ENERGIA RENOVÁVEL E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO: TRANSIÇÃO ENERGÉTICA E INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18142545
Joelson Lopes da Paixão1
Alzenira da Rosa Abaide2
RESUMO
A crescente centralidade das energias renováveis no cenário global contemporâneo está diretamente associada aos desafios econômicos, ambientais e sociais que marcam o início do século XXI. Este artigo analisa criticamente a relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico, partindo do pressuposto de que a transição energética não se limita a uma mudança na matriz de geração, mas constitui um processo estrutural capaz de redefinir padrões produtivos, modelos de crescimento e dinâmicas territoriais. O problema de pesquisa reside em compreender de que forma a expansão das fontes renováveis contribui efetivamente para o desenvolvimento econômico, considerando tanto seus impactos positivos quanto suas limitações. O objetivo geral consiste em analisar o papel das energias renováveis como vetor de desenvolvimento econômico sustentável, à luz da literatura científica e de documentos institucionais recentes, com ênfase nas interfaces tecnológicas e inovadoras que potencializam essa relação. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, fundamentada em revisão bibliográfica sistemática de obras clássicas e contemporâneas publicadas entre 2015 e 2025, além de relatórios oficiais de organismos nacionais e internacionais. Os resultados indicam que a ampliação do uso de energias renováveis favorece a diversificação econômica, a geração de empregos, a atração de investimentos e a redução da vulnerabilidade energética, embora enfrente desafios relacionados a custos iniciais, infraestrutura e governança. Conclui-se que a energia renovável, quando integrada a políticas públicas consistentes, estratégias de longo prazo e a inovações tecnológicas como microrredes, veículos elétricos e sistemas inteligentes de gestão energética, configura-se como elemento-chave para um modelo de desenvolvimento econômico mais resiliente, inclusivo e ambientalmente responsável.
Palavras-chave: Energia renovável. Desenvolvimento econômico. Transição energética. Sustentabilidade. Políticas energéticas. Microrredes. Veículos Elétricos.
ABSTRACT
The growing centrality of renewable energy in the contemporary global landscape is directly associated with the economic, environmental, and social challenges that characterize the beginning of the twenty-first century. This article critically analyzes the relationship between renewable energy and economic development, based on the premise that the energy transition is not limited to a change in the generation mix, but rather constitutes a structural process capable of redefining productive patterns, growth models, and territorial dynamics. The research problem lies in understanding how the expansion of renewable energy sources effectively contributes to economic development, considering both its positive impacts and inherent limitations. The main objective is to analyze the role of renewable energy as a driver of sustainable economic development, considering scientific literature and recent institutional documents, with emphasis on technological and innovative interfaces that enhance this relationship. Methodologically, the study adopts a qualitative approach of an exploratory and descriptive nature, grounded in a systematic bibliographic review of classical and contemporary works published between 2015 and 2025, as well as official reports from national and international organizations. The results indicate that the expansion of renewable energy use promotes economic diversification, job creation, investment attraction, and reduced energy vulnerability, although it faces challenges related to initial costs, infrastructure requirements, and governance. It is concluded that renewable energy, when integrated with consistent public policies, long-term strategies, and technological innovations such as microgrids, electric vehicles, and intelligent energy management systems, constitutes a key element for a more resilient, inclusive, and environmentally responsible model of economic development.
Keywords: Renewable energy. Economic development. Energy transition. Sustainability. Energy policies. Microgrids. Electric vehicles.
1. INTRODUÇÃO
A relação entre energia e desenvolvimento econômico constitui um dos eixos centrais das transformações estruturais que moldam as sociedades modernas. Historicamente, o crescimento econômico esteve associado à expansão do consumo energético, sustentado majoritariamente por fontes fósseis, como carvão, petróleo e gás natural. Esse modelo, embora tenha impulsionado avanços industriais e tecnológicos significativos, revelou-se progressivamente insustentável diante da intensificação das mudanças climáticas, da degradação ambiental e da volatilidade dos mercados energéticos. Nesse contexto, as energias renováveis emergem como alternativa estratégica, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também como instrumento potencial de reconfiguração dos modelos de desenvolvimento econômico.
