ENTRE A NORMA E A TRANSGRESSÃO: ORALIDADE, VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E RESISTÊNCIA DISCURSIVA EM NOJO, DE DIVANIZE CARBONIERI

BETWEEN NORM AND TRANSGRESSION: ORALITY, SYMBOLIC VIOLENCE, AND DISCURSIVE RESISTANCE IN NOJO BY DIVANIZE CARBONIERI

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793515244

RESUMO
Este artigo analisa como a tensão entre norma e transgressão organiza os mecanismos linguístico-discursivos de Nojo (2020), de Divanize Carbonieri, e torna perceptíveis formas cotidianas de violência simbólica contra o corpo feminino. De natureza qualitativa, bibliográfica e crítico-interpretativa, a investigação examina enunciados de vigilância estética, interdições à visibilidade pública, relações familiares e narrativas de autorrejeição. O percurso articula três eixos: a oralidade literariamente construída por marcas de concordância variável, encadeamento sintático e rarefação da pontuação; a reprodução de valores normativos por avaliações, comparações e conselhos; e a resistência discursiva produzida pela exposição crítica desses mecanismos. O diálogo com Bakhtin, Bourdieu, Butler, Kristeva, Iser e Jauss permite diferenciar transgressão da norma escrita e contestação de normas sociais, sem supor equivalência automática entre ambas. Conclui-se que a potência crítica da obra resulta da interação entre forma enunciativa, violência representada e atividade interpretativa do leitor, pela qual a repulsa corporal se desloca para o questionamento dos discursos que a legitimam.
Palavras-chave: Oralidade; Norma e Transgressão; Violência Simbólica; Resistência discursiva; Nojo.

ABSTRACT
This article examines how the tension between norm and transgression structures the linguistic-discursive mechanisms of Nojo (2020), by Divanize Carbonieri, and renders everyday forms of symbolic violence against the female body perceptible. Adopting a qualitative, bibliographic, and critical-interpretive approach, the study investigates utterances associated with aesthetic surveillance, restrictions on public visibility, family relationships, and narratives of self-rejection. The analysis is organized around three interconnected dimensions: orality as a literary construction, conveyed through variable agreement patterns, syntactic chaining, and reduced punctuation; the reproduction of normative values through judgments, comparisons, and advice; and discursive resistance emerging from the critical exposure of these mechanisms. Drawing on Bakhtin, Bourdieu, Butler, Kristeva, Iser, and Jauss, the theoretical framework distinguishes transgressions of written-language conventions from challenges to social norms, without assuming an automatic equivalence between them. The article concludes that the work's critical force arises from the interaction between enunciative form, represented violence, and the reader's interpretive activity, through which bodily disgust shifts toward a critical examination of the discourses that legitimize it.
Keywords: Orality; Norm and Transgression; Symbolic Violence; Discursive Resistance; Nojo.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo desenvolve uma leitura crítica e interpretativa de Nojo (2020), de Divanize Carbonieri, tomando a obra literária como objeto estético-discursivo e não como registro documental de experiências sociais. Defendemos que as escolhas composicionais da autora, a oralidade literariamente construída, a concordância variável, o encadeamento sintático, a pontuação rarefeita e a justaposição de vozes, contribuem para a experimentação de uma leitura social: uma experiência estética pela qual o leitor é instado a reconhecer e problematizar os discursos que classificam, vigiam e desqualificam o corpo feminino. Na literatura brasileira contemporânea, a representação da corporeidade constitui espaço privilegiado de investigação das relações entre linguagem, subjetividade e poder. Em Nojo, essas relações não se restringem aos acontecimentos narrados: manifestam-se na própria organização da linguagem e na circulação de avaliações socialmente reconhecíveis.

A investigação parte da necessidade de compreender como procedimentos de composição literária podem tornar perceptíveis mecanismos de violência simbólica naturalizados nas interações sociais. Nesse contexto, formula-se a seguinte questão norteadora: de que maneira a tensão entre norma e transgressão se materializa na linguagem de Nojo, particularmente por meio da oralidade representada, da organização sintática, da pontuação rarefeita e da circulação de vozes que reproduzem julgamentos sobre o corpo feminino? A relevância do estudo reside na possibilidade de examinar conjuntamente aspectos formais da escrita e processos discursivos de legitimação de padrões corporais, evitando reduzir a experimentação linguística a um recurso exclusivamente estilístico.

Parte-se da hipótese de que a narrativa articula criticamente dois regimes normativos distintos, embora relacionados: as convenções da escrita, tensionadas pela experimentação formal, e as prescrições sociais que regulam feminilidade, aparência e visibilidade corporal. Defendemos que a transgressão linguística não produz automaticamente resistência política; sua produtividade crítica depende da interação entre materialidade verbal, posições enunciativas e interpretação. A leitura social aqui proposta não significa reduzir a ficção a ilustração de problemas sociológicos: significa demonstrar como sua forma estética torna legíveis contradições de valores naturalizados na vida cotidiana.

A pesquisa assume abordagem qualitativa, bibliográfica e crítico-interpretativa. O corpus é a obra literária Nojo (Carbonieri, 2020), examinada por meio de episódios selecionados por sua pertinência à questão norteadora: avaliações da aparência, prescrições de vestuário, interdições da visibilidade pública, rejeição materna, estrias e tentativas de correção estética. O procedimento analítico compreende: (a) descrição das escolhas lexicais, sintáticas e gráficas e das marcas de oralidade representada; (b) identificação das vozes e posições avaliativas que configuram julgamentos corporais; (c) interpretação das relações entre forma, normatividade e violência simbólica à luz dos referenciais mobilizados; e (d) discussão das possibilidades de resistência discursiva e dos efeitos de leitura inscritos na composição. Trata-se de análise textual, sem entrevistas, observação de campo ou mensuração empírica da recepção.

A leitura crítica articula o dialogismo de Bakhtin (1981), a violência simbólica de Bourdieu (1989), a normatividade de gênero de Butler (2003), a abjeção de Kristeva (1982) e as contribuições de Iser (1999) e Jauss (1994) para pensar a atividade interpretativa. Essas categorias são empregadas de modo diferenciado, sem reduzir abjeção, dominação simbólica e normatividade a conceitos intercambiáveis. A oralidade é entendida como construção literária, não como transcrição transparente da fala; a resistência é examinada como possibilidade interpretativa, não como resultado inevitável da ruptura gramatical. As citações diretas e respectivas indicações de página da obra são preservadas integralmente conforme o texto de autoria fornecido.

O objetivo geral deste artigo é analisar como a tensão entre norma e transgressão articula oralidade, violência simbólica e resistência discursiva em Nojo (2020), de Divanize Carbonieri. Especificamente, pretende-se identificar e descrever marcas de oralidade e procedimentos de organização enunciativa; examinar como avaliações, comparações e aconselhamentos reproduzem hierarquias relacionadas ao corpo feminino; interpretar a circulação intergeracional dessas prescrições; e discutir de que maneira a configuração discursiva da narrativa possibilita ao leitor questionar os valores que legitimam a autorrejeição corporal. Com isso, busca-se contribuir para os estudos linguístico-literários ao demonstrar como escolhas formais e relações discursivas participam da representação crítica de mecanismos cotidianos de violência simbólica.

2. ENTRE A RECEPÇÃO E A REFLEXÃO: REFERENCIAL TEÓRICO

A fundamentação teórica deste artigo foi construída a partir da articulação de diferentes perspectivas dos estudos da linguagem, da sociologia, das teorias de gênero e da recepção literária, com o propósito de conferir consistência conceitual à análise dos mecanismos linguístico-discursivos presentes em Nojo (2020), de Divanize Carbonieri. As contribuições de Bakhtin foram mobilizadas para examinar o caráter dialógico dos enunciados e a circulação de vozes que reproduzem avaliações e julgamentos sobre o corpo feminino.

A perspectiva de Bourdieu permitiu compreender como determinadas práticas discursivas, aparentemente legitimadas pelo cuidado e pelo aconselhamento, podem operar como manifestações de violência simbólica. Em diálogo com essa abordagem, os estudos de Butler fundamentaram a discussão sobre a constituição normativa dos corpos e as exigências sociais de feminilidade, enquanto as reflexões de Kristeva ofereceram subsídios para interpretar a repulsa e a rejeição corporal como processos relacionados à construção simbólica da subjetividade. A integração desses referenciais fortaleceu a argumentação ao possibilitar uma leitura que ultrapassa a identificação temática da violência, evidenciando sua manifestação nas relações entre linguagem, valores sociais e posições enunciativas. Ao mesmo tempo, o artigo preservou as especificidades de cada perspectiva, evitando tratar dominação simbólica, normatividade de gênero e abjeção como conceitos equivalentes.

Para aprofundar a análise da composição literária e de seus possíveis efeitos de sentido, o artigo recorreu às contribuições de Iser e Jauss, cujas formulações permitiram relacionar a organização textual à atividade interpretativa do leitor e aos horizontes históricos e sociais que orientam a recepção. Esses referenciais foram articulados à perspectiva dialógica de Bakhtin para examinar como a oralidade representada, o encadeamento sintático, a concordância variável e a pontuação rarefeita participam da construção das vozes narrativas e da exposição crítica de discursos normativos.

A interlocução com Walker (2021) também integrou o percurso bibliográfico, contribuindo para situar a leitura proposta em relação à discussão crítica da obra. Desse modo, o referencial teórico não foi empregado apenas como sustentação de conceitos previamente estabelecidos, mas como instrumento de interpretação dos fragmentos selecionados, orientando a identificação de mecanismos de classificação corporal, sua circulação nas relações familiares e suas implicações discursivas. A principal contribuição dessa articulação consiste em distinguir a transgressão das convenções da escrita da resistência às normas sociais, demonstrando que a ruptura formal não produz, necessariamente, contestação ideológica. Assim, a consistência analítica do estudo resulta do confronto entre os pressupostos teóricos e a materialidade linguística da narrativa, por meio do qual se investiga como a representação literária da repulsa corporal pode deslocar a atenção do leitor para os discursos que a produzem e legitimam.

A interlocução teórica não consiste na aplicação de conceitos a uma narrativa previamente interpretada. Sua função é estabelecer mediações entre indícios formais e inferências críticas. Uma concordância variável, por exemplo, pode configurar uma voz socialmente situada, mas não prova, isoladamente, resistência à dominação. É o confronto entre essa forma e o conteúdo axiológico do enunciado que permite compreender como uma escrita que desloca a norma-padrão pode simultaneamente representar a reiteração de normas estéticas. Esse descompasso constitui um dos principais resultados interpretativos da leitura.

3. DIVANIZE CARBONIERI: TRAJETÓRIA, RECEPÇÃO E PROJETO ESTÉTICO

Divanize Carbonieri, nascida em Sorocaba, São Paulo, em 1972, estabeleceu em Mato Grosso um espaço de atuação intelectual e de criação literária. Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), desenvolve atividades de ensino e pesquisa na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com interesse nas literaturas africanas e afrodescendentes de língua inglesa, na diáspora e nas perspectivas pós-coloniais e decoloniais. Sua trajetória aproxima a investigação acadêmica da produção ficcional e poética, articulando questões de identidade, gênero e relações de poder. Essa convergência constitui uma chave relevante para compreender os procedimentos estéticos que singularizam sua escrita.

No âmbito de sua circulação e recepção literária, destacam-se o Prêmio Mato Grosso de Literatura, recebido em 2017, a colocação no Prêmio Off Flip, em 2019, e o reconhecimento de Passagem Estreita como finalista do Prêmio Jabuti, em 2020. O Insight dos Insetos, voltado ao público infantojuvenil, também recebeu distinção literária. Tais registros ajudam a situar a projeção de sua produção, embora não se confundam, por si, com uma fortuna crítica sistematizada. Para esta última, importa considerar, sobretudo, os debates interpretativos suscitados por suas escolhas formais, pela representação das subjetividades femininas e pela contestação de discursos socialmente legitimados.

