REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/786659539
RESUMO
Este artigo analisa o fenômeno da evasão escolar de estudantes LGBTQIAPN+ no Ensino Médio da Escola Estadual Tarso Dutra, em Cariri do Tocantins. O objetivo central é compreender as dinâmicas sociais, institucionais e subjetivas que convertem o espaço escolar em um território de hostilidade, culminando na interrupção das trajetórias educativas. Teoricamente, o conceito tradicional de evasão é ressignificado à luz da "expulsão simbólica" e do sofrimento ético-político. O percurso metodológico ancora-se na pesquisa qualitativa de orientação fenomenológica fundamentada em Edmund Husserl, focando na apreensão da essência das vivências no Lebenswelt (mundo-da-vida) escolar. O corpus empírico foi construído por meio da técnica de amostragem "Bola de Neve" (Snowball) e da realização de entrevistas fenomenológicas com cinco colaboradores, metaforizados com nomes de flores do Cerrado: Ipê, Cagaita, Buriti, Sempre-viva e Caliandra. Os resultados revelam a prevalência de uma negligência institucional generalizada, "mantras de exclusão" que fixam os discentes em lugares de inferioridade e o uso de estratégias dolorosas de camuflagem identitária. Conclui-se que a interrupção escolar reflete o colapso do acolhimento humano e a urgência de políticas públicas estruturais e de uma pedagogia da empatia voltada à proteção da alteridade radical.
Palavras-chave: Política Pública; Diversidade de Gênero; Vulnerabilidade Social; Fenomenologia.
ABSTRACT
This paper analyzes the phenomenon of school dropout among LGBTQIAPN+ students in high school at the Tarso Dutra State School, in Cariri do Tocantins. The central objective is to understand the social, institutional, and subjective dynamics that convert the school space into a hostile territory, culminating in the interruption of educational trajectories. Theoretically, the traditional concept of dropout is reframed in light of "symbolic expulsion" and ethical-political suffering. The methodological approach is anchored in qualitative research with a phenomenological orientation based on Edmund Husserl, focusing on apprehending the essence of experiences within the school Lebenswelt (life-world). The empirical corpus was constructed through the "Snowball" sampling technique and by conducting phenomenological interviews with five collaborators, metaphorized with names of Cerrado flowers: Ipê, Cagaita, Buriti, Sempre-viva, and Caliandra. The results reveal the prevalence of widespread institutional negligence, "mantras of exclusion" that fix students in positions of inferiority, and the use of painful strategies of identity camouflage. It is concluded that school interruption reflects the collapse of human acceptance and the urgency of structural public policies and a pedagogy of empathy aimed at protecting radical alterity.
Keywords: Public Policy; Gender Diversity; Social Vulnerability; Phenomenology.
INTRODUÇÃO: O FENÔMENO DA EVASÃO ESCOLAR LGBTQIAPN+ COMO EXPULSÃO SIMBÓLICA
A instituição escolar constitui-se historicamente como um horizonte de possibilidades intersubjetivas onde a subjetividade e a alteridade deveriam se entrelaçar harmoniosamente na construção do fenômeno educativo. Longe de se reduzir a um mero depósito de conteúdos programáticos ou a um aparelho de padronização técnica, a escola revela-se como o palco das vivências primordiais em que o ser humano se reconhece no encontro com o outro. A educação deve ser compreendida como um ato de abertura ao mundo, exigindo que o espaço escolar acolha a pluralidade de sujeitos em sua facticidade. No entanto, quando as estruturas sociais vigentes convertem esse território em um cenário de tensões e controle, o corpo dissidente é empurrado para margens de invisibilidade e violência. Agravando essa conjuntura, a expansão contemporânea de discursos neoconservadores e tradicionalistas fomenta processos contínuos de silenciamento, transformando o espaço de direito em um local de sofrimento psíquico e hostilidade estrutural.
No contexto específico da Educação Básica no interior do estado do Tocantins, a reprodução de atitudes homofóbicas opera frequentemente por meio de dispositivos formais e de currículos ocultos que marginalizam saberes e afetos não hegemônicos. A homofobia na escola manifesta-se frequentemente através da omissão e do silenciamento, o que constitui uma forma de violência simbólica. Essa negligência institucional compromete a permanência do aluno, tornando o espaço educativo um local de insegurança que favorece o abandono escolar. Diante disso, emerge o problema central desta investigação, que busca identificar as causas da evasão escolar de membros da comunidade LGBTQIAPN+, questionando como o preconceito homofóbico e as relações de gênero impactam a permanência estudantil.
A partir dessa provocação, o estudo buscou compreender como tais dinâmicas afetaram o vínculo da comunidade com a educação formal. A hipótese central é a de que o fenômeno do abandono escolar deve ser lido como uma forma de expulsão do sistema, uma vez que as estruturas sociais criam barreiras intransponíveis que empurram o estudante para fora da escola. No caso da população LGBTQIAPN+, essa expulsão é agravada pelo clima de hostilidade e pela falta de segurança no ambiente escolar. A relevância deste estudo situa a Escola Estadual Tarso Dutra, em Cariri do Tocantins, como o principal Lebenswelt onde as tensões sociais e exclusões estruturais se materializam.
Referencial Teórico: Educação, Gênero e a Produção das Margens Ontológicas
A análise das diversidades sexuais e de gênero no território escolar exige a transformação da proteção em uma prática pedagógica ativa de cuidado e escuta. Como discute Daniel Borrillo, a homofobia é um fenômeno que transcende a simples aversão, configurando-se como uma construção social complexa que se perpetua através de instituições e práticas culturais. Um dos conceitos centrais nessa discussão é o da heteronormatividade, que se refere à crença de que a heterossexualidade é a norma e a única forma legítima de sexualidade. Essa ideologia não apenas discrimina aqueles que não se enquadram nesse padrão, mas também perpetua um sistema de opressão que afeta a saúde mental e emocional de indivíduos LGBTQIAPN+. A heteronormatividade, portanto, funciona como um dispositivo de controle que regula comportamentos e identidades.
A base teórica para a necessidade de desconstrução dessas normas encontra-se na análise de Guacira Lopes Louro, que investiga como a escola participa ativamente na construção das normas de gênero e sexualidade. A instituição escolar atua por meio de uma "pedagogia da normalidade" que, historicamente, disciplinou corpos e silenciou identidades consideradas fora do padrão heteronormativo. Quando a diversidade sexual não é abordada nos currículos, esses alunos se sentem deslegitimados e desvalorizados. Essa invisibilidade alimenta a homofobia, pois a ausência de modelos positivos e de discussões abertas sobre sexualidade perpetua estigmas e preconceitos. Como resultado, a evasão escolar se torna uma alternativa de proteção para aqueles que não se sentem reconhecidos.
Complementarmente, as reflexões de Michel Foucault iluminam como a sexualidade se insere em uma rede superficial onde o reforço dos controles e das resistências se encadeiam. Historicamente, o corpo e a sexualidade passaram a ser objeto privilegiado das políticas de controle e de moralização da vida social, articulados com um projeto de sociedade verticalizada e hierárquica. Na escola, esse mecanismo se atualiza na forma de poder disciplinar e vigilância normalizadora. Quando o ambiente se torna hostil, ele altera a própria percepção de ser do estudante. O corpo, que segundo Merleau-Ponty é o veículo do ser no mundo e o meio de união com os nossos projetos, passa a ser o local da angústia. A hostilidade manifesta-se na fragmentação das subjetividades e na dificuldade de estabelecer vínculos de pertença.
As análises de Berenice Bento corroboram essa realidade ao demonstrarem que a homofobia opera como uma tecnologia de exclusão que gera um profundo sofrimento ético-político. Para a autora, a escola, ao não reconhecer a legítima existência desses corpos, impõe um silenciamento que fragmenta a subjetividade do aluno, tornando o ambiente educativo um local de hostilidade que inviabiliza a permanência e o bem-estar psíquico. A violência escolar não é um objeto isolado, mas o produto de um clima social e de uma organização institucional que falha em dar sentido à experiência coletiva. Para superar esse cenário, a superação da evasão escolar demanda o desenvolvimento de uma sensibilidade pedagógica que transcenda o cumprimento burocrático de currículos .
O Percurso Metodológico de Orientação Fenomenológica Husserliana
Este artigo investiga a evasão escolar de jovens LGBTQIAPN+ em Cariri do Tocantins por meio de um desenho metodológico estritamente qualitativo e de orientação fenomenológica. A fundamentação teórica repousa na herança de Edmund Husserl, que apresenta a fenomenologia como um método de investigação voltado a apreender o fenômeno, isto é, a aparição das coisas à consciência de maneira rigorosa, buscando captar a sua essência e ir ao encontro das coisas em si mesmas. Sob esse prisma, o método husserliano revela-se imprescindível para desvelar as vivências de exclusão e resistência no interior do cotidiano escolar. A fenomenologia busca capturar o fenômeno tal como ele se manifesta na consciência dos sujeitos, priorizando a essência das vivências homofóbicas e o modo como essas percepções moldaram suas trajetórias educacionais.
O cenário da pesquisa, o Colégio Estadual Tarso Dutra, não é tratado aqui apenas como uma estrutura física ou burocrática, mas como um mundo-da-vida (Lebenswelt), onde se cruzam subjetividades e onde o preconceito se materializa em atos concretos. A coleta de dados foi orientada pela entrevista fenomenológica, que se distancia de questionários rígidos para se tornar um encontro dialógico focado no dizer dos sujeitos, permitindo que as memórias emergissem sem filtros coloniais ou categorias preestabelecidas. O objetivo foi permitir que cinco colaboradores descrevessem a textura de seus dias no Ensino Médio, revelando como a homofobia era sentida na pele, no olhar do outro e no silêncio das salas de aula.
Para a composição do corpus empírico, utilizou-se a técnica de amostragem "Bola de Neve" (Snowball), que possibilitou o acesso aos colaboradores em uma região marcada pela vulnerabilidade social e pelo silenciamento institucional. Para garantir a alteridade, o estrito cumprimento das normas éticas e a proteção das identidades, os participantes foram batizados simbolicamente com nomes de flores do Cerrado tocantinense. Conhecemos, assim, as histórias de três jovens gays (Ipê, Cagaita e Buriti) e de duas jovens lésbicas (Sempre-viva e Caliandra). Cada nome evoca a singularidade de suas essências e a força necessária para sobreviver a um ambiente que, sistematicamente, tentou desidratar suas potências de vida através da exclusão.
Análise e Interpretação Categorial das Narrativas: As Flores do Cerrado
A Vivência de Ipê: O Inverno Prolongado da Omissão Escolar
Ipê, um dos jovens que não concluiu o Ensino Médio, descreveu sua passagem pela escola como um inverno prolongado. Para ele, a homofobia não se traduzia em xingamentos esporádicos, mas sim em uma atmosfera constante e sufocante. Ele relatou que as "falas de corredor" funcionavam como espinhos diários. Os colegas utilizavam termos pejorativos que ecoavam nos pátios sem que nenhum inspetor ou gestor interviesse. Ipê sentia que sua presença física incomodava a ordem heteronormativa vigente, e essa sensação de ser um "corpo fora do lugar" gerava um desgaste psicológico severo. A passagem de Ipê pela escola foi marcada por uma constante sensação de exposição e vulnerabilidade radical.
Ele recorda com amargura um episódio emblemático ocorrido no pátio central do colégio, durante o intervalo. Um grupo de alunos começou a imitar seus gestos de forma caricata, grotesca e violenta. O riso coletivo que se seguiu funcionou como uma sentença pública de exclusão e humilhação, enquanto os inspetores de pátio desviavam deliberadamente o olhar, validando a agressão por meio do silêncio institucionalizado. Para Ipê, o corredor da escola deixou de ser um local de circulação pedagógica e transformou-se em um "corredor polonês" de insultos sussurrados que minavam sua autoestima e sua dignidade ontológica diariamente.
A gota d’água para sua evasão definitiva ocorreu durante uma aula de Educação Física. Ipê foi ostensivamente excluído da formação dos times sob a alegação direta dos colegas de que ele "atrapalharia o rendimento do grupo" devido à sua condição sexual. Ao tentar buscar apoio na coordenação pedagógica, esperando acolhimento e justiça, ouviu de um profissional da escola que ele deveria "ser mais discreto" para evitar tais reações. Essa fala violenta transferia para a vítima a culpa pela violência sofrida, demonstrando o colapso ético da instituição. Sentindo que a escola não era um porto protetivo, mas um naufrágio existencial, ele abandonou definitivamente os livros para encontrar nas tesouras e nos espelhos de um salão de cabeleireiro informal a autonomia e a dignidade que a escola pública lhe negou.
A Vivência de Cagaita: A Humilhação Didática e a Morte Simbólica dos Sonhos
A trajetória de Cagaita, o segundo colaborador evadido da pesquisa, revela a face mais cruel da negligência e da cumplicidade do corpo docente. Ele relatou episódios dolorosos em que professores utilizavam exemplos em sala de aula que reforçavam explicitamente estereótipos binários e heteronormativos, invalidando sua existência diante de toda a turma. Ao ser alvo de chacotas constantes e institucionalizadas, Cagaita percebeu que o saber acadêmico estava selado para ele por uma barreira intransponível de humilhação e violência simbólica. Para Cagaita, a homofobia materializou-se na forma de perseguição sistemática dentro e fora da própria sala de aula.
Ele relatou que seus pertences e materiais escolares eram frequentemente vandalizados por colegas com frases de baixo calão e desenhos obscenos, transformando seus instrumentos de estudo em suportes físicos de humilhação contínua. Em uma ocasião específica de dor profunda, um professor de sua grade curricular fez uma "piada" de cunho homofóbico para ilustrar um conceito biológico. A ação provocou gargalhadas imediatas em toda a turma, deixando Cagaita completamente paralisado pelo choque traumático de ver em seu mestre — aquele que deveria protegê-lo — o reflexo exato do seu algoz.
O fenômeno do abandono escolar em Cagaita configurou um processo de morte simbólica de seus sonhos acadêmicos e de seu projeto de vida. Ele descreveu que a ansiedade de cruzar os portões do Colégio Tarso Dutra tornou-se somatizada em dores físicas intensas, pânico e episódios severos de depressão, levando-o a faltas consecutivas até a ruptura definitiva e irreversível com o sistema de ensino. Hoje, ao manusear as massas e fornos como salgadeiro autônomo, ele encontra na culinária um refúgio de subsistência econômica, mas carrega em sua história o luto de uma formação interrompida por uma pedagogia da exclusão que nunca soube ler sua dor como prioridade educacional.
A Vivência de Buriti: A Armadura da Camuflagem e o Isolamento Conquistado
Buriti, embora represente o único jovem gay entre os colaboradores a conseguir concluir o Ensino Médio, descreveu uma jornada marcada pela dor da camuflagem e do autoapagamento. Sua vivência fenomenológica foi caracterizada pelo esforço robusto e diário de modular a própria voz, o andar, os gestos e o olhar para evitar o confronto físico e verbal. Ele narrou que a homofobia partia, inclusive, de gestos sutis e violentos de professores, como o desdém ao ouvir suas opiniões em sala ou a preferência nítida por alunos que performavam a masculinidade padrão e hegemônica. Para Buriti, o diploma de Ensino Médio foi conquistado sob o preço de um apagamento subjetivo severo.
Buriti descreve sua estada na escola como uma verdadeira "estratégia de guerra" pela sobrevivência. Ele recorda que, para resistir ao bullying sistemático, precisou criar uma armadura emocional rígida, chegando ao extremo de evitar frequentar os banheiros da escola durante todo o turno letivo para não ser alvo de emboscadas físicas ou insultos verbais nos espaços coletivos. Em um episódio marcante e claustrofóbico, Buriti foi trancado em uma sala de limpeza por colegas que gritavam ofensas homofóbicas agressivas. Ele esperou em silêncio e no escuro o esvaziamento total do corredor para conseguir sair, sem nunca denunciar o ocorrido à direção por medo de que a retaliação subsequente fosse ainda mais violenta.
Mesmo alcançando a formatura, a experiência de Buriti foi marcada por um isolamento profundo e doloroso. Ele relatou que, durante a realização de trabalhos em grupo e atividades pedagógicas, era sempre o último aluno a ser escolhido pelas equipes, restando-lhe realizar as tarefas sozinho ou assumir a parte que ninguém queria realizar. A homofobia, para Buriti, não se manifestava apenas no grito ou na agressão direta, mas na "distância social" que os outros alunos mantinham deliberadamente, como se sua orientação sexual fosse contagiosa. Ele concluiu o Ensino Médio como um sobrevivente de um sistema que o aprovou nas notas burocráticas, mas o reprovou tragicamente no acolhimento humano.
A Vivência de Sempre-viva: O Tribunal Moral e o Afeto sob Sentença
No universo das identidades femininas dissidentes, Sempre-viva trouxe à tona a invisibilidade e o policiamento moral como formas refinadas de violência institucional. Ela relatou que sua orientação sexual era tratada pela coordenação pedagógica como um "segredo vergonhoso" ou uma "fase rebelde" que deveria ser corrigida pelos padrões disciplinares. A fenomenologia de sua estada revela a face do preconceito institucionalizado contra o afeto lésbico. Em uma experiência traumática, ao ser flagrada trocando olhares e segurando a mão de uma colega atrás do ginásio, a reação de uma servidora da escola foi imediata, violenta e desproporcional.
Sempre-viva foi submetida a uma convocação compulsória dos pais sob o pretexto de apresentar um "comportamento inadequado" e romper com os "bons costumes" da instituição, enquanto casais heterossexuais se beijavam e circulavam publicamente pelos pátios sem qualquer tipo de intercorrência ou advertência. Ela foi submetida a um interrogatório moral humilhante que visava patologizar seu sentimento e enquadrá-lo como um desvio disciplinar grave. Essa dualidade explícita de pesos e medidas gerou nela a percepção de que a escola funcionava como um tribunal moral punitivo, e não como um espaço de construção da cidadania democrática.
Essa vigilância constante fez com que Sempre-viva vivesse o restante do Ensino Médio sob uma redoma de medo e desconfiança. Ela descreveu o impacto do "bullying do silêncio", em que as outras meninas da turma paravam abruptamente de conversar ou se afastavam fisicamente quando ela se aproximava, temendo serem associadas à sua imagem estigmatizada. A fenomenologia de sua trajetória na escola é a de uma liberdade severamente cerceada. Ela concluiu os estudos com a convicção de que o Colégio Tarso Dutra operava como um espaço de doutrinação forçada da heteronormatividade, onde sua existência era tolerada desde que permanecesse absolutamente invisível e silenciada.
A Vivência de Caliandra: O Olhar Inquisidor e a Segregação Silenciosa
Caliandra detalhou a dor profunda provocada pelos olhares de reprovação contínua que recebia de professoras e funcionárias no cotidiano escolar. Ela descreveu em seu relato a existência de um "olhar inquisidor" que percorria sistematicamente suas roupas, seu cabelo e seu estilo pessoal, como se a comunidade escolar estivesse constantemente à procura de uma falha moral ou disciplinar para puni-la. Para Caliandra, a homofobia no ambiente escolar assumia uma face velada, mas nem por isso menos destrutiva: manifestava-se na exclusão deliberada de grupos de trabalho e no isolamento forçado na hora do recreio.
Ela sobreviveu ao Ensino Médio, mas descreve a escola como um território de guerra invisível onde sua identidade era o alvo principal. Caliandra narra que o sentimento de solidão era amplificado pela ausência absoluta de debates, palestras ou projetos pedagógicos que abordassem a diversidade de gênero de forma positiva no município. O silêncio das salas de aula funcionava como um eco da rejeição social. Cada dia letivo exigia dela um gasto massivo de energia psíquica para simplesmente suportar a rejeição expressa nos gestos sutis e na recusa de diálogo por parte de seus pares e educadores.
Sua trajetória evidencia como a exclusão estrutural atua na fragmentação da subjetividade do estudante. Caliandra recorda que o ambiente escolar gerava um cansaço emocional tão profundo que o aprendizado passava a ser uma preocupação secundária diante da necessidade premente de autodefesa e proteção ontológica. Ela concluiu o ciclo básico sem desenvolver qualquer sentimento de pertença em relação à instituição, guardando da escola a memória de um espaço de vigilância normalizadora e aniquilamento de sua singularidade radical.
Discussão: A Negligência Institucional e a Biopolítica da Exclusão
Os resultados obtidos através das narrativas fenomenológicas das flores do Cerrado evidenciam que a evasão escolar da comunidade LGBTQIAPN+ não pode ser interpretada como um ato de abandono voluntário ou fruto de desinteresse pedagógico individual . Trata-se, em termos husserlianos e políticos, de um processo estruturado de "expulsão simbólica" e exclusão biopolítica. A escola, longe de operar como um espaço neutro de socialização, atua frequentemente como um aparelho disciplinar que valida as agressões cotidianas por meio da omissão de seus gestores e docentes. Quando 34% dos agressores em ambientes escolares são identificados como docentes, e quando a resposta institucional diante da dor do aluno é a exigência de "discrição", fica exposto o colapso do acolhimento humano e a falência do tato pedagógico.
A base de afirmação do preconceito se sustenta nas práticas cotidianas que, informadas pelas lógicas de poder, naturalizam a hierarquização dos sujeitos. O uso da fala homofóbica e o silenciamento sistemático funcionam como "mantras de exclusão" destinados a fixar o aluno LGBTQIAPN+ em um lugar de permanente inferioridade e subalternidade. Esse processo de assujeitamento impõe ao estudante um sofrimento ético-político que fragmenta sua subjetividade. Para sobreviver e concluir o ciclo, como demonstrado na trajetória de Buriti, o discente é obrigado a recorrer a táticas severas de camuflagem, autopagamento e supressão de suas necessidades básicas, resultando em um desgaste emocional profundo e no adoecimento psíquico.
Sob a lente da fenomenologia do encontro, negar a identidade de um estudante e violentá-lo em seu Lebenswelt significa despojá-lo de sua dignidade ontológica. A rejeição institucionalizada rompe o vínculo existencial do aluno com o conhecimento formal. Embora o aparato jurídico brasileiro ofereça proteção formal através da equiparação da homotransfobia ao crime de racismo, a legalidade por si só não extingue o fenômeno da exclusão enraizado nas microrrelações do cotidiano escolar. A carência crônica de políticas públicas de permanência estudantil e a ausência de formação continuada para educadores na região sul do Tocantins convertem o espaço de direito à educação em um território de hostilidade e aniquilamento subjetivo.
Considerações Finais: Horizontes para uma Pedagogia da Empatia e Políticas de Permanência
Este estudo possibilitou perceber que a evasão escolar da comunidade LGBTQIAPN+ no Ensino Médio de Cariri do Tocantins reflete o colapso do acolhimento humano nas instituições educativas, transformando o espaço que deveria garantir a emancipação em um local de sofrimento psíquico e exclusão estrutural.
As narrativas de Ipê, Cagaita, Buriti, Sempre-viva e Caliandra demonstram de forma contundente que a pedagogia da normalidade e os currículos ocultos operam ativamente na expulsão dos corpos dissidentes, impossibilitando a construção de suas trajetórias escolares com dignidade e autonomia.
Para superar esse cenário de violência simbólica e institucionalizada, é urgente a formulação de políticas públicas de permanência estudantil direcionadas às especificidades dessa população. Isso demanda a implementação obrigatória de programas de formação continuada para professores e gestores, capacitando-os a mediar conflitos e a desconstruir preconceitos de gênero e sexualidade no cotidiano das salas de aula. É imperativo substituir o silenciamento e a omissão institucional por canais ativos de escuta e pelo acolhimento incondicional das identidades de gênero e orientações sexuais dos estudantes.
Por fim, o combate à exclusão escolar exige o desenvolvimento de uma pedagogia da empatia e do cuidado que reconheça a alteridade radical como elemento enriquecedor do tecido intersubjetivo da comunidade. A escola deve consolidar-se como um anteparo protetivo e um solo seguro onde o respeito ao nome social e à expressão de gênero sejam compreendidos como atos fundamentais de reconhecimento da dignidade ontológica. Somente através de uma transformação profunda das práticas curriculares e da arquitetura das relações interpessoais será possível garantir que a educação básica se torne, efetivamente, um horizonte de proteção, liberdade e dignidade para todos os estudantes .
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1 Mestrando em Educação, Universidade Federal do Tocantins UFT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Pós-Doc./UEPA. Doutor em Educação/UFBA. Mestre em Educação Brasileira/UFG. Professor e Coordenador do Mestrado Profissional em Educação da Universidade Federal do Tocantins - (PPPGE/UFT), Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail