ESTIMATIVA DE COERCIVIDADE BILATERAL PARA O OPERADOR DE JACOBI NA CLASSE CONFORME DE SUPERFÍCIES HIPERBÓLICAS COMPACTAS

BILATERAL COERCIVITY ESTIMATE FOR THE JACOBI OPERATOR IN THE CONFORMAL CLASS OF COMPACT HYPERBOLIC SURFACES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777452347

RESUMO
O artigo estabelece uma estimativa de coercividade bilateral para o operador de Jacobi associado à classe conforme de superfícies hiperbólicas compactas de gênero maior ou igual a dois. Demonstra-se que, no regime perturbativo em espaço de Sobolev de ordem dois, a norma quadrática da ação do operador sobre o fator conforme é equivalente à norma de Sobolev do fator, com constantes explícitas dependentes apenas da superfície de base. O mecanismo governante é a estrita positividade do primeiro autovalor do operador no subespaço de média nula, decorrente do gap espectral. A variância intrínseca de curvatura satisfaz a mesma estimativa bilateral no mesmo regime, via redução não linear que controla a distorção de medida, o peso multiplicativo e o resto quadrático associados à mudança conforme. A constante ótima assintótica de coercividade é identificada como função espectral explícita cujo ínfimo vale um, aproximado pelos altos autovalores e alcançado apenas no limite assintótico. O supremo da função corresponde ao modo de mais baixa frequência, amplificado no infravermelho. Um cálculo explícito na superfície de Bolza fornece a razão espectral aproximadamente igual a um vírgula setecentos e quarenta e um. O resultado caracteriza a energia de Calabi restrita à classe conforme como realização local da norma do grafo do operador de Jacobi, estabelecendo equivalência quantitativa entre rigidez conforme e completude espectral.
Palavras-chave: Operador de Jacobi; coercividade bilateral; geometria conforme; superfícies hiperbólicas compactas; rigidez quantitativa.

ABSTRACT
This paper establishes a bilateral coercivity estimate for the Jacobi operator associated with the conformal class of compact hyperbolic surfaces of genus greater than or equal to two. It proves that, under small conformal perturbations in a second-order Sobolev space, the squared norm of the operator applied to the conformal factor is equivalent to the Sobolev norm of the factor itself, with explicit constants depending only on the base surface. The governing mechanism is the strict positivity of the first eigenvalue of the operator on the mean-zero subspace, which follows from the spectral gap. The intrinsic curvature variance satisfies the same bilateral estimate in the same regime, through a nonlinear reduction that controls the measure distortion, the multiplicative weight, and the quadratic remainder associated with the conformal change. The asymptotic optimal coercivity constant is identified as an explicit spectral function whose infimum equals one, approached by high eigenvalues and attained only in the asymptotic limit. The supremum corresponds to the lowest-frequency mode, amplified in the infrared regime. An explicit computation on the Bolza surface yields a spectral ratio approximately equal to one point seven four one. The result characterises the Calabi energy restricted to the conformal class as a local realisation of the graph norm of the Jacobi operator, establishing quantitative equivalence between conformal rigidity and spectral completeness.
Keywords: Jacobi operator; bilateral coercivity; conformal geometry; compact hyperbolic surfaces; quantitative rigidity.

1. INTRODUÇÃO

Um tema central em análise geométrica é a passagem da rigidez qualitativa para a rigidez quantitativa. Quando um funcional de déficit geométrico é pequeno, a questão natural é estabelecer quão próximo o objeto geométrico está da configuração rígida, e sob qual norma essa proximidade se mede. Exemplos clássicos incluem a desigualdade de Fusco, Maggi e Pratelli para o déficit isoperimétrico (Fusco; Maggi; Pratelli, 2008), a estabilidade de Bianchi e Egnell para extremais da desigualdade de Sobolev (Bianchi; Egnell, 1991) e os teoremas de quase-rigidez de Colding (Colding, 1996).

Em geometria conforme, o teorema de uniformização garante que toda classe conforme sobre uma superfície compacta de gênero γ2 contém uma métrica hiperbólica única. A energia de Calabi restrita à classe conforme fornece um funcional natural de déficit:

η ( g ) := M ( K g + κ 0 ) 2 d μ g ,

em que  K g  denota a curvatura gaussiana de g = e 2 ψ g 0 e κ 0 = 2 π ( 2 γ 2 ) Area ( M , g 0 ) é a curvatura hiperbólica de referência.

1.1. Resultado Principal

Teorema 1.1 (Estimativa de coercividade bilateral para o operador de Jacobi). Seja (M,g0) uma superfície hiperbólica compacta de gênero γ2. Existem ε0>0 e 0<cC<, dependentes apenas de (M,g0), tais que, sempre que ψH2<ε0, vale
c ψ H 2 2 η ( g ) C ψ H 2 2 .

As constantes satisfazem c λ 1 ( J ) 2 4 C e l l 2 e ε 0 λ 1 ( J ) 2 C e l l C R , em que C e l l depende apenas da estrutura elíptica de J e C R depende da imersão de Sobolev em dimensão dois. O resultado estabelece uma estimativa quantitativa de estabilidade no regime perturbativo. Não afirma coercividade global (ver Problema em aberto 4.1). Todo o mecanismo de rigidez reduz-se a uma única condição espectral: λ 1 ( J ) > 0 . Essa condição é suficiente e necessária para a estimativa bilateral; caso o gap espectral se anule, a cota inferior falha (Corolário 4.7).

As técnicas empregadas — regularidade elíptica, imersão de Sobolev, teoria de Fredholm — são clássicas. O que é novo é o resultado específico: a estimativa bilateral com constantes espectrais explícitas para a energia de Calabi restrita à classe conforme de superfícies hiperbólicas compactas, junto com a identificação da constante assintoticamente ótima como função espectral computável. Até onde se sabe, uma estimativa bilateral perturbativa explícita nessa forma, nesse contexto conforme, ainda não havia sido registrada.

A principal contribuição técnica é a Proposição 4.2, que estabelece uma comparação bilateral precisa entre a energia de Calabi e a norma do grafo do operador linearizado. A passagem de η ( g ) para J ψ L 2 ( g 0 ) 2 exige o controle simultâneo de três efeitos distintos: (i) a mudança conforme de medida, d μ g = e 2 ψ d μ g 0 ; (ii) o peso multiplicativo e 2 ψ na fórmula da curvatura; (iii) o resto quadrático Q 0 ( ψ ) = e 2 ψ 1 2 ψ . Nenhum desses efeitos é absorvido apenas pela regularidade elíptica. Em particular, a estimativa não segue da coercividade de J isoladamente, mas de um controle acoplado de medida, pesos e restos não lineares.

1.2. O Que é e o Que Não é Novo

A energia de Calabi e sua teoria de Euler-Lagrange são clássicas; ver Calabi (1982), Chen (2001), Chruściel (1991) e Struwe (2008). A identidade do hessiano Hess F = 2 L i L para funcionais do tipo resíduo quadrático é implícita em Bourguignon e Lawson (1981) no contexto de Yang-Mills, e em Koiso (1978, 1980) para métricas de Einstein. O presente artigo contribui com:

O presente artigo contribui com:

  1. uma estimativa de coercividade bilateral ηψH22 com constantes espectrais explícitas;

  2. a identificação da constante assintoticamente ótima como função espectral copt2=infjRμj,κ0=1, com análise de monotonicidade e saturação ultravioleta;

  3. a interpretação de η como norma do grafo ao quadrado do operador de Jacobi, conectando coercividade e completude observacional;

  4. um teorema abstrato de coercividade bilateral para a classe F={R2} sob quatro hipóteses estruturais explícitas (H1) a (H4).

O arcabouço abstrato da Seção 2.3 é logicamente independente da geometria conforme: aplica-se a qualquer funcional da forma F ( u ) = R ( u ) 2 , em que R se anula em um ponto crítico e a linearização L = D R ( u 0 ) satisfaz (H1) a (H4). A aplicação geométrica à energia de Calabi é uma instância; a mesma estrutura governa resíduos de Yang-Mills (Bourguignon; Lawson, 1981), funcionais de déficit de Einstein (Koiso, 1978, 1980) e, mais amplamente, qualquer problema variacional de resíduo quadrático com linearização elíptica e gap espectral.

1.3. Comparação com Resultados Existentes

Entre as referências de estabilidade quantitativa mais próximas, o trabalho de Frank e König (2024) é o mais afim em espírito: ambos os resultados estabelecem estabilidade quantitativa precisa via análise espectral de um operador elíptico associado. Os contextos geométricos são, contudo, substancialmente distintos. Frank e König estabelecem estabilidade quantitativa para o espectro de Dirichlet sob deformação do domínio — perturbações de forma da bola em R n —, com mecanismo de estabilidade baseado em derivadas de forma e monotonicidade em relação ao domínio.

No presente artigo, o domínio M é fixo, e a perturbação atua dentro de uma única classe conforme: g = e 2 ψ g 0 com ψ H 0 2 ( M ) . O déficit é a variância intrínseca de curvatura η ( g ) , e a coercividade é governada inteiramente pelo gap espectral do operador de Jacobi J = - Δ g 0 + 2 κ 0 sobre o subespaço de média nula. A distinção — deformação de domínio contra deformação conforme com domínio fixo — explica as ferramentas analíticas distintas (cálculo de forma contra regularidade elíptica e álgebra de Sobolev em dimensão dois) e os papéis diferentes desempenhados pelo gap espectral em cada contexto.

1.4. Organização do Artigo

A Seção 2 apresenta a fundamentação teórica: convenções geométricas (2.1), o operador de Jacobi e suas propriedades elípticas (2.2) e o arcabouço variacional abstrato (2.3). A Seção 3 descreve a metodologia — formulação das hipóteses estruturais, verificação dessas hipóteses no caso geométrico e estimativas não lineares associadas à mudança conforme. A Seção 4 apresenta os resultados: o teorema abstrato de coercividade bilateral (4.1), a redução quadrática (4.2), o teorema principal (4.3), a análise da constante ótima (4.4), o cálculo explícito na superfície de Bolza (4.5) e a interpretação via norma do grafo com conexões a temas correlatos (4.6). A Seção 5 apresenta as considerações finais.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Esta seção reúne os objetos geométricos e analíticos utilizados no artigo. A Subseção 2.1 fixa convenções sobre o laplaciano, a mudança conforme e os espaços funcionais. A Subseção 2.2 define o operador de Jacobi e estabelece suas propriedades elípticas básicas. A Subseção 2.3 apresenta o arcabouço variacional abstrato que, isolado da geometria, captura a estrutura comum a todos os problemas de coercividade bilateral para funcionais do tipo resíduo quadrático.

2.1. Superfície Hiperbólica e Convenções Geométricas

Em todas as seções geométricas, ( M , g 0 ) denota uma superfície riemanniana compacta, conexa, orientável, sem bordo, de gênero γ 2 , munida de sua métrica hiperbólica única com curvatura K g 0 - κ 0 , κ 0 > 0 . Existência e unicidade seguem da uniformização (Aubin, 1998). Adotam-se as convenções:

(C1) Sinal do laplaciano. Δ = i ( ) é negativo-semidefinido. Os autovalores de - Δ são 0 = μ 0 < μ 1 μ 2 .

(C2) K g 0 = - κ 0 com κ 0 > 0 .

(C3) Gauss-Bonnet. κ 0 = 2 π ( 2 γ - 2 ) / Area ( M , g 0 ) .

(C4) Fator conforme. g = e 2 ψ g 0 , com ψ H 2 ( M ) e M ψ d μ g 0 = 0 .

(C5) Mudança conforme de medida. d μ g = e 2 ψ d μ g 0 .

(C6) Norma de Sobolev. ψ H 2 2 = ψ L 2 2 + g 0 ψ L 2 2 + Δ g 0 ψ L 2 2 .

(C7) Domínio funcional. O operador J = - Δ g 0 + 2 κ 0 atua sobre H 0 2 ( M ) := { ψ H 2 ( M ) : M ψ d μ g 0 = 0 } .

Observação 2.1 (Casos excluídos). Na esfera ( γ = 0 ) , o grupo P S L ( 2 , C ) gera um núcleo não trivial para η . No toro plano ( γ = 1 ) , κ 0 = 0 e λ min ( J ) = 0 , de modo que a coercividade falha. Ambos os casos estão fora do escopo deste artigo.

A curvatura transforma-se segundo

K g + κ 0 = e - 2 ψ [ - Δ g 0 ψ + κ 0 ( e 2 ψ - 1 ) ] .

2.2. O Operador de Jacobi e Suas Propriedades Elípticas

Definição 2.2 (Operador de Jacobi). O operador de Jacobi é J := - Δ g 0 + 2 κ 0 : H 0 2 ( M ) L 2 ( M , g 0 ) Esse operador é a linearização do resíduo de curvatura R ( ψ ) = K g + κ 0 em ψ = 0 .

Lema 2.3 (Coercividade de J ). O espectro de J restrito a H 0 2 satisfaz s p e c ( J H 0 2 ) . Em particular, λ m i n ( J ) = μ 1 + 2 κ 0 2 κ 0 > 0 sobre H 0 2 ( M ) , e, para todo ψ H 0 1 ( M ) :

J ψ , ψ L 2 = M ( | g 0 ψ | 2 + 2 κ 0 ψ 2 ) d μ g 0 2 κ 0 ψ L 2 2 .

A implicação λ 1 ( J ) > 0 F ( ψ ) = J ψ L 2 2 é coerciva segue diretamente, com c λ 1 ( J ) 2 .

Prova. Os autovalores de J sobre H 0 2 são μ j + 2 κ 0 para j 1 . Como μ 1 > 0 — primeiro autovalor positivo de Δ g 0 , sob a condição de média nula em superfície compacta de gênero γ 2 — e κ 0 > 0 , todos os autovalores de J sobre H 0 2 superam 2 κ 0 . A identidade integral resulta da integração por partes em superfície compacta. ◻

Observação 2.4 (Gap espectral e domínio funcional). O valor de λ m i n ( J ) depende do domínio funcional: λ m i n ( J ) = 2 κ 0 em L 2 ( M ) (modo constante e 0 presente) e λ m i n ( J ) = μ 1 + 2 κ 0 em H 0 2 ( M ) (média nula, modo constante excluído). Ao longo deste artigo, J atua sobre H 0 2 ( M ) e o gap operativo é λ 1 ( J ) = μ 1 + 2 κ 0 . Todas as constantes de coercividade dependem de λ 1 ( J ) = μ 1 + 2 κ 0 , e não de 2 κ 0 .

Definição 2.5 (Funcional quadrático). Para ψ H 0 2 ( M ) , define-se F ( ψ ) := J ψ L 2 2 .

Observação 2.6 (Equivalência com η ). A variância intrínseca de curvatura η ( g ) = K g + κ 0 L 2 ( g ) 2 difere de F ( ψ ) = J ψ L 2 ( g 0 ) 2 por termos de peso de medida e termos não lineares. Em ordem linear em ψ , as duas quantidades coincidem. A estimativa bilateral para η é obtida a partir da estimativa bilateral para F via análise não linear (Seção 3).

Proposição 2.7 (Estimativa bilateral de Sobolev para F ). Para ψ H 0 2 ( M ) com ψ H 2 δ :

c ψ H 2 2 J ψ L 2 2 C ψ H 2 2 ,

em que c = C r e g 2 e C = J H 2 L 2 2 , com C r e g = J 1 L 2 H 2 .

Prova. Cota inferior: a estimativa elíptica (Lema 3.8) fornece ψ H 2 C r e g J ψ L 2 ; logo J ψ L 2 2 C r e g 2 ψ H 2 2 . Cota superior: J ψ L 2 2 J H 2

2.3. O Arcabouço Variacional Abstrato

Sejam ( X , X ) e ( Y , Y ) espaços de Hilbert reais separáveis, U X aberto e R : U Y uma aplicação de classe C 2 com R ( u 0 ) = 0 para algum u 0 U . Define-se F ( u ) := R ( u ) Y 2 . A linearização é L := D R ( u 0 ) : X Y . A fórmula universal D 2 F ( u 0 ) = 2 L L é algébrica. Impõem-se as hipóteses seguintes:

(H1) Estimativa elíptica. Existe C e l l > 0 tal que h H 2 C e l l L h L 2 para todo h H 0 2 ( M ) , em que H 2 := H 2 ( M ) tem norma h H 2 2 = h L 2 2 + g 0 h L 2 2 + Δ g 0 h L 2 2 .

(H2) Propriedade de Fredholm. L : H 2 L 2 é Fredholm de índice zero.

(H3) Gap espectral. ker L = { 0 } (injetividade da linearização). Isso implica λ 1 ( L ) > 0 e, portanto, coercividade:

λ 1 ( L ) > 0 h H 2 C e l l λ 1 ( L ) - 1 L h L 2 ;

em consequência, c λ 1 ( L ) 2 .

(H4) Cota quadrática do resto. R C 2 ( U , Y ) e existe C R > 0 tal que D 2 R ( u 0 ) ( h , h ) L 2 C R h H 2 2 para todo h com h H 2 1 .

Observação 2.9 (Escala de (H4)). Como a cota D 2 R ( u 0 ) ( h , h ) L 2 C R h H 2 2 é quadrática, estende-se por homogeneidade a todo h com h H 2 ρ , para qualquer ρ > 0 , contanto que D 2 R seja uniformemente contínua em B H 2 ( ρ ) . Na aplicação geométrica, a continuidade uniforme de D 2 R em subconjuntos limitados de H 2 segue da imersão de Sobolev H 2 ( M ) C 0 ( M ) em dimensão dois (Adams; Fournier, 2003) e da suavidade da aplicação exponencial. Isso garante que a cota em (H4), enunciada para h H 2 1 , aplica-se sem modificação na escala ψ H 2 ε 0 usada no Teorema 2.10.

Teorema 2.10 (Coercividade bilateral abstrata). Suponha-se que (H1) a (H4) valham. Definam-se C 0 := L - 1 L 2 H 2 e ε 0 := 1 / ( 2 C 0 C R ) . Então, para todo ψ H 0 2 ( M ) com ψ H 2 < ε 0 :

c ψ H 2 2 F ( u 0 + ψ ) C ψ H 2 2 ,

com C = 2 L H 2 L 2 2 + C R 2 ε 0 2 e c = ( 4 C 0 2 ) - 1 .

Prova. Escreve-se R ( u 0 + ψ ) = L ψ + Q ( ψ ) , em que Q ( ψ ) = 0 1 ( 1 - t ) D 2 R ( u 0 + t ψ ) ( ψ , ψ ) d t . Por (H4) e pela Observação 2.9, Q ( ψ ) L 2 1 2 C R ψ H 2 2 .

Passo 1 (Cota superior). F ( u 0 + ψ ) = L ψ + Q ( ψ ) L 2 2 2 L ψ L 2 2 + 2 Q ( ψ ) L 2 2 2 L H 2 L 2 2 ψ H 2 2 + 1 2 C R 2 ψ H 2 4 . Para ψ H 2 < ε 0 : F C ψ H 2 2 .

Passo 2 (Estimativa elíptica). Por (H1) a (H3) e pela alternativa de Fredholm, L : H 2 L 2 é um isomorfismo. A estimativa elíptica (Gilbarg; Trudinger, 2001) fornece ψ H 2 C 0 L ψ L 2 para todo ψ H 0 2 ( M ) .

Passo 3 (Cota inferior). Pela desigualdade triangular reversa, L ψ L 2 F + 1 2 C R ψ H 2 2 . Combinando com o passo 2, ψ H 2 C 0 F + 1 2 C 0 C R ψ H 2 2 . Para ψ H 2 ε 0 = ( 2 C 0 C R ) - 1 , tem-se 1 2 ψ H 2 C 0 F ; logo F ( 4 C 0 2 ) - 1 ψ H 2 2 .

Proposição 2.11 (Dependência espectral das constantes). Sob a notação do Teorema 2.10, valem:

  • (i) C 0 C e l l λ 1 ( L ) - 1 ;
  • (ii) ε 0 λ 1 ( L ) / ( 2 C e l l C R ) ;
  • (iii) c λ 1 ( L ) 2 / ( 4 C e l l 2 ) ;
  • (iv) as constantes dependem apenas da estrutura elíptica de L e das cotas em (H1) a (H4), sendo independentes da interpretação geométrica.

3. METODOLOGIA

Esta seção descreve a estratégia analítica adotada para estabelecer o Teorema 1.1. A metodologia segue três etapas articuladas. Primeiro, verifica-se que o operador de Jacobi J na superfície hiperbólica satisfaz as quatro hipóteses estruturais (H1) a (H4) do arcabouço abstrato (Subseção 3.1). Segundo, desenvolvem-se estimativas não lineares que quantificam a distorção de medida, o peso exponencial e o resto quadrático da fórmula da curvatura (Subseção 3.2). Terceiro, articula-se a redução do funcional geométrico η(g) ao funcional linearizado F(ψ)=JψL22 via bootstrap de exclusão de fronteira em conjunto de subnível (Subseção 3.3). Todos os argumentos são locais, no regime perturbativo ψH2δ com δ>0 pequeno. As constantes envolvidas dependem apenas dos dados geométricos de (M,g0): a curvatura de referência κ0, o primeiro autovalor não trivial μ1 do laplaciano, a constante de Sobolev CS e a constante de regularidade Creg=J-1L2H2.

3.1. Verificação das Hipóteses no Caso Geométrico

Proposição 3.1 (Verificação de (H1)-(H4) para L=J). As hipóteses (H1) a (H4) valem para L=J=-Δg0+2κ0 em (M,g0) compacta hiperbólica, γ2.

Prova.

(H1). -Δg0 é elíptico de segunda ordem, autoadjunto em L2(M,g0), com espectro discreto convergente a + pela compacidade. A soma com o operador limitado 2κ0Id preserva essas propriedades. A estimativa elíptica segue da teoria clássica (Gilbarg; Trudinger, 2001).

(H2). Em variedade compacta sem bordo, todo operador elíptico de segunda ordem H2L2 é Fredholm de índice zero (Gilbarg; Trudinger, 2001).

(H3). Pelo Lema 2.3, λmin(JH02)=μ1+2κ0>0.

(H4). Calcula-se explicitamente a segunda derivada de Fréchet de R(ψ)=e-2ψ(-κ0-Δg0ψ)+κ0. Derivando duas vezes em ψ=0:

D2R(0)(h,h)=4κ0h2+4hΔg0h-2Δg0(h2),

em que cada termo é produto ou composição de h com suas derivadas até ordem dois. Em dimensão dois, H2(M)C0(M) com constante CS (Adams; Fournier, 2003), e H2(M) é álgebra de Banach: para f,gH2, a regra de Leibniz fornece fgH2CalgfH2gH2. Aplicando essa propriedade a cada termo: o termo 4κ0h2 satisfaz h2L2hC0hL2CShH22; o termo 4hΔg0h satisfaz hΔg0hL2hC0Δg0hL2CShH22; o termo Δg0(h2)=2hΔg0h+2|g0h|2 satisfaz Δg0(h2)L2ChH22 pela estrutura de álgebra de Banach. Tomando CR=4κ0CS+4CS+2C, completa-se a verificação.

3.2. Estimativas Não Lineares

Denota-se por CS a constante da imersão de Sobolev ψC0CSψH2, válida na superfície compacta M em dimensão dois (Adams; Fournier, 2003).

Lema 3.2 (Estimativa L2 para o resto não linear). Para δ>0, define-se CQ(δ):=2CSe4CSδ. Então, para todo ψH02(M) com ψH2δ: Q(ψ)L2CQ(δ)ψH22.

Prova. Pela fórmula da curvatura, Kg+κ0=e-2ψ(Jψ+κ0Q0(ψ)), em que Q0(ψ)=e2ψ-1-2ψ. Para todo t, |e2t-1-2t|2t2e2|t| (resto de Taylor). A imersão de Sobolev dá ψC0CSδ; logo e2|ψ|e2CSδ pontualmente. Combinando com e-2ψLe2CSδ, obtém-se a cota enunciada.

Lema 3.3 (Comparação de medidas). Para ψH2δ com CSδ1 e todo hL2:

e-2CSδhL2(g0)2hL2(g)2e2CSδhL2(g0)2.

Prova. Como dμg=e2ψdμg0 e |ψ|CSδ pontualmente, as cotas e-2CSδe2ψe2CSδ valem pontualmente. Integrando, obtém-se a estimativa.

Lema 3.4 (Regularidade elíptica para J). Existe Creg>0, dependente apenas de (M,g0), tal que, para todo ψH02(M): ψH2CregJψL2. Explicitamente,

Creg=J-1L2H2=supj11+μj+μj2(μj+2κ0)2.

Prova. Como kerJH02={0} (Lema 2.3) e J é elíptico e Fredholm, J:H02L2 é um isomorfismo. O inverso J-1 é limitado L2H2 pelo teorema da aplicação aberta. Para a fórmula explícita: na base própria de -Δg0, ψH22=j(1+μj+μj2)|aj|2 e JψL22=j(μj+2κ0)2|aj|2.

3.3. Estratégia de Redução e Bootstrap

A redução do funcional geométrico η(g) ao funcional linearizado F(ψ)=JψL22 não é consequência direta da regularidade elíptica. Ela requer o controle acoplado de três efeitos multiplicativos: a distorção conforme de medida e2ψ, o peso W(ψ)=e-2ψ na fórmula da curvatura, e o resto exponencial Q0(ψ)=e2ψ-1-2ψ (Lemas 3.2 a 3.4).

A estratégia de prova da cota superior para η segue um esquema de bootstrap por exclusão de esfera. Fixado um limiar δ0>0 pequeno, mostra-se que toda perturbação ψ com η(g)ε0 pequeno e situada na componente conexa da origem em {ηε0} satisfaz ψH2<δ0. A demonstração procede por contradição: a esfera {ψH2=δ0} é incompatível com ηε0 pela escolha dos parâmetros, de modo que nenhum caminho contínuo da origem pode cruzá-la dentro do conjunto de subnível.

A cota inferior resulta da Proposição 4.2, que estabelece a estrutura quadrática η(g)=JψL22+O(ψH23), combinada com a estimativa elíptica do Lema 3.4. A combinação das duas cotas produz o Teorema 1.1, com domínio de validade controlado pelo menor entre os dois limiares perturbativos.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Esta seção apresenta os resultados obtidos. A Subseção 4.1 enuncia o teorema abstrato de coercividade bilateral, já demonstrado no arcabouço da Seção 2.3. A Subseção 4.2 estabelece a redução quadrática da variância de curvatura à norma linearizada. A Subseção 4.3 combina as partes em uma demonstração do teorema principal. A Subseção 4.4 analisa a constante ótima de coercividade como função espectral. A Subseção 4.5 realiza o cálculo explícito sobre a superfície de Bolza. A Subseção 4.6 discute a interpretação como norma do grafo e as conexões com problemas correlatos.

4.1. Coercividade Bilateral no Caso Geométrico

Aplicando o Teorema 2.10 abstrato a L=J, junto com a Proposição 3.1 que verifica as hipóteses (H1) a (H4), obtém-se imediatamente a estimativa bilateral no nível do funcional linearizado F(ψ)=JψL22. O passo seguinte consiste em transferir essa estimativa para o funcional geométrico η(g), que difere de F por termos não lineares envolvendo medida, peso e resto quadrático.

4.2. Estrutura Quadrática de η

Proposição 4.2 (Estrutura quadrática de η). Para ψH02(M) com ψH2δ e CSδ1:

|η(g)-JψL22|C1ψH23,

em que

C1=2(e2CSδ-1)JH2L22+2e2CSδJH2L2κ0CQ(δ)+e2CSδκ02CQ(δ)2δ,

com CQ(δ)=2CSe4CSδ do Lema 3.2. Em particular, η(g)=JψL22+O(ψH23) para ψ pequeno.

A variância de curvatura admite a representação

η(g)=R(ψ)L2(W(ψ)dμg0)2,W(ψ):=e-2ψ,

em que R(ψ)=Jψ+κ0Q0(ψ) é o resíduo de curvatura. No regime perturbativo ψH2δ, a imersão de Sobolev fornece as cotas uniformes e-2CSδW(ψ)e2CSδ; portanto, W(ψ) é limitado acima e abaixo por constantes estritamente positivas, dependentes apenas de (M,g0) e δ. Essa positividade estrita é consequência do regime perturbativo, e não uma hipótese adicional.

Prova. De Kg+κ0=e-2ψ(Jψ+κ0Q0(ψ)) com Q0(ψ)=e2ψ-1-2ψ, obtém-se

η(g)=M(Kg+κ0)2dμg=Me-2ψ(Jψ+κ0Q0)2dμg0.

Por outro lado, JψL22=M(Jψ)2dμg0. A diferença decompõe-se em três termos:

Termo 1: M(e-2ψ-1)(Jψ)2dμg0. Pelo teorema do valor médio, |e-2ψ-1|2|ψ|e2|ψ|. Usando ψC0CSδ, o termo é majorado por 2CSδe2CSδJH2L22ψH23. Para δ pequeno, 2CSδe2CSδe2CSδ-1; portanto, a majoração é (e2CSδ-1)JH2L22ψH23.

Termo 2: Me-2ψ2κ0Q0Jψdμg0. Pelo Lema 3.2, Q0L2CQ(δ)ψH22/κ0 (restaurando o fator κ0). O termo cruzado é majorado por 2e2CSδJH2L2κ0CQ(δ)ψH23.

Termo 3: Me-2ψκ02Q02dμg0. Esse termo é majorado por e2CSδκ02CQ(δ)2δψH23.

A soma das três contribuições fornece a estimativa.

4.3. Demonstração do Teorema Principal

Teorema 4.3 (Cota superior para η). Existem δ0>0 e ε0>0, dependentes apenas de (M,g0), tais que, se ψH02(M) pertence à componente conexa por caminhos da origem em {ηε0}, então ψH2Cuppη(g), com Cupp=2CregeCSδ0.

Observação 4.4 (Conexidade do conjunto de subnível). A qualificação de que ψ esteja na componente conexa por caminhos da origem em {ηε0} é retida no enunciado. Na geometria considerada, o regime perturbativo consiste precisamente em fatores conformes ψ pequenos em H2, conectados à origem pela reta ttψ dentro do espaço de métricas admissíveis. Não se afirma nada, em geral, sobre conexidade de conjuntos de subnível em espaços de dimensão infinita; a qualificação isola o regime local onde as estimativas se aplicam.

Prova. A desigualdade a priori proveniente da fórmula da curvatura é

ψH2CregeCSδ0η(g)+κ0CregCQ(δ0)ψH22=:Aη(g)+BψH22,

válida para ψH2δ0, com A=CregeCSδ0 e B=κ0CregCQ(δ0).

Para deduzi-la, usa-se a decomposição do erro Kg+κ0=e-2ψ(Jψ+κ0Q0(ψ)), de modo que JψL22e2ψ(Kg+κ0L22+κ0Q0(ψ)L2. Pelo Lema 3.3, e2ψ(Kg+κ0)L2(g0)eCSδ0η(g).

Combinando com a estimativa elíptica e o Lema 3.2, obtém-se a desigualdade.

Escolha de parâmetros. Escolhe-se δ0>0 tal que Bδ01/2 (equivalentemente, κ0CregCQ(δ0)δ01/2), e define-se ε0:=δ02/(16A2).

Bootstrap por exclusão de fronteira. Seja ψH02(M) com η(g)ε0. Mostra-se que ψH2<δ0. Sobre a esfera ψH2=δ0, a desigualdade a priori fornece uma cota inferior para η. Como Bδ01/2: 1/2δ01/2ψH2Aη(g); logo η(g)δ02/(4A2)=4ε0. Portanto, {ψH2=δ0}{η4ε0}: o conjunto de subnível {ηε0} não intersecta a esfera. Como η(0)=0<ε0 e η é contínuo em H02(M), todo caminho contínuo da origem a um ponto com ψH2δ0 deve cruzar a esfera — onde η4ε0>ε0. Segue-se que toda ψ na componente conexa da origem em {ηε0} satisfaz ψH2<δ0.

Conclusão. Com ψH2<δ0 estabelecido, a desigualdade fornece ψH2Aη(g)+BψH22Aη(g)=Cuppη(g).

Teorema 4.5 (Cota inferior para η). Existem ε1>0 e c>0 tais que, se ψH2<ε1: η(g)cψH22, com c=1/2Creg-2.

Prova. Pela Proposição 4.2, η(g)JψL22-C1ψH23. Pelo Lema 3.4, JψL22Creg-2ψH22. Daí η(g)ψH22(Creg-2-C1ψH2). Escolhendo ε1=Creg-2/(2C1), para ψH2<ε1: η(g)1/2Creg-2ψH22.

Teorema 4.6 (Resultado principal). Seja (M,g0) superfície hiperbólica compacta de gênero γ2. Defina-se ε0:=min(ε0,clowε12), em que ε0 vem do Teorema 4.3, ε1 do Teorema 4.5 e clow=(2Creg2)-1. Então, para g=e2ψg0 com ψH02(M) e η(g)ε0:

12Creg2ψH22η(g)Cmeas2(2JH2L22+CR2ε02)ψH22,

em que Cmeas=e2CSδ é o fator de peso de medida e todas as constantes dependem apenas de (M,g0).

Prova. Os limiares são fixados nos Teoremas 4.3 e 4.5. O limiar efetivo ε0=min(ε0,clowε12) assegura simultaneamente que η(g)ε0 — aplicando o Teorema 4.3, com a condição de conexidade satisfeita pela Observação 4.4 — e que ψH2<ε1 — aplicando o Teorema 4.5. A cota superior combina o Teorema 4.3 com a comparação de medidas (Lema 3.3); a cota inferior é o Teorema 4.5.

Corolário 4.7 (Equivalência espectral). Para superfície hiperbólica compacta (M,g0) de gênero γ2 com Kg0=-κ0, κ0>0, são equivalentes:

  • (i) λ1(J)>0 sobre H02(M);
  • (ii) existem ε0>0 e 0<cC< tais que cψH22η(g)CψH22 para todo ψH02(M) com η(g)ε0;
  • (iii) a variância intrínseca η realiza a norma do grafo de J como métrica local sobre a classe conforme: η(g)ψH22 no regime perturbativo.

Para gênero γ2, as três condições valem incondicionalmente, pois λ1(J)=μ1+2κ0>0. A rigidez quantitativa da métrica hiperbólica dentro de sua classe conforme é, portanto, consequência direta e exclusiva de um único dado espectral: a positividade do gap spectral do operador de Jacobi.

4.4. Constante Ótima de Coercividade

Proposição 4.8 (Constante ótima). Seja (M,g0) superfície hiperbólica compacta com Kg0=-κ0, κ0>0, e J=-Δg0+2κ0 com autovalores λj(J)=μj+2κ0. Define-se

R(μ,κ0):=(μ+2κ0)21+μ+μ2.

Então: (i) a constante ótima copt2 em JψL22copt2ψH22 é copt2=infj1R(μj,κ0)=1; (ii) o ínfimo é alcançado apenas no limite assintótico, com limjR(μj,κ0)=1; (iii) para κ01/2, a função μR(μ,κ0) é estritamente decrescente em (0,); logo infj1R(μj,κ0)=R(μ1,κ0)>1. O modo mais coercivo é, portanto, o mais baixo.

Prova. A função R(μ,κ0) aparece como a razão JejL22/ejH22 quando ej é a j-ésima autofunção: JejL22=(μj+2κ0)2 e ejH22=1+μj+μj2.

Para a monotonicidade, calcula-se μR=(μ+2κ0)[2-2κ0+μ(1-4κ0)]/(1+μ+μ2)2. O fator (μ+2κ0) é positivo para μ>0. O colchete N(μ)=2-2κ0+μ(1-4κ0) satisfaz, para κ01/2: N(0)=2-2κ00 e o coeficiente de μ é 1-4κ0-1<0; logo N(μ)<0 para todo μ>0; assim, μR<0. Para κ0<1/2, N(μ) anula-se em μ*=(2-2κ0)/(4κ0-1); esse intervalo fica fora da configuração hiperbólica, mas a fórmula aplica-se ao arcabouço abstrato.

No caso hiperbólico, κ01 (Gauss-Bonnet obriga κ01 para γ2 com normalização de área Area=4π(γ-1)/κ0; a normalização padrão Kg0=-1κ0=1), logo R é estritamente decrescente e infj1R(μj,κ0)=limjR(μj,κ0)=limμ(μ+2κ0)2/(1+μ+μ2)=1. O ínfimo é aproximado, mas alcançado apenas no limite assintótico sobre o espectro discreto, pois cada R(μj,κ0)>1 para μj finito.

Observação 4.9 (Saturação ultravioleta e dominância infravermelha). A razão de coercividade R(μ,κ0) exibe dois regimes distintos. No regime infravermelho, o modo mais baixo μ1 maximiza R, fornecendo R(μ1,κ0)>1. Esse é o modo mais coercivo: perturbações conformes de baixa frequência são estritamente mais bem controladas pelo operador de Jacobi do que pela norma de Sobolev pura. No regime ultravioleta, quando μ, R(μ,κ0)1: o fundo de curvatura κ0 torna-se negligenciável frente a μ e a desigualdade de coercividade aproxima-se da equivalência entre JψL22 e o quadrado da norma H2 pura. A desigualdade é, portanto, assintoticamente saturada por modos de alta frequência.

A constante ótima copt2=1 é determinada pela assintótica de alta frequência do espectro, não pelo menor autovetor. Este último controla o gap spectral e a taxa dinâmica, mas não a razão ótima de coercividade. A rigidez conforme é fenômeno infravermelho; a constante de coercividade, por sua vez, é ultravioleta. O fato de copt2=1 ser alcançado apenas no limite assintótico reflete uma rigidez ultravioleta; a amplificação R(μ1,κ0)>1 captura, por sua vez, uma amplificação infravermelha governada pelos modos de baixa frequência.

4.5. Cálculo Explícito na Superfície de Bolza

A superfície de Bolza MB é a superfície de Riemann compacta de gênero dois com o maior grupo de automorfismos — Aut(MB)GL(2,3), de ordem 48. Ela carrega sua métrica hiperbólica única com Kg0=-1 (κ0=1) e área Area(MB)=4π por Gauss-Bonnet.

Dados espectrais. O primeiro autovalor positivo de -Δg satisfaz μ1(MB)3,839. Em L2(MB) (modo constante incluído): λmin(J)=2κ0=2. Em H02(MB) (média nula; gap operativo para o teorema principal): λ1(J)=μ1+2κ05,839.

Razão espectral. Para κ0=1 e μ13,839:

R(μ1,1)=(3,839+2)21+3,839+3.839234,1019,591,741.

Interpretação. O valor R(μ1,1)1,741>1 confirma que o modo mais baixo é estritamente mais coercivo do que o valor assintótico. O fato de copt2=1 ser alcançado apenas no limite assintótico reflete a saturação ultravioleta descrita na Observação 4.9: a desigualdade JψL22ψH22 é assintoticamente justa, mas estritamente estrita sobre qualquer modo finito.

4.6. Interpretação Via Norma do Grafo e Conexões

A segunda variação da energia de Calabi em g0 é D2C|ψ=0(δψ,δψ)=JδψL22. A norma do grafo de J é ψG(J)2:=ψL22+JψL22. Como λmin(J)>0, a regularidade elíptica fornece ψG(J)ψH2. O Teorema 4.6 afirma que η — definida geometricamente e intrinsecamente computável — realiza a norma do grafo de um operador elíptico como métrica local sobre a classe conforme.

Explicitamente, a norma do domínio de J é ψD(J)2:=ψL22+JψL22 e a equivalência ψD(J)ψH2 sobre H02(M) segue da estimativa elíptica do Lema 3.4.

Na linguagem das formas fechadas positivas (Kato, 1995), o funcional quadrático q(ψ):=JψL22 com domínio D(q)=H02(M)L2(M,g0) é uma forma fechada, densamente definida, estritamente positiva. Pelo teorema da representação (Kato, 1995), o par (q,D(q)) determina unicamente o operador autoadjunto A=J2 e, com ele, todo o conteúdo espectral quadrático: autovalores, semigrupo etA, resolvente e covariância de flutuação A1. No regime perturbativo ψH2<ε0, o Teorema 4.6 estabelece equivalência completa entre a variância intrínseca η e a forma fechada q; portanto, η codifica toda a informação quadrática local da deformação conforme sem perda. Essa classificação é restrita ao regime perturbativo; se ela se estende globalmente é o conteúdo do Problema em aberto 4.1 adiante.

Observação 4.10 (Estrutura de Kato). A estimativa bilateral opera dentro da correspondência padrão entre formas fechadas positivas e operadores autoadjuntos. O conteúdo do Teorema 4.6 é a redução explícita não linear-para-linear que situa η nesse arcabouço com constantes computáveis.

Problemas em aberto.

Problema 4.1 (Coercividade global). Vale ηψH22 sem a hipótese de pequenez ηε0?

Problema 4.2 (Convergência quantitativa do fluxo). O fluxo gradiente tψ=η=2J2ψ+(termos não lineares) admite análise de convergência quantitativa via estabilidade do módulo mínimo de DR(ψ) sobre o subespaço de média nula H02(M). A estimativa-chave é

inf { DR(ψ)h h : hH02, h0 } λ1(J) (1MCellψH22),

que vale sob continuidade Lipschitz de DR — consequência da estrutura de álgebra de Sobolev em dimensão dois — e fornece desigualdade de gradiente η2c~(σ)η de tipo Łojasiewicz-Simon com expoente θ=1/2, sem exigir analiticidade real. O problema remanescente consiste em calcular o raio de aprisionamento σ explícito e a constante efetiva c~(σ)=λ1(J)(1MCellσ)(1Ccorrσ) para o modelo conforme deste artigo, e em estabelecer a estimativa de aprisionamento que garanta que a órbita permaneça no regime perturbativo. Isso fornece convergência exponencial com taxa explícita γ2λ1(J)2 quando σ0, conectando a coercividade bilateral do Teorema 4.6 à dinâmica de longo prazo do fluxo de curvatura. O arcabouço abstrato e a demonstração de convergência serão desenvolvidos em artigo complementar (Thimotéo, no prelo).

Problema 4.3 (Precisão de copt). Construir sequência ψnH02(M) com η(gn)/ψnH22copt2=1 ou demonstrar que a constante assintótica é alcançada apenas no limite no nível não linear.

Problema 4.4 (Coercividade infravermelha próxima ao limite de Selberg). Determinar o comportamento assintótico de R(μ1,κ0) quando μ11/4 e relacioná-lo a fenômenos de concentração espectral em superfícies hiperbólicas aleatórias. Para μ1=1/4 — limite inferior conjectural para superfícies compactas aritméticas, cf. a conjectura de autovalores de Selberg — e κ0=1:

R(1/4,1)= (1/4+2)2 1+1/4+1/16 = (9/4)2 21/16 = 81161621 = 8121 = 277 3,857.

Esse valor é mais que o dobro do valor de Bolza (1,741), o que sugere que superfícies com pequeno gap espectral exibem coercividade infravermelha significativamente mais forte. Uma descrição quantitativa dessa amplificação sobre Mg, em conexão com resultados de concentração espectral, permanece em aberto.

Conexões com temas correlatos.

Escopo dimensional. O argumento das Seções 3 e 4 depende da imersão de Sobolev H2(M)C0(M), específica da dimensão d=2 (o expoente crítico de Sobolev satisfaz 2>d/2=1). Em dimensão d3, a imersão H2C0 falha em geral, a propriedade de álgebra de Banach de H2 se perde e as estimativas não lineares dos Lemas 3.2 e 3.3 não se transferem diretamente. Qualquer extensão à geometria conforme em dimensão superior exigiria ferramentas analíticas distintas.

Gaps espectrais em superfícies hiperbólicas aleatórias. A constante ótima copt2=1 é universal — independente da superfície — mas a razão espectral infravermelha R(μ1,κ0), que mede o excesso de coercividade do modo mais baixo, depende do espectro de Δg0 e, portanto, varia sobre o espaço de módulos Mg de superfícies hiperbólicas de gênero g. Trabalhos recentes sobre gaps espectrais fornecem previsões quantitativas para essa variação. Hide e Magee (2023) demonstraram que coberturas riemannianas aleatórias de uma superfície hiperbólica não compacta apresentam novos autovalores abaixo de 1/4ε com probabilidade tendendo a um. Hide, Macera e Thomas (2025) demonstraram que superfícies de Weil-Petersson aleatórias de gênero g têm gap espectral pelo menos 1/4O(gc) para algum c>0, com probabilidade tendendo a um, estabelecendo concentração com taxa polinomial. Sob essa concentração, a razão infravermelha satisfaz R(μ1,κ0)=R(1/4O(gc),κ0), convergindo a R(1/4,κ0) com taxa polinomial em g. Isso conecta o problema interno deste artigo — a dependência de R(μ1,κ0) com a superfície — ao programa ativo de geometria espectral de superfícies hiperbólicas aleatórias.

Ação de Liouville e geometria de Teichmüller. A geometria natural para estudar R(μ1,κ0) como função sobre Mg é a métrica de Weil-Petersson. Takhtajan e Teo (2006) demonstraram que a ação de Liouville é um potencial de Kähler para a métrica de Weil-Petersson sobre o espaço de Teichmüller universal. Como o operador de estabilidade de Liouville J~=Δg0+κ0 governa a segunda variação dessa mesma ação no ponto crítico de curvatura constante, a geometria do problema de otimizar R(μ1,κ0) sobre Mg é governada por J~, que é o parceiro espectral de Jcan via o deslocamento Jcan=J~+κ0.

Gravidade de Jackiw-Teitelboim. A energia de curvatura η(g)=Kg+κ0L22 é a violação L2 ao quadrado da equação de movimento de Jackiw-Teitelboim R+2Λ=0 (Jackiw, 1985; Teitelboim, 1983), com Λ=κ0. Expandindo, η=R2dμ+4κ0Rdμ+4κ02Area(M). Como Rdμ=4πχ(M) (Gauss-Bonnet) e Area(M) são topologicamente fixos dentro de uma classe conforme, η equivale a uma ação R2 a menos de termos topológicos e de volume. O operador Jcan=Δg0+2κ0 governa a estabilidade linear da solução de curvatura constante, e a estimativa bilateral do Teorema 4.6 fornece a caracterização espectral completa do regime perturbativo quadrático desse funcional.

Decomposição estática-dinâmica. A estimativa bilateral do Teorema 4.6 é um resultado estático: caracteriza o panorama energético de η perto da métrica hiperbólica, mas não aborda a evolução temporal do fluxo gradiente. Um artigo complementar (Thimotéo, no prelo) estabelece a contrapartida dinâmica demonstrando que o módulo mínimo da linearização DR(ψ)=e2ψJ+(ordem inferior) persiste quantitativamente em H02(M) para ψH2<δ, com cota inferior explícita convergindo a λ1(J) quando σ0. Essa persistência induz uma desigualdade de gradiente do tipo Łojasiewicz-Simon com θ=1/2 e constantes espectrais explícitas, da qual segue a convergência exponencial do fluxo com taxa controlada por λ1(J)2. O mecanismo dispensa o maquinário clássico de Łojasiewicz-Simon — analiticidade real, preparação de Weierstrass —, apoiando-se apenas na estabilidade inf-sup de DR(ψ) sob perturbação, usando somente a regularidade C2 e a estrutura lipschitziana já presentes em (H1)-(H4).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O artigo demonstra uma estimativa de coercividade bilateral quantitativa para o operador de Jacobi sobre o subespaço de média nula da classe conforme de superfícies hiperbólicas compactas de gênero maior ou igual a dois. A estimativa vale no regime perturbativo em H2, com constantes explícitas dependentes apenas da estrutura elíptica do operador e do primeiro autovalor do laplaciano geométrico.

O mecanismo governante reduz-se a uma única condição espectral — a positividade do primeiro autovalor do operador no subespaço de média nula —, que é simultaneamente suficiente e necessária para a estimativa bilateral no regime perturbativo. A variância intrínseca de curvatura e o funcional quadrático linearizado são equivalentes em ordem principal, diferindo por termos de ordem cúbica.

A constante ótima assintótica de coercividade vale um, alcançada apenas no limite assintótico dos autovalores do laplaciano. O supremo da razão espectral corresponde ao modo de mais baixa frequência, amplificado no regime infravermelho. O cálculo explícito na superfície de Bolza confirma o fenômeno com razão espectral aproximadamente igual a um vírgula setecentos e quarenta e um.

O resultado caracteriza a energia de Calabi restrita à classe conforme como realização local da norma do grafo do operador de Jacobi, estabelecendo equivalência quantitativa entre a rigidez conforme e a completude espectral no regime perturbativo. A classificação estende-se naturalmente ao arcabouço abstrato de funcionais do tipo resíduo quadrático com linearização elíptica e gap espectral, abarcando situações análogas em Yang-Mills e em métricas de Einstein.

O trabalho deixa em aberto quatro direções: a extensão da estimativa para o regime global sem hipótese de pequenez; a análise quantitativa de convergência do fluxo gradiente associado; a construção de sequências que saturem a constante ótima no nível não linear; e a caracterização do comportamento da razão espectral infravermelha próximo ao limite conjectural de Selberg, em conexão com concentração espectral em superfícies aleatórias.

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1 Engenheiro agrônomo pela Universidade Estadual de Londrina, engenheiro de segurança do trabalho e possui MBA Executivo pela Fundação Getulio Vargas. Atuou como professor de ensino superior vinculado à Fundação Gammon de Ensino. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail