FUNÇÕES E EFEITOS DO FAIT DIVERS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18383322
Milton Chamarelli Filho1
RESUMO
Este artigo propõe uma análise do fait divers a partir da teoria de Roland Barthes, interpretando-o não como manifestação de sensacionalismo banal, mas como um sintoma da saturação de sentido que caracteriza a mídia contemporânea. Fundamentado em autores como Barthes, Bourdieu, Dion e Mendes, o estudo realiza uma análise qualitativa de casos exemplares retirados da imprensa e de portais digitais, examinando-os à luz de três elementos estruturais identificados pelo semioticista francês: a imanência narrativa, a oposição entre dois termos e a perturbação da causalidade. Cada caso é decomposto segundo esses três eixos com o objetivo de evidenciar a lógica discursiva do nonsense. Os resultados indicam que, ao escapar das categorias tradicionais de classificação jornalística, o fait divers preserva a ambiguidade entre racional e irracional, tal como formulada no discurso jornalístico, atuando como alívio simbólico frente às pressões sociais, políticas e econômicas da vida contemporânea. Conclui-se que sua permanência no jornalismo e nas redes sociais revela uma função cultural essencial: a manutenção do inexplicável e do indeterminado no discurso midiático, constituindo-se, assim, em um gênero narrativo que tensiona e, ao mesmo tempo, sustenta a ordem racional do noticiário.
Palavras-chave: fait divers. Jornalismo. gêneros jornalísticos. discurso jornalístico. saturação de sentido.
ABSTRACT
This article proposes an analysis of the fait divers based on Roland Barthes’s theory, interpreting it not as a form of banal sensationalism but as a symptom of the saturation of meaning that characterizes contemporary media. Drawing on authors such as Barthes, Bourdieu, Dion, and Mendes, the study conducts a qualitative analysis of exemplary cases taken from the press and digital platforms, examining them in light of three structural elements identified by the French semiotician: narrative immanence, the opposition between two terms, and the disruption of causality. Each case is analyzed according to these three axes in order to reveal the discursive logic of nonsense. The findings indicate that, by escaping traditional categories of journalistic classification, the fait divers preserves an ambiguity between rational and irrational, as articulated within journalistic discourse, functioning as a form of symbolic relief from the social, political, and economic pressures of contemporary life. It is concluded that its persistence in journalism and social media reveals an essential cultural function: the maintenance of the inexplicable and the indeterminate within media discourse, thus constituting a narrative genre that both challenges and sustains the rational order of news reporting.
Keywords: fait divers. Journalism. journalistic genres. journalistic discourse. saturation of meaning.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
“Numa certa enciclopédia chinesa está escrito que os animais se dividem em:
(a) pertencentes ao Imperador,
(b) embalsamados,
(c) amestrados,
(d) leitões,
(e) sereias,
(f) fabulosos,
(g) cães vira-latas,
(h) incluídos nesta classificação,
(i) que se agitam como loucos,
(j) inumeráveis,
(k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo,
(l) etc.,
(m) que acabaram de quebrar o vaso,
(n) que de longe parecem moscas.”
O texto acima é do escritor argentino Jorge Luis Borges2 e serviu como epígrafe do prefácio de As palavras e as coisas, Michel de Foucault. Nele, o filósofo francês o utiliza como preâmbulo para questionar os sistemas de classificação, as epistemes e os modos como a linguagem e o saber constroem a realidade. Ao trazer o questionamento de Borges para a atualidade no campo da comunicação digital contemporânea, discute-se aqui quão problemática pode ser o enquadramento dos fait divers ante a classificações nas editorias jornalísticas tradicionais
O que chama a atenção naquilo que Borges chamou “Empório Celestial de conhecimentos benévolos” é, em primeiro lugar, a impossibilidade de os seres descritos não se encaixarem no enunciado do gênero lista — o que por si só já violaria um princípio de coerência — e, em segundo lugar, a incompatibilidade entre si dos próprios “seres” listados, dessa ou de qualquer outra lista, pela falta de uma propriedade que os faz aí únicos.
