EFEITOS DO ENVOLVIMENTO PARENTAL NA APRENDIZAGEM: PERCEPÇÕES E VIVÊNCIAS DURANTE A FORMAÇÃO PEDAGÓGICA

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18383282


Simone de Sousa Passos1
Allysson Barbosa Fernandes2
Maria Marcyara Silva Souza3


RESUMO
O desenvolvimento integral da criança depende da co-responsabilidade entre família e escola, cuja interação contínua e cooperativa potencializa o aprendizado e o bem-estar dos estudantes. Reconhece-se que o engajamento dos pais abrange atitudes de incentivo, valorização e diálogo com a instituição escolar. Este estudo teve como objetivo analisar os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem, a partir das percepções e vivências durante a formação pedagógica. A pesquisa foi desenvolvida com abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico, documental e com ênfase na observação participante, realizada durante estágio em Pedagogia na escola Norma Célia, no ano de 2024. A análise evidenciou que o envolvimento parental é um processo multidimensional, marcado por diferentes formas de participação, desde a colaboração ativa e construtiva até posturas críticas ou ausentes. Constata-se que, quando a presença da família é efetiva e positiva, os estudantes demonstram maior motivação, autonomia e autoestima, o que impacta diretamente em seu desempenho escolar. Por outro lado, a ausência de acompanhamento ou a participação marcada por conflitos pode fragilizar a confiança e comprometer o processo educativo. A partir da revisão da literatura e das experiências de campo, observamos que a participação dos pais atua como fator de proteção contra o insucesso escolar, ao mesmo tempo em que se configura como promotora de aprendizagens significativas. Destaca-se que a formação pedagógica precisa preparar futuros professores para lidar com as múltiplas dimensões dessa parceria, compreendendo que a relação família-escola deve ser cultivada de maneira planejada e intencional. Conclui-se que o envolvimento parental, quando fortalecido, contribui para a formação de sujeitos mais críticos, autônomos e integrados em seu contexto social.
Palavras-chave: Aprendizagem. Envolvimento Parental. Formação Pedagógica.

ABSTRACT
The integral development of a child depends on the shared responsibility between family and school, whose continuous and cooperative interaction enhances student learning and well-being. It is recognized that parental engagement encompasses attitudes of encouragement, appreciation, and dialogue with the school institution. This study aimed to analyze the effects of parental involvement on learning, based on perceptions and experiences during teacher training. The research was developed with a qualitative approach, of a bibliographic and documentary nature, with an emphasis on participant observation, carried out during a pedagogy internship at the Norma Célia school in 2024. The analysis showed that parental involvement is a multidimensional process, marked by different forms of participation, from active and constructive collaboration to critical or absent stances. It was found that when the family's presence is effective and positive, students demonstrate greater motivation, autonomy, and self-esteem, which directly impacts their school performance. On the other hand, the absence of support or participation marked by conflict can weaken trust and compromise the educational process. Based on a literature review and field experiences, we observed that parental involvement acts as a protective factor against school failure, while simultaneously promoting meaningful learning. It is highlighted that teacher training needs to prepare future teachers to deal with the multiple dimensions of this partnership, understanding that the family-school relationship must be cultivated in a planned and intentional way. We conclude that strengthened parental involvement contributes to the formation of more critical, autonomous individuals integrated into their social contexto.
Keywords: Learning. Parental Involvement. Pedagogical Training.

1. INTRODUÇÃO

Ao refletir sobre os processos educativos, percebemos que o envolvimento parental se configura como um dos fatores mais relevantes para o desenvolvimento da aprendizagem e para a construção da trajetória escolar das crianças. A família, como primeira instituição social da qual a criança participa, exerce papel determinante na formação de valores, atitudes e expectativas em relação ao conhecimento. Nesse sentido, discutir os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem torna-se fundamental para compreendermos como as vivências familiares influenciam tanto os resultados escolares quanto a formação integral dos estudantes.

A problematização que nos orienta parte do seguinte questionamento: De que forma o envolvimento parental interfere na aprendizagem dos alunos e como essa relação é percebida e vivenciada durante a formação pedagógica? Essa questão emerge da constatação de que, apesar de inúmeros estudos apontarem os benefícios da participação da família na escola, ainda observamos lacunas no entendimento e nas práticas que buscam integrar o espaço familiar e o escolar de forma efetiva. Muitas vezes, a ausência de comunicação, a sobrecarga de responsabilidades ou mesmo a falta de compreensão sobre o papel da família na educação acabam por fragilizar esse elo.

Nossa justificativa para realizar esta pesquisa está relacionada à necessidade de aprofundar a discussão sobre a participação dos pais no processo educativo, evidenciando não apenas sua relevância, mas também os desafios que se apresentam nesse campo. Reconhecemos que a aprendizagem não se restringe ao ambiente escolar, mas se constrói na interação entre diferentes espaços sociais, e, nesse contexto, a família ocupa lugar estratégico. Portanto, investigar as percepções e vivências sobre o envolvimento parental é um passo importante para subsidiar práticas pedagógicas mais integradas e eficazes.

Parti-se, então, da hipótese de que o maior envolvimento parental está associado a melhores resultados de aprendizagem, maior engajamento dos estudantes e desenvolvimento socioemocional mais consistente. Outra hipótese considerada é que a ausência ou fragilidade dessa participação pode contribuir para dificuldades no desempenho escolar, desmotivação e até abandono. Ao levantar tais hipóteses, busca-se verificar em que medida a presença da família no cotidiano escolar é percebida pelos futuros pedagogos como fator decisivo no processo de ensino-aprendizagem.

O objetivo geral consiste em analisar os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem, a partir das percepções e vivências de professores em formação pedagógica. Como objetivos específicos, pretende-se compreender como o tema do envolvimento familiar é abordado na formação docente; identificar as estratégias pedagógicas que valorizam a participação dos pais no processo de aprendizagem; e discutir as implicações dessa relação para o desenvolvimento escolar e pessoal das crianças.

A importância deste estudo está em contribuir para uma visão mais ampla e crítica sobre a parceria entre família e escola. Acredita-se que, ao valorizar a presença parental como elemento central da educação, favorecemos não apenas a aprendizagem acadêmica, mas também a construção de sujeitos mais autônomos, seguros e integrados em seu contexto social. Além disso, ao inserir essa discussão no âmbito da formação pedagógica, incentivamos futuros professores a reconhecerem e a fomentar esse vínculo como parte essencial de sua prática educativa, fortalecendo, assim, o compromisso da escola com uma educação de qualidade e com a valorização da infância.

2. A RELAÇÃO FAMÍLIA–ESCOLA E OS DESAFIOS DO ENVOLVIMENTO PARENTAL

A análise de Gouveia (2008) nos ajuda a compreender como a família se constitui em um microssistema fundamental para o desenvolvimento, enquanto a escola aparece como um espaço complementar. Inspirada no modelo ecológico de Bronfenbrenner, a autora destaca que o mesossistema, formado pela articulação entre família e escola, é decisivo para o sucesso acadêmico. Quando esse elo é fortalecido, observamos maior engajamento dos alunos, motivação para aprender e diminuição do risco de fracasso escolar.

Vilar (2015) reforça esse olhar ao mostrar que a percepção do envolvimento parental está diretamente relacionada à regulação da aprendizagem. Crianças que percebem maior participação dos pais em tarefas escolares, na comunicação com professores e em atividades complementares apresentam maior autonomia e motivação intrínseca. Isso evidencia que o envolvimento parental não se limita ao acompanhamento das tarefas, mas perpassa atitudes de incentivo, reconhecimento e valorização do processo educativo.

Nesta perspectiva, Pereira (2014) amplia essa discussão ao investigar como a percepção de envolvimento dos pais se conecta com a regulação da aprendizagem. Os resultados mostram que alunos que sentem apoio familiar constante desenvolvem estratégias de autorregulação mais eficazes e apresentam menor índice de reprovação. Assim, compreendemos que a presença parental atua como elemento protetivo frente às dificuldades escolares.

Oliveira (2021), ao estudar a realidade do ensino fundamental menor no Maranhão, traz uma contribuição essencial ao apontar que a relação família-escola precisa ser vivida como parceria concreta. Sua pesquisa revela que quando as famílias participam ativamente da vida escolar dos filhos, há ganhos significativos no desempenho e no engajamento; por outro lado, a ausência dessa participação gera desmotivação e maior vulnerabilidade a dificuldades de aprendizagem.

A pesquisa de Nunes (2024) vai na mesma direção ao evidenciar que a família é coautora do processo de ensino-aprendizagem, atuando tanto no ambiente escolar quanto no familiar. Ao analisar os diálogos entre pais, gestores e professores, a autora aponta que a falta de sintonia entre esses atores compromete o rendimento das crianças. Assim, reafirma-se a necessidade de consolidar práticas integradas que potencializam os laços entre escola e família.

Branco (2012), ao discutir o envolvimento parental no ensino secundário, mostra que mesmo em níveis mais avançados de escolaridade, a presença da família continua a ser relevante. A autora destaca o modelo de Epstein (1995, 2001), que compreende o envolvimento parental de maneira ampla, englobando comunicação, tomada de decisão e apoio ao desenvolvimento acadêmico e sócio emocional. Essa perspectiva nos ajuda a pensar que o envolvimento parental é processo contínuo, que não se encerra na infância.

Já Cia, Pamplin e Williams (2008) demonstram empiricamente que crianças cujo ambiente familiar favorece interações positivas, comunicação frequente e acompanhamento escolar tendem a apresentar melhor desempenho acadêmico. O estudo sugere que, em contextos de baixo envolvimento, há maior risco de fracasso, indicando a urgência de políticas e práticas escolares que incentivem a aproximação entre pais e escola.

Dessa forma, constata-se que o envolvimento parental é atravessado por múltiplas dimensões, que incluem desde os aspectos relacionais até os estruturais, como nível socioeconômico, tempo disponível e expectativas dos pais em relação à escola. O fortalecimento dessa parceria aparece como chave para uma aprendizagem significativa, tanto na infância quanto em etapas posteriores.

Pode-se, portanto, afirmar que o envolvimento parental não é um recurso acessório, mas sim condição essencial para a construção de trajetórias escolares mais sólidas. Ele precisa ser estimulado, compreendido e valorizado em todos os espaços da formação pedagógica, de modo a garantir que crianças e jovens sejam apoiados de forma integral em sua caminhada educativa.

3. ENVOLVIMENTO PARENTAL, APRENDIZAGEM E FORMAÇÃO PEDAGÓGICA

Ao analisar os estudos de Vilar (2015) e Pereira (2014), percebe-se que o envolvimento parental está fortemente associado ao desenvolvimento de competências de autorregulação da aprendizagem. Isso significa que, ao acompanhar e valorizar os estudos dos filhos, os pais apoiam para que as crianças desenvolvam autonomia, capacidade de organização e responsabilidade. Esses aspectos são fundamentais para o sucesso escolar e para a formação integral.

Gouveia (2008) complementa esse olhar ao apontar que o insucesso escolar não pode ser compreendido apenas a partir de fatores individuais dos alunos, mas sim dentro de um conjunto de relações que envolvem família, escola e contexto social. Essa visão ecológica amplia nosso entendimento ao destacar que cada nível do sistema social influencia diretamente as possibilidades de aprendizagem e realização acadêmica.

Oliveira (2021) traz uma contribuição prática ao mostrar que, em escolas de regiões vulneráveis, a ausência de participação familiar está ligada a maiores dificuldades de alfabetização. A pesquisa revela que pais que mantêm diálogo constante com professores conseguem acompanhar de perto as necessidades dos filhos, reduzindo os índices de defasagem. Esse dado reforça que o envolvimento parental atua como fator de equidade no processo educacional.

Nunes (2024) também evidencia que a família desempenha papel ativo no estímulo ao desenvolvimento escolar. A autora mostra que, quando há interação constante entre pais e professores, as crianças percebem maior valorização da escola e sentem-se motivadas a aprender. Esse processo contribui para a construção de um ambiente de confiança, onde a aprendizagem deixa de ser apenas obrigação e passa a ser vivida como experiência compartilhada.

Branco (2012) acrescenta que o envolvimento parental no ensino secundário tende a ser percebido de forma distinta pelos pais e pelos professores. Enquanto os pais se consideram mais presentes, muitos docentes percebem lacunas nessa participação. Esse desencontro de percepções revela a necessidade de estratégias que alinhem expectativas, evitando que a relação família-escola seja marcada por ruídos de comunicação.

No estudo de Cia, Pamplin e Williams (2008), a relação entre o envolvimento parental e o desempenho acadêmico é confirmada empiricamente, evidenciando que a frequência de comunicação e a participação em atividades escolares e culturais contribuem para melhores resultados. Isso mostra que o envolvimento também se expressa em experiências de lazer e cultura compartilhadas, que ampliam repertórios e fortalecem vínculos.

