ENTRE O DITO E O SILENCIADO: RECURSOS LINGUÍSTICO-DISCURSIVOS E REPRESENTAÇÕES FEMININAS NO CONTO “CINCO MARIAS”, DE MARTA COCCO

WALDINEY SANTANA DA COSTA KAMILIA ARAÚJO DA SILVA BRUNIERE BETWEEN THE SAID AND THE SILENCED: LINGUISTIC-DISCOURSIVE RESOU

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793515100

RESUMO
Este artigo investiga de que maneira recursos linguístico-discursivos participam da construção das representações femininas no conto “Cinco Marias”, integrante da coletânea Não presta pra nada, de Marta Cocco. Trata-se de pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, fundamentada em leitura analítico-interpretativa de excertos do conto, mobilizando contribuições da análise do discurso, dos estudos da oralidade e da crítica das relações sociais de gênero. O procedimento articula descrição das escolhas lexicais, marcas enunciativas, temporalidade verbal e estratégias de rememoração à interpretação dos efeitos de sentido. A análise evidencia que a avaliação depreciativa do estudo, a incorporação de vozes familiares, as construções próximas da oralidade e a alternância entre passado e presente tornam visíveis tensões entre expectativas normativas e experiências de autonomia. Argumenta-se que a força crítica da narrativa não decorre apenas dos temas representados, mas da organização discursiva que põe em circulação e reavalia julgamentos socialmente naturalizados. O estudo contribui para o debate interdisciplinar sobre literatura, linguagem e desigualdades de gênero, sem reduzir o texto literário a documento sociológico.
Palavras-chave: Análise do discurso; Oralidade; Memória narrativa; Representações femininas; Marta Cocco.

ABSTRACT
This article examines how linguistic and discursive resources contribute to the construction of female representations in “Cinco Marias”, a short story included in Marta Cocco’s collection Não presta pra nada. This qualitative bibliographical and documentary study offers an interpretive analysis of selected excerpts, drawing on discourse analysis, studies of orality, and criticism of gendered social relations. Its procedure combines the description of lexical choices, enunciative markers, verbal temporality, and recollection strategies with the interpretation of meaning effects. The analysis suggests that the devaluation of education, the incorporation of family voices, speech-like constructions, and shifts between past and present expose tensions between normative expectations and experiences of autonomy. The story’s critical force lies not only in its themes but also in its discursive organization, which circulates and re-evaluates socially naturalized judgments. The study contributes to interdisciplinary debates on literature, language, and gender inequality without reducing literature to a sociological document.
Keywords: Discourse analysis; Orality; Narrative memory; Female representations; Marta Cocco.

1. INTRODUÇÃO

A literatura constitui um espaço de elaboração estética no qual experiências individuais, valores coletivos e conflitos históricos podem adquirir configurações específicas de linguagem. Sua relevância crítica não depende de reproduzir diretamente uma realidade social: depende também de como vozes, temporalidades, escolhas lexicais e silêncios organizam a experiência narrada. É sob essa perspectiva que se propõe a leitura do conto “Cinco Marias”, integrante da coletânea Não presta pra nada, de Marta Cocco, obra que reúne narrativas atravessadas por experiências de mulheres e por tensões entre papéis sociais prescritos e formas singulares de existência.

A leitura aqui desenvolvida parte da hipótese de que a memória familiar, longe de constituir simples repositório de experiências, reorganiza posições de sujeito e critérios de reconhecimento. O foco recai sobre as operações linguístico-discursivas pelas quais julgamentos cotidianos adquirem legitimidade, são citados e podem ser reavaliados. A especificidade do problema reside na passagem entre a formulação verbal e a configuração estética das relações de gênero, sem presumir correspondência direta entre voz ficcional e experiência biográfica.

O problema de pesquisa consiste em compreender como as escolhas lexicais, as formas de representação da fala e do pensamento e a organização temporal da narrativa participam da construção de representações femininas e da problematização das hierarquias familiares e sociais de gênero. Parte-se da hipótese de que o conto articula vozes avaliativas herdadas do convívio familiar e uma narração retrospectiva capaz de recontextualizar tais julgamentos, produzindo tensões entre desqualificação e reconhecimento, dever doméstico e educação, proximidade afetiva e distanciamento.

O objetivo geral é analisar os recursos linguístico-discursivos do conto “Cinco Marias” e discutir sua contribuição para a construção crítica de sentidos sobre as mulheres. Especificamente, pretende-se: descrever a avaliação inscrita em enunciados familiares; examinar as marcas de oralidade e de interiorização do discurso; investigar a temporalidade verbal e o trabalho da memória; e interpretar as relações entre os procedimentos identificados e o debate social sobre papéis de gênero. A relevância do estudo está em oferecer uma leitura em que a dimensão social decorre de evidências de linguagem, evitando tanto o formalismo isolado quanto a redução do texto literário a ilustração de conceitos externos.

A questão não consiste, portanto, em localizar no texto uma mensagem prévia sobre a condição feminina, mas em compreender como a própria organização narrativa torna certos juízos reconhecíveis e passíveis de contestação. A distinção importa porque o enunciado depreciativo, tomado isoladamente, poderia ser interpretado como simples caracterização de um ambiente familiar. Quando confrontado com a rememoração da narradora, porém, converte-se em objeto de avaliação retrospectiva. Essa passagem entre o dizer atribuído a terceiros e sua reinscrição na narração constitui o eixo explicativo da pesquisa.

A investigação adota abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico e documental, orientada por leitura crítica e interpretativa do conto “Cinco Marias”, integrante de Não presta pra nada (Cocoo, 2016). O corpus é o conto literário; os excertos citados constituem unidades de análise selecionadas por sua pertinência ao problema de pesquisa, e não um corpus substitutivo. O percurso analítico compreende três movimentos articulados: (a) identificação de marcas linguísticas e narrativas, escolhas lexicais, formas de citação e de autoendereçamento, referenciação, oralidade representada e tempos verbais; (b) descrição de sua função na cena ficcional, considerando quem enuncia, a posição da narradora, a organização temporal e o contexto imediato de cada passagem; e (c) interpretação dos efeitos de sentido e das tensões entre avaliação familiar, memória e representações femininas.

A leitura se realiza à luz da memória discursiva e da historicidade dos sentidos em Orlandi (2015), da cena de enunciação literária em Maingueneau (2012) e do dialogismo em Bakhtin (2011), sem equiparar essas perspectivas. Marcuschi (2001) e Preti (2004) subsidiam a descrição da oralidade construída na escrita; Scott (1995), Beauvoir (2019) e Bourdieu (2012) oferecem categorias para problematizar relações de gênero e hierarquias simbólicas, sempre subordinadas às evidências do texto ficcional. Piglia (2004) contribui para examinar informações sugeridas e retidas na composição do conto. As inferências são formuladas a partir da relação entre materialidade verbal, focalização e contexto narrativo, distinguindo o que a passagem explicita daquilo que admite como hipótese interpretativa. Assim, a análise não pretende generalizar comportamentos sociais nem atribuir à autora as posições de sua narradora; busca explicar como o conto classifica, rememora e reavalia juízos socialmente reconhecíveis.

2. O CONTO “CINCO MARIAS”: CONTEXTUALIZAÇÃO DA NARRATIVA, VÍNCULOS FAMILIARES E TRAJETÓRIAS FEMININAS

Integrante da coletânea Não presta pra nada, publicada por Marta Cocco em 2016, o conto “Cinco Marias” apresenta uma narrativa de caráter memorialístico na qual as relações familiares constituem o eixo articulador de diferentes experiências femininas. Por meio de uma narradora em primeira pessoa, que recupera acontecimentos e particularidades das trajetórias de suas irmãs e de si própria, o texto constrói um universo marcado por vínculos afetivos, conflitos, adversidades, conquistas e formas singulares de enfrentamento das imposições sociais

A composição ultrapassa a simples rememoração de acontecimentos familiares, uma vez que mobiliza diferentes temporalidades, vozes e perspectivas para problematizar os lugares historicamente atribuídos às mulheres. Nesse sentido, a contextualização do conto permite compreender sua organização temática e estética, bem como os elementos que fundamentam a investigação dos recursos linguístico-discursivos e das representações femininas.

A narrativa não constitui uma obra autônoma, tampouco deve ser compreendida como relato documental das experiências da escritora. Trata-se de uma construção ficcional inserida em uma coletânea de contos, cuja elaboração estética transforma experiências familiares, lembranças e conflitos em matéria literária. A perspectiva memorialística possibilita que acontecimentos de diferentes momentos sejam aproximados pela consciência narrativa, estabelecendo relações entre passado e presente, afetividade e sofrimento, pertencimento e individualidade. Assim, as personagens não são apresentadas como representações homogêneas da condição feminina, mas como sujeitos ficcionais cujas trajetórias revelam distintas maneiras de experimentar as relações sociais e familiares.

A abertura do conto aproxima a percepção de uma ferida e a contagem dos dias de uma experiência de vulnerabilidade corporal: “E, eu não penso em outra coisa a não ser na ferida invadindo os tecidos, contando nos dedos os dias” (Cocoo, 2016, p. 13). A passagem sugere uma temporalidade marcada pela espera, mas não permite determinar, por si, a causa da ferida ou atribuir à narradora um procedimento cirúrgico específico. A leitura interpretativa deve preservar essa indeterminação, que integra o efeito de tensão da cena.

As trajetórias das irmãs são articuladas pela memória da narradora, que aproxima acontecimentos de diferentes momentos e transforma a relação familiar em princípio de composição. O vínculo entre as personagens, portanto, não equivale à homogeneidade de suas experiências.

Na cena inicial, a irmã mais velha afirma seu bem-estar, enquanto a narradora registra detalhes que introduzem uma tensão entre o discurso de segurança e a preocupação afetiva:

A minha irmã mais velha ri com a sinceridade de uma criança aos três anos que meu filho tem agora. Ela diz que nunca esteve tão bem, tem certeza de que não teve mais nada, feliz da vida com sua peruca (dá pra ver que é peruca). Eu digo que está muito bonita (sempre foi muito bonita e que preciso ir ao banheiro) (Cocoo, 2016, p. 13).

O contraste entre a afirmação de bem-estar e os sinais de apreensão constitui uma estratégia de construção do não dito. A cena demanda uma leitura das relações entre voz, focalização e informação retida, sem autorizar conclusões clínicas sobre a personagem. A presença da peruca e a contenção emocional da narradora podem sugerir uma experiência de adoecimento, mas a interpretação não deve converter indícios narrativos em diagnóstico. O interesse literário reside na coexistência de cuidado, vulnerabilidade e tentativa de preservar a serenidade da interação.

O deslocamento para o espaço privado intensifica a diferença entre o que a narradora demonstra à irmã e o que formula para si: “preciso de privacidade. Me olho no espelho: não inventa de chorar na frente dela!” (Cocoo, 2016, p. 13). O autoendereçamento permite examinar a administração do afeto e os limites do dizível nessa situação ficcional. O desenvolvimento do enredo ocorre mediante a recuperação de experiências vivenciadas pelas irmãs, apresentadas sob a perspectiva da narradora mais nova. A organização narrativa não se limita à exposição sucessiva de histórias individuais, pois estabelece aproximações e contrastes entre diferentes formas de enfrentar as adversidades. A família constitui, simultaneamente, espaço de acolhimento, transmissão de valores, proteção e reprodução de expectativas sociais. Essa ambivalência confere complexidade às relações representadas, afastando uma interpretação idealizada dos vínculos familiares.

O movimento inicial da narrativa apresenta a irmã mais velha em uma situação de vulnerabilidade, na qual a afirmação de bem-estar contrasta com a preocupação demonstrada pela narradora. A referência à peruca, à aparência física e à necessidade de controlar as próprias emoções constrói uma atmosfera de delicadeza e tensão afetiva. A irmã procura demonstrar confiança diante das circunstâncias enfrentadas, enquanto a narradora administra seus sentimentos para preservar a tranquilidade daquele encontro. O episódio evidencia uma relação de cuidado recíproco, na qual a fragilidade não elimina a capacidade de acolhimento e de manifestação afetiva (Cocoo, 2016).

