REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787115600
RESUMO
O bullying contra alunos com deficiência constitui uma problemática relevante no contexto escolar, pois envolve práticas de intimidação, exclusão, ridicularização e discriminação que podem comprometer a aprendizagem, a participação social e o sentimento de pertencimento desses estudantes. Diante dessa realidade, esta pesquisa teve como objetivo geral analisar as estratégias pedagógicas utilizadas no enfrentamento ao bullying contra alunos com deficiência no contexto escolar, identificando os principais desafios e as possibilidades de intervenção para a promoção de um ambiente educacional inclusivo, seguro e respeitoso. O estudo justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão sobre as formas de violência direcionadas aos estudantes com deficiência e sobre o papel da escola na prevenção e no enfrentamento dessas práticas, considerando que a inclusão educacional deve ultrapassar o acesso físico e garantir condições efetivas de convivência, respeito e participação. Metodologicamente, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida a partir da análise de 14 estudos selecionados em plataformas acadêmicas, com base em descritores relacionados a bullying, deficiência, inclusão escolar e estratégias pedagógicas. Os resultados demonstraram que os estudantes com deficiência apresentam maior vulnerabilidade a diferentes formas de bullying e que a prevenção depende de ações contínuas, como formação docente, valorização da diversidade, escuta dos estudantes, participação das famílias, atuação articulada dos profissionais e desenvolvimento de práticas pedagógicas inclusivas. Conclui-se que o enfrentamento ao bullying exige compromisso coletivo da comunidade escolar e ações permanentes voltadas à construção de relações baseadas no respeito, na cooperação e na inclusão.
Palavras-chave: bullying; educação inclusiva; estratégias pedagógicas.
ABSTRACT
Bullying against students with disabilities is a relevant issue in the school context, as it involves practices of intimidation, exclusion, ridicule, and discrimination that may compromise these students’ learning, social participation, and sense of belonging. In view of this reality, this study aimed to analyze the pedagogical strategies used to address bullying against students with disabilities in the school environment, identifying the main challenges and possibilities for intervention in order to promote an inclusive, safe, and respectful educational setting. The study is justified by the need to broaden understanding of the forms of violence directed at students with disabilities and of the school’s role in preventing and confronting such practices, considering that educational inclusion must go beyond physical access and ensure effective conditions for coexistence, respect, and participation. Methodologically, a bibliographic research was conducted, with a qualitative approach and descriptive character, based on the analysis of 14 studies selected from academic platforms using descriptors related to bullying, disability, school inclusion, and pedagogical strategies. The results showed that students with disabilities are more vulnerable to different forms of bullying and that prevention depends on continuous actions, such as teacher training, appreciation of diversity, student listening, family participation, coordinated professional action, and the development of inclusive pedagogical practices. It is concluded that combating bullying requires the collective commitment of the school community and permanent actions aimed at building relationships based on respect, cooperation, and inclusion.
Keywords: bullying; inclusive education; pedagogical strategies.
1. INTRODUÇÃO
O bullying no ambiente escolar constitui um fenômeno que interfere diretamente na convivência, na aprendizagem e no desenvolvimento dos estudantes, especialmente quando as práticas de intimidação são direcionadas a alunos com deficiência. Essas situações podem se manifestar por meio de agressões verbais, físicas, psicológicas e sociais, incluindo apelidos ofensivos, exclusão, ridicularização, imitações, ameaças e isolamento. Quando essas práticas ocorrem de forma repetitiva e associadas a relações desiguais de poder, podem comprometer significativamente a experiência escolar da vítima. No caso dos estudantes com deficiência, a situação demanda atenção ainda maior, pois determinadas características físicas, intelectuais, sensoriais ou comportamentais podem ser utilizadas como motivo para discriminação e violência, ampliando barreiras que já fazem parte do processo de inclusão escolar.
Nesse contexto, discutir estratégias pedagógicas de prevenção e combate ao bullying contra alunos com deficiência torna-se fundamental para a construção de uma escola verdadeiramente inclusiva. A inclusão não deve ser compreendida apenas como a matrícula ou permanência física do estudante na instituição de ensino, mas também como a garantia de participação, aprendizagem, pertencimento, respeito e segurança. Dessa forma, cabe à escola desenvolver práticas que contribuam para transformar as relações entre os estudantes, combater preconceitos e fortalecer valores como empatia, solidariedade, cooperação e respeito às diferenças. Professores, gestores, profissionais de apoio, famílias e estudantes possuem responsabilidades importantes nesse processo, tornando necessária uma atuação articulada diante das situações de bullying.
Diante dessa realidade, o presente estudo possui como objetivo geral analisar as estratégias pedagógicas utilizadas no enfrentamento ao bullying contra alunos com deficiência no contexto escolar, identificando os principais desafios e as possibilidades de intervenção para a promoção de um ambiente educacional inclusivo, seguro e respeitoso. Como objetivos específicos, busca-se identificar as principais formas de bullying vivenciadas por alunos com deficiência no ambiente escolar e suas possíveis repercussões no processo de ensino-aprendizagem e na inclusão educacional; investigar os principais desafios enfrentados pelos professores e pela equipe escolar na prevenção e no enfrentamento de situações de bullying envolvendo alunos com deficiência; e analisar estratégias e práticas pedagógicas que possam contribuir para a prevenção e o combate ao bullying, favorecendo o respeito às diferenças, a inclusão e a convivência escolar.
A realização desta pesquisa justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão sobre as formas de violência que podem atingir estudantes com deficiência e sobre as possibilidades de intervenção no contexto educacional. Apesar dos avanços relacionados à educação inclusiva, ainda existem barreiras atitudinais, preconceitos e práticas discriminatórias capazes de limitar a participação plena desses estudantes no cotidiano escolar. Nesse sentido, investigar o bullying direcionado a esse público apresenta relevância social e educacional, uma vez que as experiências de humilhação, exclusão e intimidação podem produzir consequências no rendimento acadêmico, na interação social, na autoestima, no sentimento de pertencimento e na disposição do estudante para frequentar a escola.
A pesquisa também se justifica pela importância de discutir o papel das estratégias pedagógicas na prevenção dessas situações. Mais do que reagir aos episódios depois que acontecem, a escola precisa desenvolver ações permanentes capazes de favorecer uma cultura de respeito à diversidade e de enfrentamento às diferentes formas de discriminação. Assim, compreender os desafios enfrentados pelos profissionais da educação e conhecer práticas que possam ser incorporadas ao cotidiano escolar pode contribuir para o planejamento de intervenções mais consistentes. A relevância acadêmica do estudo está, portanto, em reunir e analisar conhecimentos já produzidos sobre o tema, fornecendo subsídios para professores, gestores e demais profissionais interessados na construção de ambientes escolares mais inclusivos. Quanto aos procedimentos metodológicos, o estudo foi desenvolvido por meio de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo.
Diante do exposto, observa-se que combater o bullying contra alunos com deficiência exige compreender tanto as características do fenômeno quanto os fatores que dificultam sua identificação e enfrentamento no ambiente escolar. Além disso, torna-se necessário analisar de que maneira as práticas pedagógicas podem contribuir para promover relações mais respeitosas, inclusivas e protetivas. Assim, a presente pesquisa foi orientada pelo seguinte problema de pesquisa: quais estratégias pedagógicas podem ser utilizadas para prevenir e combater o bullying contra alunos com deficiência no contexto escolar, considerando os principais desafios e possibilidades para a promoção de uma educação inclusiva e respeitosa?
2. REVISÃO DE LITERATURA
A revisão de literatura apresenta os principais fundamentos teóricos que sustentam a compreensão do bullying no contexto escolar, com atenção especial às situações que envolvem alunos com deficiência. Nesta seção, serão discutidos os conceitos, características e consequências do fenômeno, bem como a relação entre inclusão escolar e vulnerabilidade desses estudantes diante de práticas de intimidação e discriminação. Também serão abordadas as estratégias pedagógicas de prevenção e enfrentamento do bullying, destacando o papel dos professores, da equipe escolar, das famílias e dos próprios estudantes na construção de um ambiente educacional mais seguro, respeitoso e inclusivo.
2.1. Bullying no Contexto Escolar: Conceitos, Características e Consequências
O bullying constitui uma forma específica de violência caracterizada pela repetição de comportamentos agressivos, pela intenção de causar sofrimento e pela existência de uma relação desigual de poder entre os envolvidos. No ambiente escolar, esse fenômeno pode ocorrer de maneira explícita ou sutil, atingindo estudantes por meio de agressões físicas, verbais, psicológicas ou sociais. Botelho et al. (2007) destacam que o bullying não deve ser confundido com conflitos ocasionais entre estudantes, uma vez que apresenta características próprias relacionadas à persistência das agressões e à dificuldade de defesa da vítima. Brandt et al. (2020) acrescentam que a compreensão do fenômeno exige reconhecer suas diferentes manifestações, pois determinadas formas de intimidação podem permanecer pouco visíveis aos professores e demais profissionais da escola.
Entre as manifestações mais frequentes do bullying encontram-se apelidos ofensivos, insultos, ameaças, ridicularizações, agressões físicas, exclusão deliberada de grupos, disseminação de rumores e constrangimentos realizados diante dos colegas. Brandt et al. (2020) explicam que as agressões podem ocorrer de forma direta, quando são facilmente percebidas, ou de maneira indireta, quando envolvem isolamento, rejeição ou ataques à reputação do estudante. Cachoeira et al. (2015) ressaltam que essa diversidade de manifestações dificulta a identificação do problema, principalmente quando as práticas agressivas são interpretadas como brincadeiras comuns entre crianças e adolescentes, tornando necessária uma observação mais atenta das relações estabelecidas no espaço escolar.
A compreensão das causas do bullying também exige uma análise que ultrapasse as características individuais dos estudantes envolvidos. Carneiro (2020) considera que o fenômeno pode ser compreendido como expressão de determinadas relações sociais e de poder presentes no ambiente escolar, especialmente quando diferenças individuais são transformadas em motivo de rejeição ou inferiorização. Almeida et al. (2025) destacam que aspectos familiares, sociais, institucionais e culturais podem contribuir para a manutenção de comportamentos agressivos, indicando que o problema não deve ser atribuído exclusivamente ao agressor. Dessa maneira, o enfrentamento necessita considerar o contexto em que os comportamentos são produzidos e reproduzidos.
Além da vítima e do agressor, os estudantes que testemunham episódios de bullying também participam da dinâmica do fenômeno. Cachoeira et al. (2015) ressaltam que os espectadores podem assumir diferentes posições, permanecendo em silêncio, apoiando o agressor, afastando-se da situação ou oferecendo auxílio à vítima. Frias et al. (2022) demonstram que as percepções dos estudantes sobre o bullying são fundamentais para compreender como essas relações se desenvolvem, uma vez que muitas situações ocorrem longe da observação direta dos adultos. O silêncio dos colegas pode contribuir para a continuidade das agressões, enquanto atitudes de apoio e comunicação com os profissionais da escola podem favorecer a interrupção dessas práticas.
As consequências do bullying podem comprometer significativamente a experiência escolar das vítimas. Almeida et al. (2025) apontam que estudantes submetidos continuamente a humilhações ou intimidações podem apresentar dificuldades de concentração, redução do desempenho acadêmico, desinteresse pelas atividades escolares e resistência em frequentar determinados espaços da instituição. Botelho et al. (2007) também destacam que as agressões podem produzir efeitos relacionados ao medo, à insegurança e à diminuição da participação do aluno nas práticas escolares. Assim, o bullying não representa apenas um problema disciplinar, mas uma situação capaz de interferir diretamente no processo de ensino-aprendizagem e na permanência do estudante na escola.
As repercussões podem alcançar ainda as dimensões emocionais e sociais dos estudantes. Frias et al. (2022) evidenciam que experiências de bullying podem permanecer na memória de estudantes e ex-estudantes como acontecimentos negativos e significativos de suas trajetórias escolares. Carneiro (2020) acrescenta que a exposição recorrente a situações de humilhação pode produzir sentimentos de isolamento, desvalorização e insegurança, prejudicando a construção de relações positivas com os colegas e com o próprio espaço escolar. Quando essas experiências não são reconhecidas pelos adultos responsáveis, a vítima pode perceber que não possui apoio institucional suficiente para enfrentar a situação.
Os impactos do bullying também precisam ser analisados em relação aos estudantes que praticam as agressões. Brandt et al. (2020) ressaltam que a repetição de comportamentos violentos pode favorecer a naturalização de relações baseadas em dominação, intimidação e falta de respeito às diferenças. Almeida et al. (2025) observam que a ausência de intervenções adequadas pode permitir a continuidade dessas práticas e dificultar a construção de competências relacionadas à convivência, ao diálogo e à resolução não violenta dos conflitos. Por isso, a intervenção pedagógica deve contemplar tanto a proteção das vítimas quanto o acompanhamento dos estudantes envolvidos na prática das agressões.
Diante desse cenário, a escola ocupa uma posição estratégica na prevenção e no enfrentamento do bullying. Botelho et al. (2007) defendem a necessidade de estratégias educativas que envolvam professores, gestores, estudantes e famílias na construção de relações mais respeitosas. Gonçalves (2025) ressalta que propostas pedagógicas e institucionais de enfrentamento precisam ultrapassar ações isoladas, desenvolvendo práticas contínuas de prevenção, conscientização e acompanhamento dos casos identificados. Portanto, compreender os conceitos, características e consequências do bullying constitui uma etapa essencial para que a comunidade escolar possa reconhecer o problema e construir respostas educativas capazes de proteger os estudantes.
2.2. Inclusão Escolar e Vulnerabilidade de Alunos com Deficiência Diante do Bullying
A inclusão escolar pressupõe assegurar aos estudantes com deficiência condições efetivas de acesso, permanência, participação, aprendizagem e convivência no espaço educacional. A presença física do aluno em uma turma regular, entretanto, não significa necessariamente que relações verdadeiramente inclusivas estejam sendo estabelecidas. Tessaro et al. (2022) destacam que estudantes com deficiência podem apresentar maior vulnerabilidade a situações de bullying em razão de características que os diferenciam dos demais colegas. Morais (2024) também aponta que determinadas particularidades físicas, intelectuais, sensoriais ou comportamentais podem ser utilizadas como motivo para piadas, rejeição ou intimidação, revelando a necessidade de compreender a inclusão para além do acesso à escola.
A vulnerabilidade dos alunos com deficiência diante do bullying está relacionada, entre outros fatores, à permanência de preconceitos e estereótipos sobre a deficiência. Rocha (2020) afirma que práticas discriminatórias podem surgir quando as diferenças são interpretadas a partir de concepções que associam a deficiência à incapacidade ou à inferioridade. Cunha et al. (2018) ressaltam que a convivência escolar precisa ser orientada pelo reconhecimento da diversidade humana, de modo que características individuais não sejam utilizadas para justificar exclusões ou agressões. Nesse sentido, combater o bullying envolve também questionar atitudes e discursos que reforçam a desvalorização dos estudantes com deficiência.
A relação entre bullying e inclusão também evidencia contradições existentes no cotidiano das instituições educacionais. Fernandes et al. (2023) discutem a violência que pode permanecer oculta mesmo em contextos que formalmente se apresentam como inclusivos. Um estudante pode estar matriculado, frequentar as aulas e receber atendimento educacional específico, mas continuar socialmente isolado ou submetido a práticas discriminatórias pelos colegas. Tessaro et al. (2022) destacam que experiências de exclusão e intimidação podem limitar a participação dos alunos com deficiência e comprometer seu sentimento de pertencimento. Assim, a inclusão precisa ser avaliada também pela qualidade das relações estabelecidas no cotidiano escolar.
As formas de bullying direcionadas aos estudantes com deficiência podem variar de acordo com as características individuais e com as relações construídas entre os grupos. Morais (2024) observa que estudantes considerados diferentes podem ser alvo de apelidos depreciativos, imitações, exclusão das atividades, ridicularização de comportamentos ou dificuldades e agressões relacionadas às suas limitações. Rocha (2020) ressalta que algumas dessas situações podem ser minimizadas pelos próprios profissionais da escola quando são compreendidas como brincadeiras ou conflitos comuns. Essa interpretação pode dificultar intervenções precoces e contribuir para que o estudante permaneça exposto continuamente a comportamentos discriminatórios.
As concepções e atitudes dos professores exercem influência importante sobre a forma como essas situações são identificadas e enfrentadas. Borges et al. (2018) mostram que o entendimento dos docentes sobre bullying e inclusão interfere diretamente em suas práticas de intervenção diante das situações vivenciadas pelos estudantes. Guimarães et al. (2025) destacam que profissionais capacitados apresentam melhores condições para reconhecer sinais de isolamento, intimidação e rejeição envolvendo alunos com deficiência. Dessa maneira, a formação docente constitui elemento fundamental para evitar que determinadas formas de violência sejam invisibilizadas ou interpretadas como acontecimentos sem maior relevância.
A atuação do professor de apoio também pode contribuir para a prevenção e identificação de situações de bullying. Guimarães et al. (2025) destacam a importância do professor de apoio preparado para reconhecer e enfrentar práticas de intimidação envolvendo alunos com deficiência. A presença desse profissional não deve resultar em isolamento do estudante em relação à turma, mas contribuir para ampliar sua autonomia, sua participação e suas interações. Borges et al. (2018) reforçam que o enfrentamento precisa ocorrer de maneira articulada entre o professor regente, profissionais de apoio e demais integrantes da equipe escolar, evitando que a responsabilidade pela proteção do aluno seja atribuída a um único profissional.
Outro aspecto fundamental refere-se à necessidade de desenvolver uma cultura escolar que reconheça a diversidade como elemento constitutivo da convivência humana. Cunha et al. (2018) defendem práticas educativas que possibilitem aos estudantes aprender a conviver com pessoas que apresentam diferentes características, necessidades e formas de participação. Fernandes et al. (2023) acrescentam que propostas pedagógicas voltadas à inclusão precisam enfrentar diretamente as práticas discriminatórias presentes nas relações cotidianas. Dessa forma, atividades relacionadas à empatia, solidariedade, cooperação e respeito podem contribuir para a desconstrução de preconceitos e para a redução de comportamentos que favorecem o bullying.
A proteção dos alunos com deficiência requer ainda espaços seguros de escuta e acolhimento. Tessaro et al. (2022) ressaltam que determinadas características da deficiência podem dificultar a comunicação de experiências de violência, tornando necessária uma atenção específica às formas de expressão de cada estudante. Frias et al. (2022) demonstram que a consideração das percepções dos próprios alunos é fundamental para compreender episódios que nem sempre chegam espontaneamente ao conhecimento dos adultos. Assim, os profissionais precisam desenvolver formas acessíveis de comunicação que possibilitem ao estudante relatar situações de intimidação, exclusão ou agressão.
Portanto, construir uma escola inclusiva significa garantir não apenas o acesso ao currículo, mas também o direito a relações sociais baseadas na dignidade e no respeito. Rocha (2020) destaca que o enfrentamento do bullying contra pessoas com deficiência depende do comprometimento de toda a comunidade escolar e da implementação de práticas educativas voltadas à prevenção da discriminação. Morais (2024) reforça a necessidade de ampliar os estudos e as intervenções relacionados às experiências específicas das crianças com deficiência. Nessa perspectiva, inclusão e prevenção do bullying devem ser tratadas de maneira articulada, considerando que o pertencimento e a segurança são condições indispensáveis à efetiva participação escolar.
2.3. Estratégias Pedagógicas para a Prevenção e o Enfrentamento do Bullying Contra Alunos com Deficiência
O enfrentamento do bullying contra alunos com deficiência exige ações pedagógicas planejadas, permanentes e integradas ao cotidiano escolar. Intervenções realizadas somente após a ocorrência das agressões podem ser insuficientes para transformar as relações que favorecem a repetição da violência. Gonçalves (2025) destaca que as propostas de enfrentamento ao bullying devem envolver ações pedagógicas e institucionais articuladas, considerando prevenção, conscientização, intervenção e acompanhamento. Botelho et al. (2007) também defendem estratégias que mobilizem diferentes integrantes da comunidade escolar, pois o fenômeno não pode ser tratado como um problema individual restrito à relação entre vítima e agressor.
Uma das principais estratégias pedagógicas consiste em abordar continuamente a diversidade, o respeito e a convivência nas atividades escolares. Cunha et al. (2018) ressaltam que aprender a conviver com as diferenças constitui elemento fundamental para reduzir práticas de discriminação contra pessoas com deficiência e necessidades específicas. Fernandes et al. (2023) defendem que ações pedagógicas precisam enfrentar preconceitos que podem permanecer escondidos por trás de práticas formalmente inclusivas. Assim, rodas de conversa, leitura de histórias, dramatizações, debates, projetos interdisciplinares e atividades cooperativas podem ser utilizados para incentivar a reflexão sobre respeito, empatia, direitos e valorização das diferenças.
O professor desempenha um papel central na mediação dessas relações e na identificação precoce das situações de violência. Borges et al. (2018) ressaltam que as concepções docentes acerca do bullying influenciam a maneira como os episódios são reconhecidos e conduzidos em sala de aula. Guimarães et al. (2025) destacam que a capacitação dos profissionais favorece a identificação de sinais que podem indicar intimidação, isolamento ou agressão contra estudantes com deficiência. Dessa maneira, a formação continuada deve oferecer aos professores conhecimentos teóricos e práticos que permitam distinguir conflitos ocasionais de práticas sistemáticas de bullying e desenvolver respostas adequadas a cada situação.
A atuação do professor de apoio pode fortalecer significativamente esse processo quando ocorre de maneira articulada com os demais profissionais da escola. Guimarães et al. (2025) afirmam que esse profissional pode contribuir para observar as relações estabelecidas pelo estudante com deficiência e auxiliar na identificação de situações de exclusão ou constrangimento. Tessaro et al. (2022) destacam que as especificidades apresentadas por determinados alunos precisam ser consideradas na elaboração de estratégias de prevenção e intervenção. Contudo, o professor de apoio não deve assumir sozinho a responsabilidade pelo enfrentamento do bullying, sendo necessária uma atuação conjunta entre professores, gestão, família e demais profissionais.
Outra estratégia importante é a criação de canais permanentes de comunicação e escuta dos estudantes. Frias et al. (2022) ressaltam que as percepções dos próprios alunos oferecem informações fundamentais sobre manifestações do bullying que podem não ser observadas diretamente pelos profissionais da instituição. Almeida et al. (2025) apontam que reconhecer precocemente alterações no comportamento ou na aprendizagem pode auxiliar na identificação de experiências de intimidação. A escola deve, portanto, garantir espaços em que os estudantes possam relatar situações de violência com segurança, confiança e certeza de que serão acolhidos e ouvidos de maneira responsável.
As intervenções também precisam incluir os estudantes que testemunham episódios de bullying. Cachoeira et al. (2015) destacam que os espectadores ocupam uma posição relevante na manutenção ou interrupção das agressões, uma vez que podem incentivar, ignorar ou reprovar as condutas observadas. Botelho et al. (2007) defendem estratégias coletivas capazes de modificar as relações entre os estudantes e fortalecer atitudes de cooperação. Nesse sentido, a escola pode orientar os alunos sobre como agir diante de situações de intimidação, incentivando a busca de ajuda de adultos responsáveis e a adoção de comportamentos que não reforcem as práticas do agressor.
A participação da família representa outro componente essencial do enfrentamento. Almeida et al. (2025) ressaltam que as consequências do bullying podem aparecer por meio de mudanças no comportamento, no rendimento escolar e na disposição do estudante para frequentar a instituição. Frias et al. (2022) demonstram que experiências vivenciadas na escola podem produzir impactos significativos na trajetória dos estudantes, reforçando a necessidade de comunicação entre famílias e profissionais. Reuniões, orientações, encontros formativos e canais regulares de diálogo podem contribuir para que responsáveis e escola compartilhem informações e construam conjuntamente estratégias de acompanhamento.
Além das intervenções pedagógicas realizadas em sala de aula, a instituição deve estabelecer procedimentos claros para lidar com situações identificadas. Gonçalves (2025) destaca que propostas institucionais de enfrentamento apresentam maior consistência quando definem formas de prevenção, registro, acompanhamento e avaliação das ações realizadas. Rocha (2020) ressalta que, nos casos envolvendo pessoas com deficiência, as medidas precisam respeitar as necessidades e formas de comunicação de cada estudante. Assim, protocolos institucionais podem contribuir para evitar respostas improvisadas e assegurar que os casos sejam tratados de maneira responsável, educativa e protetiva.
As ações contra o bullying também devem evitar uma perspectiva exclusivamente punitiva. Carneiro (2020) observa que o fenômeno está relacionado às formas de convivência e às relações de poder existentes no ambiente escolar, sendo necessário compreender os fatores que sustentam as agressões. Brandt et al. (2020) ressaltam que vítimas e agressores podem apresentar consequências decorrentes do envolvimento com o bullying, embora de maneiras distintas. Por essa razão, além de interromper imediatamente as práticas violentas, a instituição precisa trabalhar com os envolvidos, buscando desenvolver responsabilidade, respeito, reconhecimento dos danos causados e formas não violentas de relacionamento.
Por fim, o combate ao bullying contra alunos com deficiência deve ser compreendido como parte de uma política permanente de construção de uma escola inclusiva. Fernandes et al. (2023) defendem intervenções que questionem práticas discriminatórias muitas vezes naturalizadas no cotidiano educacional. Cunha et al. (2018) ressaltam que a aprendizagem da convivência exige oportunidades contínuas para experimentar cooperação, respeito e reconhecimento da diversidade. Dessa forma, estratégias pedagógicas articuladas à formação docente, ao envolvimento das famílias, à participação dos estudantes e à atuação institucional podem fortalecer uma cultura escolar capaz de prevenir a violência e garantir aos alunos com deficiência condições mais seguras e dignas de participação.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida a partir da análise de produções científicas relacionadas ao bullying no ambiente escolar, com ênfase nas situações envolvendo estudantes com deficiência e nas estratégias pedagógicas utilizadas para sua prevenção e enfrentamento. A pesquisa bibliográfica possibilita reunir, organizar e analisar conhecimentos já produzidos sobre determinado objeto de investigação, permitindo ao pesquisador compreender diferentes perspectivas e estabelecer relações entre os estudos encontrados. Conforme Gil (2022), esse tipo de investigação é desenvolvido com base em materiais previamente elaborados, especialmente livros, artigos científicos, dissertações, teses e outras produções acadêmicas, constituindo importante procedimento para a construção da fundamentação científica de um estudo.
Para o levantamento das produções foram consideradas buscas realizadas nas plataformas Google Acadêmico, Scientific Electronic Library Online (SciELO), Portal de Periódicos da CAPES e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Foram utilizados, de maneira isolada e combinada, os seguintes descritores: “bullying escolar”, “bullying e deficiência”, “bullying contra alunos com deficiência”, “inclusão escolar e bullying”, “estratégias pedagógicas contra o bullying”, “prevenção do bullying”, “educação inclusiva e bullying” e “professor e enfrentamento do bullying”. As combinações buscaram ampliar a identificação de trabalhos relacionados tanto aos aspectos conceituais do fenômeno quanto às práticas educativas destinadas à sua prevenção.
Inicialmente, foram identificadas 86 produções nas plataformas consultadas. Após a leitura dos títulos e resumos, foram eliminados trabalhos duplicados e produções que não apresentavam relação direta com os objetivos da investigação. Posteriormente, os materiais potencialmente relevantes foram submetidos à leitura mais detalhada, resultando na seleção final de 14 estudos, os quais constituíram o corpus bibliográfico utilizado para a construção do referencial teórico e para a análise do tema investigado.
Tabela 1. Estratégia de busca e seleção dos estudos
Plataforma de busca | Principais descritores utilizados | Estudos encontrados | Estudos selecionados |
Google Acadêmico | “bullying escolar”; “bullying e deficiência”; “estratégias pedagógicas contra o bullying” | 38 | 6 |
SciELO | “bullying escolar”; “inclusão escolar e bullying”; “prevenção do bullying” | 18 | 2 |
Portal de Periódicos CAPES | “bullying contra alunos com deficiência”; “educação inclusiva e bullying”; “estratégias pedagógicas” | 21 | 4 |
BDTD | “bullying e deficiência”; “professor e enfrentamento do bullying”; “bullying no contexto escolar” | 9 | 2 |
Total | — | 86 | 14 |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Como critérios de inclusão, foram considerados artigos científicos, livros, capítulos, trabalhos acadêmicos, dissertações e outras produções brasileiras que apresentassem relação direta com bullying escolar, inclusão educacional, estudantes com deficiência, consequências da violência escolar ou estratégias pedagógicas e institucionais de prevenção e enfrentamento. Também foram priorizados materiais disponíveis integralmente, escritos em língua portuguesa e capazes de contribuir diretamente para os objetivos estabelecidos nesta pesquisa. Foram mantidos estudos clássicos relevantes para a compreensão do fenômeno, como Botelho et al. (2007), juntamente com produções mais recentes, permitindo observar diferentes perspectivas sobre o problema.
Como critérios de exclusão, foram retiradas publicações duplicadas entre as plataformas, estudos que abordavam violência sem relação específica com bullying, trabalhos centrados exclusivamente em ambientes externos ao contexto educacional, produções que não apresentavam relação com os objetivos da pesquisa e documentos cujo conteúdo integral não estava disponível para análise. Também foram excluídas publicações que, após a leitura do resumo ou do texto completo, não contribuíam diretamente para a discussão sobre bullying, deficiência, inclusão ou estratégias pedagógicas.
Ao término das etapas de identificação, triagem e elegibilidade, 14 estudos foram selecionados para compor a pesquisa bibliográfica. Entre eles encontram-se as produções de Botelho et al. (2007), Cachoeira et al. (2015), Borges et al. (2018), Cunha et al. (2018), Brandt et al. (2020), Carneiro (2020), Rocha (2020), Tessaro et al. (2022), Frias et al. (2022), Fernandes et al. (2023), Morais (2024), Almeida et al. (2025), Gonçalves (2025) e Guimarães et al. (2025). Esses trabalhos forneceram a base teórica para discutir as características e consequências do bullying, a vulnerabilidade de estudantes com deficiência e as possibilidades de intervenção pedagógica no contexto escolar.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos 14 estudos selecionados permitiu identificar que o bullying contra estudantes com deficiência constitui um fenômeno recorrente no ambiente escolar e apresenta características que demandam atenção específica dos profissionais da educação. Os resultados encontrados evidenciaram quatro aspectos predominantes: a maior vulnerabilidade dos estudantes com deficiência às práticas de intimidação; a presença de diferentes formas de bullying, especialmente verbal, psicológico e social; as dificuldades encontradas pelos professores para reconhecer e intervir adequadamente nos episódios; e a importância de estratégias pedagógicas permanentes voltadas à prevenção e ao fortalecimento da convivência inclusiva. Tessaro et al. (2022) apontam que estudantes com deficiência podem apresentar maior exposição a situações de bullying devido às diferenças percebidas no ambiente escolar. De modo semelhante, Morais (2024) evidencia que características relacionadas à deficiência podem ser transformadas em motivo para ridicularização, exclusão e comportamentos discriminatórios entre os colegas.
Em relação às formas de manifestação do bullying, verificou-se que as agressões não se restringem à violência física. Entre os estudos analisados, destacaram-se comportamentos como apelidos ofensivos, piadas, imitações, insultos, exclusão das atividades, isolamento social e comentários depreciativos associados às características dos estudantes. Brandt et al. (2020) afirmam que o bullying pode ocorrer de maneira direta ou indireta, sendo que as formas indiretas frequentemente apresentam maior dificuldade de identificação. Cachoeira et al. (2015) reforçam que determinadas práticas de exclusão e rejeição podem permanecer pouco perceptíveis aos profissionais da escola, sobretudo quando são compreendidas como comportamentos comuns entre crianças e adolescentes. Esse resultado demonstra que o enfrentamento do bullying exige atenção não somente às agressões explícitas, mas também às manifestações mais sutis presentes nas relações entre os estudantes.
Os resultados também evidenciaram que as consequências do bullying ultrapassam o momento da agressão e podem atingir diferentes dimensões da vida escolar. Foram identificadas repercussões relacionadas ao rendimento acadêmico, à participação em sala de aula, à interação com os colegas e à disposição para frequentar a escola. Almeida et al. (2025) relacionam o fenômeno a dificuldades de aprendizagem e alterações no envolvimento dos estudantes com as atividades escolares. Frias et al. (2022) demonstram que experiências de bullying podem permanecer como lembranças negativas significativas mesmo após o término da Educação Básica. No caso dos estudantes com deficiência, essas consequências podem tornar-se ainda mais preocupantes porque a violência pode reforçar barreiras já existentes no processo de inclusão, comprometendo o sentimento de pertencimento e a participação efetiva no cotidiano escolar.
Outro achado relevante refere-se à diferença entre inclusão formal e inclusão efetiva. Os estudos analisados indicam que a matrícula do estudante com deficiência na escola regular não garante, por si só, sua integração social e proteção contra práticas discriminatórias. Fernandes et al. (2023) discutem que determinadas formas de violência podem permanecer ocultas em instituições que formalmente desenvolvem propostas inclusivas. Tessaro et al. (2022) também evidenciam que estudantes com deficiência podem participar das atividades escolares e, simultaneamente, vivenciar rejeição ou isolamento por parte dos colegas. Esses resultados demonstram que a avaliação das práticas inclusivas precisa considerar não apenas o acesso ao ensino, mas também as relações interpessoais, a participação nas atividades coletivas e as condições de segurança e respeito oferecidas aos estudantes.
A preparação dos professores apareceu como outro elemento recorrente nos estudos selecionados. Os resultados indicam que docentes capacitados para compreender as características do bullying e da educação inclusiva apresentam melhores condições para identificar mudanças de comportamento, situações de isolamento e práticas recorrentes de intimidação. Borges et al. (2018) ressaltam que as concepções dos professores acerca do bullying interferem na maneira como os episódios são interpretados e enfrentados. Guimarães et al. (2025) destacam que a preparação do professor de apoio também contribui para o reconhecimento e a intervenção em casos envolvendo alunos com deficiência. Dessa forma, a formação continuada apresenta-se como uma necessidade para ampliar a capacidade preventiva e interventiva dos profissionais.
Tabela 2. Principais resultados identificados nos estudos analisados
Categoria de análise | Principais resultados encontrados | Autores relacionados |
Vulnerabilidade dos estudantes com deficiência | Maior exposição a situações de intimidação, exclusão, preconceito e discriminação relacionadas às características da deficiência | Tessaro et al. (2022); Morais (2024); Rocha (2020) |
Formas de manifestação do bullying | Predomínio de agressões verbais, psicológicas e sociais, incluindo apelidos, piadas, isolamento, ridicularização e rejeição | Brandt et al. (2020); Cachoeira et al. (2015); Botelho et al. (2007) |
Consequências escolares | Dificuldades de aprendizagem, redução da participação, medo, insegurança, isolamento e comprometimento das relações sociais | Almeida et al. (2025); Frias et al. (2022); Carneiro (2020) |
Inclusão e convivência | A matrícula do estudante com deficiência não garante inclusão social ou ausência de práticas discriminatórias | Fernandes et al. (2023); Tessaro et al. (2022) |
Formação dos profissionais | Necessidade de capacitação de professores e profissionais de apoio para identificar e intervir nos casos | Borges et al. (2018); Guimarães et al. (2025) |
Estratégias pedagógicas | Ações contínuas de conscientização, diálogo, cooperação, valorização da diversidade e participação da comunidade escolar apresentam maior potencial preventivo | Cunha et al. (2018); Gonçalves (2025); Botelho et al. (2007) |
Fonte: Elaborado pelos autore com base nos 14 estudos selecionados (2026).
No que se refere às estratégias de enfrentamento, os estudos convergem para a necessidade de superar intervenções exclusivamente punitivas e ações realizadas somente após a ocorrência das agressões. Gonçalves (2025) demonstra que as propostas mais consistentes de enfrentamento articulam medidas pedagógicas e institucionais, incluindo prevenção, orientação, formação e acompanhamento dos casos. Cunha et al. (2018) defendem que a convivência respeitosa precisa ser construída pedagogicamente por meio de experiências que valorizem as diferenças e incentivem atitudes de cooperação. Assim, ações como rodas de conversa, projetos interdisciplinares, atividades cooperativas, leitura e discussão de situações relacionadas à diversidade podem contribuir para reduzir comportamentos discriminatórios e ampliar a participação dos estudantes com deficiência.
A análise também evidenciou que o enfrentamento do bullying precisa envolver os diferentes sujeitos que compõem a comunidade escolar. Botelho et al. (2007) ressaltam que as intervenções apresentam melhores possibilidades quando envolvem estudantes, professores, gestores e famílias. Frias et al. (2022) destacam a importância de ouvir os próprios estudantes para compreender situações que muitas vezes não chegam ao conhecimento direto dos adultos. Nesse sentido, a criação de canais seguros de comunicação e acolhimento pode contribuir para a identificação precoce dos episódios. O estudante precisa reconhecer que existe um espaço institucional no qual poderá relatar situações de intimidação sem que sua experiência seja minimizada ou interpretada apenas como conflito cotidiano.
Outro resultado importante refere-se ao papel dos estudantes que presenciam as agressões. Cachoeira et al. (2015) mostram que os espectadores podem reforçar o bullying quando permanecem passivos ou demonstram aprovação diante das agressões. Gonçalves (2025) evidencia que estratégias institucionais precisam considerar toda a comunidade escolar, e não somente vítima e agressor. A discussão desses achados permite compreender que ensinar os alunos a reconhecer práticas de bullying e orientá-los sobre como buscar ajuda também constitui uma estratégia pedagógica. Dessa maneira, os colegas podem deixar de atuar como espectadores passivos e assumir uma posição mais comprometida com a proteção e o respeito aos demais estudantes.
De maneira geral, os resultados obtidos demonstraram que o bullying contra alunos com deficiência está diretamente relacionado aos desafios da construção de uma escola efetivamente inclusiva. Rocha (2020) ressalta que combater essa forma de violência exige enfrentar preconceitos e barreiras atitudinais presentes nas relações escolares. Fernandes et al. (2023) reforçam que práticas inclusivas precisam ultrapassar o discurso institucional e produzir transformações concretas na convivência cotidiana. Assim, os 14 estudos analisados permitem concluir que o enfrentamento do bullying depende de ações permanentes e articuladas, envolvendo formação profissional, participação familiar, escuta dos estudantes, valorização das diferenças e desenvolvimento de estratégias pedagógicas voltadas à construção de relações baseadas no respeito, na cooperação e na inclusão.
5. CONCLUSÃO
A presente pesquisa teve como objetivo geral analisar as estratégias pedagógicas utilizadas no enfrentamento ao bullying contra alunos com deficiência no contexto escolar, identificando os principais desafios e as possibilidades de intervenção para a promoção de um ambiente educacional inclusivo, seguro e respeitoso. A partir da análise bibliográfica realizada, foi possível compreender que o bullying direcionado a estudantes com deficiência constitui um problema que ultrapassa situações pontuais de conflito, envolvendo práticas recorrentes de intimidação, exclusão, ridicularização e discriminação que podem comprometer o desenvolvimento acadêmico, social e emocional desses alunos.
Os objetivos específicos propostos também foram atendidos ao longo da investigação. Em relação à identificação das principais formas de bullying vivenciadas por alunos com deficiência, os estudos analisados demonstraram a presença de agressões verbais, psicológicas, sociais e, em alguns casos, físicas, manifestadas por meio de apelidos ofensivos, piadas, imitações, isolamento, rejeição e constrangimentos relacionados às características da deficiência. Verificou-se ainda que essas situações podem repercutir negativamente na aprendizagem, na participação em sala de aula, no sentimento de pertencimento e na disposição do estudante para permanecer no ambiente escolar.
Quanto aos desafios enfrentados por professores e pela equipe escolar, os resultados apontaram dificuldades relacionadas à identificação de manifestações mais sutis de bullying, à insuficiência de formação específica, à naturalização de comportamentos agressivos e à ausência de ações institucionais permanentes. Nesse sentido, ficou evidente que a inclusão não pode ser compreendida apenas como matrícula e presença física do aluno com deficiência na escola regular. Para que seja efetiva, é necessário garantir relações respeitosas, participação nas atividades, segurança e reconhecimento da diversidade como parte constitutiva do espaço educacional.
Também foi possível alcançar o objetivo de analisar estratégias pedagógicas capazes de contribuir para a prevenção e o combate ao bullying. Entre as principais possibilidades identificadas destacam-se a formação continuada dos professores, a atuação articulada entre docentes e profissionais de apoio, a realização de rodas de conversa, projetos interdisciplinares, atividades cooperativas, ações de valorização das diferenças, criação de canais seguros de escuta, participação das famílias e estabelecimento de procedimentos institucionais claros para acompanhamento dos casos. Conclui-se, portanto, que o enfrentamento do bullying contra alunos com deficiência exige ações contínuas e coletivas, e não apenas respostas pontuais ou exclusivamente punitivas.
Para futuras pesquisas, sugere-se a realização de estudos de campo em escolas públicas e privadas, envolvendo professores, gestores, estudantes com deficiência, familiares e profissionais de apoio, com o objetivo de compreender como as estratégias de prevenção são efetivamente aplicadas no cotidiano. Recomenda-se também investigar a eficácia de programas específicos de combate ao bullying, comparar diferentes etapas da Educação Básica e analisar como recursos digitais, projetos de educação socioemocional e práticas de mediação de conflitos podem contribuir para a construção de ambientes escolares mais inclusivos e seguros.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Mestrado - Universidade Inter Americana. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Doutorado na UPAP- (Universidad Politécnica y Artística del Paraguay). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Mestrado em Saúde Pública Nome da Universidade: - Universidad Internacional Três Fronteras -UNINTER. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Mestranda em Ciências da Educação - Universidade Autônoma de Assunção. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail