REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782199924
RESUMO
O desemprego representa uma experiência que transcende os aspectos econômicos, afetando dimensões emocionais, sociais e identitárias dos indivíduos. Este estudo teve como objetivo compreender o desemprego como uma experiência de luto simbólico, investigando seus impactos psicológicos e as estratégias de enfrentamento utilizadas por pessoas que vivenciaram essa condição. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter descritivo e exploratório, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com participantes que passaram pela experiência do desemprego. Os dados foram analisados com base na técnica de Análise de Conteúdo de Bardin, articulando os resultados aos referenciais teóricos de Elisabeth Kübler-Ross e Viktor Frankl. O estudo contribui para a compreensão das repercussões subjetivas da perda do trabalho e para a reflexão sobre possibilidades de acolhimento e intervenção psicológica.
Palavras-chave: desemprego; luto simbólico; saúde mental; estratégias de enfrentamento; Logoterapia.
ABSTRACT
Unemployment is an experience that goes beyond economic aspects, affecting individuals' emotional, social, and identity dimensions. This study aimed to understand unemployment as a symbolic grief experience, investigating its psychological impacts and the coping strategies used by people who have experienced this condition. This is a qualitative, descriptive, and exploratory study conducted through semi-structured interviews with participants who experienced unemployment. The data were analyzed using Bardin's Content Analysis technique and discussed in light of the theoretical contributions of Elisabeth Kübler-Ross and Viktor Frankl. The study contributes to a better understanding of the subjective repercussions of job loss and to reflections on possibilities for psychological support and intervention.
Keywords: unemployment; symbolic grief; mental health; coping strategies; Logotherapy.
INTRODUÇÃO
A experiência do desemprego ultrapassa a dimensão financeira e atinge a identidade, a autoestima e o equilíbrio emocional dos indivíduos. A perda do trabalho pode ser compreendida como uma ruptura que mobiliza intensamente a subjetividade, e desencadeia sentimentos de negação, raiva, tristeza, ansiedade e isolamento. Essas manifestações guardam semelhança com os estágios descritos nos processos clássicos de luto, indicando que a demissão é uma experiência de perda simbólica que demanda ressignificação e reconstrução de sentido.
A importância deste estudo fundamenta-se na constatação de que o desemprego pode gerar sofrimento psicológico intenso, comprometendo o bem-estar e a capacidade adaptativa do indivíduo. Investigar essa vivência sob a ótica do luto possibilita a compreensão de suas repercussões psíquicas e estratégias de enfrentamento que possam auxiliar na elaboração desse processo. A hipótese central é que o desemprego pode ser compreendido como forma de luto, e que, quando reconhecido e trabalhado, abre possibilidades de adaptação emocional, reorganização da vida e elaboração de novos projetos.
A literatura fornece importantes aportes para essa análise. Frankl (2011), na logoterapia, parte da ideia de que mesmo em situações de dor extrema o ser humano conserva a liberdade de escolher sua atitude e de buscar sentido para a existência. Kübler-Ross (2008) descreve reações emocionais diante de perdas que, embora não lineares, ajudam a compreender a oscilação de sentimentos que marcam a vivência do desemprego. Dias (2021) acrescenta que, nas sociedades contemporâneas, o luto também acontece a partir de perda de papéis sociais, como o desligamento do trabalho. Esses referenciais dialogam com estudos recentes que analisam o luto não reconhecido e suas implicações para a saúde mental (Azevedo & Rocha, 2025), o processo de despersonalização gerado pela perda (Teodoro, Silva, & Couto, 2023) e a necessidade de estratégias de enfrentamento baseadas na reorganização da vida ocupacional. (Crnkovic, Silva, Almeida, Rodrigues, & Leoncio, 2024)
Diante desse contexto, este trabalho tem como objetivo analisar o desemprego como experiência de luto, suas repercussões psíquicas e as possibilidades de enfrentamento. Para isso, busca-se revisar os referenciais teóricos clássicos e atuais sobre o tema, identificar consequências emocionais descritas na literatura, aplicar entrevistas qualitativas com trabalhadores desempregados e refletir sobre estratégias que favoreçam a elaboração do luto decorrente dessa perda. Acredita-se que essa investigação poderá somar para o campo da Psicologia com a compreensão sobre o sofrimento subjetivo relacionado à perda do trabalho e indicar caminhos para práticas de acolhimento clínico e social.
O presente trabalho foi desenvolvido no contexto da Faculdade Inspirar, instituição de ensino superior onde a pesquisadora cursa Psicologia desde 2021, e que tem se destacado pelo incentivo à pesquisa e à formação ética e científica de seus alunos. A partir das vivências acadêmicas e da observação de situações cotidianas, surgiu o interesse em compreender mais profundamente as implicações emocionais do desemprego e suas repercussões sobre o bem-estar psicológico dos indivíduos.
Durante a trajetória formativa, a pesquisadora pôde identificar a relevância do tema no campo da Psicologia Social e Organizacional, reconhecendo a importância de estudos que abordem as experiências de perda e reconstrução subjetiva em contextos de vulnerabilidade laboral. O presente projeto, portanto, busca unir a prática acadêmica à reflexão científica, promovendo uma análise sensível e fundamentada sobre o luto simbólico associado à perda do trabalho.
METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem qualitativa, de natureza descritiva e exploratória, voltado à compreensão das experiências subjetivas e dos sentimentos vivenciados por indivíduos em situação de desemprego, à luz do conceito de luto simbólico.
O estudo foi realizado na Faculdade Inspirar, localizada em Curitiba, tendo como espaço de coleta as salas de atendimento clínico da Clínica-Escola de Psicologia da instituição, ambiente que oferece condições adequadas de sigilo, acolhimento e suporte ético para a realização das entrevistas.
A amostra foi composta por cinco participantes, selecionados por meio de amostragem intencional, a partir de divulgação realizada em turmas do curso de Psicologia, por intermédio de representantes de turma e formulários on-line. Como critérios de inclusão, estabeleceram-se: (a) indivíduos com idade entre 20 e 60 anos; (b) pessoas que vivenciaram o desemprego no período entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026; e (c) ausência de diagnóstico prévio de transtornos emocionais, como depressão, ansiedade ou outros quadros clínicos no momento da coleta.
A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas, com duração média entre 45 e 60 minutos, realizadas presencialmente em ambiente reservado. As entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas na íntegra para fins de análise. Ressalta-se que foram realizadas mediante autorização prévia dos participantes, formalizada por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo que a pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade Inspirar, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) nº 93011225.0.0000.5221.
O roteiro de entrevista foi estruturado em cinco eixos temáticos: (1) sentimentos predominantes; (2) vínculos sociais e autoestima; (3) estratégias de enfrentamento; (4) vivências do luto; e (5) intervenções psicológicas e sociais, sendo cada eixo composto por três perguntas norteadoras. Para a organização inicial dos dados, foram elaboradas tabelas individuais para cada participante, contendo as respostas obtidas em cada eixo temático.
Para o tratamento do material empírico, foi empregada a técnica de Análise de Conteúdo proposta por Laurence Bardin (2011), desenvolvida em três etapas: (1) pré-análise; (2) exploração do material; e (3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Esse procedimento possibilitou a categorização, organização e interpretação dos sentidos atribuídos pelos participantes às suas experiências. A análise contemplou tanto os conteúdos manifestos quanto os latentes das falas, articulando-os com os referenciais teóricos adotados, especialmente as contribuições de Elisabeth Kübler-Ross (2008) e Viktor Frankl (2011).