Em Passagem Estreita e Nave Alienígena, a ironia, o deslocamento de perspectivas e a exposição de práticas de violência simbólica revelam um projeto estético atento às contradições da vida social. A linguagem, frequentemente marcada pela oralidade e pela ruptura de expectativas normativas, não atua apenas como veículo de conteúdo: participa da própria construção da crítica. É nessa articulação entre forma e experiência que se insere Nojo (2020), obra que mobiliza situações ordinárias para interrogar a fabricação social do aceitável, do belo e do repulsivo.

Em Nojo, o leitor encontra uma escrita de forte intensidade expressiva, na qual o corpo feminino se apresenta como superfície de inscrição de expectativas familiares, afetivas e culturais. A obra expõe o modo pelo qual comentários aparentemente banais sobre roupas, magreza, sexualidade e envelhecimento se transformam em prescrições de conduta. O título convoca uma experiência de repulsa que ultrapassa a reação individual e aponta para processos de classificação e desqualificação dos corpos. Desse modo, a narrativa permite observar a passagem de percepções íntimas para formas coletivas de vigilância e julgamento.

No campo da recepção crítica, a resenha de Marli Walker (2021), publicada no portal Ruído Manifesto, constitui documento especialmente pertinente: ao observar a justaposição de falas e a convergência entre forma e conteúdo, a crítica identifica a dupla desestabilização que caracteriza a obra. Essa leitura fornece um ponto de apoio documentado para compreender o incômodo não como falha de legibilidade, mas como efeito deliberado de uma poética que coloca em tensão as normas da escrita e os padrões de aceitabilidade corporal.

4. NORMA SOCIAL E VIOLÊNCIA SIMBÓLICA: O CORPO FEMININO EMVIGILÂNCIA

Um dos movimentos narrativos acompanha a avaliação insistente da aparência de uma jovem. A escolha entre vestido e calça, inicialmente vinculada ao conforto, revela-se atravessada por convenções que associam determinadas peças à expressão obrigatória da feminilidade. A possibilidade de vestir-se de outro modo não elimina, necessariamente, as restrições impostas em cerimônias e situações sociais. O vestuário torna-se, assim, marcador de expectativas de gênero, expondo o caráter histórico e cultural das condutas consideradas apropriadas para mulheres.

A cobrança sobre o desenvolvimento físico da jovem amplia esse mecanismo de controle. A magreza é apresentada como falta, ao passo que o ganho de peso também deve permanecer dentro de limites previamente estabelecidos. A aparente preocupação com alimentação e saúde desloca-se para uma avaliação da atratividade, sobretudo quando o corpo é medido por sua capacidade de corresponder ao desejo alheio. A contradição é significativa: exige-se que a mulher modifique a própria aparência, mas se condena qualquer transformação que ultrapasse o padrão idealizado. A feminilidade aparece, portanto, como uma adequação permanentemente inacabada.

A comparação com outras jovens e a associação entre valor pessoal e possibilidade de namoro intensificam o constrangimento. Não se trata apenas de um julgamento estético, mas de uma pedagogia cotidiana da inadequação, pela qual a linguagem ensina o que deve ser desejado, evitado ou corrigido. O discurso afetivo, muitas vezes enunciado em relações de proximidade, incorpora formas de coerção simbólica. Ao apresentar essas cobranças sem uma mediação moralizante explícita, Carbonieri transfere ao leitor a tarefa de perceber a violência naturalizada nas práticas de fala.

No plano composicional, o fluxo verbal contínuo, a escassez de pontuação convencional e a proximidade com a oralidade produzem um ritmo de acúmulo. As observações se encadeiam sem oferecer intervalos confortáveis, reproduzindo formalmente a insistência dos juízos que incidem sobre a personagem. A sucessão de avaliações, recomendações e comparações não apenas descreve a pressão social: faz com que sua recorrência seja experimentada durante a leitura. Assim, a estrutura linguística constitui parte decisiva da crítica, pois transforma o desconforto em procedimento estético.

Outro movimento narrativo desloca a atenção para a autopercepção corporal de uma voz em primeira pessoa, inicialmente concentrada em uma característica física do polegar. A referência à braquidactilia e à hereditariedade articula termos de registro científico a expressões coloquiais, irônicas e depreciativas. Essa aproximação não invalida o conhecimento científico; evidencia, antes, sua apropriação subjetiva por uma consciência já atravessada por valores estéticos. A característica biológica é interpretada como defeito e passa a organizar uma percepção de si marcada pela comparação e pela insatisfação.

O discurso, entretanto, não permanece restrito à autoimagem. Progressivamente, a narradora dirige seu olhar à mãe e à decisão desta de realizar uma intervenção estética. A crítica ao corpo materno e à tentativa de alterar sua aparência explicita a persistência de expectativas sobre a idade e a conduta feminina. A mulher mais velha é submetida a uma exigência contraditória: deve conservar atributos socialmente valorizados, mas pode ser censurada quando procura modificá-los. A narrativa evidencia, assim, que a vigilância corporal não se encerra em determinada etapa da vida.

A repetição lexical, a hipérbole, a adjetivação depreciativa e a alternância entre registros discursivos ampliam a intensidade dessa representação. Ao aproximar explicações genéticas, juízos morais e comentários familiares, a autora evidencia a heterogeneidade das vozes que constituem a subjetividade. A narração aproxima o leitor de um pensamento em movimento, marcado por digressões e associações rápidas. Embora tais recursos produzam efeitos de multiplicidade discursiva, seu alcance crítico reside especialmente na exposição dos conflitos entre experiência individual e valores coletivamente assimilados.

Em termos analíticos, importa distinguir o corpo material de sua inscrição em classificações sociais. As referências à magreza, ao envelhecimento ou às características físicas não produzem, isoladamente, uma condição de inferioridade; é a fala avaliativa, inscrita em relações assimétricas, que transforma diferença em falta. A violência simbólica, nesse sentido, opera quando critérios historicamente situados passam a circular como evidências naturais de valor e reconhecimento (Bourdieu, 1989).

A aproximação com Butler (2003) permite compreender que as normas de gênero não se restringem a prescrições explícitas: reiteram-se em práticas, gestos e expectativas sobre o modo de vestir, apresentar-se e ocupar espaços. A narrativa evidencia que a adequação feminina é cobrada de maneira contraditória, pois a mesma sociedade que exige aparência valorizada condena certas tentativas de transformação corporal. Essa ambivalência impede uma leitura simplista das personagens como exclusivamente vítimas ou agentes de opressão.

5. ORALIDADE E TRANSGRESSÃO DA NORMA ESCRITA: A DISPUTA PELA VISIBILIDADE

Assim, a subversão linguística deixa de ser um simples recurso estilístico. Ela se transforma em um gesto de resistência ao desafiar estilos convencionais de expressão e tensionar os códigos que regulam os corpos. Nesse contexto, a intensificação expressiva ganha importância central. A repetição de excessos verbais, o uso de hipérboles, metáforas e a criatividade ofensiva geram um encadeamento de falas. Esse processo cria uma linguagem saturada, capaz de descrever a violência e provocar reflexão em quem lê.

A narrativa revela como a valorização social da aparência estabelece distinções entre mulheres, determinando quais corpos podem ocupar lugares de destaque e quais são relegados à exclusão. Ao afirmar que apenas “as menina bonitinha” teriam lugar no palco, a fala associa a visibilidade pública ao padrão estético, desvalorizando outras qualidades da personagem. Mesmo sendo descrita como uma “moça estudada”, que sabe “falar muito bonito”, suas capacidades perdem relevância diante da avaliação de sua imagem. O fragmento evidencia uma violência simbólica que rebaixa a mulher com base na aparência, sugerindo que ela deveria atuar nos bastidores, em funções sem exposição.

O enunciado mostra o modo de deslegitimação da mulher no espaço público. Embora a personagem tenha qualificação intelectual,“falar muito bonito” e ser uma “moça estudada”, tais atributos não são suficientes para garantir sua inserção em posições de destaque. Ao contrário, o discurso sugere que o lugar socialmente aceitável para ela é aquele da invisibilidade, “ficar por trás”, atuando em funções de apoio e organização. Dessa forma, o reconhecimento de sua competência é imediatamente neutralizado por uma lógica que restringe a mulher aos bastidores.

A distinção entre forma e valoração é decisiva: a escolha da oralidade não deve ser confundida com déficit linguístico, assim como a crítica literária não pode atribuir emancipação automática a toda variante não padronizada. Na cena da visibilidade pública, a voz que distribui lugares sociais é construída por recursos expressivos específicos; sua autoridade, entretanto, deriva do julgamento estético que transforma a aparência em condição para o reconhecimento. A leitura crítica evidencia a contradição entre a liberdade composicional da escrita e o caráter restritivo da norma social encenada.

Essa representação dialoga com as reflexões de Butler (2003), para quem as normas de gênero regulam os modos pelos quais homens e mulheres podem ocupar determinados espaços sociais. O fragmento revela como tais normas produzem expectativas sobre o comportamento feminino, associando a visibilidade, a liderança e a autoridade ao masculino, enquanto reservam às mulheres funções secundárias e menos reconhecidas.

O afastamento de convenções gráficas na escrita, como o emprego de nomes próprios em minúsculas, a supressão de sinais de pontuação e o afastamento das convenções gramaticais da norma-padrão, constitui um recurso estético que aproxima a narrativa dos movimentos espontâneos da consciência. Em vez de organizar o discurso segundo uma lógica sintática rígida, Carbonieri constrói uma linguagem que reproduz a fluidez, as interrupções e as repetições características do pensamento cotidiano.

A linguagem, portanto, não apenas comunica uma experiência, mas busca recriá-la no próprio ato da leitura, aproximando a narrativa da oralidade e dos mecanismos psicológicos que estruturam a consciência. Ao reproduzir os fluxos descontínuos do pensamento, a narrativa permite que o leitor acompanhe a formação de percepções, medos e julgamentos no instante em que surgem. Esse procedimento confere maior densidade à subjetividade das personagens, evidenciando como discursos sociais relacionados ao corpo, à aparência e ao gênero são internalizados e passam a operar no âmbito da própria consciência. Assim, a linguagem torna-se não apenas um meio de expressão, mas também um espaço de revelação dos conflitos subjetivos produzidos pelas relações de poder que atravessam a experiência feminina.

A representação de padrões variáveis de concordância nominal e verbal reforça a marcação da oralidade. Em expressões como “só as menina bonitinha que vai” e “fazer os outro prestar atenção em você” (Carbonieri, 2020, p. 23), o afastamento da norma padrão consolida a naturalidade da fala representada, conferindo efeito de verossimilhança sociolinguística. Observa-se que as personagens femininas, embora, não nomeadas individualmente, se entrelaçam nos pensamentos próprios e nos alheios, assumindo identidades diversas como “mãe”, “filha”, “vizinha”, “professora” ou até mesmo a “moça da televisão” (Carbonieri, 2020, p. 23).

No enunciado “só as menina bonitinha que vai” (Carbonieri, 2020, p. 23), a concordância nominal variável (“as menina bonitinha”) e a concordância verbal não correspondente ao sujeito plural (“que vai”) compõem uma voz socialmente situada. O efeito crítico não decorre de considerar tais formas inferiores à variedade de prestígio, mas de observar o conteúdo avaliativo da fala: a aparência é convertida em condição para a participação pública. A norma linguística, portanto, é deslocada pela composição, enquanto a norma estética é reiterada pelo enunciador; a tensão entre ambas constitui o ponto decisivo da leitura.

Essas vozes femininas que ora se silenciam, ora se entrecortam em diálogos, desabafos e introspecções revelam estereótipos profundamente internalizados e denunciam mecanismos sociais de misoginia, gordofobia e exclusão estética. Na narrativa, os ataques simbólicos manifestam-se de forma explícita. A personagem reforça esse mecanismo ao declarar que “ninguém vai reparar em você” e que, mesmo sendo “moça estudada”, “não vai dar certo” (Carbonieri, 2020, p. 23), subordinando o valor intelectual da mulher à adequação corporal e estética. A violência discursiva intensifica-se quando a narradora aconselha que “o melhor é ficar por trás organizando na produção de um programa de televisão”, sugerindo ainda profissões “que dá pra fazer dentro de casa no computador”, por serem “mais de acordo com a tua possibilidade” (Carbonieri, 2020, p. 23).

Os recursos formais utilizados por Carbonieri intensificam o efeito crítico da narrativa. A ausência de pontuação convencional, o fluxo contínuo da oralidade e o encadeamento acelerado das frases produzem um ritmo sufocante que aproxima o texto da violência cotidiana dos comentários sociais dirigidos às mulheres. A escrita reproduz a espontaneidade brutal da fala comum para evidenciar como esses discursos discriminatórios se naturalizam no cotidiano. Desse modo, a fragmentação discursiva e a oralidade funcionam como estratégias de potencialização da experiência subjetiva, conferindo densidade e verossimilhança às vozes femininas que atravessam a narrativa.

O palco, evocado no episódio em que a personagem é aconselhada a não se expor, constitui uma imagem particularmente produtiva: simboliza o direito de aparecer, falar e ser reconhecida. Quando a capacidade intelectual é subordinada à beleza, a fala cotidiana converte-se em instrumento de distribuição desigual da visibilidade. O conselho de permanecer nos bastidores não representa apenas uma preferência profissional; configura uma interdição simbólica à presença pública feminina.

A heterogeneidade de vozes, observável na sucessão de avaliações e réplicas, pode ser iluminada pelo dialogismo bakhtiniano (Bakhtin, 1981), sem que toda multiplicidade de falas seja automaticamente classificada como polifonia em sentido estrito. O efeito mais relevante é a circulação de valores sociais contraditórios no interior da consciência e das relações familiares. A escrita tensiona essas vozes sem oferecer ao leitor uma síntese conciliadora.

6. ABJEÇÃO E CIRCULAÇÃO INTERGERACIONAL DOS DISCURSOS NORMATIVOS

Carbonieri provoca no leitor um incômodo que vai além da simples subversão da norma gramatical, utilizando a linguagem como instrumento de crítica social e política. Conforme observa Walker (2021), o efeito de repulsa da obra não se limita ao estranhamento inicial da escrita, mas se origina principalmente da transgressão das expectativas sobre forma e conteúdo literário, especialmente no que diz respeito à representação da corporeidade feminina. A obra provoca, assim, um desconforto que envolve não apenas a leitura, mas também a percepção de limites sobre o que é considerado aceitável ou legítimo retratar.

Esse exercício da função autoral se manifesta de maneira notória quando a narradora descreve a experiência da mãe ao beijá-la: “não sem antes puxar a minha franja pra frente pra não ficar nenhum pedacinho da testa aparecendo ela não fazia segredo de ter nojo da minha testa” (Carbonieri, 2020, p. 53). Nesse relato, a linguagem revela tanto a dimensão de intimidade quanto a tensão e a violência simbólica presentes nas relações familiares, permitindo que a corporeidade e a subjetividade da personagem se tornem perceptíveis de forma intensa e imediata, enquanto o leitor acompanha os limites impostos pelo controle social sobre a experiência feminina.

A narrativa demonstra que sentimentos de repulsa e rejeição não são reações espontâneas, mas processos internalizados, moldados por normas sociais e culturais que regulam a corporeidade e a subjetividade feminina. Nessa vertente, abjeção designa aquilo que é percebido como impuro, transgressor ou desordenado, provocando repulsa e estabelecendo fronteiras sociais (Kristeva, 1982). Em Carbonieri, essa repulsa se manifesta na percepção da protagonista sobre o corpo da mãe e sobre si mesma, diante de padrões que definem o que é aceitável em termos de aparência, comportamento e conduta moral, revelando a tensão entre o individual e o normativo.

A vigilância social é reforçada por gestos de cuidado que transmitem rejeição, como quando a mãe ajusta a franja da filha para que nenhuma imperfeição fique visível, e pela descrição detalhada da pele do nariz como “um campo minado” (Carbonieri, 2020, p. 53). O leitor é conduzido a vivenciar o desconforto junto à narradora, tornando a experiência literária íntima, intensa e crítica. Dessa forma, a obra evidencia o impacto das regras heteronormativas sobre a subjetividade e sugere como a vigilância social transforma o corpo em objeto de controle, censura e disciplina.

A cena materna adquire densidade porque reúne contato afetivo e recusa corporal no mesmo gesto. A leitura à luz de Kristeva (1982) não pretende equiparar qualquer desaprovação estética à abjeção em sentido técnico; permite, mais precisamente, investigar como fronteiras de aceitabilidade são construídas por relações simbólicas. O efeito de violência não se limita ao conteúdo de uma fala: inscreve-se na memória do gesto, na organização da voz narrativa e na aprendizagem do olhar depreciativo.

Percebemos que na narrativa articulam-se linguagem, corpo e crítica social de maneira inseparável. A escrita subversiva e a tematização do corpo feminino violado não apenas gera repulsa, mas evidenciam como padrões normativos moldam, restringem e regulam a experiência feminina. Compreendemos, portanto, que a aversão que a obra provoca, é, assim, ao mesmo tempo tensionada pelo aspecto psicológico, estético e político. É uma reação à tentativa de domesticação da voz, do espaço e do tempo da mulher na sociedade.

Nesse fluxo narrativo, a mulher recebe uma voz atravessada pela forma como seu corpo é socialmente percebido e avaliado: celulites, corpos “avantajados”, cicatrizes e estrias tornam-se marcas constantemente observadas, julgadas e significadas. A narrativa evidencia, assim, como o olhar social transforma características corporais em signos de inadequação, expondo mecanismos de vigilância e controle sobre o feminino. Diante disso, emerge uma questão central: o que, afinal, provoca o nojo, o corpo em si ou os discursos culturais que historicamente o associam à repulsa, ao excesso e à imperfeição? A pergunta não aparece de modo inocente. Ela fricciona a superfície do texto e conduz o leitor a perceber como a linguagem social que nomeia o corpo feminino é também uma linguagem de desqualificação.

A perspectiva de Kristeva (1982) oferece uma chave para compreender a abjeção como experiência de fronteira e expulsão simbólica. Aplicada à narrativa, essa noção não equivale a afirmar que todo nojo possui uma única origem social, mas permite investigar como determinados traços corporais são convertidos em sinais de impureza ou inadequação. A reação da mãe e a rejeição que a filha lhe devolve indicam que a aversão pode atravessar vínculos afetivos, perpetuando um regime de vigilância que se apresenta, paradoxalmente, como cuidado.

O gesto de esconder a testa antes do beijo é exemplar porque condensa proximidade física e recusa. A cena não exige a presença de um agressor externo: a censura é comunicada no espaço doméstico, por meio de uma ação pequena e reiterável. A literatura evidencia, assim, que o aprendizado do corpo considerado inadequado pode ocorrer nas relações mais íntimas, adquirindo uma intensidade afetiva que ultrapassa a simples enunciação de uma regra.

7. ENTRE ADEQUAÇÃO E RESISTÊNCIA: MEMÓRIA CORPORAL E MERCADO ESTÉTICO

O relato memorialístico, narrado em primeira pessoa, reconstrói a infância como espaço de origem da rejeição corporal, marcada pelo olhar materno e pela internalização da vergonha. Inicia-se com a reação da mãe ao perceber as estrias no corpo da filha, marcando o início de um processo de constituição da subjetividade da criança, pois estabelece uma relação de significação do corpo mediada pelo olhar do outro, “era criança e não tinha a real noção do que era aquilo claro que a cara de nojo que a minha mãe fez já deu para eu ter um pouquinho” (Carbonieri, 2020, p.41-42).

O incômodo provocado pela leitura, portanto, deixa de ser apenas formal e passa a suscitar uma reflexão crítica sobre a naturalização da violência cotidiana nas relações familiares e sociais. A expansão desses fluxos narrativos evidencia-se, por exemplo, no relato da narradora sobre o surgimento das estrias. Nesse episódio, a repulsa manifesta-se inicialmente como uma reação individual da mãe, mas rapidamente se transforma em um mecanismo de disciplina social internalizado pela própria narradora: “a cara de nojo que a minha mãe fez já deu para eu ter um pouquinho” (Carbonieri, 2020, p. 41-42). Tal passagem revela como determinados padrões e julgamentos são assimilados e reproduzidos pelos sujeitos, perpetuando formas sutis de violência simbólica.

O conto expande o sentido do nojo para além da dimensão física ou moral, transformando-o em categoria crítica. As estrias, descritas como “uma verdadeira estampa de tigre” (Carbonieri, 2020, p.41-42), tornam-se espaço de conflito entre a experiência subjetiva e as exigências sociais de perfeição. Divanize Carbonieri não apenas relata essas marcas corporais, mas as centraliza, obrigando o leitor a confrontar aquilo que a sociedade normalmente busca invisibilizar. A subversão se manifesta, portanto, tanto na linguagem quanto na representação do corpo e da subjetividade feminina, revelando como os fluxos narrativos do conto irradiam-se para múltiplas instâncias do cotidiano, conectando experiências individuais e coletivas de controle, julgamento e resistência.

Destarte, a noção de leitor ativo permite compreender como a narrativa pressupõe uma participação efetiva na produção dos sentidos (Iser, 1999). O texto não oferece uma explicação fechada sobre a origem das estrias nem resolve o sofrimento da personagem em termos causais ou médicos. Ao contrário, apresenta uma sequência de hipóteses frustradas, hereditariedade, variação de peso, gravidez e tratamentos estéticos, que mantém em aberto a razão do fenômeno e desloca o foco para seus efeitos sociais e subjetivos. Essa combinação de sentidos exige que o leitor ultrapasse a dimensão individual do relato e perceba como a dor da narradora é atravessada por discursos familiares, médicos, estéticos e culturais que classificam o corpo feminino como objeto permanente de correção.

A reação materna, marcada pelo grito e pela expressão de nojo, inaugura uma percepção negativa do próprio corpo ainda na infância, demonstrando como a rejeição social é absorvida e reproduzida nas relações familiares. Ao longo do relato, a personagem evidencia a internalização desse olhar disciplinador ao descrever as tentativas frustradas de eliminar as marcas do corpo: “laser microagulhamento (...) lixamento creme óleo de rosa mosqueta (...) mas nada adiantou” (Carbonieri, 2020, p.41-42). A enumeração contínua dos tratamentos, construída sem pausas, intensifica a sensação de exaustão e desespero, além de revelar a pressão social pela adequação estética. A narrativa expõe, assim, uma subjetividade atravessada pela violência simbólica, em que o corpo feminino é constantemente monitorado e corrigido segundo padrões normativos de beleza.

Ao mobilizar critérios biomédicos e senso comum, como hereditariedade, gravidez e oscilações de peso, a jovem busca uma causa que torne suas marcas corporais compreensíveis e aceitáveis. A ausência dessa explicação acentua o estranhamento em relação ao próprio corpo e aprofunda o sofrimento, deslocando o problema para o plano individual e reforçando a percepção de anormalidade e exclusão. O insucesso, no entanto, desses procedimentos intensifica a frustração, deslocando o problema do plano físico para o plano identitário, levando a jovem a compreender-se como um produto que apresenta falha ou defeituoso.

O sofrimento da jovem não resulta de um único fator, porém, pela combinação de imposições sociais, julgamentos familiares, memórias emocionais negativas e percepção de que seu corpo não se adequa a padrões normativos. Esses elementos constroem uma subjetividade marcada pelo isolamento, pela sensação de inadequação e pela limitação das possibilidades de existência, evidenciando como a experiência do corpo e a significação social das marcas corporais moldam profundamente a identidade do sujeito, “gastei muito dinheiro e agora só vejo saída no suicidio mesmo” (Carbonieri, 2020, p. 41-42).

A sucessão de tratamentos estéticos explicita a articulação entre censura corporal e mercado. A busca por correção não deve ser automaticamente interpretada como resistência emancipatória: em parte, pode representar a internalização da exigência de adequação. A dimensão resistente emerge mais claramente na construção literária que torna visível a contradição entre promessas de solução e persistência do sofrimento. A crítica, portanto, situa-se na enunciação e no efeito interpretativo do relato, não necessariamente nas escolhas da personagem.

A sequência de tratamentos revela uma passagem importante entre censura exterior e autovigilância. A enumeração, intensificada pela baixa segmentação sintática, figura a repetição de tentativas de adequação e a impossibilidade de alcançar um ideal estável. A dimensão crítica não reside em condenar individualmente a procura de procedimentos estéticos, mas em tornar visível a trama discursiva que transforma diferenças corporais em defeitos a corrigir. Desse modo, o mercado estético comparece na leitura como desdobramento possível de uma norma interiorizada, e não como explicação única do sofrimento representado.

A sequência nominal de procedimentos estéticos, pouco segmentada por sinais gráficos, intensifica a percepção de acúmulo e urgência. Nesse caso, o recurso formal permite acompanhar o deslocamento da censura externa para a autovigilância: o corpo que foi nomeado como inadequado passa a ser administrado como problema individual. A narrativa torna visível a passagem do julgamento familiar para a lógica de consumo, sem atribuir à procura de tratamentos uma autonomia que o episódio não comprova.

8. RESISTÊNCIA DISCURSIVA E RECEPÇÃO: OS SENTIDOS DO NOJO

Nessa concepção, o leitor é convocado a reconhecer o corpo feminino como espaço de inscrição de múltiplos discursos, cuja compreensão exige atenção à articulação complexa de vozes que o constituem. Assim, ao abordar o papel do leitor na produção de sentido, fundamentamo-nos na perspectiva da estética da recepção, que o concebe não como mero receptor inerte, mas como participante ativo no processo interpretativo da obra literária. Iser (1999), nesse contexto argumenta que o texto literário é estruturado com necessidade de articulação, denominadas “indeterminâncias”, que exigem do leitor a sua ativação, mobilizando experiências individuais, expectativas preexistentes e repertórios culturais. Assim, a leitura não se limita à decodificação do texto; configura-se como um processo interativo em que a interpretação se constrói na relação entre aquilo que o texto apresenta e as conexões que o leitor estabelece entre seus diferentes elementos e perspectivas.

A intensificação expressiva configura-se como um procedimento estético e político, na medida em que amplia o impacto da leitura, tensiona expectativas normativas e restitui ao texto sua potência crítica. Nesse processo, a obra evidencia que a resistência no campo literário não se limita à tematização da opressão, mas manifesta-se também na subversão da linguagem, utilizada como estratégia de desestabilização dos discursos e sentidos que historicamente sustentam formas de controle e violência simbólica.

Outro aspecto relevante diz respeito ao questionamento das normas sociais que atravessam a constituição dos sujeitos. Se Joyce e Woolf evidenciam os impactos das convenções sociais, morais e de gênero sobre a vida interior das personagens, Nojo atualiza essa problemática ao expor como padrões contemporâneos de feminilidade, beleza e comportamento são internalizados pelas mulheres e passam a operar no âmbito da própria consciência. Dessa forma, a obra de Carbonieri dialoga com a tradição modernista ao privilegiar a interioridade como elemento estruturante da narrativa, ao mesmo tempo em que direciona essa herança estética para a problematização das experiências femininas e dos mecanismos de controle que incidem sobre o corpo e a subjetividade das mulheres.

Nesse contexto, a teoria da recepção contribui para compreender essa dinâmica ao corroborar que a interpretação literária não é fixa nem universal, mas construída na interação entre texto e leitor, sendo profundamente influenciada pelo horizonte de expectativas que cada sujeito mobiliza no ato da leitura. Conforme propõe Jauss (1994), os sentidos da obra emergem dessa relação entre experiência estética e repertório sociocultural do leitor. Assim, a recepção do texto direciona sua compreensão e ativa reflexões que podem variar significativamente, tornando a leitura um espaço de confronto, reconhecimento e ressignificação das experiências sociais representadas na narrativa.

O leitor é conduzido sem alívio, atravessando o pensamento da personagem em tempo quase real, sentindo-se simultaneamente participante e confrontado pelo que lê. Essa torrencialidade constitui uma força provocativa, pois o leitor é arrebatado, impelido a acompanhar pensamentos e julgamentos carregados de tensão social e emocional. Cada frase, cada escolha lexical carregada de crítica e julgamento, intensifica o estranhamento e a imersão, transformando a leitura em experiência sensorial e intelectual simultânea.

Em Nojo, essa participação torna-se decisiva, já que o corpo é constantemente nomeado, medido e depreciado. O corpo marcado pelas estrias funciona como espaço de tensão entre imposições sociais e resistência subjetiva. A reação inicial da genitora, carregada de aversão, naturalizam hierarquias corporais, associando marcas físicas à inadequação. Essa experiência é internalizada e constitui memória discursiva que molda a percepção da jovem sobre si mesma.

A partir dessa internalização, observa-se a constituição da subjetividade diante de normas de beleza, evidenciando o que Bourdieu (1989) entende como reprodução de distinções sociais e capital simbólico.

A articulação entre ação e discurso evidencia que a resistência não é apenas uma reação física ou estética, mas uma operação discursiva que desafia normas e provoca reflexão no outro, expandindo o efeito da aversão para além do corpo individual e tornando-o objeto de análise social e ética. A experiência de leitura vai além do prazer estético, estimula a participação crítica em que o leitor percebe articulações entre humor ácido, repulsa e denúncia social. Carbonieri explora a performance textual para gerar reações simultâneas: sedução da linguagem e desconforto diante da pressão social sobre os corpos.

Nesse contexto, a narrativa não apenas evidencia os efeitos psicológicos da hierarquia estética, como um instrumento de análise social que permite compreender a interseção entre corpo, identidade e princípios culturais, e incentiva o leitor a problematizar as estruturas de poder que regulam a experiência feminina. A obra articula linguagem e recepção para projetar uma visão crítica sobre gênero e subalternização. Sua força reside na capacidade de deslocar sentidos e instaurar múltiplas vozes no enunciado. A obra expõe os padrões de beleza, bem como a pressão silenciosa de um sistema que ensina a mulher a se ver a partir do defeito, submetendo sua imagem ao tribunal do olhar alheio.

Dessa forma a narrativa não se restringe à representação de personagens, mas torna legível um sistema de valores que atravessa a subjetividade feminina e se reproduz em diferentes esferas da vida. Por meio de uma escrita marcada por escolhas lexicais carregadas de ironia, ritmo acelerado e fluxo de consciência fragmentado, Carbonieri articula múltiplas vozes que coexistem no texto, ora se tensionando, ora se sobrepondo, o que confere à narrativa um efeito de heterogeneidade discursiva.

Esse procedimento estético possibilita que experiências íntimas se conectem com questões coletivas, instaurando um espaço discursivo em que o privado se revela profundamente político e a denúncia se inscreve na própria tessitura literária. A linguagem, nesse processo, além de comunicar a violência, a encena, a repete e a expõe em sua crueza, fazendo com que o leitor reconheça sua dimensão estrutural. Para tanto, a narrativa transita entre o registro popular, a crítica mordaz e imagens de repulsa ou desejo, desnudando os mecanismos de controle que incidem sobre o corpo feminino, convertendo-o em superfície de avaliação social.

Nesse movimento, a autoria não se limita à invenção do enredo ou das personagens, mas se realiza na própria inflexão da linguagem, que é tensionada e deslocada para tornar sensíveis as normas estéticas e simbólicas que sustentam a opressão. Em Nojo, o enredo oferece fruição pela inventividade formal, ao mesmo tempo em que provoca o leitor a reconhecer os processos de naturalização do olhar disciplinador que recai sobre o corpo feminino. É nessa articulação entre prazer de leitura e desconforto crítico que a escrita de Carbonieri se impõe com maior intensidade ao reverberar como experiência sensorial e reflexiva.

Consideramos que, a partir da tensão entre prazer e desconforto, fascínio e vigilância, a narrativa de Carbonieri evidencia como esses regimes de valoração incidem sobre o corpo feminino, ao mesmo tempo em que os expõe e desestabiliza. A leitura, nesse sentido, não se apresenta como neutra, pois mobiliza percepção crítica e experiência sensorial. O que se manifesta no relato, como o repulsivo direcionado ao próprio corpo e legitimado por discursos médicos e sociais, funciona como denúncia das normas que hierarquizam e controlam corpos femininos. A linguagem seduz, perturba e convoca o leitor, produzindo uma experiência de deleite discursivo que não se dissocia da crítica, transformando a leitura em um espaço de confronto com as estruturas que regulam aparência, gênero e existência.

A teoria do efeito estético de Iser (1999) permite observar que o texto oferece estruturas de orientação e indeterminação que demandam atividade interpretativa. Em Nojo, a supressão de pausas previsíveis e a justaposição de enunciados exigem que o leitor reconstrua posições discursivas e perceba o alcance social dos julgamentos. Já a contribuição de Jauss (1994) situa essa experiência em horizontes de expectativa historicamente constituídos: a recepção pode variar conforme repertórios, experiências e posições sociais.

A referência à recepção delimita uma possibilidade textual, não um efeito comprovado em leitores concretos. Iser (1999) ajuda a compreender a atividade de reconstrução de vozes e de articulação de indeterminações, ao passo que Jauss (1994) permite reconhecer a historicidade dos horizontes de expectativa. A experimentação de uma leitura social consiste, portanto, na possibilidade de deslocar a atenção do traço corporal julgado para as condições discursivas que autorizam o julgamento. Essa hipótese interpretativa preserva a autonomia estética da obra e evita converter o artigo em relato empírico de recepção.

Nessa perspectiva, a expansão do nojo designa um duplo deslocamento. No plano da narrativa, a aversão passa de um traço físico para a totalidade da pessoa e para as relações que a constituem; no plano da leitura, a repulsa deixa de ser sensação privada e se torna problema interpretativo acerca dos mecanismos que definem o aceitável. A forma literária não elimina a violência que representa, mas impede que ela permaneça inteiramente naturalizada.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A investigação demonstrou que a oposição entre norma e transgressão constitui um princípio de organização da leitura de Carbonieri. No plano da materialidade linguística, a oralidade representada, a concordância variável, a pontuação rarefeita e a justaposição de enunciados tensionam expectativas da escrita convencional. No plano das relações sociais, os juízos sobre aparência, idade e feminilidade reiteram prescrições de conduta e distribuem desigualmente a possibilidade de aparecer, falar e ser reconhecida. A relação entre esses planos, e não a mera presença de formas não padronizadas, fundamenta a força crítica da narrativa.

A análise dos episódios de exposição pública, rejeição materna e estrias mostrou que a violência simbólica se reproduz sobretudo em práticas verbais ordinárias: conselhos, comparações, comentários sobre o corpo e promessas de correção. A oralidade não deve ser confundida com deficiência linguística; trata-se de representação estética de usos sociais da língua, mobilizada para tornar audível a naturalização dos julgamentos. A resistência discursiva, por sua vez, não corresponde necessariamente às ações das personagens, muitas vezes orientadas pela busca de adequação, mas ao trabalho da composição que expõe as contradições desses discursos.

Nesse movimento, a expansão do nojo designa a passagem da aversão dirigida a traços corporais para a problematização das condições discursivas de sua produção. Ao reconstruir posições enunciativas e reconhecer valores contraditórios nas falas, o leitor participa da desnaturalização daquilo que se apresenta como opinião espontânea. A obra aproxima, assim, experimentação formal e crítica das hierarquias de gênero sem pressupor que toda transgressão linguística produza, automaticamente, resistência política.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CARBONIERI, Divanize. Nojo. Cuiabá: Carlini & Caniato Editorial, 2020.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. v. 2. Tradução de Johannes Kretschmer. São Paulo: Editora 34, 1999.

JAUSS, Hans Robert. A história da literatura como provocação à teoria literária. São Paulo: Ática, 1994.

KRISTEVA, Julia. Powers of horror: an essay on abjection. Tradução de Leon S. Roudiez. New York: Columbia University Press, 1982.

WALKER, Marli. Controle e dominação dos corpos femininos em Nojo, de Divanize Carbonieri. Ruído Manifesto, 23 abr. 2021. Disponível em: https://ruidomanifesto.org/controle-e-dominacao-dos-corpos-femininos-em-nojo-de-divanize-carbonieri-por-marli-walker/. Acesso em: 22 out. 2026.


1 Doutor em Estudos de Linguagem, professor de Língua Portuguesa da Rede Estatual de Educação, SEDUC. Pesquisador associado à UFMT- PPGEL, Cuiabá-MT, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5056-6964