EDUCAÇÃO E JUVENTUDES CONTEMPORÂNEAS: O CORPO-ESTÉTICO LÍQUIDO-MODERNO

EDUCATION AND CONTEMPORARY YOUTH: THE LIQUID-MODERN AESTHETIC BODY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778778785

RESUMO
Este artigo se constitui um breve estudo sob as lentes dos Estudos Culturais, utilizando-se do artefato cinematográfico do filme A Substância. O objeto de pesquisa remonta à análise das reflexões filosófica e sociológica a respeito do corpo-mundo e corpo-estético líquido-moderno, e suas contribuições para pensar o contexto das juventudes contemporâneas. O alinhamento metodológico utilizou-se da revisão de bibliografia, perfazendo-se da contribuição filosófica de Merleau-Ponty (2006) e do sociológico de Zygmunt Bauman (1999, 2004, 2007, 2008, 2018), aproximados dos teóricos: Richard Sennett (2012), Silvina Chmiel (1996) e David Le Breton (2003). O estudo se constitui de cunho qualitativo com a abordagem descritiva das análises. Do ambiente das análises ressalta o corpo como condição de ‘encarnamento’ no mundo atravessado pelas relações dos consumidores líquido modernos, do século XXI. Desse entendimento, caberá à escola organizar-se para acolher as juventudes contemporâneas, nos seus diversos contextos, priorizando atividades que reflitam as relações corpóreas, empáticas e cooperativas.
Palavras-chave: Corpo-mundo; Corpo-estético; Modernidade Líquida; Juventudes contemporâneas; Escola Pública.

ABSTRACT
This article constitutes a brief study under the lens of Cultural Studies, using the cinematographic artifact of the film The Substance. The research object focuses on a philosophical and sociological analysis of the body-world and liquid-modern aesthetic body, contributing to reflection in the school context of contemporary youth. A brief bibliographic review was used, which included the philosophical contribution of Merleau-Ponty (2006) and the sociological contribution of Zygmunt Bauman (1999, 2004, 2007, 2008, 2018), bringing together the theorists: Richard Sennett (2012), Silvina Chmiel (1996) and David Le Breton (2003). The qualitative study is based on the descriptive approach of the analyses. The body is highlighted as a condition of ‘incarnation’ in the world traversed by the relationships of modern liquid consumers in the 21st century. From the analyses, priority was given to reading the young body as a condition of status in contemporary times, the objectification of the aesthetic body as an incarnation of capitalism and the understanding that in school, the territory of contemporary youth, in its diverse contexts, activities that reflect bodily relationships become a priority, in the environment of empathetic and cooperative encounters.
Keywords: Body-world; Body-aesthetic; Liquid Modernity; Contemporary Youth; Public School.

1. INSTRUMENTALIZANDO O ARTEFATO

A vida humana é um caminho a ser trilhado desde a gestação, passando pelo desenvolvimento das diversas fases (infância, juventude e vida adulta), até atingir o seu limite de finitude. Percorrendo diversos contextos históricos, o indivíduo vive intensamente cada fase de sua vida, compreendendo os processos de sua finitude através da compreensão dos princípios do tempo e espaço que lhe são concedidos para existir.

Uma das experiências mais significativas da vida humana é a consciência de estar no mundo a partir de um corpo. O corpo que consiste na própria ‘materialização’ do ser que existe, dando início à sua própria jornada existencial. Especialistas em bioética, assim como numerosos pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, entendem o processo inicial da concepção da vida no instante da fecundação. Principiar esse conhecimento indicará a fascinante experiência de conectar o ato de existir a um corpo.

A sociedade, no século XXI, protagoniza, através de diversas teorias, a pertença do corpo ao mundo, entendendo as suas necessidades e os avanços que o constituem. O corpo materializado provoca a existência humana e a representa, no mundo, sob a condição materializada das experiências vividas e das convivências cotidianas. Portanto, nos foi atribuído examinar essa presença existencial, corporificada no humano que é desafiado aos experimentos líquido-modernos, na sociedade de consumo.

Com o exame de uma abordagem metodológica oriunda dos Estudos Culturais, de natureza qualitativa e com foco bibliográfico, nos foi possível realizar algumas reflexões: O que é o corpo na perspectiva filosófica merleau-pontyana e na concepção sociológica pós-crítica de Bauman? De que maneira o corpo se apresenta no mundo? Como se dão as experiências corpóreas líquido-modernas do século XXI? A educação se constitui um ‘espaço’ de construção corpórea das juventudes contemporâneas?

O escrutínio metodológico da literatura filosófica do século XX, em Maurice Merleau-Ponty (2006) e pós-crítico em Zygmunt Bauman (1999, 2004, 2007, 2008, 2018), aproximados dos teóricos: Richard Sennett (2012), Silvina Chmiel (1996) e David Le Breton (2003) que discutem o assunto, concluímos que a abordagem proposta representa uma forma de perceber o mundo e seus movimentos teóricos na interação corpo-mundo. Frente à questão que nos orienta, procuramos trazer elementos do cotidiano que nos fazem refletir sobre a realidade social e cultural, além das oportunidades que ela oferece.

Em uma cultura caracterizada pelas variadas visões de mundo e dinâmicas que o contextualizam, ao observar os movimentos sociais e culturais do século XXI, acreditamos que o escopo da obra teórica aqui apresentada, iluminará as reflexões a respeito do corpo-mundo. Também apresentará, por meio da análise de um artefato cinematográfico as leituras sociais e culturais sobre as concepções de corpo para as juventudes contemporâneas, na experiência do corpo-estético-consumidor.

Portanto, o texto foi estruturado da seguinte forma: inicialmente, tentamos compreender a visão filosófica merleau-pontyana do corpo e sua inserção no mundo. No segundo estágio, a análise do corpo é realizada sob a perspectiva pós-crítica baumaniana, compreendendo suas interações com a sociedade de consumo líquido-moderna. Em um terceiro estágio, o estudo concentrou-se na análise do filme "A Substância", como um corpo socialmente assujeitado e objetificado culturalmente. Em quarto lugar, o apelo à educação para uma abordagem assertiva na educação das juventudes contemporâneas, com ênfase na promoção de ambientes escolares empáticos e cooperativos.

2. O CORPO, ESTEIO DO SER NO MUNDO: ARTEFATO FILOSÓFICO MERLEAU-PONTYANO

Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo e psicólogo francês do século XX, teve em seu construto filosófico a influência de Bergson (rompimento com o dualismo cartesiano) e de Husserl (fenomenologia). Da mesma forma, sua aproximação com a filosofia existencialista de Sartre lhe permitiu observar não apenas a leitura do presente, mas também a condição histórica que sedimenta tais reflexões. É amplamente reconhecido por sua contribuição à fenomenologia e à filosofia da percepção. Sua obra mais notável, - Fenomenologia da Percepção – datada de 1945, aborda a relação entre corpo, percepção e experiência vivida, ressaltando o papel do corpo não apenas como objeto, mas como meio fundamental para a experiência do mundo vivido.

Sua contribuição filosófica assenta-se na ideia de explorar intensivamente a percepção do corpo humano e sua relação com o mundo. Para Merleau-Ponty (2006), o corpo não é apenas um objeto físico, mas uma condição essencial para a experiência perceptiva. Nesse sentido, os pontos-chave de seu pensamento refletem: a concepção de corpo como sentido e sujeito; percepção e embodiment (encarnação); intencionalidade corporal; relação com o tempo e o espaço; intersubjetividade e intercorporeidade e a crítica ao objetivismo.

Na concepção merleau-pontyana, o corpo não é apenas um objeto no mundo, mas também o sujeito que percebe. O autor enfatiza a ideia de que nossa experiência do mundo é sempre mediada pelo corpo. Para Merleau-Ponty, o corpo “é o movimento do ser no mundo” (Merleau-Ponty 2006, p. 117); somos seres encarnados e é através da presença do corpo que o sujeito experimenta o mundo. Conforme o autor, “[...] O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projetos e empenhar-se continuamente neles” (Merleau-Ponty 2006, p. 122). À vista disso, Merleau-Ponty compreende que não existe distinção clara entre o corpo e a mente, pois o corpo é o meio através do qual nos conectamos permanentemente com o mundo vivido.

Em Merleau-Ponty, o corpo é a condição da percepção. A forma como percebemos o mundo está intimamente ligada à nossa corporalidade. A noção de embodiment (encarnação) sugere que a experiência perceptiva é sempre situada, influenciada por nossas capacidades e limitações corporais. Na percepção merleau-pontyana, “[...] observo os objetos exteriores com meu corpo, eu os manejo, os inspeciono, dou a volta em torno deles, mas, quanto ao meu corpo, não o observo ele mesmo: para poder fazê-lo, seria preciso dispor de um segundo corpo que não seria ele mesmo observável”. (Merleau-Ponty 2006, p. 135). O conceito de “encarnamento” (Merleau-Ponty, 2006) ressalta que toda percepção é mediada pelo nosso corpo, que atua em um ambiente físico, ou seja, a experiência do mundo é sempre a partir da perspectiva de um corpo específico e situado no mundo.

Ao contrário do dualismo cartesiano, que separa mente e corpo, Merleau-Ponty (2006) argumenta que o corpo possui uma forma de intencionalidade. Isso significa que ele não simplesmente reage ao mundo; em vez disso, age de maneira que possui significados e propósitos. A intenção de Merleau-Ponty é dizer que, “[...] a perspectiva dos objetos só se compreende pela resistência de meu corpo a qualquer variação de perspectiva” (Merleau-Ponty 2006, p. 136). Dessa forma, o autor sugere que o corpo tem uma intencionalidade própria que se constitui “não mais como objeto do mundo, mas como meio de nossa comunicação com ele, ao mundo não mais como soma de objetos determinados, mas como horizonte latente de nossa experiência” (Merleau-Ponty 2006, p. 136-137). Isso significa que o corpo tende a se mover e envolver-se com o mundo de uma maneira significativa, guiada por intenções práticas.

O corpo nos permite experienciar o tempo e o espaço de maneiras que são próprias da nossa condição encarnada. O espaço é vivido através do movimento do corpo, e a temporalidade é percebida à medida que nos movemos e interagimos com o ambiente. Em Merleau-Ponty, compreendemos que “[...] o corpo é nosso meio geral de ter um mundo” (Merleau-Ponty, 2006, p. 203) e, no entanto, “[...] não se deve dizer que nosso corpo está no espaço nem tampouco que ele está no tempo. Ele habita o espaço e o tempo” (Merleau-Ponty, 2006, p. 193). A intenção merleau-pontyana está em explorar como o corpo cria seu próprio espaço ao interagir com o mundo. A percepção espacial é interior ao movimento corporal e ao modo como nos engajamos com o ambiente.

Segundo Merleau-Ponty (2006), o corpo é relacional, ou seja, se abre para a dimensão de intercorporeidade. Assim, o autor nos conduz à reflexão de que as nossas percepções são moldadas por nossas interações com outros corpos. Isso implica que a experiência do mundo é social e relacional – não experimentamos sozinhos, mas em um contexto de relações mútuas. Nessa perspectiva, torna-se necessário “ser uma consciência, ou, antes, ser uma experiência” (Merleau-Ponty, 2006, p. 142). Dessa forma o autor percebe a relação indivíduo-mundo-outro, como espaço de comunicação entre eles. As relações entre os corpos são fundamentais.

Nesse sentido, o autor faz a crítica ao objetivismo, principalmente às abordagens que tratam o corpo como um simples objeto ou máquina. Para Merleau-Ponty (2006), o corpo não se reduz ao objetivismo, mas porque faz relação com o mundo e com os outros corpos, percebe-se na intercorporeidade. Portanto, “ [...] meu corpo e as coisas, suas relações concretas segundo o alto e o baixo, a direita e a esquerda, o próximo e o distante, podem me aparecer como uma multiplicidade irredutível” (Meleau-Ponty, 2006, p. 328). A experiência humana não pode ser reduzida a processos físicos ou químicos; deve ser compreendida em suas complexas dimensões fenomenológicas.

Esses conceitos enfatizam a importância do corpo na formação da experiência e do conhecimento, desafiando noções tradicionais que separam o corpo da mente ou do mundo. O corpo é um meio de acesso ao mundo que é sempre ambíguo e multifacetado. Merleau-Ponty (2006) argumenta que nossa percepção é parte de um jogo contínuo de interpretações em que a visão e a experiência são moldadas por nosso ser corporal.

A reflexão merleau-pontyana nos leva a compreender que a percepção é sempre um ato encarnado, que envolve um entrelaçamento de subjetividades e experiências, revelando a complexidade da vida humana. Este enfoque fenomenológico não apenas desafia concepções tradicionais, mas também enriquece nosso entendimento sobre a nossa percepção de mundo e as nossas experiências corporificadas nele.

3. O CORPO LÍQUIDO-MODERNO: FRÁGIL ARTEFATO DAS RELAÇÕES REAIS E VIRTUAIS

Em Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo e filósofo polonês dedicado a analisar temas contemporâneos, tais como: política, amor, comunidade, trabalho, consumo, identidade, tempo, entre outros, encontramos reflexões sociológicas acerca das vivências e das relações sociais, institucionais e dos valores que se constituem latentes no século XXI.  Sob o construto sociológico, a partir do conceito de “Modernidade Líquida” (Bauman 2001), vimos na obra de Bauman a preocupação, não em dar respostas aos dilemas da atualidade, mas em fortalecer a reflexão que contrasta as experiências duradouras do mundo moderno (século XX) versus a fragmentação e o imediatismo da vida consumista da “modernidade tardia” (Bauman, 2001).

Entre as reflexões que constituem a base da metáfora da “Modernidade Líquida” (Bauman, 2001), encontra-se o processo de compreensão da ‘experiência corpórea’ que a caracteriza. O corpo se torna um projeto a ser constantemente construído e aprimorado, refletindo a busca incessante por individualidade e reconhecimento. Nessa perspectiva, torna-se necessário tecer algumas considerações, que se constituem relevantes na reflexão baumaniana, que fazem emergir as ideias do sólido e da liquidez, presentificadas nas experiências corpóreas.

Em Bauman (2001), processa-se a ideia do “derretimento dos sólidos” (Bauman, 2001, p. 9), significando o rompimento com os processos de ‘engessamento’ e ‘regramentos’, estabelecidos pela modernidade sólida (século XX), e se abre ao entendimento de que as relações humanas são tecidas sob a condição de “liquefação” e “fluidez” (Bauman, 2001). Nessa perspectiva, o corpo interage, na sua individualidade, tendo como esteio a ‘vontade de liberdade’, transgredindo as estruturas estáveis da modernidade.

Na compreensão baumaniana, o corpo líquido-moderno se relaciona em “rede” (Bauman, 2001, 2004, 2007, 2008), abandonando as antigas estruturas. Essas relações “agoristas” (Bauman, 2008, p. 50), de conexões e desconexões, tornam-se cada vez mais efêmeras, sob o cenário real e virtual. Na atualidade, considera-se a coexistência e a coautoria entre ambos, pois colaboram reflexivamente na elaboração do pensamento acerca do corpo líquido-moderno.  Para Bauman (2004, p. 13) “[...] Diferentemente dos ‘relacionamentos reais’, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’, significando a superficialidade, o desapego e a descartabilidade quanto à interação dos corpos.

Na compreensão de Bauman (2007), à medida que os relacionamentos virtuais se fortalecem, os corpos, em suas interações, se tornam cada vez mais impactados pelas relações de “insegurança e do medo” (Bauman, 2007, p. 18). Assim sendo, tanto a insegurança quanto o medo manifestam que “a liberdade de escolha é acompanhada de imensos e incontáveis riscos de fracasso” (Bauman, 2007, p. 71). À medida que o corpo se expõe ao mundo, fica ‘assujeitado’ aos julgamentos alheios que podem provocar as relações de incerteza, insegurança e medo.

Na sociedade de consumo líquido-moderna, o corpo torna-se um objeto de desejo e, ao mesmo tempo, uma mercadoria descartável, ou seja, sua presença poderá marcar o mundo como os “relacionamentos de bolso” (Bauman, 2004, p. 10), impactando sua própria condição existencial. Absorvida pelo desejo de ser vista e apreciada, a experiência corpórea deixa de ser apenas um organismo biológico e passa a ser um símbolo de status, sucesso e beleza, significando o “tipo de imagem que gostaríamos de vestir e por modos de fazer com que os outros acreditem que somos” (Bauman, 2001, p. 87).

Na sociedade de consumo, os sujeitos são estimulados à permanente busca pela perfeição do corpo. Como diz Bauman (2001, p. 92), “[...] a vida organizada em torno da busca pela boa forma promete uma série de escaramuças vitoriosas, mas nunca o triunfo definitivo”. Assim sendo, incentivo pela busca incessante da perfeição física alimenta a ideia de que o corpo é um produto que pode ser moldado e aperfeiçoado de acordo com os padrões estéticos vigentes, o que o condiciona a perseguir o status ideal.

Essa busca pela perfeição, no entanto, pode levar à insatisfação constante e à obsessão pelo ‘corpo perfeito’, gerando angústia e frustração. De acordo com Bauman (2001, p. 93), “[...] é um estado de autoexame minucioso, de autorrecriminação e autodepreciação permanentes, e assim, também de ansiedade contínua”. Essa exigência na adequação dos padrões de beleza estabelecidos pelos consumidores líquido-modernos poderá impelir os sujeitos a se sentirem inadequados e inseguros, afetando sua adesão ao mercado consumista.

Dessa forma, os sujeitos se expõem às experiências corpóreas subjetivadas ao condicionamento do olhar ambivalente (Bauman, 1999) e dos julgamentos que positivam ou negativam a real condição da existência no mundo. Na sociedade de consumo, o corpo se torna um campo de batalha na luta por reconhecimento e aceitação social, permitindo sua exposição ao escárnio do descartável (Bauman, 1999).

Para Bauman (1999), o ambiente das redes sociais, por exemplo, pode ser um espaço ambivalente de exposição e comparação, onde os corpos são constantemente avaliados e julgados pelos consumidores líquido-modernos. A busca por likes e comentários positivos pode alavancar os relacionamentos e as interações sociais, induzindo os sujeitos a se sentirem cada vez mais pressionados a exibir uma imagem idealizada de si mesmos, muitas vezes distante da verdadeira realidade (Bauman, 1999).

O corpo, como instrumento de apreço e de objetificação mercadológica, se torna o objeto da investigação baumaniana, na perspectiva do consumo. A sociedade de consumo líquido-moderna (Bauman, 2008) compreende a necessidade de ‘colocar-se em evidência’, prospectando o sujeito como um corpo que pode ser descartado à medida em que se constitui obsoleto para o mercado. “Tornar-se e continuar sendo uma mercadoria vendável é o mais poderoso motivo de preocupação do consumidor, mesmo que de forma geral latente e quase nunca consciente” (Bauman, 2008, p. 76).

Entende-se, no entanto, que os consumidores precisam estar dispostos a publicizar seus corpos, ensejando a evidência e a atualização permanente, sem riscos da obsolescência. Nesse sentido, o ‘outro’, no jogo de identificação da internet, é “reduzido a seu núcleo duro de instrumento de autoconfirmação um tanto manipulável” (Bauman, 2008, p. 148). As trocas manipuláveis, nas redes sociais, reduzem os sujeitos e os seus corpos à condição de mercadoria assujeitada às vendas permanentes.

À medida em que as relações humanas se tornam objeto do consumo desenfreado, na sociedade de consumo líquido-moderna (Bauman, 2008), os sujeitos necessitam se “comodificar” e “recomodificar” (Bauman, 2008, p. 82). Os seus corpos precisam estar condicionados à venda e à prosperidade, pois “o medo de não conseguir conformar-se foi posto de lado pelo medo da inadequação, mas nem por isso se tornou menos apavorante” (Bauman, 2008, p. 79). A adequação dos consumidores líquido-modernos consiste em “comodificar-se” e “recomodificar-se” (Bauman, 2008, p. 142) permanentemente. Não há dúvidas de que o mercado exigirá a ‘novidade’ e, se os consumidores não estiverem à altura das exigências, sofrerão consequências, ou seja, tornar-se-ão ‘corpos falhos asssujeitados’ (Foucault, 1979) à condição de ‘consumidores falhos’ ou a “subclasse” (Bauman, 2008, p. 156).

4. CORPOS ASSUJEITADOS À CONDIÇÃO LÍQUIDO-MODERNA: UMA ANÁLISE DO ARTEFATO CINEMATOGRÁFICO ‘A SUBSTÂNCIA’

Na perspectiva dos Estudos Culturais, o grupo de Pesquisas Juventudes e Educação (GPJED) tenciona as discussões que refletem o cotidiano das juventudes na sociedade contemporânea. Nesse sentido, os estudos do GPJED estão comprometidos com a proposta de autores pós-críticos que embasam e exploram em suas leituras-análises essa temática, promovendo discussões atualizadas com base no contexto social e cultural das juventudes.

Dos muitos constituintes do GPJED está a busca por “conversar” (Larrosa, 2019) com artefatos culturais, do cotidiano, que expõem os sujeitos-jovens, à reflexão social das diferentes identidades que constituem a sociedade contemporânea, em contraponto à diversidade das linguagens, isso significando a abertura para o que está em ‘perspectiva’, em ‘construção’, entendendo a dimensão do ‘inacabamento’. Diante desse entendimento, a análise do filme A Substância, dirigido pela roteirista e diretora francesa Coralie Fargeat, torna-se um artefato para a análise, ensejando corroborar para as leituras a respeito do ‘corpo-mundo’ e ‘corpo-estético-líquido’.

Os sujeitos, segundo Maurice Merleau-Ponty, se presentificam no mundo a partir de um corpo. Essa concepção faz com que o filósofo se contraponha ao pensamento “cogito ergo sum”, descartiano, “penso, logo existo” (Descartes, 2001). Merleau-Ponty afirma que, para pensar, primeiramente, há a necessidade da existência, logo apresenta um novo código: “existo, logo penso” (Merleau-Ponty, 2006), buscando expressar a subjetividade conectada com o mundo. Já Zygmunt Bauman reflete os sujeitos conectados à “Modernidade Líquida” (Bauman, 2001, 2008), experienciando o consumismo como condição de ‘aparecimento’ ou ‘pertencimento’ ao mundo. Os autores representam o corpo como um artefato que está no mundo, conectado com as suas condições sociais e culturais, subjetivando as suas relações.

Desse modo, o filme A Substância, do gênero body horror, com cinco indicações ao Oscar em 2024, constitui um artefato cultural para conectar a consciência filosófica e fenomenológica de Merleau-Ponty e a consciência sociológica de Bauman. Sua autenticidade e complexidade, durante 150 minutos, mergulham em profundidade na reflexão quanto à experiência da sociedade de consumo líquido-moderna: as compras, as vendas e a vida como exposição permanente aos julgamentos alheios. Os corpos se tornam atrativos permanentes e se colocam como mercadoria à compra e à venda, nas diversas redes sociais, disponibilizadas pela internet. Os sujeitos são percebidos como um ‘corpo que está a serviço’ do mercado capitalista e regulador do consumo.

No início de A Substância, as cenas não verbais constituem uma síntese do filme. A imagem do transitório, da fluidez, do volátil, na vida de glamour de uma atriz, que logo se torna obsoleta ao mercado, revela os pontos focais da trama. A vida é um trânsito permanente de ‘passagem’, ou seja, está visível e operante, àquele que melhor se apresenta como condição mercadológica para os consumidores do momento.

O corpo precisa se tornar a marca do negócio. A idade se constitui o instrumento de medição para a permanência no mercado. O filme - A substância - revela a necessidade de estar conectado a um mercado exigente, que objetifica (Bauman, 2001, 2008) o ser e o torna ultrapassado à medida em que não serve mais aos consumidores. A experiência corporal está designada aos holofotes do momento. Nada é durável no mercado capitalista, que regula o sentido da vida, que se deixa consumir e que ao mesmo tempo consome.

Os atravessamentos da vida contemporânea exigem que os sujeitos se conformem ao que é posto como condição para estar no mundo. As experiências são perpassadas pelo modus operandi do ‘agorismo’ (Bauman, 2008), que é datado. Aquele que está aquém da emergência de consumir se torna um indesejado, um fracassado, um incômodo para a sociedade de consumo. Segundo Bauman (2008), esses sujeitos se apresentam na sociedade de consumo líquido-moderna como “consumidores falhos”, “homens-sanduíche” (Bauman, 2008, p. 158), que podem atrapalhar os “consumidores de boa-fé” (ibidem).

Em - A Substância -, a protagonista Elisabeth Sparkle é ‘assujeitada’ (Foucault, 1979) ao mercado de trabalho e aos julgamentos daqueles que a consomem diariamente, na televisão. Sua vida está condicionada a dar prazer ao machismo social e a projetar o corpo de outras mulheres, que a assistem, para que permaneçam necessárias à sociedade de consumo. A descartabilidade (Bauman, 2001) mantém-se o nutriente do mercado compulsivo e alienado do consumismo.

Do ponto de vista do consumidor televisivo, Elisabeth Sparkle, como também o seu programa de estética física, não poderão se tornar obsoletos, pois a troca por algo e alguém melhor será a saída para o aquecimento do mercado. Bauman atesta esses insights como um “nascimento em série” (Bauman, 2008, p. 130), ou seja, a permanente necessidade de recomeços ou reinícios. No filme, a protagonista, mercadoria que se tornou descartável, passa pela situação de se condicionar às exigências do mercado do consumo estético. Sem muitas reflexões, se assujeita a um produto-substância desconhecido, que recodifica seu corpo estético à experiência jovem, ou seja, a um novo início.

Toda a trajetória e lucros onerados à empresa televisiva à qual a protagonista se assujeita são colocados em cheque. Aos cinquenta anos de idade, ao finalizar mais um de seus programas estéticos, dedicado à existência fitness, Elisabeth Sparkle é transpassada por uma notícia, as escusas, no banheiro masculino da empresa, que primeiramente, passa pelo crivo do julgamento estético, sem se importar com o sujeito. A dispensa daquele corpo feminino desajustado ao mercado de consumidores revela a não preocupação com a trajetória do sujeito, mas com o que ele está deixando de produzir para o mercado capitalista.

No assombro da demissão do trabalho, na data de seu aniversário, a protagonista, durante exames médicos, é convidada a experimentar uma substância que replica as células do corpo criando, temporariamente, uma versão mais jovem de si mesma. Ao ser informada sobre o produto, Elisabeth Sparkle, o consome sem entender sobre os danos colaterais, que lhe causarão efeitos inesperados. Na ânsia de se manter no mercado de trabalho, como uma mercadoria vendável, a protagonista assume os riscos de experimentar a substância, com a promessa de um ‘novo início’. Em sua essência, a substância se torna um produto de autodestruição.

Para Bauman (2008, p. 131), “cada novo começo só pode levar você até aí, e não mais; todo novo começo prenuncia muitos outros por vir”. Qualquer momento tem uma irritante tendência a se transformar em passado – e, mais do que depressa, chegará a sua vez de ser desabilitado. A capacidade de desabilitar o passado é, afinal de contas, o significado mais profundo da promessa de habilitação portada pelos bens oferecidos nos mercados de consumo.

A ânsia por recomeçar e manter-se jovem, conectada com as propostas do mercado de trabalho, faz com que Elisabeth Sparkle mergulhe numa sequência de cenas, a seguir, que a desconectam plenamente de sua própria existência, de sua história. O medo de se tornar obsoleta na sociedade de consumo faz com que esta busque se desabilitar do passado para aderir aos “novos começos” (Bauman, 2008, p. 130), principalmente em relação ao seu corpo estético.

A pesquisadora Silvina Chmiel (1996) discute temas como corpo, juventude, envelhecimento e estética, especialmente dentro do contexto contemporâneo. Uma de suas contribuições mais relevantes está relacionada ao que ela chama de “mito da eterna juventude”, um conceito que dialoga com autores como Bauman.

Para Chmiel (1996) o mito da eterna juventude trata-se de uma ideologia cultural contemporânea que coloca a juventude como ideal absoluto de beleza, valor e desejo. Essa lógica naturaliza a ideia de que envelhecer é algo a ser combatido. Coloca o corpo jovem como modelo normativo – tudo que foge disso é visto como defeituoso, decadente ou inadequado.

A autora destaca que não se trata apenas de uma questão estética, mas sim de uma construção social e simbólica, onde o corpo envelhecido é invisibilizado, desvalorizado na cultura do consumo. A juventude, ao contrário, é vendida como produto e promessa: cremes, cirurgias, procedimentos estéticos, fitness, dietas e medicamentos. A sociedade passa a encarar o envelhecimento como fracasso pessoal, algo que deve ser evitado a todo custo.

Esse mito se alinha com os ideais neoliberais de autogestão e responsabilidade individual, onde cada um se torna responsável por manter-se jovem e ‘em forma’, o que reforça a indústria da beleza e da medicina estética. O corpo vira um território de controle, cuidado constante e, muitas vezes, sofrimento. A juventude passa a ser um estado idealizado, quase impossível de sustentar, gerando angústia e frustração. O mito da juventude eterna atua como um dispositivo biopolítico que transforma o envelhecimento em ameaça e a juventude em capital simbólico e estético. Envelhecer torna-se algo que deve ser disfarçado, atrasado, silenciado. (Chimiel, 1996)

Le Breton (2003) em sua obra Adeus ao corpo: antropologia e sociedade, discute de maneira crítica e profunda as transformações contemporâneas da relação do ser humano com o próprio corpo, especialmente no contexto da modernidade tardia e da tecnociência. O autor destaca que na Modernidade Tardia o corpo é visto como projeto e não mais como destino, argumenta que, na sociedade contemporânea, o corpo deixou de ser algo dado, natural e imutável, para se tornar um objeto de transformação constante, um projeto pessoal. As pessoas hoje sentem que têm o direito (e até o dever) de modificar seus corpos para se adequarem a padrões culturais, estéticos ou performativos.

No filme, a protagonista, recorre a uma substância para restaurar sua juventude, refletindo a busca incessante pela perfeição física. Esse processo de transformação do corpo em mercadoria é evidenciado pela pressão da indústria do entretenimento, que valoriza a aparência jovem e descarta as mulheres à medida que envelhecem.

O sociólogo também aborda como o corpo é um espaço de violência simbólica, especialmente para as mulheres, que são constantemente pressionadas a atender a padrões estéticos. Em - A Substância -, a protagonista enfrenta essa violência ao se submeter a procedimentos estéticos invasivos para atender às expectativas da indústria cinematográfica. A narrativa expõe como essa pressão pode levar à autodestruição, refletindo a violência simbólica que Le Breton descreve.

No centro da narrativa está uma fórmula científica que promete restaurar a juventude, devolver a vitalidade e beleza perdidas com o tempo. Essa ‘substância’ é uma metáfora poderosa daquilo que Le Breton chama de: ‘corpo fabricado’ — um corpo que não é mais aceito como dado natural, mas sim manipulado, aprimorado e corrigido por meio de intervenções técnico-científicas.

Le Breton (2003) observa que, na sociedade contemporânea, o corpo passa a ser visto como algo a ser controlado, corrigido, superado. E é exatamente isso que a protagonista Elisabeth Sparkle busca, ao se submeter à substância, ela nega o envelhecimento natural, um processo biológico inevitável. O corpo se torna um campo de intervenção tecnológica, dominado por uma promessa de rejuvenescimento absoluto, sem limites ou consequências aparentes.

Conforme Bauman e Leoncini (2018), os nascidos em tempos líquidos são capazes de mudar os próprios limites e viver puramente das suas circunstâncias. No entanto, aqueles que nasceram sob as condições ‘sólidas’ (Bauman, 2001) da sociedade contemporânea são transpassados pelo ‘novo’ modelo sociocultural que lhes é imposto. O senso estético, sob a perspectiva dos autores, se torna uma ação cultural e coletiva, modelando a completude subjetiva e objetiva dos sujeitos. Nada é permanente e tudo muda instantaneamente.

As transformações do corpo, em leitura histórica e sociológica, mostram-se atrativas e condicionadas à cultura dominante (Bauman; Leoncini, 2018), ou seja, emergem da “representação do eu na vida cotidiana” (Bauman; Leoncini, 2018, p. 19). Ciente desse compromisso social e cultural, e para responder positivamente às exigências de consumo do momento, Elisabeth Sparkle se lança para sua própria ‘decadência’ humana, enquanto sujeito atravessado pela ‘ditadura’ do corpo estético, perfeitamente dominado pelo mundo líquido-moderno.

O aceite do uso de uma substância desconhecida e a incapacidade de potencializar as consequências a que esse experimento poderá a condicionar, a protagonista se lança ao aparente recurso que mediará a ‘salvação’ à sua carreira. A estética de um ‘corpo jovem’ e comprometido com a beleza superficial demanda um retorno desastroso, à medida em que o corpo envelhecido luta contra o outro corpo rejuvenescido.

Na era da cultura de consumo, os sujeitos consumidores são potencializados a consumir freneticamente, em disputa com outro consumidor. Sua conduta não exigirá comprometimento com os danos e as consequências de suas escolhas. Apenas viva o laissez-faire, permitindo que o modus operandi social determine as normas. Segundo Bauman e Leoncini (2018, p. 24), “quanto mais o indivíduo sofrer para alcançar seu status, mais ele é digno de carregar-lhe a marca, mais tem a honra de fazer parte dele”. Nesse sentido, o sofrimento faz parte do construto de uma existência permeada pelo ato de consumir.

Mediante os apelos da vida de consumo, impostos pela sociedade midiática, a protagonista livremente assentiu às consequências de sua escolha. A cada dosagem da substância que lhe foi propiciada, a estética jovem foi silenciando o corpo envelhecido pelo tempo. “A cultura dominante é, por conseguinte, a arma que legitima, através da “moda”, a sinergia “autodestruição” e “humanização” da beleza, rumo ao estereótipo do modelo de beleza ideal” (Bauman; Leoncini, 2018, p. 26). Em contraponto, a essência corporal que se permitiu ao experimento, ao se dar conta do erro, e o quanto foi cedendo espaço ao novo corpo estético, após lutas incessantes, buscou reverter sua adesão à experiência.

Sem poder retornar ao início de sua adesão, a protagonista transgrediu sua própria consciência, aderindo à imagem monstruosa de um corpo sem forma e obsoleto aos desejos compulsivos da sociedade de consumo. De acordo com Bauman e Leoncini (2018), a cultura contemporânea corrobora para que os consumidores façam o que precisarem fazer para sua autoprojeção no mundo. Nesse sentido, os consumidores são colocados à prova e ao escárnio alheio daqueles que os consomem. É preciso “melhorar o aspecto do próprio corpo” (Bauman; Leoncini, 2018, p. 29). Aquele que não se sujeita ao mercado consumidor torna-se um ser degradante, repugnante e desprezível aos olhos da sociedade contemporânea.

Dilacerada, na busca da perfeição do corpo estético, vendável ao mercado televisivo, a protagonista rompe com todos os padrões permitidos e valorizados pelo mercado consumidor. O corpo desforme diante do público-espectador e da rede televisiva principia o pavor e o medo, o nojo e a aversão, causando um “golpe fatal, humilhante e doloroso contra a própria autoestima” (ibidem) dos consumidores.

As cenas finais do filme remontam às cenas iniciais, de maneira a produzir a síntese reflexiva de - A Substância -, que expõe a vida consumista líquido-moderna como ela é de fato. A exigência da flexibilidade na sociedade de consumo reverbera na incessante busca por tornar os consumidores ávidos em transferir ao mundo a ideia de ‘transgressão’ e do ‘inacabado’. Verifica-se que o medo de se tornar ‘esquecido’ em meio à multidão torna-se uma referência prioritária para a análise do filme.

Diante do referencial analítico, cabe-nos a reflexão a respeito daquilo que a educação é capaz de prover, como movimento contrário à necessidade de exploração do corpo estético, reverberado no mundo líquido-moderno, como condição mercadológica. O ambiente escolar se constitui um espaço-lugar em que o jovem estudante se sente pertencente? É possível vislumbrar o jovem como um ‘corpo’ em processo de construção, no ambiente escolar?

5. ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES: JUVENTUDES CONTEMPORÂNEAS E A EXPERIÊNCIA EMPÁTICO-CORPORAL NO AMBIENTE ESCOLAR

Apoiado no pensamento dos autores que referenciaram o estudo até aqui, e compreendendo as práticas da sociedade de consumo, no século XXI, torna-se necessário tecer um breve ensaio sob a perspectiva do ‘corpo-jovem’ entranhado no ambiente escolar. É fato que, muito mais que a tessitura de conceitos, está a intenção de pensar as juventudes contemporâneas dentro do prospecto até aqui refletido: corpo-mundo e corpo-estético-líquido.

Em uma abordagem mais dinâmica, é possível pensar as juventudes contemporâneas ‘assentadas’ ao ambiente escolar, como pertencentes ao ideário empático e cooperativo, conforme nos propõe a reflexão sociológica sennettiana. Diante do contexto líquido-moderno, da vida individualizada e procrastinada à separação dos corpos, o sociólogo norte-americano Richard Sennett (1943 -), preconiza um modelo de sociedade que priorize as conversas dialógicas (Sennett, 2012).

Nesse sentido, Sennett (2012) propõe um caminho em que os sujeitos, em sua comunicação corporal, evitam as práticas que se tornam permanentes embates ou disputas, e se configuram em um “ricochetear de pontos de vista e experiências de forma aberta” (Sennett, 2012, p. 37). O autor tenciona às convivências e relacionamentos que priorizem as conversas sempre abertas (Sennett, 2012). A prática do ambiente empático configura-se a encontros dialógicos entre os sujeitos, nas suas diferentes formas de percepção do mundo. Os corpos se entrelaçam, dinamicamente, respeitando as diferenças que se encontram em cada um.

Ao priorizar o conceito de “empatia” (Sennett, 2012), significando “uma prática mais exigente, pelo menos na escuta; o ouvinte precisa sair de si mesmo” (Sennett, 2012, p. 34). A proposta sennettiana se firma na busca por conversas que possam convergir no exercício da escuta empática do outro. Esse espaço de escuta se torna caminho de aperfeiçoamento das relações corpóreas e se constitui uma exigência àqueles que participam ativamente dos espaços escolares, entre eles, os jovens-estudantes.

Para Sennett (20212), urge a necessidade de encontros que abandonem as práticas capitalistas, do consumismo, da sociedade de consumo líquido-moderna’ (Bauman, 2008), buscando efetivar as conversas dialógicas que promovam, não mais os combates e as disputas, mas “empatia” e a “cooperação” (Sennett, 2012). Os corpos jovens, no ambiente escolar, são estimulados ao convívio e à maturação de seus relacionamentos, evitando o distanciamento dos encontros que promovam o sentimento de pertencimento ao coletivo.

Encontrar-se empaticamente confrontará, no cotidiano escolar, os jovens-estudantes que permanecem assentados em vivências escolares predispostas às práticas individualistas e consumistas. Em meio à dispersão e à segregação provocadas pela cultura do individualismo, as identidades juvenis, pertencentes à sociedade de consumo líquido-moderna (Bauman, 2008), são motivadas a abraçar as experiências relacionais, de entrelaçamentos coletivos. A escola, no entanto, como um dos espaços onde se firmam as relações humanas, precisa movimentar-se oferecendo ações pedagógicas que preconizem um contínuo abraço feliz entre todos. Os corpos dos estudantes jovens precisam, permanentemente, ser estimulados às práticas dialógicas que revigoram os sentimentos de pertencimento e de coletividade no espaço escolar.

À medida que a sociedade do século XXI se configura aos preceitos de flexibilização e de volatilidade das convivências humanas, a resposta do ambiente educacional necessita confrontar o imediatismo e desacelerar o processo de descontinuidade das relações humanizadas. Enseja-se que os profissionais da educação, ao se depararem com tal situação social e cultural, possam inverter, por meio de propostas educacionais reflexivas e coletivas, a intenção prospectada pela modernidade líquida (Bauman, 2001).

Os encontros empáticos e a sensibilização para a cooperação mútua, por meio das conversas dialógicas, protagonizadas na escola, poderão constituir as identidades-jovens-empáticas, perfazendo caminhos que se distanciem das subjetividades individualistas. Todavia, a escola poderá se tornar um espaço de pertencimento, em que os jovens se sintam acolhidos e motivados aos relacionamentos corpóreos que produzem a solidariedade entre si.

Evocando a análise do filme – A Substância –, é possível perceber que o campo educacional se torna um espaço bastante fértil para provocar reflexões e ações contrárias ao comportamento de Elisabeth Sparkle. A educação, nas suas diferentes áreas de atuação, poderá estimular as juventudes contemporâneas na edificação de movimentos sociais e culturais que transcendam a perspectiva solitária da sociedade de consumo (Bauman, 2008).

Todavia, a educação para as juventudes contemporâneas precisa maturar ações pedagógicas que mobilizem novos e intensos movimentos de solidariedade e coletividade. Movimentações, essas, que promovam a humanização da pessoa e dos espaços onde ela tece as suas relações. Caberá à escola vencer o pessimismo das convivências solitárias, individualistas e descartáveis, e lançar-se como promotora de relações tecidas na esperança e no compromisso de efetivação do bem comum a todos.

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1 Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação Mestrado e Doutorado Profissional de Educação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - UERGS -. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional de Educação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - UERGS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2806-9726.

2 Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Professora adjunta do Curso de Pedagogia na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Professora do programa de Pós Graduação em Educação, Mestrado e Doutorado Profissional em Educação na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - PPGED/UERGS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8430-9483.