Neste artigo, propõe-se analisar o fait divers como uma manifestação cultural e discursiva que, ao tensionar a lógica causal, produz na narrativa midiática contemporânea efeitos de irracionalidade que não se apresentam como seu exterior absoluto, mas como uma dimensão interna às próprias práticas jornalísticas, historicamente constituídas.
A partir da teoria de Roland Barthes e da análise de casos exemplares, busca-se compreender o fait divers não como um desvio, mas como um sintoma da saturação de sentido que marca o jornalismo atual. Nessa perspectiva, articula-se um modelo estrutural heurístico (Barthes) com debates históricos e discursivos sobre o jornalismo moderno e contemporâneo.
ORIGEM E EVOLUÇÃO DO FAIT DIVERS
A origem do fait divers remonta aos canards dos séculos XVI e XVII — folhetos de baixo custo (também designados occasionnels ou feuilles volantes), impressos em papel barato e comercializados por ambulantes, frequentemente cantores itinerantes, que anunciavam uma história para em seguida entoar as queixas (complaintes), geralmente adaptadas a uma melodia preexistente.
Esses precursores, que coexistiam com os primórdios da imprensa gutemberguiana (século XV), atingiram seu apogeu narrativo no século XVII, dedicando-se sobretudo a relatos criminais, mas também a catástrofes naturais, monstros fabulosos e escândalos políticos. Foi, contudo, a partir do século XIX, notadamente em Paris e Lyon, que o fait divers se consolidou como uma rubrica distintiva e permanente no formato do jornalismo moderno.
A expressão de origem francesa fait divers não tem um equivalente em português. Antônio Houaiss a define como “assuntos variados” ou “variedades”. Sobre esse aspecto, Pierre Bourdieu, para dar conta da diversidade de assunto que abrange a classificou com a palavra latina omnibus para os fatos que [...] “como se diz, não devem chocar ninguém, que não envolvem disputa, que não dividem, que formam consenso, que interessam a todo mundo, mas de um modo tal que não tocam em nada de importante." (BOURDIEU, 1997, p. 23).
Dulcília Buitoni afirma: “no jargão jornalístico, costuma-se denominá-las notícias curiosas, por vezes com apelo sensacionalista e quase sempre destituídas de relevância política e social” (2011, p. 108).
Barthes não foi o primeiro a teorizar sobre os fait divers3, o autor francês sistematiza uma leitura estrutural específica, em um texto cujo título foi erroneamente traduzido para o português por “Estrutura da notícia”, que assim o define:
[...] procederia de uma classificação do inclassificável, seria o refugo desorganizado das notícias informes; sua essência seria privativa, só começaria a existir onde o mundo deixa de ser nomeado, submetido a um catálogo conhecido (política, economia, guerras, espetáculos, ciências etc.); numa só palavra, seria uma informação monstruosa, análoga a todos os fatos excepcionais ou insignificantes, em suma inomináveis, que se classificam em geral pudicamente sob a rubrica dos Varia, tal como o ornitorrinco que deu tanto trabalho ao infeliz Linné. (BARTHES, 2007, p. 57)
Embora sob a chancela de “inominável” ou “inclassificável”, o fait divers quase sempre esteve sob a rubrica do sensacionalismo, pauta notoriamente debatida sobre as táticas espúrias da mídia de massa para atingir a audiência Essa crítica pode ser encontrada, por exemplo, Bourdieu, em Sobre a televisão, pode-se ler:
Vamos pegar o mais fácil: fait divers, que sempre foram o assunto favorito da imprensa sensacionalista sangue e sexo, drama e crime sempre venderam, e o reinado dos índices de audiência teve que trazer para a primeira página, na abertura do telejornal, esses ingredientes que a preocupação com a respeitabilidade imposta pelo modelo da imprensa séria até então havia levado a ser deixada de lado ou relegada. (BOURDIEU, 1997, p. 22).
Em Bourdieu: “O fait divers é esse tipo de informação básica, rudimentar, que é muito importante porque interessa a todos sem ter consequências e que consome tempo, tempo que poderia ser usado para dizer outra coisa.” (BOURDIEU, 1997, p. 23).
Observa Sylvie Dion: “um fait divers significa igualmente uma notícia de pouca importância, um fato insignificante oposto à notícia significativa e ao acontecimento histórico” (2007, p.3). Um fato singular também mencionado pela mesma pesquisadora e que se soma à condição de “menor importância” do fait divers é de a que sempre foi rechaçado desde o início pelas elites intelectuais e tornou-se a informação privilegiada pelas massas populares (DION, 2007, p.3).
Ainda há perspectiva de Conrado Mendes que distingue o fait divers como um "gênero" do "sensacionalismo" como um "estilo". Ou seja, sensacionalismo é um estilo de apresentação que pode afetar diferentes gêneros jornalísticos (notícias, reportagens, entrevistas, etc.), tornando-os mais emotivos, exagerados ou espetaculares.” (MENDES, 2014, p. 4).
Para Mendes, o fait divers se configura como um gênero por se caracterizar por “enunciados estáveis”, conceito que hauriu de Bakhtin, e por isso apresenta as seguintes características: “o conteúdo temático, o estilo e a composição.”4. Além disso, pode-se também afirmar que o fait divers como gênero surge e se transforma conforme as necessidades das comunidades que o utilizam, fato que foi negligenciado devido ao seu caráter popular.
O FATO DIVERS NA CONTEMPORANEIDADE
Contudo, essa visão de Mendes, que valoriza o fait divers como gênero legítimo, entra em conflito direto com a perspectiva mais crítica e influente de pensadores como Pierre Bourdieu, e aqui cabem algumas ponderações sobre o que afirma Bourdieu. A primeira é a de já classificar o fait divers como uma publicação sensacionalista, uma vez que se pode caracterizá-lo como gênero com propósito comunicativo, ou seja, ele relata um evento curioso, banal, trágico ou pitoresco do cotidiano, sem grande relevância jornalística, mas com apelo emocional ou de entretenimento e ele tem estrutura composicional, que o caracterizam como tal.
Segundo, nem sempre o fait divers trata atualmente de “sangue, sexo e drama”; neles também tratam de fatos inusitados, fenômenos naturais (aparentemente inexplicáveis), humorísticos, entre outros5.
Por último, a consideração de que o fait divers consome tempo, “tempo que poderia para dizer outra coisa.” (BOURDIEU, 1997, p. 23). A medição do tempo como medida de informação calculável como tempo de “trabalho” é uma “unidade” capitalista pela qual se mede a informação útil, racionalizada; e é isso que faz com que ele tenha pouco valor porque — e aí reside seu paradoxo no jornalismo — embora não se enquadre nos valores notícias tradicionais (e vistos, por isso, como algo de menor valor informativo) quase sempre atraiu grade parte da audiência.
Soma-se a isso o fato de que o modelo de jornalismo norte-americano do século XX, difundido no pós-guerra, consolidou-se com uma visão tecnocrática, afinada ao espírito neoliberal, que passou a orientar a imprensa tanto na racionalização do espaço informativo quanto na organização da página impressa — de um lado, pelo uso do lead, da pirâmide invertida e da neutralidade; de outro, pela padronização tipográfica, pela hierarquia visual e pela delimitação rigorosa dos espaços.
O FAIT DIVERS, SEGUNDO BARTHES
O fait divers chama a atenção do público porque traz consigo algo do universo do insondável, do inexplicável, porque são essas as dimensões que mantêm a sociedade dentro de uma normalidade, como afirmou Barthes. É necessária a existência do irracional6 para que o racional seja suportável.
[...] o fait divers é uma arte de massa: seu papel é, ao que parece, preservar no seio da sociedade contemporânea a ambiguidade do racional e do irracional, do inteligível e do insondável; e essa ambiguidade é historicamente necessária, na medida em que o homem ainda precisa de signos (o que o tranquiliza), mas também na medida em que esses signos são de conteúdo incerto (o que o irresponsabiliza). (BARTHES, 2007, p. 66)
É precisamente nessa ambiguidade necessária — entre o tranquilizador e o irresponsabilizante — que reside a leveza do insignificante. Ao liberar momentaneamente o sujeito do peso da causalidade rigorosa e das demandas de sentido totalizante, o fait divers opera uma defesa indireta do fragmento, do acidental e do irracional como componentes indispensáveis da experiência humana na modernidade.
Essa dubiedade de condição, própria da modernidade, faz com que o fait divers esteja a todo tempo a nos rodear como a realidade sobre nós e nos obriga a aceitá-la como algo irrecusável sobre a qual recai a nossa atenção, como bem destaca Daniel Salles, em um texto para a Biblioteca Nacional da França:
Cataclismos, assassinatos, crimes, acidentes, suicídios, escândalos exercem sobre nós uma atração perturbadora: encenam nossas fantasias, despertam nossos impulsos, despertam nossos terrores, inspiram nossa piedade e nos lembram de nosso desejo de transgredir normas e proibições. Abrir um periódico na página de notícias é, portanto, abrir-se para uma série de emoções intensas. (SALLES, 2012)
É esse sentimento que parece atingir o público por uma espécie de compulsão cega para eles, por um desejo remoto e primitivo.
A curiosidade dita “mórbida” faria, assim, apelo aos sentimentos mais arcaicos do homem: por meio do olhar, do tocar, da posse de um objeto ou, às vezes, da simples leitura, assimilar um pouco da aura do trágico ou do violento, invertendo virtualmente o signo, do maléfico torná-lo possível benéfico” (AUCLAIR, 1970, p. 197).
De modo semelhante, Angrimani observa que o fait divers representa “a personificação de instintos, simplesmente reprimidos pelos outros homens, a encarnação de seus crimes imaginários, de suas violências sonhadas” (ANGRIMANI, 1995, p. 26), funcionando como um espelho invertido das pulsões e fantasias que circulam no imaginário social.
Por encarnar essa dimensão do humano que flutua entre o racional e o irracional, o inteligível e o insondável, este trabalho considera o fait divers não como causa, como ele foi tratado na literatura de sociologia da comunicação, mas como sintoma, um sintoma inespecífico, em que a ordem das coisas e dos fatos narrados é perturbada. Como afirma Barthes: “É primeiramente, está claro, o fato cuja causa não se pode dizer imediatamente. Será preciso um dia fazer o levantamento do inexplicável contemporâneo, tal qual ele é representado não pela ciência, mas pelo senso comum [...] (BARTHES, 2007, pp. 60-61). E ainda: “Cada vez, pois que se quer ver funcionar a nu a causalidade do fait divers, é uma causalidade ligeiramente aberrante que se encontra.” (BARTHES, 2007, pp. 60).
Soma-se a esse fato que, a partir do século XX, na literatura, no cinema, na psicanálise a percepção do tempo e as suas as formas de representação passam a ser fragmentárias, a causalidade tende a figurar como difusa e os eventos são não-lineares. Ou seja, como pressupor, após o descentramento do sujeito, conforme apontando por Stuart Hall (2006) que haja nexos de causalidade para explicação dos fatos e, por esse motivo, dar conta do real (ficcional e prosaico) que parece sempre escapar ao sujeito? É nesse ponto que se evidencia a perturbação da ordem até então estabelecida, revelando, no fait divers, o paradoxo da causalidade.
Todos esses paradoxos da causalidade têm um duplo sentido; por um lado, a ideia de causalidade sai deles reforçada, já que se constata que a causa está em toda parte: com isso, o fait divers nos diz que o homem, está sempre ligado a outra coisa, que a natureza é cheia de ecos, de relações e de movimentos; mas, por outro lado, essa mesma causalidade é constantemente minada por forças que lhe escapam; [...] a causa aparece fatalmente penetrada por uma força estranha: o acaso; no fait divers, toda causalidade é suspeita de acaso. (BARTHES, 2007, pp. 62-63)
É o acaso, o inesperado que irrompe no encadeamento dos enunciados que se vê perpassar nos exemplos que o próprio Barthes fornece:
Uma mulher esfaqueia seu amante: eles não se entendiam bem em matéria de política. Uma empregada rapta o bebê dos seus patrões: porque ela adora a criança.
Um trem descarrila no Alasca: um veado bloqueara o controle das linhas.Um inglês se engaja na Legião Estrangeira: não queria passar o natal com sua sogra. (BARTHES, 2007, p.58)
Todas essas “notícias” parecem não se enquadrar naquilo que não poderia ser noticiado, se considerar a regras do bom e velho jornalismo, que quase sempre priorizou o que os editores decidem como “notícia significativa” (DION, 2007, p. 3). O que elas noticiam é o homem, os animais e as coisas em situações completamente inusitadas7.
O fait divers não relata as atividades de um chefe de estado, as visitas principescas ou qualquer outro acontecimento histórico; ele conta os dramas das pessoas comuns; dramas familiares, suicídios, sequestros de crianças, acidentes trágicos, estupros, etc., e o leitor pode se reconhecer em cada uma das histórias que, no fundo, poderia ser a sua. (DION, 2007, pp. 7-8)
As situações descritas pelo fait divers desconcertam o sujeito — tão afeito às narrativas — por romperem com a lógica da causalidade. Em modelos narrativos canônicos da tradição realista, há uma sequência com certa progressão linear, sendo a narratividade responsável pela transformação de eventos em uma história com sentido. Quando essa ordem é quebrada, instala-se o estranhamento.
Quando se lê narrativas tradicionais como no romance, em determinados contextos históricos de leitura, o leitor é interpelado porque essas formas narrativas convocam a ordenação da experiência. É como se ele se tornasse parte delas e nelas fosse conduzido à fluidez de um tempo que poderia ser vivido na própria narrativa e fora dela.
Por outro lado, para o leitor, o fait divers, longe de configurar mero escapismo, afirma-se como um gênero necessário: ao confrontá-lo com a fragilidade das causalidades que organizam o mundo, essa forma narrativa lhe devolve uma leveza paradoxal, a possibilidade de aceitar o inexplicável como parte integrante do real.
ANÁLISE DE EXEMPLOS
No fait divers, há ruptura, um ruído, nessa tentativa de duplicação da narrativa ao mundo e do mundo à narrativa, porque ele fura a mimeses e cria o impacto e o espaço da irracionalidade, onde também convivem o familiar e o estranho, o mágico e o insólito. Porque nele é o lugar onde a lógica vacila e o signo se abre para o indeterminado. Vejamos alguns exemplos para em seguida analisá-los:
Australiano mata ladrão e vive com o corpo dele por 15 anos
Bruce Roberts utilizou dezenas de aromatizantes para disfarçar o mau cheiro do cadáver8 (ISTOÉ, 2021)
Inocente deixa cadeia após 38 anos Walter Forbes foi inocentado, após passar quase 40 anos na prisão. Curiosamente, quem o “salvou” foi a mesma testemunha que o ajudou a ser condenado em 1982. “Tudo o que eu disse à polícia e tudo o que testemunhei no julgamento em relação ao meu testemunho do início do incêndio foi uma invenção”, continuou a declaração. “Pelo que eu sei, Forbes não teve nada a ver com este crime”, disse a testemunha.9 (UOL, 2020)
Para analisar os faits divers apresentados, tomam-se como base os princípios extraídos do texto de Roland Barthes. A leitura parte de três elementos fundamentais: a estrutura imanente do relato, a presença de dois termos em tensão ou oposição, e a perturbação da causalidade. Esses três aspectos constituem a base estrutural que permite identificar e compreender a lógica interna do fait divers.
Barthes afirma em seu texto que o fait divers “não remete nada além dele próprio”, ou seja, não precisa se recorrer a nenhum fato externo para entendê-lo, porque a notícia não exige nenhum contexto político, econômico ou cultural prévio. Ela se encerra nela mesma, o leitor “entende tudo” com apenas essa frase ou com a própria notícia que pela forma como foi construída, poderia ter aparecido em qualquer jornal de qualquer lugar.
No caso da notícia “Australiano mata ladrão e vive com o corpo dele por 15 anos”, observa-se a estrutura imanente: a informação se fecha em si mesma e não exige nenhum conhecimento externo para ser compreendida. Os dois termos em oposição são a ação (matar o ladrão) e a consequência desproporcional (guardar o corpo por quinze anos). A causalidade, por sua vez, é abalada: embora haja uma sequência de eventos, a lógica que os conecta é frágil ou inexistente.
Neste caso, há uma sequência de fatos, mas ela não obedece à lógica habitual; a consequência é fora de proporção; a reação do personagem não é social ou racionalmente explicável; O resultado parece ter vindo do acaso, da loucura ou do nonsense.
A segunda notícia também apresenta uma estrutura imanente e é também estruturado em dois termos: “Walter Forbes passou quarenta anos na prisão; quem o inocentou foi a testemunha que o acusou.” E aqui o que chama a atenção é a perturbação da ordem causalidade, ou seja, como o a testemunha que acusa é a mesma que inocenta a personagem? A ambiguidade racional/irracional aqui torna-se prevalente quando a testemunha é citada: “Tudo o que eu disse à polícia e tudo o que testemunhei no julgamento em relação ao meu testemunho do início do incêndio foi uma invenção”, continuou a declaração. “Pelo que eu sei, Forbes não teve nada a ver com este crime”.
É necessário voltar ao que disse Barthes antes: [...] primeiramente, está claro, o fato cuja causa não se pode dizer imediatamente. Será preciso um dia fazer o levantamento do inexplicável contemporâneo, tal qual ele é representado não pela ciência, mas pelo senso comum [...]. É imperioso continuar esse levantamento de que o semioticista francês fala e observar, porém, que o fait divers hoje, pela sua extensão, dialoga, com o ponto de vista das suas temáticas com o crescimento dos filmes de terror e o aumento da sua audiência, com a sua existência na semiosfera, ou seja, o fait divers já não é tão ruidoso, porque já faz parte desse espaço simbólico total onde todos os processos semióticos de uma cultura ocorrem. Por esse motivo ele encontra um lugar onde até o absurdo encontra um lugar possível de “reconhecimento” e repetição. Jornais como Extra e Meia Hora (ambos do grupo Globo) sites como Buzz Feed, Planeta Bizarro10 e até CNN Brasil11, programas policiais como Cidade Alerta e Brasil Urgente e também as redes sociais contam muitas vezes com uma seção destinada ao fait divers.
CONCLUSÃO
O fait divers, antes localizado nas margens dos jornais, hoje habita os feeds, os virais e os memes – estruturando boa parte da atenção no mundo digital. Diante disso, é sintomático que existam tantas postagens e programas de fait divers porque o sujeito contemporâneo, está cada vez mais sob pressão de uma hiperprodutividade, sobrecarga informacional, vigilância social e uma responsabilização constante. Essas pressões exigem desse sujeito uma postura permanente de controle, engajamento e racionalidade. Assim, os fait divers passam a operar como alívio simbólico frente ao peso das exigências sociais, morais, políticas e econômicas da vida contemporânea.
Interessante notar que, em maior ou menor grau, outros tipos de publicações também cumprem essa função tranquilizadora mencionada por Barthes, ainda que jamais tenham provocado tanta contestação quanto o fait divers12. É o caso de boletins de tempo e trânsito, previsões astrológicas, horóscopos ou notícias de celebridades — todas próximas do que Georges Bataille (2013), na economia, chamou de “improdutivo, excedente e irracional”. Por isso, podem ser vistas, segundo o filósofo francês, como um excedente de energia simbólica destinado ao consumo, já que toda sociedade está condenada, de algum modo, a consumi-lo13.
O fait divers, nesse sentido, constrói-se sobre arquétipos imemoriais, signos que repetem, sob novas formas, a narrativa essencial da jornada do homem: o monstro, a vítima inocente, o herói, o trapaceiro, o mistério (o inexplicável), a desgraça inesperada, etc. Quase todos senão todos que parecem frequentar —com perdão do clichê — as páginas ancestrais, hodiernas e, quiçá, futuras da história humana.
A ambiguidade necessária de que falava Barthes, entre o racional e irracional, “na medida em que o homem precisa de signos que o tranquilizem”, se faz presente ainda que momentaneamente o liberem do peso do sentido de tudo que lhe é exigido, e da responsabilidade, na medida em que esses signos são de conteúdo incerto, e é daí talvez que lhe advém a leveza de olhar para si, de suas tragédia e comédias humanas, e sorrir.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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1 Docente do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre Campus Sede. Doutor em Comunicação e Semiótica (Jornalismo/Ufac). E-mail: [email protected]
2 «Outras inquisições», no conto “O idioma analítico de John Wilkins» onde a enciclopédia é denominada de «Empório celestial de conhecimentos benévolos”.
3 Embora Roland Barthes não seja o primeiro a se debruçar sobre os faits divers, seu texto é tomado aqui como referência por sistematizar uma leitura de caráter estrutural desse tipo de narrativa. Antes dele, o fait divers já havia sido objeto de reflexões no âmbito da história cultural, da sociologia da imprensa e dos estudos sobre sensacionalismo e cultura popular, especialmente na tradição francesa. Trabalhos como os de Georges Auclair, Pierre Bourdieu, Dominique Kalifa e Danilo Angrimani exemplificam essa tradição anterior, que aborda o fait divers sobretudo a partir de suas funções sociais, históricas e simbólicas. Não é objetivo deste artigo reconstruir essa genealogia teórica, mas mobilizar a formalização proposta por Barthes como um modelo heurístico, em articulação com debates históricos e discursivos mais amplos sobre o jornalismo moderno e contemporâneo.
4 Por esse motivo é que se pode encontrar na seção Planeta, do Portal de Notícias do Terra, que é dedicada a conteúdos relacionados ao meio ambiente, sustentabilidade, energia, ESG (governança ambiental, social e corporativa), e a proteção da biodiversidade, o seguinte exemplo: “O caçador de dinossauros que achou no 'quintal' fóssil que será leiloado por milhões de dólares. https://www.terra.com.br/planeta/o-cacador-de-dinossauros-que-achou-no-quintal-fossil-que-sera-leiloado-por-milhoes-de-dolares,2f0b143b0992005939a4ac4877dbe5e8ln8zbif4.html
5 Aliás, é importante lembrar que há uma cronologia temática do fait divers. No XV, no seu início “relatavam guerras longínquas e acontecimentos excepcionais: celebrações dinásticas, infortúnios dos tempos, fenômenos meteorológicos ou paranormais, e a crônica criminal.” (HEITZEN, 2023, p. 28.) Já no século XVI, a invenção tomou conta dos canards e conviveu com o relato dos fatos criminais, também muitas vezes inventados, no século XIX.
6 Os termos 'nonsense', 'absurdo' e 'irracional' são empregados neste artigo como categorias nativas. Ou seja, referem-se às formas como o próprio campo jornalístico e o senso comum percebem e nomeiam eventos que rompem com a lógica da causalidade linear. Ao utilizá-los, busca-se descrever a percepção do objeto sobre si mesmo e o efeito de estranhamento gerado na recepção, e não estabelecer um juízo de valor analítico por parte do pesquisador.
7 Como acontece no texto no qual Eliane Brum mescla aspectos da crônica, da notícia e do fait divers: “Galinha é recolhida ao xadrez: o animal estava ao lado de um homem suspeito de homicídio.”
10 Motorista tem carro apreendido na Inglaterra ao dirigir com carteira de habilitação de Homer Simpson https://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/motorista-tem-carro-apreendido-na-inglaterra-ao-dirigir-com-carteira-de-habilitacao-de-homer-simpson.ghtml
11 Burro desaparecido por cinco anos é visto liderando manada de veados nos Estados Unidos https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/burro-desaparecido-por-5-anos-e-visto-liderando-manada-de-veados-nos-eua-veja-video/
12 Essa defesa do insignificante e da leveza que ele carrega não é um acidente, mas uma resposta sintomática à saturação de sentido. O fait divers não apenas diverte ou choca; ele absolve simbolicamente o sujeito das exigências de produtividade, racionalidade e controle que dominam a vida contemporânea.
13 Bataille (2013), em A Parte Maldita, desenvolve a ideia de que as sociedades produzem um excedente de energia ou riqueza que não pode ser reinvestido na produção e que, por isso, deve ser consumido de forma não produtiva — por meio do gasto, desperdício, luxo, festas ou sacrifícios. Esse gasto improdutivo é uma necessidade estrutural das sociedades, que revela uma dimensão irracional e simbólica da economia, afastada da lógica utilitarista e funcional tradicional.