APRENDIZAGEM FILOSÓFICA E PENSAMENTO CONCEITUAL NO ENSINO MÉDIO: CONTRIBUIÇÕES DA PEDAGOGIA DO CONCEITO PARA O ENSINO DE FILOSOFIA

PHILOSOPHICAL LEARNING AND CONCEPTUAL THINKING IN HIGH SCHOOL: CONTRIBUTIONS OF CONCEPT PEDAGOGY TO THE TEACHING OF PHILOSOPHY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782090498

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a importância do ensino de Filosofia e seu papel na construção do pensamento conceitual dos estudantes do Ensino Médio. A pesquisa resulta das discussões desenvolvidas no componente curricular Filosofia do Ensino de Filosofia, vinculado ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Filosofia (Prof-Filo) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Fundamentado principalmente na perspectiva de Gilles Deleuze e Félix Guattari, o estudo busca compreender a especificidade da Filosofia enquanto atividade criadora de conceitos e discutir as possibilidades pedagógicas dessa compreensão no contexto da Educação Básica. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter bibliográfico, desenvolvida por meio da análise de obras filosóficas e educacionais que abordam a criação conceitual e o ensino de Filosofia. A reflexão parte da hipótese de que a construção do pensamento conceitual pode ser favorecida quando os estudantes são mobilizados a problematizar a realidade, investigar questões significativas e elaborar respostas para os desafios de seu contexto. Os resultados da discussão apontam que a Filosofia, ao promover a problematização, a reflexão crítica e a criação de conceitos, contribui para a formação de sujeitos mais autônomos, criativos e capazes de interpretar criticamente o mundo. Conclui-se que a construção do pensamento conceitual constitui uma importante possibilidade formativa para o Ensino Médio, fortalecendo a relevância da Filosofia na educação contemporânea.
Palavras-chave: Ensino de Filosofia; Criação de Conceitos; Pensamento Conceitual; Ensino Médio.

ABSTRACT
This study aims to reflect on the importance of Philosophy teaching and its role in the construction of conceptual thinking among high school students. The research emerged from discussions developed in the course Philosophy of Philosophy Teaching, offered within the Professional Master's Program in Philosophy Teaching (Prof-Filo) at the Federal University of Campina Grande (UFCG). Grounded primarily in the philosophical perspective of Gilles Deleuze and Félix Guattari, the study seeks to understand the specificity of Philosophy as an activity of concept creation and to discuss the pedagogical possibilities of this understanding within Basic Education. Methodologically, this is a qualitative bibliographic study based on the analysis of philosophical and educational works addressing concept creation and Philosophy teaching. The discussion is guided by the hypothesis that conceptual thinking can be fostered when students are encouraged to problematize reality, investigate meaningful questions, and develop responses to challenges arising from their own contexts. The findings suggest that Philosophy, by promoting problematization, critical reflection, and concept creation, contributes to the formation of more autonomous, creative, and critically engaged subjects. It is concluded that the development of conceptual thinking represents an important formative possibility for high school education, reinforcing the relevance of Philosophy in contemporary education.
Keywords: Philosophy Teaching; Concept Creation; Conceptual Thinking; High School Education.

1. INTRODUÇÃO

O Ensino de Filosofia, ao longo da história da educação brasileira, tem sido marcado por debates acerca de sua finalidade e de sua especificidade no currículo escolar. Em diferentes momentos, sua presença na Educação Básica foi questionada, reduzida ou mesmo suprimida, evidenciando a permanência de uma compreensão limitada acerca de suas contribuições para a formação humana. Não raramente, documentos oficiais e discursos educacionais tendem a atribuir à Filosofia um papel secundário, desconsiderando sua potência formativa e sua relevância para o desenvolvimento do pensamento crítico e autônomo.

Nesse contexto, o presente trabalho busca propor uma compreensão da aprendizagem filosófica a partir da construção de um pensamento por conceitos. Parte-se da compreensão de que a Filosofia é, fundamentalmente, uma atividade criadora de conceitos e que, por essa razão, tanto o filósofo-professor quanto o estudante-filósofo direcionam seu olhar para a elaboração conceitual como forma de compreender e interpretar a realidade.

Esse itinerário do pensamento criador e emancipatório contrapõe-se a uma concepção de ensino centrada exclusivamente na narrativa histórica ou na mera exposição dos sistemas filosóficos. Quando reduzida à transmissão de conteúdos, a Filosofia corre o risco de perder sua força problematizadora e criadora. Em contrapartida, o que se espera é uma postura ativa dos estudantes diante dos problemas que emergem de sua realidade, mobilizando-os a investigar, refletir e construir respostas para as questões que os afetam.

A aula de Filosofia compreende-se, portanto, como uma atividade do pensamento que pensa as coisas e a si mesmo, levantando problemas, refletindo sobre eles e produzindo respostas filosóficas. Trata-se de um espaço-tempo em que docentes e discentes são convocados a exercer uma atitude investigativa, questionadora e criadora diante do mundo.

Para fundamentar essa discussão, recorre-se ao pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, especialmente à obra O que é a Filosofia?, na qual os autores compreendem a Filosofia como a “arte de formar, de inventar e de fabricar conceitos” (DELEUZE; GUATTARI, 1992). Tal perspectiva permite romper com visões restritivamente reflexivas, metafísicas ou discursivas da atividade filosófica, compreendendo o pensamento como uma potência criadora constantemente mobilizada pelas aporias da existência.

Inicialmente, serão apresentadas as noções de conceito, plano de imanência e personagem conceitual, categorias fundamentais para compreender a Filosofia como atividade criadora. Em seguida, buscar-se-á estabelecer um diálogo com outros filósofos e filósofas estudados ao longo da formação no Prof-Filo, realizando um deslocamento dessa compreensão para o campo da educação e, mais especificamente, para o Ensino Médio.

Defende-se que a criação conceitual constitui um dos elementos que justificam a permanência da Filosofia nos currículos escolares contemporâneos. Mais do que transmitir conhecimentos produzidos historicamente, o ensino filosófico deve favorecer a formação de uma atitude inquieta, problematizadora, reflexiva e criadora.

Por fim, propõe-se um ensino de Filosofia que possibilite aos estudantes pensar, questionar, problematizar e construir respostas para os desafios de seu cotidiano. Inspirada na pedagogia do conceito, essa perspectiva compreende a sala de aula como um espaço de produção de pensamento, no qual professores e estudantes compartilham o exercício filosófico de interpretar o mundo e a si mesmos por meio da criação e da mobilização de conceitos.

2. METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica. Segundo Minayo (2014, p. 21), "a pesquisa qualitativa preocupa-se com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais". A investigação fundamenta-se na análise de obras filosóficas e educacionais que discutem a Filosofia como criação de conceitos e suas implicações para o ensino na Educação Básica, especialmente no contexto do Ensino Médio. A pesquisa bibliográfica, por sua vez, é entendida como aquela que "é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos" (GIL, 2008, p. 50).

Quanto aos objetivos, trata-se de uma pesquisa descritiva e reflexiva, uma vez que busca compreender as contribuições da atividade filosófica para a construção do pensamento conceitual dos estudantes. Conforme Gil (2008, p. 28), as pesquisas descritivas "têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno". O estudo não pretende realizar verificações empíricas ou experimentais, mas desenvolver uma reflexão teórica acerca da especificidade da Filosofia enquanto atividade criadora e de suas potencialidades formativas no ambiente escolar. Nesse sentido, Demo (2000, p. 20) afirma que a pesquisa teórica busca "reconstruir teorias, conceitos, ideias e ideologias, aprimorando fundamentos teóricos".

Os procedimentos metodológicos consistiram no levantamento, seleção, leitura e análise crítica de obras que abordam a natureza da Filosofia, a criação de conceitos e o ensino filosófico. O referencial teórico tem como eixo central o pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, especialmente a obra O que é a Filosofia?, dialogando também com as contribuições de Alejandro Cerletti, Jacques Rancière, Walter Kohan e Patrícia Del Nero Velasco.

A análise do material bibliográfico foi realizada por meio de uma abordagem teórico-conceitual, buscando identificar categorias fundamentais para a compreensão da aprendizagem filosófica, tais como conceito, problema, plano de imanência, personagem conceitual, emancipação intelectual e atitude filosófica. A partir dessas categorias, procurou-se refletir sobre as possibilidades de construção do pensamento conceitual no Ensino Médio e sobre o papel do ensino de Filosofia na formação de sujeitos autônomos, críticos e criadores.

3. A FILOSOFIA COMO CRIADORA DE CONCEITOS

A compreensão filosófica desenvolvida por Gilles Deleuze e Félix Guattari parte da definição da Filosofia como a “arte de formar, de inventar e de fabricar conceitos” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 10). Essa definição aponta para uma atividade dinâmica do pensamento, marcada pelo movimento criador e pela produção de novas possibilidades de compreensão da realidade. Distanciando-se de uma visão estática ou meramente contemplativa, a Filosofia apresenta-se como um saber essencialmente criativo, cujo produto específico é o conceito.

Definir a Filosofia como uma forma de pensamento responsável pela criação de conceitos significa reconhecer sua autonomia em relação aos demais saberes. Trata-se de uma atividade singular, capaz de produzir algo que nenhuma outra forma de conhecimento pode realizar em seu lugar. A criação de conceitos constitui, portanto, sua especificidade. É a partir dessa produção que a Filosofia interpreta, organiza e oferece novas possibilidades de compreensão do mundo.

Assim como as demais formas de pensamento possuem seus agentes criadores, a Filosofia tem no filósofo aquele que, potencialmente, cria conceitos. Essa é a natureza de sua atividade: estar constantemente envolvido no movimento de criação conceitual. Por meio dessa produção, o filósofo busca compreender e interpretar a realidade.

Como afirmam Deleuze e Guattari: “Criar conceitos sempre novos é o objeto da Filosofia. É porque o conceito deve ser criado que ele remete ao filósofo como àquele que o tem em potência, ou que tem sua potência e sua competência” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 11).

Entretanto, a Filosofia não é a única potência criadora. Deleuze e Guattari reconhecem que a Arte, a Ciência e a Filosofia constituem formas distintas de pensamento igualmente capazes de produzir novas formas de compreensão do real. O que diferencia a Filosofia é que apenas ela cria conceitos em sentido estrito.

Nesse sentido, Arte, Ciência e Filosofia produzem respostas próprias para os desafios da existência humana. Cada uma delas opera segundo seus métodos, linguagens e produtos específicos. À Filosofia compete a criação de conceitos; essa é sua singularidade e sua contribuição particular para o pensamento humano.

Ao retomarem a tradição filosófica, Deleuze e Guattari atribuem a Nietzsche um papel fundamental na compreensão da Filosofia como atividade criadora. Segundo os autores, Nietzsche foi um dos primeiros filósofos a romper com a concepção metafísica do conceito como algo dado, pronto e acabado, que caberia ao filósofo apenas descobrir. Em oposição a essa perspectiva, o filósofo alemão compreende a atividade filosófica como produção.

Como destacam Deleuze e Guattari: “Nietzsche determinou a tarefa da filosofia quando escreveu: os filósofos não devem mais contentar-se em aceitar os conceitos que lhes são dados, para somente limpá-los e fazê-los reluzir, mas é necessário que eles comecem por fabricá-los, criá-los, afirmá-los” (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 11).

Nessa perspectiva, o conceito é compreendido como uma criação do filósofo destinada a responder a determinado problema. O conceito surge como acontecimento, como algo que antes não existia e que passa a existir por meio da atividade filosófica.

A criação conceitual pressupõe um processo, um percurso de elaboração e determinadas condições de produção. Não se trata de um ato espontâneo ou arbitrário, mas de um trabalho intelectual que exige rigor, criatividade e problematização. É nesse contexto que emerge a necessidade de uma pedagogia do conceito, capaz de compreender os modos pelos quais os conceitos são produzidos e os problemas que buscam responder.

