FESTAS DE AGOSTO: A RIQUEZA CULTURAL E RELIGIOSA DA CIDADE DE MONTES CLAROS/MG


REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10389254


Amélia, Viviannie de Aquino Cardoso1
Aquino, Vilma Conceição de2
Carvalho, Claudia Regina de3
Costa, Rita de Cássia Barbosa4
Fonseca, Solange Alencar5
Lima, Francisca de Fátima6


RESUMO
O presente artigo tem como objeto de estudo as Festas de Agosto como riqueza cultural e religiosa da cidade de Montes Claros/MG, cujo objetivo é evidenciar a importância dessas para a cultura, religiosidade e economia da cidade. O mesmo foi construído primeiramente a partir de pesquisa bibliográfica sobre as bases históricas, culturais e religiosas das tradicionais Festas de Agosto na cidade de Montes Claros/MG, e por seguinte, foi realizada uma pesquisa de campo mediante a coleta de depoimentos de alguns cidadãos de renome na cidade, e através deste compreender a evidência da suma importância das Festas de Agosto para a região de Montes Claros/MG. Com esta pesquisa, pôde-se, portanto enfatizar a necessidade do conhecimento e da valorização da cultura e tradição que as Festas de Agosto proporcionam para cidade de Montes Claros/MG, tanto culturalmente, religiosamente e economicamente, pois elas resistem ao tempo e a modernidade, é percebida, entretanto que a riqueza cultural da cidade de Montes Claros/MG fortalece cada vez mais a identidade do seu povo e da sua gente, o que faz com que Montes Claros se destaque no contexto brasileiro.
Palavras-chave: Cultura. Economia. Festas de Agosto. Religiosidade. Tradição.

ABSTRACT
The present article has as object of study the Festas de Agosto as cultural and religious wealth of the city of Montes Claros/MG, whose objective is to highlight the importance of these for the culture, religiosity and economy of the city. The same was built first from a bibliographical research on the historical, cultural and religious bases of the traditional Festas de Agosto in the city of Montes Claros/MG, and then, a field research was carried out through the collection of testimonies of some citizens of renowned in the city, and through this to understand the evidence of the paramount importance of the Festas de Agosto for the region of Montes Claros/MG. With this research, it was possible, therefore, to emphasize the need for knowledge and appreciation of the culture and tradition that the Festas de Agosto provide for the city of Montes Claros/MG, both culturally, religiously and economically, as they resist time and modernity. , it is perceived, however, that the cultural wealth of the city of Montes Claros/MG increasingly strengthens the identity of its people and its people, which makes Montes Claros stand out in the Brazilian context.
Keywords: Culture. Economy. August festivities. Religiosity. Tradition.

INTRODUÇÃO

As manifestações culturais e religiosas que se desencadeiam nas tradicionais e populares Festas de Agosto na cidade de Montes Claros em Minas Gerais, são festas que acontecem há quase duzentos anos, pode ser dita como uma expressão do catolicismo popular com o resgate das matrizes africana, portuguesa e indígena, uma tradição religiosa sincrética e duradoura. Pode-se enfatizar que a Festa de Agosto, tornou-se a nítida imagem da cidade de Montes Claros, pois, evidencia a devoção do seu povo por esta forte tradição religiosa que se tornou sociocultural, onde os espaços de festa possuem grande relevância cultural, religiosa e econômica para a sociedade.

As festas de Agosto são manifestações religiosas, pois, são ligadas aos cultos religiosos católicos, que se caracterizam pela homenagem da consagração da Nossa Senhora do Rosário, a São Benedito e ao Divino Espírito Santo fundamentado numa tradição mesclada de elementos africanos, que podem ser notados no sincretismo das memórias negras e o imaginário dos Reis do Congado, Chico Rei, Zumbi e dos Santos Negros na contemporaneidade, simbolizados pelos grupos de Congado em Montes Claros, os catopês, marujos e caboclinhos.

Também são manifestações culturais, com suas danças, cores e sons, o que pode ser evidenciado na expressão do sincretismo religioso entre o catolicismo mediante aos seus rituais: a devoção da comunidade com novenas, leilões, barraquinhas, procissões e levantamento do mastro, uma manifestação de fé através dos símbolos que permitem a manifestação religiosa com a aproximação experimental da fé com o Divino e as raízes africanas, como os catopês, com suas danças, vestimentas brancas, com fitas coloridas representando sua liberdade, os luso-espanhóis, nas marujadas, com suas cores brancas ou vermelhas e azuis e por fim os Caboclinhos representando o índio brasileiro, sendo a sua caracterização com penas e/ou blusa vermelha.

