REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784475328
RESUMO
Este artigo analisa as obras Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e Becos da Memória, de Conceição Evaristo, com o objetivo de compreender como a literatura afro-brasileira se constitui como espaço de memória, resistência e enfrentamento ao silenciamento histórico imposto à população negra, especialmente às mulheres negras. A pesquisa fundamenta-se em estudos sobre escrevivência, identidade, memória e resistência, dialogando com autoras e autores como Lélia Gonzalez, Grada Kilomba e Eduardo de Assis Duarte. Por meio de uma abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico e analítico, examinam-se as aproximações entre as duas obras, considerando suas especificidades estéticas e narrativas. A análise evidencia que Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo transformam a escrita em instrumento de denúncia, autorrepresentação e reafirmação identitária, ao inscreverem as experiências e memórias de mulheres negras em contextos marcados pelo racismo, pela pobreza e pela exclusão social. Conclui-se que ambas as obras contribuem para a preservação da memória coletiva, para a valorização da identidade negra e para o fortalecimento da literatura afro-brasileira como espaço de resistência e enfrentamento às narrativas coloniais.
Palavras-chave: Literatura afro-brasileira; escrevivência; memória; resistência; identidade negra.
ABSTRACT
This article analyzes Child of the Dark (Quarto de Despejo) by Carolina Maria de Jesus and Alleys of Memory (Becos da Memória) by Conceição Evaristo, aiming to understand how Afro-Brazilian literature constitutes a space of memory, resistance, and confrontation against the historical silencing imposed on the Black population, especially Black women. The study is grounded in discussions on escrevivência (writing from lived experience), identity, memory, and resistance, drawing on the works of Lélia Gonzalez, Grada Kilomba, and Eduardo de Assis Duarte. Adopting a qualitative, bibliographical, and analytical approach, the article examines the similarities between the two literary works while considering their distinct aesthetic and narrative features. The analysis demonstrates that Carolina Maria de Jesus and Conceição Evaristo transform writing into a tool of social denunciation, self-representation, and identity affirmation by inscribing the experiences and memories of Black women living in contexts marked by racism, poverty, and social exclusion. It concludes that both works contribute to preserving collective memory, strengthening Black identity, and affirming Afro-Brazilian literature as a space of resistance to colonial narratives.
Keywords: Afro-Brazilian literature; escrevivência; memory; resistance; Black identity.
INTRODUÇÃO
Este artigo analisa as obras Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e Becos da Memória, de Conceição Evaristo, com o objetivo de compreender como a literatura afro-brasileira se constitui como espaço de memória, resistência e enfrentamento ao silenciamento histórico imposto à população negra, especialmente às mulheres negras. A pesquisa fundamenta-se em estudos sobre escrevivência, identidade, memória e resistência, dialogando com autoras e autores como Lélia Gonzalez (2020), Grada Kilomba (2020), e Eduardo de Assis Duarte (2019), dentre outros.
A análise evidenciou que as duas obras se aproximam pela construção de narrativas atravessadas pelas experiências, memórias e vivências de mulheres negras em contextos de exclusão social e racial. Além disso, destacou-se o modo como as autoras transformam a escrita em instrumento de denúncia, autorrepresentação e reafirmação identitária, rompendo com discursos historicamente construídos sob a ótica colonial.
Publicada originalmente em 1960, Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, apresenta, em forma de diário, o cotidiano de uma mulher negra e residente na favela do Canindé, na cidade de São Paulo. A obra transforma a experiência da fome, da pobreza e da marginalização em denúncia social, fazendo da escrita um gesto de resistência diante de uma sociedade marcada pelo racismo e pela exclusão.
Em Becos da Memória, publicada em 2006, Conceição Evaristo constrói uma narrativa marcada pela memória coletiva e pela escrevivência, recuperando experiências historicamente silenciadas da população negra periférica. Por meio da personagem Maria-Nova, a escritora evidencia as relações entre memória, identidade e resistência num romance memorialista.
Embora pertençam a contextos e gêneros literários distintos, ambas as obras se aproximam ao transformar a escrita em instrumento de enfrentamento ao silenciamento histórico imposto à população negra, especialmente às mulheres negras. Conclui-se que a literatura afro-brasileira desempenha papel fundamental na preservação da memória coletiva, na valorização da identidade negra e na ampliação das vozes historicamente marginalizadas, sobretudo no campo literário brasileiro.
“NOSSA FALA ESTILHAÇA A MÁSCARA DO SILÊNCIO”
Os títulos das obras já anunciam, de forma metafórica, os espaços sociais e simbólicos ocupados por sujeitos historicamente marginalizados. Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus utiliza a imagem do “quarto de despejo” para representar a favela como o lugar destinado àquilo que a sociedade rejeita, invisibiliza ou deseja manter à margem. A metáfora evidencia a exclusão social e racial vivenciada pela população negra nos grandes centros urbanos. A própria escritora estabelece esse contraste ao afirmar:
quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo (Jesus, 2014, p. 33).
A oposição entre “sala de visitas” e “quarto de despejo” revela a divisão desigual dos espaços sociais e explicita a percepção de não pertencimento vivenciada pela autora. Nesse contexto, a escrita em forma de diário transforma-se em instrumento de denúncia e resistência, permitindo que Carolina ultrapasse as fronteiras simbólicas impostas pelo racismo e pela pobreza. Assim como adentrava diariamente a “sala de visitas” da cidade para recolher aquilo que era descartado, a escritora também ocupa, por meio da literatura, um espaço historicamente negado às mulheres negras e periféricas.
De modo semelhante, em Becos da Memória, Conceição Evaristo constrói um título carregado de significados simbólicos. Os “becos” representam não apenas os espaços físicos da favela onde a narrativa se desenrola, mas também lugares de circulação de memórias, afetos e experiências coletivas. Em um cenário marcado pelo processo de remoção da favela, esses becos tornam-se símbolos de uma memória ameaçada de apagamento, evidenciando a precariedade social vivenciada pelos moradores e, ao mesmo tempo, suas formas de resistência, solidariedade e sobrevivência. A narrativa articula testemunho, memória e ficção, aproximando a trajetória da personagem Maria-Nova das vivências da própria autora, como afirma Conceição Evaristo (2018), “essa con(fusão) não me constrange”, evidenciando o entrelaçamento entre escrita de si e memória coletiva.
Ao longo da narrativa, Maria-Nova compreende a necessidade de registrar as histórias de seu povo, questionando as formas tradicionais pelas quais a população negra foi representada na literatura e na história oficial “quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente” (Evaristo, 2018, p. 151).
Nesse sentido, ambas as obras transformam a escrita em espaço de enfrentamento ao silenciamento histórico, reivindicando o direito de narrar experiências que durante muito tempo foram contadas apenas sob a ótica do colonizador e das estruturas hegemônicas de poder.
Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus constrói uma narrativa em primeira pessoa marcada pelo forte caráter autobiográfico. Por meio da escrita diarística, a autora registra o cotidiano atravessado pela fome, pela pobreza e pelas inúmeras violências impostas à população negra e periférica. A voz narrativa aproxima-se diretamente da experiência vivida pela própria Carolina, fazendo da escrita não apenas um espaço de relato, mas também de denúncia e elaboração de sua própria existência. Ao narrar o cansaço, as dificuldades da sobrevivência e a constante sensação de insuficiência, a autora transforma a experiência individual em testemunho coletivo da exclusão social, “cheguei em casa, aliás no meu barracão, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta” (Jesus, 2020, p. 20).
Nesse contexto, a escrita assume uma dimensão ambígua: ao mesmo tempo em que funciona como instrumento de denúncia e expressão de indignação diante da realidade vivida, também representa a possibilidade de transformação de vida por meio da literatura. A própria autora evidencia essa expectativa ao afirmar: “É que eu estou escrevendo um livro, para vendê-lo. Viso com esse dinheiro comprar um terreno para eu sair da favela” (Jesus, 2020, p. 33). Assim, Carolina inscreve a si mesma na obra, fazendo do diário um espaço de resistência, sobrevivência e afirmação subjetiva.
De modo semelhante, em Becos da Memória, Conceição Evaristo também projeta suas vivências na 111narrativa, embora por meio da ficcionalização da personagem Maria-Nova. A obra articula memória, testemunho e ficção, produzindo aquilo que a autora denomina como uma “con(fusão)” entre si e a personagem narradora. Essa aproximação evidencia o modo como a escrita de Evaristo emerge das experiências coletivas da população negra periférica, especialmente das memórias da infância vivida em contexto de pobreza e exclusão.
Maria-Nova torna-se, assim, não apenas protagonista da narrativa, mas também guardiã das histórias e memórias de seu povo, registrando experiências historicamente silenciadas e marginalizadas. Ao ficcionalizar suas vivências pela escrita literária Conceição Evaristo dialoga com a memória coletiva e transforma a literatura em espaço de resistência e preservação da experiência negra, rompendo com o apagamento imposto pelas estruturas racistas da sociedade brasileira.
Carolina Maria de Jesus enfrentou inúmeros obstáculos para ocupar o espaço literário brasileiro. Mulher negra, residente da favela e com baixa escolarização formal, Carolina rompeu com as expectativas elitistas que historicamente definiram quem poderia escrever e publicar literatura no país. Ainda que Quarto de Despejo tenha alcançado grande repercussão após sua publicação, a autora frequentemente foi reduzida à condição de “a favelada que escrevia”, sendo muitas vezes deslegitimada pela crítica literária e pelo meio intelectual. Sua trajetória evidencia como o campo editorial brasileiro foi marcado por mecanismos de exclusão que dificultaram o reconhecimento da produção intelectual de mulheres negras.
Décadas depois, as dificuldades enfrentadas por Conceição Evaristo para publicar Becos da Memória demonstram que tais barreiras permaneceram presentes no universo literário brasileiro. Embora a obra tenha sido escrita na década de 1980, sua publicação ocorreu apenas em 2006, após sucessivas recusas editoriais.
Esse processo revela não apenas a marginalização da literatura afro-brasileira, mas também o modo como o racismo estrutural atravessa o mercado editorial, definindo quais narrativas são legitimadas e quais permanecem à margem. Nesse contexto, tanto Carolina Maria de Jesus quanto Conceição Evaristo transformam a escrita em um gesto de resistência ao apagamento histórico e à exclusão de vozes negras no campo literário.
Em Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus transforma a escrita em instrumento de resistência e afirmação subjetiva. Em meio à pobreza, à fome e às constantes violências sociais, a autora apropria-se da leitura e da escrita como formas de construir a si mesma enquanto sujeito de sua própria história.
O diário torna-se não apenas espaço de registro do cotidiano, mas também de elaboração de sua existência e de enfrentamento às estruturas que historicamente tentaram silenciar mulheres negras. Tal aspecto evidencia-se quando Carolina afirma, “quis saber o que eu escrevia. Eu disse ser o meu diário. — Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você. Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler” (Jesus, 2020, p. 31).
A fala evidencia o estranhamento social diante de uma mulher negra que reivindica para si o espaço da leitura, da escrita e da produção intelectual, historicamente associados às elites brancas. Nesse sentido, a escrita representa, para Carolina, uma possibilidade de resistência diante da exclusão e, ao mesmo tempo, um meio de projetar outras formas de existência para si e para seus filhos. Sua narrativa, permeada pelas próprias vivências, ultrapassa a dimensão individual e inscreve na literatura experiências coletivas marcadas pelo racismo, pela pobreza e pela marginalização.
De modo semelhante, em Becos da Memória, Conceição Evaristo faz da personagem Maria-Nova a guardiã das memórias e experiências de seu povo. Ao refletir sobre as formas pelas quais a história da população negra foi narrada, a protagonista compreende a necessidade de registrar essas vivências a partir da perspectiva daqueles que as experienciam, “quem sabe escreveria esta história um dia? Quem sabe passaria para o papel o que estava escrito, cravado e gravado no seu corpo, na sua alma, na sua mente (Evaristo, 2018, p. 151). A escrita surge, assim, como gesto de preservação da memória coletiva e de enfrentamento ao apagamento histórico imposto à população negra.
Nesse horizonte, as reflexões de Grada Kilomba (2019) acerca da máscara de Anastácia tornam-se fundamentais para compreender o simbolismo presente na produção dessas autoras. A máscara, utilizada durante o período escravista como instrumento de controle e silenciamento, simboliza a tentativa histórica de impedir que sujeitos negros falassem e narrassem suas próprias experiências.
É justamente contra esse silenciamento que Conceição Evaristo afirma que “nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”, evidenciando a escrita de mulheres negras como gesto político de ruptura, memória e resistência. Dessa forma, tanto Carolina Maria de Jesus quanto Conceição Evaristo transformam a literatura em espaço de (re)inscrição de subjetividades historicamente marginalizadas, reescrevendo histórias que durante muito tempo foram contadas apenas sob a ótica do colonizador.
Nesse mesmo horizonte, Lélia Gonzalez afirma que “o lixo vai falar, e numa boa”, expressão que evidencia a emergência de vozes historicamente marginalizadas e relegadas à invisibilidade social. Assim, tanto Carolina Maria de Jesus quanto Conceição Evaristo transformam a literatura em espaço de autorrepresentação e enfrentamento às estruturas que, durante séculos, tentaram silenciar sujeitos negros e periféricos.
O movimento de resistência construído por escritoras negras também se articula a iniciativas coletivas de valorização da literatura afro-brasileira. De acordo com o portal Literafro3, em 1978 surge, em São Paulo, o grupo Quilombhoje, formado por jovens negros e negras reunidos no CECAN — Centro de Cultura e Arte Negra — com o propósito de criar espaços de circulação para a produção literária negra por meio da série Cadernos Negros.
A iniciativa representou um importante marco para a literatura afro-brasileira, possibilitando que autoras e autores negros narrassem suas próprias vivências, memórias e experiências historicamente silenciadas pelas estruturas coloniais e pela hegemonia branca no campo literário.
É nesse contexto de resistência e afirmação identitária que Conceição Evaristo formula o conceito de escrevivência, compreendido como uma escrita atravessada pela experiência, pela memória e pela vivência coletiva da população negra. Ao analisar Becos da Memória, o pesquisador Eduardo de Assis Duarte afirma que “mais que romance ‘social’, ‘histórico’ ou ‘de coletividade’, Becos da Memória revela-se enquanto texto tecido comprometido com o existir e o ser negro” (Duarte, 2020, p. 188).
Segundo o pesquisador, a obra rompe as fronteiras tradicionais dos gêneros narrativos ao mesclar testemunho, autorrepresentação e ficção, transformando a literatura em espaço de preservação da memória dos sujeitos historicamente marginalizados.
Essa ruptura também pode ser observada em Quarto de Despejo, no qual Carolina Maria de Jesus utiliza a escrita como instrumento de denúncia social e registro das experiências vividas na favela. Ao afirmar: “Vou escrever um livro referente à favela. Hei de citar tudo que aqui se passa” (Jesus, 2020, p. 26), Carolina evidencia a consciência de seu projeto literário: transformar em narrativa aquilo que a sociedade insistia em invisibilizar. Assim, tanto Carolina Maria de Jesus quanto Conceição Evaristo fazem da literatura um gesto político de resistência, memória e enfrentamento ao apagamento histórico da população negra.
Ao longo de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus utiliza a escrita não apenas para registrar os sofrimentos cotidianos impostos pela fome e pela pobreza, mas também para refletir criticamente sobre sua condição de mulher negra na sociedade brasileira. Em diversos momentos da narrativa, a autora evidencia a percepção das desigualdades de gênero presentes na construção social e histórica do país:
Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil, porque eu lia a história do Brasil e ficava sabendo que existia guerra, só lia os nomes masculinos como defensores da pátria então eu dizia para minha mãe: – Porque a senhora não faz eu virar homem? Ela dizia: – Se você passar por debaixo do arco íris você vira homem. Quando o arco íris surgia eu ia correndo na sua direção mas o arco íris estava sempre distanciando. Igual os políticos distante de povo. Eu cançava e sentava, depois começa a chorar. Mas o povo não deve cançar, não deve chorar, deve lutar para melhorar o Brasil para nosso o Brasil para nosso filhos não sofrer o que estamos sofrendo. Eu voltava e dizia para minha mãe: – O arco íris foge de mim (Jesus, 2014, p. 45).
Nesse fragmento, Carolina questiona a invisibilidade feminina nos discursos históricos e evidencia como os espaços de protagonismo social foram tradicionalmente associados aos homens. A imagem do arco-íris, constantemente distante, simboliza também a dificuldade de alcançar reconhecimento e pertencimento em uma sociedade estruturada pelo patriarcado e pela exclusão racial. Ainda assim, a autora transforma essa percepção em consciência crítica e resistência, compreendendo a necessidade de luta diante das desigualdades sociais.
Além das reflexões sobre gênero, a narrativa também explicita um forte posicionamento de afirmação identitária e enfrentamento ao racismo. Ao denunciar a violência sofrida pela população negra e afirmar o orgulho de sua negritude, Carolina rompe com os discursos historicamente construídos para inferiorizar corpos e subjetividades negras:
Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa árvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatório. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata? (...) Eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais Iducado do que o cabelo de branco porque o cabelo de preto onde põe fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reencarnações, eu quero voltar sempre preta […] O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguem (Jesus, 2014, p. 91).
A valorização da identidade negra presente na escrita de Carolina Maria de Jesus assume relevância em uma sociedade marcada pela imposição de padrões estéticos eurocêntricos que, historicamente, marginalizaram características associadas à negritude. Ao afirmar o orgulho de sua pele e de seus traços, a autora rompe com discursos historicamente construídos para inferiorizar sujeitos negros e contribui para um movimento de fortalecimento da autoimagem e da identidade negra.
Nesse sentido, Quarto de Despejo ultrapassa o registro autobiográfico e constitui-se como instrumento de reafirmação identitária e reflexão social. Por meio das experiências narradas em forma de diário, Carolina evidencia como as desigualdades do presente estão profundamente relacionadas às estruturas históricas herdadas do colonialismo e da escravidão.
A literatura, nesse contexto, torna-se espaço de problematização da realidade social e de questionamento das narrativas historicamente legitimadas. Uma forma de reelaborar artisticamente experiências humanas e sociais, trazendo à tona questões frequentemente invisibilizadas no cotidiano. A escrita de mulheres negras, portanto, assume uma dimensão profundamente política. Conforme afirma Grada Kilomba, “não sou o objeto, mas o sujeito. Eu sou quem escreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever, portanto, é um ato político” (Kilomba, 2019, p. 27).
Ao ocuparem o espaço da escrita, autoras negras rompem com um longo processo de apagamento histórico e reivindicam o direito de narrar suas próprias experiências a partir de seus lugares de fala. Assim, suas produções literárias carregam marcas de suas vivências, memórias e subjetividades, transformando a literatura em espaço de resistência, elaboração identitária e enfrentamento às estruturas de silenciamento impostas pela colonialidade e pelo racismo. As trajetórias de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo evidenciam as dificuldades historicamente enfrentadas por mulheres negras para obter reconhecimento no universo editorial brasileiro.
Apesar de Quarto de Despejo ter sido traduzido para diversos idiomas e circulado internacionalmente, o reconhecimento acadêmico e educacional da obra de Carolina ocorreu de forma tardia no Brasil. De modo semelhante, Becos da Memória, embora escrito na década de 1980, permaneceu engavetado por quase vinte anos até sua publicação, após sucessivas recusas editoriais. Tais trajetórias revelam como o racismo estrutural também atravessa o campo literário, determinando quais narrativas são legitimadas e quais permanecem à margem.
Nesse contexto, a escrita dessas autoras assume um papel fundamental enquanto gesto de autorrepresentação e resistência. Ao narrar suas próprias experiências e as memórias coletivas de seu povo, Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo rompem com discursos historicamente construídos sob a ótica do colonizador e reivindicam o direito de produzir conhecimento a partir de suas próprias vivências.
A escrevivência, nesse sentido, constitui-se como uma prática de ressignificação da memória, da dor e das experiências historicamente silenciadas da população negra. Assim, a literatura afro-brasileira ultrapassa o campo estético e consolida-se também como espaço de denúncia, memória, resistência e enfrentamento ao apagamento histórico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As reflexões desenvolvidas nesta pesquisa possibilitaram compreender como as obras Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, e Becos da Memória, de Conceição Evaristo, constituem importantes expressões da literatura afro-brasileira ao transformarem a escrita em espaço de memória, resistência e enfrentamento ao silenciamento histórico imposto à população negra, especialmente às mulheres negras. Embora pertençam a gêneros distintos, ambas as narrativas se aproximam pela construção de um sujeito enunciador que escreve a partir de suas próprias vivências, de suas memórias e de seu contexto social, articulando aquilo que Conceição Evaristo denomina como escrevivência.
A partir das contribuições teóricas de Lélia Gonzalez, Grada Kilomba e outras intelectuais negras, foi possível refletir sobre os mecanismos históricos de apagamento e marginalização que atravessam não apenas a sociedade brasileira, mas também o campo literário e editorial. Nesse contexto, a literatura afro-brasileira assume um papel fundamental ao possibilitar que sujeitos historicamente silenciados narrem suas próprias experiências, rompendo com discursos construídos sob a ótica colonial e hegemônica.
As trajetórias de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo evidenciam que ocupar o espaço da escrita e da literatura constitui, por si só, um gesto político. Suas obras ressignificam memórias individuais e coletivas, transformando experiências marcadas pela exclusão, pela pobreza e pelo racismo em narrativas de resistência e afirmação identitária. Dessa forma, suas produções ultrapassam o campo estético e consolidam-se também como instrumentos de denúncia, preservação da memória e reivindicação de pertencimento.
Assim, compreende-se que a literatura afro-brasileira desempenha papel essencial na ampliação das vozes e perspectivas presentes na literatura nacional, contribuindo para o reconhecimento da contribuição intelectual, histórica e cultural da população negra na formação do país. Considerando a amplitude e a complexidade da temática abordada, esta pesquisa não pretende esgotar as discussões acerca da escrevivência e da literatura afro-brasileira, mas contribuir para o fortalecimento de reflexões e estudos futuros sobre autoria negra, memória, resistência e representatividade no campo literário brasileiro.
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GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
JESUS. Carolina Maria de. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 10. ed. -São Paulo: Ática, 2016.
KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. tradução de Jess oliveira. rio de janeiro: Cobogó, 2019.
1 Licenciada em Letras - Licenciatura Plena, Língua Portuguesa, Língua Espanhola e Respectivas Literaturas. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Sociedade, Cultura e Fronteiras na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE. E-mail enedina.jesus @unioeste.br, Foz do Iguaçu-PR
2 Doutora em Letras – com área de concentração em Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Mestrado e Graduação em Letras, Pós-Graduação em Literaturas Ibero-Americanas Contemporâneas em Língua Portuguesa e Espanhola pela Unioeste. Professora Associada do Colegiado de Letras - disciplinas na área da Literatura - e do Programa de Pós-Graduação Sociedade, Cultura e Fronteiras na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Grupos de Pesquisa: Literatura, Discurso e Sociedade (LIDIS); Linguagem, Arte e Sociedade; Confluências da Ficção, História e Memória na Literatura e nas Diversas Linguagens. Orientadora da pesquisa. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/58-carolina-maria-de-jesus. Acesso em: 07/07/2026. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/editoras/1800-quilombhoje. Acesso em 07/07/2026.