Analisa-se em conjunto esses estudos, e se percebe que o envolvimento parental atua tanto como fator de proteção contra o insucesso quanto como elemento de promoção de aprendizagens significativas. Essa perspectiva dialoga com nossa pesquisa ao mostrar que a percepção e a vivência desse envolvimento precisam ser incorporadas à formação pedagógica dos futuros professores.

Acredita-se que ao compreender como a família pode potencializar o processo educativo, os pedagogos em formação estarão mais preparados para criar estratégias que favoreçam a aproximação entre escola e família. Essa aproximação não é apenas um recurso pedagógico, mas também um compromisso ético com o direito à educação de qualidade.

Por fim, reafirma-se que os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem ultrapassam as fronteiras da sala de aula. Eles se refletem na construção de autonomia, motivação, autoestima e pertencimento, elementos essenciais para a formação de sujeitos críticos e atuantes. Cabe à escola, aos professores e aos sistemas educacionais criar condições para que essa parceria seja fortalecida, garantindo que cada criança tenha o suporte necessário para desenvolver-se plenamente.

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

No presente estudo adotamos a pesquisa qualitativa como abordagem central, uma vez que busca-se compreender os efeitos do envolvimento parental a partir de suas percepções e vivências no contexto escolar. Para Minayo (2012), é o tipo de pesquisa mais adequada quando nos interessa captar significados, subjetividades e processos sociais que não podem ser traduzidos em números, mas sim interpretados em sua profundidade. Essa escolha nos permite apreender as múltiplas dimensões que atravessam a relação entre família e escola, valorizando a complexidade do fenômeno.

Complementarmente, caracteriza-se este estudo como bibliográfico e documental, na medida em que recorre-se a produções científicas e documentos normativos para compor nossa análise. Gil (2017) lembra que a pesquisa bibliográfica tem como finalidade “reunir, selecionar e interpretar conhecimentos já construídos, permitindo estabelecer um quadro teórico que sustenta a investigação”. Assim, revisa-se autores que tratam da relação família-escola e do envolvimento parental, articulando-os às práticas pedagógicas observadas.

Caracterizando a pesquisa estudo de natureza qualitativa e documental, com recorte descritivo-analítico, desenvolvido em uma instituição pública de Educação Infantil localizada no município de Maracanaú–CE, no ano letivo de 2024. A opção por esse delineamento metodológico justifica-se pela necessidade de analisar dados institucionais já existentes, a fim de compreender a relação entre presença familiar e rendimento dos alunos no contexto da educação infantil.

Os procedimentos metodológicos envolveram a análise de documentos oficiais da unidade escolar, com destaque para os diários de classe, atas escolares, registros administrativos da Secretaria Escolar e demais documentos pedagógicos pertinentes. Esses materiais possibilitaram o levantamento sistemático das informações relativas à frequência dos alunos, bem como aos registros de acompanhamento do desenvolvimento e do rendimento escolar, conforme as diretrizes estabelecidas para essa etapa da educação básica.

No entanto, o eixo central da nossa investigação se deu por meio da observação participante, realizada durante a atuação da pesquisadora em uma instituição pública de educação infantil de Maracanaú-ce, no ano de 2024. Como destaca Marconi e Lakatos (2017), a observação participante possibilita ao pesquisador integrar-se ao ambiente estudado, permitindo captar fenômenos em sua espontaneidade e complexidade. Essa técnica nos possibilitou acompanhar diretamente como as famílias se relacionam com a escola e como esse envolvimento repercute no processo de aprendizagem.

Apoiados em Mónico et al. (2017), compreendemos que a observação participante como uma estratégia metodológica que garante uma perspectiva holística e natural do campo investigado. Estar imersos no cotidiano escolar nos proporcionou perceber comportamentos, atitudes e interações que dificilmente seriam captados em entrevistas ou questionários. Nesse sentido, a observação participante nos permitiu experimentar simultaneamente os papéis dos sujeitos envolvidos, vivenciando a realidade dos sujeitos e, ao mesmo tempo, analisando criticamente suas práticas.

Registra-se as observações por meio de notas de campo, que possibilitaram sistematizar as percepções e confrontá-las com os referenciais teóricos. Esse procedimento está em consonância com Minayo (2012), que ressalta a importância da descrição densa e da análise interpretativa como pilares da pesquisa qualitativa. Além disso, buscar-se minimizar vieses pessoais, reconhecendo, como lembram Monico et al. (2017), que o observador participante deve desenvolver atenção, sensibilidade e disciplina para registrar principalmente significados atribuídos pelos sujeitos.

Portanto, nossa metodologia se consolidou a partir da integração entre pesquisa qualitativa, bibliográfica e documental, tendo a observação participante como eixo central. Essa triangulação assegurou o rigor e densidade analítica da pesquisa, permitindo articular teoria e prática, bem como compreender de forma crítica e situada os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ao realizar a observação participante durante o estágio supervisionado, no ano de 2024, na escola de Educação Infantil, Norma Célia, localizada em Maracanaú-CE, teve-se a oportunidade de vivenciar de perto as formas pelas quais as famílias se relacionam com o processo de ensino-aprendizagem. Essa experiência tornou-se um espaço privilegiado para compreender as nuances do envolvimento parental e refletir sobre suas implicações na formação das crianças.

Percebe-se que a participação dos pais na vida escolar dos filhos pode assumir diferentes dimensões e intensidades. Alguns se mostraram atentos e colaborativos, acompanhando as atividades e estabelecendo diálogos construtivos com professores. Outros, porém, apresentaram posturas críticas ou distantes, revelando que o envolvimento parental não é homogêneo, mas atravessado por múltiplos fatores sociais, culturais e pessoais. Essa diversidade nos leva a considerar que a relação família-escola é, como afirma Gouveia (2008), um processo ecológico e sistêmico, em que o desenvolvimento da criança depende da interação entre diferentes microssistemas.

Constata-se ainda que muitos pais, ao se engajarem, contribuem para criar um ambiente mais motivador e significativo. Esse aspecto dialoga com os achados de Cia, Pamplin e Williams (2008), que demonstram que quanto maior a frequência de comunicação entre pais e filhos e maior a participação em atividades escolares, culturais e de lazer, melhor tende a ser o desempenho acadêmico. Na prática observada, esse efeito foi visível: crianças cujos pais se mostravam mais presentes apresentavam maior segurança, autoestima e dedicação às tarefas.

Por outro lado, também observamos situações em que a participação não era construtiva, mas marcada por cobranças excessivas ou por críticas constantes aos educadores. Esse comportamento, embora configure envolvimento, não favorece a aprendizagem, pois cria um clima de tensão entre família e escola. Nesse ponto, a análise de Pereira (2014) é fundamental, pois mostra que o envolvimento parental precisa estar orientado pelo apoio e pela valorização, já que a percepção de acolhimento por parte da criança é que fortalece sua autorregulação e seu vínculo com o aprendizado.

Outro dado relevante em nossa observação foi a ausência de participação de alguns pais, seja por falta de tempo, por condições socioeconômicas ou mesmo por não reconhecerem a escola como parceira no processo educativo. Essa realidade se aproxima do que Nunes (2024) aponta ao evidenciar que a falta de sintonia entre pais e professores compromete a qualidade da aprendizagem e aumenta as desigualdades educacionais. Assim, confirmamos que a ausência de participação não é neutra, mas um fator de risco para o desenvolvimento escolar.

Oliveira (2021) reforça essa visão ao mostrar que em comunidades com maior vulnerabilidade social, a ausência da família nas atividades escolares impacta negativamente a alfabetização e o engajamento. Em nossa experiência, percebemos que algumas crianças tinham mais dificuldade em manter hábitos de estudo ou demonstravam desmotivação, justamente por não contarem com acompanhamento em casa. Isso confirma que a escola, sozinha, não consegue garantir a aprendizagem plena, sendo indispensável a presença da família.

Também identifica-se diferentes formas de participação: enquanto alguns pais contribuíam ativamente, somando esforços junto aos professores, outros, mesmo presentes, demonstravam uma postura pouco colaborativa, impondo suas opiniões sem abertura ao diálogo. Essa ambiguidade, foi analisada por Branco (2012), que mostrou como pais e professores frequentemente têm percepções diferentes sobre o grau de envolvimento, o que pode gerar ruídos na comunicação.

A observação participante nos permitiu compreender contextos. A forma como cada família se envolve na escola está ligada a valores, expectativas e condições concretas de vida. Vilar (2015) destaca que a percepção do aluno sobre esse envolvimento influencia diretamente sua motivação e autonomia. Isso ficou evidente ao vermos crianças que relatavam o orgulho dos pais quando participavam de eventos escolares, demonstrando mais empenho em sala de aula.

A vivência no campo também nos mostrou que o envolvimento parental é multidimensional, podendo se manifestar de maneiras formais, como reuniões e atividades escolares, ou de forma mais simbólica, através do incentivo diário em casa. Esse caráter plural nos convida a pensar a participação não em termos de presença ou ausência absoluta, mas em graus e formas que variam conforme cada família. Essa perspectiva amplia nossa compreensão sobre como o envolvimento parental deve ser trabalhado no espaço escolar.

Por fim, entende-se que a observação participante foi chave para captar nuances que dificilmente seriam percebidas apenas por meio de pesquisa documental ou bibliográfica. Estar imersos no cotidiano escolar nos possibilitou ver a riqueza e as contradições da participação dos pais, confirmando a importância desse envolvimento para a aprendizagem, mas também revelando que ele pode ser tanto fator de proteção quanto de conflito. Assim, reafirmamos que a formação pedagógica precisa considerar a complexidade dessa relação, preparando futuros professores para lidar com as múltiplas faces do envolvimento parental.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se este estudo, reafirmamos que o envolvimento parental constitui um dos pilares para o sucesso escolar e para a formação integral da criança. Durante nossa análise, percebemos que a presença da família no processo educativo é indispensável, pois amplia as condições de aprendizagem, fortalece vínculos afetivos e cria um ambiente propício ao desenvolvimento acadêmico e social.

A pesquisa qualitativa, associada à observação participante, nos permitiu captar nuances da relação entre família e escola que dificilmente seriam percebidas apenas em registros formais ou em dados quantitativos. Pudemos constatar que a participação dos pais se manifesta de formas diversas: alguns colaboram ativamente, outros apresentam postura crítica e há ainda aqueles que permanecem distantes do cotidiano escolar. Essa pluralidade evidencia que o envolvimento parental é um processo multidimensional, atravessado por fatores culturais, socioeconômicos e pessoais.

Constata-se que quando a participação é construtiva, ela contribui para que as crianças se sintam valorizadas, desenvolvam autonomia e apresentam maior motivação para aprender. Por outro lado, a ausência de envolvimento ou a presença marcada por conflitos pode fragilizar a confiança no processo educativo e comprometer o desempenho escolar. Assim, o papel da escola é essencial na mediação dessa relação, criando espaços de diálogo que favoreçam a aproximação e o reconhecimento mútuo.

A análise dos autores mobilizados nos mostrou que o envolvimento parental não é uma ação pontual, mas um processo contínuo que se estende da educação infantil ao ensino secundário. A escola, nesse sentido, deve investir em práticas que favoreçam a comunicação aberta, a corresponsabilidade e a valorização da diversidade de contextos familiares. Reforçamos, assim, que a parceria família-escola precisa ser cultivada de forma intencional e planejada, para que se torne efetiva.

Outro ponto que emergiu foi a importância de preparar futuros professores para lidar com as múltiplas facetas do envolvimento parental. A formação pedagógica deve contemplar estratégias de aproximação com as famílias, valorizando sua participação como elemento de apoio e não como fonte de tensão. Dessa forma, os educadores poderão atuar de maneira mais consciente e crítica, reconhecendo a relevância dessa parceria para a construção de uma educação de qualidade.

Em síntese, concluímos que os efeitos do envolvimento parental na aprendizagem vão além do desempenho acadêmico: eles dizem respeito à formação de sujeitos mais confiantes, autônomos e integrados em seu contexto social. Ao considerarmos o envolvimento da família como parte estruturante do processo educativo, reafirmamos nosso compromisso com uma educação que valoriza a criança em sua totalidade e que reconhece a corresponsabilidade entre escola e família na construção do futuro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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VILAR, Joana Rita Louro. A percepção do envolvimento parental na regulação da aprendizagem. Dissertação. Instituto Superior de Psicologia Aplicada. Portugal, 2015.


1 Graduação em Pedagogia pelo Centro Universitário Maciço de Baturité (UniMB).

2 Mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura pela Universidade da Amazônia (UNAMA).

3 Mestra em Sociobiodiversidade e Tecnologias Sustentáveis pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).