A análise do material empírico ocorreu a partir da identificação de unidades de registro, compreendidas como recortes significativos das falas dos participantes, representados por frases ou trechos que expressavam experiências relacionadas ao desemprego e ao luto simbólico. Em seguida, realizou-se a construção das unidades de sentido, buscando compreender os significados subjetivos atribuídos pelos participantes às suas vivências, como sentimentos de medo, perda de identidade, insegurança, alívio, sofrimento emocional e busca de reconstrução pessoal. A partir desse processo, foram elaboradas categorias temáticas emergentes, organizadas conforme as aproximações de sentido identificadas no corpus das entrevistas. Essas categorias permitiram compreender, de maneira sistematizada, os impactos emocionais do desemprego, as rupturas identitárias, o isolamento social, as vivências do luto simbólico, as estratégias de enfrentamento e os movimentos de ressignificação presentes nos relatos dos participantes, em articulação com os referenciais teóricos de Elisabeth Kübler-Ross e Viktor Frankl.
Das hipóteses levantadas estão: a) a perda do trabalho provoca emoções e sentimentos que podem ser compreendidos sob o prisma das fases do luto de Kübler-Ross (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação); b) estratégias fundamentadas no sentido de vida, conforme proposto por Viktor Frankl, auxiliam na ressignificação da perda do emprego; c) desemprego impacta de forma significativa a identidade, autoestima e os vínculos sociais do indivíduo.
Como justificativa, o trabalho representa uma das principais fontes de pertencimento social, realização pessoal e reconhecimento, inserindo-se no centro da vida humana. A perda súbita desse vínculo social pode desencadear sentimentos profundos de desamparo, ansiedade e baixa autoestima, configurando um tipo de luto simbólico ainda pouco explorado na literatura. Este estudo contribuirá para o entendimento das vivências do desemprego sob esse olhar e subsidiará práticas de acolhimento psicológico e políticas públicas de apoio ao trabalhador desligado.
ANÁLISE DE RESULTADOS
Unidade de Registro | Unidade de Sentido | Categoria Temática | Participante |
“não poder ajudar na casa” | sofrimento relacionado à incapacidade financeira | Impactos emocionais do desemprego | P1 |
“não saber se ia ter comida na mesa” | medo da instabilidade econômica | Impactos emocionais do desemprego | P1 |
“um pouquinho de desespero” | angústia diante da incerteza | Impactos emocionais do desemprego | P1 |
“me encontrei mais irritado” | alteração emocional após a perda | Impactos emocionais do desemprego | P1 |
“raiva por ter perdido” | sentimento de injustiça e frustração | Impactos emocionais do desemprego | P2 |
“será que vou conseguir voltar para o mercado?” | insegurança profissional e medo do futuro | Impactos emocionais do desemprego | P2 |
“a ansiedade me gerou muita insônia” | manifestação psicossomática do sofrimento | Impactos emocionais do desemprego | P2 |
“vontade de quebrar a cara dele” | expressão intensa de raiva e revolta | Impactos emocionais do desemprego | P3 |
“fui acusado de algo que nunca fiz” | sentimento de injustiça e humilhação | Impactos emocionais do desemprego | P3 |
“medo do desconhecido” | temor diante da instabilidade futura | Impactos emocionais do desemprego | P4 |
“engordei uns 12 quilos” | somatização emocional | Impactos emocionais do desemprego | P4 |
“tive tremores e insônia” | repercussões físicas do sofrimento emocional | Impactos emocionais do desemprego | P4 |
“tiraram um peso de cima de mim” | alívio relacionado ao desligamento | Impactos emocionais do desemprego | P5 |
“preocupação excessiva” | ansiedade frente à perda da renda | Impactos emocionais do desemprego | P5 |
“não sou o suficiente” | percepção de inadequação pessoal | Ruptura da identidade e autoestima | P1 |
“não envio currículo para algumas vagas” | autolimitação decorrente da baixa autoestima | Ruptura da identidade e autoestima | P1 |
“será que o problema sou eu?” | autoquestionamento identitário | Ruptura da identidade e autoestima | P2 |
“questionar meu valor no mercado” | fragilidade da identidade profissional | Ruptura da identidade e autoestima | P2 |
“sou um excelente profissional” | preservação da autoestima | Ruptura da identidade e autoestima | P3 |
“eu me larguei” | perda de autocuidado e desmotivação | Ruptura da identidade e autoestima | P4 |
“não tinha vontade de me arrumar” | diminuição da autoestima feminina | Ruptura da identidade e autoestima | P4 |
“me coloco numa posição de inferioridade” | associação entre valor pessoal e renda | Ruptura da identidade e autoestima | P5 |
“parei de sair com eles” | afastamento das relações sociais | Isolamento social e vínculos | P1 |
“agora as reuniões são só de família” | redução do convívio social | Isolamento social e vínculos | P1 |
“me fechei muito” | retraimento emocional | Isolamento social e vínculos | P2 |
“tentei resolver tudo sozinho” | isolamento como forma de enfrentamento | Isolamento social e vínculos | P2 |
“não houve mudança” | manutenção da estabilidade relacional | Isolamento social e vínculos | P3 |
“não queria ver pessoas” | isolamento intenso e evitação social | Isolamento social e vínculos | P4 |
“me isolei bastante” | afastamento voluntário do convívio | Isolamento social e vínculos | P4 |
“distanciamento dos colegas” | enfraquecimento de vínculos laborais | Isolamento social e vínculos | P5 |
“demorei uma semana para entender” | dificuldade de assimilação da perda | Vivências do luto simbólico | P1 |
“procurei um culpado” | externalização da dor | Vivências do luto simbólico | P2 |
“não acreditava que aquilo acontecia” | negação da realidade vivida | Vivências do luto simbólico | P2 |
“raiva por estar sendo injustiçado” | revolta diante da demissão | Vivências do luto simbólico | P3 |
“não aceitava que o comércio fechou” | resistência à perda | Vivências do luto simbólico | P4 |
“e se a gente fizer iFood?” | barganha e tentativa de reversão | Vivências do luto simbólico | P4 |
“a tristeza foi a etapa mais clara” | aprofundamento do sofrimento emocional | Vivências do luto simbólico | P4 |
“aceitação e alívio” | elaboração mais rápida da perda | Vivências do luto simbólico | P5 |
“terapia ajuda bastante” | busca de suporte psicológico | Estratégias de enfrentamento | P1 |
“o teatro ajuda bastante” | atividade de elaboração emocional | Estratégias de enfrentamento | P1 |
“resgatei contatos antigos” | mobilização ativa para superação | Estratégias de enfrentamento | P2 |
“família foi um diferencial” | apoio familiar como fator protetivo | Estratégias de enfrentamento | P2 |
“Deus sempre e minhas filhas” | espiritualidade e vínculos afetivos | Estratégias de enfrentamento | P3 |
“crochê foi terapêutico” | atividade manual como recurso emocional | Estratégias de enfrentamento | P4 |
“transformei em ajuda para bebês prematuros” | ressignificação do sofrimento em cuidado | Busca de sentido | P4 |
“encontrei um novo trabalho rapidamente” | reorganização prática diante da perda | Estratégias de enfrentamento | P5 |
“a faculdade ajudou” | construção de projetos futuros | Busca de sentido | P5 |
“não está resolvido dentro de mim” | permanência do sofrimento | Ambivalência no enfrentamento | P1 |
“tenho dificuldade de procurar emprego” | bloqueio emocional e comportamental | Ambivalência no enfrentamento | P1 |
“me culpar pela demissão” | autocrítica excessiva | Ambivalência no enfrentamento | P2 |
“o isolamento foi perigoso” | percepção crítica do próprio enfrentamento | Ambivalência no enfrentamento | P4 |
“me cobrava muito” | autoexigência profissional | Ambivalência no enfrentamento | P5 |
“agora estou mais em paz” | reorganização emocional gradual | Busca de sentido | P1 |
“me questionei sobre a carreira” | reflexão existencial | Busca de sentido | P2 |
“a força tem que vir de nós mesmos” | fortalecimento interno | Busca de sentido | P3 |
“eu e o crochê” | reconstrução subjetiva da experiência | Busca de sentido | P4 |
“ressignifiquei minha escolha profissional” | reelaboração da trajetória profissional | Busca de sentido | P5 |
DISCUSSÃO
A análise das entrevistas, realizada com base nos pressupostos da análise de conteúdo de Laurence Bardin, possibilitou identificar diferentes significados atribuídos pelos participantes à experiência do desemprego, compreendido neste estudo como uma forma de luto simbólico. Os discursos revelaram impactos emocionais, sociais, identitários e existenciais, demonstrando que a perda do trabalho ultrapassa a dimensão financeira e atinge aspectos subjetivos relacionados ao sentido de vida, pertencimento social e percepção de valor pessoal.
A categoria Impactos emocionais do desemprego evidenciou que a perda do trabalho foi acompanhada por sentimentos intensos de medo, ansiedade, tristeza, raiva e insegurança. Em P1, o sofrimento apareceu fortemente associado à impossibilidade de contribuir financeiramente com a casa, evidenciando a relação entre trabalho, responsabilidade e dignidade pessoal. A fala “não saber se ia ter comida na mesa” demonstra como o desemprego pode ser vivido como ameaça à sobrevivência e à estabilidade familiar. Em P2, observou-se forte ansiedade em relação ao futuro, acompanhada de insônia e preocupação constante com a recolocação profissional, revelando manifestações tanto emocionais quanto psicossomáticas do sofrimento.
Já P3 apresentou predominantemente sentimentos de revolta e injustiça, expressando intensa raiva diante da forma como percebeu sua demissão. Os relatos de vontade de agressão indicam a intensidade emocional provocada pela experiência de desligamento, especialmente quando associada à percepção de humilhação e desvalorização profissional. Em P4, o medo surgiu como elemento central, associado à insegurança econômica, ao futuro da família e à ruptura abrupta de um padrão de vida anteriormente estável. Nesse caso, o sofrimento emocional apresentou importantes repercussões físicas, como ganho de peso, tremores, insônia e alterações alimentares, demonstrando a profunda inter-relação entre aspectos emocionais e corporais. Em contrapartida, P5 apresentou uma vivência distinta, descrevendo a perda do trabalho como um “alívio”, uma vez que a atividade exercida não lhe proporcionava satisfação pessoal. Ainda assim, observou-se preocupação relacionada à necessidade de renda e reorganização da rotina.
Na categoria Ruptura da identidade e da autoestima, observou-se que o trabalho ocupa posição central na construção da identidade subjetiva e social dos participantes. Em P1 e P2, a demissão desencadeou sentimentos de insuficiência, incapacidade e questionamento do próprio valor profissional. P1 relatou evitar candidatar-se a determinadas vagas por acreditar não ser “bom o suficiente”, demonstrando fragilidade da autoestima e autolimitação decorrente da experiência de desemprego. P2, por sua vez, passou a questionar sua competência profissional e valor no mercado de trabalho, revelando um abalo significativo em sua identidade ocupacional.
Em P4, os impactos na autoestima manifestaram-se especialmente na relação com o próprio corpo e autocuidado. O relato de que “se largou”, deixando de se arrumar e cuidar da aparência, demonstra como o sofrimento emocional repercutiu diretamente na percepção de si mesma enquanto mulher e sujeito social. Em contrapartida, P3 apresentou preservação significativa da autoestima, afirmando manter uma percepção positiva sobre sua competência profissional independentemente da demissão. Esse dado demonstra que o impacto do desemprego pode variar conforme os recursos internos e a estrutura identitária de cada indivíduo. Já P5 associou seu sentimento de inferioridade principalmente à ausência de renda, indicando a forte associação social entre produtividade, trabalho e valor pessoal.
A categoria Isolamento social e fragilização dos vínculos revelou que o desemprego frequentemente produz retraimento social e afastamento das relações interpessoais. P1 relatou diminuição significativa de saídas e contatos sociais devido à limitação financeira e ao afastamento dos antigos colegas de trabalho. P2 descreveu um movimento intenso de fechamento emocional, afirmando que preferia lidar sozinho com o sofrimento para evitar demonstrar fragilidade aos outros. Esse retraimento evidencia o caráter silencioso do sofrimento relacionado ao desemprego, frequentemente marcado por vergonha, sensação de fracasso e medo do julgamento social.
O caso de P4 demonstrou de forma ainda mais intensa o isolamento social, com relatos de evitar contato até mesmo com familiares e atividades simples do cotidiano, como ir ao mercado. Observou-se que o isolamento funcionou simultaneamente como estratégia de proteção emocional e fator de agravamento do sofrimento psíquico. Posteriormente, a própria participante reconhece o caráter prejudicial desse afastamento, especialmente diante da ausência de suporte coletivo. Em contrapartida, P3 afirmou não perceber alterações significativas em seus vínculos sociais, evidenciando novamente diferenças individuais na elaboração da experiência.
A categoria Vivências do luto simbólico permitiu identificar elementos relacionados às fases do luto descritas por Elisabeth Kübler-Ross, embora os relatos demonstrem que tais vivências não ocorreram de maneira linear ou rígida. Foram identificadas manifestações de negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação ao longo dos discursos. Em P1, a dificuldade inicial em compreender que não precisava mais acordar para trabalhar evidencia um processo de negação da perda. P2 apresentou forte busca por culpados, direcionando sua raiva à equipe e à gestão da empresa. Já P4 expressou claramente movimentos de barganha ao tentar encontrar alternativas para manter o negócio funcionando durante a pandemia.
A tristeza profunda apareceu de forma marcante em P4, especialmente associada às noites de insônia, medo e sensação de desintegração emocional. Em P5, por outro lado, predominou uma aceitação rápida da situação, acompanhada de sensação de alívio. Esses achados reforçam que o luto relacionado ao desemprego é subjetivo, plural e influenciado pelas condições emocionais, sociais e profissionais de cada indivíduo.
A categoria Estratégias de enfrentamento e rede de apoio demonstrou a relevância dos recursos internos e externos na elaboração da experiência de desemprego. Entre os principais recursos identificados estiveram o apoio familiar, a espiritualidade, a terapia, atividades criativas e o fortalecimento de vínculos sociais. Em P1, o teatro e a psicoterapia apareceram como importantes espaços de elaboração emocional. Em P2, a retomada de contatos profissionais e o apoio familiar contribuíram para a reorganização subjetiva e profissional. P3 destacou a espiritualidade e o vínculo com as filhas como principais fontes de sustentação emocional.
Em P4, destacou-se o processo de ressignificação por meio do crochê, inicialmente utilizado como estratégia para ocupar a mente e posteriormente transformado em atividade terapêutica e solidária. O fato de produzir “polvinhos do amor” para bebês prematuros evidencia um movimento de transformação do sofrimento em cuidado com o outro, aspecto fortemente relacionado à busca de sentido descrita pela Logoterapia de Viktor Frankl. Em P5, a rápida recolocação profissional e o apoio de amigos e da namorada contribuíram para um enfrentamento menos doloroso da experiência.
A categoria Ambivalências no processo de enfrentamento revelou oscilações constantes entre sofrimento, adaptação, paralisação e reorganização emocional. Alguns participantes demonstraram simultaneamente movimentos de aceitação e permanência da dor. P1 afirmou sentir-se “mais em paz”, embora reconhecesse que a situação “ainda não estava resolvida” internamente. P2 apresentou intensa autocrítica, responsabilizando-se pela demissão. Já P4 reconheceu posteriormente que o isolamento agravou seu sofrimento emocional. Esses elementos demonstram que o enfrentamento do desemprego ocorre de maneira dinâmica, contraditória e não linear.
Por fim, a categoria Busca de sentido e ressignificação da experiência evidenciou movimentos de reconstrução subjetiva após a perda do trabalho. Em consonância com os pressupostos da Logoterapia de Viktor Frankl, observou-se que alguns participantes conseguiram atribuir novos sentidos à experiência vivida, transformando o sofrimento em possibilidade de reflexão, crescimento e reorganização existencial. P2 relatou questionamentos sobre sua trajetória profissional e seus projetos futuros. P4 encontrou no crochê não apenas uma atividade terapêutica, mas também uma forma de cuidado e contribuição social. P5 ressignificou a experiência ao compreender que a insatisfação profissional não estava relacionada à sua formação, mas às características específicas do trabalho exercido anteriormente.
Desse modo, os resultados indicam que o desemprego constitui uma experiência complexa e multifacetada, atravessada por sentimentos de perda, insegurança, ruptura identitária e sofrimento emocional, mas também por possibilidades de ressignificação e reconstrução subjetiva. A análise evidencia que o luto pelo desemprego deve ser compreendido para além da dimensão econômica, considerando seus impactos psicológicos, sociais e existenciais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo investigar as vivências emocionais e os processos de ressignificação relacionados ao luto pela perda do trabalho, compreendendo de que maneira os indivíduos experienciam o desemprego enquanto uma forma de luto simbólico. A partir da análise das entrevistas, foi possível constatar que o desligamento profissional ultrapassa a dimensão econômica, produzindo impactos significativos na subjetividade, na autoestima, nos vínculos sociais e no sentido existencial dos participantes.
Os resultados encontrados permitiram alcançar os objetivos propostos pela pesquisa. Em relação aos sentimentos predominantes após a perda do emprego, identificaram-se manifestações intensas de medo, ansiedade, tristeza, raiva, insegurança e desamparo, além de repercussões físicas e emocionais, como insônia, irritabilidade, tremores e alterações no apetite. Tais experiências evidenciam que o desemprego pode ser vivenciado como uma ruptura significativa na trajetória pessoal e social do indivíduo.
No que se refere aos impactos na identidade, autoestima e vínculos sociais, observou-se que o trabalho ocupa um lugar central na construção da percepção de valor pessoal e pertencimento social. Muitos participantes relataram sentimentos de incapacidade, inferioridade e autoquestionamento, bem como retraimento social e isolamento emocional. Entretanto, também foram identificadas diferenças individuais importantes, demonstrando que os efeitos do desemprego variam conforme os recursos emocionais, experiências anteriores e formas de enfrentamento de cada sujeito.
As estratégias de enfrentamento identificadas evidenciaram a relevância do apoio familiar, da espiritualidade, da psicoterapia, das atividades criativas e das redes de apoio social na elaboração do sofrimento. Nesse contexto, os pressupostos da Logoterapia de Viktor Frankl mostraram-se pertinentes para compreender os movimentos de ressignificação presentes nos relatos. Alguns participantes conseguiram transformar a experiência dolorosa em oportunidade de reflexão, reorganização pessoal e reconstrução de sentido, demonstrando que, mesmo diante da perda, é possível encontrar novos caminhos existenciais.
A hipótese de que a perda do trabalho provoca emoções compreendidas sob o prisma das fases do luto propostas por Elisabeth Kübler-Ross foi parcialmente confirmada. Os participantes apresentaram manifestações compatíveis com negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação; contudo, observou-se que essas vivências ocorreram de maneira dinâmica e não linear, reforçando o caráter singular do processo de luto.
Também foi confirmada a hipótese de que o desemprego impacta significativamente a identidade, autoestima e os vínculos sociais dos indivíduos, uma vez que os relatos evidenciaram alterações importantes na percepção de si, no convívio social e na sensação de pertencimento. Da mesma forma, verificou-se que estratégias relacionadas ao sentido da vida e à reconstrução existencial contribuíram para a elaboração emocional do sofrimento, corroborando os pressupostos teóricos de Frankl.
A análise de conteúdo de Laurence Bardin permitiu compreender a complexidade e profundidade das experiências relatadas, favorecendo a identificação de categorias temáticas que evidenciaram tanto o sofrimento associado ao desemprego quanto os movimentos de adaptação e ressignificação presentes nos discursos.
Por fim, considera-se que esta pesquisa contribui para ampliar a compreensão do desemprego como uma experiência emocional e existencial significativa, destacando a necessidade de acolhimento psicológico e social às pessoas em situação de desligamento profissional. Espera-se que os resultados possam subsidiar futuras pesquisas, práticas clínicas e políticas públicas voltadas à saúde mental do trabalhador, promovendo espaços de escuta, suporte emocional e reconstrução de sentido diante da perda do trabalho.
Como limitação do estudo, destaca-se o número reduzido de participantes e o recorte específico da amostra, o que não permite generalizações. Sugere-se, para pesquisas futuras, a ampliação do número de participantes, bem como investigações que contemplem diferentes contextos sociais, faixas etárias e realidades profissionais, aprofundando a compreensão do luto simbólico relacionado ao desemprego.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Bardin, L. (2011). Análise de conteúdo. Lisboa.
Crnkovic, L. H., Silva, A., Almeida, C., Rodrigues, L., & Leoncio, S. (07 de 07 de 2024). O ENFRENTAMENTO DO LUTO A PARTIR DOS PILARES DA LOGOTERAPIA. EDUCAFOCO - Educação, Pesquisa E formação Continuada - Revista eletrônica Interdisciplinar E Internacional Do Programa De Pós-graduação, Pesquisa E extensão Do Centro Universitário Ítalo Brasileiro, p. 5(2).
Dias, M. L. (2021). Relações entre a vida e a morte: perspectivas da sociedade contemporânea. Curitiba: Appris.
Frankl, V. E. (2011). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes.
Kübler-Ross, E. (2008). Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes.
Teodoro, E. F., Silva, M. L., & Couto, D. P. (2023). LUTO: EFEITOS DE DESPERSONALIZAÇÃO NA CONSTRUÇÃO DE SENTIDO DA REALIDADE. Pretextos - Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, pp. 85-104.
APÊNDICES
APÊNDICE A – ENTREVISTADO 01: C.
Entrevistado 01 - C. | ||
1. Sentimentos Predominantes | ||
Investigar reações emocionais e físicas após a perda do trabalho, como ansiedade, tristeza, medo, raiva ou sintomas psicossomáticos. | ||
1 | Como foi para você vivenciar a perda do trabalho? | C.: Foi... ah... acho que, como eu comentei, ah... eu acho que o que me incomodou mais foi eu não poder ajudar na casa. |
2 | Quais sentimento esse tornaram mais intensos nesse período? | C.: Eu acho que... um pouquinho de desespero, assim... de... ter que encontrar alguma coisa e não encontrar e... fazer entrevista e... |
3 | Você percebeu mudanças físicas ou emocionais em si mesmo, como ansiedade, tristeza, tremores ou outras | C.: Eu acho que sim... ah... físicas não tanto, mas eu... ah... eu me encontrei mais irritado, mais coisas assim me deixavam... passavam do meu limite, assim... coisas bobas... |
Entrevistado 01 - C. | ||
2. Vínculos sociais e autoestima | ||
Analisar os impactos do desemprego na autoestima, na identidade pessoal e nos vínculos sociais, incluindo isolamento e afastamento de atividades. | ||
1 | De que forma essa perda afetou sua autoestima e a maneira como você se enxerga? | C.: Eu... durante todo esse tempo e até hoje, e a gente vê isso até na minha... na minha terapia... eu... eu sinto que eu não sou o suficiente. Mesmo que, tipo, meu currículo seja bom, mesmo que... eu tenha um curso, eu ainda sinto que eu não sou o suficiente para... pras vagas. E tem algumas vagas que eu não envio o meu currículo porque eu... eu penso que eu não sou o suficiente para aquela vaga, que pede mais coisas... o salário é maior... vários motivos. |
2 | Quais mudanças ocorreram nas suas relações com família, amigos ou colegas desde o desligamento? | C.: Eu tenho saído bem menos do que quando eu tava trabalhando. Entrevistadora: Os seus amigos continuam, são os mesmos amigos? O vínculo... |
3 | Você sente que deixou de participar das atividades ou espaços sociais que antes eram parte da sua rotina? | C.: Sim, ah... eu não queria gastar, então eu não saía. Quando eu tava trabalhando, eu fui em show, fui... saí pra beber, em balada... e depois que eu fui demitido, nada mais aconteceu, assim. Agora as reuniões de saí... de saída assim, é só de família mesmo. |
Entrevistado 01 - C. | ||
3. Estratégias de enfrentamento | ||
Identificar recursos internos e externos utilizados para lidar com a perda, avaliando práticas adaptativas (apoio social, espiritualidade, lazer) e desadaptativas (isolamento, autoacusação). | ||
1 | O que tem ajudado você a lidar com esse momento difícil? | C.: Eu já estava fazendo e esse ano continuei, eu estou fazendo teatro, que ajuda bastante. Meu pai há pouco tempo também trocou de rumo da carreira, né? |
2 | Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum | C.: Acho que agora eu tô me sentindo um pouco mais em paz, porque eu já entendi que... que aconteceu e que não tinha como mudar, né? Mas ainda... ah... sinto que... ah... não tá totalmente resolvido dentro de mim, assim... |
3 | Existe algo que você percebeu que não ajuda ou até piora a forma como você se sente? | C.: Acho que... não é algo fácil de mudar, mas... acho que... mais resiliência, assim, de todo dia entrar no computador e procurar, e mandar currículo, e mandar, sei lá, mensagem no LinkedIn. Acho que é o que me atrapalha mais, assim, que eu tenho essa dificuldade de... |
Entrevistado 01 - C. | ||
4. Etapas do luto | ||
Compreender a presença das fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) no processo de desemprego, aplicando o modelo de Kübler-Ross. | ||
1 | Em algum momento você sentiu como se estivesse negando a perda ou não acreditando | C.: Sim, ah... no... quando eu fui demitido, acho que foi... uma semana assim para eu entender que eu tinha sido demitido e que eu não precisava acordar tão cedo para trabalhar e... ah... eu tava assim, acordando ainda no mesmo horário que eu acordava antes. Ah... e foi mais ou menos isso, assim. |
2 | Houve situações em que sentiu raiva ou buscou negociar consigo mesmo ou com outras | C.: Sim, ah... no... quando eu fui demitido, acho que foi... uma semana assim para eu entender que eu tinha sido demitido e que eu não precisava acordar tão cedo para trabalhar e... ah... eu tava assim, acordando ainda no mesmo horário que eu acordava antes. Ah... e foi mais ou menos isso, assim. |
3 | Você identifica momentos de tristeza profunda ou de aceitação em relação ao que | C.: Eu acredito que sim... eu... ah... fiquei meio triste porque... eu tava morando junto da minha irmã, então... ah... eu queria ajudar na casa e... com pagamento e coisas assim, então... ah... eu sentia que eu não conseguia ajudar o suficiente porque não tava recebendo, né? Sim... e isso foi... foi pegando, assim. |
Entrevistado 01 - C. | ||
5. Intervenções psicológicas e sociais | ||
Refletir sobre suportes já recebidos e os que poderiam ser oferecidos. Considera tanto políticas públicas e programas de empregabilidade quanto a Logoterapia de Frankl, que busca ressignificar o sofrimento. | ||
1 | Que tipo de apoio psicológico ou social teria feito diferença para você nesse processo? | C.: Acho que... Não sei exatamente. Eu não tinha muitos amigos antes, então talvez eles fariam diferença. |
2 | Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? | C: Serviço não, mas minha irmã me deu um apoio legal naquela época. Foi difícil, mas ela fez o que deu |
APÊNDICE B – ENTREVISTADO 02: E.
Entrevistado 02 - E. | ||
1. Sentimentos Predominantes | ||
Investigar reações emocionais e físicas após a perda do trabalho, como ansiedade, tristeza, medo, raiva ou sintomas psicossomáticos. | ||
1 | Como foi para você vivenciar a perda do trabalho? | E.: Ah, foi... acho que o sentimento principal foi de raiva. Raiva pelo sentido de, como a gente falou anteriormente, né, de encontrar um culpado. Raiva por ter perdido, raiva por ter manejado a minha vida para um sentido de estar em função do trabalho... e acho que o principal foi esse sentimento de raiva. |
2 | Quais sentimento esse tornaram mais intensos nesse período? | E.: Quais sentimentos que se tornaram mais intensos... acho que a tristeza. Por não conseguir encontrar uma... uma solução a curto prazo ali, né? Como até arrumar uma nova coisa levou quase um mês, então o questionamento ali de "será que eu vou conseguir voltar pro mercado de trabalho?", mas também o sentimento ali de "será que é de fato isso que eu quero fazer daqui pra frente?". |
3 | Você percebeu mudanças físicas ou emocionais em si mesmo, como ansiedade, tristeza, tremores ou outras | E.: Sim, eh... acho que o que ficou mais evidente foi a ansiedade, sabe? De... de não saber o dia de amanhã, de... de ficar naquela expectativa de receber um retorno de uma entrevista... Eh... isso me gerou muita insônia, né? Passava as noites ali pensando no que eu ia fazer, eh... e acho que fisicamente foi o que mais me afetou, foi a questão do sono, né? Eh... e emocionalmente a ansiedade, de... de estar sempre com o pensamento no futuro, né? No... no que ia acontecer. |
Entrevistado 02 - E. | ||
2. Vínculos sociais e autoestima | ||
Analisar os impactos do desemprego na autoestima, na identidade pessoal e nos vínculos sociais, incluindo isolamento e afastamento de atividades. | ||
1 | De que forma essa perda afetou sua autoestima e a maneira como você se enxerga? | E.: Acho que afetou bastante, sabe? Porque, como eu me via como um bom profissional, eh... o fato de ser demitido me gerou esse questionamento, sabe? De... "será que eu sou tão bom assim?", "será que o problema sou eu?", eh... e isso mexe muito com a nossa autoconfiança, né? De... de se sentir capaz de... de exercer aquela função, eh... então acho que o impacto foi... foi grande nesse sentido, de... de me questionar como profissional e como pessoa também, né? De... de entender o meu valor dentro do mercado de trabalho. |
2 | Quais mudanças ocorreram nas suas relações com família, amigos ou colegas desde o desligamento? | E.: Mudou bastante. Eu acho que eu me fechei muito, sabe? É... por conta de... de não querer, de certa maneira, assim, compartilhar essa dor, né? Esse sentimento de... de derrota, de certa maneira. Então acabei me afastando um pouco dos amigos, eh... da família também, de certa maneira, tentei... eh... transparecer que tava tudo bem, mas no fundo não tava, sabe? Então acho que a principal mudança foi esse meu retraimento, né? De... de me fechar no meu mundo e tentar resolver as coisas sozinho. |
3 | Você sente que deixou de participar das atividades ou espaços sociais que antes eram parte da sua rotina? | E.: Sim, com certeza. Por conta dessa questão financeira também, né? A gente acaba se privando de... de sair, de... de estar em lugares que a gente frequentava antes, eh... e isso também impacta nessa questão social, né? De... de estar com as pessoas, de... de trocar experiências, eh... então acho que houve sim esse afastamento, né? Por... por uma questão de... de necessidade mesmo, de... de economizar e de... de focar no que era essencial naquele momento. |
Entrevistado 02 - E. | ||
3. Estratégias de enfrentamento | ||
Identificar recursos internos e externos utilizados para lidar com a perda, avaliando práticas adaptativas (apoio social, espiritualidade, lazer) e desadaptativas (isolamento, autoacusação). | ||
1 | O que tem ajudado você a lidar com esse momento difícil? | E.: É... eu acho que depois que passou muito mais ali a fase da negação, né? Muito também voltado para a questão da melancolia... Eu comecei a me reencontrar, a assumir alguns contatos que eu tinha, né? Ali de antiga chefia de profissões, até alguns colegas que eu já havia trabalhado e comecei a mandar |
2 | Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum | E.: Encontrei. É, eu vejo muito pelo resgate que eu fiz ali de contatos antigos. Busquei ali minha rede de apoio que eu tinha, contei muito com a questão familiar que foi um diferencial muito grande, né? Cheguei para minha irmã e falei: "olha, agora a nossa realidade vai ser diferente", e ela falou "eu te apoio". Eu acho que |
3 | Existe algo que você percebeu que não ajuda ou até piora a forma como você se sente? | E.: Sim, eu vejo muito ali pela parte da autocrítica, né? De me culpar por uma decisão que foi um terceiro que tomou. |
Entrevistado 02 - E. | ||
4. Etapas do luto | ||
Compreender a presença das fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) no processo de desemprego, aplicando o modelo de Kübler-Ross. | ||
1 | Em algum momento você sentiu como se estivesse negando a perda ou não acreditando | E.: Creio que sim, né. A partir do momento que a gente... que eu recebi a notícia que... que eu ia ser demitido, parece que caiu o chão, sabe? Porque eu fiquei bem... bem impactado, porque eu lembro que na época eu ia fazer um ano de empresa, é... tava já com as férias todas agendadas, tava me organizando, também tava organizando ali o setor em busca dessa estruturação e tudo mais, né? E no momento eu... me senti perdido. E eu lembro que depois na... na semana que... que decorreu ali, eu fiquei perdido. Porque querendo ou não era uma função que eu exercia, né? Então acho que se encaixa muito pela questão ali da... de negar mesmo, de não acreditar que aquilo acontecia. Porque eu me via como um bom profissional, eu imaginei que teria um crescimento muito maiorali dentro. |
2 | Houve situações em que sentiu raiva ou buscou negociar consigo mesmo ou com outras | E.: Sim. É... busquei, né, de certa maneira assim, um culpado. Foi no momento ali a equipe de modo geral, né, na função ali da... da diretora do setor, como uma centralidade de justificar, de certa maneira, a responsabilização, né? Muito pela... pela negação ali de... de não crer que aquilo era uma verdade, transferi muito a responsabilidade. |
3 | Você identifica momentos de tristeza profunda ou de aceitação em relação ao que | E.: Teve sim. É... eu busquei muito entender os motivos, né? É... se... se de certa maneira assim, tinha algo que eu poderia ter feito de diferente, né? É... de certa maneira, assim, tentei uma conversa ali com... com o setor de RH em busca de uma recolocação dentro da própria empresa, né? Já que eu me via com um potencial ali de... de crescimento, né? É... mas foi uma negativa, né? Então eu acabei aceitando a situação. |
Entrevistado 02 - E. | ||
5. Intervenções psicológicas e sociais | ||
Refletir sobre suportes já recebidos e os que poderiam ser oferecidos. Considera tanto políticas públicas e programas de empregabilidade quanto a Logoterapia de Frankl, que busca ressignificar o sofrimento. | ||
1 | Que tipo de apoio psicológico ou social teria feito diferença para você nesse processo? | E.: Um acompanhamento profissional talvez, na época eu ainda estava na metade da faculdade e já tinha um entendimento melhor sobre como funciona o processo de luto. A família é importante também... Acho que fez uma diferença importante |
2 | Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? | E.: Minha irmã e meus colegas de faculdade, principalmente. |
APÊNDICE C – ENTREVISTADO 03: P.
Entrevistado 03 - P. | ||
1. Sentimentos Predominantes | ||
Investigar reações emocionais e físicas após a perda do trabalho, como ansiedade, tristeza, medo, raiva ou sintomas psicossomáticos. | ||
1 | Como foi para você vivenciar a perda do trabalho? | P.: De certa forma, mais uma vez uma decepção, porque eu procurava fazer as demandas dentro de uma ética e profissionalismo. A demissão foi como uma definição popular, "puxar o tapete". |
2 | Quais sentimento esse tornaram mais intensos nesse período? | P.: Vontade de encher meu chefe de porrada, quebrar a cara dele e também as pessoas que estavam envolvidas. |
3 | Você percebeu mudanças físicas ou emocionais em si mesmo, como ansiedade, tristeza, tremores ou outras | P.: Sim, tristeza, porque eu venho ao longo da minha vida me preparando para ocupar uma função, me qualifiquei academicamente, profissionalmente e por uma mentira, por uma puxada de tapete, como eu falei na resposta anterior, fiquei muito chateado, muito, na verdade, triste com a situação. |
Entrevistado 03 - P. | ||
2. Vínculos sociais e autoestima | ||
Analisar os impactos do desemprego na autoestima, na identidade pessoal e nos vínculos sociais, incluindo isolamento e afastamento de atividades. | ||
1 | De que forma essa perda afetou sua autoestima e a maneira como você se enxerga? | P.: Não afetou a minha autoestima porque não é em função do acontecido ou da opinião da pessoa, do meu chefe ou de outro que vai refletir na minha pessoa. Eu sou muito bem realizado e centrado do que eu posso fazer e sou como profissional. |
2 | Quais mudanças ocorreram nas suas relações com família, amigos ou colegas desde o desligamento? | P.: Não houve nenhuma mudança. Continuou tudo dentro da rotina. Uma situação externa não vai afetar o lado interno de amizade ou família. |
3 | Você sente que deixou de participar das atividades ou espaços sociais que antes eram parte da sua rotina? | P.: Não. Continuo ocupando meus espaços sociais antes, após e na rotina futura. Não mudou nada. Minha rotina social continua a mesma coisa. |
Entrevistado 03 - P. | ||
3. Estratégias de enfrentamento | ||
Identificar recursos internos e externos utilizados para lidar com a perda, avaliando práticas adaptativas (apoio social, espiritualidade, lazer) e desadaptativas (isolamento, autoacusação). | ||
1 | O que tem ajudado você a lidar com esse momento difícil? | P.: Ah, Deus sempre, independente de bandeira de igreja, e as minhas filhas. |
2 | Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum | P.: A minha rotina desde a minha adolescência, juventude, mantém uma constância. Não foi esse fato isolado ou outro que venha a... que mudou a rotina. Não tem nada de novo em função da injustiça que foi cometida. Continua normal a rotina do P. |
3 | Existe algo que você percebeu que não ajuda ou até piora a forma como você se sente? | P.: Não sei dizer... Acho que se afastar das pessoas |
Entrevistado 03 - P. | ||
4. Etapas do luto | ||
Compreender a presença das fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) no processo de desemprego, aplicando o modelo de Kübler-Ross. | ||
1 | Em algum momento você sentiu como se estivesse negando a perda ou não acreditando | P.: Sim. Sim. Sim! Justamente. |
2 | Houve situações em que sentiu raiva ou buscou negociar consigo mesmo ou com outras | P.: Sim, houve situações que eu procurei buscar comigo mesmo para entender o porquê da demissão. |
3 | Você identifica momentos de tristeza profunda ou de aceitação em relação ao que | P.: Não, não chega a ser uma tristeza profunda, porque é muito pesado esse termo. Diria que mais decepcionado com a empresa. Mais decepção. |
Entrevistado 03 - P. | ||
5. Intervenções psicológicas e sociais | ||
Refletir sobre suportes já recebidos e os que poderiam ser oferecidos. Considera tanto políticas públicas e programas de empregabilidade quanto a Logoterapia de Frankl, que busca ressignificar o sofrimento. | ||
1 | Que tipo de apoio psicológico ou social teria feito diferença para você nesse processo? | P.: Acho que a força tem que vir de nós mesmos... Se for precisar, talvez um apoio psicológico... Profissional! Mas o processo vai ser o mesmo, com ou sem orientação. |
2 | Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? | Não, nenhum... Minhas filhas me ajudaram a lembrar meu papel, mas nada além |
APÊNDICE D – ENTREVISTADO 04: N.
Entrevistado 04 - N. | ||
1. Sentimentos Predominantes | ||
Investigar reações emocionais e físicas após a perda do trabalho, como ansiedade, tristeza, medo, raiva ou sintomas psicossomáticos. | ||
1 | Como foi para você vivenciar a perda do trabalho? | N.: Bom, foi muito angustiante, né? Porque, na verdade, a gente tinha um padrão de vida não assim, eh... exacerbado, com muitas regalias, mas a gente tinha um padrão de vida legal, né? Onde a gente conseguiu comprar um terreno... |
2 | Quais sentimento esse tornaram mais intensos nesse período? | N.: Olha, o sentimento mais intenso eu digo que foi o medo. O medo acho que foi o principal, foi o que mais me marcou assim, que ficou mais evidente, foi esse medo, né? O medo do desconhecido, o medo do que seria amanhã, o medo do que se daria certo essa ideia do Andrei, né, da microempresa... Então foram vários... um misto de medos assim. Eu digo que foi o que mais marcou. |
3 | Você percebeu mudanças físicas ou emocionais em si mesmo, como ansiedade, tristeza, tremores ou outras | N.: Sim, mas... eu percebi, na verdade, todas, né? Eu engordei uns 12 quilos... E deu para ver muito que era uma questão emocional, porque minha alimentação era a mesma. |
Entrevistado 04 - N. | ||
2. Vínculos sociais e autoestima | ||
Analisar os impactos do desemprego na autoestima, na identidade pessoal e nos vínculos sociais, incluindo isolamento e afastamento de atividades. | ||
1 | De que forma essa perda afetou sua autoestima e a maneira como você se enxerga? | N.: Bom, como a gente falou antes, né... como eu engordei bastante, né, a minha autoestima... eu me sentia largada, né? Eu senti que eu me larguei assim. Então... eu já não... eu me via... eu sempre fui uma... uma mulher que gosta de levantar de manhã, primeira coisa, né, passar um batom, pentear o cabelo... Em casa eu não gosto de vestir qualquer coisa, eu gosto de estar arrumadinha, né? Então esse foi um momento em que eu me larguei, né? Tanto porque eu engordei, quanto porque eu não me sentia... eu tinha todo esse medo envolvido, né? Então eu me larguei. Já não... não tinha vontade de comprar uma roupa nova, não tinha vontade de passar um batom, não tinha vontade de me maquiar, cabelo sempre preso, né? Então eu sinto que afetou bastante a minha autoestima sim. |
2 | Quais mudanças ocorreram nas suas relações com família, amigos ou colegas desde o desligamento? | N.: Bom, foi muito angustiante, né? Porque na verdade a gente tinha um padrão de vida não assim... exacerbado, com muitas regalias, mas a gente tinha um padrão de vida legal, né? Onde a gente conseguiu comprar um terreno... |
3 | Você sente que deixou de participar das atividades ou espaços sociais que antes eram parte da sua rotina? | N.: Sim, sim. Na verdade, como eu respondi anteriormente, né, eu acabei me isolando do mundo, né? Então não, nem... como eu falei, não queria nem ir ao mercado, não queria ir a lugar nenhum, na padaria... |
Entrevistado 04 - N. | ||
3. Estratégias de enfrentamento | ||
Identificar recursos internos e externos utilizados para lidar com a perda, avaliando práticas adaptativas (apoio social, espiritualidade, lazer) e desadaptativas (isolamento, autoacusação). | ||
1 | O que tem ajudado você a lidar com esse momento difícil? | N.: Bom, Maris, é até um pouco engraçado, mas... eu lembro que a minha mãe, quando aconteceu tudo isso, ela falava: "Você precisa ocupar a mente, né? Além das crianças, você precisa fazer algo que você gosta", não sei o quê. E eu comecei a ver vídeos de crochê no YouTube! E virou meu hobby! E aquilo realmente foi muito terapêutico para mim. |
2 | Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum | Entrevistadora: Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum sentido novo? |
3 | Existe algo que você percebeu que não ajuda ou até piora a forma como você se sente? | N.: O isolamento. Eu acho que é o principal, né? Até inclusive hoje, na apresentação dos trabalhos que a gente teve, eu pude até perceber como é importante essa questão do coletivo, né? E por mais que eu estivesse numa pandemia, eu tinha amigos, eu tinha familiares, você podia ligar de vídeo chamada, podia conversar, né? E eu decidi me isolar, né? |
Entrevistado 04 - N. | ||
4. Etapas do luto | ||
Compreender a presença das fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) no processo de desemprego, aplicando o modelo de Kübler-Ross. | ||
1 | Em algum momento você sentiu como se estivesse negando a perda ou não acreditando | N.: Então, é... quando eu fiquei desempregada, na verdade, né? Depois da pandemia, que a gente precisou fechar a lanchonete... É, foi bem difícil para mim, né, essa fase, porque eu não queria acreditar que algo que estava indo tão bem, né, do nada... já não tinha mais, já não podia mais abrir, já não podia mais vender. |
2 | Houve situações em que sentiu raiva ou buscou negociar consigo mesmo ou com outras | N.: Sim. Eu senti raiva, né, porque eu não aceitava que... eu não aceitava que o comércio tinha fechado, né, que a gente não teria mais aquela condição financeira que a gente tinha, né? Quis inclusive manter aberto, e essa foi a briga, né? Porque a gente ia precisar manter um comércio que não ia funcionar, a gente nem sabia por quanto tempo, né? Então eu ficava naquela barganha, né: "Não, mas e se a gente fizer isso? E se a gente tentar manter? E se a gente fizer iFood, quem sabe?". Então eu fiquei nessa barganha, né? |
3 | Você identifica momentos de tristeza profunda ou de aceitação em relação ao que | N.: Sim, eu senti a tristeza profunda, inclusive as noites passaram a ser bem difíceis, assim, de... de dormir, né? Eu até fiz uso de Rivotril um tempo, porque a noite para mim era muito deprimente, né? Eu sentia assim, uma... parecia que vinha à tona, daí... todo mundo relaxando, roncando, minha filha no quarto, na época, meu marido do lado e eu... naquela tristeza, naquela desintegração, né? Tentando elaborar aquilo dentro de mim, né, que... que não era a mesma vida, a gente não sabia o que ia ser. Então essa tristeza foi... acho que foi a etapa mais clara para mim, foi a tristeza. |
Entrevistado 04 - N. | ||
5. Intervenções psicológicas e sociais | ||
Refletir sobre suportes já recebidos e os que poderiam ser oferecidos. Considera tanto políticas públicas e programas de empregabilidade quanto a Logoterapia de Frankl, que busca ressignificar o sofrimento. | ||
1 | Que tipo de apoio psicológico ou social teria feito diferença para você nesse processo? | N.: Sim, sim, tive. Totalmente do meu marido. Ele foi o meu, assim, meu pilar mesmo, sabe? Porque ele sempre via... sempre segurou a barra, né? Sempre foi o positivo, sempre foi o: "Não, vai dar tudo certo, agora a gente não tem, mas amanhã é outro dia". |
2 | Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? | Entrevistadora: Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? Se diz além do... suporte além do que era todo muito familiar. Algum suporte emocional mesmo, assim, de acolhimento, tirando tua família. "Venha, Natália, que eu te cuido, eu te protejo". |
APÊNDICE E – ENTREVISTADO 05: E.
Entrevistado 05 - D. | ||
1. Sentimentos Predominantes | ||
Investigar reações emocionais e físicas após a perda do trabalho, como ansiedade, tristeza, medo, raiva ou sintomas psicossomáticos. | ||
1 | Como foi para você vivenciar a perda do trabalho? | D.: Acho que não foi tão ruim, lembro de sair me sentindo um pouco mais tranquilo, como se tivessem tirado um peso de cima de mim. Não era um trabalho que eu gostava de fazer, sendo bem sincero. Eu tinha entrado lá com uma expectativa alta, por ser da minha área e por ser uma empresa grande... Considerando também que meu contrato havia acabado, posso dizer que poderia ter sido pior. |
2 | Quais sentimentos se tornaram mais intensos nesse período? | Preocupação excessiva, ainda que eu morasse com meus pais, eu precisava de dinheiro e não podia ficar sem uma renda. Fora o fato que se acostumamos com a rotina, aí de uma hora para outra, a rotina muda totalmente |
3 | Você percebeu mudanças físicas ou emocionais em si mesmo, como ansiedade, tristeza, tremores ou outras reações? | Não, acho que nada muito ruim. |
Entrevistado 05 - D. | ||
2. Vínculos sociais e autoestima | ||
Analisar os impactos do desemprego na autoestima, na identidade pessoal e nos vínculos sociais, incluindo isolamento e afastamento de atividades. | ||
1 | De que forma essa perda afetou sua autoestima e a maneira como você se enxerga? | Acho que pela falta do dinheiro eu me coloco numa posição de inferioridade de maneira automática, minha autoestima ficou afetada, o trabalho significava apenas renda para mim. Acho que esse foi o principal fator. |
2 | Quais mudanças ocorreram nas suas relações com família, amigos ou colegas desde o desligamento? | Minha família se manteve a mesma, nada se alterou. Meus amigos do trabalho não se importaram tanto, na verdade até se sentiram melhor por saberem que eu não gostava de trabalhar lá. As relações se permaneceram as mesmas, acho que somente houve um distânciamento, por não frequentarmos o mesmo local mais. |
3 | Você sente que deixou de participar das atividades ou espaços sociais que antes eram parte da sua rotina? | Sim, principalmente da festa de fim de ano da firma (risadas). Vendo meus colegas que também eram meus amigos curtindo sem eu poder estar lá me deixou meio triste, mas acho que não afetou nada além disso. |
Entrevistado 05 - D. | ||
3. Estratégias de enfrentamento | ||
Identificar recursos internos e externos utilizados para lidar com a perda, avaliando práticas adaptativas (apoio social, espiritualidade, lazer) e desadaptativas (isolamento, autoacusação). | ||
1 | O que tem ajudado você a lidar com esse momento difícil? | Eu logo encontrei um trabalho, um ex-colega me convidou para voltar a trabalhar com ele, então aceitei. Foi uma maneira legal de não se preocupar tanto com o que havia acontecido. Eu sabia que estava próximo ao fim do meu contrato de estágio então já estava procurando algo. Se fosse dizer com exatidão, e que de alguma maneira seja interessante colocar na pesquisa é o fato de que não vivi o processo do luto, foi muito depressa essa transição. |
2 | Você encontrou atividades, pessoas ou recursos que lhe deram força ou trouxeram algum | Sim, o trabalho novo... A Faculdade também, acho que se eu apenas trabalhasse a minha vida seria muito monótona e tediosa |
3 | Existe algo que você percebeu que não ajuda ou até piora a forma como você se sente? | Acho que eu fiquei me cobrando muito pelo fato de não gostar do que eu fazia. Por ser da minha área de atuação eu ficava me questionando sobre a formação que eu havia escolhido. No fim eu ressignifiquei isso, deu para entender que o meu trabalho não havia relação direta com a formação que escolhi. Mesmo assim, passei um tempo significativo pensando sobre mudar de direção de carreira. |
Entrevistado 05 - D. | ||
4. Etapas do luto | ||
Compreender a presença das fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) no processo de desemprego, aplicando o modelo de Kübler-Ross. | ||
1 | Em algum momento você sentiu como se estivesse negando a perda ou não acreditando | Sim, no primeiro dia eu acordei preocupado achando que havia perdido a hora, mas só depois eu me lembrei que não precisava se preocupar com horário. Talvez tenha sido apenas isso. Acreditei desde quando não me apresentaram a renovação de contrato, acho que não neguei em nenhum momento devido a previsibilidade sobre o que poderia ocorrer. |
2 | Houve situações em que sentiu raiva ou buscou negociar consigo mesmo ou com outras | Acho que não, pelo menos não me lembro de nada agora. |
3 | Você identifica momentos de tristeza profunda ou de aceitação em relação ao que | Aceitação sim. Alívio, acho que alívio é a palavra mais correta. Tirei o peso de cima de mim, era uma ocupação muito fora do que eu gostava de fazer. |
Entrevistado 05 - D. | ||
5. Intervenções psicológicas e sociais | ||
Refletir sobre suportes já recebidos e os que poderiam ser oferecidos. Considera tanto políticas públicas e programas de empregabilidade quanto a Logoterapia de Frankl, que busca ressignificar o sofrimento. | ||
1 | Que tipo de apoio psicológico ou social teria feito diferença para você nesse processo? | Acho que atividades extras, talvez ajudaria. Me aproximei dos amigos principalmente, acho que eles foram os que mais me ajudaram. |
2 | Houve alguém ou algum serviço que ofereceu suporte importante nesse período? | Nenhum serviço. Meus amigos e minha namorada me deram total apoio naquele momento. Era confortável saber que eu havia apoio. |
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Faculdade Inspirar, como requisito parcial à obtenção do Bacharel em Psicologia. Orientador: Prof.ª Neusa Salete Vítola Pasetto