EXPERIÊNCIA DE VIDA E FORMAÇÃO NA PRÁXIS JORNALÍSTICO-LITERÁRIA DE ELIANE BRUM

LIFE EXPERIENCE AND FORMATION IN THE JOURNALISTIC-LITERARY PRAXIS OF ELIANE BRUM

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787099080

RESUMO
Esta pesquisa tece compreensões sobre a práxis jornalístico-literária com e a partir de apontamentos teóricos sobre Experiência, Formação, Memória, Narrativas de histórias de vida e Jornalismo literário. Para traçar o objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que é compreender como a experiência de vida e a formação do jornalista está imbricada em sua práxis, é utilizado o método etnossociológico das narrativas de histórias de vida, proposto por Bertaux (2010). Tal compreensão se dá através da análise da trajetória social da jornalista Eliane Brum, a qual é pensada a partir de três reportagens do livro O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real, de seu livro de memórias meus desacontecimentos: a história de minha vida com as palavras e de entrevista feita com a jornalista. Este TCC tem como base filosófica Friedrich Nietzsche (2008) e Hans-Georg Gadamer (1997), que, alinhada a autores como Josso (2004), Delory-Momberger (2008), Larrosa (2002), Bergson (2011), Martinez (2016) e Hartsock (2019), auxiliam nas interpretações que emergem durante o desenvolvimento da pesquisa. Dessa maneira, a partir da união dessas interpretações com as análises da trajetória social da jornalista Eliane Brum, é possível perceber os indícios de sua memória em suas narrativas jornalísticas.
Palavras-chave: Experiência; Formação; Jornalismo Literário; Eliane Brum.

ABSTRACT
This research weaves understandings about literary journalism praxis with and from theoric appointments about Experience, Formation, Memory, Life histories narrative and Literary Journalism. For trace the objective of this Graduation Conclusion Work, which is to understand how the journalists’ life experience and formation is imbricated in their praxis, is used the life histories narrative etnossociologic method, proposed for Bertaux (2010). Such comprehension occurs through the analysis of the social trajectory of Eliane Brum, that is thought from three reports that are include in her book O olho da rua: uma reporter em busca da literature da vida real; from her memorialist book called meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras and an interview that was made with the journalist. This research is based philosophically by Friedrich Nietzsche (2008) and Hans-Georg Gadamer (1997), which, aligned with authors like Josso (2004), Delory-Momberger (2008), Larrosa (2002), Bergson (2008), Martinez (2016) and Hartsock (2019), support the interpretations that emerge during this research development. Consequently, from the unity of the interpretations with the analysis of the Eliane Brum’s social trajectory it is possible to realize the memories evidence in her journalistic narratives.
Keywords: Experience; Formation; Literary Journalism; Eliane Brum.

1. INTRODUÇÃO

O que trago nesta pesquisa não é, e está bem longe de ser, uma verdade absoluta. Deixo aqui nestas linhas as minhas interpretações, suposições talvez, sobre a forma com que as narrativas são construídas na práxis jornalístico-literária. Dizer que a nossa experiência de vida e formação está atrelada ao que a gente escreve é, para mim, compreender que as palavras que escolhemos para narrativizar a nossa vida ou o que vemos da vida do Outro estão carregadas do que somos, aprendemos, vivemos e experienciamos.

A práxis jornalístico-literária é uma vertente que me entusiasmou desde o início do meu caminhar no curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Essa prática instiga o jornalista a sugerir pautas, investigar e escrever sobre determinada situação, por ser mais livre, e isso me levou a procurar entender como acontece todo esse processo de escrita até a publicação.

Diversas vezes me peguei pesquisando sobre jornalismo literário, lendo narrativas, reconhecendo técnicas e teorias que havia estudado em disciplinas como Redação Jornalística, Gêneros Jornalísticos e Narrativas Jornalísticas. Não me surpreende ter chegado a esta pesquisa, após ter passado quatro anos imersa em grande parte das ideias, teorias, autores e experiências que formaram o que sou agora e que estarão entranhadas em mim até minha morte. Por isso, esta pesquisa é um encontro meu com o tema e, mais intensamente, comigo mesma.

Nessa travessia, que é, lembrando o que Josso (2010) fala, um caminhar para mim, me deparei com os estudos de Formação e Experiência, no Narrativas, Formação e Experiência (Naforme), grupo de estudos e pesquisa que faço parte há mais de três anos. A união dessas duas áreas foi natural para mim. Numa noite, estava pesquisando sobre a jornalista Eliane Brum e encontrei parte da introdução de seu livro meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras3. Após a leitura dessa pequena parte, algo me tocou: a maneira com que a jornalista conta como a morte está entremeada em sua narrativa de vida. Essa percepção me transportou para as suas narrativas jornalísticas, que muitas vezes estiveram presentes nas aulas e conversas durante a graduação.

Eu fiz a primeira leitura de um dos seus livro-reportagens O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real logo que adentrei ao curso de Jornalismo - em 2015 - na disciplina Redação Jornalística, uma das primeiras oferecidas em nossa matriz curricular. O livro me tocou profundamente e, a partir de então, comecei a acompanhar o trabalho da jornalista. Seu livro-reportagem A vida que ninguém vê também fez parte das leituras obrigatórias na disciplina Comunicação e Ética, que cursei no quinto semestre.

Me interessei pelo jornalismo literário ao me deparar com essas leituras e passei a procurar literaturas a respeito. Nessa busca, percebi a escassez de pesquisas e publicações sobre esse gênero jornalístico, que ganhou força no movimento conhecido como new journalism, nas décadas de 1960 e 1970, com grandes livro-reportagens.

O jornalismo literário, assim como qualquer prática jornalística, tem a premissa de informar. Segundo Lima (2009), o que o diferencia é a linguagem e o tempo de produção. As narrativas jornalístico-literárias costumam ser mais longas e aprofundadas, mesclando técnicas da escrita jornalística com técnicas da escrita literária na construção do texto.

Dos poucos jornalistas que utilizam de técnicas literárias na construção de textos jornalísticos aqui no Brasil, Eliane Brum tem destaque com três livro-reportagens publicados e com colunas em jornais nacionais e internacionais, como o El País e o The Guardian. Nesta pesquisa utilizo como fonte de pesquisa dois de seus livros: O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real e meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. Tê-los como base me permite imergir na sua prática jornalística e na sua história de vida e, assim, compreender o entrelaçamento entre as suas experiências de vida e a sua formação.

Esta pesquisa está fracionada em três capítulos, além da introdução e das considerações finais, respectivamente o primeiro e o quinto capítulo deste trabalho. No segundo capítulo, intitulado Do experienciar ao narrativizar, trago os conceitos de Experiência e Formação, intercalando isso com a ideia de narrativa pensada por Benjamin (1994). Com e a partir de Josso (2004) e Larrosa (2002), discuto sobre experiências de vida e formação. Nietzsche (2008) e Gadamer (1997) também aparecem para embasar esse capítulo.

Das narrativas de histórias de vida e da práxis jornalístico-literária é o título do terceiro capítulo, o qual traz teorização sobre práxis e jornalismo literário com a contribuição de Seixas (2006) e Martinez (2017), respectivamente. Esse capítulo contempla ainda o que Bertaux (2010) teoriza a respeito da abordagem etnossociológica das narrativas de histórias de vida, que é o método desta pesquisa, além das discussões de Delory-Momberger (2008) sobre heterobiografia, uma vez que essa ideia perpassa os objetivos deste estudo.

No quarto capítulo, A morte em narrativas jornalísticas de Eliane Brum: Experiência de vida e Práxis, o método etnossociológico das narrativas de vida, pensado por Bertaux (2010), é evidenciado em conjunto com as contribuições de Bergson (1999) sobre memória. Enfim, tem-se as compreensões que emergem do encontro das teorias tratadas nos capítulos anteriores com as três reportagens escolhidas para serem analisadas e a entrevista realizada com a jornalista.

Portanto, através deste Trabalho de Conclusão de Curso, objetivo compreender como a trajetória de Eliane Brum está imbricada em sua práxis jornalístico-literária. Para tanto, teorizo sobre experiência, formação, narrativa, memória, práxis; observo como a experiência da morte aparece nas narrativas da jornalista; e identifico as memórias da jornalista nessas narrativas. Experiência de vida e formação na práxis jornalístico-literária de Eliane Brum tem como objeto de pesquisa a trajetória de Eliane Brum, que será pesquisada pelo método etnossociológico das narrativas de história de vida (BERTAUX, 2010).

2. DO EXPERIENCIAR AO NARRATIVIZAR

Dizer que algo é experiência para alguém é uma ideia complexa. Experienciar algo ou alguma coisa perpassa diversos sentimentos e um processo consciencial, que entremeia diferentes âmbitos do existir do indivíduo. Por isso, as experiências nos acontecem quando, conscientemente, nos damos conta daquilo que nos acontece.

Este capítulo traz conceitos que serão primordiais nesta pesquisa: experiência e formação. Sendo assim, na tentativa de entender como a experiência pode ser formadora e como ela pode imbricar na práxis jornalístico-literária, utilizo-me dos pensamentos de Marie Christine Josso (2004) a esse respeito. No prefácio do livro Experiências de vida e formação, da autora, Antônio Nóvoa (2004) afirma que todo conhecimento é autoconhecimento, ou seja, o que compreendemos do mundo e a forma como compreendemos o mundo está entranhado naquilo que somos, no que apreendemos do mundo a partir de nossas vivências.

Para Josso (2004), a ideia de experiência é a mais adequada para articular a teoria à prática. A autora conta que aquilo que experienciamos influencia na forma como fazemos determinada prática, portanto, a experiência pode alterar a teoria, que, por sua vez, pode alterar a prática e vice-versa. “Podemos falar de formação experiencial no sentido de que há implicação, mudança e conhecimento. Estes três termos são indispensáveis à experiência e à formação” (JOSSO, 2004, p. 215).

A formação acontece o tempo inteiro, mesmo quando não experienciamos. Porém, a experiência está sempre atrelada à formação. Quando experienciamos, nos formamos e nos formar nos leva a experienciar. Isso acontece porque as nossas experiências passadas refletem no que somos agora, assim como as experiências do agora refletirão em nosso futuro. Estamos sempre alargando a nossa compreensão do mundo e a de nós mesmos, já que, segundo Gadamer (1997), nós sempre interpretamos de maneira cíclica:

Em princípio, compreender é sempre um mover-se nesse círculo, e por isso é essencial o constante retorno do todo às partes e vice-versa. A isso se acrescenta que esse círculo está sempre se ampliando, já que o conceito do todo é relativo, e a integração em contextos cada vez maiores afeta sempre também a compreensão do individual. (p. 195)

A ideia que Gadamer (1997) traz de círculo hermenêutico provém de Heidegger, que explica que esse círculo não é vicioso, mas está sempre se alargando. Portanto, a interpretação que fazemos do mundo está sempre sendo construída e desconstruída e as experiências interferem na compreensão que temos de nós mesmos, dos Outros e do ambiente que nos envolve. Por isso, a ideia de experiência formadora pode permear o nosso entendimento.

Josso (2004) diz que a experiência formadora nos impulsiona em direção ao que somos e está entrelaçada àquilo que dizemos, fazemos e, também, ao que narrativizamos, tanto na oralidade quanto na escrita. E o que somos perpassa todos os lugares que conhecemos, pessoas que encontramos, nossa família, amigos, professores, os ambientes compartilhados, as conversas com os Outros, as leituras que fazemos.

Portanto, somos uma soma de nossas experiências de vida; do contato com todos os Outros; somos as histórias que ouvimos e as histórias que entrelaçam as experiências de vida dos nossos ancestrais; pertencemos a uma cultura que nos diz de um tempo histórico e cronológico e de um espaço geossocial e, ainda assim, somos indivíduos.

Somos indivíduos porque, além da cultura em que estamos inseridos, existem outros fatores que afetam a forma como nos comportamos socialmente. Esses fatores podem estar ligados ao ambiente em que estamos envolvidos, mas também com os tipos psicológicos que interferem na maneira com que o indivíduo lida com o mundo, já que segundo Jung (2009), eles afetam a forma como lidamos conosco e com os Outros. A isso, interliga-se a ideia de Josso (2004, p. 49) sobre experiência, já que, para ela, é aquilo que

implica a pessoa na sua globalidade de ser psicossomático e sociocultural: isto é, ela comporta sempre as dimensões sensíveis, afetivas e conscienciais. A experiência constitui um referencial que nos ajuda a avaliar uma situação, uma atividade, um acontecimento novo.

Essa ideia de experiência corrobora com o que diz Jorge Larrosa (2002), no texto Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Para o autor, “é experiência aquilo que ‘nos passa’, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma” (LARROSA, 2002, p. 26). Essas experiências podem estar em todas as nossas atividades sociais, do nascer ao morrer, mas só é experiência aquilo que nos move.

Assim, as nossas experiências são pessoais, já que o que vivemos é intransferível. Porém, essas experiências podem ser passadas através das narrativas orais e escritas, não em sua completude, já que o vivenciado é pertencente a outro tempo histórico, por ser passado. Ao compartilharmos nossas experiências, nós as ressignificamos e damos a oportunidade do Outro as ressignificarem, a partir de suas experiências anteriores.

Experienciar está sempre ligado ao viver, mas o viver não está sempre ligado ao experienciar. As vivências sempre estão acontecendo, enquanto as experiências dependem, segundo Larrosa (2002), de um ato reflexivo. Josso (2004) explica a diferenciação entre vivência e experiência, e designa esta última como vivências particulares. Para ela, as “vivências atingem o status de experiências a partir do momento que fazemos um certo trabalho reflexivo sobre o que se passou e sobre o que foi observado, percebido e sentido” (JOSSO, 2004, p. 48).

A partir desse trabalho de reflexão, a experiência se apresenta mais profunda do que as vivências. E, mesmo que não lembremos de todas as nossas experiências, elas continuam nos impulsionando, determinando nossas escolhas e nos levando para o que já somos e o que podemos ampliar do que somos. Segundo Dewey (2011, p. 16), “assim como homem nenhum vive ou morre para si mesmo, assim nenhuma experiência vive ou morre para si mesma. Independentemente de qualquer desejo ou intento, toda experiência vive e se prolonga em experiências que se sucedem”.

John Dewey (2011) tece críticas à educação pós-moderna e ressalta a necessidade de elaboração de teorias da experiência já que, para o autor, ela está intrínseca ao aprendizado. De acordo com Dewey (2011), a formação acontece no que ele chama de continuum experiencial. A citação dele acima traz uma ideia inicial do que seria essa sucessão de experiências. Para o teórico, todas as nossas experiências - tanto as boas quanto as ruins - são o que nos impele a continuar experienciando.

Para que essas experiências se ampliem, é necessário, como disse anteriormente, um processo reflexivo, um ato de parar para pensar. Por isso, de acordo com Larrosa (2002, p. 24), “o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura”.

A abertura para o experienciar acontece a partir do momento em que o indivíduo se percebe como uma pessoa em formação. Na troca com o Outro, a pessoa em formação também se forma, mas não consegue experienciar da mesma maneira que esse Outro, pois ela visita essas experiências a partir de sua própria trajetória. E, quando Nietzsche (2008, p. 51) diz que “não se tem ouvido para aquilo a que não se tem acesso a partir da experiência”, ele lembra que só reconhecemos aquilo que já acessamos anteriormente a partir de nossas experiências.

A ideia de experiência que foi esclarecida aqui tem proximidade com o que Gadamer (1997) discorre ao teorizar sobre vivências particulares, quando fala sobre as obras de arte e sua apreciação. O autor diz que “a obra de arte não é um objeto que se posta frente ao sujeito que é por si. Antes, a obra de arte ganha seu verdadeiro ser ao se tornar uma experiência que transforma aquele que a experimenta”. Podemos, a partir do que Larrosa (2002) diz de experiência, entender isso que Gadamer (1997) conta como uma exemplificação do que é essa experiência e a forma como ela age no indivíduo que experiencia, que se forma e se transforma, a partir do ato reflexivo de parar para pensar sobre essa experiência.

Ao pensar sobre a vivência, Gadamer (1997) explica que não é necessariamente o conteúdo ou a ação vivenciada que fica na memória, mas principalmente o percurso que essa ação faz no decorrer da vida daquele que lembra e narra. O autor diz ainda que só podemos entender a vivência por ser algo ou alguma coisa, ou ainda uma situação, que deixou vestígios profundos em nós. Nesta conceituação, a ideia que Gadamer (1997) traz sobre vivência se aproxima da ideia que trago de experiência nesta pesquisa.

Porém, ainda discorrendo sobre vivência, Gadamer (1997), a partir de Dilthey, chega à compreensão de que vivência é tudo o que se vive. E é essa ideia que procuro trazer aqui, de que experiência são vivências particulares, e, se tudo o que se vive é vivência, e estamos o tempo inteiro aprendendo, portanto, estamos nos formando ao tempo em que vivemos. Em resumo, toda experiência nos forma, mas nem sempre estamos experenciando ao nos formar, já que nem toda vivência perpassa um processo reflexivo.

Segundo Josso (2010), pensar sobre formação é difícil por ela ser polissêmica, pois, para a autora, essa palavra pode fazer referência tanto à atividade em desenvolvimento, o processo, quanto o resultado desse processo. O processo de formação, como afirma Josso (2002), é conhecido por aquele que aprende em interações com outras subjetividades. A formação, apesar de se perpassar os lugares formais de aprendizagem, também acontece nos lugares informais, já que ela ultrapassa as paredes das escolas.

A pessoa se forma independente do querer se formar. Paiva (2018, p. 50), explica que “a formação em si tem um fim em si mesma”. Porém, a intencionalidade sempre está intrínseca à formação, já que, segundo Paiva (2018), ela requer sempre um deslocar-se para, seja por ir ao encontro da formação, por pensar a própria formação ou por escutar o Outro indíviduo, que também está em formação.

A formação se faz/torna pela intencionalidade — seja daquele que pretende ensinar alguém, seja daquele que intenciona aprender. A intencionalidade dá à transformação, enquanto potência, a possibilidade de concretude. Acrescento que, como já dito, pode haver formação sem a intencionalidade de ensinar ou de aprender, mas nunca é um fenômeno sem intencionalidade para algo ou alguma coisa: faz-se necessário um deslocar-se para. (PAIVA, 2018, p. 151)

Ao deslocar-se para, a pessoa em formação sempre está se atualizando. Mathias e Finger (2010) explicam que toda formação é uma autoformação. O que leva à compreensão de que as nossas experiências e formação sempre nos direcionam ao que somos e ao que queremos ser, intercalando nosso passado e futuro, para compreender melhor o presente. Esse movimento é o que nos forma e o que faz com que nos aconteça experiências formadoras.

É nesse movimento que as nossas identidades são formadas e desinformadas e é o que Josso (2007, p. 416) explica ao dizer que “essas identidades num constante vir-a-ser, manifestação de nossas existencialidades em movimento, são em certos períodos históricos mais fortemente atingidas pelos efeitos desestruturadores de mudanças sociais, econômicas e/ou políticas”. Portanto,

A formação, nessa perspectiva, é interpretação, ou seja, compreensão do que e de quem se é, compreensão do que o Outro é, compreensão de/das coisas, interpretação da natureza. Formação, nessa perspectiva, é um caminhar para si, compreendendo-se dia a dia no emaranhado caleidoscópico das relações que fazem a vida humana ser o que ela é. (PAIVA, 2018, p. 171)

Os conceitos de formação que trago estão interligados ao que Nietzsche (2008) traz no livro Ecce Homo: como alguém se torna o que é, que é explicado por Larrosa (2009). Para Nietzsche (2008), a ideia de Bildung - que pode ser pensado em português como formação e construção - é o processo de converter-se ao que se é, sempre ampliando a própria identidade. Bildung é uma palavra alemã que abarca a ideia de formação que embasa esta pesquisa: a busca pelo que se é, unida com a construção do que se é, formando-se, assim, o que se é. E o que se é, ainda não é toda a totalidade do ser, como explico mais à frente, a partir de Jung (2009).

Segundo Larrosa (2009), Nietzsche fez com que explodisse a ideia de Bildung que permeia a construção histórica do indivíduo que está ligada ao seu lado espiritual. Segundo o filósofo, a Bildung pode ser entendida como “a ideia que subjaz ao relato do processo temporal pelo qual um indivíduo singular alcança sua própria forma, constitui sua própria identidade, configura sua particular identidade ou, definitivamente, converte-se ao que se é.” (LARROSA, 2009, p. 45).

Esse pensamento de converte-se ao que se é ficou conhecido nas traduções de Ecce homo para o português como tornar-se o que se é. Para explicar essa concepção de formação, Larrosa (2009) diz no livro Nietzsche e a educação que Nietzsche, ao contar sobre o próprio percurso de vida em Ecce Homo, traz essa ideia de tornar-se ele mesmo. “Há, portanto, uma segunda voz, na qual Nietzsche flexiona sobre os distintos momentos de seu itinerário, em direção a si mesmo.” (LARROSA, 2009, p. 46). É esse o fio da formação que é trazido por Nietzsche (2008), o que nos leva para o que já somos.

Delory-Momberger (2008) também fala sobre a Bildung. Ela conta que esse pensamento da Bildung representa a vida humana como processo de formação do ser, por intermédio das experiências que ele atravessa, como um caminhar orientado para uma forma adequada e realizada de si (nunca alcançada). Josso (2007) explica esse processo de formação, aplicando a ele tudo o que nele interfere:

O processo de formação que caracteriza o percurso de vida de cada um permite trazer à luz, progressivamente, o ser-sujeito da formação, vê-lo tomar forma psicossomaticamente, psicologicamente, sociologicamente, economicamente, culturalmente, politicamente, espiritualmente, numa sábia e singular teia, produzindo assim um motivo único (“peça única” nas artes visuais). A consciência de ser (ativamente ou passivamente) sujeito de sua história, através de todos os ajustes que foi preciso fazer, permite ter a medida do que está em jogo em toda a formação: a atualização do sujeito num querer e poder ser e vir-a-ser e sua objetivação nas formas socioculturais visadas, as que já existem ou as que ele tiver que imaginar (ex.: as famílias reconstituídas). (JOSSO, 2007, p. 423)

A travessia de uma pessoa no mundo está imbricada a esses diversos fatores citados por Josso (2007), o que interfere, também, em sua forma de experienciar o mundo. Um indivíduo que tem consciência de suas potencialidades, possivelmente vai figurar e projetar um futuro entendendo o seu passado, tendo consciência de sua história e de que faz parte de uma complexa sociedade, que se forma como uma teia e que carrega em si diversas identidades. Enquanto um indivíduo que não tem consciência de si, se forma, mas dificilmente se projeta no futuro consciente de que esta é uma possibilidade provinda de uma carga de experiências anteriores. Porém, todos os indivíduos contêm em si esse potencial.

Todas as potencialidades do ser estão em sua totalidade psíquica. É o que Jung (2009) fala sobre o Eu e o Si-mesmo. O primeiro, para ele, é a parte que sabemos de nós, e o segundo, o que podemos saber, toda a potencialidade do que somos, mas que nunca chegaremos à totalidade. É por causa de Jung (2009) que, nesta pesquisa, falo do Outro com esta grafia. Falo do Outro, que é aquele que nos faz nos reconhecermos como seres, mas que também pode estar contido em nosso Si-mesmo. O Si-mesmo é a totalidade do ser e, para Jung (2009), a representação da totalidade é sempre tão completa quanto o próprio indivíduo:

Em outras palavras, engloba o experimentável e o não-experimentável, respectivamente o ainda não experimentado. Essas qualidades ele tem em comum com muitos conceitos das ciências naturais que são mais nomina (nomes) do que idéias. Na medida em que a totalidade que se compõe tanto de conteúdos consciente quanto de conteúdos inconscientes for um postulado, seu conceito é transcendente, porque pressupõe, com base na experiência, a existência de fatores inconscientes e caracteriza, assim, uma entidade que só pode ser descrita em parte e que, de outra parte, continua irreconhecível e indimensionável. (JUNG, 2009, p. 902).

Para Jung (2009), nós estamos o tempo inteiro expandindo o nosso Eu. Porém, aquele que tem consciência de que está em formação tem mais potencial de alargá-lo. Já o Si-mesmo, como já dito, é indimensionável, pois sempre será potência, por mais que nos autoconheçamos.

O Si-mesmo é tão indimensionável quanto o próprio mundo. Os fenômenos acontecem o tempo inteiro, ao mesmo tempo, e nós, seres humanos, não conseguimos capturar todos no mesmo momento. E grande parte dos fenômenos são apreendidos através de mediações, seja do eu com o Outro ou do eu com a mídia. O mundo pode ser contado através de gestos, palavras, ações. Mas, apesar dessas diversas formas de interpretarmos os fenômenos, nada disso conta o mundo por completo, muito menos a escrita. Através da narrativa jornalística, o jornalista tenta fazer esse papel de mediador entre as pessoas e os fenômenos.

2.1. O Narrativizar no Jornalismo Literário

O jornalismo é conceituado por Nelson Traquina (2012) como uma atividade capaz de traduzir e transmitir acontecimentos. Porém, nem sempre um jornalismo factual dá conta de expressar toda a complexidade de uma situação. E é para isso que o jornalismo literário é revivido através do new journalism, para narrar, utilizando técnicas literárias, e conseguir, através desse leque de outras possibilidades, informar ao leitor situações com maior profundidade.

E é justamente o ato de narrar que traz essa profundidade. Para Walter Benjamin (1994), a narrativa é uma união de experiências e, segundo ele, existem dois tipos de narradores: aquele que viaja muito e aquele que acumula experiências, mesmo sem ter saído do seu local de nascença. Segundo Martinez (2017), o jornalista que escreve utilizando as técnicas da narrativa literária necessita de acúmulo de experiências e, também, precisa ter dom.

O jornalista da práxis jornalístico-literária, ao escrever sua narrativa, na práxis jornalístico-literária, o jornalista acessa as experiências do Outro – o(s) personagem(ns) – e, através de suas próprias experiências, isso é narrativizado. Benjamin (1994) define a arte de narrar em si como uma experiência. O autor se refere a uma ideia mais ampliada de narrativa, aquela pela qual o indivíduo transmite suas experiências, mas que podemos estabelecer relação com a narrativa jornalística.

Larrosa (2002) diz, porém, que, por falta de tempo e pela rapidez com que tudo acontece na pós-modernidade, a experiência está cada vez mais rara. Dessa forma, falta esse ato de parar para pensar, tanto pelas publicações rápidas do jornalismo factual quanto pelo excesso de publicações, o que corrobora com a afirmação de Benjamin (1994) sobre o jornalismo já não narrar, por não ter o ato reflexivo exigido para experienciar. No entanto, pelo tempo de produção no jornalismo literário e pelo encontro com o Outro, as narrativas jornalístico-literárias podem ser consideradas o que Benjamin (1994) pensa como uma narrativa carregada de experiências. Portanto, se a experiência é aquilo que nos passa, ela também está presente na narrativa e Josso (2004), ao falar sobre narrativa de si, explica isso, quando diz que o nosso Eu está presente no texto mesmo quando não estamos falando de nós.

A experiência, então, é um dos fatores que leva um texto a ser uma narrativa, já que um narrador carregado de histórias consegue ressignificar realidades, descrevendo-as e levando quem lê ou ouve suas narrativas para seu emaranhado de técnicas alinhadas às suas experiências de vida. Segundo Benjamin (1994, p. 198), “a experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores”. A experiência demanda tempo, leveza e querer experienciar.

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. (LAROSSA, 2002, p. 24)

A experiência precisa ser digerida e, se narrar é uma experiência, isso significa que o narrador (no caso, o jornalista) também precisa ter esse espaço e um tempo para reflexão. Além disso, ela precisa ser sentida, refletida e, para isso, carece de vontade. O narrador precisa de acúmulo, interesse, olhares e ouvidos atentos. Necessita de atenção aos detalhes que fazem a narrativa ser um conjunto de experiências mediadas pela linguagem, que nem sempre seguem uma trilha reta.

E isso acontece não somente na narrativa oral, mas também na escrita. “E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos” (BENJAMIN, 1994, p. 198). Isso é o que podemos perceber nas narrativas escritas de Eliane Brum: o compromisso de narrar, sem se distanciar do que seus personagens a contaram. Assim, ao teorizar sobre as narrativas de história de vida, Josso (2004) se aproxima da ideia trazida pela maioria das narrativas jornalísticas escritas por Eliane Brum. Segundo a autora, “a narrativa escrita fornece no próprio movimento da sua escrita fatos tangíveis, estados de espírito, sensibilidades, pensamentos a propósito de, emoções e sentimentos, bem como atribuições de valores”. (JOSSO, 2004, p. 186).

A narrativa é complexa, pois as experiências são complexas. Pensando a complexidade a partir de Morin (2000), se trata de um conjunto de incertezas, que não se restringem a lugares fixos e ideias concretas. E, se as experiências fazem parte de um processo cíclico, como já disse anteriormente, a narrativa, carregada de experiências, também provém de um processo não fechado, já que ela dá margem a muitas interpretações.

Josso (2004) me auxilia a explicar porque penso em encontrar a experiência e formação de Eliane Brum em narrativas de seu livro. A narrativa da práxis jornalístico-literária, além de contar experiências de outras pessoas, também traz o narrador entrelaçado ao seu texto e grande parte das narrativas jornalístico-literárias de Eliane Brum apresentam como principal fonte narrativas de histórias de vida. Apesar de Josso (2004, p. 134) estar pensando sobre as narrativas de si quando diz que “o eu está presente no texto, na sua atividade, e narra os acontecimentos da sua existência evidenciando o trabalho que efetuou para lhes fazer frente”, isso também pode ser pensado nas narrativas jornalístico-literárias, pois estas trazem impressões do jornalista e escolhas que, só a partir de sua própria experiência, poderiam ter sido feitas.

Delory-Momberger (2008) fala que o nosso Eu está no que contamos do Outro e é esta busca que está intrínseca neste trabalho. Entender, mais profundamente, como as nossas experiências nos formam ao tempo que, ao narrativizá-las, estamos as ressignificando e como isso está visível naquilo que fazemos, na nossa práxis. Embora, ao contar isso, a autora esteja falando sobre a práxis educacional, e esta pesquisa trazer/discutir a práxis jornalístico-literária, as duas perspectivas utilizam as histórias de vida em seu processo de construção.

É por essa semelhança entre o uso das narrativas de histórias de vida para encontrar vestígios sobre a formação de quem narra e o processo de apuração e escrita de narrativas jornalístico-literárias, que podemos pensar que as experiências estão contidas nas histórias de vida narradas. Segundo Josso (2004, p. 40), “são as experiências que podemos utilizar como ilustração numa história para descrever uma transformação, em estado de coisas, um complexo afetivo, uma ideia, como também uma situação, um acontecimento, uma atividade ou um encontro.”

Porém, podemos compreender que a narrativa oral e escrita não é capaz de contar uma experiência como um todo, ela é uma ressignificação dessa experiência que une artifícios do tempo e espaço, alinhados às lembranças, porque

Ao narrar uma experiência vivida, talvez a limitação da linguagem também coopere para um reinventar da própria lembrança, ou o tempo e a experiência de vida deste narrador o levem, através da narrativa, a um ressignificar dessas suas ações/descrições do passado, com o olhar do presente. A narrativa torna-se, assim, a forma mais coerente de ordenar esses acontecimentos passados, de reconstituir a sua diacronia e estabelecer uma ordem cronológica capaz de se fazer entender. (PAIVA, 2018, p. 89)

Narrar não é simples e Benjamin (1994) explica isso. Para ele, a narrativa está sendo perdida. Ele contou isso muito antes da rapidez do mundo virtual, dos dias clareados pela luz artificial dos celulares e computadores, da facilidade de obter informações, que mesmo Larrosa (2002), com sua teorização sobre experiência, que é mais recente, não consegue abarcar quando fala que não temos tempo para experienciar. O jornalismo é, também, muito rápido.

Porém, a arte de narrar é recuperada através do jornalismo literário. Digo recuperada porque o jornalismo nem sempre teve a objetividade como regra, já que os primeiros jornalistas eram também literatas. João do Rio é um exemplo claro disso, com narrativas sobre o cotidiano do povo negro no Rio de Janeiro no início do século XX. Ele também é a prova de que a narrativa não se restringe a situações factuais.

Como a narrativa carrega e entrelaça experiências muito diversas, é possível interrogarmo-nos sobre as escolhas, as inércias e as dinâmicas. A perspectiva que favorece a construção de uma narrativa emerge do embate paradoxal entre o passado e o futuro em favor do questionamento do presente. (JOSSO, 2004, p. 41)

O presente é inatingível, mesmo na narrativa, mas é possível, através de técnicas, utilizarmos a narrativa para buscar entender e causar impacto naquilo que ideamos como presente. Esse impacto pode ser gerado através do sujeito da situação ou pelo que a situação causa no sujeito. O lugar que estamos e onde podemos estar, o inalcançável e o intangível faz com que figuremos a nossa relação com o mundo. A busca pelo que somos e tudo o que podemos ser, modifica a forma como nos relacionamos com o lugar o qual habitamos, com as pessoas que conhecemos e como reconhecemos o passado, figuramos o futuro, e, ainda, como isso nos auxilia a entender o agora.

O espaço-tempo segundo o qual figuramos os limites de nossa existência é de fato aquele no qual nascem nossas histórias, ou seja, construções segundo as quais apreendemos nossa vida. Jamais atingiremos diretamente o vivido. Só temos acesso a ele pela mediação das histórias. O único meio de termos acesso a nossa vida é percebermos o que vivemos por intermédio da escrita de uma história (ou de uma multiplicidade de histórias): de certo modo, só vivemos nossa vida escrevendo-a na linguagem da história. (DELORY-MOMBERGER, p. 36)

Todas essas ideias trazidas até aqui, apesar de não tratarem das narrativas jornalístico-literárias, podem ser diretamente relacionadas às produções jornalísticas de Eliane Brum. Grande parte dos jornalistas desse nicho buscam trabalhar suas narrativas de forma a figurar na imaginação de quem lê uma situação ou um personagem, para que, dessa maneira, esse leitor possa pensar e repensar o seu contexto social. Porém, não somente o leitor. O jornalista literário, em sua práxis, também é um narrador munido de incontáveis experiências adquiridas de diversos locais, pessoas e situações e está o tempo inteiro ressignificando seu ser e estar no mundo (Heidegger, 2007), em busca de narrativas que possam ter esta ideia de causa e efeito em seu leitor.

3. DAS NARRATIVAS DE HISTÓRIA DE VIDA E DA PRÁXIS JORNALÍSTICO-LITERÁRIA

É a partir das histórias de vida contadas pelo Outro, devidamente apuradas, selecionadas e, então, publicadas, que provém a maioria das narrativas jornalístico-literárias. Tomando a trajetória social da jornalista Eliane Brum, o objeto desta pesquisa, como exemplo, pode-se perceber indícios de intersecções entre o método etnossociológico das narrativas de histórias de vida proposto por Bertaux (2010) e a práxis jornalístico-literária, já que os dois utilizam como principal fundamento as narrativas de um Outro.

E é sobre isso que vou tecer compreensões ao longo deste capítulo. Conto como as narrativas de história de vida são utilizadas nas pesquisas, mas também como são primordiais na escrita jornalístico-literária e que, por isso, é possível uni-las. Atrelo a isso conceituações sobre jornalismo literário, práxis e memória e mostro como tais ideias estão interligadas a esta pesquisa. Aqui, entendemos que, na práxis-jornalístico literária, o uso das palavras e das técnicas literárias demonstram as experiências do jornalista que as escreveram a partir da interação com o Outro.

Para entender a importância das narrativas de história de vida nesta pesquisa e na práxis jornalístico-literária, recorro aos estudos das narrativas de histórias de vida como recurso educativo. Nesse campo, se destaca a autora francesa Christine Delory-Momberger, da qual utilizo o livro Biografia e educação, publicado no Brasil em 2008. Delory-Momberger (2008, p. 37) explica que:

É a narrativa que confere papéis aos personagens de nossas vidas, que define posições e valores entre eles; é a narrativa que constrói, entre as circunstâncias, os acontecimentos, as ações, as relações de causa, de meio, de finalidade; que polariza a linha de nossos enredos entre um começo e um fim e os leva para uma conclusão; que transforma a relação de sucessão dos acontecimentos em encadeamentos finalizados; que compõe uma totalidade significante, na qual cada evento encontra seu lugar, segundo sua contribuição na realização da história contada. É a narrativa que faz de nós o próprio personagem de nossa vida; é ela, enfim, que dá uma história a nossa vida: não fazemos a narrativa de nossa vida porque temos uma história, temos uma história porque fazemos a narrativa de nossa vida.

Se, como seres humanos, somos históricos e culturais e carregamos em nós um emaranhado de experiências, segundo Delory-Momberger (2008), o que dá forma a tudo isso são as narrativas que fazemos de nós mesmos. Ela pensa a narração não só como um instrumento de formação, mas como um instrumento que faz com que o indivíduo tome forma, podendo se reconhecer e experimentar o vivido.

Porém, a autora também explica que uma das características da narrativa é que ela não abarca completamente esse vivido, já que a narrativa que se faz da vida não é a vida e isso se dá porque esse vivido está circunscrito a um espaço e um tempo específicos. O que leva a outra característica elencada por ela: “a segunda característica da narrativa, como objeto de linguagem, é que ela se constitui no tempo e no espaço de uma enunciação e de uma interrelação singulares”. (DELORY-MOMBERGER, 2008, p. 96).

Ao conceituar as narrativas de história de vida enquanto uma abordagem metodológica, Bertaux (2010, p. 48) diz que “é necessário, primeiramente, distinguir uma história real, da narrativa que dela se faz”. Essa ideia reforça as características da narrativa trazidas por Delory-Momberger (2008), mencionadas acima. Bertaux (2010, p. 51) ainda diz que “entre as experiências vividas por um sujeito e a narrativa dessas experiências se interpõe, necessariamente, um grande número de mediações”. Tal afirmação nos ajuda a compreender um dos porquês da impossibilidade de uma narrativa ser o vivido, mesmo que ela seja fiel às lembranças do que se passou. Porém, há, ainda, a possibilidade de que se faça uma boa narrativa.

Para narrar bem uma história é necessário delimitar os personagens, descrever suas relações recíprocas, explicar suas razões de agir, descrever os contextos das ações e interações e até mesmo formular julgamentos (avaliações) sobre as ações e os próprios setores. Descrições, explicações, avaliações, mesmo não sendo formas narrativas, fazem parte de toda narração e contribuem para construir significados. (BERTAUX, 2010, p. 47)

Disso se vale também a narrativa jornalístico-literária, pois o jornalista utiliza todos esses recursos narrativos citados acima para tornar a narrativa interessante e aprofundada. E, como dito por Bertaux (2010), para que esses recursos estejam no texto, é necessário compreender, através da narrativa de vida, tudo o que uma pessoa conta para a outra sobre um episódio de sua experiência vivida. Segundo Bertaux (2010, p. 47), “o verbo ‘contar’ (fazer relato de) é aqui essencial: significa que a produção discursiva do sujeito tomou a forma narrativa”.

Contar é essencial para a escrita jornalística, assim como é para o método etnossociológico das narrativas de histórias de vida. Contar é o que faz com que o texto seja uma narrativa, é trazer o leitor para o cenário que está sendo contado, fazer com que ele compreenda o que/quem está sendo narrado. É fazer, através das experiências contadas, com que o leitor experiencie, também, a narrativa.

3.1. “Contar Um Conto Sem Aumentar Um Ponto”

O jornalismo literário, segundo Lima (2010) é alimentado pelo diferente, já que ele não é o mais lido, nem o mais popular. Nesse nicho do jornalismo, a maioria dos textos narram histórias contadas por outras pessoas, ou seja, a narrativa de vida dos personagens é que dá vazão ao tema tratado e não o contrário. Isso quer dizer que o tema emerge pela e na história de vida do(s) personagem(ns), uma vez que é ela que conta sobre o tema, ao invés de servir como exemplo dele. Para Martinez (2017), para se fazer jornalismo literário é preciso sensibilidade e compreensão aguçadas.

Martinez (2017) diz que, apesar de criticarem tal jornalismo e dizerem que ele não tem espaço na contemporaneidade, ele apenas não tem força hegemônica, mas tem um público que pode ser cativado. Isso acontece porque essa especificidade do jornalismo abarca em si a possibilidade de uma união com diversas áreas do conhecimento, já que de acordo com a autora, a literatura não é a única área importante para a práxis jornalístico-literária. A autora reafirma o que foi dito no capítulo anterior, que “um dos marcos da produção de João do Rio é seu mergulho na realidade para retratá-la com saber e sabor. O jornalismo aqui, em sua melhor forma, como irmão de outras áreas do conhecimento, como a Sociologia e a Psicologia” (MARTINEZ, 2016, p. 37).

Por ter essa interação multidisciplinar e por tratar de vivências individuais, a veracidade das narrativas jornalístico-literárias é muito questionada. Lage (2014) explica o jornalismo como uma atividade de natureza técnica caracterizada por compromisso ético peculiar. Para o autor, o jornalista deve saber selecionar o que interessa e é útil ao público e buscar a associação entre essas duas qualidades, dando à informação veiculada a forma mais atraente possível; ser verdadeiro quanto aos fatos. O jornalismo literário não se diferencia disso, já que a maior preocupação do jornalista é com a ética, o que é validado por Eliane Brum (2017, p. 69) ao dizer que “[...] limites só me importam o da ética”, por existirem várias possibilidades de verdades quando pensamos numa história de vida.

Estamos no campo da realidade e ainda que o profissional construa o que se desenrola de acordo com sua bagagem sociocultural, o leitor espera que o jornalista seja honesto o suficiente para relatar o que vê. Caso contrário, estaria lendo ficção ou um livro baseado em fatos reais. Isso significa não inventar nem alterar nada. Em Jornalismo Literário, quem conta um conto não aumenta um ponto. Citações e pensamentos, por exemplo, devem ser verificados da forma mais simples que existe: perguntando à fonte. (MARTINEZ, 2016, p. 41-42)

Esse contrato jornalista-leitor pode ser validado a partir da ideia de verdade pensada por Gadamer (1997), que defende a ideia de existência de verdades, que nascem a partir de uma fusão de horizontes advinda de um diálogo genuíno. Esse diálogo é carregado de embates, que não são discussões, mas argumentações e a fusão de horizontes (Gadamer, 1997) é o que emerge disso e a(s) verdade(s) é (são) o que disso tudo se pode interpretar.

No jornalismo, esse embate se dá a partir da pluralidade de versões de um mesmo fato. Não tiro aqui a verdade trazida pela hard news, em que os fatos não são validados apenas por relatos, mas também por documentos que comprovam a veracidade. Porém, quando se pensa em narrativa de história de vida, essa verdade se dá, segundo Bertaux (2010), por meio do confrontamento da narrativa com a própria história a qual está inserida. Isso está diretamente interrelacionado com a ideia que John Hartsock (2019) traz ao pensar uma estética da experiência na narrativa jornalística literária.

Hartsock (2019) conta que esse nicho do jornalismo lida com as estéticas experienciadas todos os dias, nos fenômenos diários e, por isso, trata de experiências únicas. “Ao definir ‘estética’ na ‘estética da experiência’, eu não quero dizer ‘a beleza’ como sempre é associado com o termo como os estetas (os que cultuam o belo) refinados, que tiveram que assumir o termo para o seu próprio fim”. (HARTSOCK, 2019, p. 2, tradução nossa) 4. O autor se refere à experiência que incita uma resposta sensorial e é baseada no que acontece no mundo “real”, por isso, para ele, o que diferencia o jornalismo literário da literatura é que

Jornalismo (e mais amplamente o documental) lida no fim com consequências de fenômenos. Mas, novamente, ficção lida com alegóricos prospectos ou hipotéticos imaginados (o que não retira que esses prospectos e hipotéticos podem ser valorizados). (HARTSOCK, 2019, p. 12., tradução nossa) 5

Apesar de lidar com o que resultou de fenômenos, o jornalismo literário, segundo Hartsock (2019), ainda precisa lidar com a tendência à abstração. É o que Martinez (2016) diz quando explica que o jornalista precisa lidar com a linha tênue entre realidade e ficção, mesmo que utilize as técnicas da narrativa literária. Lima (2010), ao pensar a práxis, caracteriza o jornalismo literário como uma possibilidade textual.

Segundo Lima (2010), a narrativa jornalístico-literária pode abarcar traços das teorias das narrativas literárias e uma subjetividade que não cabem ao texto jornalístico tradicional – que Hartsock (2019) cita como hard news -, que exige objetividade, textos em terceira pessoa e uma estrutura pronta, com lead e pirâmide invertida. E é à pirâmide invertida que Hartsock (2019) direciona uma de suas maiores críticas.

Como explorado em maiores detalhes em outros lugares, a retórica ambição do modelo das hard news, conhecido como pirâmide invertida, desvia as modalidades narrativas e descritivas que dominam uma narrativa jornalística literária, enfatizando a descontinuidade em que a especificidade e distinção dos cronotopos selecionados de um tempo e espaço distintos descendendo para detalhes crescentes relegados a uma ordem decrescente de importância que é distinta – que resiste volatização em um éter abstrato – tem uma declinação de uma reivindicação para o valor cognitivo. (HARTSOCK, 2019, p. 7, tradução nossa)6

Ainda para Hartsock (2019, p. 7, tradução nossa)7, “a pirâmide invertida viola a cronicidade porque é sujeita a uma ambição abrangente: ‘o que é mais interessante aqui?’ A intenção, então, é analiticamente digressiva (e se move a uma direção expositora)”. Isso, segundo o autor altera a ideia de narrativa e, também, os cronotopos presentes nela. Essa ideia de cronotopo é retirada, de acordo com Hartsock (2019), da teoria de Mikhail Bakhtin, e se refere a tempo (crono) e espaço (topo), em uma relação dicotômica que transforma a narrativa em única, e se relaciona, também, com a estética da experiência.

No entanto, o autor não diz que as hard news não contém esses cronotopos da experiência, mas que existem metáforas – que aqui recebem um sentido diferente do tradicional e são pensadas como um meio de compreensão de algo – que dizem dessas experiências e desses cronotopos, que não são comuns a textos escritos em forma de pirâmide invertida, redigidos de maneira instantânea e com obrigação para com a verdade absoluta positivista, pensada por Descartes (2006) como o que resulta quando se separa a razão da tradição. Hartsock (2019) explica que a facilidade de encontrar essas metáforas na narrativa jornalístico-literária acontece por causa do tratamento que se dá a ela, já que é mais fácil entendermos, epistemologicamente, a função da experiência para o jornalismo literário.

Uma razão para o entendimento da natureza dinâmica do cronotopo como fenômeno e/ou metáfora é a necessidade de apreciar a natureza peculiar de uma narrativa jornalística literária: nós precisamos reconhecer nosso mundo fenomenal em uma ação epistemológica, pensando que essa ação epistemológica é o único recurso avaliável para transportar para os outros a experiência de nossa condição existencial. (HARTSOCK, 2019, p. 12, tradução nossa).8

Só a partir de 1960 começaram a surgir estudos sobre o jornalismo literário, apesar de existirem produções que podem ser consideradas desse nicho entre os séculos XVIII e início do XX. Essa iniciativa se deu com um movimento intitulado New Journalism, já que após um período de recessão que iniciou com a Primeira Guerra Mundial, voltaram a existir produções unindo técnicas do jornalismo com as da literatura. No Brasil, inspiradas nos modelos estadunidenses, como conta Lima (2010), surgiram produções como a Revista Realidade e o Jornal da Tarde.

Dimenstein e Kotscho (1990) explicam que a reportagem é a técnica jornalística de contar boas histórias. Pensando dessa forma, o jornalismo literário se utiliza desse sentido para a construção de histórias contadas carregando em si estilos da linguagem literária. Essa subjetividade empregada ao texto jornalístico, para Martinez (2017), faz com que precisemos delimitar melhor a linha tênue que separa a realidade da ficção, para que a intepretação jornalística narrativizada no texto seja a de uma realidade vivenciada por aquele(s) que conta(m).

Martinez (2017) reitera ainda que o jornalismo literário é uma modalidade para poucos, não apenas pelo espaço dado a esse tipo de jornalismo, mas pelas exigências feitas ao jornalista que se propõe a escrevê-lo. A autora diz que essa modalidade não tem um padrão textual pré-formatado, e, por isso, ela é viva. O jornalismo literário exige, também, planejamento, pois é uma pesquisa densa, já que o jornalista precisa da confiança e do contato com o Outro narrativizado, ao mesmo tempo em que forma-se a si mesmo.

E é pelo uso das narrativas de vida como ponto principal e pela liberdade de se colocar no mundo dada ao jornalista literário, que escolhi este como objeto de pesquisa. Como já foi falado, só há um Eu pela existência de um Outro e as fusões desses diversos horizontes são o que constituem a reportagem.

A fusão de horizontes é um conceito ideado por Gadamer (1997), que denota um processo de compreensão a partir da união de horizontes, que são cheios de preconceitos. Esses preconceitos são, para o autor, a tradição que trazemos tanto de nossas experiências, quando de nossa história e cultura e, a partir dessa fusão, que é, necessariamente o que é o compreender, chega-se a uma ideia sobre determinado assunto.

Dessa maneira, Gadamer (1997) desmistifica a carga negativa atrelada aos conceitos de preconceito e tradição. Gadamer (1997, p. 275) compreende que “ ‘preconceito’ não significa pois, de modo algum, falso juízo, pois está em seu conceito que ele possa ser valorizado positivamente ou negativamente”. Assim como tradição é sim o que conservamos, porém, é também o que colocamos à prova através da fusão de horizontes e do diálogo genuíno. A tradição é o que nos faz ter um preconceito, uma ideia anterior, sobre algo ou alguém e, ainda, o que nos faz o que somos, indivíduos históricos, inseridos em uma sociedade e cultura anterior, e com vivências próprias. Logo,

[...] o horizonte do presente está num processo de constante formação, na medida em que estamos obrigados a pôr à prova constantemente todos os nossos preconceitos. Parte dessa prova é o encontro com o passado e a compreensão da tradição da qual nós mesmos procedemos. O horizonte do presente não se forma pois à margem do passado. Nem mesmo existe um horizonte do presente por si mesmo, assim como não existem horizontes históricos a serem ganhos. Antes, compreender é sempre o processo de fusão desses horizontes presumivelmente dados por si mesmos. Nós conhecemos a força dessa fusão sobretudo de tempos mais antigos e de sua relação para consigo mesmos e com suas origens. A fusão se dá constantemente na vigência da tradição, pois nela o velho e o novo crescem sempre juntos para uma validez vital, sem que um e outro cheguem a se destacar explicitamente por si mesmos. (GADAMER, 1997, p. 457)

Gadamer (1997) explica que esses horizontes não são palpáveis, não há traço que os delimitem, mas que são a noção da própria tradição e da consciência histórica. O autor escreveu sobre o que seria essa consciência, em um texto chamado O problema da consciência histórica. Gadamer (2006) explica que a tecnologia e a ânsia pelo novo se sobrepõem à história na atualidade, e que, por isso, cabe à filosofia questionar isso. No entanto, deve-se pensar os fenômenos históricos não como algo a ser explicado e sim compreendido em sua singularidade. E é esse processo de compreensão, segundo Gadamer (1997), o próprio papel da hermenêutica: compreender e expandir os horizontes.

Essa concepção de fusão é o que utilizo para compreender como a experiência de vida e a formação da jornalista Eliane Brum estão imbricadas em suas reportagens. Para isso, considero que cada uma das fontes de pesquisa aqui utilizadas – a entrevista com a jornalista, o livro meus desacontecimentos e as três reportagens – são horizontes em si mesmos, que podem ser fundidos com os do leitor em busca da compreensão da pergunta que faço nesta monografia.

Para compreender como será pensada essa fusão dos horizontes das minhas fontes de pesquisa, com e partir das quais, falo sobre a práxis jornalístico-literária, busco entender a forma como a memória está entrelaça com o jornalista, suas experiências e a forma como desenvolve a sua práxis. Se a memória é o que nos constitui seres históricos, como ela está presente em nossas escolhas?

3.2. Pensar a Práxis e a Memória

Estar contido no nosso texto não é nenhum demérito: pelo contrário, é um contrato justo com o leitor, já que a todo tempo ele está lendo a partir de um ponto de vista, o de quem escreve. E é por isso que podemos encontrar indícios de experiência e formação da jornalista Eliane Brum em suas narrativas jornalístico-literárias. Isso porque levamos conosco as diversas experiências que nos formaram como somos e o que somos, e, portanto, não há como nos desvencilharmos delas, pois estão entranhadas em nossa práxis, no nosso olhar, naquilo que percebemos do Outro e o que trazemos de suas narrativas em nossas narrativas.

Esses saberes “não sabidos” desempenham um papel primordial na maneira como os sujeitos investem nos espaços de aprendizagem, e a sua conscientização permite definir novas relações com o saber da formação. Essa valorização da experiência individual inscreve-se num procedimento global que associa, intimamente, os formados ao processo formativo e os considera como atores plenos de sua formação. (DELORY, MOMBERGER, 2008, p. 95)

Gadamer (1997) corrobora com ideia de que a aprendizagem e de saberes não sabidos, aqueles que não temos consciência que sabemos, quando fala sobre tradição. O autor, como disse anteriormente, quebra a ideia estigmatizada socialmente de que preconceito é, de todo, ruim. A palavra tem como significado aquilo que temos como ideia de algo ou alguma coisa. É o que, a partir de todas as nossas experiências, nos faz pensar que uma bola é redonda e não quadrada. É a tradição que vem de tudo o que a história nos conta, mas também de nossas experiências desde que nascemos e que nos levam em uma certa direção, não em outra.

Ao tentar nos distanciarmos do que somos, estamos apenas fingindo que isso é uma possibilidade, já que continuamos presentes em tudo o que fazemos. Não há como deixar-nos de lado, nós somos tudo o que fazemos, inclusive o que narramos. O que prova a veracidade de uma narrativa são as possiblidades nela contida de alinhar-se historicamente, de confirmá-la com os envolvidos na história e, principalmente, a ética de quem narra e a de quem ouve. A isso, como já foi dito, Martinez (2017) refere-se como o que alicerça o jornalismo literário.

As raízes etimológicas da palavra práxis, segundo Seixas (2006), explicitam duas linhas de pensamento: a) faz referência ao sujeito da ação em si mesmo; e b) a perfeição ou excelência que tem em si mesmo. A práxis, para a pesquisadora, é a relação dialética e dialógica da reflexão do que foi praticado. É um movimento entre praticar e pensar-se praticando.

Porém, se, segundo Vaz (2002), essa reflexão ética é a evidência primeira que norteia qualquer práxis, por que no jornalismo literário tal fundamento se torna tão evidente? Para responder a esta pergunta recorro ao que já foi dito anteriormente: na narrativa jornalístico-literária a utilização de narrativas de histórias de vida pode tornar o conteúdo duvidoso, já que o que prova sua veracidade são as palavras do jornalista e do entrevistado, assim o compromisso ético torna-se maior do que em casos factuais, facilmente comprovados por dados. A pesquisa nessa práxis é essencial e minuciosa, da colheita dos relatos até a publicação.

Pensar a práxis nos leva a pensar em sua relação dicotômica com a teoria. É notório desde os filósofos gregos que teoria e prática exercem entre si um trabalho interligado, já que uma depende da outra. Não existe teoria sem práxis e o trabalho da práxis também se dá através de uma teoria. Uma não equivale à outra quando pensamos em seus significados, mas têm entre si uma relação simbiótica. Uma ideia interessante é a de Larrosa (2002) que diz que, quando se tem a ver com experienciar, a relação teoria e práxis se torna experiência e sentido.

A práxis, então, nessa perspectiva, é aquilo que fazemos daquilo que sabemos, do que está constituído teoricamente. É o ato de experienciar o saber, é mais profundo do que o fazer por obrigação porque necessita que esse saber seja uma experiência. O indivíduo que experiencia precisa refletir sobre esse saber para que, nesse movimento de experienciar, esse saber o passe e o aconteça. Logo, se, segundo Larrosa (2002), a experiência é aquilo que nos acontece e Benjamin (1994) diz que o ato de narrar é uma experiência, a experiência da práxis jornalístico-literária, que perpassa a ida a campo e a escrita da narrativa, reflete o que Delory-Momberger (2008) conta: que o nosso texto nos contém.

A práxis jornalístico-literária, portanto, é carregada de experiências de vida, não só dos personagens, como também do jornalista. Essas experiências são o que nos move. São memórias. Bergson (1999), discorre sobre memória, lembrança e o inconsciente. Segundo ele, as nossas memórias estão presentes em nossos movimentos, não só a memória corporal, mas como também a espiritual. Como o autor diz que as lembranças são independentes, ele explica que tudo o que vivemos está em nosso arquivo ídeomotor, que está no campo virtual de nosso cérebro.

As memórias que não estão vívidas em forma de lembranças, estão em nosso inconsciente e, de acordo com Bergson (1999), elas interferem em nossas escolhas, mesmo que não tenhamos consciência disso. Então, por exemplo, se na escola uma criança foi chamada de algo que a afetou, isso será acentuado em suas ações futuras, mesmo que ela não saiba que é isso que faz com ela aja ou sinta da forma como age ou sente.

(...) se colocarmos a memória, isto é, uma sobrevivência das imagens passadas, estas imagens irão misturar-se constantemente à nossa percepção do presente e poderão inclusive substituí-la. Pois elas só se conservam para tornarem-se úteis: a todo instante completam a experiência presente enriquecendo-a com a experiência adquirida; e, como esta não cessa de crescer, acabará por recobrir e submergir a outra. (BERGSON, 1999, p. 69)

Isto não significa, segundo o autor, que as memórias serão apagadas, elas continuarão guardadas, já que formaram a pessoa o que é, porém, só serão acessadas quando forem importantes para determinada ação. Bergson (2011) explica ainda que essas memórias serão difusas, já que nem sempre as lembranças retratam com exatidão e realidade o vivido. O importante é compreender que elas sempre terão formado e estarão formando o que somos no agora.

Por isso, cada palavra arquivada em nosso arquivo ídeomotor diz do que somos e continuarão dizendo quando saírem do campo virtual e passarem a fazer parte do campo real, na oralidade ou na escrita. Dessa maneira, a narrativa da práxis jornalístico-literária, aglomerado de palavras, fez parte, antes, desse arquivo e passaram à forma de texto seguindo a linearidade e forma previamente conhecidas pelo jornalista que escreveu.

3.3. Intersecções Entre o Método Etnossociológico e o Jornalismo Literário

Para demonstrar a forma como as memórias do jornalista aparecem no texto do jornalismo literário, utilizo o método etnossociológico das narrativas de vida de Daniel Bertaux (2010), que já foi mencionado no capítulo anterior, para a realização dos objetivos desta pesquisa. O método propõe a união de dois campos de estudo: a etnografia e a sociologia. Inspirado na tradição e na observação etnográficas, o pesquisador constrói os objetos a partir de problemáticas sociológicas, na tentativa de encontrar o geral dentro de uma particularidade. Assim, a particularidade trazida por mim é a trajetória da jornalista Eliane Brum, para pensar a sua práxis jornalístico-literária, considerando aqui o jornalismo como um mundo social.

O objeto desta pesquisa, a práxis jornalístico-literária de Eliane Brum, se caracteriza como uma trajetória social, por pensar o percurso da jornalista dentro do mundo social no qual se insere, o jornalismo. A trajetória social, para Bertaux (2010), diz respeito à variedade de percursos de vida e de como vários mecanismos são agregados no processo de formação do sujeito dessa trajetória. Os dois outros modelos de objetos propostos pelo autor são o mundo social e as categorias de situação social.

O mundo social, segundo Daniel Bertaux (2010), se constrói a partir de uma atividade específica, mas tem regras gerais que são ditadas para qualquer atividade, como a ideia de campo social, ideada, de acordo com Bertaux (2010), por Bourdieu, mas abarcando mais atividades, como as profissões, culturas, escola. Enquanto a situação social é específica dentro de um mundo social, e pode ser exemplificada com o desemprego, pesquisando, por exemplo, o que há em comum nas situações de desemprego em uma profissão, cultura, sociedade específica. Já a trajetória social diz respeito a uma particularidade estudada para entender o geral, a partir de uma linha de vida individual, que é a minha proposta de pesquisa: compreender a trajetória social da jornalista Eliane Brum para fazer inferências sobre a práxis jornalístico-literária.

Segundo Bertaux (2010, p. 48-49), “Essa linha [a da trajetória] não é assimilável a uma reta ou a uma curva harmoniosa, como parece indicar o termo trajetória, frequentemente utilizado”. O autor explica que a trajetória social é cheia de interferências micro e macrossociais. Bertaux (2010) diz ainda que uma guerra ou uma tragédia podem afetar a trajetória de uma pessoa, assim como a morte de uma pessoa próxima.

Em sua maioria, as existências são, ao contrário, sacudidas por forças coletivas que reorientam seus percursos de maneira imprevista e geralmente incontrolável. Uma guerra, uma revolução, um golpe de Estado, uma crise econômica grave, uma epidemia, atingem simultaneamente e desviam o curso de milhões de existências individuais. (BERTAUX, 2010, p. 49)

Entender as peculiaridades das trajetórias sociais é perceber, por exemplo, que cada jornalista é único, possui sua tradição, seus preconceitos, sua história de vida e que vão olhar para suas pautas de maneiras diferentes, mas que, além de serem todas essas individualidades, também são o mundo social ao qual fazem parte, o jornalismo. É uma maneira de estudar os fenômenos, compreendendo as partes que os formam.

A etonossociologia, portanto, reconhece as diversidades dos mundos sociais e as suas diversas situações e trajetórias, e propõe uma pesquisa empírica aplicada às lógicas próprias de cada mundo social, situação ou trajetória, para entender, assim, os diversos fatores que podem influenciar tais mundos, situações e trajetórias. Dessa forma, para Bertaux (2010), os dados qualitativos têm uma dupla função nesta pesquisa: uma é fornecer descrições estatísticas confiáveis de fenômenos coletivos. A outra, segundo o autor, mais de difícil de realizar, a de fazer suposições e não verificar hipóteses.

A técnica de pesquisa visada por Bertaux (2010) é a entrevista para a obtenção de uma narrativa oral. Então, para compreender como a experiência de vida e formação da jornalista Eliane Brum está imbricada à sua práxis jornalístico-literária, além da entrevista que fiz com a jornalista, utilizarei as reportagens como um relato pronto (com narrativas de vida exploradas, analisadas e publicadas), para, dessa forma, chegar a uma compreensão embasada pela história de vida de Eliane Brum, documentada no livro meus (des)acotecimentos: a história da minha vida com as palavras.

Como amostragem, trago três reportagens do livro O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real. São elas: Casa de velhos, Expectativa de vida: 20 anos e Vida até o fim. Essas reportagens trazem, de alguma forma, a visão de Eliane Brum sobre a morte durante a narrativa. Elas contam, mesmo que não seja o principal foco da reportagem, como a jornalista vê a morte com e a partir dos personagens narrados. Ora a morte morrida, por causa da velhice ou de doença, ora a morte matada, quando vê diante de si histórias sobre vidas levadas por causa da violência. Em outros trechos, a morte como vida ou como a morte afeta a vida.

Sendo assim, a temática morte é o elemento que busco em comum nas reportagens, que são os resultados do exercício da práxis jornalístico-literária, e a história de vida de Eliane Brum. A trajetória social da jornalista é vista no conjunto de sua narrativa de história de vida com a narrativa jornalística que faz da narrativa de história de vida dos outros. As reportagens trazem em si uma escrita de uma jornalista que está inserida em um habitus, já que nasceu numa família, em uma cultura, frequentou lugares, escolas, leu certos livros, formando, assim, o que há de diferente nela, mesmo estando inserida em um contexto onde outros jornalistas também estão inseridos.

Bertaux (2010) explica, porém, que a finalidade da narrativa de vida na pesquisa etnossociológica é diferente da forma oral de uma autobiografia. Na autobiografia, a narrativa é o testemunho da experiência vivida. Nesta proposta de pesquisa, a narrativa é pensada para um objeto pré-definido pelo pesquisador, que aqui é a trajetória social da jornalista Eliane Brum.

O método etnossociológico das narrativas de história de vida foi pensado como uma alternativa para as pesquisas sociológicas, já que Daniel Bertaux é sociólogo. Neste Trabalho de Conclusão de Curso, adapto esse método para a pesquisa em jornalismo, já que a reportagem aqui é pensada como um fenômeno sociológico a ser interpretado e reinterpretado, utilizando o dado qualitativo biografizado por Eliane Brum em seu livro memorialístico e a entrevista feita com a jornalista. Entendo, também, o jornalismo como um mundo social.

Além disso, o método criado por Bertaux (2010) tem pressupostos próximos aos do jornalismo literário, já que os dois têm como principal fonte as histórias de vida. O processo de apuração e publicação propostos tanto para a narrativa jornalística literária quanto para o método etnossociológico das narrativas de histórias de vida são muito parecidos ao pensarmos nas proposições de Bertaux (2010) e Lima (2009).

Lima (2009) elenca dez pilares do jornalismo literário, e, dentre eles, estão a humanização, a universalização temática, a imersão e a responsabilidade ética. Esses quatro pilares fazem intersecção com o que Bertaux (2010) elenca sobre a maneira com a pesquisa etnossociológica das narrativas de histórias de vida é feita. Dentre os pilares pensados pelo autor, estão também a utilização de histórias de vida; agendar, preparar, conduzir a entrevista; generalização dos resultados; e compromisso ético.

Pensando dessa maneira, justifico o fato de utilizar as reportagens escritas por Eliane Brum como uma das bases da análise que farei no próximo capítulo. Além de terem sido construídas a partir de pressupostos que também são característicos do método etnossociológico das narrativas de histórias de vida, elas trazem em si possíveis inferências sobre o geral, social, assim como o proposto no método.

Essa intersecção, como foi brevemente mencionado acima, se deve ao fato de que tanto o jornalismo literário quanto a pesquisa etnossociológica das narrativas de histórias de vida trabalham com e a partir de histórias de vida. O que diferencia são as técnicas relacionadas ao processo de escrita e a finalidade da publicação. No jornalismo, o objetivo é que um público leia a narrativa e (re)pense sua realidade, enquanto na pesquisa etnossociológica, o pesquisador busca fazer inferências sobre a sociedade. Por isso, a partir das análises feitas através da trajetória social de Eliane Brum, faço inferências sobre a práxis jornalístico-literária.

4. A MORTE EM NARRATIVAS JORNALÍSTICAS DE ELIANE BRUM: EXPERIÊNCIA DE VIDA E PRÁXIS

A partir das intersecções feitas anteriormente e das teorias discutidas, este capítulo traz as compreensões objetivadas nesta monografia. Teço nas linhas seguintes minhas interpretações sobre como a experiência de vida e formação da jornalista Eliane Brum está imbricada em sua práxis-jornalístico literária e, a partir disso, compreendo como acontece tal práxis.

Tecer ideias sobre experiência, formação, narrativa, memória, jornalismo literário e a metodologia utilizada nesta pesquisa fez com que o objetivo ideado - entender como a experiência e formação está imbricada na práxis jornalístico-literária - ficasse mais claro, tanto para mim, quanto para a forma em que essa pesquisa foi desenvolvida. Dessa forma, este capítulo, o último do meu Trabalho de Conclusão de Curso, é a junção de tudo isso ao meu objeto de pesquisa. Aqui conto como cheguei a esta pesquisa, desde os primórdios, à concepção, mostrando a escolha dos temas tratados.

Conto a minha entrevista com a jornalista Eliane Brum e as demais fontes de pesquisa - os dois livros escolhidos da jornalista - e aplico isso à metodologia. Portanto, este capítulo nada mais é que a imersão na narrativa de vida de Eliane Brum, especificamente relacionada à sua trajetória no jornalismo literário, trazendo essa história analisada, a partir dos preceitos estabelecidos por Bertaux (2010) para o método etnossociológico das narrativas de história de vida, já que o método pressupõe a análise de uma narrativa de história de vida, fazendo inferências sobre o meio social ao qual a pessoa que narra está inserida.

Dessa forma, o autor explica que essas narrativas de história de vida assumem três funções na pesquisa etnossociológica: a) função exploratória; b) função analítica; e c) função exploratória. A partir dessas funções, que destrincham o papel da narrativa na pesquisa, o pesquisador deve elaborar hipóteses. Porém, como explica Bertaux (2010), essas hipóteses nada têm em comum com as pesquisas estatísticas, já que

Na pesquisa etnossociológica, os dados preenchem funções completamente diferentes. Eles não conduzem a descrições estatísticas; eles não têm mais a vocação de verificar hipóteses, mas permitem ver como “funciona” um mundo social ou uma situação social. (BERTAUX, 2010, p. 31)

De acordo com o autor, o pesquisador deve ter suposições, mas não verificar hipóteses. Assim, deve-se elaborar o corpo de hipóteses plausíveis, “um modelo baseado em observações, rico em descrições de “mecanismos sociais” e em proposições de interpretação (mais do que explicação) dos fenômenos observados.” (BERTAUX, 2010, p. 31)

Para interpretar esses fenômenos, a partir da história de vida narrada, são pensados três níveis de significação, que são analisados com e a partir da narrativa. Esses níveis são campo, habitus e relações intersubjetivas fortes. Esses níveis, que dizem respeito à cultura, ao meio em que o indivíduo traçou seu percurso e às pessoas que se relacionou, são considerados porque interferem consideravelmente na trajetória de um indivíduo e estão sempre presentes em suas narrativas. Dessa maneira, se tornam indícios do individual e do coletivo, já que dizem respeito à cultura, sociedade e âmbito aos quais o indivíduo pertenceu/pertence no percurso de sua trajetória.

Nesse percurso, existem, segundo Bertaux (2010, p. 51), “mediações subjetivas e culturais entre uma experiência vivida ‘bruta’ e a sua narrativa”. Essas mediações estão intrínsecas às trajetórias individuais. Cada acontecimento que é somado a essa trajetória social modifica, de certa maneira, o caminho desse indivíduo. As linhas da trajetória não são retas, têm aberturas, linhas incompletas, interceptadas, que fazem, em seu emaranhado, o indivíduo ser o que é, como é.

Voltemos a uma linha de vida, compreendendo uma sucessão de projetos, períodos, acontecimentos, situações, interações e ações. Não seria realista representar o sujeito como um indivíduo isolado, buscando seu caminho em ambientes passivos, tirando partido de cada situação para maximizar seus interesses pessoais, tendo apenas relações instrumentais com o outro. (BERTAUX, 2010, p. 53)

Assim, ao decorrer deste capítulo, a análise da trajetória social de Eliane Brum se dará através da análise descritiva e interpretativa de sua narrativa de história de vida. A partir do livro meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras, das três reportagens escolhidas do Olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real e da entrevista que fiz com a jornalista, busco encontrar indícios de sua experiência de vida em sua práxis, através das reportagens, utilizando sua história de vida contada em meus desacontecimentos e na entrevista.

Após a análise da narrativa, teço suposições, que são as minhas interpretações, sobre a práxis jornalístico-literária. Busco, então, compreender como o jornalismo literário acontece e como o jornalista se insere nisso, a partir da trajetória social de Eliane Brum. Essa generalização é proposta por Bertaux (2010) como o que acontece a partir das inferências feitas sobre uma história de vida narrativizada. É, para o autor, a parte sociológica do método, já que a etnografia está contida na ida a campo e na colheita das narrativas de histórias de vida.

Apesar de o método ser claro em sua maneira de ser utilizado, existem questões impostas a partir das variações encontradas pelas mediações que acontecem entre a história de vida “bruta” e a narrativa que se faz dela. Questiona-se, portanto, uma possível falta de objetividade no método. Porém, Bertaux (2010) esclarece isso explicando que as narrativas de história de vida são sim subjetivas, mas, a partir delas, o pesquisador encontra caminhos para uma objetividade, que acontece com pesquisas em fontes, esclarecimentos históricos, etc.

A colheita de uma narrativa de história de vida, assim como no jornalismo literário, perpassa a ida a campo, entrevista, apuração, transcrição, análise e publicação. A função dessa narrativa, como disse no capítulo anterior, que a torna uma pesquisa acadêmica ou uma reportagem. Porém, tanto em uma função como em outra, a pesquisa acadêmica e a reportagem estabelecem uma função social e são filtradas pela experiência de vida do pesquisador ou do jornalista.

Na busca de entender como a experiência de vida e formação do jornalista literário está imbricada em sua práxis, utilizo como intermédio a trajetória de Eliane Brum, motivada por conhecer o seu trabalho e pelos materiais disponíveis para que possa fazer a análise. Para fundir os horizontes, dialogar com esses horizontes e emergir, a partir disso, as minhas interpretações - que é a verdade a partir do ponto de vista desta pesquisa – são feitas de acordo com o ciclo hermenêutico, que foi discutido no capítulo 2, (re)pensado por Gadamer (1997): Compreender - Interpretar - Reinterpretar.

A fusão de horizontes acontece no embate entre horizontes carregados de tradição e que, ao se unirem, se ampliam, alargando os níveis de compreensão sobre algo ou alguém. Assim, nesta pesquisa, essa fusão de horizontes acontece no embate do meu horizonte de pesquisadora com as narrativas pesquisadas, que são as três reportagens do livro O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real - A casa de velhos; Expectativa de vida: 20 anos; Vida até o fim -, o livro memorialístico meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras e a entrevista que fiz com a jornalista durante sua participação na Festa Literária de Cachoeira – BA (Flica), que acontece anualmente nessa cidade do recôncavo baiano. Isso se dá porque, a partir da temática da morte, amplio as compreensões do meu horizonte sobre o jornalismo literário.

4.1. O Encontro com a Narrativa de Vida Pesquisada

Desde que comecei a pensar esta pesquisa, tinha como ideia realizar uma entrevista com a jornalista Eliane Brum. Buscando isso, entrei em contato com a jornalista por e-mail, mas não tive resposta até conseguir contato com sua assistente, a Bia Lopes. O meu primeiro e-mail enviado à Bia está datado do dia 6 de setembro de 2018. No corpo do texto, expliquei a minha pesquisa, os seus objetivos e a necessidade da entrevista. No entanto, a resposta veio com a informação de que Brum estava no interior do Pará imersa em suas pesquisas para seu próximo livro e tinha dificuldade para comunicar-se por meio da internet.

Além de seu novo livro, a jornalista estava escrevendo para sua coluna no El País sobre as eleições presidenciais que se aproximavam. Expliquei que poderiam ser respostas escritas, mas a Bia pediu para esperar até o fim do ano. Porém, no dia 17 de setembro de 2018, eu descobri que Eliane Brum seria uma das convidadas da Flica e que comporia a mesa Um olhar​ feminino​​ sobre a arte de sujar sapatos, no dia 13 de outubro, e logo entrei em contato novamente perguntando sobre a possibilidade de fazer a entrevista no período em que ela estivesse em Cachoeira.

Em resposta, a assistente da jornalista me explicou que não sabia como seria no dia da mesa, mas que ia conversar com a Eliane Brum sobre isso. Pediu para eu me preparar com perguntas rápidas, pois a entrevista poderia acontecer, inclusive, durante a sessão de autógrafos. E, ainda assim, não era nada certo. A partir dessa resposta comecei a me preparar para ir à Cachoeira.

Já conhecia a cidade cortada pelo Rio Paraguaçu, conhecida pelo período colonial e que divide com São Félix uma ponte acima do rio. A cidade de chão de paralelepípedo, que conta a história do Brasil a cada esquina, abrigando museus, casarões e um dos campi da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde minha tia, irmã mais nova de minha mãe, estudou. Era por isso que conhecia a cidade, as ruas familiares, e a histórica Igreja de Nossa Senhora do Carmo, que abriga em seu pátio as mesas da Festa Literária.

A familiaridade que tinha com a cidade fez com que o encontro com a jornalista se tornasse mais fácil. A mesa com Eliane Brum seria um dia após o feriado da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, o que facilitaria a minha ida. E, então, eu fui. Saí de Vitória da Conquista - BA, cidade em que fica o campus da Uesb no qual eu estudo, para Santo Estêvão - BA, cidade onde minha família mora, o que facilitaria o meu itinerário, já que Cachoeira fica há 1h30 de carro.

No entanto, como não tem transporte direto de Santo Estêvão à Cachoeira, combinei com uma amiga que mora em Feira de Santana - BA de ir com ela à Flica. Dessa forma, eu poderia dormir em sua casa no dia 12 de outubro, para no dia seguinte pela manhã seguirmos para Cachoeira, já que a mesa estava marcada para 10h. Chegamos, porém, por volta das 9h, o que parecia cedo, até avistarmos a fila na entrada da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o principal espaço do evento.

Esperamos na fila até a organização do evento liberar a entrada para o pátio, que tinha cadeiras distribuídas em fileiras e um palco centralizado à frente com três poltronas à espera das duas convidadas – Catarina Guedes e Eliane Brum - e Malu Fontes, mediadora da mesa Um olhar​ feminino​​ sobre a arte de sujar sapatos. Durante a conversa, Brum destacou sua relação com Ilce, uma das personagens de Vida até o fim, uma das reportagens que compõem esta análise, e a situação política do Brasil.

Saí um pouco antes do fim da conversa, para me dirigir à fila de autógrafos. Havia levados dois de seus livros, que já faziam parte do meu acervo, para justificar minha estadia na fila. Após uma hora esperando, consegui contato com a jornalista, expliquei, como Bia pediu, que era a estudantes de Jornalismo que estava fazendo uma monografia utilizando sua trajetória na práxis jornalítico-literária e que, gostaria de entrevistá-la.

Eliane hesitou um pouco, pensando no que havia programado para fazer após à sessão de autógrafos. Sabia que ia demorar, que ficaria cansada, que daria entrevista para a equipe de audiovisual do evento e que algumas pessoas a esperavam para almoçar. Porém, ainda assim, a jornalista disse para eu esperar a sessão acabar, para ir com ela à outra entrevista, pois, segundo ela, encontraria um tempo para conversar comigo. E assim aconteceu.

A sessão de autógrafos, que tinha começado às12h acabou quase 14h. Esperei até esse momento e Brum avisou à organização do evento que eu estava com ela. Então, segui junto com Eliane Brum para uma área reservada, na qual ela daria a entrevista para o evento e aguardei debaixo de uma árvore. Precisava de uma sombra, estava muito calor. Fiquei observando a jornalista, a serenidade que passava, a presença forte que tinha. Foi nesse momento que ela veio até mim, sentou-se de pernas cruzadas ao meu lado, ali mesmo debaixo da árvore, e me avisou que poderíamos começar a entrevista.

4.2. Eliane Brum: “Escrevo para Não Morrer, Mas Escrevo Também para Não Matar.”

Nascida das palavras escritas, como se define, Eliane Brum percorre uma trajetória de 30 anos no jornalismo, sendo conhecida pelo estilo de escrita e pela narração de histórias silenciadas. É um dos grandes nomes brasileiros no jornalismo literário. A jornalista tem três livros-reportagem publicados e hoje, além de se dedicar a escrita de outros livros no interior do Pará, é colunista do El País.

(...) a Coluna Prestes, que foi o meu primeiro livro, ele é um livro assim, antes eu dizia seminal, mas agora eu vou dizer vaginal, porque foi um livro que eu entendi o que era ser repórter, onde eu conheci os brazis, porque até então eu só conhecia o Rio Grande do Sul, então é um livro que me funda como repórter, por tudo o que eu vivi e também pela violência que veio depois desse livro. Eu vou perceber que é em A vida que ninguém vê que eu consigo dizer o que é, afinal, o jornalismo que eu acredito, que é esse jornalismo de como se inventa uma vida nua e com tão pouco, é a questão de que não existem vidas comuns, apenas olhos domesticados, é aí que eu vou fazer a declaração do que é o jornalismo, do que é a reportagem para mim, mas eu só vou entender isso depois. O olho da rua é o final de um ciclo, de certa maneira, porque o livro é de 2008 e eu deixo a redação em 2010. Eu deixo o mundo das redações, jamais o da reportagem, ao contrário. Então, ele é um livro em que eu pretendo compartilhar o que eu aprendi, o que eu aprendi naqueles mais de 20 anos que eu era jornalista e compartilhar também os erros, porque eu acho que os jornalistas falam muito pouco dos seus erros e os nossos erros não têm reparação, eu aprendi isso muito cedo. É um livro de final de ciclo, mas eu também não sabia, porque naquele momento eu pensava que o Brasil ia entrar em um outro momento, sem grandes rupturas, e que eu ia poder me dedicar à ficção e tentar de outro jeito, a minha ideia era um pouco essa, fazer poucas reportagens e fazer mais ficção.

Brum nasceu no interior do Rio Grande do Sul, em Ijuí, e teve uma infância complicada. “Alguns creem que as memórias da primeira infância ou são boas ou não existem, temerosos de que até o mito da infância feliz lhes escape. São os que preferem não lembrar. Eu lembro muito, sempre lembrei”. (BRUM, 2017b, p. 11)

Ela diz em meus desacontecimentos que quase morreu diversas vezes na infância. Nasceu frágil e ficava muito doente. Além disso, grande parte das suas lembranças de infância estão atreladas à sua irmã Maninha, como chama, que morreu aos cinco meses, cinco anos antes do nascimento de Eliane Brum. Grande parte das memórias contidas no livro são atreladas às mortes que a rodeavam. A de sua irmã, sua avó, a de sua tia. Mas a que ainda marca a existência de Eliane é a de Luzia, professora de seu pai, que, ao chamá-lo pelo nome, o fez reconhecer-se ser humano. O pai da jornalista levava a filha para ver o túmulo de Luzia, o que posteriormente se tornou um costume para Brum.

eu acho que a morte vai me passando, desde a morte mortífera, essa que te paralisa e que a palavra me arranca dessa morte que paralisa, para a morte viva da Luzia. Eu acho que eu vou sempre desafiando essa morte, a minha vida é desafiar essa morte e pegar a morte que me faz ser viva.

Apesar de explicitar que sua busca pela morte silenciada se iniciou em 2008, com a reportagem sobre Ailce, é explícito em seus trabalhos de reportagem anteriores a esse, a presença da morte. Por isso, além da reportagem supracitada, utilizo mais duas que foram publicadas anteriormente, A casa de velhos, em que Eliane conta o cotidiano de velhos na Casa São Luiz para a velhice, um abrigo do Rio de Janeiro – RJ, e Expectativa de vida: 20 anos, um relato sobre mães de filhos mortos pelo tráfico, em favelas do Rio de Janeiro – RJ, São Paulo – SP e Fortaleza – CE.

Utilizo a morte como o que une todos os elementos que trago para contar a trajetória de Eliane Brum, porque compartilho com ela o pensamento de que a nossa morte é silenciada, de que somos induzidos culturalmente a não pensar sobre a nossa finitude, assim como a finitude do outro. Nem sobre todas as finitudes que nos rodeiam diariamente. “Morrer é lidar com dois fatos intrínsecos à vida humana: impotência e falta de controle. Por isso, talvez, a morte tenha se tornado tão envergonhada. Ela nos lembra do que gostaríamos de esquecer.” (BRUM, 2017, p. 307)

Morin (1997) vê a morte como algo humano e pensado pelos humanos, que foi ressignificado no pós-guerra. As instituições sociais, segundo o autor, colocam um peso social diante do sujeito, ao se colocarem acima deles. Assim, a morte pode ser vista de duas maneiras: a primeira, em prol de uma nação, como no caso dos soldados de guerra. A segunda, aquela que nos causa medo, uma consequência da nossa finitude. E, como disse, o que acaba fazendo com que não saibamos lidar com ela.

Assim, Scharamm (2002) traz a morte, a finitude, como a consequência do nosso ser sendo, que é como Heidegger (2007) entende o nosso ato de ser no mundo. O autor acrescenta ainda a vulnerabilidade do nosso ser, como intrínseca à fatalidade da nossa vida. Nós morremos porque estamos vivos, mas preferimos não pensar sobre isso e colocamos, então, uma culpa imensa sobre os nossos corpos e sobre os corpos dos outros. As situações da vida, porém, são mediadas pelas finitudes.

E Brum tem consciência disso. “A morte me faz ter uma vida viva, o meu desafio é esse, que não é só a morte concreta, a morte do corpo, mas a morte de todas as maneiras”. Segundo ela, isso é o que dá sentido às suas narrativas, pois, como disse na entrevista, ela pensa sua escrita como uma escrita sobre insurreições e, para ela, inventar a vida, é uma grande insurreição “e é esse desafio que faz a vida ser viva e a morte nos lembra disso e essa é a trama que eu vou percebendo na minha escrita.”

É o que a jornalista diz em sua escrita memorialística, quando entende a importância do jornalismo para ela. “A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.” (BRUM, 2017, p. 61).

4.3. Percurso Metodológico na Imersão na Trajetória Social de Eliane Brum

O meu reencontro imersivo com a narrativa de história de vida da jornalista Eliane Brum se dá mais profundamente neste tópico, com a minha busca de encontrar, a partir de sua trajetória social dentro do jornalismo, indícios de sua memória em suas narrativas jornalístico-literárias, a partir da reconstituição de parte dessa trajetória. Dessa forma, nas linhas que se seguem, conto sobre como a morte aparece em sua narrativa memorialística, através de meus desacontecimentos, e, imerjo em três de suas reportagens do livro-reportagem O olho da rua, para encontrar esses indícios de memória de experiências narradas pela jornalista em seu livro memorialístico e na entrevista que fiz com ela.

Para tanto, traço aqui as três ordens de realidade para essa reconstituição. São elas, segundo Bertaux (2010), a realidade histórico-empírica (o percurso biográfico de Eliane Brum), a realidade psíquica e semântica (o que Eliane Brum sabe e pensa sobre seu percurso biográfico) e a realidade discursiva (o que Eliane Brum diz do que sabe sobre si). “A análise de uma entrevista biográfica tem por objetivo explicitar informações e significações pertinentes nela contidas.” (BERTAUX, 2010, p. 107)

Porém, para a análise neste trabalho, utilizo não apenas a entrevista, mas como seu livro memorialístico meus desacontecimentos e três reportagens de O olho da rua. O que Bertaux (2010) diz sobre a fusão dos horizontes entre o pesquisado e o pesquisador, aqui torna-se uma ideia mais ampliada, já que esses horizontes estão dispersos em diversas fontes de pesquisa, com as quais, a partir de sua interpretação, encontro indícios que falam sobre o mundo social ao qual pertencem. Esse mundo social é o jornalismo, em que tanto eu, graduanda em jornalismo, quanto Eliane Brum, jornalista há 30 anos, estamos inseridas.

Toda narrativa de vida traz, simultaneamente, elementos de informação e indícios relativos a fenômenos situados em níveis muito diversos: estruturação inicial da personalidade do sujeito em habitus, aprendizagens culturais e profissionais, transformações psíquicas posteriores, tipo habitual de conduta, histórico de relações do sujeito com seus próximos (os significant others de G. H. Mead, expressão que F. de Singly propõe traduzir por “outrem significativo”) relações sociais, “objetivas”, ou melhor, objetivadas, próprias de determinado mundo social, definindo lugares (posições, status), papéis, normas e expectativas e conduta, jogos de rivalidade, de concorrência, de conflito aberto ou não declarado; mecanismos sociais, lógicas sociais, processos recorrentes; fenômenos culturais, semânticos, simbólicos. (BERTAUX, 2010, p. 111-112)

Todos esses fenômenos são reduzidos a três principais níveis de significação que, segundo Bertaux (2010) são campo e habitus - ao citar Bourdieu (1986) - e as relações intersubjetivas fortes (aquelas que são duradouras), já que elas podem interferir no percurso do indivíduo que conta sua narrativa de história de vida. Para falar das relações intersubjetivas fortes e do habitus que Eliane Brum está inserida conto, no próximo subtópico, sobre a experiência de vida de Eliane Brum relacionada à morte, para que entremos no campo, que se iguala a ideia de mundo social e, portanto, é o jornalismo.

Por meio da imersão na narrativa jornalística de Eliane Brum, feita no subtópico 4.3.2, é possível encontrar os níveis de significação que nos fazem encontrar indícios de sua memória atrelada às suas interrelações com a família e suas experiências vividas, para, dessa forma, ao fim deste capítulo, tecer generalizações sobre a práxis jornalístico-literária, o que contempla o objetivo maior desta pesquisa, que é compreender como a experiência de vida e formação do jornalista está imbricada em sua práxis jornalístico-literária.

4.3.1. A Experiência de Vida e Formação de Eliane Brum e a Práxis Jornalístico-Literária

Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras é um livro de caráter memorialístico que teve sua primeira publicação em 2014 e sua segunda edição em 2017. No livro, Eliane Brum conta como encontrou-se em vida por causa das palavras em um emaranhado de memórias de sua infância, unindo-as com o seu Eu no momento em que escreveu.

A jornalista conta que seu primeiro escrito, aos oito anos, se chamou Autobiografia de uma barata, e, sobre ele, Brum (2017b, p. 87) afirma ter sido o momento em que nasceu. “ainda que sem leitores, eu tinha descoberto um modo de dar vida e permanência pela palavra escrita. Dar um corpo e letra aos meus cadáveres. Hoje, barata adulta, escrevo, como tantos outros, na ilusão de enganar a morte”.

Foi a primeira vez que a jornalista falou sobre morte, mas não foi a última. As palavras que marcaram o início de sua vida continuaram em seu repertório muito depois. Lembro o que Bergson (1999) fala sobre as nossas escolhas. Cada palavra dita representa o nosso repertório adquirido ao longo da vida. Nossas experiências moldam nossas escolhas, mesmo que não lembremos delas.

Quando Eliane Brum explica sobre a escrita do seu livro memorialístico, conta ter andado em círculos pela sua infância. “Tantas vezes acreditei estar avançando, mas apenas retornava à infância, em círculos cada vez mais apertados. E este, apesar do que parece, é todo o avanço possível. Até morrermos em posição fetal.” (BRUM, 2017b, p. 18).

Porém, mesmo que não estejamos percorrendo as nossas lembranças, todas a nossas memórias nos fazem ser quem somos. Brum (2017b, p. 11) diz que “a morte é o mundo sem palavras. E é curioso que minha primeira lembrança seja a morte. Como se eu tivesse nascido morta.” Assim, para ela, as palavras a trouxeram a vida. Escrever, para ela, é o que a faz não morrer, mas também não matar.

É o jornalismo que a faz não matar. Ela expõe o que considera estar entranhado em sua garganta, a impedindo de causar incêndios. E isso está entremeado na sua práxis jornalístico-literária: narrar, descrever, para que o leitor possa “olhar para ver” a realidade narrada. A cada livro, Eliane Brum encontra uma ruptura em sua linha de vida. Sobre meus desacontecimentos, conta que “com este livro, um corpo morreu. É preciso encontrar a forma de outro. Um percurso que, em mim, se faz com palavra e carne.” (BRUM, 2017b, p. 16)

O que a levou a escrevê-lo foi seu encontro com Sônia, menina que sofria de doença de Chagas e Eliane Brum conta a história em sua reportagem sobre o médico sem fronteiras. Como conta na entrevista: “eu sempre consegui elaborar e viver por conta da escrita e de repente eu percebo que a escrita não pode salvar a vida da Sônia”.

Perdi sete quilos em duas semanas. E seguia congelada na mesma cena. Para mim, escrever havia sido sempre o que me impediu de matar e morrer. Desde criança era o que me fazia acordar pela manhã e ancorar até o fim do dia. E então, de repente, eu havia descoberto que escrever era insuficiente. (BRUM, 2017, p. 362)

Porém, a jornalista explica que, neste momento, constatou que “a gente pode, pode um pouco e esse pouco é muito grande e esse pouco é o possível e o possível sempre foi o impossível que depois virou possível”. E foi então que conseguiu voltar a escrever, com seu livro memorialístico inclassificável meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras.

E se a escrita é o que a mantém viva, Brum conta que quer morrer inventando vidas. “Com a idade que eu estou, a gente já consegue enxergar a trama da vida que eu tive até agora, porque agora eu estou inventando uma outra vida e quero morrer inventando vidas. É o que ela faz através de sua práxis jornalístico literária. E o faz porque o jornalismo literário a permite.

4.3.2. A Imersão

É a partir da narrativa jornalístico-literária de Eliane Brum que traço minhas compreensões sobre a práxis. Para tanto, escolhi três reportagens de seu livro-reportagem O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real, que foi publicado primeiro em 2010, ganhando uma edição revisada em 2017. O livro é uma reunião de reportagens da jornalista que foram publicadas em sua coluna na Revista Época entre os anos 2000 e 2008.

Por ordem de publicação, começarei adentrando nas interrelações entre práxis e experiência de vida na sua reportagem A casa de velhos, publicada em 24 de dezembro de 2001, em seguida irei tecer interpretações a partir de Expectativa de vida: 20 anos, datada de 3 de abril de 2006 e, por fim, a reportagem que marcou o início da busca de Eliane pela morte silenciada, Vida até o fim, que ganhou seu espaço na Revista Época em 18 de agosto de 2008.

Logo, para compreender como a experiência de vida da jornalista está imbricada em sua práxis jornalístico-literária, escrevo e descrevo nas linhas que virão as intersecções entre sua práxis, com as reportagens, e sua história de vida, com trechos de seu livro memorialístico meus desacontecimentos e da entrevista que fiz com ela. Segundo Bertaux (2010), a função da narrativa no método etnossociológico das narrativas de vida é fornecer indícios do espaço-tempo histórico ao qual o indivíduo se insere. Dessa forma, é feita uma análise descritiva e interpretativa dessa narrativa para que, a partir dela, emerjam generalizações sobre o mundo social ao qual faz parte.

4.3.2.1. A Casa de Velhos

A casa de velhos traz relatos de velhos que habitavam a Casa São Luiz para a velhice, no Rio de Janeiro. Eliane Brum passou uma semana habitando a casa, seguindo a mesma rotina dos velhos que tiveram suas narrativas contadas na reportagem. A morte silenciada por eles até então, ficou eternizada em seus relatos através da reportagem. Logo nos primeiros parágrafos, Eliane Brum diz que

Foram deixados ali deixados ali porque outros decidiram que o tempo deles acabou. Lançados numa casa que não é sua, entre móveis estranhos, faces que não reconhecem, lembranças que não se encaixam. Reduzidos a contar uma história que ninguém quer ouvir porque já passou. (BRUM, 2017, p. 77)

Essa não é a primeira vez que Eliane conviveu com a velhice. Em meus desacontecimentos, ela conta sobre a convivência com sua avó e com sua tia, no fim de suas vidas. A jornalista ainda convive com as memórias deixadas com ela, tanto em seu psicológico quanto materialmente. Brum (2017b) conta sobre uma das visitas que fez a sua tia Nair no pequeno povoado em que morava, em que as duas conversavam sobre as comemorações do dia dos mortos. “Na minha infância o povoado era mais habitado pelos mortos do que pelos vivos. E aprendi com a minha tia Nair que a melhor maneira de homenagear os que partiram era viver.” (BRUM, 2017b, p. 66)

Assim, em A casa de velhos, Eliane Brum fala diversas vezes sobre a morte por velhice. Aquilo que chama na entrevista de “morte morrida”. Por isso também, a jornalista tem uma inferência sobre a casa destinada a acolher tal morte: “também a casa é uma anciã, com 111 anos de existência desenrolados no bairro carioca do Caju, o mesmo do cemitério, destino final de todos que estão ali.” (BRUM, 2017, p. 78)

Brum (2017, p. 80) pensa sobre a velhice, entendendo que “perto do final, a vida torna-se um filme em que se desejaria acrescentar personagens, eliminar cenas, avivar as cores da fotografia. Trocar a trilha de música de elevador por um heavy metal. Ou um tango de Piazzolla”. Aos que escapam de uma morte precipitada, sem prévias, Brum (2017, p. 80) acrescenta sobre a história de um dos velhos que compõem a reportagem: “Deus lhe havia concedido tempo para preparar-se para a morte. Guilherme decidiu então a canção dos seus derradeiros dias.”

Após isso, o que a jornalista destaca sobre Vicente, um dos velhos relatados, que tinha medo de morrer, lembra muito o que passou em sua infância. Ela diz que “descansar é tudo o que ele não quer. E quem desejaria, com a eternidade espreitando logo ali, na próxima curva?” (BRUM, 2017, p. 87) Porém, na sua vida de quase morte, como conta em meus desacontecimentos, quando fala das quase mortes que teve na infância e das mortes que a faziam ser um “eu túmulo”, ela também não queria descansar, se encontrava debaixo das sombras da morte de sua irmã e de suas doenças contínuas. “A pequena morte que é dormir, na minha fantasia, assumia a possibilidade concreta de tornar-se a morte definitiva. Eu veria a outra crescer do meu túmulo.” (BRUM, 2017b, p. 13)

Aqui, encontro indícios de memória na narrativa jornalística de Brum. Lembro o que Bergson (1999) explica sobre as memórias estarem guardadas em nosso arquivo ídeomotor e não precisarem ser acessadas para que interfiram em nossas escolhas. Existem muitos enquadramentos, muitas direções para as quais apontar nossos olhos, mas o lugar para onde os nossos olhos se direcionam perpassam todas as experiências anteriores arquivadas, e, a partir da reportagem é perceptível as diversas vezes em que seus olhos se direcionam à experiência da morte.

A casa de velhos também traz inferências sobre a morte cotidiana. Brum disse na entrevista que a cada noite estamos menos vivos. Mas há também as mortes cotidianas, mortes de sentimentos, do fim de um dia, o fim de ciclos. Brum (2017, p. 97) conta que “os [velhos] pobres levam para o portão uma mala com menos roupas e mais capacidade de reinvenção. Reduzidos ao mínimo desde sempre, chegam ali versados na arte de agarrar o possível. Seu lamento sempre morreu no peito”.

Eliane Brum lembra através de Rossi, uma das velhas que têm sua narrativa trazida, da morte que a faz ter “uma vida viva”. Brum (2017, p. 97) conta que “a costureira Rossi Rodrigues descobriu que, se aceitasse o mundo dos vivos, acabaria partindo para o dos mortos, fatalidade cuja possibilidade sempre lhe pareceu de muito mau gosto.” E cita ainda uma das falas de Rossi, que diz “eu vim pra cá pra viver, não para morrer”.

Na entrevista que fiz com a jornalista, ela lembra repetidamente de como a morte a faz se perceber vida, o que demonstra que as experiências dela, tanto anteriores à reportagem quanto as que aconteceram durante a realização a tornam o que ela é, na perspectiva de Nietzsche (2008), já que sempre recorrem às suas memórias, sua tradição, e, na perspectiva de Gadamer (1997) ampliam os horizontes da jornalista.

4.3.2.2. Expectativa de Vida: 20 Anos

A partir da história de vida de Sérgio Cláudio, o Fortalece, um sobrevivente do tráfico, Eliane Brum retrata a vida dos meninos que moram “do lado de cá” das cidades, em favelas do Rio de Janeiro, São Paulo e Fortaleza. Na reportagem, Brum (2017, 0. 161) explica que “a regra para adolescentes como ele é morrer - e não viver”.

Os meninos do tráfico estão a um quase da morte. São crianças com essa força, a de viver com a probabilidade do fim no minuto seguinte. A insanidade do menino está no excesso de lucidez: “Se morrer nasce outro como eu. Ou melhor, ou pior. Se morrer vou descansar. É muito esculacho nessa vida”. Morreu. (BRUM, 2017, p. 165)

Porém, após contar este aspecto da vida dos meninos do tráfico, já anteriormente retratado em Falcão - meninos do tráfico9, documentário dirigido por MV Bill e exibido no fantástico, Eliane Brum busca retratar o outro lado dessa história, o das “mães vivas da geração morta” (BRUM, 2017, p. 175). No entanto, não é a primeira vez em que convive com mãe de filho morte. Brum conheceu essa dor ainda pequena, com sua mãe.

Nasci não de um, mas de vários túmulos. O primeiro deles foi o corpo da minha mãe, assassinado pela morte da criança que veio antes. Uma menina, a primeira menina. [...] Não tive a coragem de perguntas, mas imagino o quanto deve ter sido aterrorizante para a minha mãe descobrir seu útero se expandir, a pele da barriga espichando, o corpo habitado de novo, agora pelo pequeno alien que era eu. Deve ter sido assustador ver o que era morto viver, ou pelo menos parecer vivo. (BRUM, 2017b, p. 12)

A causa era diferente. As mães do tráfico conviviam com a violenta dor de ver os corpos de seus filhos cheios de sangue ou de nem encontrá-los. Mortes causadas pelos próprios traficantes ou pelo conflito com a polícia. Eliane Brum (2017, p. 175) entende isso textualmente: “a morte não tem apenas idade, mas cor e classe social”. Essa é “a dor que a devasta é deixada pelos que se foram de “morte matada”. Essa, segundo Selvina, é a morte sem esquecimento.” (BRUM, 2017, p. 176)

A morte assombra as mães do tráfico e faz com que os demais filhos vivam à sombra dos que partiram. Brum retrata a avó que fica na espreita à espera do neto que brinca na rua, a mãe que financia o caixão do segundo filho. “Os garotos que morreram, os garotos que ainda não morreram, os garotos que ainda vão pegar em fuzis e morrer depois. E as mães que choram.”, conta Brum (2017, p. 181).

Essa dor que permeia a vida dessas mães, também permeou a relação de Eliane com sua mãe. Ela conta que era levada constantemente para visitar o caixão de sua irmã, que viveu em uma casa escura porque a outra, cheia de luz e vida, carregava a lembrança da morte de Maninha, o que seus pais não gostariam de lembrar.

[...] eu, a filha viva, sentia que a viva era a outra. E, mais morta que viva, eu falhava em fazer renascer as partes ausentes da minha mãe. Só muito mais tarde eu descobriria que esta é a sina dos filhos que sobrevivem, chapinhando no lago escuro e sem fundo que é a dor sem consolo de pais órfãos. (BRUM, 2017b, p. 12)

Essas experiências de Eliane Brum a formaram. Josso (2004) conta que as experiências formadoras nos impulsionam para aquilo que somos. Já Dewey (2011) explica que as experiências que nos formam não são somente aquelas que foram boas, mas também as ruins. Apesar de ele falar sobre isso no âmbito educativo, isso também acontece quando se tratam de experiências cotidianas, as experiências ruins também são memórias que direcionam as nossas escolhas, como diz Bergson (1999).

Por isso, essas mães órfãs, que carregam os olhos tristes descritos por Brum (2017), também carregam a descrição das mulheres “heroínas” que fizeram parte da história de vida da jornalista e que Eliane Brum (2017b, p. 27) retrata tão bem ao dizer que “no mundo onde eu nasci, ser mulher era suportar a vida.” Assim fizeram as mulheres que rodearam a sua infância, assim fazem as mães do tráfico, mesmo que com realidades completamente diferentes. Brum, dessa forma, conferiu narrativamente os papeis aos personagens que fizeram parte de sua vida, ao narrativizá-la. Segundo Delory-Momberger (2008), isso é o que faz com que o indivíduo se entenda pertencente a uma história, já, para ela, é através da narrativa que esse movimento acontece.

4.3.2.3. Vida Até o Fim

A matéria que se passa diante da enfermaria entre a vida de a morte e do relato dos últimos dias de Ailce, é a primeira da busca de Eliane Brum pela morte silenciada. Como mostrei nas análises anteriores, Brum já se direcionava até essas mortes, talvez não conscientemente. Porém, aqui as percepções sobre a morte ficam mais fortes e contornadas. Em meus desacontecimentos, quando conta de suas quase mortes na infância, a jornalista explica que

Décadas mais tarde, entre 2008 e 2010, eu empreenderia como repórter uma travessia funda pela morte. Não a morte violenta que está nos jornais, mas a morte silenciada - e silenciada porque será a morte que a maioria de nós terá. A morte por doença, a morte por velhice. (BRUM, 2017b, p. 20)

Vida até o fim tem como cenário a Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, apelidada “enfermaria da morte”. As primeiras páginas da reportagem se dedicam aos relatos de pacientes que foram levados à enfermaria para passar os últimos dias de suas vidas vivendo até o fim. As últimas páginas contam os últimos 115 dias de Ailce, uma paciente com câncer.

Assim como as experiências com a morte vivenciadas por Brum a fizeram entender a sua vida, em sua tessitura, um dos personagens da enfermaria, o João, “sabia que morreria, mas tinha descoberto também o que o fazia viver.” (BRUM, 2017, p. 301). E assim a ternura da morte é contada através da reportagem. A mesma morte que causa medo, também se torna mais viva que a própria vida.

Num lugar onde as pessoas morrem, há sempre alguém rindo, contando uma história, pequenas grandes cenas como a que abre esta reportagem. E a tristeza é amenizada pela convicção profunda de quem sofre de não estar sozinho, nem para enfrentar a dor física da doença nem para lidar com a dor psíquica da proximidade da morte. (BRUM, 2017, p. 303)

E é nessa convivência constante com a morte que Brum pensa sobre a morte na sociedade pós-moderna, os hospitais, evolução de pesquisas farmacêuticas e tecnologia na área da medicina. “O grande embate travado naquele que desde o século 20 é o altar da morte, o hospital, e pelos seus sacerdotes modernos, os médicos, questiona os limites da prática médica diante do fim da vida.” (BRUM, 2017, p. 303). Citando Marcelo Min, a quem Brum faz homenagem no fim da edição revisada de O olho da rua, “nascer e morrer é a mesma coisa”.

A morte se torna mais palpável na experiência de Brum quando ela escreve sobre. Como ela conta na entrevista, ela não tem noção disso até a publicação de cada livro ou reportagem. Só após o fim de cada publicação, ela percebe o que a provocou a fazer tal narrativa. “Começamos a morrer no exato instante em que começamos a viver. E hoje estamos mais mortos do que estávamos ontem.” (BRUM, 2017, p. 306)

Tornou-se deselegante sofrer em público por algo de tão mau gosto como a morte. Com a desculpa social - fornecida pelos outros, não por nós - de que precisamos de solidão para lidar com a perda, nosso telefone para de tocar. (...) Se morrer é inevitável, o melhor a fazer é evitar qualquer um que nos obrigue a pensar no assunto. (BRUM, 2017, p. 306-307)

Brum (2017, p. 310) diz ainda que “diante da iminência da morte, tudo o que se pode decidir é como viver até o fim”. E é isso que a jornalista acompanha durante os 115 dias com Ailce, como aquela mulher que, quando pensou ter se libertado, ficou presa por causa do câncer, viveu seus últimos dias. Para Brum (2017, p. 318). “perto da morte, a vida fica mais nua. E as contradições se explicitam. Morre-se como se vive, só que com mais radicalidade.”

Aquela que quando criança foi “Eulápide” (BRUM, 2017b, p. 13), como diz em meus desacontecimentos, acompanhou Ailce enquanto “sua morte chegava exigindo metáforas”. Brum passou a ligar todos os dias depois do almoço para a sua personagem e a visitá-la uma vez por semana. Acompanhou cada dia dos 115 que passou com ela.

Ailce percebe que não há como dar sentido à morte, mas ela pode dar sentido à vida. Só assim poderá suportar a superfície fria de um fim que já toca com as mãos. Para viver tão perto da morte, ela precisa adivinhar a tessitura da vida. Do contrário, só lhe resta aquelas mangueiras sintéticas [os drenos]. (BRUM, 2017, p. 327)

Brum diz nunca ter perguntado sobre a doença utilizando a palavra câncer, nem ter falado em morte antes de Ailce. Assim como a maioria em nossa cultura, Ailce sabia da proximidade da morte, mas preferia ignorar. “Intuitivamente ela sabe que sua sanidade depende de enfrentar o caos da vida, mais do que o da morte, que é só um ponto final, em geral improvisado.” (BRUM, 2017, p. 327)

Porém, também percebe-se que a vida em nossa sociedade está associada à produtividade e ao não depender do outro. Brum (2017, p. 339) intersecta a vida de Ailce com isso: “Descubro ali que ela morrerá quando não puder mais segurar a xícara. Morrerá quando o último vestígio de autonomia escapar de suas mãos e espatifar no chão.” Ailce buscou segurar sua própria xícara até o fim.

Esses indícios de memória que nos fazem perceber a experiência de vida e formação de Eliane Brum em sua narrativa jornalístico-literária, ficam claros porque o jornalista, nesta práxis tem a possibilidade de se colocar textualmente. É o que Martinez (2016) fala sobre o jornalista que escreve em jornalismo literário ser livre das amarras do jornalismo tradicional, quando se pensa em obrigação com a objetividade e com formatos pré-impostos ao texto. Hartsock (2019) explica que isso é a estética da experiência diária e isto é percebido nos trechos destacados de Vida até o fim.

No relato sobre sua convivência com a personagem da reportagem, que se segue após a reportagem em O olho da rua, a jornalista conta o que aprendeu. “Nesses 115 dias que vivemos lado a lado, Ailce me mostrou que o que eu entendia como morte era vida. E foi isso que ela me legou: no final da sua vida, ela deu um recomeço para a minha vida. Agora, pela escrita, eu devolvo a ela a sua.” (BRUM, 2017, p. 352)

Em meus desacontecimentos Eliane Brum (2017b, p. 49) conta que quando era criança quase morria muito e descreve uma de suas visitas ao hospital: “Foi a primeira vez que senti o cheiro vivo da morte.” Com Ailce, a jornalista pode senti-lo novamente e compreender, mesmo que minimamente, como é viver até o fim. Essas experiências que, como diz Larrosa (2002), são o que nos passam, nos acontecem, segundo Josso (2004) também nos formam. A partir dos relatos feitos por Eliane Brum, é possível compreender como a convivência com Ailce a formou.

4.3.2.4. A Generalização

A práxis jornalístico-literária, portanto, permite ao jornalista inscrever-se claramente no texto. O jornalista, ser humano, indivíduo carregado de experiências que, junto às suas vivências, o formaram o que são, como são, é inserido no contexto narrativizado, como também pertencente à sociedade na qual se insere.

As noções de objetividade e subjetividade já não são separadas como se fossem companheiras que não conseguem conviver. Elas cumprem, cada uma, o seu papel. A subjetividade faz do jornalista um ser humano, que tem um olhar humanizado. A objetividade traz a narrativa para a realidade a qual se insere, faz com que o indivíduo narrado e o jornalista estejam inseridos em um espaço-tempo. Faz de cada indivíduo um ser histórico.

Perceber na trajetória social de Eliane Brum a forma como sua experiência de vida e formação afetam sua forma de fazer jornalismo, o mundo social ao qual está inserida, é entender como acontece a práxis jornalístico-literária em seu saber-fazer. Encontro nos indícios narrativos deixados por Brum, aquilo que mostra parte do como acontece/o que está imbricado no jornalismo literário.

A morte, a ponte para que acontecesse a fusão dos horizontes que fundamentaram essa análise, foi o que me fez perceber como a experiência de vida e formação está imbricada à práxis jornalístico-literária. O que me mostrou que as escolhas do jornalista perpassam todas as suas experiências anteriores e que os fazem direcionar-se para as pautas. As palavras, a forma com que a narrativa é constituída, perpassam isso: memórias arquivadas.

As suposições aqui traçadas reencontram-se com a minha pergunta inicial: como a experiência de vida e formação está imbricada na práxis jornalístico-literária de Eliane Brum? E tal resposta se deu, ao decorrer do trabalho, através das teorizações feitas e, também, das análises interpretativas feitas neste capítulo.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O que experienciamos ao longo de nossa vida está, para Bergson (1999), em nosso arquivo ídeomotor, que é carregado de memórias, mas elas não estão restritas a esse arquivo. Nossas memórias, apesar de já terem passado, não se aprisionam no tempo pretérito, elas estão em nossas ações presentes e, também, em nossas escolhas futuras. Portanto, perceber a experiência de vida e formação da jornalista Eliane Brum em suas narrativas, nada mais é que encontrar indícios dessas memórias em sua práxis jornalístico-literária, na escolha das pautas, na colheita das narrativas do Outro e na escrita.

No decorrer da pesquisa, é possível entender que, como a escuta de narrativas de histórias de vida é o principal agente que constrói a narrativa jornalístico-literária, e, com a união das técnicas da escrita literária às técnicas jornalísticas, torna-se admissível que o jornalista se coloque em seu texto, em primeira pessoa ou não, incluindo sua subjetividade e a subjetividade do Outro, sendo de onde emergem as interpretações. E, por essa admissão do subjetivo, é mais compreensível encontrar traços do Eu jornalista circunscrito na narrativa.

No entanto, não posso descartar que essa subjetividade também pode ser encontrada no jornalismo factual, já que se trata de uma pessoa escrevendo, com seu vocabulário, forma de formular frases, escolhas, pontos de vista. O que é possível distinguir um nicho do jornalismo de outro é a forma como as verdades aparecem. No jornalismo factual, as evidências documentais, e os relatos testemunhais comprovam a verdade. No jornalismo literário, isso se dá através, principalmente, da ética, que apesar de permear todas as áreas da profissão, na práxis jornalístico-literária, se torna fundamental por se tratar na maioria das vezes de narrativas de histórias de vida. Além da ética, essas narrativas podem ser comprovadas por sempre estarem inseridas num espaço-tempo e pelo encontro do jornalista com o entrevistado poder ser o que Gadamer (1997) chama de diálogo genuíno.

A partir da temática morte, encontrei interrelações entre a história de vida de Eliane Brum e sua práxis jornalístico-literária, já que esse tema é tratado em seus textos jornalísticos, mas também está presente em sua narrativa de vida. Dessa forma, através das reportagens A casa de velhos, Expectativa de vida: 20 anos e Vida até o fim, percebi o olhar da jornalista em direção à morte, que ela já havia experienciado de diversas maneiras, como conta em meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. Além disso, compreendi, através da entrevista que fiz com a jornalista, a tessitura que forma sua trajetória social no mundo social ao qual se insere, o jornalismo.

A partir dessas interrelações e das interpretações que faço dessas interrelações, pude ressignificar e compreender novamente como acontece a práxis jornalístico literária. Para tanto, não levei em conta as influências externas ao indivíduo que pratica. É o jornalista quem vai a campo, quem se depara com o Outro e sua narrativa de vida, quem, como disse Eliane Brum na entrevista que fiz com ela, pare o texto. Por isso, considero esse indivíduo jornalista como aquele que está presente no texto. É o seu olhar, sua perspectiva, sua maneira de ver o mundo.

Não excluo a participação da empresa, nem do editor no fazer da práxis jornalístico-literário. Porém, no jornalismo literário essa interferência é menor, já que como diz Martinez (2016), poucos fazem, pois ele depende do estilo próprio de cada jornalista que o faz, por não ser pré-formatado. E, também por isso, perpassa experiência, formação, tradição. É a partir de sua história que, em campo, o jornalista encontra o embate através diálogo genuíno, que tornará seu texto uma interpretação, uma verdade.

Tecer compreensões sobre como a experiência e formação da jornalista Eliane Brum está imbricada em sua práxis jornalístico-literária, que é o objetivo desta pesquisa, fez com que este processo de pesquisa me trouxesse muito além das palavras escritas. Ao reunir e compreender teorias sobre experiência, formação, memória, narrativa, jornalismo literário e método etnossociológico das narrativas de histórias de vida, pude traçar a trajetória social da jornalista Eliane Brum, fazendo inferências com/sobre a a práxis jornalístico-literária. Mas, além disso, pude compreender o meu processo de formação nesse entremeio, meu processo de tornar-se o que se é.

Falei na introdução que esta pesquisa é um caminhar para mim, fazendo paráfrase à Josso (2010) e isto é ainda mais perceptível agora. Todas as teorias supracitadas fizeram parte do meu processo de formação durante a graduação e, ao reuni-las, escrevo também uma parte do meu processo de aprendizado como pesquisadora e como jornalista. Digo que a experiência e formação do jornalista está imbricada em sua práxis porque percebo que a minha experiência e formação está imbricada neste texto, já que, de acordo com Delory-Momberger (2008), o nosso texto nos contém.

Nesse círculo hermenêutico de compreender, interpretar e reinterpretar, segundo Gadamer (1997), os níveis de significação são alargados. Portanto, as compreensões que fiz a partir da escrita deste trabalho, aconteceram a partir da intersecção com as teorias que foram lidas, relidas e regurgitadas durante o processo de produção. As horas de leitura, a experiência da escrita, os anseios, os medos, todos estão presentes nestas linhas que se encerram com estas considerações. Deixo aqui os meus Eus dos últimos meses, que carregam os meus Eus de todos os meus anos de vida.

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1 Bacharel em Comunicação com habilitação em Jornalismo, mestranda em Memória, Linguagem e Sociedade na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Campus de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0009-6241-4405

2 Doutora em Educação (UFBA) e docente do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Campus de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7708-6445

3 BRUM (2017, P. 362) diz que “meus desacontecimentos, assim, em minúsculas, tornou-se um pequeno livro inclassificável, no qual uma mulher adulta percorre a infância para refazer, agora de forma consciente, seu parto de letras.”

4 In defining “aesthetics” in the “aesthetics of experience,” I do not mean “the beautiful” as is often associated with the term by refined aesthetes who have assumed the term for their own ends (HARTSOCK, 2019, p. 2).

5 Journalism (and more broadly documentary) deals in the end with phenomenal consequences. But again fiction deals with imagined allegorical prospects or hypotheticals (which is not to dismiss that there can be value to such prospects or hypotheticals). (HARTSOCK, 2019, p. 12).

6 As explored in greater detail elsewhere, the rhetorical ambition of the hard news model, known as the inverted pyramid, digresses from the narrative and descriptive modalities that dominate in a narrative literary journalism by emphasizing discontinuity in which the specificity and distinctiveness of the chronotopes selected from discrete times and spaces descend in a growing detail relegated to a decreasing order of importance so that what is discrete—what resists volatilization into abstract ether—has a declining claim to cognitive value. (HARTSOCK, 2019, p. 7).

7 The inverted pyramid violates that chronicity because it is subject to an overarching ambition: “What is most newsworthy here?” The intent, then, is analytically digressive (and moves in an expository direction). (HARTSOCK, 2019, p. 7).

8 One reason an understanding of the dynamic nature of the chronotope as both phenomenon and metaphor is necessary in appreciating the peculiar nature of a narrative literary journalism is perhaps obvious: We do need to acknowledge our phenomenal world in an epistemological act, given that the epistemological act is the only recourse available for conveying to others the experience of our existential condition. (HARTSOCK, 2019, p. 12).

9 O documentário, segundo Brum (2017), foi produzido por MV Bill, Celso Athayde e pelo complexo audiovisual da Central Única de Favelas entre 1998 e 2006. A produção conta a história de 17 jovens envolvidos com o tráfico em favelas brasileiras. O que mais chamou a atenção no documentário foi que 16 dos 17 jovens foram mortos durante a sua produção. Eliane Brum foi a primeira a contar a história do único sobrevivente, O Facilita, antes de embarcar na jornada em busca de histórias de mães que tiveram seus filhos mortos, assim como os jovens retratados. O documentário está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=B-s2SDi3rkY.