3.1. A Pedagogia do Conceito

Deleuze e Guattari compreendem que a atenção do filósofo deve voltar-se para a natureza do conceito enquanto criação produzida por um determinado filósofo, em condições históricas específicas e em resposta a determinados problemas. Esses problemas podem ser inéditos ou resultar de questões anteriormente formuladas de maneira insuficiente ou inadequada.

Nesse sentido, a atividade filosófica consiste não apenas em analisar conceitos já estabelecidos, mas também em compreender os processos que possibilitaram sua criação. Ao revisitarem a História da Filosofia, Deleuze e Guattari identificam um vasto percurso de produção conceitual que caracteriza a especificidade da Filosofia enquanto forma de pensamento. A Filosofia cria conceitos, e essa criação não ocorre de maneira aleatória. Ela envolve um percurso, um modo de operar e uma dinâmica própria do exercício filosófico.

A produção conceitual exige, portanto, uma compreensão dos caminhos percorridos pelo filósofo na elaboração de suas ideias. É nesse contexto que emerge a noção de pedagogia do conceito, cuja finalidade consiste em analisar as condições que tornam possível a criação conceitual e compreender a singularidade de cada conceito produzido.

Como afirmam Deleuze e Guattari:

Os pós-kantianos giravam em torno de uma enciclopédia universal do conceito, que remeteria sua criação à pura subjetividade, em lugar de propor uma tarefa mais modesta, uma pedagogia do conceito, que deveria analisar as condições de criação como fatores de momentos que permanecem singulares. (DELEUZE; GUATTARI, 1992, p. 18-19).

A pedagogia do conceito busca compreender as condições sob as quais um filósofo produz determinado conceito, investigando os elementos históricos, filosóficos e problemáticos que atravessam sua elaboração. Trata-se de analisar o percurso da criação conceitual, evidenciando os processos que conduziram ao surgimento de algo novo.

Sob essa perspectiva, conceito e criação remetem continuamente um ao outro. O conceito não é uma realidade pré-existente à espera de ser descoberta; ele emerge como resultado da atividade criadora do pensamento filosófico. Sua singularidade decorre justamente das circunstâncias específicas que possibilitaram seu aparecimento e de sua capacidade de responder a determinados problemas.

A pedagogia do conceito, portanto, permite compreender a dimensão criadora da Filosofia e evidencia o caráter produtivo do pensamento filosófico. Mais do que estudar conceitos prontos e acabados, trata-se de compreender como eles foram construídos, quais problemas buscaram responder e quais possibilidades de interpretação do mundo inauguraram.

Ao enfatizar a criação conceitual como elemento central da Filosofia, Deleuze e Guattari deslocam o foco da mera transmissão de conteúdos para a investigação dos processos criadores do pensamento. Dessa forma, a pedagogia do conceito apresenta-se como uma importante ferramenta para compreender não apenas a História da Filosofia, mas também as possibilidades formativas do ensino filosófico na contemporaneidade.

3.1.1. A Criação do Filósofo: Conceito, Plano de Imanência, Personagem Conceitual e Problemas

A atividade filosófica compreendida como criação de conceitos remete, necessariamente, ao exercício do pensamento. Trata-se de uma atividade que ultrapassa concepções metafísicas segundo as quais os conceitos seriam entidades prontas, cabendo ao filósofo apenas descobri-las. Também supera a compreensão de que a Filosofia se reduziria a uma atividade exclusivamente reflexiva ou discursiva. Para Deleuze e Guattari, o pensamento filosófico é essencialmente criador, dinâmico e permanentemente aberto ao devir.

O conceito surge em determinadas condições históricas e filosóficas como um acontecimento. Ele não se limita a representar algo já existente, mas inaugura novas possibilidades de compreensão da realidade. Nesse sentido, os autores destacam que nenhum conceito existe sem estar vinculado a um problema específico.

Como afirmam Deleuze e Guattari: “É necessário antes de mais nada entender que o conceito, ao ser criado, remete a um problema, a problemas sem os quais não teria sentido, e que só podem ser isolados ou compreendidos na medida da sua solução” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 24).

A criação conceitual não emerge do nada. É o problema que coloca o pensamento em movimento e impulsiona a atividade filosófica. Seja diante de uma questão inédita, seja diante de problemas anteriormente mal formulados, o filósofo busca construir respostas capazes de oferecer novas possibilidades de compreensão do mundo.

Os próprios autores afirmam: “Mesmo na filosofia, não se cria conceitos, a não ser em função dos problemas que consideram mal vistos ou mal colocados (pedagogia do conceito)” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 24).

O problema constitui, portanto, o ponto de partida da atividade filosófica. É ele que mobiliza o pensamento e justifica a criação de conceitos. Ao buscar responder a determinadas questões, os conceitos produzidos estabelecem relações com outros conceitos já existentes, formando uma rede complexa de conexões históricas e teóricas.

Desse modo, o conceito não pode ser compreendido como uma realidade isolada. Cada conceito possui uma história, uma genealogia e uma multiplicidade de relações que o conectam a outros conceitos. Conforme destacam Deleuze e Guattari: “Cada conceito tem componentes que podem ser, por sua vez, tomados como conceitos. Os conceitos vão, pois, ao infinito e, sendo criados, não são jamais criados do nada” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 27).

Os conceitos são constituídos por componentes heterogêneos que, embora distintos, tornam-se inseparáveis em sua composição interna. É essa inseparabilidade que garante sua consistência e unidade. Por essa razão, os autores definem o conceito como uma totalidade fragmentária, formada por múltiplos elementos articulados em uma unidade singular.

Ao compreender o conceito dessa maneira, Deleuze e Guattari afirmam que a atividade filosófica não se limita à criação de conceitos isolados. Ela envolve também a construção de um plano de imanência, isto é, o horizonte no qual os conceitos se tornam possíveis e adquirem sentido.

O plano de imanência não deve ser entendido como um espaço físico ou geográfico. Trata-se de uma imagem do pensamento, de uma orientação fundamental que permite ao filósofo organizar seu modo de pensar e construir seus conceitos.

Como afirmam os autores: “O plano de imanência não é um conceito pensado nem pensável, mas a imagem do pensamento, a imagem que ele se dá do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 47).

O plano de imanência constitui, portanto, uma condição para a criação conceitual. Ele funciona como um campo de possibilidades no qual o pensamento filosófico opera. Não é um método, mas uma orientação fundamental que sustenta o exercício do pensar.

Nessa perspectiva, Deleuze e Guattari compreendem o plano de imanência como um corte realizado sobre o caos. O caos não representa simplesmente desordem, mas a infinidade de possibilidades ainda não organizadas pelo pensamento. Ao realizar esse corte, o filósofo cria condições para a emergência dos conceitos.

Os autores explicam: “Operando um corte do caos, o plano de imanência faz apelo a uma criação de conceitos” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 54).

Se o plano de imanência constitui o campo de produção dos conceitos, é necessário ainda compreender como esses conceitos se tornam operativos. É nesse contexto que emerge a figura do personagem conceitual.

Os personagens conceituais não são simples figuras literárias ou recursos didáticos. Eles desempenham uma função filosófica específica, participando da criação e da operacionalização dos conceitos. São eles que percorrem os movimentos do pensamento e tornam possível a efetivação das construções conceituais elaboradas pelo filósofo.

Conforme afirmam Deleuze e Guattari: “Os personagens conceituais operam os movimentos que descrevem o plano de imanência do autor e intervêm na própria criação de seus conceitos” (DELEUZE; GUATTARI, 2013, p. 78).

Nesse sentido, os personagens conceituais podem ser compreendidos como potências do pensamento. Eles expressam modos de pensar, problematizar e habitar determinados planos de imanência. Sua atuação não ocorre após a criação do conceito, mas participa do próprio processo criador.

A articulação entre problema, conceito, plano de imanência e personagem conceitual evidencia a complexidade da atividade filosófica. Criar conceitos não significa apenas formular definições abstratas, mas construir modos de compreender e interpretar a realidade. Trata-se de uma atividade criadora que produz novas formas de pensar e novas possibilidades de existência.

Compreender a natureza criadora do conceito permite reconhecer a necessidade de uma pedagogia do conceito, capaz de investigar as condições históricas, filosóficas e problemáticas que tornam possível seu surgimento. Mais do que estudar conceitos prontos, trata-se de compreender os processos que lhes deram origem.

A partir dessa compreensão, torna-se possível deslocar a discussão para o campo educacional e refletir sobre as potencialidades da criação conceitual no Ensino Médio. Afinal, se a Filosofia é criação de conceitos, cabe perguntar de que modo a sala de aula pode constituir-se como espaço de formação de um pensamento problematizador, criador e conceitual.

4. A ATIVIDADE FILOSÓFICA E A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO CONCEITUAL NO ENSINO MÉDIO

A atividade filosófica no contexto do Ensino Médio tem sido frequentemente associada ao desenvolvimento da capacidade reflexiva e argumentativa dos estudantes. Embora tais competências sejam relevantes para a formação filosófica, reduzi-las à especificidade da Filosofia significa limitar o alcance dessa forma de pensamento. A Filosofia é uma potência criadora que problematiza a realidade, questiona evidências aparentemente consolidadas e produz novas possibilidades de compreensão do mundo.

Nessa perspectiva, a atividade filosófica no Ensino Médio deve promover o movimento do pensamento, favorecendo experiências que possibilitem aos estudantes problematizar, refletir e criar conceitos. Trata-se de compreender a Filosofia não apenas como um conjunto de conteúdos a serem assimilados, mas como uma prática intelectual que mobiliza os sujeitos diante dos desafios de sua existência e de seu contexto histórico.

Ao discutir o lugar da argumentação na Filosofia, Patrícia Del Nero Velasco, dialogando com Rodrigo, destaca que uma prática filosófica consistente deve contemplar três movimentos fundamentais: problematizar, conceituar e argumentar. Segundo essa perspectiva, uma didática genuinamente filosófica não pode restringir-se apenas ao desenvolvimento argumentativo, mas deve possibilitar a construção de problemas e a elaboração conceitual.

Como afirma a autora:

O presente texto não defende que uma ou outra atividade relativa ao exercício da Filosofia seja prioritária. Neste sentido, acompanha a proposta de Rodrigo, a qual entende que problematizar, conceituar e argumentar são três processos de pensamento filosófico, de modo que uma filosofia que privilegie esses três aspectos pode garantir uma didática especificamente filosófica (VELASCO, 2017).

Essa compreensão amplia significativamente o papel da Filosofia na escola. O problema, a reflexão e a criação conceitual passam a integrar o próprio exercício filosófico, deslocando a argumentação da condição de elemento exclusivo ou definidor da atividade filosófica.

A própria Velasco reforça essa posição ao afirmar: “Uma vez que se entende que a problematização, a reflexão e a criação conceitual também fazem parte do ofício do filósofo, a argumentação não pode se configurar como o único fundamento da Filosofia” (VELASCO, 2017).

Desse modo, a aula de Filosofia deve possibilitar aos estudantes pensar os problemas que atravessam sua realidade, promovendo o necessário distanciamento crítico para que possam construir diferentes possibilidades de compreensão e resposta. O desafio do professor consiste em criar situações que mobilizem o pensamento e provoquem a investigação filosófica.

Nesse processo, torna-se fundamental reconhecer os estudantes como sujeitos capazes de pensar e produzir conhecimento. A aprendizagem filosófica não pode estar baseada em uma relação hierárquica que atribui ao professor a exclusividade do saber e aos estudantes uma posição de mera recepção. Ao contrário, a atividade filosófica pressupõe a confiança na capacidade intelectual dos sujeitos.

É nesse contexto que as contribuições de Jacques Rancière se tornam particularmente relevantes. Ao questionar os mecanismos de embrutecimento produzidos pela explicação excessiva, o filósofo francês defende a emancipação intelectual como reconhecimento da igualdade das inteligências.

Como afirma Rancière: “Não há faculdade que registra, uma outra que compreende, uma outra que julga. (...) O serralheiro que denomina o O de redonda e o L de esquadro já pensa por meio de relações. E inventar é da mesma ordem que recordar” (RANCIÈRE, 2002).

A perspectiva da emancipação intelectual possibilita compreender a sala de aula de Filosofia como um espaço em que docentes e estudantes compartilham o exercício do pensamento. Ambos são sujeitos que problematizam, refletem e constroem sentidos para a realidade, ainda que ocupem posições diferentes no processo educativo.

Essa postura favorece o desenvolvimento de um pensamento por conceitos. Evidentemente, não se trata de afirmar que os estudantes do Ensino Médio produzirão conceitos filosóficos com a mesma densidade dos grandes filósofos da tradição. O que se propõe é a formação de uma atitude filosófica capaz de mobilizar conceitos para interpretar a realidade, compreender problemas e construir respostas.

Nesse sentido, o pensamento conceitual não se reduz à assimilação de definições ou teorias produzidas historicamente. Trata-se da capacidade de utilizar conceitos como instrumentos de interpretação, análise e problematização do mundo. A Filosofia deixa de ser mera transmissão de conteúdos e passa a constituir-se como experiência formativa do pensamento.

O Ensino de Filosofia possui, portanto, uma intencionalidade específica: favorecer o desenvolvimento da atitude filosofante. Trata-se de estimular nos estudantes a disposição para perguntar, questionar, investigar e construir respostas para os problemas que emergem de sua existência individual e coletiva.

Alejandro Cerletti destaca que essa atitude constitui um traço comum entre os filósofos ao longo da história:

Essa disposição, nós a encontramos em qualquer filósofo: em Sócrates, Descartes, Kant, Marx, Wittgenstein ou Deleuze. Ainda que cada um deles formule suas próprias perguntas, construa seus problemas e ofereça suas respostas, a tenaz inquietude da busca é um traço comum a todos os filósofos (CERLETTI, 2009, p. 29).

A atitude filosófica caracteriza-se justamente por essa inquietação permanente diante do mundo. Ela recusa aceitar passivamente aquilo que se apresenta como evidente e busca compreender os fundamentos das crenças, valores e conhecimentos que orientam a vida humana.

Sob essa perspectiva, o ensino de Filosofia constitui uma prática formativa que ultrapassa a simples reprodução de conteúdo. Trata-se de favorecer o nascimento de um pensamento autônomo, capaz de problematizar a realidade e criar novas formas de compreendê-la. É o que Walter Kohan denomina de infância do pensamento.

Para o autor, a infância não deve ser compreendida apenas em sentido cronológico, mas como uma disposição permanente para o questionamento e para a busca do saber. O filósofo é aquele que permanece aberto ao desconhecido, reconhecendo a incompletude de seu próprio conhecimento.

Como afirma Kohan: “A ignorância deixou de ser ausência, carência e insuficiência para tornar-se potência e motor dos possíveis” (KOHAN, 2015, p. 219).

A construção do pensamento conceitual no Ensino Médio depende, portanto, da valorização dessa postura investigativa. O estudante-filósofo não aceita passivamente aquilo que lhe é apresentado como verdadeiro. Ao contrário, coloca-se diante do mundo em uma atitude problematizadora, buscando compreender, questionar e produzir respostas.

A atividade filosófica constitui, assim, um movimento do pensamento acionado pelas aporias da existência. Ao problematizar a realidade e criar possibilidades de interpretação, o exercício filosófico contribui para a formação de sujeitos mais autônomos, críticos e criadores. É nesse processo que o pensamento conceitual pode emergir como uma das principais contribuições da Filosofia para a formação dos estudantes do Ensino Médio.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho buscou refletir sobre a aprendizagem filosófica e a construção do pensamento conceitual entre estudantes do Ensino Médio. Para isso, estabeleceu diálogo com autores estudados ao longo da disciplina Filosofia do Ensino de Filosofia, vinculada ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Filosofia (Prof-Filo) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), tomando como eixo central a compreensão da Filosofia como atividade criadora de conceitos.

A discussão desenvolvida ao longo do texto partiu do pressuposto de que a Filosofia possui uma especificidade própria entre as diferentes formas de pensamento. Conforme argumentam Gilles Deleuze e Félix Guattari, a criação de conceitos constitui a marca distintiva da atividade filosófica. A partir dessa compreensão, buscou-se evidenciar que o ensino de Filosofia não deve restringir-se à transmissão histórica de teorias ou sistemas filosóficos, mas possibilitar experiências formativas que mobilizem o pensamento dos estudantes diante dos problemas de seu tempo e de sua realidade.

Nesse percurso, a obra O que é a Filosofia? ofereceu os fundamentos conceituais para compreender categorias centrais como conceito, problema, plano de imanência e personagem conceitual. Tais elementos permitiram reconhecer a Filosofia como uma prática criadora, capaz de produzir novas formas de interpretação e ordenação do mundo.

A partir dessa perspectiva, realizou-se um deslocamento da discussão para o campo educacional, especialmente para a realidade do Ensino Médio. Defendeu-se que a aula de Filosofia deve constituir-se como espaço de mobilização cognitiva e de exercício do pensamento, favorecendo o desenvolvimento de uma atitude filosófica marcada pela problematização, pela reflexão crítica e pela criação de respostas diante dos desafios da existência.

O diálogo estabelecido com autores como Alejandro Cerletti, Jacques Rancière, Walter Kohan e Patrícia Del Nero Velasco contribuiu para fortalecer a compreensão de que o ensino filosófico deve estimular a autonomia intelectual dos estudantes. Mais do que transmitir conteúdos, trata-se de criar condições para que os sujeitos aprendam a pensar por si mesmos, reconhecendo-se como participantes ativos na construção do conhecimento.

Nesse sentido, a construção do pensamento conceitual apresenta-se como uma possibilidade pedagógica relevante para o Ensino de Filosofia. Não se trata de formar filósofos profissionais ou de exigir dos estudantes a produção de conceitos com a mesma complexidade encontrada na tradição filosófica. O que se propõe é o desenvolvimento de uma postura investigativa, questionadora e criadora, capaz de mobilizar conceitos para compreender a realidade e enfrentar os problemas que emergem da experiência cotidiana.

Ao longo da reflexão, procurou-se demonstrar que a atividade filosófica possui uma dimensão formativa que ultrapassa os limites do domínio cognitivo. Pensar filosoficamente implica também voltar-se para si mesmo, interrogar os próprios pressupostos e submeter à crítica as verdades que orientam a existência. Trata-se de um exercício permanente de construção da autonomia intelectual e de abertura para novas possibilidades de compreensão do mundo.

Como afirmam Schnorr, Menezes e Matos (2020), o pensamento que se pretende libertador precisa igualmente refletir sobre os modos pelos quais se constitui, colocando em questão racionalidades que naturalizam formas específicas de poder e conhecimento. Nessa perspectiva, filosofar significa também abrir-se ao diálogo, à diversidade de experiências humanas e à pluralidade de formas de pensar.

Desse modo, considera-se que a construção do pensamento conceitual pode contribuir significativamente para a formação dos estudantes do Ensino Médio, favorecendo o desenvolvimento de sujeitos mais autônomos, críticos e criadores. Ao problematizar a realidade, refletir sobre os desafios do presente e construir respostas próprias, os estudantes exercitam uma atitude filosófica que os torna participantes ativos na produção de sentidos para suas vidas e para o mundo que habitam.

Por fim, esta revisão bibliográfica buscou demonstrar que é possível conceber um ensino de Filosofia comprometido com a formação do pensamento e não apenas com a transmissão de conteúdos. Em um contexto educacional frequentemente marcado pela reprodução de informações e pela busca de respostas prontas, a Filosofia reafirma sua relevância ao promover a problematização, a autonomia intelectual e a criação conceitual. Nessa perspectiva, o Ensino de Filosofia no Ensino Médio apresenta-se como um espaço privilegiado para a formação de sujeitos capazes de pensar criticamente sua realidade e produzir novos sentidos para sua existência individual e coletiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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