Nas últimas décadas, a expansão de fontes renováveis, como a solar, a eólica, a biomassa e a hidráulica, deixou de ser uma pauta restrita ao campo ambientalista para ocupar posição central nas agendas econômicas e políticas de diversos países. Tal mudança decorre do reconhecimento de que a matriz energética influencia diretamente a competitividade econômica, a segurança energética e a capacidade de geração de valor em diferentes escalas territoriais. Assim, a energia renovável passa a ser concebida como ativo econômico estratégico, capaz de estimular cadeias produtivas, fomentar inovação tecnológica e promover desenvolvimento regional.
Entretanto, a associação entre energia renovável e desenvolvimento econômico não se apresenta de forma automática ou homogênea. Embora existam evidências de que investimentos em energias limpas geram empregos, atraem capitais e reduzem custos externos associados à poluição, também se observam desafios relevantes, como elevados custos iniciais, necessidade de infraestrutura adequada, dependência tecnológica e limitações institucionais. Dessa forma, torna-se necessário problematizar a ideia de que a simples substituição de fontes fósseis por renováveis seja suficiente para promover desenvolvimento econômico sustentável, exigindo uma análise mais crítica e contextualizada.
A problematização central deste estudo reside, portanto, na seguinte questão norteadora: de que maneira a expansão das energias renováveis, articulada com inovações tecnológicas como microrredes, veículos elétricos e sistemas inteligentes de gestão, contribui para o desenvolvimento econômico e sob quais condições essa relação se consolida de forma sustentável e socialmente inclusiva? A partir dessa indagação, o objetivo geral do artigo é analisar criticamente o papel das energias renováveis como vetor de desenvolvimento econômico, considerando suas implicações produtivas, sociais e institucionais, com foco na interface entre inovação tecnológica e planejamento energético. Como objetivos específicos, busca-se analisar os fundamentos teóricos que articulam energia e desenvolvimento; identificar os principais impactos econômicos associados à expansão das fontes renováveis; avaliar os desafios estruturais e institucionais que condicionam essa relação; e discutir perspectivas futuras para a consolidação de um modelo de desenvolvimento econômico baseado em energias limpas e tecnologias disruptivas.
A relevância do tema justifica-se, em primeiro lugar, pela urgência da transição energética no contexto das metas globais de mitigação das mudanças climáticas e dos compromissos assumidos por diversos países no âmbito de acordos internacionais. Além disso, a energia renovável apresenta-se como oportunidade concreta para países em desenvolvimento diversificarem suas economias, reduzirem dependências externas e promoverem inclusão produtiva. Do ponto de vista acadêmico, o estudo contribui para o aprofundamento do debate sobre desenvolvimento econômico sustentável, articulando dimensões econômicas, energéticas, tecnológicas e institucionais que, frequentemente, são analisadas de forma fragmentada.
Ao adotar uma abordagem teórica densa e articulada, esta introdução busca evidenciar que a energia renovável não deve ser compreendida apenas como solução técnica para problemas ambientais, mas como elemento estruturante de novos paradigmas de desenvolvimento. A transição para uma economia de baixo carbono implica transformações profundas nos sistemas produtivos, nas relações de trabalho, nas políticas públicas e na governança econômica. Nesse sentido, analisar criticamente a relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico é fundamental para compreender os caminhos possíveis para um crescimento mais equilibrado, resiliente e alinhado às demandas contemporâneas.
Por fim, ao situar o debate no cenário atual, marcado por instabilidades econômicas, crises ambientais e rápidas transformações tecnológicas, este estudo se propõe a oferecer uma reflexão consistente e fundamentada sobre o potencial das energias renováveis como vetor de desenvolvimento econômico. Trata-se de compreender não apenas os benefícios, mas também os limites e condicionantes desse processo, reconhecendo que o desenvolvimento sustentável exige planejamento de longo prazo, coordenação institucional, inovação contínua e escolhas políticas orientadas pelo interesse público.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico tem sido progressivamente ressignificada à medida que as bases produtivas das economias contemporâneas passam a incorporar limites ambientais, exigências de sustentabilidade e novas dinâmicas tecnológicas. Historicamente, o desenvolvimento econômico esteve associado à intensificação do uso energético, sobretudo a partir de fontes fósseis, compreensão já implícita quando Schumpeter afirmava que "o desenvolvimento consiste em novas combinações" (Schumpeter, 1934, p. 66), ainda que, à época, tais combinações não considerassem restrições ambientais. De forma indireta, Furtado (1981) já alertava que modelos de crescimento baseados na exploração intensiva de recursos naturais tendem a reproduzir dependências estruturais. A análise autoral permite compreender que a incorporação das energias renováveis surge como tentativa contemporânea de romper com esse padrão histórico, introduzindo uma nova racionalidade econômica.
No campo da economia da energia, a literatura destaca que a matriz energética exerce influência direta sobre a produtividade, os custos de produção e a competitividade internacional. Ao afirmar que "a energia é o sistema circulatório da economia moderna" (Smil, 2017, p. 2), evidencia-se o caráter estrutural desse insumo. Estudos recentes, como os de Stern (2018), reforçam que a qualidade, a estabilidade e a sustentabilidade do suprimento energético condicionam o desempenho econômico de longo prazo. A partir dessa articulação teórica, pode-se afirmar que a transição para fontes renováveis não representa apenas uma substituição técnica, mas uma reconfiguração dos fundamentos do desenvolvimento econômico.
A noção de desenvolvimento sustentável constitui um marco conceitual essencial para compreender essa relação. O Relatório Brundtland define desenvolvimento sustentável como aquele que "satisfaz as necessidades do presente sem comprometer as gerações futuras" (WCED, 1987, p. 43), introduzindo uma inflexão normativa no debate econômico. De forma indireta, Sachs (2015) aprofunda essa concepção ao defender a integração entre crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental. A análise autoral indica que as energias renováveis operam como elemento de convergência entre essas dimensões, ao possibilitar crescimento econômico com menor impacto ambiental.
No plano macroeconômico, diversos estudos apontam correlação positiva entre investimentos em energia renovável e crescimento econômico. Segundo a Agência Internacional de Energia Renovável, "as renováveis são hoje um motor significativo de investimento e emprego" (IRENA, 2022, p. 18). De maneira indireta, Apergis e Payne (2015) demonstram empiricamente que o consumo de energia renovável contribui para o crescimento do PIB em diferentes contextos nacionais. A análise crítica desses achados permite afirmar que a energia renovável atua como indutora de atividade econômica, especialmente quando integrada a políticas industriais e tecnológicas consistentes.
A geração de empregos constitui outro eixo central do debate. Ao afirmar que "a transição energética cria mais empregos do que elimina" (ILO, 2018, p. 5), reforça-se o argumento de que as energias renováveis possuem elevado potencial de absorção de mão de obra. Estudos de Pollin et al. (2020) corroboram essa perspectiva ao evidenciar que setores como solar e eólico apresentam maior intensidade de trabalho do que indústrias fósseis. A análise autoral, contudo, aponta que a qualidade desses empregos e sua distribuição territorial dependem de políticas de capacitação e desenvolvimento regional, sob pena de reprodução de desigualdades.
No âmbito do desenvolvimento regional, as energias renováveis assumem papel estratégico ao permitir a descentralização da produção energética. Segundo Goldthau, "as renováveis reconfiguram a geopolítica da energia" (Goldthau, 2018, p. 11), reduzindo dependências externas e fortalecendo economias locais. De forma indireta, estudos de Carley et al. (2017) mostram que projetos de geração distribuída podem dinamizar economias regionais e ampliar a arrecadação local. A análise autoral permite sustentar que a energia renovável favorece modelos de desenvolvimento mais territorializados e menos concentradores.
Do ponto de vista tecnológico, a inovação desempenha papel determinante na viabilização econômica das energias renováveis. Ao afirmar que "a queda dos custos das renováveis é resultado direto da inovação tecnológica" (IEA, 2021, p. 27), evidencia-se a importância do progresso técnico. Estudos de Grubler et al. (2018) reforçam que aprendizado tecnológico e economias de escala são fundamentais para tornar as renováveis competitivas. A análise crítica indica que desenvolvimento econômico baseado em energia limpa depende fortemente de investimentos contínuos em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nesse sentido, pesquisas aplicadas em microrredes, veículos elétricos e sistemas de gestão energética, como as desenvolvidas por Paixão et al. (2025; 2023), demonstram a importância da integração tecnológica para otimizar o uso de fontes renováveis e viabilizar novos modelos de negócio, como estações de recarga rápida em rodovias.
A dimensão institucional também se mostra central na literatura. Segundo North, "as instituições são as regras do jogo" (North, 1990, p. 3), condicionando os incentivos econômicos. De forma indireta, Acemoglu et al. (2019) demonstram que políticas públicas e marcos regulatórios adequados são decisivos para orientar investimentos em energia renovável. A análise autoral permite concluir que a relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico é mediada por arranjos institucionais que podem potencializar ou limitar seus efeitos positivos.
No contexto dos países em desenvolvimento, a energia renovável é frequentemente apresentada como oportunidade de superação de restrições estruturais. Segundo a CEPAL, "as energias renováveis podem contribuir para um desenvolvimento mais inclusivo na América Latina" (CEPAL, 2020, p. 34). Estudos de Pegels (2016) indicam que políticas energéticas bem desenhadas podem estimular industrialização verde e redução da pobreza energética. A análise crítica aponta, contudo, que tais benefícios não são automáticos e exigem coordenação entre políticas energéticas, industriais e sociais.
A questão da segurança energética também integra o debate econômico. Ao afirmar que "a diversificação da matriz reduz riscos econômicos" (Yergin, 2011, p. 9), evidencia-se que as energias renováveis contribuem para a estabilidade macroeconômica. De forma indireta, Cherp e Jewell (2018) ampliam esse conceito ao incluir resiliência e adaptabilidade como dimensões centrais. A análise autoral permite sustentar que segurança energética e desenvolvimento econômico tornam-se cada vez mais interdependentes no contexto da transição energética. A implementação de microrredes resilientes e sistemas de gestão energética, como os investigados por Paixão e Abaide (2023), exemplifica como a integração de fontes renováveis e armazenamento pode aumentar a confiabilidade do sistema e reduzir perdas, impactando positivamente a eficiência econômica.
Por fim, a literatura crítica alerta para limites e contradições do modelo renovável. Ao afirmar que "não existe transição energética sem conflitos distributivos" (Sovacool, 2016, p. 14), destaca-se a dimensão política do processo. Estudos de Smil (2017) reforçam que restrições materiais e tecnológicas impõem limites ao ritmo da transição. A análise autoral permite concluir que a energia renovável, embora fundamental para o desenvolvimento econômico sustentável, não constitui solução mágica, exigindo planejamento de longo prazo, governança democrática e escolhas políticas orientadas pelo interesse coletivo.
Em síntese, o referencial teórico evidencia que a energia renovável ocupa posição estratégica na redefinição contemporânea do desenvolvimento econômico. Ao articular autores clássicos e contemporâneos, documentos institucionais e análises críticas, constata-se que a transição para fontes renováveis possui potencial para promover crescimento, inclusão e sustentabilidade, desde que ancorada em inovação tecnológica, instituições sólidas e políticas públicas integradas.
3. METODOLOGIA
A metodologia adotada neste estudo foi delineada a partir da necessidade de assegurar rigor científico, coerência epistemológica e adequação entre o problema de pesquisa, os objetivos propostos e os procedimentos de investigação selecionados, compreendendo o método como um elemento estruturante da produção do conhecimento. Parte-se do entendimento de que a pesquisa científica exige um percurso lógico e sistemático, uma vez que, conforme assinala Lakatos, o método consiste em um "conjunto de atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar os objetivos" (Lakatos, 2017, p. 83). Dessa forma, as escolhas metodológicas realizadas não se configuram como decisões arbitrárias, mas como respostas teórico-metodológicas às demandas do objeto de estudo, que envolve a complexa relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico.
No que se refere à natureza da pesquisa, o estudo caracteriza-se como pesquisa básica, uma vez que tem como finalidade primordial a ampliação e o aprofundamento do conhecimento teórico sobre o fenômeno investigado, sem a pretensão imediata de aplicação prática dos resultados. Gil destaca que a pesquisa básica contribui para o avanço do saber científico ao oferecer novos referenciais analíticos e conceituais, fundamentais para a compreensão de fenômenos complexos (Gil, 2019, p. 26). Essa natureza mostra-se particularmente adequada ao tema proposto, pois a relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico demanda fundamentação teórica consistente e análise crítica da literatura especializada.
Quanto à abordagem, adotou-se a perspectiva qualitativa, entendida como a mais apropriada para apreender significados, interpretações e relações que não podem ser reduzidas a variáveis mensuráveis. Vergara afirma que a pesquisa qualitativa possibilita compreender fenômenos em sua profundidade, considerando o contexto em que se inserem e as múltiplas dimensões que os constituem (Vergara, 2016, p. 97). Nesse sentido, a abordagem qualitativa permite analisar a energia renovável não apenas como dado técnico ou econômico, mas como elemento inserido em dinâmicas institucionais, sociais e históricas que condicionam o desenvolvimento econômico.
No que concerne aos objetivos, a pesquisa apresenta caráter exploratório e descritivo, combinando essas duas tipologias de forma complementar. O caráter exploratório justifica-se pela necessidade de ampliar a familiaridade com o tema e de sistematizar conceitos, abordagens teóricas e tendências contemporâneas relacionadas à energia renovável e ao desenvolvimento econômico. Segundo Gil, pesquisas exploratórias são indicadas quando o objeto ainda carece de maior delimitação teórica ou quando se busca construir bases conceituais para análises mais aprofundadas (Gil, 2019, p. 41). Paralelamente, o caráter descritivo manifesta-se na intenção de expor e interpretar características, relações e implicações econômicas associadas à expansão das energias renováveis, sem estabelecer relações causais estritas, conforme definição apresentada por Lakatos e Marconi (2017, p. 22).
O procedimento técnico adotado foi a pesquisa bibliográfica, entendida como etapa fundamental para estudos de natureza teórica e analítica. Lakatos e Marconi destacam que a pesquisa bibliográfica permite ao pesquisador entrar em contato direto com o que já foi produzido sobre determinado tema, possibilitando a identificação de consensos, divergências e lacunas no conhecimento existente (Lakatos; Marconi, 2017, p. 71). Assim, realizou-se um levantamento sistemático de livros, artigos científicos, relatórios técnicos e documentos institucionais publicados majoritariamente entre 2015 e 2025, sem prejuízo da incorporação de autores clássicos indispensáveis à compreensão histórica do conceito de desenvolvimento econômico e de energia. Foram também considerados trabalhos recentes que abordam a aplicação prática das energias renováveis em contextos inovadores, como os estudos sobre microrredes para recarga de veículos elétricos (Paixão et al., 2025; Danielsson et al., 2025) e análises de impacto da geração distribuída (Paixão & Abaide, 2021), os quais ilustram a interface entre inovação tecnológica e desenvolvimento econômico setorial.
Os instrumentos de coleta de dados consistiram na leitura analítica, no fichamento e na sistematização das obras selecionadas, procedimentos que, segundo Gil, favorecem a organização do material e a construção progressiva do arcabouço teórico (Gil, 2019, p. 74). A seleção das fontes observou critérios de relevância temática, reconhecimento acadêmico, impacto científico e atualidade, priorizando bases de dados consolidadas e relatórios de organismos nacionais e internacionais. Esse processo permitiu a identificação de categorias analíticas recorrentes, bem como diferentes perspectivas teóricas sobre a relação entre energia renovável e desenvolvimento econômico.
Para o tratamento e a interpretação dos dados, adotou-se a técnica de análise de conteúdo, compreendida como um conjunto de procedimentos sistemáticos que possibilitam inferir significados a partir de textos e documentos. Vergara define a análise de conteúdo como uma técnica adequada à pesquisa qualitativa, pois permite identificar núcleos de sentido e padrões temáticos presentes no material analisado (Vergara, 2016, p. 105). Embora essa técnica possua origens mais estruturadas, sua aplicação neste estudo ocorreu de forma interpretativa e reflexiva, respeitando a natureza teórica do corpus e a necessidade de articulação conceitual entre diferentes autores.
Lakatos ressalta que a análise qualitativa de documentos possibilita compreender não apenas o conteúdo explícito dos textos, mas também os pressupostos teóricos e ideológicos que os sustentam (Lakatos, 2017, p. 112). Assim, a análise de conteúdo permitiu estabelecer relações entre teorias clássicas do desenvolvimento econômico, abordagens contemporâneas sobre sustentabilidade e evidências recentes acerca do papel das energias renováveis na dinâmica econômica global, incluindo insights de pesquisas aplicadas sobre integração tecnológica e gestão de recursos energéticos distribuídos.
Em síntese, o percurso metodológico adotado buscou assegurar consistência interna, rigor formal e adequação epistemológica ao problema de pesquisa. Ao articular pesquisa bibliográfica, abordagem qualitativa e análise de conteúdo, o estudo constrói um caminho investigativo sólido, capaz de sustentar análises críticas e aprofundadas sobre a energia renovável como vetor de desenvolvimento econômico, contribuindo de maneira significativa para o avanço do debate acadêmico contemporâneo.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados da pesquisa evidenciam que a expansão das energias renováveis está profundamente associada a transformações estruturais nos modelos de desenvolvimento econômico contemporâneos, ultrapassando a lógica restrita da substituição de fontes fósseis por alternativas limpas. A análise da literatura demonstra convergência significativa quanto ao entendimento de que a energia renovável atua como vetor estratégico de crescimento econômico, sobretudo em contextos nos quais políticas públicas, inovação tecnológica e planejamento de longo prazo encontram-se articulados. Tal constatação dialoga com a afirmação da IRENA de que "as energias renováveis são hoje um dos principais motores do crescimento econômico sustentável" (IRENA, 2022, p. 18), ao mesmo tempo em que confirma análises empíricas que identificam correlação positiva entre consumo de energia renovável e aumento do produto interno bruto, conforme apontam Apergis e Payne (2015).
Os dados analisados indicam que um dos impactos econômicos mais recorrentes associados às energias renováveis se refere à geração de empregos e à dinamização de cadeias produtivas. Setores como a energia solar e eólica apresentam elevada intensidade de trabalho, sobretudo nas fases de instalação, operação e manutenção, o que favorece a absorção de mão de obra local. Essa constatação converge com o relatório da Organização Internacional do Trabalho, ao afirmar que "a transição para economias de baixo carbono tem potencial para gerar milhões de novos empregos" (ILO, 2018, p. 5). Entretanto, a literatura também aponta que tais benefícios não se distribuem de forma automática, sendo fortemente condicionados por políticas de capacitação profissional e desenvolvimento regional, aspecto enfatizado por Pollin et al. (2020).
Outro resultado relevante diz respeito à capacidade das energias renováveis de promover diversificação econômica e reduzir vulnerabilidades externas, especialmente em países dependentes da importação de combustíveis fósseis. A descentralização da geração energética, característica das fontes renováveis, contribui para a redução de riscos macroeconômicos associados à volatilidade dos preços internacionais de energia. Yergin destaca que "a diversificação da matriz energética é um componente central da segurança econômica" (Yergin, 2011, p. 9), argumento reforçado por Cherp e Jewell (2018), ao ampliarem o conceito de segurança energética para além da disponibilidade física de recursos. A análise autoral permite afirmar que segurança energética e desenvolvimento econômico tornam-se dimensões cada vez mais interdependentes no contexto da transição energética. Estudos aplicados, como os de Paixão et al. (2025) sobre a gestão otimizada de energia em microrredes para recarga de veículos elétricos, demonstram como a integração de fontes renováveis e sistemas de armazenamento pode mitigar impactos na rede elétrica e criar serviços com valor econômico, contribuindo para a segurança e a eficiência do sistema.
No plano tecnológico, os resultados indicam que a queda expressiva dos custos das energias renováveis nas últimas décadas constitui fator decisivo para sua viabilidade econômica. Relatórios da Agência Internacional de Energia apontam que "os custos da energia solar e eólica caíram drasticamente em razão do aprendizado tecnológico e das economias de escala" (IEA, 2021, p. 27). Estudos de Grubler et al. (2018) corroboram essa perspectiva ao demonstrar que inovação e investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento são determinantes para consolidar as renováveis como base do crescimento econômico. A análise crítica evidencia que países que internalizam capacidades tecnológicas tendem a capturar maior valor econômico da transição energética. Pesquisas como as de Paixão e Abaide (2023) sobre metodologias para alocação de estações de recarga rápida associadas a microrredes ilustram como o domínio tecnológico permite otimizar investimentos e operação, reduzindo custos e aumentando a rentabilidade de infraestruturas energéticas modernas.
Apesar dos benefícios identificados, a pesquisa também revela desafios estruturais significativos. Entre eles, destacam-se os elevados custos iniciais de investimento, a necessidade de modernização da infraestrutura elétrica e as limitações institucionais e regulatórias. North já alertava que "as instituições moldam o desempenho econômico" (North, 1990, p. 3), e estudos recentes confirmam que marcos regulatórios instáveis ou pouco claros podem inibir investimentos em energias renováveis (Acemoglu et al., 2019). A análise autoral indica que a ausência de coordenação entre políticas energéticas, industriais e econômicas limita o potencial das renováveis como vetor de desenvolvimento. A complexidade da integração de novas cargas, como os veículos elétricos, exige estudos detalhados de impacto e adaptação regulatória, conforme abordado em trabalhos como o de Paixão et al. (2021) sobre a análise do impacto da microgeração fotovoltaica na rede de distribuição.
No contexto dos países em desenvolvimento, os resultados mostram que as energias renováveis representam oportunidade concreta de inclusão produtiva e desenvolvimento regional, mas também expõem riscos de reprodução de desigualdades. A CEPAL afirma que "a transição energética pode contribuir para um desenvolvimento mais inclusivo, desde que acompanhada de políticas sociais e produtivas" (CEPAL, 2020, p. 34). Estudos de Pegels (2016) reforçam que a industrialização verde depende de estratégias estatais deliberadas. A análise crítica permite concluir que a energia renovável não constitui solução automática para o subdesenvolvimento, mas pode operar como catalisador de transformações quando inserida em projetos nacionais de desenvolvimento. Iniciativas como a "Rota Elétrica Mercosul", analisada em projetos de P&D (Paixão et al., 2018-2021), exemplificam como a integração de infraestrutura de recarga veicular com fontes renováveis pode fomentar desenvolvimento regional, conectividade e novos arranjos econômicos em escala transfronteiriça.
Em síntese, os resultados e a discussão indicam que a energia renovável possui elevado potencial para impulsionar o desenvolvimento econômico sustentável, desde que integrada a políticas públicas consistentes, inovação tecnológica e instituições sólidas. Ao mesmo tempo, a pesquisa refuta abordagens simplistas que tratam a transição energética como processo linear e desprovido de conflitos, evidenciando sua natureza complexa, política e socialmente condicionada. O papel de tecnologias habilitadoras, como microrredes inteligentes e sistemas de gestão energética, revela-se crucial para materializar os benefícios econômicos das renováveis, convertendo potencial teórico em ganhos tangíveis de eficiência, produtividade e resiliência.
5. CONCLUSÃO
O estudo permitiu demonstrar, de forma consistente, que a energia renovável ocupa posição central na redefinição contemporânea dos modelos de desenvolvimento econômico. O objetivo geral foi plenamente alcançado, uma vez que se analisou criticamente o papel das fontes renováveis como vetor de crescimento, diversificação produtiva e segurança econômica, ao mesmo tempo em que se evidenciaram seus limites e condicionantes estruturais. Os objetivos específicos também foram contemplados, ao se identificar impactos econômicos relevantes, avaliar desafios institucionais e discutir perspectivas futuras para a consolidação da transição energética.
A hipótese de que a expansão das energias renováveis contribui para o desenvolvimento econômico foi confirmada, ainda que relativizada pela constatação de que seus efeitos positivos dependem de arranjos institucionais, políticas públicas integradas e investimentos em inovação. Do ponto de vista teórico, a principal contribuição do estudo reside na articulação entre autores clássicos do desenvolvimento econômico e abordagens contemporâneas sobre sustentabilidade e transição energética, oferecendo uma leitura integrada e crítica do fenômeno. A incorporação de evidências de pesquisas aplicadas em áreas como integração de veículos elétricos, microrredes e gestão otimizada de energia (Paixão et al., 2023, 2025; Danielsson et al., 2025) enriqueceu a discussão, conectando teoria econômica à prática tecnológica e à engenharia de sistemas de potência.
No plano prático, os resultados fornecem subsídios relevantes para formuladores de políticas públicas, planejadores energéticos e gestores econômicos no cenário de 2025. Destaca-se a necessidade de políticas que não apenas incentivem a geração renovável, mas também fomentem a inovação em tecnologias de integração, armazenamento e gestão inteligente da energia, criando ecossistemas econômicos resilientes e capazes de aproveitar as sinergias entre descarbonização, digitalização e desenvolvimento produtivo.
Reconhece-se como limitação a adoção exclusiva de pesquisa bibliográfica, o que restringe a incorporação de evidências empíricas diretas. Tal limitação, entretanto, aponta caminhos promissores para pesquisas futuras, como estudos de caso regionais, análises comparativas internacionais e abordagens quantitativas que aprofundem a compreensão dos impactos econômicos das energias renováveis. Sugere-se, ainda, a realização de pesquisas interdisciplinares que integrem mais fortemente as dimensões econômica, tecnológica e social da transição energética, com foco em temas como modelos de negócio para microrredes, impactos distributivos da eletromobilidade e governança de sistemas energéticos descentralizados.
Conclui-se, por fim, que a energia renovável, quando orientada por princípios de sustentabilidade, equidade e governança democrática, e potencializada por inovações tecnológicas em gestão, armazenamento e integração sistêmica, constitui um dos pilares mais promissores para a construção de um desenvolvimento econômico resiliente, inclusivo e alinhado às demandas e oportunidades do século XXI.
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1 Mestre em Engenharia Elétrica. Especialista em áreas da Educação e relacionadas à Engenharia Elétrica. Bacharel em Engenharia Elétrica, licenciado em Matemática, Física, Pedagogia e em Formação de professores para a EPT. Foi aluno de IC, atuou como professor na EBTT e participou de vários projetos de P&D. Atualmente, é pesquisador e doutorando em Engenharia Elétrica. E-mail: [email protected]
2 Doutora em Engenharia Elétrica. Professora titular da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. E-mail: [email protected]