicial; parte dos licenciandos só se reconhece como professor(a) após vivenciar o estágio supervisionado. |
8 | Obara; Broietti; Passos (2017) | Ciência & Educação (Bauru), v. 23, n. 4 | Caracterizar a contribuição do PIBID para a construção da identidade docente de egressos da licenciatura em Química. Entrevistas semiestruturadas; Análise Textual Discursiva; Focos da Aprendizagem Docente e Matriz 3x3. | Interesse pela Docência e Identidade Docente aparecem nas falas de todos os sujeitos; maior tempo de experiência profissional associa-se a maior Reflexão sobre a Docência. |
9 | Oliveira, H. F. (2017) | Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 56, n. 3 | Investigar as “bagagens” deixadas pelo PIBID (Letras/Português) na formação inicial e na construção da identidade profissional. Estudo de caso qualitativo-interpretativista; histórias de vida, entrevista semiestruturada, reflexão colaborativa. | O PIBID contribui para a construção identitária por meio da reflexão coletiva sistemática e da vivência antecipada da prática docente na escola. |
10 | Assai; Broietti; Arruda (2018) | Educação em Revista, v. 34 | Mapear a produção nacional sobre estágio supervisionado na formação inicial na área de Ensino de Ciências (2001–2018). Estado da arte; 87 artigos em 56 periódicos; Análise de Conteúdo (Bardin). | Identificaram-se 8 categorias temáticas, entre elas “evidências da constituição da identidade docente”; o estágio é espaço central, porém ainda carente de teorização sistemática. |
11 | Teixeira; Cyrino (2015) | Bolema, v. 29, n. 52 | Compreender o papel da Orientação de Estágio no desenvolvimento da identidade profissional de futuros professores de Matemática. Abordagem qualitativa; estudo de caso. | A orientação de estágio mobiliza elementos identitários específicos, evidenciando aprendizagens sobre a docência por meio da regência supervisionada e do diálogo com o orientador. |
12 | Oliveira, Z. M. R. et al. (2006) | Cadernos de Pesquisa, v. 36, n. 129 | Compreender relações aprendizagem-identidade e teoria-prática em programa de formação docente em serviço (Educação Infantil). Análise de memoriais (TCC) sob a perspectiva teórico-metodológica da rede de significações. | A produção escrita reflexiva fortalece a identidade docente; observam-se mudanças discursivas que evidenciam apropriação de novos marcos conceituais da profissão (educar e cuidar, respeito à criança). |
Fonte: elaborado pelos autores (2026), com base nos dados extraídos da base SciELO.
Tabela 2. Distribuição dos estudos incluídos por periódico
Periódico | Nº de estudos |
Cadernos de Pesquisa | 2 |
Educação em Revista | 2 |
SciELO Preprints | 1 |
Educar em Revista | 1 |
Educação e Pesquisa | 1 |
Revista Brasileira de Educação | 1 |
Ensaio: Pesq. em Educ. em Ciências | 1 |
Ciência & Educação (Bauru) | 1 |
Trabalhos em Linguística Aplicada | 1 |
Bolema | 1 |
Fonte: elaborado pelos autores (2026).
3.2. Eixos Temáticos Identificados
A partir da leitura analítica dos 12 estudos, foram identificados cinco eixos temáticos que organizam a discussão a seguir: (i) estágio supervisionado e PIBID como espaços privilegiados de constituição identitária (n = 5 estudos); (ii) narrativas, discurso e produção escrita na formação da identidade docente (n = 3 estudos); (iii) identidade docente em áreas específicas do conhecimento — Biologia, Matemática, Química (n = 3 estudos, com sobreposição ao eixo i); (iv) saberes da práxis, rupturas formativas e a relação universidade-escola (n = 1 estudo); e (v) panorama teórico-metodológico do campo, a partir de revisões de literatura (n = 2 estudos). Alguns estudos dialogam com mais de um eixo simultaneamente, o que reforça a natureza interdisciplinar do campo.
4. DISCUSSÃO
4.1. Estágio Supervisionado e PIBID Como Espaços Privilegiados de Constituição Identitária
O eixo mais numeroso entre os estudos incluídos confirma o estágio curricular supervisionado e o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) como os principais espaços institucionais de mediação entre a condição de estudante e a de professor. No mapeamento realizado por Assai, Broietti e Arruda (2018) sobre 87 artigos da área de Ensino de Ciências, uma das oito categorias temáticas identificadas foi justamente “evidências da constituição da identidade docente”, o que os autores interpretam como indício de que o estágio, embora reconhecido como eixo central da formação inicial, ainda carece de teorização mais sistemática sobre seus efeitos identitários. Em sentido complementar, a revisão integrativa de Macêdo e Romanowski (2025), ao reanalisar 65 artigos nacionais e internacionais, situa a prática — e, dentro dela, o estágio supervisionado — como elemento fundante da formação inicial, ao lado da relação teoria-prática, da aprendizagem da docência e da prática reflexiva.
Quanto ao PIBID, os estudos de Obara, Broietti e Passos (2017) e de Oliveira (2017), voltados respectivamente às licenciaturas em Química e em Letras/Português, convergem ao demonstrar que o Programa favorece a construção identitária por meio da reflexão coletiva e sistemática sobre a prática, antecipando aos licenciandos experiências de sala de aula que, de outro modo, só ocorreriam no exercício profissional pleno. No estudo com egressos da Química, Interesse pela Docência e Identidade Docente apareceram nas falas de todos os sujeitos entrevistados, sendo que os participantes com maior tempo de experiência profissional expressaram também maior capacidade de Reflexão sobre a Docência (OBARA; BROIETTI; PASSOS, 2017). De modo análogo, no campo da Matemática, Teixeira e Cyrino (2015) evidenciam que a Orientação de Estágio — o acompanhamento sistemático do licenciando pelo professor orientador durante a regência — mobiliza elementos identitários específicos, distintos daqueles mobilizados pela simples observação da sala de aula.
4.2. Narrativas, Discurso e Produção Escrita na Formação da Identidade Docente
Um segundo eixo relevante reúne estudos que tomam a linguagem — narrativas, produção escrita, discurso — como via de acesso privilegiada aos processos de constituição identitária dos professores em formação. Pietri, Rodrigues e Sanchez (2019), ao analisarem entrevistas multimodais com licenciandos em Letras participantes de um programa de formação docente, demonstram que a identidade se constrói de modo instável e situado, a partir do contraste entre as representações de escola e de professor trazidas da trajetória escolar prévia dos sujeitos e as experiências efetivamente vividas no contexto de estágio; dois participantes contrastantes desenvolveram processos de referenciação distintos — um mais ancorado em memórias afetivas, outro em uma perspectiva racional-institucional —, evidenciando a singularidade constitutiva de cada trajetória formativa.
Na mesma direção, Guedes-Pinto e Kleiman (2021), a partir de uma abordagem bakhtiniana dos estudos do letramento, analisam relatórios de estágio de licenciandos e sustentam que a identidade profissional não é totalmente determinada nem completamente livre de restrições sócio-históricas, mas construída, na interação institucional, por meio de negociações contínuas entre o dizer de si e o dizer do outro — professores supervisores, colegas, alunos da educação básica. Já o estudo pioneiro de Oliveira e colaboradores (2006), realizado com educadoras de creche em formação inicial em serviço, mostra como a produção escrita reflexiva (memoriais e trabalhos de conclusão de curso) fortalece a identidade docente, evidenciando, nos textos das participantes, a apropriação progressiva de novos marcos conceituais da profissão, como as noções de “educar e cuidar” e de “respeito à criança”.
4.3. Identidade Docente em Áreas Específicas do Conhecimento
Um terceiro eixo reúne estudos que investigam a construção da identidade docente no interior de licenciaturas disciplinares específicas, evidenciando como as culturas de cada área do conhecimento moldam de modo particular esse processo. No campo da Biologia, Mellini e Ovigli (2020) constatam que a identificação com a docência varia conforme o momento da formação: parte significativa dos licenciandos entrevistados só passou a se reconhecer como professor(a) depois de vivenciar o estágio supervisionado, chegando a alguns casos em que o sujeito relata buscar, durante boa parte do curso, uma atuação mais próxima da pesquisa em Ciências Biológicas do que da docência propriamente dita.
No campo da Química, o já mencionado estudo de Obara, Broietti e Passos (2017) evidencia a articulação entre o PIBID e a construção identitária; e, no campo da Matemática, Teixeira e Cyrino (2015) reforçam a centralidade da orientação de estágio nesse processo. Em conjunto, esses estudos sugerem que, embora existam elementos comuns ao processo de construção identitária docente independentemente da área de formação — como a centralidade do estágio e a importância da reflexão coletiva —, cada licenciatura disciplinar configura desafios e mediações específicas, relacionadas ao status social e epistemológico de cada campo do conhecimento (por exemplo, a tensão entre licenciatura e bacharelado, mais evidente nas Ciências Biológicas).
4.4. Saberes da Práxis, Rupturas Formativas e a Relação Universidade-Escola
Um quarto eixo, mais recente na produção analisada, direciona o olhar para os episódios de ruptura vividos na formação inicial como catalisadores do desenvolvimento identitário. No estudo de Teixeira Andrade e Garcia Campos Duarte (2025), fundamentado na Etnografia Interacional e realizado com licenciandos de História, esses episódios são conceituados como turning points: momentos que desestabilizam expectativas, normas e modos habituais de agir, produzindo deslocamentos interpretativos e aprendizagens profissionais. Os resultados indicam que o desenvolvimento profissional se intensifica quando os licenciandos passam a reconhecer os estudantes da educação básica como sujeitos do processo formativo — e não apenas como destinatários passivos do ensino —, ativando mediação, escuta atenta e tomada de decisão em situações reais de sala de aula.
Esse estudo aponta ainda que os turning points configuram um espaço de formação compartilhada, no qual a articulação entre universidade e escola — e a interação entre licenciandos, professores da educação básica e docentes universitários — favorece a construção de identidades docentes crítico-reflexivas (TEIXEIRA ANDRADE; GARCIA CAMPOS DUARTE, 2025). Esse achado dialoga diretamente com os eixos anteriores, ao sugerir que não é a mera exposição à prática escolar, mas sim a reflexão coletiva e sistemática sobre episódios significativos dessa prática, que efetivamente potencializa o desenvolvimento identitário docente.
4.5. Panorama Teórico-Metodológico do Campo
Um quinto eixo reúne revisões de literatura que permitem situar os achados anteriores em um panorama teórico-metodológico mais amplo. A metassíntese de cinco revisões internacionais realizada por Meyer, Losano e Fiorentini (2022) evidencia que o campo da identidade profissional docente é caracterizado por múltiplas perspectivas e conceitualizações — sociológica, cultural, psicológica/psicanalítica, narrativa e discursiva —, sem que se tenha alcançado consenso conceitual consolidado, o que ajuda a explicar a diversidade de referenciais teóricos mobilizados pelos estudos empíricos analisados nesta revisão (Dubar, Pimenta, Tardif, Bakhtin, entre outros).
Já a revisão sistemática de Almeida, Penso e Freitas (2019), ao analisar 52 artigos publicados entre 2006 e 2018, propõe uma tipologia de quatro categorias de identidade docente — missionária, instrumental, proletária e profissional —, identificando a identidade missionária e a identidade profissional como as mais frequentes na produção nacional analisada. Tomados em conjunto, esses dois estudos de revisão sugerem que o campo, apesar de sua vitalidade e de seu crescimento contínuo desde meados dos anos 2000, ainda carece de maior diálogo teórico-metodológico entre as diferentes tradições de pesquisa, o que representa tanto um desafio quanto uma oportunidade para investigações futuras sobre a formação inicial de professores.
Em síntese, a leitura transversal dos cinco eixos evidencia que o desenvolvimento da identidade docente durante a formação inicial não decorre de um único fator isolado, mas da convergência entre espaços institucionais estruturados (estágio, PIBID), processos discursivo-narrativos de elaboração de sentido sobre a experiência vivida, as especificidades de cada área disciplinar de formação, a capacidade reflexiva mobilizada diante de episódios de ruptura, e os referenciais teóricos — ainda plurais e não consensuais — que orientam a pesquisa e a prática formativa nesse campo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa, ao sistematizar 12 estudos publicados entre 2006 e 2025 na base SciELO, permite concluir que o desenvolvimento da identidade docente durante a formação inicial de professores é um processo relacional, situado e inacabado, que se constrói na tensão entre experiências escolares prévias, referenciais teóricos da formação e as primeiras vivências da prática profissional. Os achados indicam que esse processo se manifesta de forma recorrente em cinco frentes: nos espaços institucionais do estágio supervisionado e do PIBID, reconhecidos como território central, porém ainda carente de teorização sistemática sobre seus efeitos identitários; nas narrativas e na produção escrita dos licenciandos, via privilegiada de acesso e de elaboração dos sentidos atribuídos à docência; nas especificidades de cada área disciplinar de formação, que configuram desafios identitários próprios; nos episódios de ruptura (turning points) vividos na prática, capazes de intensificar o desenvolvimento profissional quando tematizados coletivamente; e na própria diversidade teórico-metodológica que ainda caracteriza o campo de pesquisa sobre identidade docente.
Conclui-se que a consolidação de espaços formativos dialógicos, reflexivos e efetivamente articulados entre universidade e escola — e não a mera exposição do licenciando à prática escolar — constitui condição necessária para o fortalecimento de identidades docentes críticas e reflexivas já na formação inicial. Como limitações deste estudo, destacam-se a restrição da busca à base SciELO e ao idioma português, bem como a ausência de avaliação formal da qualidade metodológica dos estudos incluídos, aspectos que podem ser explorados em revisões futuras. Recomenda-se, para pesquisas subsequentes, a ampliação da busca a outras bases indexadoras, a realização de estudos longitudinais que acompanhem a trajetória identitária do licenciando ao ingresso na carreira docente, e o aprofundamento do diálogo entre as diferentes tradições teóricas (sociológica, narrativa, discursiva) que hoje coexistem, de forma pouco articulada, no campo de pesquisa sobre identidade docente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, Sandra Raquel de; PENSO, Maria Aparecida; FREITAS, Leda Gonçalves de. Identidade docente com foco no cenário de pesquisa: uma revisão sistemática. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 35, e204516, 2019. DOI: 10.1590/0102-4698204516.
ASSAI, Natany Dayani de Souza; BROIETTI, Fabiele Cristiane Dias; ARRUDA, Sergio de Mello. O estágio supervisionado na formação inicial de professores: estado da arte das pesquisas nacionais da área de ensino de Ciências. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 34, e203517, 2018. DOI: 10.1590/0102-4698203517.
GUEDES-PINTO, Ana Lúcia; KLEIMAN, Angela B. O dizer do outro na constituição identitária de professores em formação. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 51, e07039, 2021. DOI: 10.1590/198053147039.
MACÊDO, Marilene; ROMANOWSKI, Joana Paulin. A prática no processo de formação inicial de professores: uma revisão integrativa. Educar em Revista, Curitiba, v. 41, e91579, 2025.
MELLINI, Camila Kammers; OVIGLI, Daniel Fernando Bovolenta. Identidade docente: percepções de professores de Biologia iniciantes. Ensaio: Pesquisa em Educação em Ciências, Belo Horizonte, v. 22, e16364, 2020. DOI: 10.1590/1983-21172020210117.
MEYER, Cristina; LOSANO, Leticia; FIORENTINI, Dario. Modos de conceituar e investigar a identidade profissional docente nas revisões de literatura. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 48, e246037, 2022. DOI: 10.1590/S1678-4634202248246037.
OBARA, Cássia Emi; BROIETTI, Fabiele Cristiane Dias; PASSOS, Marinez Meneghello. Contribuições do PIBID para a construção da identidade docente do professor de Química. Ciência & Educação, Bauru, v. 23, n. 4, p. 979-994, 2017. DOI: 10.1590/1516-731320170040003.
OLIVEIRA, H. F. A bagagem do PIBID para a formação inicial docente e para a construção da identidade profissional. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, v. 56, n. 3, p. 913-934, 2017.
OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de; SILVA, Ana Paula Soares; CARDOSO, Fernanda Moreno; AUGUSTO, Silvana de Oliveira. Construção da identidade docente: relatos de educadores de educação infantil. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. 129, p. 547-571, 2006.
PAGE, Matthew J. et al. The PRISMA 2020 statement: an updated guideline for reporting systematic reviews. BMJ, London, v. 372, n. 71, 2021.
PIETRI, Émerson de; RODRIGUES, Lívia de Araújo Donnini; SANCHEZ, Hugo Santiago. A construção da identidade profissional de professores de língua portuguesa em formação inicial. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 24, e240062, 2019. DOI: 10.1590/s1413-24782019240062.
TEIXEIRA ANDRADE, Luísa; GARCIA CAMPOS DUARTE, Renata. Turning points na formação docente: saberes da práxis e da profissão entre universidade e escola. SciELO Preprints, 2025. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.14505.
TEIXEIRA, Bruno Rodrigo; CYRINO, Márcia Cristina de Costa Trindade. Desenvolvimento da identidade profissional de futuros professores de Matemática no âmbito da orientação de estágio. Bolema, Rio Claro, v. 29, n. 52, p. 658-680, 2015. DOI: 10.1590/1980-4415v29n52a12.
WHITTEMORE, Robin; KNAFL, Kathleen. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, Oxford, v. 52, n. 5, p. 546-553, 2005.
1 Mestre em Educação Profissional e Tecnológica. Instituto Federal de Roraima – IFRR. Boa Vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-7349-237X
2 Especialista em Educação Inclusiva. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN. Quixeré/Ceará/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-4363-2927
3 Mestrando em Agroecologia, Ambiente, Sociedade e Amazônia (PPGAASA). Universidade Estadual de Roraima-UERR. Boa vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-1483-5438
4 Pós-graduada em Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade Iguaçu. Boa Vista/Roraima/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
5 Mestre em Alimentos e Saúde. Universidade Federal de Minas Gerais– UFMG/Universidade estadual de Montes Claros/UNIMONTES. Montes Claros/Minas Gerais/Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-3866-392X