REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778810757
RESUMO
O envelhecimento populacional constitui uma das principais transformações demográficas contemporâneas, demandando políticas públicas voltadas à garantia da participação social, da cidadania e da dignidade das pessoas idosas. Nesse contexto, a educação ao longo da vida emerge como estratégia relevante para inclusão social e prevenção do isolamento social. O presente estudo teve como objetivo mapear, analisar e sintetizar evidências científicas acerca das contribuições das práticas educacionais formais e não formais para a inclusão social e mitigação do isolamento social entre pessoas idosas. Trata-se de revisão de escopo conduzida conforme as diretrizes do Joanna Briggs Institute e do PRISMA-ScR, utilizando a estratégia População–Conceito–Contexto. As buscas foram realizadas nas bases Scopus, Web of Science, PubMed, ERIC, SciELO e LILACS, além do Portal de Periódicos da CAPES. Foram identificados 93 registros iniciais, dos quais 24 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade e compuseram o corpus final da análise. Os resultados evidenciaram crescimento das publicações entre 2021 e 2024, com predominância de estudos desenvolvidos em países do Norte Global e no Brasil. As práticas educacionais identificadas relacionaram-se ao fortalecimento de vínculos sociais, ampliação da participação comunitária, inclusão digital e redução do isolamento social. Conclui-se que a educação constitui eixo estratégico para promoção da inclusão social de pessoas idosas, demandando políticas intersetoriais articuladas às áreas da educação, saúde, assistência social e cultura.
Palavras-chave: envelhecimento; inclusão social; isolamento social; educação; intergeracionalidade.
ABSTRACT
Population ageing represents one of the main contemporary demographic transformations, requiring public policies aimed at ensuring social participation, citizenship, and dignity for older adults. In this context, lifelong education emerges as an important strategy for social inclusion and the prevention of social isolation. This study aimed to map, analyse, and synthesise scientific evidence regarding the contributions of formal and non-formal educational practices to social inclusion and the mitigation of social isolation among older adults. A scoping review was conducted following the Joanna Briggs Institute and PRISMA-ScR guidelines, based on the Population–Concept–Context strategy. Searches were carried out in Scopus, Web of Science, PubMed, ERIC, SciELO, and LILACS databases, in addition to the CAPES Journal Portal. A total of 93 records were identified, of which 24 studies met the eligibility criteria and composed the final corpus of analysis. The findings showed an increase in publications between 2021 and 2024, with predominance of studies developed in Global North countries and Brazil. The educational practices identified were associated with strengthening social bonds, expanding community participation, promoting digital inclusion, and reducing social isolation. It is concluded that education constitutes a strategic axis for promoting social inclusion among older adults, requiring intersectoral policies articulated with education, health, social assistance, and culture.
Keywords: ageing; social inclusion; social isolation; education; intergenerationality.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional constitui um dos principais fenômenos demográficos contemporâneos, produzindo impactos sociais, econômicos e políticos em escala global. Segundo o relatório World Population Prospects 2024, publicado pelas Nações Unidas, mais de 1,1 bilhão de pessoas no mundo possuem 60 anos ou mais, com projeção de ultrapassar 2,1 bilhões até 2050 (UNITED NATIONS, 2024). Esse cenário impõe desafios que extrapolam os sistemas de saúde e previdência, alcançando dimensões relacionadas à participação social, cidadania e democracia.
No Brasil, o envelhecimento ocorre de forma acelerada e marcado por desigualdades estruturais. Dados do Censo Demográfico de 2022 indicam que a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 7,7% em 2010 para 14,7% em 2022 (IBGE, 2023). Esse contexto evidencia a necessidade de políticas públicas que assegurem proteção social e acesso a direitos educacionais, culturais e políticos ao longo da vida.
A educação ao longo da vida, reconhecida internacionalmente como direito humano fundamental, emerge como estratégia relevante para promoção da inclusão social e fortalecimento da cidadania na velhice. Ao possibilitar acesso a conhecimentos, tecnologias e espaços coletivos de convivência, a educação contribui para fortalecimento de vínculos sociais, valorização das trajetórias de vida e ampliação da participação social das pessoas idosas. Estudos recentes demonstram que práticas educativas associadas à inclusão digital, à aprendizagem comunitária e às experiências intergeracionais favorecem a autonomia, reduzem sentimentos de solidão e ampliam o engajamento social de pessoas idosas (MARTÍNEZ-ALCALÁ et al., 2021; NOONE; YANG, 2021; SIETTE et al., 2020).
No contexto brasileiro, pesquisas identificaram que programas educativos e ações de inclusão digital promoveram fortalecimento da autoestima, melhoria da comunicação familiar e ampliação do acesso a serviços e informações em saúde (MARCELINO et al., 2024; SILVA et al., 2020). Além disso, revisões recentes apontam que a participação em espaços educativos e culturais contribui para melhoria do bem-estar psicológico, preservação cognitiva e fortalecimento do pertencimento comunitário entre pessoas idosas (MUSEUMS & OLDER PEOPLE STUDY, 2022; NARUSHIMA, 2008).
No plano político, relatórios internacionais sobre democracia indicam crescente fragilização institucional e redução da participação cívica em diferentes regiões do mundo. Na América Latina, aproximadamente 44% da população declara satisfação com o funcionamento da democracia (LATINOBARÓMETRO, 2023). Nesse cenário, a exclusão educacional e digital de grupos historicamente marginalizados, entre eles as pessoas idosas, tende a aprofundar desigualdades e limitar o exercício pleno da cidadania.
A literatura científica recente tem analisado experiências educacionais formais, não formais e informais voltadas às pessoas idosas, especialmente iniciativas de inclusão digital, práticas intergeracionais e programas comunitários. Entretanto, observa-se dispersão dessas evidências e ausência de sistematização abrangente sobre o papel das práticas educativas na inclusão social e prevenção do isolamento social na velhice.
Nesta revisão, compreende-se inclusão social como processo multidimensional relacionado ao acesso a direitos, participação em redes de sociabilidade e exercício da cidadania em condições de equidade (CORNWELL; WAITE, 2009; WHO, 2023). O isolamento social é entendido como condição objetiva caracterizada pela insuficiência de interações sociais significativas e fragilidade das redes de apoio, distinguindo-se da solidão, relacionada à percepção subjetiva de desconexão social (HAWKLEY; CACIOPPO, 2010).
No campo educacional, distinguem-se três modalidades principais: educação formal, desenvolvida em sistemas institucionalizados com certificação; educação não formal, realizada em contextos comunitários e culturais com intencionalidade pedagógica; e educação informal, decorrente de experiências cotidianas de aprendizagem ao longo da vida (COOMBS; AHMED, 1974; LIVINGSTONE, 2001).
Apesar do crescimento da produção científica sobre envelhecimento participativo, inclusão digital e aprendizagem ao longo da vida, permanecem lacunas relacionadas à análise integrada das práticas educacionais como estratégia de inclusão social e prevenção do isolamento social entre pessoas idosas. Revisões anteriores concentram-se predominantemente na inclusão digital ou em programas de aprendizagem ao longo da vida de forma instrumental, sem examinar de maneira sistemática suas implicações para participação social, enfrentamento do idadismo e fortalecimento da cidadania (PESSOA et al., 2023; MARTÍNEZ-ALCALÁ et al., 2021; SIETTE et al., 2020; MELCHIORRE et al., 2024). Embora esses estudos reconheçam os benefícios das tecnologias digitais e da aprendizagem contínua para redução do isolamento social e ampliação da autonomia, observa-se limitada problematização das dimensões estruturais relacionadas ao idadismo, às desigualdades sociais e à participação política das pessoas idosas.
Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo mapear, analisar e sintetizar evidências científicas sobre como práticas educacionais formais e não formais contribuem para inclusão social e prevenção do isolamento social entre pessoas idosas em diferentes contextos territoriais.
2. METODOLOGIA
A presente revisão de escopo foi conduzida conforme as diretrizes do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) e as recomendações metodológicas do Joanna Briggs Institute (TRICCO et al., 2018). A escolha desse delineamento justifica-se por sua adequação ao mapeamento abrangente das evidências disponíveis e à identificação de lacunas na literatura científica.
A pergunta de pesquisa foi formulada com base na estratégia População–Conceito–Contexto (PCC), considerando: população — pessoas idosas; conceito — educação formal e não formal como estratégia de inclusão social e prevenção do isolamento social; e contexto — experiências educacionais em âmbito nacional e internacional. A partir desse delineamento, formulou-se a seguinte questão norteadora: como a educação formal e não formal contribui para inclusão social e prevenção do isolamento social entre pessoas idosas em diferentes contextos?
As buscas bibliográficas foram realizadas no mês de fevereiro de 2025 por duas revisoras independentes. A principal fonte de pesquisa foi o Portal de Periódicos da CAPES, complementado pelas bases Scopus, Web of Science, PubMed, ERIC, SciELO e LILACS.
A estratégia de busca foi construída a partir da combinação de descritores controlados e termos livres por meio de operadores booleanos, utilizando a seguinte expressão geral: (“education” OR “educação”) AND (“social inclusion” OR “inclusão social”) AND (“social isolation” OR “isolamento social”) AND (“older adults” OR “pessoas idosas” OR “ageing”). Ajustes específicos foram realizados conforme as particularidades de indexação de cada base consultada.
O processo de seleção ocorreu em duas etapas. Inicialmente, realizou-se leitura dos títulos e resumos dos estudos identificados. Posteriormente, os textos selecionados foram analisados integralmente para confirmação da elegibilidade. Divergências entre as revisoras foram resolvidas por consenso.
Foram adotados os critérios de inclusão: publicações entre 2004 e 2024; estudos publicados em português, inglês, espanhol ou francês; pesquisas empíricas qualitativas, quantitativas ou mistas; e estudos que relacionassem práticas educacionais formais ou não formais à inclusão social ou prevenção do isolamento social entre pessoas idosas.
Foram excluídos editoriais, artigos de opinião, ensaios teóricos desvinculados de práticas educativas concretas, estudos duplicados, publicações sem acesso ao texto completo e estudos fora do escopo temático.
Dos 93 registros inicialmente identificados, dois foram removidos por duplicidade. Após leitura dos títulos e resumos, 62 estudos foram excluídos. Dos 29 textos completos avaliados, cinco foram excluídos por indisponibilidade de acesso integral, resultando em 24 estudos incluídos na revisão.
Quadro 1 – Critérios de inclusão e exclusão
Critérios de inclusão | Critérios de exclusão |
Publicações entre 2004 e 2024 | Artigos de opinião, editoriais e ensaios teóricos |
Estudos em português, inglês, espanhol ou francês | Estudos duplicados |
Pesquisas relacionadas à inclusão social e isolamento social | Publicações sem acesso integral |
Estudos empíricos qualitativos, quantitativos ou mistos | Estudos fora do escopo temático |
Fonte: elaboração própria.
A extração dos dados foi realizada mediante instrumento padronizado contendo as seguintes variáveis: autoria, ano, país, tipo de estudo, modalidade educativa e principais contribuições. A análise ocorreu de forma descritiva, mediante identificação de padrões e tendências da produção científica.
A pesquisa integra projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade de Brasília, sob Parecer nº 7.583.560 e CAAE nº 87617825.4.0000.5540, em conformidade com a Resolução CNS nº 466/2012.
3. RESULTADOS
A revisão de escopo resultou na identificação de 93 registros iniciais nas bases de dados consultadas. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 24 estudos compuseram o corpus final da análise. Observou-se maior concentração de publicações entre 2021 e 2024, correspondendo a 62,5% dos estudos incluídos. Em relação à distribuição geográfica, verificou-se predominância de estudos oriundos dos Estados Unidos, Austrália e Reino Unido. O Brasil apresentou participação relevante, concentrando 20,8% das publicações analisadas.
Quanto aos enfoques temáticos, destacaram-se inclusão social, intergeracionalidade, aprendizagem ao longo da vida, inclusão digital, suporte social e promoção da autonomia. As palavras-chave mais frequentes foram “educação”, “pessoas idosas”, “isolamento social”, “inclusão digital” e “solidão”.
Quadro 2 – Características dos estudos incluídos na revisão de escopo (n = 24)
Ano | País | Tipo de estudo | Modalidade educativa | Principais contribuições |
2024 | Brasil | Qualitativo; estudo de caso; relato de experiência | Educação a distância (EaD); competências socioafetivas | Estratégias pedagógicas em EaD favoreceram resiliência, engajamento social, autogestão e enfrentamento do isolamento social entre pessoas idosas durante a pandemia. |
2016 | Brasil | Pesquisa bibliográfica com oficinas terapêuticas | Inclusão digital; educação continuada | Oficinas de inclusão digital promoveram pertencimento social, interação comunitária, expressão emocional e mitigação do isolamento social entre pessoas idosas. |
2024 | Singapura | Estudo analítico/reflexivo | Educação em saúde; prescrição social | A prescrição social fortalece vínculos comunitários, autonomia e participação social, reduzindo solidão e isolamento social de pessoas idosas. |
2024 | Índia | Diretrizes clínicas | Inclusão digital; educação comunitária | Intervenções educativas e programas comunitários reduziram isolamento social e promoveram bem-estar mental e participação social. |
2024 | Itália | Qualitativo; entrevistas semiestruturadas | Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) | O uso de TICs reduziu solidão e isolamento social entre idosos frágeis, especialmente entre os mais escolarizados. |
2023 | Chile | Revisão de alcance | Inclusão digital; TICs | As TICs favoreceram inclusão social, manutenção de vínculos sociais, acesso à saúde e autonomia de pessoas idosas durante a pandemia. |
2023 | Estados Unidos | Revisão integrativa | Educação formal e informal | Programas educacionais para pessoas idosas favoreceram integração social, autonomia, redução de sintomas depressivos e qualidade de vida. |
2023 | Turquia | Quantitativo | Aprendizagem ao longo da vida; envelhecimento ativo | Maior escolaridade e oportunidades educativas contribuíram para melhor qualidade de vida, autonomia e participação social. |
2022 | Brasil | Revisão narrativa | Educação informal mediada por atividade física | Atividades físicas coletivas favoreceram socialização, redução de sintomas depressivos e mitigação do isolamento social. |
2022 | Brasil e Reino Unido | Revisão de escopo | Educação não formal em museus | Museus promoveram socialização, aprendizagem contínua, preservação cognitiva e inclusão social de pessoas idosas. |
2022 | Brasil | Relato de experiência | Educação informal; Universidade da Maturidade | O processo educativo sobre testamento vital fortaleceu autonomia, cidadania e pertencimento social de pessoas idosas. |
2021 | Brasil | Qualitativo e descritivo | Inclusão digital | Estratégias educativas de inclusão digital favoreceram autonomia, interação social e qualidade de vida das pessoas idosas. |
2021 | Estados Unidos; Líbano; Suíça | Revisão/ensaio analítico | Aprendizagem ao longo da vida | Programas educativos contínuos promoveram inclusão social, bem-estar mental e envelhecimento saudável. |
2021 | México | Quantitativo | Alfabetização digital | A alfabetização digital ampliou competências tecnológicas, inclusão social e redução do isolamento social. |
2021 | Reino Unido | Revisão sistemática qualitativa | Intervenções comunitárias | Programas comunitários fortaleceram pertencimento social, autonomia e redução da solidão entre pessoas idosas. |
2020 | Austrália | Estudo analítico/discussão teórica | Inclusão digital | Tecnologias digitais reduziram impactos do isolamento social durante a pandemia de COVID-19. |
2020 | Brasil | Relato de experiência | Extensão universitária; inclusão digital | Ações extensionistas promoveram interação social, inclusão digital e mitigação do isolamento social entre pessoas idosas. |
2020 | Brasil | Relato de experiência | Inclusão digital; interação intergeracional | O uso de vídeos como apoio emocional reduziu impactos do isolamento social em idosos institucionalizados durante a pandemia. |
2015 | Brasil | Qualitativo; análise documental | Literatura infantojuvenil; educação intergeracional | A literatura infantojuvenil contribuiu para desconstrução de estereótipos sobre envelhecimento e fortalecimento da inclusão social. |
2015 | Brasil | Quantitativo | Envolvimento social; aprendizagem ao longo da vida | O envolvimento social contínuo favoreceu manutenção da capacidade funcional e prevenção do isolamento social. |
2013 | Hong Kong | Revisão sistemática | Educação em saúde | Programas educativos conduzidos por enfermeiros melhoraram autonomia, adesão terapêutica e inclusão social de pessoas idosas com doenças crônicas. |
2011 | Austrália | Revisão sistemática | Tecnologias assistivas; treinamento digital | Tecnologias assistivas ampliaram autonomia, independência funcional e inclusão social de pessoas idosas. |
Fonte: elaboração própria.
Os estudos incluídos abordaram predominantemente experiências educativas não formais, tais como oficinas comunitárias, programas intergeracionais, ações de inclusão digital e atividades desenvolvidas em contextos culturais e comunitários. Os resultados apontaram associação entre participação em atividades educativas, fortalecimento de vínculos sociais, ampliação da participação comunitária e redução do isolamento social entre pessoas idosas.
4. DISCUSSÃO
A análise dos 24 estudos incluídos nesta revisão de escopo evidencia a consolidação progressiva da educação como estratégia de inclusão social, fortalecimento da cidadania e prevenção do isolamento social entre pessoas idosas. Observou-se crescimento expressivo das publicações entre 2021 e 2024, especialmente após a pandemia de COVID-19, período marcado pela intensificação do debate internacional sobre envelhecimento saudável, inclusão digital e aprendizagem ao longo da vida
Os resultados demonstram predominância de experiências relacionadas à inclusão digital, educação comunitária e práticas intergeracionais. Estudos desenvolvidos no Brasil, México, Austrália e Chile apontaram que iniciativas de alfabetização digital e letramento tecnológico ampliaram significativamente a autonomia, a comunicação familiar e a participação social das pessoas idosas (CARDOSO et al. 2021; MARTÍNEZ-ALCALÁ et al., 2021; SIETTE et al., 2020; PESSOA et al., 2023).
O estudo mexicano de Martínez-Alcalá et al. (2021), por exemplo, identificou que programas contínuos de alfabetização digital contribuíram para redução do isolamento social e fortalecimento das competências comunicacionais das pessoas idosas durante a pandemia, demonstrando que a inclusão digital ultrapassa a dimensão instrumental e se configura como mecanismo de participação cidadã.
No contexto brasileiro, Marcelino et al. (2024) verificaram que programas educativos voltados à inclusão digital promoveram maior engajamento social, fortalecimento da autoestima e ampliação do acesso a serviços de saúde e informação. Resultados semelhantes foram encontrados por Silva et al. (2020), no projeto de extensão universitária da UNATI, no qual as atividades remotas favoreceram a interação social, a manutenção de vínculos afetivos e a continuidade das práticas educativas durante o distanciamento social.
As evidências também indicam que experiências educativas comunitárias e intergeracionais exercem papel relevante na construção do pertencimento social e no enfrentamento da solidão. O estudo conduzido por Noone e Yang (2021), no Reino Unido, demonstrou que intervenções comunitárias centradas na autonomia e na criação de novas conexões sociais fortaleceram o sentimento de pertencimento e reduziram experiências de isolamento. De modo semelhante, Narushima (2008), ao investigar programas de aprendizagem comunitária no Canadá, identificou impactos positivos na constituição de redes sociais, no suporte emocional e na valorização da experiência das pessoas idosas.
A literatura analisada reforça ainda que espaços culturais e educativos não formais contribuem significativamente para inclusão social na velhice. A revisão realizada sobre a relação entre museus e pessoas idosas (COITO E ARAÚJO; HINSLIFF-SMITH; CACHIONI, 2022) evidenciou que atividades educativas em espaços culturais promovem autonomia, socialização e bem-estar psicológico.
Na mesma direção, Hicken (2004), ao analisar bibliotecas públicas no Reino Unido, destacou o papel desses equipamentos como espaços comunitários de aprendizagem, acesso à informação e convivência social para grupos socialmente excluídos, incluindo pessoas idosas.
Os estudos brasileiros também evidenciaram a relevância da educação em saúde e de práticas educativas voltadas à autonomia e ao envelhecimento ativo. Moreira et al. (2022), ao investigarem experiências relacionadas ao testamento vital na Universidade da Maturidade, identificaram que os processos educativos ampliaram a consciência sobre direitos, autonomia e planejamento da própria vida. Da mesma forma, pesquisas sobre atividade física e saúde mental indicaram que ações educativas mediadas por práticas corporais coletivas reduziram sintomas depressivos e favoreceram a interação social entre pessoas idosas.
Os achados da revisão dialogam diretamente com a concepção freireana de educação como prática emancipatória e instrumento de transformação social. Para Freire (2005), a educação deve promover consciência crítica, participação social e reconhecimento dos sujeitos como protagonistas de sua própria história. Nesse sentido, as práticas identificadas nos estudos analisados — oficinas digitais, experiências comunitárias, extensão universitária, espaços culturais e ações intergeracionais — demonstram que a educação, quando orientada pela participação e pelo diálogo, atua como tecnologia social de inclusão e resistência ao isolamento social.
Contudo, a análise também revelou importantes desigualdades na produção científica internacional. Observou-se predominância de estudos oriundos de países do Norte Global, especialmente Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, enquanto contextos latino-americanos e africanos permanecem sub-representados.
Essa assimetria evidencia limitações epistemológicas na literatura internacional sobre envelhecimento e educação. Conforme discutem Santos (2010), Walsh (2009) e Quijano (2000), a colonialidade do saber produz silenciamentos estruturais e invisibiliza experiências desenvolvidas em territórios periféricos, comprometendo a construção de políticas públicas mais contextualizadas e socialmente referenciadas.
Outro aspecto identificado refere-se à predominância de abordagens descritivas e à limitada incorporação de referenciais críticos relacionados ao idadismo, às desigualdades sociais e à cidadania. Embora os estudos reconheçam a importância da inclusão digital, da aprendizagem ao longo da vida e da participação comunitária, poucos problematizam as determinações estruturais que produzem exclusão social na velhice. Nesse sentido, observa-se baixa incidência de categorias analíticas como educação popular, justiça social, cidadania crítica e epistemologias do envelhecer, o que limita a compreensão ampliada das desigualdades que atravessam o envelhecimento contemporâneo.
A discussão também evidencia que a inclusão digital constitui um dos principais eixos emergentes das políticas e práticas educativas voltadas às pessoas idosas. Estudos realizados na Itália (MELCHIORRE et al., 2024), Austrália (SIETTE et al., 2020) e Índia (SIVAKUMAR et al., 2024) demonstraram que o acesso às tecnologias da informação e comunicação reduz sentimentos de solidão, fortalece vínculos familiares e amplia a participação social. Entretanto, os próprios autores alertam que a efetividade dessas estratégias depende da superação de barreiras estruturais relacionadas à baixa escolaridade, às limitações funcionais e à ausência de políticas públicas de conectividade e letramento digital.
Do ponto de vista das políticas públicas, os estudos analisados reforçam a necessidade de institucionalização de programas de educação ao longo da vida articulados às áreas da saúde, assistência social, cultura e tecnologia. As evidências sugerem que práticas intersetoriais apresentam maior potencial de enfrentamento do isolamento social, especialmente em territórios marcados por desigualdades socioespaciais. Nesse sentido, iniciativas de extensão universitária, universidades abertas à maturidade, oficinas comunitárias, espaços culturais e programas de alfabetização digital configuram estratégias relevantes para fortalecimento da cidadania e promoção do envelhecimento saudável.
Esta revisão apresenta limitações inerentes ao delineamento metodológico adotado. Não foi realizada avaliação crítica da qualidade metodológica dos estudos incluídos, o que limita inferências sobre robustez das evidências. Além disso, a heterogeneidade dos desenhos metodológicos, contextos territoriais e modalidades educativas restringe comparações diretas entre os estudos analisados. Apesar dessas limitações, a revisão permitiu identificar tendências relevantes da produção científica internacional e evidenciar o potencial da educação como estratégia de inclusão social, fortalecimento da autonomia e enfrentamento do isolamento social entre pessoas idosas.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados desta revisão de escopo indicam que a educação ao longo da vida desempenha papel fundamental na promoção da inclusão social e na prevenção do isolamento social entre pessoas idosas. As evidências analisadas demonstraram que práticas educativas formais e não formais contribuem para fortalecimento de vínculos sociais, ampliação da participação comunitária e exercício da cidadania.
As iniciativas de inclusão digital, aprendizagem comunitária e ações intergeracionais mostraram-se especialmente relevantes para redução do isolamento social e fortalecimento da autonomia das pessoas idosas. Entretanto, observou-se concentração das produções científicas em países do Norte Global e limitada presença de estudos latino-americanos e africanos, evidenciando lacunas importantes na literatura internacional.
Conclui-se que a educação constitui eixo estratégico para políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável, demandando abordagens intersetoriais articuladas às áreas de educação, saúde, assistência social e cultura. Investimentos em práticas educativas inclusivas podem contribuir para fortalecimento da participação social, redução do isolamento e promoção de sociedades mais democráticas e equitativas.
Recomenda-se que futuras pesquisas ampliem a investigação de experiências educativas em contextos periféricos e aprofundem análises sobre os impactos das práticas educacionais na saúde mental, participação democrática e qualidade de vida das pessoas idosas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AU EONG, Jonathan T. W. The challenges and rewards of social prescribing in family medicine: older adults and social connectedness. Singapore Family Physician, v. 50, n. 1, p. 45-53, 2024.
CARDOSO, Sandra Maria de Mello et al. Escolaridade e inclusão digital de idosos de uma Estratégia Saúde da Família de um município do Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Ciências do Envelhecimento Humano, v. 18, n. 2, p. 1-15, 2021.
COITO E ARAÚJO, Olga Susana Costa; HINSLIFF-SMITH, Kathryn; CACHIONI, Meire. Education and social relationships between museums and older people: a scoping review. Educational Gerontology, v. 48, n. 8, p. 355-370, 2022.
COOMBS, Philip H.; AHMED, Manzoor. Attacking rural poverty: how nonformal education can help. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1974.
CORNWELL, Erin York; WAITE, Linda J. Social disconnectedness, perceived isolation, and health among older adults. Journal of Health and Social Behavior, v. 50, n. 1, p. 31-48, 2009. DOI: https://doi.org/10.1177/002214650905000103.
FERREIRA, Cíntia Priscila da Silva et al. A visão do envelhecimento na literatura infantojuvenil brasileira contemporânea. Revista Kairós-Gerontologia, v. 18, n. 3, p. 135-152, 2015.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 60. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.
GIULIANO, Erika Cristina Napolitano et al. Utilização de vídeos como apoio social a idosos institucionalizados durante a pandemia da COVID-19. Revista Interinstitucional Brasileira de Terapia Ocupacional, v. 4, n. 3, p. 412-425, 2020.
HAWKLEY, Louise C.; CACIOPPO, John T. Loneliness matters: a theoretical and empirical review of consequences and mechanisms. Annals of Behavioral Medicine, v. 40, n. 2, p. 218-227, 2010. DOI: https://doi.org/10.1007/s12160-010-9210-8.
HICKEN, Mandy. To each according to his needs? Public libraries and social exclusion. New Library World, v. 105, n. 1198/1199, p. 111-121, 2004.
IBGE. Censo Demográfico 2022: resultados preliminares. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023.
KHALAF, Maath Ahmed; DEĞER, Tahsin Barış. Evaluation of quality of life in the elderly who have fallen and affecting factors. Turkish Journal of Geriatrics, v. 26, n. 2, p. 145-156, 2023.
LATINOBARÓMETRO. Informe 2023: la recesión democrática en América Latina. Santiago: Latinobarómetro Corporation, 2023. Disponível em: https://www.latinobarometro.org. Acesso em: 08 maio 2026.
LIVINGSTONE, David W. Adults’ informal learning: definitions, findings, gaps and future research. Toronto: Centre for the Study of Education and Work, 2001.
MARTÍNEZ-ALCALÁ, Claudia I. et al. The effects of COVID-19 on the digital literacy of older adults: implications for social isolation and inclusion. Healthcare, v. 9, n. 9, p. 1-14, 2021. DOI: https://doi.org/10.3390/healthcare9091214.
MELCHIORRE, Maria Gabriella et al. The social sustainability of the use of ICTs among frail older people ageing in place in Italy. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 21, n. 3, p. 1-18, 2024.
NARUSHIMA, Miya. More than nickels and dimes: the health benefits of a community-based lifelong learning programme for older adults. International Journal of Lifelong Education, v. 27, n. 6, p. 673-692, 2008. DOI: https://doi.org/10.1080/02601370802408302.
NOONE, Catrin; YANG, Keming. Community-based responses to loneliness in older people: a systematic review of qualitative studies. Health & Social Care in the Community, v. 29, n. 5, p. 1317-1330, 2021.
PESSOA, Rayana Castelo Branco; GOMES, Marcia Queiroz de Carvalho; BREGALDA, Marília Meyer. Aportes de las TIC para la inclusión social de personas mayores durante la pandemia. Revista Chilena de Terapia Ocupacional, v. 23, n. 1, p. 55-69, 2023.
PINTO, Francine Náthalie F. R.; OLIVEIRA, Dayane Capra de. Capacidade funcional e envolvimento social de idosos: implicações para o envelhecimento ativo. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 18, n. 2, p. 299-311, 2015.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2000. p. 107-130.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. São Paulo: Cortez, 2010.
SIETTE, Joyce; WUTHRICH, Viviana; LOW, Lee-Fay. Social preparedness and technology use among older adults during COVID-19. Australasian Journal on Ageing, v. 39, n. 4, p. 408-411, 2020.
SILVA, Fernanda Cardoso et al. Projeto de extensão Vida Ativa: inclusão digital e interação social de pessoas idosas durante a pandemia. Revista Extensão em Ação, v. 20, n. 2, p. 88-102, 2020.
SIVAKUMAR, Palanimuthu T. et al. Clinical practice guidelines for addressing social isolation and loneliness among older adults. Indian Journal of Psychiatry, v. 66, supl. 1, p. S210-S225, 2024.
SLODKOWSKI, Bruna Kin et al. Competências socioafetivas na EaD: experiências educativas com pessoas idosas durante a pandemia. Revista Novas Tecnologias na Educação, v. 22, n. 1, p. 1-15, 2024.
TRICCO, Andrea C. et al. PRISMA extension for scoping reviews (PRISMA-ScR): checklist and explanation. Annals of Internal Medicine, v. 169, n. 7, p. 467-473, 2018. DOI: https://doi.org/10.7326/M18-0850.
UNESCO. Rethinking education: towards a global common good? Paris: UNESCO, 2015.
UNITED NATIONS. World population prospects 2024. New York: United Nations, 2024. Disponível em: https://population.un.org/wpp. Acesso em: 08 maio 2026.
WALSH, Catherine. Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: Universidad Andina Simón Bolívar, 2009.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Decade of healthy ageing: baseline report. Geneva: WHO, 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Social isolation and loneliness among older people: advocacy brief. Geneva: WHO, 2023.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). World report on ageing and health. Geneva: WHO, 2015.