A tensão entre aquilo que se enuncia e aquilo que permanece implícito pode ser observada na afirmação atribuída à irmã mais velha: “Ela diz que nunca esteve tão bem, tem certeza de que não tem mais nada” (Cocoo, 2016, p. 13). O enunciado afirmativo, situado em uma cena de preocupação familiar, não equivale à comprovação de cura; antes, institui um contraste entre a segurança verbalizada pela personagem e a apreensão percebida pela narradora. A distância entre essas posições enunciativas torna produtiva a análise das escolhas discursivas que organizam o cuidado e a contenção emocional.

A construção dessa personagem adquire relevância porque a narrativa não apresenta o sofrimento exclusivamente por meio de descrições explícitas. Ao contrário, a seleção de informações e a contenção emocional produzem sentidos que dependem da participação interpretativa do leitor. A peruca e a preocupação com a saúde sugerem uma experiência de adoecimento, sem que esses elementos, isoladamente, permitam determinar um diagnóstico específico. A personagem, portanto, não se reduz à condição de vulnerabilidade física, pois também manifesta expectativas, afetos e disposição para celebrar acontecimentos familiares.

Na apresentação da segunda irmã, a narrativa desloca a atenção para experiências relacionadas ao medo da morte, à preocupação com a saúde e à importância atribuída à relação conjugal. A insegurança diante da possibilidade de perda constitui um aspecto relevante de sua caracterização, especialmente quando considerada em relação às dificuldades enfrentadas por outros integrantes da família. Sua trajetória permite perceber como os vínculos afetivos podem representar tanto fontes de proteção quanto espaços de dependência e inquietação. Desse modo, o conto apresenta uma personagem cuja experiência não se explica por uma suposta fragilidade feminina natural, mas por circunstâncias particulares que atravessam sua história.

A notícia de que a personagem será avó novamente, agora de gêmeas, desloca a atenção da enfermidade para a continuidade dos laços familiares (Cocoo, 2016, p. 13). Esse movimento não apaga a vulnerabilidade, mas impede que a personagem seja definida exclusivamente por ela. A alternância entre preocupação e celebração confere densidade à cena e inscreve a esperança como efeito da interação entre as vozes familiares.

Outra trajetória feminina é construída a partir das experiências de trabalho, maternidade, deslocamento e transmissão de conhecimentos. A narradora recupera lembranças de uma irmã que desempenhou papel significativo em sua formação, associando-a aos ensinamentos escolares e às orientações recebidas no convívio familiar. As referências a mapas, lugares distantes, cartas e conselhos evidenciam uma dimensão educativa que ultrapassa os limites da escolarização formal. A personagem assume, nesse contexto, uma posição de referência afetiva e intelectual, contribuindo para a constituição das memórias da narradora (Cocoo, 2016).

Essa representação amplia a compreensão dos vínculos entre as irmãs, pois o cuidado não se manifesta exclusivamente por ações materiais ou pela proteção diante de situações adversas. Ele também se realiza pela transmissão de conhecimentos, experiências e valores. A memória da narradora atribui continuidade a esses ensinamentos, demonstrando que a formação individual se constitui nas relações estabelecidas com outras pessoas. Ao mesmo tempo, as dificuldades enfrentadas pela personagem no trabalho e na organização da vida familiar revelam tensões entre responsabilidades sociais, expectativas pessoais e possibilidades de realização.

A quarta irmã é apresentada por meio de lembranças relacionadas a problemas de saúde, experiências de superação e manifestações de afeto. As adversidades vivenciadas desde a infância integram sua caracterização, mas não esgotam sua identidade narrativa. A referência às habilidades artesanais, à expressividade e aos gestos de proteção dirigidos à irmã mais nova permite reconhecer uma personagem cuja trajetória articula sofrimento, criatividade e solidariedade familiar. A rememoração de situações nas quais ofereceu acolhimento evidencia a importância das relações de proteção na constituição da experiência afetiva da narradora.

Na caracterização dessa irmã, os verbos associados ao aprendizado permitem examinar a temporalidade da memória. Formas no pretérito perfeito, como “foi” e “ensinou”, apresentam acontecimentos retrospectivamente delimitados; já o imperfeito, em “entendia” e “falava”, favorece a percepção de práticas reiteradas ou durativas. A forma presente “repete”, por sua vez, aproxima o passado rememorado da permanência de ensinamentos no convívio atual (Cocoo, 2016, p. 14). O contraste temporal participa, portanto, da construção de uma autoridade afetiva que não se encerra na infância.

Ao reunir essas diferentes trajetórias, o conto constrói um panorama de experiências femininas atravessadas por acontecimentos particulares, mas relacionadas por vínculos familiares e por expectativas sociais compartilhadas. A noção de resiliência pode contribuir para a compreensão dessas experiências, desde que não seja interpretada como atributo essencial ou obrigação moral das mulheres. As personagens enfrentam circunstâncias distintas e respondem a elas de maneiras igualmente diversas. Suas histórias não configuram um modelo único de superação, mas evidenciam possibilidades de continuidade, reorganização da vida e preservação de vínculos diante das adversidades.

A narradora mais nova ocupa uma posição singular nessa composição, pois participa dos acontecimentos e, simultaneamente, organiza discursivamente as histórias das demais personagens. Sua trajetória é marcada pela valorização dos estudos e pela tensão entre escolhas individuais e expectativas familiares. Ao recuperar julgamentos depreciativos dirigidos à sua dedicação escolar, a personagem evidencia a existência de critérios de reconhecimento associados às funções tradicionalmente atribuídas às mulheres. Posteriormente, sua atuação profissional, a maternidade e as responsabilidades domésticas passam a integrar a maneira como apresenta sua própria trajetória (Cocoo, 2016).

Essa configuração permite perceber que a escolarização e o trabalho remunerado não eliminam necessariamente as exigências relacionadas ao cuidado familiar. A experiência da narradora reúne conquistas e permanências, evidenciando a coexistência entre ampliação de possibilidades individuais e continuidade de responsabilidades socialmente naturalizadas. A discussão encontra aproximação com Beauvoir (2019), ao problematizar a construção histórica dos papéis femininos, e com Scott (1995), ao compreender o gênero como categoria relacional vinculada à organização social das diferenças. Entretanto, essas perspectivas não substituem a singularidade da narrativa, cuja complexidade decorre da maneira como tais tensões são representadas literariamente.

A lembrança “Ela era muito boazinha comigo, me protegia das surras da mãe” (Cocoo, 2016, p. 15) introduz um dado decisivo para a leitura das relações familiares: o mesmo espaço que produz proteção também comporta violência e assimetria. A escolha de uma formulação próxima da fala cotidiana intensifica a perspectiva subjetiva da narradora e impede que a solidariedade entre irmãs seja confundida com idealização do ambiente doméstico.

A composição familiar adquire maior complexidade quando a narradora menciona a existência de outra filha de seu pai, proveniente de uma relação distinta. Essa informação introduz uma inflexão na aparente estabilidade da enumeração sugerida pelo título, ampliando a compreensão das relações de parentesco e pertencimento. A presença dessa personagem revela que a organização familiar não se limita aos vínculos inicialmente apresentados, pois comporta experiências de aproximação, distanciamento e reconhecimento que nem sempre se desenvolvem de maneira uniforme.

A referência à outra irmã também permite compreender a memória como processo seletivo de organização das experiências. A narradora recupera acontecimentos a partir de sua própria posição afetiva e temporal, conferindo diferentes graus de proximidade às personagens. Desse modo, a narrativa não apresenta a família como unidade inteiramente harmoniosa, mas como espaço constituído por relações complexas, nas quais convivem solidariedade, conflitos, ausências e possibilidades de reconstrução dos vínculos.

O título “Cinco Marias”, nesse contexto, ultrapassa sua função identificadora e assume relevância para a compreensão da composição narrativa. A referência coletiva aproxima trajetórias femininas distintas, produzindo um efeito de unidade que não elimina suas particularidades. O nome Maria, culturalmente recorrente no contexto brasileiro, pode evocar experiências compartilhadas e representações historicamente associadas à feminilidade. Contudo, a narrativa não reduz as personagens a um arquétipo único, pois evidencia diferenças de comportamento, expectativas, responsabilidades e formas de enfrentamento das circunstâncias vividas.

O julgamento familiar dirigido à caçula condensa essa tensão: “esta daí não presta pra nada, só pra estudar” (Cocoo, 2016, p. 16). A expressão depreciativa associa o valor da menina à adequação a tarefas esperadas no âmbito doméstico; o advérbio “só” restringe a legitimidade do estudo e explicita uma hierarquia de atividades. Quando a narradora contrapõe a esse juízo sua atuação profissional, a maternidade e a administração da casa, evidencia-se que o reconhecimento conquistado permanece atravessado pelas mesmas exigências sociais que antes sustentavam a desqualificação.

A organização estética do conto também contribui para a construção dessas representações. A narração em primeira pessoa estabelece proximidade entre a experiência rememorada e o leitor, enquanto a alternância entre acontecimentos passados e situações presentes permite acompanhar a permanência dos vínculos afetivos. As expressões próximas da oralidade, os enunciados familiares e as referências a experiências cotidianas conferem ao relato uma tonalidade conversacional, sem comprometer sua elaboração literária. A memória, nesse processo, não constitui simples recuperação de acontecimentos, mas uma forma de reorganizar experiências e atribuir novos sentidos às relações familiares.

Sob essa perspectiva, as contribuições de Bakhtin (2011), Maingueneau (2012) e Orlandi (2015) oferecem possibilidades de compreender a coexistência de vozes, a constituição da cena enunciativa e a historicidade dos sentidos mobilizados pela narrativa. De maneira complementar, Marcuschi (2001) e Preti (2004) permitem reconhecer que a representação literária da oralidade resulta de escolhas composicionais, e não da transcrição espontânea de situações reais de comunicação. Essas aproximações teóricas tornam-se especialmente relevantes porque a construção das personagens depende não apenas dos acontecimentos narrados, mas também das formas pelas quais suas experiências são verbalizadas e reinterpretadas.

A ordem em que a narradora enumera maternidade, trabalho universitário e cuidado da casa merece atenção, não por comprovar adesão integral a um ideal feminino, mas porque torna visível a negociação entre conquistas profissionais e critérios familiares de reconhecimento. A multiplicidade de responsabilidades pode ser lida em diálogo com o debate sobre divisão sexual do trabalho, sem transformar a experiência singular da personagem em retrato universal das mulheres.

A contextualização de “Cinco Marias” evidencia, portanto, uma narrativa em que memória, afetividade e relações familiares se articulam à representação de diferentes trajetórias femininas. A composição literária permite reconhecer experiências de sofrimento, cuidado, trabalho, maternidade, formação e resistência sem estabelecer uma concepção homogênea da condição feminina. Ao apresentar personagens atravessadas por conflitos e possibilidades distintas de realização, Marta Cocco constrói um universo ficcional no qual as relações familiares se tornam espaço de circulação, permanência e questionamento de valores sociais.

Dessa maneira, a compreensão do enredo e de sua organização narrativa constitui fundamento para o exame dos recursos linguístico-discursivos desenvolvido nas seções seguintes. As escolhas lexicais, a representação das vozes familiares, as marcas de oralidade e a organização temporal serão consideradas em sua relação com a construção das personagens e com os efeitos de sentido produzidos pelo conto. Preserva-se, assim, a especificidade estética de “Cinco Marias”, compreendido como narrativa integrante da coletânea Não presta pra nada, cuja elaboração ficcional possibilita problematizar as representações femininas sem reduzir a literatura à reprodução direta da realidade social.

A adversativa “mas”, na referência à existência de outra filha do pai, opera uma inflexão na sequência narrativa. Ao introduzir um vínculo de parentesco não contemplado inicialmente pela enumeração, o conectivo produz contraste entre a configuração familiar presumida e uma realidade mais complexa. A recorrência de “outra” delimita uma posição relacional, mas não autoriza, isoladamente, concluir pela existência de ressentimento ou ruptura definitiva: o distanciamento constitui uma hipótese interpretativa a ser sustentada pelo conjunto da cena.

3. DISCURSO LITERÁRIO, PRÁTICAS DE ORALIDADE E CONSTRUÇÃO ENUNCIATIVA DAS RELAÇÕES DE GÊNERO NA PRODUÇÃO DE SENTIDOS

A análise do discurso desloca a atenção da suposta transparência das palavras para sua inscrição histórica. Em Orlandi (2015), a memória discursiva permite que formulações aparentemente particulares mobilizem sentidos já disponíveis socialmente. No conto, o julgamento familiar sobre a escolarização não opera como opinião autossuficiente: pressupõe uma hierarquia de atividades valorizadas. Essa perspectiva, contudo, não autoriza converter toda ausência de enunciado em silenciamento imposto. A interpretação do não dito depende de sua relação demonstrável com a materialidade textual e com a cena enunciativa.

Maingueneau (2012) acrescenta a essa discussão a especificidade da cena de enunciação literária: a narrativa não apenas transmite conteúdos, mas institui posições de fala e condições internas de legitimação. Diferentemente de uma leitura que toma a narradora como porta-voz transparente da escritora, essa abordagem exige observar o modo como a primeira pessoa seleciona acontecimentos e distribui distâncias valorativas. Em diálogo com Orlandi, a cena literária permite investigar não só a historicidade dos sentidos, mas também sua reconfiguração pela forma narrativa.

O dialogismo de Bakhtin (2011) oferece uma terceira inflexão: o enunciado familiar, ao ser retomado, entra em relação com uma nova orientação avaliativa. A convergência entre essas perspectivas reside na recusa da palavra isolada como unidade suficiente de interpretação; a diferença está no acento conferido, respectivamente, à memória discursiva, à cena literária e às relações entre vozes. Neste artigo, tais aportes são empregados de modo complementar: identifica-se a formulação, descreve-se quem a reinscreve e examina-se o deslocamento de valor produzido pela retomada narrativa.

A aproximação entre esses autores não elimina diferenças de objeto e método. Em Orlandi (2015), a questão da constituição histórica do sentido impede que o enunciado seja explicado exclusivamente pela intenção de quem fala; em Maingueneau (2012), a configuração da cena literária exige observar as condições discursivas produzidas pela própria obra; em Bakhtin (2011), a resposta valorativa de um enunciado a outros enunciados permite compreender a circulação de vozes. O ganho analítico dessa triangulação depende de não confundir memória discursiva, cena de enunciação e dialogismo. Cada noção ilumina uma dimensão distinta do mesmo fragmento.

Aplicada à expressão familiar que desqualifica o estudo, essa distinção permite formular três perguntas complementares: que pressupostos tornam inteligível a associação entre utilidade e trabalho doméstico; como a narradora organiza a cena em que o julgamento é recuperado; e que orientação valorativa resulta da distância entre o passado citado e o presente da enunciação. A resposta não deve ser deduzida antecipadamente da teoria. É a composição efetiva do conto que permite verificar se a retomada reproduz, relativiza ou contesta a avaliação recebida.

3.1. Oralidade Representada e Construção Estética da Memória

A relação entre oralidade e escrita não se reduz à oposição entre espontaneidade e elaboração. Marcuschi (2001) permite compreender as práticas linguísticas em continuidade de usos, enquanto Preti (2004) orienta a descrição dos efeitos de conversação construídos no texto literário. A articulação é importante porque a próclise em “me olho” e “me pergunto” não comprova uma fala efetivamente registrada: trata-se de uma escolha de representação, integrada a um projeto estético. Assim, o dado linguístico deve ser interpretado na relação entre registro, focalização e aproximação enunciativa, evitando tanto o preconceito normativo quanto a idealização automática da oralidade como resistência.

A memória literária também não corresponde a inventário neutro de acontecimentos. O narrador seleciona, hierarquiza e reinterpreta episódios a partir de uma posição temporal posterior. Por isso, alternâncias entre pretérito perfeito, pretérito imperfeito e presente não são apenas escolhas morfológicas: podem distribuir eventos pontuais, hábitos e permanências afetivas. O exame da temporalidade torna-se especialmente produtivo quando articulado a verbos efetivamente presentes no corpus, em vez de partir de generalizações sobre a função humanizadora da literatura.

A reflexão de Piglia (2004) sobre a composição do conto oferece apoio complementar para considerar as camadas de informação que a narrativa revela e retém. Não se trata de impor mecanicamente ao texto a existência de uma segunda história oculta, mas de investigar o funcionamento de lacunas, inferências e informações gradualmente oferecidas ao leitor. Em “Cinco Marias”, o estado de saúde de uma irmã e as reações afetivas da narradora constituem situações em que a sugestão narrativa exige uma leitura atenta aos limites do que é explicitamente afirmado.

A oralidade representada interessa ainda por sua dupla direção valorativa. Expressões correntes podem criar solidariedade e reconhecimento entre familiares, mas também veicular censura e hierarquias. Sua presença, portanto, não constitui indicador automático de autenticidade, espontaneidade ou resistência. O efeito depende de quem enuncia, a quem se dirige a fala e de como a narração a enquadra. Essa cautela evita atribuir ao registro linguístico, por si só, uma função política que só pode ser sustentada pela análise contextual.

A articulação entre memória e oralidade também exige distinguir o acontecimento lembrado de sua formulação presente. A voz da narradora não recupera o passado como registro neutro: ao selecionar uma fala e aproximá-la de experiências posteriores, atribui-lhe novo lugar na composição. A temporalidade verbal organiza esse deslocamento, enquanto as marcas de conversação produzem efeitos de proximidade com a experiência familiar. O resultado é uma memória discursivamente trabalhada, cuja força estética reside justamente na distância entre o que foi vivido, o que é recordado e o que pode ser dito no momento da narração.

3.2. Gênero, Hierarquias Simbólicas e Crítica Social

A categoria gênero exige distinguir trajetórias individuais e princípios sociais de classificação. Beauvoir (2019) questiona a naturalização de papéis femininos; Scott (1995) evidencia o caráter relacional e histórico das diferenças mobilizadas na organização do poder. As contribuições convergem na crítica ao essencialismo, mas operam em escalas analíticas distintas. No conto, seu encontro permite perguntar não apenas quais expectativas recaem sobre as mulheres, mas como o próprio relato põe em questão os critérios pelos quais estudo, maternidade e cuidado se tornam provas de utilidade social.

Bourdieu (2012) contribui ao explicar como classificações hierárquicas podem adquirir aparência de evidência natural. Sua aproximação com Scott requer, entretanto, cuidado: não basta identificar uma fala depreciativa para demonstrar um sistema de dominação. A análise precisa explicitar o critério de valor acionado, a posição de quem o enuncia e as condições de sua retomada. A expressão “não presta pra nada, só pra estudar” é produtiva precisamente porque o julgamento totalizante é confrontado, mais adiante, com uma trajetória que o desestabiliza sem eliminar necessariamente as exigências domésticas. A hipótese interpretativa, portanto, é a persistência contraditória de regimes de reconhecimento, não uma emancipação linear.

Candido (2004) situa a literatura no horizonte da formação humana, mas esse horizonte não deve ser confundido com uma qualidade automaticamente produzida por temas socialmente relevantes. A força crítica de “Cinco Marias” decorre também de sua elaboração formal: diferentes vozes coexistem sem síntese pacificadora, e o reconhecimento da narradora permanece ambivalente. A leitura aqui proposta, por isso, faz a discussão social derivar da descrição dos procedimentos narrativos, preservando a singularidade estética do conto.

O conceito de reconhecimento deve ser empregado aqui em sentido analítico circunscrito: trata-se dos critérios pelos quais as personagens são valorizadas ou desqualificadas nos enunciados examinados, e não da adoção implícita de uma teoria filosófica específica do reconhecimento. Essa delimitação impede que o vocabulário conceitual exceda a fundamentação mobilizada. A oposição entre estudo e utilidade familiar, por exemplo, permite investigar quais atividades recebem valor e em que condições esse valor é revisado, sem transformar uma cena ficcional em diagnóstico geral sobre todas as mulheres.

As perspectivas de Scott (1995) e Bourdieu (2012) tornam produtivo perguntar como as classificações são socialmente inteligíveis, mas não dispensam a leitura da forma narrativa. Se a fala depreciativa expressa uma hierarquia, sua citação posterior pode desestabilizar a pretensão de naturalidade desse julgamento. O aspecto decisivo não é provar uma relação linear entre dominação e resistência; é mostrar que a mesma trajetória pode comportar ampliação de autonomia e permanência de encargos desigualmente distribuídos. A contradição, em vez de fragilizar a interpretação, constitui um de seus resultados mais relevantes.

4. ENTRE O JULGAMENTO E A RESSIGNIFICAÇÃO: DISPUTAS DE VALOR E SENTIDOS EM CINCO MARIAS

O confronto entre o julgamento depreciativo e a reavaliação retrospectiva constitui um dos núcleos críticos do conto. A mudança de reconhecimento não deve ser confundida com superação integral dos critérios que subordinam o valor feminino à acumulação de funções. A tensão entre escolarização, autonomia e obrigações domésticas é produzida pela própria organização do relato, não por uma correspondência direta entre personagem e realidade social.

O contraste entre “não presta pra nada” e “já não dizem” permite ainda distinguir mudança de julgamento e transformação do critério que o fundamenta. A cessação de uma censura não implica necessariamente o abandono da exigência de produtividade doméstica: a narradora passa a ser reconhecida quando demonstra compatibilizar formação, trabalho remunerado, maternidade e cuidado da casa. A enumeração, nessa perspectiva, não funciona apenas como inventário biográfico; atua como justificativa discursiva da nova posição social atribuída à personagem.

A aproximação com Scott (1995) esclarece o caráter relacional da avaliação, pois a utilidade feminina é definida por expectativas que antecedem a trajetória individual. Bourdieu (2012), por sua vez, ajuda a problematizar a naturalização desses critérios, embora o fragmento não baste para comprovar, isoladamente, um mecanismo completo de violência simbólica. O achado específico é mais preciso: a narrativa torna visível a persistência de uma medida desigual de reconhecimento justamente quando parece narrar sua superação.

4.1. A Voz Familiar, o Pensamento Interiorizado e os Limites do Não Dito

A narrativa também constrói uma relação entre exterioridade e interioridade. Diante da irmã que afirma estar bem, a narradora relata: “preciso de privacidade. Me olho no espelho: não inventa de chorar na frente dela!” (Cocoo, 2016, p. 13). A passagem aproxima narração e pensamento, sem exigir que se classifique toda a construção, de modo automático, como discurso indireto livre. Há um deslocamento perceptível da descrição de ações para uma forma de autoendereçamento, marcada pelo imperativo negativo “não inventa”.

O efeito discursivo decorre da coexistência de duas cenas: a interação familiar em que a narradora busca controlar sua manifestação emocional e o espaço de privacidade em que essa contenção se torna enunciável. A exclamação intensifica o caráter de injunção dirigida a si mesma. O texto não afirma necessariamente a natureza exata da enfermidade da irmã, mas sugere uma situação de vulnerabilidade e cuidado recíproco. Interpretar a peruca como prova de diagnóstico específico seria ultrapassar o que o fragmento permite demonstrar.

Em termos enunciativos, o episódio produz uma dissociação entre o que pode ser mostrado diante do outro e o que é formulado no interior da experiência narrada. A categoria de silêncio, nessa leitura, não significa ausência literal de palavras: designa a administração do dizível em uma situação afetiva. À luz de Orlandi (2015), importa investigar a relação entre formulação, interdição circunstancial e possibilidades de sentido, sem reduzir a cena a um único mecanismo de opressão social.

A presença de enunciados familiares reproduzidos, tanto os depreciativos quanto os afetivos, configura um espaço de heterogeneidade de vozes. A narradora não apresenta a família como bloco homogêneo: nela convivem acolhimento, julgamentos, cuidados e tensões. Essa ambivalência torna o conto mais produtivo do que uma oposição rígida entre personagens opressores e vítimas. A análise crítica, portanto, se fortalece quando reconhece que a linguagem representa relações sociais contraditórias, e não identidades previamente estabilizadas.

4.2. Oralidade Representada e Proximidade Enunciativa

A linguagem do relato também incorpora expressões sentenciosas, como “quem muito se abaixa mostra a bunda”, atribuída à fala de uma irmã (Cocoo, 2016, p. 14). O provérbio condensa um conselho em imagem corporal e em estrutura generalizante. Sua presença não se limita a caracterizar socialmente a personagem: introduz um repertório de saberes familiares, transmitidos oralmente, que pode ser reinterpretado pela narradora e pelo leitor. A escolha de uma expressão de registro informal evidencia a convivência entre afetividade, humor e crítica.

Conforme Preti (2004) e Marcuschi (2001), é metodologicamente mais produtivo falar em efeitos de oralidade e representação de práticas de fala do que supor reprodução fiel de uma conversação real. A escrita seleciona e organiza marcas linguísticas para construir uma cena narrativa. No conto, a primeira pessoa, as expressões correntes e a reprodução de vozes familiares aproximam o leitor de uma experiência memorialística, ao mesmo tempo que tornam perceptíveis avaliações e expectativas socialmente compartilhadas.

Essa observação possui consequência crítica: a presença da oralidade desloca para o espaço da literatura modos de dizer que nem sempre recebem o mesmo prestígio de registros institucionalizados. Todavia, não se deve concluir que toda marca de oralidade seja, por si, resistência. O efeito de contestação depende de seu funcionamento em contexto: no enunciado depreciativo, por exemplo, a fala cotidiana veicula uma hierarquia; quando retomada pela narradora, passa a integrar a crítica dessa mesma hierarquia.

O autoendereçamento “não inventa de chorar” apresenta uma injunção que não precisa ser interpretada como submissão a uma ordem externa identificável. A própria narradora assume a posição de quem regula sua expressão afetiva, produzindo uma cena em que vulnerabilidade e cuidado coexistem. A análise ganha densidade quando distingue a proibição linguística explicitamente formulada da causa social que poderia explicá-la, mas não está integralmente documentada no excerto.

A perspectiva discursiva do silêncio permite reconhecer que nem toda emoção precisa ser verbalizada na interação para participar da produção de sentidos. Ao mesmo tempo, seria metodologicamente inadequado tratar qualquer ausência de fala como silenciamento estrutural. O dado disponível sustenta a leitura de uma gestão situada do dizível: diante da irmã, a narradora contém a emoção; na intimidade do espelho, formula a própria contenção. O efeito literário resulta dessa passagem entre interlocução e interioridade, não da comprovação de uma intenção psicológica inacessível.

4.3. Tempos Verbais, Memória e Continuidade das Relações Afetivas

O conto apresenta uma sequência verbal significativa na evocação de uma das irmãs: “foi minha professora”, “entendia de mapas”, “falava de lugares distantes” e “repete umas frases” (Cocoo, 2016, p. 14). Os verbos organizam posições temporais distintas. O pretérito perfeito em “foi” apresenta uma experiência localizada retrospectivamente; o imperfeito em “entendia” e “falava” favorece a leitura de capacidades ou ações habituais; o presente em “repete” assinala continuidade de um comportamento no tempo da narração.

O valor interpretativo surge da articulação dessas formas, e não de uma equivalência fixa entre tempo verbal e sentimento. O passado rememorado inclui episódios de formação, enquanto o presente permite inscrever a irmã como presença ativa na experiência da narradora. A memória não funciona apenas como recuperação de acontecimentos encerrados: a narrativa atribui atualidade a vínculos e ensinamentos. Desse modo, a análise morfossintática torna visível uma organização discursiva da continuidade afetiva.

A alternância temporal também impede que as personagens sejam reduzidas ao estado em que se encontram no presente narrado. As referências a trabalho, doença, infância, cuidado e deslocamentos familiares distribuem suas trajetórias em diferentes momentos. A composição aproxima experiências heterogêneas e, pela focalização da narradora, constrói um mosaico de relações entre singularidade e pertencimento. O título “Cinco Marias” ganha, nesse contexto, uma dimensão coletiva sem apagar as diferenças entre as histórias narradas.

Esse achado permite relacionar temporalidade e crítica social de maneira mais cuidadosa. As trajetórias das personagens sugerem a persistência de expectativas sobre trabalho e cuidado, mas também evidenciam percursos distintos de agência. A memória narrativa não apenas denuncia; ela reorganiza valores e torna perceptíveis as ambiguidades das relações familiares. O conto se constitui, assim, como espaço de confronto entre aquilo que foi dito sobre as mulheres e aquilo que suas experiências permitem reconsiderar.

As formas verbais também modulam o estatuto das personagens no relato. O imperfeito constrói uma duração habitual, o perfeito recorta uma experiência rememorada e o presente introduz uma continuidade que resiste ao encerramento do episódio passado. O interesse analítico não está em atribuir valor afetivo fixo a cada tempo, mas em observar sua combinação na sequência concreta. A mesma personagem é figurada como lembrança e presença, o que impede a redução de sua identidade a um único acontecimento.

Essa articulação sustenta uma hipótese sobre o título do conto: a designação coletiva “Cinco Marias” reúne trajetórias sob uma referência comum, mas a narração lhes restitui diferenças de voz, experiência e temporalidade. O coletivo não apaga o singular; ao contrário, torna visível a necessidade de reconhecer percursos heterogêneos. Trata-se de uma inferência construída pela relação entre título e procedimentos narrativos, e não de uma afirmação sobre a intenção autoral.

4.4. Referenciação, Contraste e Fronteiras do Pertencimento

A referenciação associada à existência de outra filha do pai instaura uma diferença na delimitação inicial do grupo familiar. A escolha lexical “outra”, examinada em sua função contextual, pode assinalar uma posição relacional, mas não permite, isoladamente, inferir rejeição ou hostilidade. A leitura crítica considera a distância entre diferenciação referencial e avaliação moral.

Essa passagem reforça a importância de tratar os detalhes gramaticais como procedimentos de construção de mundo. Conectores, demonstrativos e expressões referenciais não são acessórios: eles orientam contrastes, hierarquias e relações entre sujeitos. A análise literária ganha precisão quando identifica tais operações antes de lhes atribuir implicações socioculturais.

A repetição de “outra” merece leitura que considere simultaneamente a função referencial e a possibilidade de efeito valorativo. No plano informacional, a expressão distingue vínculos de parentesco; no plano da organização narrativa, interrompe uma enumeração que parecia suficiente. Nenhum desses elementos autoriza, sozinho, atribuir hostilidade à narradora. A contribuição da análise consiste em explicitar como uma escolha gramatical aparentemente discreta reabre a delimitação do grupo familiar.

Esse resultado complementa o exame dos enunciados depreciativos: enquanto a avaliação lexical atribui valor diretamente, a referenciação distribui posições e fronteiras de pertencimento sem necessariamente formular um juízo explícito. A diferença entre esses mecanismos reforça a importância de não tratar todos os recursos linguísticos como sinais equivalentes de exclusão. O conto permite examinar formas diversas de organizar relações familiares, com graus distintos de explicitude e ambivalência.

4.5. Da Leitura do Conto Ao Debate Social: Contribuições e Tensões

As análises permitem formular um resultado transversal: a narrativa não apenas representa juízos sobre as mulheres, mas dramatiza sua circulação, sedimentação e reavaliação. A depreciação do estudo mobiliza um critério familiar de utilidade; o autoendereçamento torna visível a regulação afetiva do dizer; a oralidade representada inscreve repertórios cotidianos no texto; e a temporalidade reabre julgamentos anteriores à luz de experiências posteriores. O vínculo entre esses procedimentos é enunciativo: cada um evidencia uma relação entre voz, avaliação e posição temporal.

No plano social, o conto suscita questões sobre acesso à educação, reconhecimento do trabalho intelectual, distribuição do cuidado e naturalização de exigências dirigidas às mulheres. Essas questões emergem de cenas e enunciados específicos; não equivalem a demonstrações empíricas sobre a totalidade das relações sociais brasileiras. A literatura opera por configuração estética e possibilidade interpretativa. Seu valor para o debate público consiste em tornar discutíveis formas de julgamento que, no cotidiano, podem circular sem contestação explícita.

A ambivalência do reconhecimento da narradora é especialmente relevante. O enunciado “já não dizem” pode sinalizar transformação da avaliação familiar, mas a enumeração de maternidade, emprego e cuidado da casa também permite indagar sob quais condições esse reconhecimento é concedido. A resistência não precisa ser representada como vitória completa; pode consistir na própria exposição de uma contradição que permanece socialmente ativa. Essa leitura evita celebrar a sobrecarga feminina como se ela fosse, necessariamente, sinal de emancipação.

Por esse caminho, o estudo estabelece diálogo com discussões interdisciplinares sobre desigualdade e transformação social, preservando a centralidade dos estudos da linguagem. A análise crítica da obra não consiste em procurar mensagens edificantes, mas em demonstrar como recursos literários põem em circulação vozes e valores conflitantes. A especificidade da contribuição está justamente na passagem controlada da materialidade textual para o problema social, com atenção às ambiguidades, aos silêncios e às possibilidades de interpretação.

Dessa articulação resulta uma contribuição específica: o conto pode ser lido como uma cena de disputa dos critérios de reconhecimento feminino, em que o valor atribuído às trajetórias não está dado de antemão, mas é reconstruído pelo ato de narrar. A interpretação permanece circunscrita aos excertos examinados e não substitui investigações empíricas sobre desigualdade de gênero ou recepção literária.

A leitura transversal permite distinguir três operações articuladas: classificar, rememorar e reavaliar. O julgamento familiar classifica a personagem segundo uma medida de utilidade; a memória recupera essa classificação e a situa entre outras experiências; a narração posterior reavalia seu alcance sem oferecer uma resolução integral das desigualdades. Essa sequência constitui a principal contribuição interpretativa do estudo, pois explica como os procedimentos linguísticos participam da crítica social sem converter a obra em mera ilustração sociológica.

Uma consequência metodológica é que a dimensão política da narrativa não pode ser atribuída indistintamente a qualquer marca de oralidade, silêncio ou temporalidade. O potencial crítico emerge das relações construídas entre essas marcas e das contradições que a leitura demonstra. A interpretação permanece aberta a outras possibilidades, mas delimita seu alcance ao material efetivamente examinado: o conto encena disputas de valor e pertencimento, não oferece uma descrição estatística das relações de gênero.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste artigo foi investigar como recursos linguístico-discursivos do conto “Cinco Marias”, de Marta Cocco, contribuem para a construção de representações femininas e para a problematização de valores sociais. A análise de excertos selecionados evidenciou quatro movimentos articulados: a avaliação depreciativa da escolarização, retomada em chave crítica; a coexistência de vozes familiares e formas de pensamento interiorizado; a representação literária da oralidade; e a organização temporal da memória por meio de alternâncias verbais.

Os resultados interpretativos sustentam que a força crítica do conto não se limita à exposição temática de dificuldades enfrentadas por mulheres. Ela se realiza na maneira pela qual enunciados herdados são recontextualizados, relações afetivas são narradas com ambivalência e trajetórias individuais tensionam critérios de reconhecimento social. A expressão “não presta pra nada” torna-se particularmente produtiva porque permite observar, em sua própria composição lexical e em sua retomada narrativa, o conflito entre desqualificação do estudo e reavaliação da autonomia.

Conclui-se que a leitura crítica da literatura pode enriquecer o debate social precisamente quando respeita sua complexidade formal. Em “Cinco Marias”, a articulação entre memória, oralidade e avaliação discursiva permite compreender como formas aparentemente cotidianas de dizer participam da construção e da contestação de expectativas sobre o feminino. É nessa relação entre materialidade da linguagem e historicidade dos valores que se localiza a contribuição central da análise proposta.

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1 Doutor em Estudos de Linguagem, professor de Língua Portuguesa da Rede Estatual de Educação, SEDUC. Pesquisador associado à UFMT- PPGEL, Cuiabá-MT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5056-6964

2 Mestra em Estudos Literários, professora de Língua Portuguesa da Rede Estatual de Educação, SEDUC e pesquisadora associada à UNEMAT, Tangará da Serra-MT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail