REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787693048
RESUMO
Este estudo realiza uma análise bibliométrica da produção científica sobre evasão escolar, com base em publicações indexadas na Web of Science (WoS) entre 1955 e 2025. O objetivo é mapear tendências, autores, instituições, categorias temáticas, distribuição geográfica e a evolução temporal dos termos utilizados nas pesquisas. A evasão escolar constitui um dos principais desafios da educação contemporânea, com impactos na inclusão social, qualificação profissional e nos indicadores de desenvolvimento humano. Embora o tema seja amplamente investigado, são ainda limitados os estudos bibliométricos de abrangência global e com recorte temporal ampliado, lacuna que esta pesquisa busca preencher. Adotou-se uma abordagem descritiva e quantitativa, com aplicação de indicadores bibliométricos. Os dados foram extraídos da WoS mediante combinação de descritores como “School Dropout”, “Student Dropout” e “Early School Leaving”. Foram analisados o volume anual de publicações, principais autores, áreas temáticas, países, instituições e termos-chave mais frequentes. A Lei de Lotka foi aplicada para avaliar a concentração da produtividade autoral. Os resultados indicam aumento expressivo das publicações após 2010, com destaque para Estados Unidos, Espanha e Brasil. A Educação predomina entre as categorias temáticas, enquanto “School Dropout” é o termo mais recorrente. A produção científica segue o padrão previsto pela Lei de Lotka, com elevada concentração em poucos autores. Instituições brasileiras, como a USP, apresentam participação relevante na produção internacional sobre o tema.
Palavras-chave: Evasão; IES; Escola; Educação.
ABSTRACT
This study presents a bibliometric analysis of the scientific literature on school dropout based on publications indexed in the Web of Science (WoS) between 1955 and 2025. The study aims to map research trends, authors, institutions, thematic categories, geographical distribution, and the temporal evolution of the terms used in the literature. School dropout remains one of the major challenges facing contemporary education, with implications for social inclusion, professional qualification, and human development indicators. Although the topic has been widely investigated, global bibliometric studies covering an extended time span remain limited, a research gap that this study seeks to address. A descriptive and quantitative approach was adopted using bibliometric indicators. Data were retrieved from the WoS through a combination of descriptors such as “School Dropout”, “Student Dropout” and “Early School Leaving.” The analysis included annual publication output, leading authors, thematic areas, countries, institutions, and the most frequent keywords. Lotka’s Law was applied to assess the concentration of author productivity. The results indicate a substantial increase in publications after 2010, with the United States, Spain, and Brazil emerging as leading contributors. Education is the predominant thematic category, while “School Dropout” is the most frequently occurring term. Scientific output follows the pattern predicted by Lotka’s Law, with a high concentration of publications among a relatively small number of authors. Brazilian institutions, including the University of São Paulo (USP), also make a relevant contribution to international research on the topic.
Keywords: School Dropout; Higher Education Institutions (HEIs); School; Education.
INTRODUÇÃO
A evasão escolar é um tema central nas discussões sobre os desafios da educação contemporânea. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), evasão escolar refere-se à saída do aluno da escola antes da conclusão da etapa de ensino correspondente. É importante diferenciar evasão de abandono escolar: este último diz respeito à desistência temporária ou não oficial do estudante, sem sua exclusão imediata do sistema educacional.
Esse fenômeno é multifacetado, envolvendo fatores sociais, econômicos, culturais e institucionais. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a evasão escolar não apenas reflete desigualdades sociais profundas, mas também revela fragilidades estruturais do próprio sistema educacional. O abandono escolar, portanto, pode ser compreendido como uma consequência direta da evasão, quando o aluno, após um afastamento, decide não retornar às aulas.
A Constituição Federal do Brasil de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 asseguram a educação como um direito fundamental. No entanto, garantir não apenas o acesso, mas a permanência e o sucesso dos alunos nos diversos níveis de ensino – fundamental, médio e superior – ainda é um dos maiores desafios enfrentados pelas Instituições de Ensino Superior (IES). Desde (Iffert 1955), estudiosos têm buscado compreender as causas da evasão e do abandono, identificando-os como fenômenos recorrentes que implicam desperdício de recursos e frustração de expectativas. (Fritsch et al. 2015) definem a evasão como o ato de estudantes que ingressam em cursos e não os concluem, destacando o impacto financeiro e estrutural desse processo nas instituições, conforme discutido por (De Lima e Krohling 2021).
Neste contexto, a análise bibliométrica surge como uma ferramenta fundamental para compreender a produção científica relacionada ao tema. Conforme (Ferrada Ferrada et al. 2021), os estudos bibliométricos permitem identificar padrões, tendências e lacunas nas publicações acadêmicas, bem como mapear autores, instituições e temas de maior relevância. (Cortés 2007) reforça a importância dessas análises, que fornecem um panorama abrangente sobre o estado da arte em determinada área do conhecimento, permitindo tomadas de decisão baseadas em evidências.
Reduzir a evasão escolar exige uma abordagem sistêmica e Inter setorial. É um erro atribuir esse problema exclusivamente às instituições de ensino, desconsiderando a influência de fatores externos como as condições socioeconômicas, a necessidade de inserção precoce no mercado de trabalho, a falta de apoio institucional (acadêmico e psicológico), entre outros. A evasão escolar afeta não apenas o indivíduo – comprometendo sua qualificação profissional e qualidade de vida –, mas também a sociedade, aumentando índices de exclusão social e desigualdade.
Ainda que (Bourdieu e Passeron, 1970) não tratem diretamente da evasão escolar, suas teorias sobre a reprodução das desigualdades sociais no sistema educacional ajudam a compreender como fatores estruturais influenciam o afastamento dos alunos da escola. A hipótese central deste estudo é que as taxas de evasão escolar no Brasil estão relacionadas a fatores similares aos observados em países europeus, como renda, alfabetização regional e distorção idade-série.
A (Comissão Europeia, 2021) destaca os impactos negativos da evasão escolar, como o aumento da criminalidade, exclusão social, problemas de saúde, desemprego e pobreza. (Janssen; Amoroso e Gresham 2017) destacam ainda que a qualidade da infraestrutura escolar – incluindo instalações, laboratórios e equipamentos – tem influência direta na motivação e no desempenho dos alunos, podendo reduzir significativamente os índices de evasão. Em estudo realizado no Reino Unido, evidenciou-se que fatores ambientais e de design explicaram até 16% da variação no progresso acadêmico dos estudantes, destacando a importância da naturalidade (iluminação, ventilação), da estimulação (cores, layout) e da individualização dos espaços educacionais.
Diante disso, este artigo tem como objetivo realizar uma análise bibliométrica da produção científica sobre a evasão escolar no ensino superior, utilizando a base de dados WoS (WoS). A pergunta de pesquisa que orienta este estudo é: Qual o “estado da arte” sobre evasão escolar no ensino superior?
A relevância desta investigação reside na necessidade de compreender os fatores que levam ao abandono escolar, com vistas à formulação de políticas públicas e institucionais mais eficazes, voltadas à permanência e ao sucesso acadêmico dos estudantes. A análise bibliométrica internacional possibilita identificar tendências, lacunas e potenciais soluções em nível global, contribuindo para um debate mais qualificado e fundamentado sobre o tema
MATERIAIS E MÉTODOS
Para alcançar os objetivos propostos, adotou-se uma abordagem de pesquisa descritiva, com foco na análise de tendências relacionadas à evasão escolar no ensino superior. Os métodos bibliométrico e descritivo foram utilizados para examinar quantitativamente e qualitativamente a produção científica sobre o tema.
Etapas da Pesquisa
O desenvolvimento desta pesquisa foi conduzido segundo um fluxo metodológico estruturado em cinco etapas interdependentes. Inicialmente, realizou-se a delimitação da base de dados, sendo escolhida a Web of Science (WoS) como fonte primária de coleta de informações, em virtude de sua abrangência, confiabilidade e reconhecimento internacional na indexação de periódicos científicos.
Na sequência, procedeu-se à construção da estratégia de busca, com a identificação e seleção de termos-chave relacionados ao fenômeno da evasão escolar, preferencialmente na língua inglesa, a fim de ampliar o alcance e a precisão dos resultados obtidos. Estes termos são apresentados a seguir.
A terceira etapa consistiu na coleta de dados, realizada por meio da aplicação da estratégia de busca previamente definida, permitindo a extração dos registros pertinentes disponíveis na base WoS, contemplando artigos, revisões e demais tipos de publicações relevantes ao tema investigado.
Posteriormente, foram conduzidos o tratamento e a análise dos dados, utilizando-se indicadores bibliométricos quantitativos e qualitativos destinados à identificação de padrões de produção científica, autores mais produtivos, instituições de destaque, áreas temáticas predominantes e demais características associadas ao campo de estudo.
Por fim, na etapa de apresentação dos resultados, os achados foram organizados e representados por meio de gráficos e tabelas, possibilitando uma visualização clara e sistematizada dos dados. A interpretação dos resultados foi desenvolvida à luz da literatura especializada, de modo a sustentar as inferências e discussões apresentadas ao longo do estudo.
Indicadores da Análise Bibliométrica
Para a realização da análise bibliométrica, foram selecionados diversos indicadores que permitiram compreender de forma ampla e detalhada o panorama científico acerca da temática da evasão escolar. Entre os principais indicadores considerados, destacam-se a predominância dos documentos por período e termo, bem como a evolução do número de publicações ao longo dos anos compreendidos entre 1955 e 2024, o que possibilitou identificar tendências temporais e períodos de maior concentração de estudos.
A produção científica por autor foi igualmente analisada, permitindo evidenciar os pesquisadores com maior contribuição para o tema e sua relevância dentro da rede de produção científica. Também foram examinadas as categorias da WoS, o que possibilitou observar a distribuição dos artigos por área do conhecimento, revelando o caráter multidisciplinar das investigações sobre evasão escolar.
Outro aspecto importante foi a identificação dos autores mais citados, que representam as principais referências teóricas e metodológicas do campo. Complementarmente, realizou-se uma análise da frequência temporal das palavras-chave relacionadas à evasão escolar na base WoS, no período de 1993 a 2025, o que permitiu identificar a evolução conceitual e as mudanças de enfoque ao longo do tempo.
A dimensão geográfica da produção científica também foi considerada, com a identificação dos países com maior número de publicações, bem como das afiliações institucionais que mais contribuíram para o avanço das pesquisas sobre o tema, abrangendo o intervalo de 1955 a 2025. Além disso, foi examinada a distribuição de produtividade segundo a Lei de Lotka, a fim de verificar a concentração da produção entre autores e instituições. Por fim, a análise da distribuição linguística das publicações sobre evasão escolar na WoS permitiu observar a predominância de determinados idiomas e suas implicações na disseminação do conhecimento científico.
Termos de Busca Utilizados
Durante a etapa preliminar da pesquisa na base ISI/WoS, observou-se a existência de uma variedade de termos utilizados no idioma inglês para designar o fenômeno da evasão escolar. A diversidade terminológica representa um desafio metodológico, pois o uso exclusivo de um ou poucos descritores pode resultar em perdas significativas de dados relevantes, comprometendo a abrangência da análise.
Com o intuito de maximizar a recuperação de publicações relevantes e, simultaneamente, aprimorar a eficácia da estratégia de busca, foi realizado um levantamento preliminar voltado à quantificação da ocorrência de publicações relacionadas a diferentes termos associados ao conceito de evasão. As buscas foram conduzidas na base de dados WoS, utilizando o campo Tópico, que abrange os termos presentes no título, resumo, palavras-chave do autor e keywords plus.
Os resultados da pesquisa evidenciaram uma distribuição significativamente desigual na frequência dos termos analisados, reforçando a importância de uma seleção criteriosa da terminologia nas estratégias de busca subsequentes. Observou-se que o termo “School Dropout” apresentou maior incidência, com 1.919 documentos, seguido por “Student Dropout” (585), “Early School Leaving” (385) e “Early Leavers” (49). Termos como “School Evasion” (18), “School Dropping out” (14), “Age-grade distortion” (13), “School Withdraw” (1) e “Age-grade lag” (4) apresentaram ocorrência bastante reduzida, enquanto “School Abandon” e “Age-grade gap” não retornaram registros.
Com base na frequência de ocorrência, foram selecionados os cinco termos com maior número de publicações para compor a estratégia de busca final, a saber: "School Dropout", "Student Dropout", "Early School Leaving", "Early Leavers" e "School Evasion". Essa seleção permitiu conferir maior abrangência temática à pesquisa, assegurando a inclusão dos principais estudos sobre o tema e a representatividade das múltiplas abordagens conceituais e metodológicas utilizadas no cenário internacional.
Fonte de Dados
A base de dados selecionada para esta pesquisa foi a WoS (WoS), administrada pela Clarivate. A WoS foi escolhida por ser reconhecida internacionalmente como uma das fontes mais completas e confiáveis de informações científicas, contendo mais de 225 milhões de registros e aproximadamente 2,58 bilhões de referências citadas desde 1864 até os dias atuais (Clarivate, 2024).
De acordo com (Zupic e Cater 2015) e (Birkle et al. 2020), a WoS é adequada para estudos bibliométricos por oferecer dados consistentes, categorização precisa por áreas de conhecimento, e alto rigor na indexação das publicações.
RESULTADOS ALCANÇADOS
Predominância dos Documentos por Período e Termo;
Análise da predominância de documentos por período e por termo, com base nas seguintes equações de busca: TS=(“School Dropout”), TS=(“Student Dropout”), TS=(“Early School Leaving”), TS=(“Early Leavers”) e TS=(“School Evasion”). Essas equações foram empregadas como parâmetros de pesquisa na extração e posterior análise dos indicadores bibliométricos, permitindo identificar padrões de ocorrência e evolução temática ao longo do período investigado.
Document Types | School Dropout | Student Dropout | Early School Leaving | Early Leavers | School Evasion | Total |
ARTICLE | 1637 | 403 | 301 | 35 | 15 | 2391 |
PROCEEDINGS PAPER | 172 | 163 | 63 | 13 | 3 | 414 |
REVIEW | 75 | 18 | 15 | 1 | 109 | |
EARLY ACCESS | 29 | 13 | 6 | 48 | ||
MEETING ABSTRACT | 23 | 23 | ||||
BOOK REVIEW | 17 | 2 | 19 | |||
EDITORIAL MATERIAL | 12 | 3 | 15 | |||
Others | 20 | 5 | 3 | 28 | ||
Total | 1985 | 602 | 393 | 49 | 18 | 3047 |
Período da publicação | 1956 - 2025 | 1970 - 2025 | 1955 - 2025 | 1961 - 2024 | 2007 - 2023 |
Fonte: Dados originários da pesquisa
O tipo de documento predominante é o artigo científico, com 2.391 registros, representando cerca de 78,5% do total. Este número indica a forte preferência da comunidade acadêmica pela disseminação dos resultados de pesquisa em periódicos revisados por pares. Entre os artigos, o termo mais frequente foi School Dropout, presente em 1.637 publicações, seguido por Student Dropout (403) e Early School Leaving (301), revelando um foco acentuado no abandono escolar generalizado e no perfil do estudante. Os anais de conferência proceedings paper aparecem como o segundo tipo de publicação mais representativo, com 414 registros. Esse dado reflete a relevância das discussões acadêmicas sobre evasão escolar em eventos científicos, permitindo a difusão de estudos em desenvolvimento e práticas inovadoras. Nesses documentos, destaca-se novamente a recorrência dos termos School Dropout (172) e Student Dropout (163), evidenciando o caráter emergente da temática no debate científico recente. Outros tipos de documentos, como early access, meeting abstracts, book reviews, editorial material e outros, somam juntos menos de 10% da produção total. Embora menos expressivos numericamente, esses formatos contribuem para a ampliação e diversificação do debate acadêmico sobre evasão escolar, em especial no que tange a opiniões editoriais, comentários de especialistas e comunicações preliminares.
Quanto ao recorte temporal, observa-se uma ampla janela de publicação que vai de 1955 a 2025, sendo o termo School Dropout o mais antigo a aparecer (1956). Já o termo school evasion, com apenas 18 registros, é relativamente recente, com publicações entre 2007 e 2023. Isso pode refletir especificidades linguísticas e terminológicas utilizadas em diferentes contextos educacionais e culturais.
Evolução do número de publicações ao longo dos anos (1955–2024)
Fonte: Dados originários da pesquisa
A análise da Figura 2 revela uma tendência de crescimento expressivo nas publicações acadêmicas relacionadas à evasão escolar ao longo das últimas décadas. Esse aumento pode ser interpretado como reflexo de uma intensificação do interesse científico e político em torno do tema, especialmente em contextos de crescente preocupação com a equidade educacional e os índices de abandono escolar.
O primeiro pico significativo de produção ocorreu em 2010, com 68 estudos publicados, sugerindo uma possível correlação com o fortalecimento das políticas públicas de inclusão educacional na década de 2000, bem como o avanço das bases de dados acadêmicas que ampliaram a visibilidade de produções sobre o tema. Em 2014, o número saltou para 100 publicações, acompanhando um período em que diversas nações reformularam seus marcos legais e institucionais voltados à permanência escolar.
Os anos de 2018 (149 publicações) e 2019 (151) marcaram um novo momento de expansão, possivelmente relacionado a crises econômicas e sociais que acentuaram vulnerabilidades educacionais e demandaram maior atenção da academia. O ponto mais alto da série foi alcançado em 2022, com 263 estudos publicados, mais que o dobro do registrado apenas quatro anos antes. Este aumento pode estar associado aos efeitos da pandemia de COVID-19, que agravou os índices de evasão em diversas partes do mundo e desencadeou uma onda de investigações voltadas a compreender seus determinantes e propor estratégias de enfrentamento.
A análise temporal da produção revelou uma concentração crescente de publicações a partir dos anos 2000, com forte intensificação nos últimos cinco anos. Isso reflete o aumento do interesse global pelas questões de permanência e sucesso escolar, especialmente em países emergentes (Martins et al., 2023).
Esse panorama reforça não apenas o crescente reconhecimento da evasão escolar como um problema multidimensional e transnacional, mas também a emergência de novas abordagens teóricas e metodológicas voltadas à sua compreensão. O contínuo crescimento das publicações indica um campo dinâmico, em diálogo com transformações sociais, políticas e econômicas, além de uma agenda de pesquisa cada vez mais internacionalizada e interdisciplinar.
Produção científica por autor
Fonte: Dados originários da pesquisa
A Figura 3 evidencia a concentração da produção científica sobre evasão escolar em torno de alguns pesquisadores-chave que se destacam tanto pelo volume quanto pela continuidade de suas contribuições ao longo do tempo. Entre os autores com maior número de publicações no período analisado, destacam-se Kristof De Witte, Isabelle Archambault e Michel Janosz, pesquisadores cujos trabalhos têm influenciado significativamente o desenvolvimento teórico e metodológico do campo.
Kristof De Witte (Maastricht University, Países Baixos) lidera em número de publicações, com 20 estudos entre 2011 e 2022. Sua produção é marcada por uma abordagem quantitativa robusta, com ênfase em métodos econométricos e análises de dados administrativos de larga escala. De Witte tem explorado especialmente os determinantes institucionais da evasão, como o papel de políticas de accountability, desempenho escolar e gestão educacional, posicionando-se como uma referência na interface entre economia da educação e estudos sobre abandono escolar.
Isabelle Archambault (Université de Montréal) aparece em seguida com 18 publicações, entre 2009 e 2022. Sua pesquisa se destaca por um foco psicossocial, frequentemente abordando fatores emocionais, motivacionais e relacionais associados à permanência escolar. Archambault tem contribuído particularmente para a compreensão do impacto das relações entre estudantes e professores no engajamento escolar, utilizando metodologias longitudinais e multivariadas para captar dinâmicas ao longo do tempo. Estes autores têm contribuído de forma significativa para o campo, com destaque para análises longitudinais e intervenções escolares (De Witte et al., 2013).
Michel Janosz, também da Université de Montréal, figura com 17 publicações no intervalo de 1997 a 2020, o que indica sua importância histórica na consolidação do campo. Janosz foi um dos pioneiros a estruturar modelos explicativos integrados sobre evasão escolar, com destaque para a abordagem ecológica, que articula fatores individuais, familiares, escolares e comunitários. Seu trabalho serviu de base para diversas investigações subsequentes, incluindo as de Archambault, com quem mantém colaboração frequente.
Chama a atenção o fato de que todos os autores destacados utilizam majoritariamente o termo “School Dropout” em suas publicações, o que pode indicar não apenas uma preferência terminológica, mas também um alinhamento a uma tradição de pesquisa anglófona que concebe a evasão como um evento mensurável e associado a trajetórias de risco específicas. Essa escolha pode ainda refletir uma preocupação em dialogar com uma audiência internacional, facilitando a indexação dos estudos em bases de dados globais e ampliando sua disseminação.
Além da relevância individual, o destaque desses pesquisadores também aponta para a existência de núcleos de excelência e continuidade institucional na pesquisa sobre evasão escolar, especialmente na Université de Montréal, que abriga dois dos três autores mais produtivos. Tais núcleos contribuem para a formação de redes colaborativas, agendas de pesquisa consolidadas e abordagens teóricas coerentes, fortalecendo o campo como um todo. Várias publicações conjuntas entre Isabelle Archambault e Michel Janosz, incluindo artigos de 2009 e 2022, todas centradas no tema do engajamento estudantil e abandono escolar. Ambos pesquisadores colaboram regularmente, compartilham foco em desistência/abandono escolar e engajamento, empregam métodos quantitativos longitudinais e concentram-se em fatores de risco e proteção; entretanto, Archambault enfatiza mais bem-estar e vulnerabilidade juvenil, enquanto Janosz aborda com maior frequência tipologias de abandono e intervenções escolares, sendo que nem sempre publicam na mesma revista.
Por fim, a análise da produção por autor sugere que, embora a literatura sobre evasão escolar seja extensa e em crescimento, ela também é marcada por certa centralização em figuras-chave, cujas contribuições moldam os principais debates e influenciam as estratégias metodológicas adotadas em estudos posteriores.
Categorias da Web of Science/Distribuição dos artigos por área do conhecimento.
Fonte: Dados originários da pesquisa
A análise das publicações indexadas na base de dados WoS revelou uma predominância significativa da área de Educação, que concentrou um total de 956 publicações, representando o principal campo de investigação identificado no escopo da pesquisa. Esse resultado evidencia a centralidade dos estudos educacionais no debate acadêmico atual, possivelmente impulsionada por questões relacionadas à inovação pedagógica, formação docente, políticas públicas e desafios contemporâneos no processo de ensino-aprendizagem.
Em segundo lugar, destaca-se A presença expressiva da área de Saúde Ambiental e Ocupacional, com 247 publicações, reflete a ampliação do enfoque sobre os determinantes sociais e ambientais que afetam a permanência escolar. Embora não trate diretamente da evasão, essa categoria reúne estudos que investigam como condições de vida, saúde física, nutrição, exposição ambiental e contexto laboral influenciam o desempenho e a frequência escolar, especialmente em grupos vulneráveis. Muitos trabalhos analisam relações entre pobreza, trabalho precoce, saúde ocupacional e abandono escolar, mostrando que o fenômeno da evasão não pode ser compreendido apenas por variáveis pedagógicas, mas também por fatores estruturais de saúde e qualidade de vida. Em seguida, a Economia aparece com 198 registros, refletindo o interesse por análises de natureza macro e microeconômica, especialmente em contextos de crise, desenvolvimento sustentável e políticas econômicas. Com 161 publicações, a Psicologia do Desenvolvimento desempenha papel central na análise dos fatores cognitivos, emocionais e motivacionais que afetam a permanência escolar. Essa área contribui para o entendimento da evasão como processo gradativo e multifatorial, influenciado por aspectos como autoestima, senso de pertencimento, engajamento, suporte familiar e vínculos afetivos com professores e colegas. Estudos longitudinais e comparativos nessa vertente buscam compreender como experiências negativas na trajetória escolar, dificuldades sócio emocionais e falta de apoio psicopedagógico aumentam o risco de abandono. Assim, a psicologia oferece base empírica sólida para políticas de prevenção e intervenção precoce, voltadas ao desenvolvimento integral do estudante. As Ciências Sociais e a Sociologia, com 148 publicações, evidenciam a relevância das abordagens estruturais e críticas na compreensão da evasão escolar. Nessa perspectiva, a evasão é interpretada como expressão de desigualdades sociais, econômicas e culturais, e não apenas como uma decisão individual. Pesquisas nessa área analisam temas como exclusão educacional, pobreza, capital cultural, gênero, raça e políticas públicas, buscando compreender de que modo as estruturas sociais reproduzem barreiras ao acesso e à permanência na escola. Ao integrar variáveis institucionais e contextuais, essa área reforça a visão de que a evasão é um fenômeno social complexo, que exige respostas articuladas entre educação, assistência social e políticas de equidade.
Estes resultados estão alinhados com estudos prévios de delimitação temática em evasão escolar (Mingueles et al., 2020). Por outro lado, algumas áreas apresentaram baixa representatividade no conjunto analisado. Teatro, Transporte, Urologia, Veterinária e Virologia registraram apenas uma publicação cada, revelando um interesse mais restrito por esses campos no contexto da amostra estudada. Essa baixa incidência pode estar relacionada à especificidade temática, menor financiamento, ou à dispersão das publicações em outras bases não contempladas nesta pesquisa. Corrobora-se que a WoS classifica artigos em categorias disciplinares que refletem o foco principal das publicações. A evasão escolar é primordialmente tratada como fenômeno educacional ou sociológico, mais do que como tema empresarial ou de gestão de negócios. Isso significa que mesmo trabalhos que abordam implicações financeiras para instituições de ensino podem ser categorizados como Educação ou Política Educacional, e não como Business/Management.
Autores Mais Citados
A produção científica relacionada à evasão escolar tem sido marcada por contribuições relevantes de diversos autores que, ao longo dos anos, se destacaram tanto pelo volume de citações quanto pela profundidade das abordagens teóricas e empíricas adotadas. A seguir, apresentam-se os principais autores identificados na literatura, com base no número de citações recebidas por seus trabalhos, bem como as temáticas centrais abordadas.
Entre os autores mais citados, destaca-se o trio formado por Vallerand, R. J.; Fortier, M. S.; e Guay, F. (1997), cujo artigo intitulado "Self-determination and persistence in a real-life setting" acumulou 860 citações, com uma média anual de 29,66. O estudo é considerado um marco na aplicação da Teoria da Autodeterminação ao contexto escolar, ao evidenciar como fatores motivacionais intrínsecos influenciam a persistência dos estudantes nos estudos, tendo grande impacto na compreensão da evasão escolar.
Outro trabalho amplamente citado é o de Goodenow, C. e Grady, K. E. (1993), intitulado "The relationship of school belonging and friends’ values to academic motivation", com 653 citações. A pesquisa foca na relação entre o sentimento de pertencimento ao ambiente escolar e os valores dos pares, destacando a importância dos fatores psicossociais no engajamento e desempenho dos alunos.
(Eccles, J. S. 1999), por sua vez, tem sido uma referência fundamental ao abordar o desenvolvimento infantojuvenil. Seu artigo "The development of children ages 6 to 14" (598 citações) enfatiza as transições cognitivas, sociais e emocionais que ocorrem nessa faixa etária, as quais influenciam diretamente os riscos de evasão escolar, principalmente em contextos de vulnerabilidade.
A contribuição metodológica de Muthén, B. (2003), com o artigo "Statistical and substantive checking in growth mixture modeling" (571 citações), destaca-se pela aplicação de modelos estatísticos avançados na análise de trajetórias escolares, permitindo identificar padrões latentes de risco de evasão.
(Reynolds, A. J. 2001), em seu estudo sobre os efeitos de intervenções precoces ("Long-term effects of early childhood intervention...", com 493 citações), demonstra que programas educativos voltados à primeira infância podem gerar impactos positivos duradouros, inclusive na prevenção da evasão em etapas posteriores da vida escolar, sendo frequentemente referenciado em debates sobre políticas públicas educacionais.
No campo da saúde mental e suas implicações educacionais, Pascoe, M. C. e Parker, A. G. (2019) publicaram o artigo "The impact of stress on students in secondary school", que recebeu 476 citações e apresenta uma das médias anuais mais altas (79,33), evidenciando o crescimento da preocupação com os efeitos do estresse em adolescentes no contexto escolar.
A dupla Wang, M.-T. e Fredricks, J. A. (2014) explora as relações recíprocas entre engajamento escolar, comportamento problemático e desempenho acadêmico no artigo "Reciprocal links between school engagement...", com 459 citações. A abordagem adotada reforça a ideia de que o engajamento constitui um fator mediador essencial nas trajetórias escolares, sendo determinante na permanência ou evasão dos estudantes.
Outro campo de investigação recorrente refere-se aos comportamentos de risco, especialmente o uso de substâncias psicoativas. Hall, W. (2015) e (2009), autor de dois artigos amplamente citados. "Adverse health effects of recreational cannabis" (409 citações) e "Cannabis use and educational attainment" (388 citações, com Lynskey (2009), examina os impactos do uso de cannabis sobre o rendimento escolar e a permanência na escola, consolidando-se como referência em saúde pública com foco nas implicações educacionais do uso de drogas.
Além desses nomes, merecem destaque os pesquisadores Hawkins, J. D. e Catalano, R. F. (1992)a e (1992)b, que aparecem em diversos estudos de grande repercussão, como "Preventing adolescent health-risk behaviors."(a) (595 citações) e "Predictors of early high School Dropout." (b), (359 citações). O título “Preventing adolescent health-risk behaviors” refere-se a uma série de publicações e relatórios derivados do modelo Communities That Care. Suas contribuições estão fortemente associadas ao desenvolvimento de políticas preventivas, com foco na promoção de comportamentos saudáveis e redução de fatores de risco.
O grupo formado por Archambault, I.; Janosz, M.; e Pagani, L. (2009) e (2013) também tem se destacado, especialmente em pesquisas de base canadense que investigam o engajamento escolar sob uma perspectiva multidimensional (comportamental, afetiva e cognitiva). Seus artigos "Student engagement and its relationship with early high School Dropout" (429 citações) e "Adolescent Behavioral, Affective, and Cognitive Engagement in School" (238 citações) têm sido amplamente utilizados para embasar programas de intervenção e estratégias de retenção escolar. Após verificação, foi identificado várias publicações conjuntas entre Isabelle Archambault e Michel Janosz, incluindo artigos de 2009 e 2022, todas centradas no tema do engajamento estudantil e abandono escolar. Em síntese, ambos pesquisadores colaboram regularmente, compartilham foco em desistência/abandono escolar e engajamento, empregam métodos quantitativos longitudinais e concentram-se em fatores de risco e proteção; entretanto, Archambault enfatiza mais bem-estar e vulnerabilidade juvenil, enquanto Janosz aborda com maior frequência tipologias de abandono e intervenções escolares, sendo que nem sempre publicam na mesma revista.
Por fim, a análise das produções mais citadas permite identificar os temas centrais que têm orientado as investigações recentes sobre evasão escolar:
Motivação escolar, frequentemente relacionada à teoria da autodeterminação, como observado nas obras de (Vallerand 1997), (Goodenow 1993) e (Eccles 1999); engajamento e pertencimento escolar, com contribuições significativas de (Archambault, 2009), (Wang e Fredricks 2014); comportamentos de risco e uso de substâncias, especialmente discutidos nos estudos de (Hawkins, 1992) e (Hall, 2015); estresse e saúde mental, com destaque para os achados de (Pascoe e Parker, 2019); e fatores familiares e estruturais, como condição socioeconômica e acesso a intervenções precoces, discutidos por (Reynolds, 2001), (Alexander, 1997) e (Rumberger, 2011).
Esses eixos temáticos revelam uma abordagem multidisciplinar na compreensão da evasão escolar, envolvendo psicologia educacional, saúde pública, políticas sociais e métodos quantitativos avançados. O destaque em citações recai sobre (Vallerand et al. 1997), (Goodenow e Grady 1993) e (Eccles, 1999), indicando a centralidade de estudos sobre motivação escolar, pertencimento e desenvolvimento infantil nas discussões sobre evasão (Vallerand et al., 1997).
Análise da Frequência Temporal de Palavras-Chave Relacionadas à Evasão Escolar na Web of Science (1993–2025)
Fonte: Dados originários da pesquisa
A Figura 5, apresenta a frequência anual dos cinco termos relacionados à evasão escolar utilizados como palavras-chave em publicações indexadas na base WoS, no período de 1993 a 2025.
Observa-se um crescimento significativo no uso do termo "School Dropout", especialmente a partir de 2010, atingindo um pico em 2021 com aproximadamente 65 ocorrências. Este termo se mantém como o mais recorrente ao longo de todo o período, consolidando-se como a expressão dominante na literatura internacional sobre o tema. A curva ascendente revela um crescente interesse da comunidade científica pelo fenômeno da evasão escolar, possivelmente impulsionado por debates sobre políticas públicas, equidade educacional e desenvolvimento social.
O termo "Student Dropout" aparece com relevância crescente a partir de 2016, com um aumento mais acentuado a partir de 2019, e destaca-se como o segundo mais utilizado nos anos recentes. Essa mudança pode indicar uma tentativa de personalizar o foco da análise, deslocando o olhar do sistema escolar para o indivíduo. O termo "School Dropout" manteve-se constante, mas observa-se, nos últimos anos, o crescimento de expressões como "academic engagement", "school climate" e "early warning systems" (Zhang et al., 2022; Li et al., 2024).
Já os termos "Early School Leaving" e "Early leavers", mais comuns no contexto europeu, mantêm presença estável, embora com volumes inferiores. Isso sugere sua vinculação a contextos geográficos específicos, como os relatórios da União Europeia e estudos comparativos regionais.
Por fim, "School evasion", tradução literal de "evasão escolar" do português, apresenta baixíssima incidência, o que reforça a orientação anglófona da base e a predominância de termos consagrados no vocabulário educacional internacional. A análise longitudinal revela não apenas as preferências terminológicas ao longo do tempo, mas também sinaliza uma consolidação conceitual no campo da pesquisa sobre evasão escolar. O predomínio de "School Dropout" reforça a importância da padronização vocabular para fins de indexação, recuperação da informação e consolidação teórica.
Países com maior número de publicações
Fonte: Dados originários da pesquisa
A figura 6, apresenta Países com maior número de publicações sobre evasão escolar, com base em dados indexados na base WoS, abrange um amplo recorte temporal de 1955 a 2025. Embora o intervalo inclua sete décadas, observa-se que a maior concentração de publicações ocorreu entre os anos de 2011 e 2025, período em que o tema ganhou visibilidade renovada nas agendas de pesquisa, especialmente no contexto de ampliação do acesso à educação básica e do fortalecimento de políticas públicas voltadas à equidade educacional.
O panorama revela uma distribuição fortemente concentrada em poucos países, destacando desigualdades estruturais na visibilidade acadêmica global. Entre os 37 países com maior número de publicações, a média de trabalhos publicados é de 96,7, com desvio padrão de 158,8, indicando elevada dispersão entre os casos. A mediana da distribuição é de 57 publicações, evidenciando que mais da metade dos países ainda possuem produção relativamente modesta sobre o tema.
Os Estados Unidos ocupam isoladamente a primeira posição, com 963 publicações, representando um polo hegemônico na produção sobre evasão escolar. Este dado reflete a robustez de sua infraestrutura acadêmica, a prioridade atribuída ao monitoramento de indicadores educacionais e a ampla tradição de investigação sobre abandono e permanência escolar.
Na segunda posição, encontra-se a Espanha, com 337 publicações, seguida pelo Brasil, com 209 trabalhos publicados, ocupando a terceira colocação no ranking global. O Brasil aparece entre os cinco países mais produtivos, reforçando a crescente preocupação nacional com a evasão escolar (Macedo et al., 2021). A presença do Brasil nessa posição é particularmente relevante por dois motivos:
(i) demonstra o crescente interesse da academia nacional no enfrentamento do problema da evasão escolar, fenômeno historicamente vinculado à desigualdade social e à exclusão educacional; e
(ii) representa um exemplo de emergência científica no Sul Global, superando países com forte tradição acadêmica e maior inserção internacional, como Inglaterra (162), Canadá (134), Austrália (107), Alemanha (89) e França (57).
O desempenho brasileiro é ainda mais expressivo quando comparado aos indicadores centrais da distribuição. Com 209 publicações, o país está significativamente acima da média (96,7) e da mediana (57), integrando a faixa superior da produção (quartil superior). Esse dado sinaliza um avanço importante da ciência brasileira em temas de relevância social, além de indicar o fortalecimento de políticas públicas, programas institucionais e financiamento à pesquisa educacional.
Além disso, nota-se que países como México (80), Colômbia (75), Chile (56), Argentina (21) e Peru (31) também figuram entre os países mais produtivos, reforçando a consolidação de um eixo latino-americano de pesquisa sobre evasão escolar, ainda que com diferentes níveis de inserção internacional.
Em síntese, os dados apontam para a existência de uma concentração geopolítica da produção científica sobre evasão escolar, mas também revelam a ascensão de novos protagonistas, especialmente no hemisfério sul, cujo papel tem sido fundamental para ampliar o escopo teórico e empírico do debate global sobre permanência e abandono escolar.
Afiliações - Instituições com Maior Produção Científica sobre Evasão Escolar (1955–2025)
Fonte: Dados originários da pesquisa
A figura 7 apresenta as afiliações institucionais presentes nas publicações sobre evasão escolar evidencia uma concentração da produção científica em universidades e sistemas universitários de países centrais, especialmente dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. No total, foram analisadas mais de uma centena de instituições com, no mínimo, sete publicações registradas na base WoS, no período de 1955 a 2025, com forte concentração no recorte entre 2011 e 2025.
O destaque absoluto é o University of California System, com 67 publicações, seguido por instituições de prestígio global como a University of London (56), Johns Hopkins University (54), University of North Carolina (48) e o State University System of Florida (45). Esse domínio reflete não apenas o volume de financiamento destinado à pesquisa nesses contextos, mas também o papel histórico dessas universidades na formação de políticas públicas educacionais e no monitoramento de indicadores de permanência escolar.
Entre as instituições latino-americanas, a Universidade de São Paulo (USP) se sobressai como a mais produtiva, com 25 publicações, ocupando posição de destaque ao lado de universidades de renome global como University of Texas at Austin (25) e Pennsylvania State University (25). Outras universidades brasileiras também se destacam, como:
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – 13 publicações, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – 12 publicações, Universidade Federal de Pelotas (UFPel) – 10 publicações, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – 10 publicações, Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – 9 publicações, e Universidade Estadual Paulista (UNESP) – 8 publicações.
Esses dados confirmam a consolidação de núcleos de excelência em pesquisa educacional no Brasil, fortemente articulados com temas como equidade, inclusão, políticas de permanência e juventude em situação de vulnerabilidade. O protagonismo dessas instituições no cenário internacional é indicativo não apenas de sua capacidade científica, mas também do crescimento da cooperação internacional e da inserção em redes globais de pesquisa.
De modo geral, as afiliações mais produtivas estão associadas a universidades públicas de grande porte, com programas consolidados em educação, saúde pública, ciências sociais e políticas públicas. A presença de instituições como Harvard University (33), University of Michigan (31) e Maastricht University (44) reforça o caráter interdisciplinar e estratégico do tema da evasão escolar no campo científico internacional.
Distribuição de Produtividade e Lei de Lotka
Os dados de produtividade indicam uma distribuição altamente desequilibrada entre autores: poucos pesquisadores concentraram muitas publicações sobre evasão escolar, enquanto a maioria contribuiu com apenas alguns trabalhos. Esse padrão é compatível com a Lei de Lotka, também conhecida como a lei do inverso do quadrado da produtividade científica. Para (Friedmann, 2021), ao aplicar a Lei de Lotka à distribuição de autores, observa-se forte concentração da produção em poucos autores muito produtivos, em consonância com a literatura sobre bibliometria em ciências sociais. Por exemplo, a Lei de Lotka prevê que para cada 100 autores com 1 publicação, haveria ~25 autores com 2 publicações (aproximadamente 1/2²), ~11 autores com 3 publicações (1/3²), ~6 autores com 4 publicações (1/4²) e assim por diante. Isso significa que poucos autores extremamente produtivos respondem por uma fatia desproporcional das publicações, enquanto a grande maioria publica pouco.
No conjunto de dados analisado sobre evasão escolar, verifica-se exatamente essa tendência. Os autores Kristof De Witte e Isabelle Archambault, por exemplo, juntos somam 35 artigos no tema, enquanto dezenas de autores têm somente 5 ou 6 trabalhos cada. Podemos visualizar essa distribuição em um gráfico de escala logarítma, no qual uma linha com declive de –2 (representando a lei de Lotka, ou seja, decaimento quadrático) aproxima a tendência decrescente do número de autores à medida que aumenta o número de publicações
Fonte: Elaboração própria com apoio do ChatGPT (OpenAI, 2025).
Análise da Distribuição Linguística das Publicações sobre Evasão Escolar na WoS
A produção científica, período (1955 – 2025), sobre evasão escolar indexada na WoS revela um padrão linguístico concentrado, refletindo desigualdades na visibilidade internacional do conhecimento produzido em diferentes idiomas. O idioma inglês domina amplamente a literatura, com 2.579 publicações, representando mais de 88% do total. Essa hegemonia está alinhada ao papel central da língua inglesa como idioma acadêmico global, favorecendo sua difusão em revistas de alto impacto e ampla circulação.
Em seguida, aparece o espanhol, com 151 publicações, o que equivale a cerca de 5% do total. O destaque do espanhol aponta para a crescente inserção de países ibero-americanos no debate internacional sobre permanência escolar, especialmente na América Latina e na Espanha.
O idioma português, com 65 publicações, ocupa a terceira posição no ranking. Essa presença é especialmente relevante ao se considerar a centralidade do Brasil entre os países lusófonos e sua forte participação na produção sobre o tema. O dado indica que, apesar de barreiras linguísticas e limitações de visibilidade internacional, pesquisadores de países de língua portuguesa, em particular das universidades brasileiras têm contribuído de maneira significativa para os estudos sobre evasão escolar, uma problemática historicamente vinculada a contextos de desigualdade social, exclusão educacional e vulnerabilidade juvenil.
A posição do português no ranking é expressiva também por representar quase 2,2% das publicações, superando idiomas com tradição acadêmica consolidada, como o francês e o alemão (ambos com 13 publicações), e outros idiomas europeus como italiano (3) e croata (5). Isso evidencia que o fenômeno da evasão escolar, além de ser uma questão global, mobiliza fortemente os países em desenvolvimento, especialmente aqueles que enfrentam desafios estruturais em seus sistemas educacionais. Em suma maioria das publicações está em inglês, seguida por espanhol e português, evidenciando a importância de estratégias de internacionalização da produção acadêmica brasileira (Martins et al., 2023).
O destaque do português como terceiro idioma mais representado na produção sobre evasão escolar na WoS reforça a importância da ciência produzida no Brasil, não apenas em quantidade, mas também em termos da relevância social de seus temas de pesquisa. Ao mesmo tempo, aponta para a necessidade de estratégias mais eficazes de internacionalização da ciência brasileira, seja por meio de colaborações internacionais, publicações bilíngues ou políticas de incentivo à publicação em periódicos de alto impacto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados desta análise bibliométrica evidenciam a crescente atenção da comunidade científica internacional em relação ao fenômeno da evasão escolar, especialmente a partir da segunda década do século XXI. O aumento significativo no número de publicações, a diversidade de abordagens metodológicas e a ampliação geográfica da produção científica demonstram que o tema consolidou-se como um problema educacional, social e econômico de alcance global.
A predominância das áreas de Educação, Psicologia e Ciências Sociais nas publicações indexadas na WoS indica uma tendência multidisciplinar nas investigações sobre evasão escolar. Essa diversidade teórica e metodológica reforça a necessidade de abordagens interdisciplinares para compreender a complexidade do fenômeno, como já apontado por (Archambault et al. 2017) e (Ferrada Ferrada et al. 2021). A pouca presença de artigos na categoria Business/Management na WoS para evasão escolar pode ser explicada pela forma como as publicações escolhem seu foco temático e pela classificação da base. Isso não significa que o tema não tenha relevância para negócios ou para a gestão institucional, ao contrário, mas que a produção científica que aborda evasão pela lente business/gestão empresarial é menos articulada ou menos identificada como tal nos filtros disciplinares da base.
A distribuição desigual da produção científica entre os países e instituições analisadas reflete, por um lado, a hegemonia de centros de pesquisa de países desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos e da Europa Ocidental (Zhang et al., 2022). Por outro lado, destaca-se a ascensão de países do Sul Global, como o Brasil, cuja produção tem mostrado crescimento expressivo nos últimos anos, conforme também observado por (Macedo et al. (2021).
A aplicação da Lei de Lotka confirmou a concentração autoral típica de campos emergentes, com um pequeno grupo de pesquisadores apresentando elevada produtividade e influência teórica, como (De Witte et al., 2013). Este padrão reforça a importância de fomentar novas redes de colaboração científica, especialmente em países periféricos.
Do ponto de vista prático, os achados deste estudo podem subsidiar políticas públicas e estratégias institucionais voltadas à redução da evasão escolar. A identificação de lacunas temáticas e geográficas também aponta caminhos para futuras pesquisas, como a necessidade de maior internacionalização da produção em língua portuguesa e o fortalecimento de estudos longitudinais e comparativos (Li et al., 2024). Considerando os resultados obtidos, por fim, recomenda-se que futuras pesquisas avancem na integração entre análises bibliométricas e abordagens qualitativas, de modo a compreender de forma mais aprofundada os fatores contextuais que influenciam a evasão escolar em diferentes realidades educacionais.
Depreende-se que a evasão escolar permanece como um campo dinâmico de investigação, que demanda esforços contínuos para ampliar a compreensão de suas causas, impactos e estratégias de prevenção, com base em evidências científicas robustas e contextualizadas.
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1 Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, Mestre em Gestão de Negócios pela Universidade Católica de Santos, vários cursos de especialização em TI e Administração Geral, no Brasil e no exterior. Possui graduação em Análise de Sistemas - PUC Campinas. Professor da FEA - PUC-SP, no período de 2006 a 2018. Atualmente é membro da Comissão de Implantação da Fatec Itapevi e Coordenador do CST em Gestão Pública, na mesma Instituição. Atua, também, como Avaliador Ad Hoc do CEE/SP, Avaliador de Cursos Superiores de Graduação, Graduação Tecnológica e de Instituições de Educação Superior, pelo INEP/MEC e Avaliador de artigo e Moderador de sessões de apresentação de trabalhos do SemeAd desde 2015 na área de Estratégia.
2 Pós-Doc -ADM - FEA/USP. Doutor em Comunicação e Semiótica PUC/SP. Mestre em Administração PUC/SP. Eng. Mecânico e Administrador - Univ. Mackenzie. É Professor Titular na PUC/SP e Avocational Lecture - Steinbeis University Berlin. Ex-Professor da EAESP/FGV (1o. lugar no Edital), IBMEC/SP (Atual Insper), Universidade Católica de Santos, USJT (Titular) e UnG (Mestrado). Pesquisador e Professor-Visitante da Università Cattolica del Sacro Cuore (Milão - Itália).