Este presente trabalho visa evidenciar a importância das Festas de Agosto para a cultura e religiosidade da cidade de Montes Claros em Minas Gerais, visando à tentativa de compreensão do simbolismo das festas de Agosto, demonstrando e analisando a importância dessas para a cultura, economia e religiosidade da cidade e para tanto foi realizada um estudo descritivo-exploratório com o levantamento de informações sobre simbolismo religioso, as bases históricas das festas de agosto e sua importância para a cultura, economia e religiosidade da cidade norte mineira, mediante buscas científicas e pesquisa de campo.

Desenvolvimento científico

A cidade de Montes Claros em Minas Gerais fica localizada na região norte deste, e foi criada a partir de uma fazenda do então proprietário Antônio Gonçalves Figueira, fazenda esta próxima ao Rio Verde Grande, foi elevada a condição de vila em 1831, e passou a ser chamada de "Vila de Montes Claros de Formigas”. Em 1857, pela Lei 802 de 03 julho de 1857, a Vila passou a cidade - Cidade de Montes Claros, uma região que tem como suas principais atividades econômicas a indústria e o comércio, cidade repleta de riquezas, com uma diversidade cultural e de gigante beleza, cidade que tem como sua principal riqueza cultural e religiosa, as Festas de Agosto.

A manifestação religiosa das tradicionais Festas de Agosto é uma expressão cultural com representatividade nas raízes advindas do Europeu, Africano e do nativo brasileiro, uma tradição que perlonga a pelo menos dois séculos. Um sincretismo harmonioso entre religiões, tradições e gostos, como afirma Ferretti (1995. P. 01):

O sincretismo pode ser visto como característica do fenômeno religioso. Isto não implica em desmerecer nenhuma religião, mas em constatar que, como os demais elementos de uma cultura, a religião constitui uma síntese integradora englobando conteúdos de diversas origens. Tal fato não diminui, mas engrandece o domínio da religião, como ponto de encontro e de convergência entre tradições distintas.

Tradição nada mais é que do que a transmissão de geração em geração de sua cultura (costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas). Termo derivado do latim que tradito “entrega de algo”. Trata-se de uma herança simbólica e dinâmica que perdura quanto ao tempo. A tradição desenvolve-se em doutrinas, ritos, costumes, normas e narrativas, sendo um constitutivo do que em geral se chama de cultura, afirma Eicher (1993, p. 960). É a valorização cultural e simbólica do passado, a ser transmitida de geração em geração com o intuito de preservação da sabedoria ancestral, assim como afirma Pieper (2008. p. 59), que a participação à tradição pode ser maior ou menor, mas é sempre a participação a uma mesma realidade, que permanece idêntica através dos tempos.

A cultura popular trata-se de uma interação entre os saberes e a linguagem popular de uma determinada região, de acordo com Chartier (1995, p.179), [...] “concebe a cultura popular como um sistema simbólico coerente e autônomo, que funciona segundo uma lógica absolutamente alheia e irredutível à da cultura letrada” [...].

Na cidade de Montes Claros/MG, pode-se dizer que as Festas de Agosto é uma cultura popular que enriquece a região, pois, baseia-se na premissa das manifestações culturais e religiosas que essa festa proporciona, com suas comidas típicas, cores, danças e musicalidade, como foco primordial o “Congado”, que é a mais forte e importante expressão da cultura popular em Montes Claros/MG.

Figura 1.0: Festas de Agosto

SANTOS, Vinícius. Rede gazeta de comunicação. 15 jul 2022. Festas de agosto. Disponível em: https://gazetanm.com.br/festas-de-agosto-divulgadas-as-datas-da-maior-manifestacao-cultural-do-nm/. Acesso: 15 jul 2022. Adaptado.

O “Congado”, também chamado de “Congada” ou “Congo”, trata-se de uma manifestação, uma expressão cultural-religiosa, híbrida, pois envolve comidas típicas, cores, danças e musicalidade, e espiritualidades cristã e de matriz africana. Enfatiza Martins (1997, p. 31), que o Congado trata-se de cerimônias do Reisado de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, nas quais os santos católicos são festejados africanamente.

De acordo com Côrtes (2000, p. 90), a origem do Congado no Brasil se liga ao período colonial, em que a Igreja e os portugueses incentivavam rituais de coroações dos reis do Congo, nas homenagens à padroeira ou a Nossa Senhora do Rosário, para controlar os escravos e manter a ordem. E para Brasileiro (2001, p. 17):

O “Congado é um culto aos ancestrais de hierarquia superior, realizado por nações diversas, possuidoras de antepassados comuns e que através das danças, de percussões africanizadas, de cantorias antes venerativas somente ao Rei Congo e depois cristianizada por influências jesuíticas, mimetizou-se ou paralelizou-se dentro da fé brasileira”.

A cidade de Montes Claros em Minas Gerais é uma região com ampla diversidade cultural, e suas manifestações culturais e religiosas são os pilares de seus costumes e de suas tradições, festejos que envolvem rituais, e nele mesmos, a fé, devoção e musicalidade, que pode ser encontrada nas Festas de Agosto, uma máxima expressão de simbolismo cultural e religioso.

No contexto cultural e religioso da cidade de Montes Claros/MG, tem-se anualmente, na segunda quinzena do mês de agosto, pelas ruas do centro da cidade, festividades que acontecem há quase duzentos anos, precisamente, no ano de 2022, 183 anos de tradição, com comemorações e manifestações culturais durante cinco dias, com rituais culturais e religiosos (missas, bênçãos e louvores a Nossa Senhora do Rosário, ao São Benedito e ao Divino Espírito Santo que representam a devoção aos santos negros), danças, músicas, comidas típicas e levantamento dos mastros, acompanhadas das festividades dos grupos tradicionais de Catopês, das Marujadas e Caboclinhos, além dos cortejos, com jovens da comunidade caracterizados como príncipes e princesas, que carreiam batalhões de cidadãos devotos dos santos, outros prestigiando a cultura local, com suas danças, músicas, cores e fitas nas ruas centrais da cidade.

Na cidade de Montes Claros em Minas Gerais, de acordo com Paula (1979, p. 138), o registro mais ancestral da realização das festividades se deu desde 1839, onde consta que um cidadão o “Marcelino Alves”, pediu licença para tirar esmolas para as festas de Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo, com o intuito de concretização de uma festa para a freguesia.

As comumente chamadas “Festas de Agosto” constituem uma importante celebração popular, de caráter religioso, resultante da junção da tríade festeira: "Festa do Rosário", em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, a "Marujada", em homenagem a São Benedito, e a "Festa do Divino", em homenagem ao Divino Espírito Santo em singular celebração. Trata-se de um símbolo vivo de resistência cultural e religiosa da cidade de Montes Claros com fortes raízes em suas tradições de origem.

Expressando a matriz africana, originado pelo Congado, como raiz forte e resistente, a tríade festeira teve seu início, datada pela Câmara Municipal de Montes Claros/MG, de acordo com Paula (2007.p. 611), em 23 de maio de 1829, porém de acordo com Miceli (1988), as comemorações só foram oficializadas em 14 de agosto de 1884, mediante autorização dada pela Igreja Católica para a realização de festas em devoção aos santos negros.

As Festas de Agosto são manifestações folclóricas mais antigas e ricas da cidade de Montes Claros, e as principais celebridades são os catopés, marujos e caboclinhos, que mediante as suas danças, musicalidade, cores, cocas e fitas, resgatam a cultura da região. São comemorações que por meio de seus símbolos religiosos permitem a manifestação de fé da sociedade, fortalecendo a maior e eficaz aproximação experimental destes com o dito Divino, alinhando o sentido ao Sagrado, a Vida e ao Ritual/Culto.

Nas manifestações folclóricas montesclarenses, a prática conhecida e já tida do Congado, tem seus grupos tradicionais que cantam, dançam e louvam suas divindades, protagonizando seus rituais mediante a simbologia de cada grupo. Tradicionalmente, as comemorações se iniciam na “Praça do Automóvel Clube”, situada na Praça Dr. João Alves, 70 - Centro, percorrendo as ruas do Centro da cidade, em direção à Igrejinha do Rosário, que se localiza na Av. Afonso Pena, 37 – Centro. A maior concentração dos expectadores se dá na Praça da Matriz, na Rua Justino Câmara – Centro, onde se instala as barraquinhas com comidas típicas da região, artesanato, músicas e danças.

Os grupos que representam o Congado montesclarense performam-se nas ruas centrais, com seus rituais coloridos e musicais. Congado este representado pelos catopés, marujos e caboclinhos. São ao menos 300 representantes, divididos em seis grupos, sendo três de catopés (dois dedicados a Nossa Senhora do Rosário e outro devoto de São Benedito), dois de marujos e outro de caboclinhos.

Os Catopês ou também conhecidos como “Dançantes”, são a representação da cultura africana, simbolizando os “Zumbis”, como afirma Costa (2006, p. 40), que atualmente, há em Montes Claros três “ternos” de Catopés, os quais preservam as influências da cultura africana, no que tange à sua coreografia, suas músicas e seus rituais. De acordo com Queiroz (2005 p. 30-49):

“Os catopês são grupos que preservam de forma mais sólida as influências do Congado nas apresentações. Porém, usam elementos que representam a tradição africana adicionada a referências luso-espanholas cristãs, com vestimentas brancas, capacetes adornados com longas fitas coloridas, penas de pavão, miçangas e espelhos, imagens de santos, terços envoltos nos braços ou nas mãos e saem pelas ruas cantando e rezando à Nossa Senhora do Rosário ao ritmo de tambores, batuques e rabecas”.

Estes utilizam vestimenta simples na cor clara ou branca, nem sempre estão calçados, enfeitada com muitas cores, principalmente rosa e azul, sendo as fitas coloridas que pendem da sua coroa/capacete repleta de penas, espelhos e lantejoulas, diferenciando a do chefe que tem um “penacho” que lhe dá distinção especial e são geralmente agrupados com 20 integrantes homens (crianças e adultos), ao ritmo de tambores, pandeiros e flautas de bambu, formando um cortejo com o rei, a rainha membros das famílias dos festeiros, o povo da cidade e a banda de música, rumo à igreja de Nossa Senhora do Rosário. Como afirma PAULA (1979, p. 139), que os Catopês apresentam-se em duas colunas e têm obrigação de organizar e acompanhar o “reinado” – reminiscência das festas de Chico Rei em Ouro Preto.

Figura 2.0: Festas dos catopês.

Fonte: Por: Jornal Montes Claros - 14 de agosto de 2019. Disponível em http://alexjuniorferreira.blogspot.com/2018/08/montes-claros-e-os-catopes.html. Acesso: 14 jul 2022. Adaptado.

Os Marujos, chamados de “Marujada”, manifestam as tradições luso-espanholas, com vestimentas de cetim azul (representando os cristãos) e vermelho (representando os mouros), contracenam as lutas entre mouros e cristãos, os feitos náuticos mais conceituados dos cristãos que resultaram na vitória do catolicismo sobre os muçulmanos. Em duas filas, iniciam seus rituais cantando músicas suaves e tocando instrumentos harmônicos de percussão e corda, o violão, cavaquinho, pandeiro e viola o que remete às ações dos marinheiros portugueses e ao catolicismo.

A marujada possui os seguintes personagens: o patrão, o contramestre, o piloto e o calafatinho (um menino de 10-12 anos, vestido de cetim azul enfeitado), os porta-bandeiras abrem passagem para o grupo com sua coreografia, enquanto o capitão (mestre) vem à frente dos demais integrantes, conduzindo com sua espada, e no auge da manifestação religiosa, vão fazendo orações cantadas pedindo proteção divina, purificação dos pecados da cidade, intercessão dos santos das festas e agradecendo pelas graças recebidas.

Figura 3.0: Festas da Marujada.

Fonte: Radio Educadora News. A mais linda festa dos últimos anos. 17/08/2018. Disponível em https://educadoraam670.minhawebradio.net/noticia/361964/a-mais-linda-festa-dos-ultimos-anos-festas-de-agosto-coloriram-a-cidade-e-encantaram-a-populacao. Acesso: 14 jul 2022. Adaptado.

Por fim, têm-se os Caboclinhos, a “Caboclada”, simbolizando a cultura indígena com suas vestimentas na cor vermelha, tangas, enfeites, cocares de pena de aves na cabeça e andam com arco e flecha, os quais compassam no ritmo da dança indígena, a qual remete a caçada, a colheita, as batalhas e as vitórias do seu povo e suas preces são direcionadas aos três santos devocionais da festa pedindo perdão pela destruição da natureza e proteção aos animais e a todo ecossistema brasileiro.

Figura 4.0: Festas da Caboclada

CABOCLINHOS_ARTIGO.jpg
Fonte: Recursos próprios: Fonte: WEB@TERRA. Catopés e caboclinhos em Montes Claros de Montes Claros vencem prêmio do Ministério da Cultura. 29/10/2018. Disponível em: https://webterra.com.br/2018/10/29/catopes-e-caboclinhos-de-montes-claros-vencem-premio-do-ministerio-da- cultura/. Acesso: 14 jul 2022.

Grupo formado por 45 integrantes: o Caciquinho, uma figura infantil (simbolizando a fofoca/fuxico, aquele que tudo observa e tudo transmite), seis figuras adultas (a Cacicona, um homem trajado com vestes femininas, que apesar de ser o chefe dos pequenos Caciquinhos, não fala diretamente com eles; O Cacicão: o cacique do grupo; A Mamãe-vovó, que é um homem vestido com roupa feminina e O Papai-vovô cujos observam se os Caboclinhos estão dançando com passos coordenados e atentos e harmônicos e cantando com entusiasmo: O Pantalão: homem desmazelado, mal vestido; O Capitão Campó: representa o índio flecheiro; Seis violeiros, que tocam as canções de origem indígenas; Duas porta-bandeiras, com vestes vermelhas, enfeite berrante conduzem as bandeiras vermelhas entremeadas com muito dourado levadas pelos Caboclinhos cujas homenageiam o Divino Espírito Santo.

E finalmente os Caboclinhos, que são crianças entre sete a dez anos de idade, em dez a quinze pares, com vestimentas que traduzem a origem indígena, as saias vermelhas, enfeites de plumas, cocâs, arcos e flechas que dançam e cantam representando os filhos dos Caboclos. De acordo com PAULA (1979, p. 167-169), durante a apresentação, uma criança canta (Caciquinho) e as outras (Caboclinhos) respondem às canções.

As Danças entoadas pelas canções indígenas vão das mais simples até as mais complexas cuja de acordo com PAULA (1979, p. 169-170) temos a TRANÇA DO CIPÓ, uma dança onde cada participante utiliza o cipó de um metro de comprimento e esta dança possui quatro atos independentes que são:

  • A Arapuca, onde os caboclinhos formam um círculo e de dois a dois seguram as extremidades dos cipós alheios e dançam ao comando da Caciquona, formando uma arapuca no final o qual prende o caboclinho;

  • O Quejeme, a casa/rancho, um corredor formado após a arapuca, cujos lados compõem-se pelos Caboclinhos e o teto pela “Trança do cipó”;

  • O Tango, onde os Caboclinhos batem palmas, tocam seus instrumentos musicais e dançam, cantando poesias populares;

  • E o Banguê, onde com os cipós trançados como se fosse uma maca na posição horizontal e aproximadamente meio metro do chão, em forma de cruz, o Caciquinho se deita e é carregado pelos Caboclinhos que dançam a brejeira do tango.

E a DANÇA DO MASTRO, esta que, um dos dez caboclinhos por vez, cada qual com uma fita de cada cor, ao redor de um mastro de três metros de altura, feito de madeira leve enfeitada com tinta e papel de seda coloridos, onde sai de sua extremidade superior uma fita de cada cor, esses, em um mesmo sentido, dançam, cantam, trançando-as até cobrir todo o mastro; então, invertem o sentido dos movimentos da dança e desmancham toda a trança formada.

Conforme afirma Eicher (1993), que a tradição da “Festa de Agosto” possui ritos, costumes e segue uma narrativa mitológica na qual se originou. Anseia-se que o ponto mais deslumbrante das Festas de Agosto, é o levantamento do mastro, ritual que representa a conjunção da tríade em um monopólio Sagrado, em concórdia com COLARES (2006, p.44), que enfatiza que o levantamento de mastro é o ponto alto da festa, representando a ligação completa dos grupos de um só reinado sagrado.

Essas manifestações culturais e religiosas além de terem caráter tradicional regional para a valorização do patrimônio cultural da região norte mineira, possuem, como afirma Pottmeyer (1994), elementos que caracterizam o evento como cultural e social. Socialmente falando, um fator turístico econômico relevante, auxiliando na melhoria das condições de vida da população, representando também importante fonte de renda e ocupação direta e indireta para o município.

A cidade norte mineira recebe diversos simpatizantes cujos vem prestigiar as festas, girando a economia da cidade visto que os turistas necessitam de vinculação aos serviços de hospedagem, e alimentação, o comercio em geral, a rede hoteleira, os taxis, restaurantes e outras atividades têm uma movimentação significativa. Os comerciantes, por exemplo, tem-se nas suas típicas barracas enfeitadas nas ruas da Igreja da Matriz da cidade norte mineira, um cenário de grande movimento econômico.

Metodologia

Este estudo tem por finalidade o tema: As Festas de Agosto e trata-se de estudo observacional e descritivo-exploratório mediante a uma revisão sistemática dos conceitos referentes à tradição religiosa, ao simbolismo, as bases históricas, a cultura e a religiosidade relacionadas às mesmas.

No que tange a pesquisa: É um tipo de estudo que se baseia na premissa de que existe uma relação entre a cultura e a religiosidade nas Festas de Agosto e por isso exploratório, descritivo, pois, consegue agrupar aspectos de ambas as perspectivas e uma revisão sistemática, porque, para o referido estudo foram consultados livros, periódicos, artigos científicos.

E para tanto, esta pesquisa foi dividida em dois conceitos: Descritivo, com uma revisão literária, esta subdivida em três partes, onde foram analisados conceitos de diversos autores: Para tradição, cultura, simbolismo, religiosidade: Chartier, 1995; Cortês, 2000; Eicher, 1993; Ferretti 1995; Paula, 1979; Pieper, 2008; Para as bases históricas: Brasileiro, 2001; Côrtes, 2000; Martins, 1997; Miceli, 1988; Paula, 1979; Revista Catolicismo, 1994 e para os grupos folclóricos: Costa, 2006; Colares, 2006; Paula, 1979; Queiroz, 2005; Eicher 1993; Pottmeyer, 1994. E a parte Exploratória que consta com entrevistas com alguns cidadãos de renome na cidade de Montes Claros em Minas Gerais. Esta pesquisa foi submetida ao comitê de ética de número 61279822.7.0000.5146 da Plataforma Brasil, onde foi aprovado pelo número do Parecer: 5.580.799.

Análise e interpretação dos dados

Partindo do pressuposto da pesquisa literária, percebe-se que as manifestações culturais na região da cidade de Montes Claros em Minas Gerais são sinônimas de tradição e religiosidade para a região. É como afirma Eicher (1993, p. 960), que a cultura, é a tradição que se desenvolve em doutrinas, ritos, costumes, normas e narrativas.

As Festas de Agosto na cidade de Montes Claros em Minas Gerais, nada mais caracteriza como um sincretismo religioso cultural, pois, é uma expressão cultural com representatividade nas raízes advindas do Europeu, Africano e do nativo brasileiro, um sincretismo harmonioso entre religiões, tradições e gostos, como afirma Ferretti (1995. P. 01).

As Festas de Agosto possuem como foco, o Congado norte mineiro, com manifestações religiosas, pois, são ligadas aos cultos religiosos católicos, que se caracterizam pela homenagem da consagração da Nossa Senhora do Rosário, a São Benedito e ao Divino Espírito Santo com toque de expressões de origem africana, luso-espanhola e indígena, como ressalta Eicher (1993), que a tradição da “Festa de Agosto” possui ritos, costumes e segue uma narrativa mitológica.

Essas festas possuem caráter cultural e social como afirma Pottmeyer (1994), pois, resgatam a tradição regional e consequentemente, eleva economicamente a região, pois, gera fonte de renda e ocupação direta e indireta para o município, com a vinda de turistas, estes, necessitam de vinculação aos serviços de hospedagem, e alimentação, o comércio em geral, a rede hoteleira, os transportes, restaurantes e outras atividades tem uma movimentação significativa.

Os autores supracitados como fonte literária, reconhecem a importância dessas manifestações como objeto de identificação e manutenção da memória local. Um alto valor para a cultura norte mineira. Uma manifestação do catolicismo, com expressões sincréticas e simbólicas ritualísticas mediante a homenagem a um santo padroeiro ou da devoção da comunidade, novenas, leilões, barraquinhas, procissões e levantamento do mastro.

Manifestações culturais e religiosas, que ocorrem tradicionalmente a quase duzentos anos, de acordo com Paula (2007.p. 611) e que possuem como atores principais e suas expressões: Das raízes africanas, como os catopês, com suas danças, vestimentas brancas, com fitas coloridas representando sua liberdade, os luso-espanhóis, nas marujadas, com suas cores brancas ou vermelhas e azuis e por fim os Caboclinhos representando o índio brasileiro, sendo a sua caracterização com penas e/ou blusa vermelha.

A festa de agosto é uma riqueza cultural inigualável par a cidade de Montes Claros/MG, para a diretora de projetos e convênios da Secretaria Municipal de Cultura da cidade, a Junia Velloso Rebello, “As festas de agosto são manifestações religiosas ligadas ao congado. Em todos os seus rituais esta fé é demonstrada. Dedicada a três santos, os mastros, as bandeiras e as missas são um retrato de um povo que festeja os seus santos de devoção”, de acordo com ela, tem uma ligação diretamente com a festa:

“Tenho pessoalmente uma ligação de afetividade com as festas de agosto. As músicas, os tambores e todas as vestimentas dos brincantes, fazem parte das minhas memórias de infância. Conheço histórias, mestres, e rituais dessa manifestação e sei que hoje se tornam um ícone identidário de Montes Claros”.

Para ela “as festas de agosto são festas devocionais de caráter religioso. Mastros, bandeira, santos momeando os ternos e as músicas falam de fé e religiosidade. Os catopês, marujos e caboclinhos são acompanhados por pessoas que desejam pagar promessas e demonstrar suas devoções a Nossa Senhora, ao Divino Espírito Santo e a São Benedito. Existem relatos históricos, com mais de cem anos destas manifestações que unem cultura ao som dos tambores, aos cânticos, reinados, além de missas e procissões.

Uma manifestação cultural que está em sua 181ª edição no ano de 2022 e tem uma importância irrefutável à identidade de um povo e traz uma bagagem riquíssima na construção de sua unicidade.” A festa de agosto é o símbolo do resgate cultural da cidade norte mineira, como afirma o sucessor do memoriável “Mestre Zanza”, (o João Pimenta dos Santos, um dos líderes nas manifestações folclóricas das tradicionais Festas de Agosto e comandava o primeiro terno de Nossa Senhora do Rosário, falecido em 25 de outubro de 2021), o psicólogo e construtor Junior Pimenta Santos, “Mestre Zanza Júnior”, que:

“Primeiro uma festa de cunho ancestral, em segundo, um legado em minha família com a expressão marcante do meu pai Mestre Zanza. O povo com sua diversidade cultural, saberes e fazeres com sentimento de pertencimento a nossa história, nossa identidade”.

Ele associa a festa como grande e maior manifestação cultural da cidade:

“Para a cultura, é a maior e mais importante manifestação cultural e artística do norte de Minas Gerais e regiões adjacentes. A cultura popular representada nas “Festas de Agosto” traz consigo o povo, as pessoas, o rito, a fé e tradição e o ato de preservação dos saberes e fazeres para presente e futuras gerações. As culturas populares (catopês, marujos e caboclinhos), no caso da cidade de Montes Claros/MG, estão diretamente ligadas à religiosidade, a fé e a devoção, até mesmo por se tratar dos santos padroeiros dos festejos que são: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Divino Espírito Santo, seu sincretismo religioso, traz a matriz africana (congo) com a incorporação religiosa no Brasil”.

E também como um sincretismo religioso:

“Pode-se dizer que é um processo repleto de misturas culturais e étnicas, relação do Sagrado e o Profano, do ponto de vista eclético, contudo a devoção aos santos padroeiros aponta a religiosidade do povo que é latente nos cortejos e ritos como no levantamento dos mastros de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e do Divino Espírito Santo que simboliza o eixo do mundo, a ligação do céu na terra; Isto tipifica os festejos”.

Para a Maria Arleth Fagundes Fonseca, assistente na Secretaria Municipal de Cultura da cidade, a festa de agosto:

“Representa a maior riqueza de uma manifestação popular que une a fé e a religiosidade, arte, belezas naturais e gastronomia, uma tradição de muitos anos na história da cidade, tradição que não pode morrer. A fé, a troca de informações culturais e a história são a raiz dessa cidade de arte e cultura”.

Figura 7.0: Foto da família do saudoso Mestre Zanza: Da esquerda pra direita Sra. Cristina Aguiar (filha do mestre Zanza), Maria da Conceição (esposa do mestre Zanza), Mestre Zanza Júnior (filho do mestre Zanza) e Sônia Pimenta (filha do Mestre Zanza).