A INFLUÊNCIA DAS INTERVENÇÕES INTERNACIONAIS DO ESTADOS UNIDOS E URSS NO DESENVOLVIMENTO DO CONFLITO INTERNO ANGOLANO, ENTRE 1975 À 1991

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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18373029


Alcides Justo Catito Camutali


RESUMO
O presente trabalho aborda sobre a intervenção internacional no conflito interno angolano, iniciado em 1975, durante o processo de independência, e estendido até 2002, no contexto da Guerra Fria. O conflito foi marcado não apenas por disputas políticas e étnicas internas, mas também por uma intensa influência de potências externas, EUA e a URSS, que actuaram de forma directa ou indirecta apoiando diferentes movimentos de libertação nacional: MPLA, FNLA e UNITA. O problema de pesquisa que orienta o estudo consiste em compreender de que maneira as nações internacionais interferiram no conflito interno angolano durante o período de 1975 a 1991. O objetivo geral do estudo é analisar as implicações militares externas dos EUA e da URSS na evolução do conflito interno angolano, à luz do contexto da Guerra Fria. Para tal, foram formuladas as seguintes questões de pesquisa: Em que medida as intervenções estrangeiras influenciaram a dinâmica e a duração do conflito interno angolano? Como as duas potências contribuíram para a intensificação da guerra civil em Angola? Tendo uma metodologia de abordagem qualitativa, histórica e interpretativa, utilizando pesquisa bibliográfica, documental e análise de conteúdo para examinar livros, artigos e documentos sobre as intervenções militares das duas potências no conflito interno angolano. Os resultados, mostram que o conflito interno angolano ultrapassou o carácter doméstico, sendo profundamente influenciado por interesses ideológicos e estratégicos das duas potências, que recorreram à intervenções indirectas e ao apoio aos seus aliados. Em síntese, a internacionalização do conflito interno angolano contribuiu de forma significativa para a sua intensificação e durabilidade, e chegou por transformar Angola em um dos principais palcos da Guerra Fria, ao mesmo tempo condicionou o processo político e militar do país no período em estudo.
Palavras-chave: Guerra Civil. Guerra Fria. EUA. URSS. Implicações.

ABSTRACT
This paper addresses international intervention in the Angolan internal conflict, which began in 1975 during the independence process and extended until 2002, within the context of the Cold War. The conflict was marked not only by internal political and ethnic disputes, but also by the intense influence of external powers, the USA and the USSR, which acted directly or indirectly supporting different national liberation movements: MPLA, FNLA, and UNITA. The research problem guiding this study is to understand how international nations interfered in the Angolan internal conflict during the period from 1975 to 1991. The overall objective of the study is to analyze the external military implications of the USA and the USSR in the evolution of the Angolan internal conflict, in light of the Cold War context. To this end, the following research questions were formulated: To what extent did foreign interventions influence the dynamics and duration of the Angolan internal conflict? How did the two powers contribute to the intensification of the civil war in Angola? Using a qualitative, historical, and interpretative methodology, employing bibliographic and documentary research and content analysis to examine books, articles, and documents on the military interventions of the two powers in the Angolan internal conflict. The results show that the Angolan internal conflict transcended its domestic character, being profoundly influenced by the ideological and strategic interests of the two powers, which resorted to indirect interventions and support for their allies. In short, the internationalization of the Angolan internal conflict contributed significantly to its intensification and duration, and transformed Angola into one of the main stages of the Cold War, while also conditioning the country's political and military process during the period under study.
Keywords: Civil War. Cold War. USA. USSR. Implications.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho referente a História de Angola, abordará sobre os aspectos relevantes ao conflito interno angolano que tivera iniciado em 1975 no que diz respeito as intervenções internacionais no conflito, isto é, durante o processo de independência, e só chegou ao seu fim em 2002. Conflito esse que começou durante o período da Guerra Fria 1947-1989. Neste mesmo período o território angolano chegou por sofrer diversas intervenções directas e indirectas de estados estrangeiros que possuíam seus próprios objectivos estratégicos sem que existisse um embate directo entre eles.

Assim, o presente trabalho tem como objetivo geral: Avaliar as implicações externas militares dos EUA e URSS no desenvolvimento do conflito interno angolano, olhando para o contexto da guerra fria. Para tal, será utilizado o desenho de pesquisa de teoria comparada com a realidade, fundamentado em consulta bibliográfica e de pesquisas científicas.

Pode-se constatar em Munford (2013), que ao longo da guerra fria, a intervenção indirecta foi se estabelecendo como a norma, sendo completamente dominante na política da época, de forma que o envolvimento directo das duas potêncis foi se tornando, sem dúvida, a exceção. Contudo, esse conceito é muito centrado no Estado, ignorando o papel que atores não estatais poderiam desempenhar, bem como, internacionaliza desnecessariamente as Guerras por Procuração, negligenciando a relevância das lutas regionais pelo poder que tais confrontos representam.

Isso posto, cabe ressaltar que o objecto de estudo é o conflito interno angolano, no período compreendido entre 1975-1991. O referido período foi selecionado, pois o ano de 1975 marca o início da guerra civil no território angolano, o estudo, é compreender as intervenções externas no conflito angolano.

Para tal, foi necessário identificar o seguinte problema de pesquisa: De que maneira, as nações internacionais chegaram por interferir no conflito interno angolano, durante o período da guerra fria, entre 1975-1991?

Além disso, foram formuladas as seguintes questões complementares que serão respondidas ao longo do trabalho e que auxiliarão no entendimento da questão central: Em que medida as intervenções estrangeiras influenciaram a dinâmica, a duração do conflito interno angolano?, Como as duas potências contribuíram para a intensificação do conflito interno em Angola?

Em função das características desses questionamentos a serem respondidas ao final da análise, não foram definidas hipóteses a serem testadas.

Para alcançar o propósito, o trabalho se desenvolverá após esta introdução, serão abordados os ideais de diversos autores com base ao problema em causa.

O estudo tem como objectivos específicos: Avaliar de que forma a Guerra Fria moldou a evolução e a duração do conflito angolano. Investigar as motivações políticas e estratégicas das duas potências na intervenção do conflito interno angolano. Identificar os apoios entregues pelas duas potências aos movimentos políticos angolanos.

O estudo centra-se no território angolano, abordando sobre a influência militares externas na guerra civil em Angola (1975-1991) no que diz respeito no processo do ensino de História.

Este tema tem uma grande importância, porque as implicações internacionais militares no conflito interno angolano revelaram uma instrumentalização de lutas internas por potências estrangeiras em função de interesses políticos. Essas mesmas implicações embora tivessem tornado o conflito ainda mais turbulento, também chegaram por desempenhar um papel crucial, isto é, para apaziguar as hostilidades por meio da pressão diplomática em mediações dos demais acordos de paz para o alcance da mesma.

A escolha do tema, é relevante porque serve-nos para oferecer uma contribuição no que diz respeito as publicações já existentes concernente as intervenções ou implicações militares das duas potências no conflito interno angolano, tendo a justificar-se pela necessidade de compreender como factores externos contribuíram para a intensidade e duração da guerra civil que marcou o território angolano por quase três décadas. Embora o conflito tenha raízes internas relacionadas à disputa pelo poder entre diferentes movimentos políticos e militares, a participação activa de potências internacionais durante a guerra fria como: URSS e EUA, transformou o território angolano em um dos principais palcos de confrontos no continente africano. Essa mesma busca justifica-se ainda na análise das intervenções para se perceber que o conflito não pode ser interpretado apenas como um fenómeno doméstico ou civil, como também, um processo profundamente influenciado por interesses externos, sejam eles políticos, ideológicos, estratégicos ou até mesmo económico.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para a realização do trabalho, foi necessário a existência de uma abordagem qualitativa, baseando-se em uma pesquisa bibliográfica concernente ao tema estudado, contando com obras já publicadas como, artigos científicos, revistas, relatórios de acordo ao estudo mencionado sobre a actuação da URSS e EUA no conflito interno angolano. Privilegiando autores que analisam o conflito interno angolano. Quanto a metodologia, a tipologia da pesquisa chega a ser qualitativa e exploratória. No que se refere às técnicas de análise dos dados, utilizou-se a análise de conteúdo, permitindo identificar categorias temáticas como a em estudo. Tendo uma interpretação fundamentada no diálogo crítico entre as fontes históricas e as contribuições teóricas de autores contemporâneos, possibilitando uma compreensão mais aprofundada.

Houve a necessidade de se utilizar métodos diversificados como, método histórico; que permitiu descrever e ainda interpretar a sequência dos acontecimentos, situando o conflito no contexto da Guerra Fria e identificando o papel das potências envolvidas. Segundo Marc Bloch (1886–1944), afirma que o método histórico deve ser, acima de tudo, crítico, problematizador e atento às relações humanas no tempo, rejeitando a simples narração de acontecimentos isolados. Método de análise-síntese, essenciais para estabelecer relações de causa e efeito e integrar criticamente as informações recolhidas. este método nos ajudou a analisar e sintetizar o conteúdo. Segundo Roja (2004), Chilanda (2024), salienta que este método de pesquisa nos permitiu a relacionar feitos supostamente isolados. Para Marconi e Lakatos, o método de análise consiste em decompor um fenômeno em partes, separando seus elementos constitutivos para compreender sua estrutura, suas relações internas e seus fatores determinantes. Assim, a análise permite identificar causas, componentes, variáveis e dimensões que formam o objeto de estudo. Já o método de síntese, segundo Lakatos e Marconi (2017), corresponde ao movimento inverso: após decompor o fenômeno, o pesquisador reconstrói o todo, articulando os elementos analisados para formar uma compreensão integrada, coerente e totalizante do objeto investigado.

Método exploratório: Este método nos ajudou a explorar e a descobrir novas ideias tendo em conta a temática em estudo. Segundo Gil (2008), diz que esta técnica nos permite objetivar, conquistar e familiarizar-se com o problema.

Método Comparativo, permitindo assim, a comparação de ideias de diferentes autores no que diz respeito as interv arando ainda as motivações estratégicas dos Estados Unidos da América e da União das enções directas e indirectas de apoios recebidos pelos movimentos políticos angolanos, comp Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Para Durkheim, o método comparativo: é o verdadeiro método de investigação sociológica”, pois permite compreender fenômenos sociais ao colocá-los lado a lado, identificando semelhanças, diferenças, regularidades e causas sociais que não seriam percebidas se cada caso fosse estudado isoladamente.

Emille Durkheim, afirma que, comparar não é apenas observar duas realidades distintas, mas relacioná-las sistematicamente para descobrir os princípios que estruturam o comportamento dos grupos humanos. Assim, o método comparativo possibilita explicar por que certos fenômenos ocorrem de forma diferente em contextos sociais específicos e revela os fatores que produzem variações entre sociedades, instituições ou acontecimentos históricos.

Método Bibliográfico: Chegando a ser a base central da revisão, que ajudou na recolha de dados em artigos científicos revistas e relatórios. Apoiando nas interpretações de diferentes autores como Carvalho (2015), Visentini (2012), Sobers (2019), Silva (2016), Mumford (2013), Maia (2006), entre outros. Segundo José Vilelas (2009), a pesquisa bibliográfica é entendida como um procedimento que permite “conhecer, analisar e interpretar criticamente o estado da arte sobre um determinado tema” (p. 47).

Método Interpretativo: Este método, chega a ser importante, porque o investigador não deve apenas descrever os fatos, mas compreendê-los, buscando o “sentido oculto” que se manifesta por meio de símbolos, narrativas e práticas culturais. Para Ricoeur, a interpretação é sempre um processo duplo: primeiro, o pesquisador deve explicar objetivamente o fenómeno (analisando contexto, causas, elementos e estrutura); depois, deve compreendê-lo, reconstruindo o significado que ele possui para os sujeitos envolvidos. Segundo Max Weber, o método interpretativo: é central para as ciências sociais, pois permite ao pesquisador compreender o sentido das ações humanas a partir da perspectiva dos próprios actores.

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Angola após séculos, sofrendo uma dominação colonial portuguesa, alcançou a sua independência em 1975, mas a transição foi marcada e chocante por tensões profundas entre os três principais movimentos de libertação nacional: FNLA, MPLA e UNITA, após a retirada dos portugueses o vazio de poder e estrutura política fragilizada era enorme, abrindo lugar para disputa armada, foi um conflito marcado não apenas por disputas políticas e étnicas internas mas também por uma forte intervenção de nações ou potências estrangeiras que possuíam ideologias divergentes.

Segundo Visentini (2012), em novembro de 1975, Angola alcançara sua independência, mas os conflitos, no entanto, não tiveram fim. Ao mesmo tempo em que MPLA proclamava em Luanda (com a retirada das autoridades e das últimas tropas portuguesas) a República Popular de Angola; a FNLA e a UNITA proclamavam, em Huambo, a República Democrática de Angola, constituindo, assim, dois governos paralelos. Portugal não reconheceu a legitimidade de nenhum dos dois, mas os demais países reconheceram gradativamente o governo do MPLA. Apenas em 1976, Portugal reconhece a legitimidade do governo da República Popular de Angola.

Para Silva, Z., (2016) O movimento de independência de Angola, historicamente, situa-se na crise do colonialismo europeu, originada com o fim da Segunda Guerra Mundial. Entre 1947 e 1976, os impérios se desfizeram abruptamente, acarretando no surgimento de dezenas de novos Estados independentes. Correia (2016).

A luta pela independência em Angola, se estendeu de 1961 até 1975, com o intuito de possibilitar a análise dos principais aspectos que desencadearam esse processo, assim como os fatores determinantes que contribuíram para o seu prolongamento, as principais causas do seu término e o desencadeamento de factos que auxiliarão na compreensão da Guerra Civil Angolana que ocorreu após a proclamação da independência.

As metrópoles foram palco de intensos conflitos durante a Segunda Guerra Mundial, diminuindo sua capacidade de manter a gerência sobre seus territórios coloniais, levando ao amadurecimento dos movimentos de libertação nacional iniciados na década de 1930. Além disso, os EUA, que ascenderam como a superpotência capitalista, ao fim desse conflito, buscaram favorecer a livre circulação de suas empresas transnacionais. Silva, Z.., (2016).

Como afirma Carvalho, (2015):

“Pode-se afirmar que a guerra civil em Angola iniciou ainda antes de sua independência, já que os movimentos de libertação não conseguiram um entendimento na divisão do poder, antes da data prevista para a separação política”. Carvalho, (2015).

Desta feita, o processo de independência de Angola, apesar de não ter sido uma vitória no terreno. As consequências dessa disputa propiciaram as condições para que o regime político se alterasse em Portugal, e com isso possibilitasse a separação política angolana.

Para Candace Sobers (2019) o conflito interno angolano bem como a sua independência, não podem ser compreendidas isoladamente pois os movimentos de libertação chegaram a recorrer ao sistema internacional para a busca de apoios políticos e militares. Assim, a internacionalização do conflito começou ainda antes de Angola consolidar a sua soberania.

I. O CONTEXTO DA GUERRA FRIA

Segundo Silva (2014), citado por Carvalho (2015, p.45), as Superpotências e seus aliados efetuaram a sua atuação na guerra de angola, de modo espontâneo ou por solicitação dos movimentos de libertação. Tatiana Maia (2006), esclarece que a participação das Superpotências no conflito angolano, estava pautada pelos seguintes motivos:

“O interesse despertado por ambas potências durante o período de Guerra Fria é absolutamente compreensível quando examinamos as configurações deste território. Além de apresentar riqueza mineral considerável, traduzidas nas grandes jazidas de petróleo e diamante existentes no seu subsolo, a posição geográfica De Angola também é verdadeiramente importante, tendo em vista que seu território domina a chamada “Passagem do Cabo”, ponto estratégico bastante relevante quando consideradas as regiões do Atlântico-Sul e da África Subsaariana”. Maia, (2006,p.75).

Durante a Guerra Fria os três movimentos recebiam apoio externo de acordo com seus alinhamentos. O MPLA por ter diretrizes de esquerda, era financiado pela URSS e Cuba. A FNLA por se descrever adepto do capitalismo, recebia apoio da África do Sul, EUA e Zaire. Já a UNITA que inicialmente se expressou como movimento de esquerda com vertente maoísta, nos primeiros anos angariou recursos da China, anos depois recebeu apoio da África do Sul e EUA por se denominar defensor da direita.

De acordo com Carvalho (2015), afirma que:

“inicialmente tanto os EUA como a URSS escolheram representantes estratégicas para executar os seus planos no território angolano, ambas as superpotências utilizaram esse mecanismo para não possibilitar uma luta direta entre elas. O autor acrescenta que baseados nessa estratégia, as superpotências escolheram os seguintes aliados: Os EUA associou-se a África do Sul e Zaire, para juntos apoiarem a FNLA e UNITA no combate ao MPLA. Já a URSS se aliou a Cuba, para ajudarem o MPLA na luta contra a UNITA e FNLA”. (Carvalho, 2015).

Os objetivos dos EUA em auxiliar a FNLA e a UNITA, iam muito além do combate ao colonialismo e a ascensão de um possível governo comunista no país, os EUA também pretendiam ter acesso facilitado aos recursos naturais do país e expandir a sua influência na África Subsaariana (PERSICI, 2010).

Para atingir tais objetivos, em 1975 a Central Intelligence Agency (CIA) abriu um escritório secreto em Luanda, que em cooperação com a África do Sul lançaram a “Operação IA Feature”, visando ajudar e fortalecer economicamente e militarmente a FNLA e UNITA no combate ao MPLA. Horing, (2015). O material bélico fornecido através dessa operação fazia escala no Zaire, que entregava as forças da FNLA e a UNITA por via terrestre (Sá, 2011 e Carvalho, 2015).

Após a segunda guerra mundial as duas potências procuraram estender as suas influências políticas, criando apoios diversificados aos movimentos de libertação nacional através de países da Organização do Atlético Norte (OTAN) liderados pelos Estados Unidos da América e o Pacto de Varsóvia, liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), por outro lado, a defesa dos interesses dessas superpotências levou a desavenças internas graves que enfraqueceram e dividiram as aspirações de independência no seio dos movimentos Nacionalistas angolanos. Essas alianças fizeram com que o conflito interno angolano assumisse proporções internacionais, transformado-se em um dos mais duradouros da África.

De acordo com Bernadino, (2015, p. 17), apresenta a seguinte ideia sobre a independência angolana no contexto da guerra fria:

“O autor argumenta que a independência de Angola não representou o fim das tensões externas, pois o país continuou a ser palco de dinâmicas regionais e internacionais marcada pela rivalidade entre as grandes potências. A guerra ainda afectou directamente a arquitectura da paz e segurança”. Bernadino (2015, p. 17)

Os resultados da segunda guerra mundial são considerados como marcos importantes nos acontecimentos que levarão à luta pela emancipação e independência dos povos colonizados da África e da Ásia. Após a guerra surgem duas novas potências com um poderio industrial consolidado, sem quaisquer possessões coloniais em África e ávidas em estender a sua influência em novos mercados ocupandos pelas potências coloniais europeias para encontrarem matérias-primas. A independência de Angola ocorreu em uma altura em que houve uma forte tensão no panorama internacional, consubstanciada.

As diferentes fases da Guerra Fria reverberaram, cada uma à sua maneira, na história angolana, em especial nos anos que correspondem à crise final do colonialismo português (entre 1961 e 1975) e à consolidação da independência (entre as décadas de 1970 e 1980). Elas também afetaram as dinâmicas regionais da África Austral, nas quais se inclui a relação entre Angola e África do Sul, particularmente ao longo dos anos 1980. Ao mesmo tempo, longe de ser um processo de mão única, as conjunturas regional e interna de Angola também impactaram a disputa entre as duas superpotências mundiais.

Segundo Tafotie e Idahosa (2016), Os EUA e a ex-URSS tentaram evitar o confronto direto entre suas forças militares convencionais em questões regionais, por conta do receio de que uma escalada da crise acarretasse numa destruição mútua assegurada.

De acordo com Mumford (2013), apresenta a seguinte ideia sobre o contexto da guerra fria:

“O término da segunda guerra mundial no ano de 1945, marcou o começo de uma batalha nuclear determinando assim o aumento ariscado de um holocausto nuclear. O desenvolvimento de um paradoxo instabilidade e estabilidade. Os estados ainda buscaram soluções para o fortalecimento das suas estratégias”. Mumfurd (2013).

De um lado, a Guerra Fria mostrou ser o cenário propício para a existência de diversos conflitos armados que se caracterizaram como Guerras por Procuração, em função da dissuasão nuclear e da política expansionista da ex-URSS em contraste à política de contenção dos EUA. Por outro, não se deve limitar sua conceituação apenas ao modelo teórico formulado no contexto bipolar das relações internacionais.

Em virtude da sua revisão, tem-se que a intervenção indirecta é o aspecto essencial e determinante para caracterizar a Guerra. Além disso, ela pode ocorrer em diversas formas de guerra, sejam elas internas ou não, mesmo com a interferência indirecta apenas em um lado do conflito, sendo que no outro lado, não há um envolvimento ou ocorre um engajamento directo.

II. A INTERNACIONALIZAÇÃO DO CONFLITO INTERNO ANGOLANO

Durante as décadas de 1970 e 1980 Angola tornou-se um palco simbólico da Guerra Fria. O MPLA, alinhado ao bloco socialista, recebeu apoio directo da União Soviética e da Cuba, que enviaram milhares de soldados e conselheiros militares. Do outro lado, a UNITA e a FNLA, recebiam apoio dos Estados Unidos. Foi neste quadro que o conflito interno angolano foi se projectando e desenvolvendo-se. Colocando filhos da mesma pátria em conflito durante aproximadamente 27 longos anos, com um período muito curto de paz entre Maio de 1991 e setembro de 1992

A intervenção estrangeira na guerra civil em Angola através de Russos e Americanos podemos ainda considerar como uma consequência de ser um país rico, ocupando uma importante posição estratégica. Costituíndo uma base potencial. A Rússia estava tão interessada em Angola como também os Estados Unidos da América.

No contexto do mundo bipolar, a África foi uma das regiões preferenciais para materializar o confronto entre as duas potências. Assim, os movimentos de libertação nacional, que surgiam nesse continente, escolhiam entre os blocos mundiais, primeiramente para conseguir apoio no processo de independência da metrópole. Entretanto, mais tarde, esse auxílio foi estendido para os conflitos entre tais grupos na disputa pelo poder. (Carvalho, 2015).

Segundo Carvalho (2015), Angola, no ano de 1975, entrou, definitivamente, como região de importância estratégia para os EUA, sendo um ponto de contenção para a política expansionista da ex-URSS. Todavia o cenário interno estadunidense impediu uma intervenção nos moldes do conflito no Vietnã. Dessa forma, Washington estabeleceu apoio aos movimentos nacionalistas que não estavam alinhados ao regime soviético com essa alteração da postura norte-americana, Moscou reforçou o suporte ao MPLA.

Em consequência disso, os EUA aumentaram o apoio financeiro e requisitaram a intervenção da África do Sul e do Zaire. Muitos equipamentos enviados pelos estadunidenses chegavam à FNLA e UNITA, pela fronteira do Zaire. A ex-URSS, diante disso, solicitou a intervenção cubana em Angola.

De acordo com Carvalho (2015), argumenta que:

“Com essa alteração da postura norte-americana, Moscou reforçou o suporte ao MPLA. Em consequência disso, os EUA aumentaram o apoio financeiro e requisitaram a intervenção da África do Sul e do Zaire. Muitos equipamentos enviados pelos estadunidenses chegavam à FNLA e UNITA, pela fronteira do Zaire. A ex-URSS, diante disso, solicitou a intervenção cubana em Angola”. Carvalho (2015).

Assim sendo, de um lado as ideologias das potências globais da época possuíam grandes divergências, que se materializavam por uma constante luta por áreas de influência no Mundo, se traduzindo como autoproclamadas política expansionista, do lado da ex-URSS, e de contenção, por parte dos EUA. De outra forma, como já afirmado, esses Estados concordavam no entendimento da necessidade de por fim ao colonialismo para atingir os objetivos mencionados. Sendo assim, iniciaram, ainda durante o processo de independência em Angola, a influência sobre os movimentos de libertação nacional, distanciando-os entre si.

III. A INTERVENÇÃO DOS EUA NO CONFLITO INTERNO ANGOLANO

Segundo Carvalho (2015), Os EUA justificavam sua posição argumentando que Angola era geograficamente estratégica para controlar suas linhas de comunicação marítimas de petróleo originadas do Oriente. Contudo, o fator principal era a política de contenção ao comunismo, o primeiro argumento apenas a reforçava.

Washington não possuía interesses em Angola enquanto perdurou a influência de Portugal, seu aliado na Organização do Tratado do Atlântico Norte e parceiro econômico. Essa perspectiva mudou no processo de independência, em virtude da sua provável absorção pelo bloco soviético, dada a influência da ex-URSS junto ao MPLA. A alteração da percepção do cenário conduziu os EUA a elevar a importância geoestratégica da região. Porém, com o seu recente fracasso na Guerra do Vietnã, tanto militar, como de opinião pública e político, o modo de atuação foi alterado para uma intervenção indireta.

Para Carvalho (2015) e Silva, Z, (2016), Argumentam que: Tal fato marcou a Guerra Civil angolana durante a Guerra Fria, sendo ela justificada pela necessidade de controle nas linhas marítimas de petróleo. Por este mesmo motivo, Angola, no ano de 1975, entrou, definitivamente, como região de importância estratégia para os EUA, sendo um ponto de contenção para a política expansionista da ex-URSS. Todavia o cenário interno estadunidense impediu uma intervenção nos moldes do conflito no Vietnã. Dessa forma, Washington estabeleceu apoio aos movimentos nacionalistas que não estavam alinhados ao regime soviético.

A despeito do Zaire já demonstrar a decisão de apoiar a FNLA desde 1973, a intervenção oficialmente só iniciou em 1975, após a solicitação feita pelos EUA. A partir julho de 1975, esse Estado disponibilizou para a FNLA vários batalhões de infantaria e de comandos, assim como unidades blindadas e de artilharia do exército zairense. Em setembro, batalhões de operações especiais são infiltrados em território angolano por avião. Em paralelo, houve o avanço de unidades blindadas do exército zairense os quais juntaram-se à FNLA e à UNITA. Porém, todo essa intervenção não conseguiu garantir a vitória militar. Silva e Agostinho, (2014).

Iniciou-se, durante o governo de transição, a escalada do conflito. A entrada em definitivo dos EUA, como apoiador da FNLA e UNITA, gerou a resposta soviética de intensificação do suporte ao MPLA. Em função disso, ambas as partes intensificaram a assistência, com o financiamento e fornecimento de material, cada vez maiores, culminando com a atração de outros Estados para o conflito, por meio de ações militares em território angolano.

Tendo em vista os aspectos apresentados, a intervenção indireta dos EUA, incrementada após a assinatura do Acordo de Alvor e o seu iminente fracasso, aliada ao ciclo vicioso instaurado em Angola atraíram novos atores externos, possuidores de seus próprios interesses. Entretanto, esses Estados atuaram como forças substitutas para a grande potência capitalista da época.

IV. A INTERVENÇÃO SOVIÉTICA NO CONFLITO INTERNO ANGOLANO

Para Silva e Agostinho (2014), A política externa na ex-URSS tinha por objetivo garantir um ambiente internacional aberto à ideologia comunista, para resguardar seus interesses estatais e alicerçar o socialismo em escala mundial. Essa política era orientada na defesa do seu território e do Leste Europeu, com a finalidade de implantar esse modo de produção em todo o globo, bem como limitar a obtenção de matérias-primas essenciais aos Estados do Ocidente.

No final de 1974, a intervenção soviética intensificou-se em Angola, por meio de um plano de fornecimento de armamento à MPLA pela fronteira com o território da República Popular do Congo. Porém, em julho de 1975, o governo congolês recua e rejeita a proposta. Com isso, Moscou acaba requisitando a intervenção de Cuba, para que atuasse como seu intermediário. Assim fica evidente que a intenção soviética era encobrir os rastros de sua interferência em Angola, a fim de limitar os riscos de um enfrentamento direto com os EUA. Além disso, um fracasso na ação seria assumido por Cuba, poupando a ex-URSS de uma possível humilhação pela derrota. (Carvalho, 2015).

Para Carvalho (2015), O armamento soviético e o apoio cubano permitiram que o MPLA hasteasse a nova bandeira angolana em Luanda, em 11 de setembro de 1975, superando a FNLA e a UNITA. Dessa forma, os únicos resultados alcançados pelos EUA foram a intensificação da intervenção da ex-URSS e a entrada de Cuba na disputa. Em virtude do aumento do apoio externo durante a consolidação da independência, os movimentos de libertação nacional em Angola passaram a possuir poder combatente necessário à elevação do conflito para uma guerra civil. O suporte de Cuba foi fundamental para que a MPLA conseguisse manter o controle sobre a capital, mas não foi suficiente para por fim às hostilidades.

Assim fica evidente que a intenção soviética era encobrir os rastros de sua interferência em Angola, a fim de limitar os riscos de um enfrentamento direto com os EUA. Além disso, um fracasso na ação seria assumido por Cuba, poupando a ex-URSS de uma possível humilhação pela derrota. Carvalho, (2015).

Tendo em conta aos argumentos demonstrados, a ex-URSS, por meio da política expansionista de difusão do comunismo, atuou em Angola desde o seu processo de descolonização, apoiando o MPLA na luta contra os colonizadores, enquanto que os EUA permaneciam mais afastados. Porém, a entrada estadunidense no conflito forçou os soviéticos à intensificarem sua atuação, resultando na entrada de Cuba no litígio e no estabelecimento da MPLA em Luanda.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objectivo de analisar as implicações das intervenções externas, em particular dos EUA e URSS, no desenvolvimento do conflito interno angolano no contexto da Guerra Fria, entre 1975 e 1991. A partir da análise realizada, pode-se afirmar que os objectivos propostos foram plenamente alcançados, bem como as questões de investigação apresentadas na introdução foram devidamente respondidas ao longo do estudo. Os resultados evidenciam que o conflito interno angolano não pode ser compreendido apenas como uma disputa doméstica entre movimentos políticos rivais, mas sim como um fenómeno profundamente internacionalizado, moldado pelas dinâmicas do sistema internacional bipolar. As intervenções indirectas das duas potências, motivadas por interesses ideológicos, estratégicos e econômicos, contribuíram de forma decisiva para a intensificação e a duração do conflito angolano.

No que diz respeito à questão central do estudo, pode se dizer que essa interferência ocorreu sobretudo por meio de guerras por procuração. Os EUA e a URSS evitaram o confronto directo, recorrendo a aliados regionais e ao apoio financeiro, logístico e militar aos movimentos angolanos alinhados às suas respetivas ideologias. Essa estratégia transformou Angola num dos principais palcos da Guerra Fria. Quanto às questões complementares, constatou-se que as intervenções estrangeiras influenciaram significativamente a dinâmica e a duração do conflito. O apoio dos EUA à FNLA e à UNITA, bem como o suporte da URSS ao MPLA, não apenas reforçaram a capacidade militar dos movimentos, como também reduziram as possibilidades de soluções políticas internas, alimentando um ciclo contínuo de violência. Dessa forma, as duas potências contribuíram directamente para a intensificação do conflito, ao invés de favorecerem um processo rápido de estabilização e reconciliação nacional.

A análise também permitiu compreender que a Guerra Fria moldou profundamente a evolução do conflito angolano, inserindo-o numa lógica global de contenção e expansão ideológica. As motivações das potências não se limitaram à solidariedade política, mas envolveram o controlo de áreas estratégicas, o acesso a recursos naturais e a afirmação de influência regional. Nesse sentido, Angola deixou de ser apenas um Estado recém-independente em crise. Embora não tenham sido formuladas hipóteses explícitas, os argumentos desenvolvidos ao longo do trabalho confirmam a ideia de que os factores externos foram determinantes para a intensidade e a longa duração do conflito interno angolano. Assim, o estudo sustenta a tese de que o conflito angolano deve ser interpretado como um fenómeno híbrido, resultante da combinação entre rivalidades internas e fortes interferências externas.

Assim sendo, como recomendações, sugere-se que estudos futuros aprofundem o papel de outros actores internacionais e regionais, como a África do Sul, Cuba e países vizinhos, bem como os impactos sociais, económicos e culturais de longo prazo dessas intervenções na sociedade angolana. Também se recomenda a ampliação das análises no âmbito do ensino da História, de modo a promover uma compreensão crítica sobre a influência das potências estrangeiras nos conflitos africanos e nos processos de construção do Estado pós-colonial.

Em síntese, o estudo contribui para uma leitura mais ampla e crítica da história contemporânea de Angola, demonstrando que a guerra civil não foi apenas o resultado de divisões internas, mas também o reflexo directo das tensões e interesses do sistema internacional durante a Guerra Fria.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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