DINÂMICA TERRITORIAL E MODERNIZAÇÃO AGRÍCOLA EM JUSCIMEIRA-MT: IMPACTOS SOCIOESPACIAIS NO CAMPO E NA POPULAÇÃO LOCAL

TERRITORIAL DYNAMICS AND AGRICULTURAL MODERNIZATION IN JUSCIMEIRA-MT: SOCIO-SPATIAL IMPACTS ON THE COUNTRYSIDE AND THE LOCAL POPULATION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/782501114

RESUMO
Este artigo analisou a dinâmica territorial e a modernização agrícola em Juscimeira-MT, considerando seus impactos socioespaciais no campo e na população local. A pesquisa partiu da compreensão de que a modernização do espaço agrário não se restringiu ao aumento da produtividade, pois também modificou os usos da terra, as relações de trabalho, a permanência das famílias no campo, a organização da agricultura familiar e a articulação entre zona rural e cidade. O objetivo foi compreender como a reestruturação produtiva do campo influenciou a organização territorial do município e produziu efeitos sobre a população local. Metodologicamente, adotou-se abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, com base em pesquisa bibliográfica, análise documental e interpretação de dados secundários do IBGE, do Censo Agropecuário e de bases de uso e cobertura da terra. Os resultados indicaram que Juscimeira-MT apresenta uma dinâmica territorial marcada pela coexistência entre formas familiares de produção, assentamentos rurais e atividades agropecuárias mais capitalizadas. Concluiu-se que a modernização agrícola produziu ganhos produtivos, mas também ampliou desafios relacionados à permanência rural, à concentração fundiária, à redução do trabalho no campo e à necessidade de políticas públicas territoriais integradas.
Palavras-chave: Dinâmica Territorial; Modernização Agrícola; Impactos Socioespaciais; Agricultura Familiar; Juscimeira-MT.

ABSTRACT
This article analyzed territorial dynamics and agricultural modernization in Juscimeira-MT, considering their socio-spatial impacts on the countryside and the local population. The research was based on the understanding that modernization of the agrarian space was not limited to increased productivity, since it also changed land uses, labor relations, the permanence of families in the countryside, the organization of family farming, and the articulation between rural areas and the town. The objective was to understand how the productive restructuring of the countryside influenced the territorial organization of the municipality and produced effects on the local population. Methodologically, a qualitative, exploratory, and descriptive approach was adopted, based on bibliographic research, documentary analysis, and interpretation of secondary data from IBGE, the Agricultural Census, and land use and land cover databases. The results indicated that Juscimeira-MT presents a territorial dynamic marked by the coexistence of family-based forms of production, rural settlements, and more capitalized agricultural activities. It was concluded that agricultural modernization produced productive gains, but also increased challenges related to rural permanence, land concentration, reduction of rural labor, and the need for integrated territorial public policies.
Keywords: Territorial Dynamics; Agricultural Modernization; Socio-Spatial Impacts; Family Farming; Juscimeira-MT.

INTRODUÇÃO

A modernização agrícola transformou profundamente o espaço rural brasileiro, sobretudo em áreas inseridas em circuitos produtivos marcados pela expansão agropecuária, pela mecanização, pelo uso intensivo de tecnologias e pela crescente articulação com mercados regionais, nacionais e internacionais. Em Mato Grosso, esse processo assumiu grande relevância, pois o estado passou a ocupar posição estratégica na produção agropecuária do país, tornando-se referência na expansão de atividades ligadas ao agronegócio. No entanto, os efeitos dessa modernização não se limitaram ao aumento da produção, pois também repercutiram sobre os usos da terra, as relações de trabalho, a estrutura fundiária, a permanência da população rural e a dinâmica socioeconômica dos municípios.

O município de Juscimeira-MT, localizado no Sudeste de Mato Grosso, apresenta características que justificam sua análise no campo da Geografia, especialmente na área de concentração Ambiente e Sociedade e na linha de Planejamento e Gestão Territorial. Segundo dados do IBGE, o município possuía 11.480 habitantes no Censo Demográfico de 2022 e densidade demográfica de 5,01 habitantes por km², evidenciando uma realidade territorial marcada por baixa densidade populacional e forte relação entre campo, atividades agropecuárias e organização municipal. Esses elementos indicam que a análise da modernização agrícola em Juscimeira-MT precisa considerar não apenas a produção econômica, mas também os efeitos sociais e espaciais sobre a população local.

A compreensão da dinâmica territorial exige reconhecer que o território não é apenas uma área delimitada administrativamente, mas uma construção histórica e social. Para Santos (2006), o espaço geográfico resulta da articulação entre sistemas de objetos e sistemas de ações, envolvendo estruturas materiais, técnicas produtivas, decisões políticas e práticas sociais. Essa perspectiva permite compreender Juscimeira-MT como um território produzido por relações entre propriedades rurais, lavouras, pastagens, assentamentos, infraestrutura, circulação econômica e formas distintas de apropriação da terra.

A modernização agrícola, nesse contexto, deve ser analisada de maneira crítica. Elias (2013) afirma que a agricultura científica e globalizada reorganizou o campo brasileiro ao incorporar técnica, ciência, informação, crédito e logística aos processos produtivos. Esse modelo ampliou a produtividade e fortaleceu a presença do capital no campo, mas também produziu contradições socioespaciais, como concentração fundiária, redução da demanda por trabalho rural, dependência tecnológica e pressão sobre agricultores familiares. Em municípios de base rural, essas contradições tornam-se visíveis na relação entre crescimento produtivo e dificuldades de permanência da população no campo.

No caso de Juscimeira-MT, a modernização agrícola precisa ser relacionada à formação territorial do município e à ocupação do Sudeste mato-grossense. A organização do espaço local resultou de processos históricos ligados à interiorização da ocupação, à abertura de áreas produtivas, à formação de núcleos urbanos e à presença de diferentes agentes sociais. A terra tornou-se elemento central da vida econômica e social, pois dela dependeram a produção agropecuária, o trabalho familiar, a renda local, a permanência das comunidades rurais e a articulação entre campo e cidade.

A agricultura familiar ocupa papel importante nesse processo. Wanderley (2009) compreende a agricultura familiar como forma de produção e de vida, articulada ao trabalho, à família, à terra e ao pertencimento comunitário. Essa leitura é fundamental para entender que o campo não pode ser reduzido a uma função produtiva ou mercantil. Em Juscimeira-MT, a permanência de pequenos produtores, famílias rurais e assentamentos expressa a existência de territorialidades que convivem com a modernização agropecuária, mas que também enfrentam desafios diante da valorização da terra, da mecanização e da desigualdade no acesso a políticas públicas.

A problemática deste artigo pode ser expressa na seguinte questão: de que maneira a modernização agrícola influenciou a dinâmica territorial de Juscimeira-MT e produziu impactos socioespaciais no campo e na população local? Essa questão parte do entendimento de que a modernização do campo não é um fenômeno apenas técnico, mas também social, político e territorial. Ela altera os usos da terra, redefine relações de trabalho, modifica a circulação de renda, influencia deslocamentos populacionais e exige novas formas de planejamento público.

O objetivo geral do artigo é analisar a dinâmica territorial e a modernização agrícola em Juscimeira-MT, considerando seus impactos socioespaciais no campo e na população local. Como objetivos específicos, busca-se compreender a formação territorial do município, discutir os efeitos da modernização agrícola sobre os usos da terra, analisar as tensões entre agronegócio e agricultura familiar, identificar impactos sobre a população rural e refletir sobre os desafios do planejamento territorial em escala municipal.

Metodologicamente, o estudo adota abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, com base em pesquisa bibliográfica, análise documental e interpretação de dados secundários. Foram considerados autores da Geografia Agrária, da dinâmica territorial e da questão agrária brasileira, além de dados oficiais do IBGE, do Censo Agropecuário e de plataformas de mapeamento de cobertura e uso da terra. O MapBiomas disponibiliza séries anuais de cobertura e uso da terra por município, com dados de 1985 a 2024, o que contribui para estudos sobre transformações territoriais em escala local.

Dessa forma, o artigo pretende contribuir para o debate sobre os efeitos da modernização agrícola em municípios de base rural. A análise de Juscimeira-MT permite compreender que a dinâmica territorial não se resume ao crescimento da produção agropecuária, pois envolve permanências, desigualdades, conflitos, deslocamentos e necessidades de gestão pública. O estudo parte da ideia de que o desenvolvimento territorial precisa articular produção, justiça social, permanência das populações rurais e sustentabilidade ambiental.

DESENVOLVIMENTO

Território, Dinâmica Territorial e Modernização Agrícola

A noção de território é indispensável para compreender os efeitos da modernização agrícola em Juscimeira-MT. O território não corresponde somente a uma base física, mas ao espaço apropriado e transformado por relações sociais, econômicas e políticas. Para Raffestin (1993), o território resulta da ação dos sujeitos sobre o espaço, mediada por relações de poder. Assim, as formas de uso da terra, a organização das propriedades, a presença de assentamentos, a expansão agropecuária e a distribuição da população expressam disputas e escolhas que configuram a dinâmica territorial local.

Santos (2006) contribui para essa leitura ao afirmar que o espaço geográfico é formado por objetos e ações. Essa compreensão permite analisar a modernização agrícola não apenas como introdução de máquinas, insumos e técnicas produtivas, mas como transformação das relações que estruturam o território. Estradas, armazéns, propriedades, lavouras, pastagens, equipamentos públicos, fluxos de mercadorias e decisões políticas compõem a materialidade do território. Ao mesmo tempo, trabalho, produção, migração, consumo, acesso ao crédito e políticas públicas representam ações que definem o modo como o espaço é utilizado.

A dinâmica territorial de Juscimeira-MT deve ser compreendida como resultado da interação entre permanências e mudanças. Permanecem elementos relacionados à agricultura familiar, às pequenas propriedades, aos vínculos comunitários e à produção local. Entretanto, também se ampliam formas de uso da terra associadas à modernização agropecuária, à mecanização, à especialização produtiva e à integração com mercados. Essa convivência entre diferentes formas de produção não ocorre de maneira neutra, pois os agentes possuem capacidades desiguais de acesso a terra, crédito, tecnologia, infraestrutura e influência política.

Elias (2013) destaca que a agricultura científica globalizada promoveu forte reestruturação do espaço agrário brasileiro, associando produção agrícola a redes técnicas, financeiras e informacionais. Esse processo contribuiu para a formação de áreas rurais mais produtivas e integradas aos circuitos econômicos, mas também reforçou desigualdades entre produtores. Em municípios como Juscimeira-MT, os efeitos dessa modernização aparecem na valorização da terra, na reorganização das atividades produtivas, na redução de postos de trabalho no campo e na pressão sobre formas menos capitalizadas de produção.

A modernização agrícola deve ser vista, portanto, como fenômeno contraditório. Graziano da Silva (1998) argumenta que a nova dinâmica da agricultura brasileira ampliou sua integração com a indústria, os serviços e o mercado, modificando a relação tradicional entre campo e cidade. Essa mudança tornou o campo mais dependente de insumos, máquinas, crédito, assistência técnica, transporte e informação. Em contrapartida, produtores familiares que não conseguem acessar essas condições tendem a enfrentar maiores dificuldades para competir, permanecer no campo e garantir renda estável.

Formação Territorial de Juscimeira-MT e Usos da Terra

A formação territorial de Juscimeira-MT relaciona-se à ocupação do Sudeste de Mato Grosso e aos processos de interiorização econômica do estado. O município foi criado no final da década de 1970, em um contexto de reorganização político-administrativa e expansão de áreas produtivas. Essa formação ocorreu em meio a transformações mais amplas no Centro-Oeste, marcado por abertura de estradas, valorização de terras, políticas de colonização, expansão da pecuária e, posteriormente, maior presença de atividades agrícolas modernizadas.

Becker (2009) observa que as fronteiras de ocupação no Brasil foram frequentemente tratadas como espaços de integração econômica e valorização de recursos. No Centro-Oeste, esse processo esteve ligado à incorporação de terras ao mercado e à formação de novas áreas produtivas. Em Juscimeira-MT, a ocupação do território foi influenciada por essa lógica, mas também por trajetórias locais de trabalho, moradia, agricultura familiar e organização comunitária. Desse modo, o território municipal expressa tanto a presença de forças econômicas amplas quanto experiências locais de apropriação da terra.

Os usos da terra em Juscimeira-MT refletem a combinação entre atividades agropecuárias, áreas de pastagem, propriedades familiares, assentamentos e espaços urbanos. A pecuária, a agricultura e outras atividades rurais estruturam parte significativa da economia local e influenciam diretamente a circulação de renda no município. Contudo, é importante destacar que os usos da terra não possuem apenas dimensão produtiva. Eles também definem formas de moradia, relações comunitárias, acesso a serviços, circulação populacional e vínculos entre campo e cidade.

O Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE, constitui uma importante fonte para compreender a estrutura produtiva e fundiária dos municípios brasileiros, pois reúne informações sobre estabelecimentos agropecuários, pessoal ocupado, uso da terra, produção, tecnologia e características dos produtores. Esses dados permitem analisar a agricultura municipal de forma mais precisa e relacioná-la às mudanças socioespaciais provocadas pela modernização do campo. No caso de Juscimeira-MT, a articulação entre dados censitários e análise territorial permite identificar tendências de uso da terra e desigualdades entre produtores.

A plataforma MapBiomas também contribui para estudos sobre dinâmica territorial, pois disponibiliza séries históricas de cobertura e uso da terra em escala municipal. A existência de dados anuais permite observar mudanças na paisagem, como expansão ou retração de áreas agropecuárias, alterações em formações naturais, uso de pastagens e presença de agricultura. Embora este artigo não tenha realizado processamento cartográfico próprio, o uso dessas bases indica caminhos para aprofundar a análise empírica de Juscimeira-MT em pesquisas posteriores.

Modernização Agrícola e Reorganização do Trabalho no Campo

A modernização agrícola alterou profundamente o trabalho rural. A incorporação de máquinas, defensivos, fertilizantes, sementes melhoradas, sistemas de gestão e tecnologias de informação ampliou a capacidade produtiva de muitas propriedades. No entanto, esse processo também reduziu a necessidade de mão de obra em determinadas atividades, principalmente quando a produção passou a depender mais de capital e tecnologia do que de trabalho humano direto. Em municípios de base rural, essa transformação repercute sobre famílias, comunidades e sobre a própria dinâmica urbana.

Martins (1997) observa que a modernização no campo brasileiro produziu situações contraditórias, nas quais o avanço técnico conviveu com processos de exclusão social. Essa interpretação ajuda a compreender que o aumento da produtividade não significa, necessariamente, melhoria das condições de vida para toda a população local. Quando a modernização ocorre sem políticas de inclusão produtiva, assistência técnica, crédito adequado e proteção social, pequenos produtores e trabalhadores rurais podem ser deslocados ou marginalizados.

Em Juscimeira-MT, os efeitos da modernização agrícola precisam ser observados em relação à permanência das famílias no campo. A redução de oportunidades de trabalho rural, a valorização da terra, a dificuldade de acesso a crédito e a dependência de insumos podem estimular a saída de jovens e trabalhadores para centros urbanos maiores. Esse movimento afeta a reprodução social das famílias, enfraquece comunidades rurais e altera a estrutura etária da população. A cidade, por sua vez, passa a concentrar novas demandas por emprego, moradia, educação, saúde e assistência social.

A reorganização do trabalho também atinge a agricultura familiar. Wanderley (2009) afirma que a agricultura familiar não pode ser analisada apenas como unidade econômica, pois envolve relações de parentesco, pertencimento e continuidade social. Quando a modernização agrícola impõe padrões produtivos cada vez mais exigentes, muitos agricultores familiares enfrentam dificuldades para acompanhar a lógica de mercado. Isso pode levar à redução da diversidade produtiva, ao endividamento, à venda de propriedades ou à busca por rendas complementares fora da agricultura.

Ao mesmo tempo, a agricultura familiar possui capacidade de adaptação e resistência. Ela pode produzir alimentos, abastecer mercados locais, preservar práticas comunitárias e gerar renda distribuída no território. Para isso, necessita de políticas públicas específicas, assistência técnica, infraestrutura, canais de comercialização, compras públicas e apoio à juventude rural. Em Juscimeira-MT, o fortalecimento da agricultura familiar pode representar alternativa importante para reduzir desigualdades e ampliar os efeitos positivos da economia rural sobre a população local.

Agronegócio, Agricultura Familiar e Impactos Socioespaciais

A relação entre agronegócio e agricultura familiar é uma das questões centrais para compreender a dinâmica territorial de Juscimeira-MT. O agronegócio representa um modelo produtivo articulado à escala, à mecanização, ao crédito, à logística e ao mercado. Já a agricultura familiar está associada ao trabalho da família, à diversidade produtiva, à permanência no território e à reprodução social. Esses dois modelos podem coexistir no mesmo município, mas não possuem o mesmo poder econômico, político e técnico.

Fernandes (2008) afirma que o campo brasileiro é atravessado por disputas territoriais entre diferentes projetos de desenvolvimento. Essa leitura permite compreender que a modernização agrícola não ocorre em um espaço vazio, pois avança sobre territórios previamente ocupados por sujeitos, práticas e modos de vida. Em Juscimeira-MT, os impactos socioespaciais podem aparecer na valorização desigual da terra, na pressão sobre pequenos produtores, na dificuldade de acesso à infraestrutura e na concentração de oportunidades em setores mais capitalizados.

Girardi (2008) destaca que a questão agrária brasileira permanece marcada por concentração fundiária e desigualdade no acesso à terra. Essa estrutura influencia diretamente os efeitos da modernização agrícola. Quando a terra está concentrada, os benefícios produtivos tendem a favorecer determinados grupos, enquanto agricultores familiares e trabalhadores rurais enfrentam maior vulnerabilidade. Por isso, a análise da modernização agrícola precisa considerar quem controla a terra, quem acessa tecnologia, quem se beneficia da produção e quem sofre os efeitos da exclusão territorial.

Os impactos socioespaciais também se manifestam na paisagem. A expansão de pastagens, lavouras ou atividades agropecuárias especializadas modifica a cobertura da terra, altera fluxos de circulação, redefine demandas por infraestrutura e pode pressionar recursos naturais. Saquet (2015) defende que o território deve ser compreendido de forma multidimensional, envolvendo aspectos econômicos, políticos, culturais e ambientais. Essa abordagem é relevante para Juscimeira-MT, pois a modernização agrícola precisa ser avaliada tanto por sua contribuição produtiva quanto por seus efeitos sociais e ambientais.

A população local sente esses impactos de maneiras diferentes. Produtores capitalizados podem ampliar investimentos e renda. Agricultores familiares podem enfrentar dificuldades para competir. Trabalhadores rurais podem perder espaço em atividades mecanizadas. Jovens podem migrar em busca de estudo e emprego. A cidade pode se tornar mais dependente de ciclos econômicos ligados à agropecuária. Esses efeitos demonstram que a modernização agrícola é também um processo de reorganização social do território.

Campo, Cidade e População Local

A relação entre campo e cidade em Juscimeira-MT não deve ser compreendida como oposição rígida. Em municípios de base rural, a cidade depende do campo e o campo depende da cidade. O comércio local, os serviços, a administração pública, o transporte, a circulação de renda e parte das relações de trabalho estão vinculados à economia rural. Assim, as mudanças no campo repercutem sobre a vida urbana, ao mesmo tempo em que as condições urbanas influenciam a permanência da população rural.

Santos (2006) indica que o espaço é produzido por redes de relações e fluxos. Essa noção ajuda a compreender que a modernização agrícola modifica não apenas as áreas produtivas, mas também os circuitos de circulação. Máquinas, insumos, mercadorias, crédito, informação e trabalhadores circulam entre diferentes escalas. Juscimeira-MT, nesse sentido, participa de dinâmicas que ultrapassam seus limites municipais, mas sente localmente os efeitos dessas articulações.

A população rural é diretamente afetada por esse processo. Quando há redução de oportunidades de trabalho no campo, precariedade de infraestrutura, dificuldade de acesso à educação, saúde e transporte, a permanência das famílias torna-se mais difícil. O êxodo rural não deve ser interpretado apenas como escolha individual, mas como resultado de condições sociais e territoriais. A saída de moradores do campo pode enfraquecer comunidades, reduzir a sucessão familiar na agricultura e aumentar a dependência da cidade.

Por outro lado, a permanência no campo depende de políticas territoriais integradas. A melhoria de estradas vicinais, o acesso à internet, o transporte escolar, a assistência técnica, o crédito rural adequado, o apoio à comercialização e os serviços públicos são fatores que influenciam diretamente a qualidade de vida da população rural. A modernização agrícola, quando acompanhada de políticas públicas inclusivas, pode contribuir para melhorar as condições de produção e permanência. Quando ocorre de forma seletiva, tende a reforçar desigualdades.

Nesse sentido, Juscimeira-MT apresenta desafios comuns a muitos municípios rurais brasileiros. É necessário articular crescimento produtivo, inclusão social e gestão territorial. A modernização agrícola não deve ser rejeitada de forma simplista, mas precisa ser orientada por políticas capazes de reduzir impactos negativos e distribuir melhor seus benefícios. A população local deve ser considerada como sujeito do desenvolvimento, e não apenas como mão de obra ou como consequência das transformações produtivas.

Planejamento Territorial e Desafios para Juscimeira-MT

O planejamento territorial em Juscimeira-MT deve considerar a complexidade das transformações provocadas pela modernização agrícola. Souza (2013) compreende o planejamento como prática política e técnica voltada à organização do espaço, à mediação de conflitos e à construção de alternativas de desenvolvimento. Essa definição é importante porque o território municipal não pode ser planejado apenas com base em interesses produtivos. É necessário considerar as condições de vida da população, os usos da terra, a infraestrutura, as desigualdades sociais e os limites ambientais.

A gestão territorial deve reconhecer a diversidade de sujeitos presentes no município. Agricultores familiares, assentados, trabalhadores rurais, produtores capitalizados, comerciantes, moradores urbanos, gestores públicos e comunidades locais participam de maneiras diferentes da produção do território. No entanto, esses grupos possuem capacidades desiguais de influência sobre as decisões públicas. Por isso, o planejamento territorial precisa ampliar a participação social e criar mecanismos de escuta das populações rurais.

A modernização agrícola exige também políticas de ordenamento e sustentabilidade. O uso intensivo da terra pode gerar impactos sobre solos, águas, vegetação e paisagens. A gestão municipal precisa dialogar com políticas estaduais e federais, pois muitos problemas ultrapassam a escala local. Regularização fundiária, assistência técnica, infraestrutura regional, crédito rural, fiscalização ambiental e apoio à agricultura familiar dependem de articulação institucional.

O fortalecimento da agricultura familiar deve ser visto como estratégia de desenvolvimento territorial. Esse segmento pode contribuir para a diversificação produtiva, a geração de renda local, a permanência das famílias no campo e o abastecimento de mercados próximos. Além disso, políticas de compras públicas, feiras municipais, agroindustrialização em pequena escala e apoio técnico podem ampliar a autonomia dos produtores e reduzir sua vulnerabilidade diante da modernização seletiva.

Portanto, a dinâmica territorial de Juscimeira-MT revela que a modernização agrícola produz efeitos contraditórios. Ela pode ampliar a produção e integrar o município a circuitos econômicos mais amplos, mas também pode intensificar desigualdades, reduzir trabalho no campo e fragilizar populações rurais. O desafio do planejamento territorial consiste em construir alternativas capazes de articular eficiência produtiva, justiça social, sustentabilidade ambiental e valorização da população local.

METODOLOGIA

A pesquisa foi desenvolvida por meio de abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo. A opção pela abordagem qualitativa justificou-se pela necessidade de compreender a modernização agrícola como processo social, econômico e territorial, e não apenas como fenômeno estatístico ou produtivo. Segundo Gil (2019), a pesquisa exploratória permite maior aproximação com o problema investigado, enquanto a pesquisa descritiva contribui para caracterizar fenômenos, relações e dinâmicas sociais. No caso deste artigo, essas duas dimensões foram articuladas para analisar a dinâmica territorial de Juscimeira-MT e seus impactos socioespaciais.

Os procedimentos metodológicos envolveram pesquisa bibliográfica, análise documental e interpretação de dados secundários. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de autores da Geografia Agrária, da questão agrária brasileira, da modernização agrícola, da dinâmica territorial e do planejamento territorial. Foram utilizados, entre outros, Santos (2006), Raffestin (1993), Becker (2009), Elias (2013), Fernandes (2008), Girardi (2008), Wanderley (2009), Saquet (2015), Souza (2013), Martins (1997) e Graziano da Silva (1998).

A análise documental considerou informações oficiais sobre o município de Juscimeira-MT, especialmente dados do IBGE, do Censo Demográfico, do Censo Agropecuário e de bases públicas relacionadas ao uso e cobertura da terra. O IBGE foi utilizado para contextualizar população, densidade demográfica, estrutura territorial e dados agropecuários. O MapBiomas foi considerado como base relevante para estudos sobre mudanças na cobertura e uso da terra, por disponibilizar séries anuais em escala municipal.

A seleção das fontes seguiu critérios de pertinência temática, confiabilidade institucional e contribuição para a compreensão do objeto. Foram priorizadas obras clássicas e contemporâneas da Geografia, documentos oficiais e bases reconhecidas na produção de dados territoriais. A análise dos materiais ocorreu por leitura interpretativa, buscando relacionar os conceitos teóricos com a realidade territorial de Juscimeira-MT.

Como limitação, destaca-se que o estudo não realizou trabalho de campo, entrevistas ou processamento cartográfico próprio. Assim, os resultados apresentados possuem caráter interpretativo e analítico, baseados em literatura especializada e dados secundários. Apesar disso, a metodologia adotada permitiu construir uma leitura consistente sobre a modernização agrícola e seus impactos socioespaciais, oferecendo base para pesquisas futuras com entrevistas, mapeamentos detalhados e análise empírica ampliada.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados indicaram que a dinâmica territorial de Juscimeira-MT foi influenciada por processos de modernização agrícola que modificaram os usos da terra, a organização produtiva e as relações sociais no campo. A análise demonstrou que o município apresenta uma estrutura territorial marcada pela coexistência entre atividades agropecuárias capitalizadas, agricultura familiar, assentamentos rurais e formas locais de produção. Essa coexistência, contudo, não ocorre de forma equilibrada, pois os diferentes agentes possuem condições desiguais de acesso a terra, tecnologia, crédito, infraestrutura e políticas públicas.

A modernização agrícola contribuiu para ampliar a produtividade e fortalecer a inserção do município em dinâmicas econômicas regionais. No entanto, conforme discutido por Elias (2013), esse processo também tende a reforçar a dependência de tecnologia, insumos e capital. Em Juscimeira-MT, tais efeitos podem ser observados na valorização da terra, na maior exigência técnica da produção e nas dificuldades enfrentadas por agricultores familiares para acompanhar os padrões produtivos impostos pela modernização.

A análise também apontou impactos sobre o trabalho e a população rural. A mecanização e a especialização produtiva podem reduzir a demanda por trabalhadores no campo, contribuindo para deslocamentos populacionais e enfraquecimento de comunidades rurais. Essa constatação dialoga com Martins (1997), para quem o avanço técnico no campo brasileiro frequentemente ocorreu acompanhado de exclusão social. Em municípios de baixa densidade demográfica, como Juscimeira-MT, esses impactos são significativos porque a saída de moradores do campo interfere diretamente na vida comunitária, na sucessão familiar e na relação entre campo e cidade.

Outro resultado relevante refere-se à importância da agricultura familiar. Embora enfrente pressões associadas à modernização seletiva, esse segmento permanece fundamental para a diversidade produtiva, a circulação de renda local e a permanência das famílias no território. Conforme Wanderley (2009), a agricultura familiar não representa apenas uma forma produtiva, mas também um modo de vida. Por isso, seu fortalecimento deve ser considerado prioridade no planejamento territorial municipal.

A discussão revelou que os impactos socioespaciais da modernização agrícola não são homogêneos. Produtores mais capitalizados tendem a se beneficiar mais rapidamente da incorporação tecnológica, enquanto pequenos produtores e trabalhadores rurais enfrentam maiores dificuldades. Isso reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades territoriais. Assistência técnica, crédito adequado, melhoria da infraestrutura rural, apoio à comercialização, transporte, internet, educação e saúde são elementos essenciais para que a modernização não se converta em fator de exclusão.

Dessa forma, os resultados confirmam que a modernização agrícola em Juscimeira-MT deve ser analisada como processo contraditório. Ela produz dinamismo econômico, mas também exige planejamento territorial capaz de mediar conflitos, proteger populações vulneráveis e promover desenvolvimento equilibrado. A gestão pública municipal, articulada a políticas estaduais e federais, possui papel decisivo na construção de alternativas que integrem produção, permanência rural, justiça social e sustentabilidade ambiental.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise da dinâmica territorial e da modernização agrícola em Juscimeira-MT permitiu compreender que o município está inserido em processos mais amplos de reestruturação do campo mato-grossense, mas apresenta especificidades locais que precisam ser consideradas. A modernização agrícola modificou os usos da terra, reorganizou atividades produtivas, influenciou relações de trabalho e produziu impactos sobre a população rural e urbana. Assim, o território municipal deve ser entendido como resultado de relações históricas, econômicas, sociais e políticas.

A problemática que orientou este artigo buscou compreender de que maneira a modernização agrícola influenciou a dinâmica territorial de Juscimeira-MT e produziu impactos socioespaciais no campo e na população local. A pesquisa demonstrou que tais impactos estão relacionados à valorização da terra, à mecanização, à redução de oportunidades de trabalho rural, à pressão sobre agricultores familiares e à intensificação das relações entre campo e cidade. Esses elementos mostram que a modernização não é apenas técnica, mas também social e territorial.

O objetivo geral do artigo foi alcançado ao se evidenciar que a modernização agrícola em Juscimeira-MT produziu efeitos contraditórios. Por um lado, contribuiu para ampliar a produtividade, dinamizar atividades agropecuárias e inserir o município em circuitos econômicos mais amplos. Por outro, gerou desafios relacionados à permanência das famílias no campo, à desigualdade entre produtores, à redução do trabalho rural e à necessidade de políticas públicas mais integradas.

A agricultura familiar apareceu como elemento estratégico para compreender a dinâmica socioespacial do município. Sua permanência contribui para a diversidade produtiva, a circulação de renda local, a ocupação social da terra e a manutenção de vínculos comunitários. No entanto, esse segmento enfrenta dificuldades diante da modernização seletiva, especialmente quando há limitações de crédito, assistência técnica, infraestrutura e comercialização. Por isso, o fortalecimento da agricultura familiar deve ser parte central do planejamento territorial.

Também se concluiu que a população local é diretamente afetada pelas transformações do campo. A redução de oportunidades rurais pode estimular deslocamentos populacionais, enfraquecer comunidades e ampliar demandas urbanas. Dessa maneira, políticas voltadas apenas ao crescimento produtivo não são suficientes. É necessário pensar o município como totalidade, integrando campo e cidade, produção e vida social, economia e ambiente.

A gestão territorial de Juscimeira-MT precisa considerar a diversidade de sujeitos que produzem o território. Agricultores familiares, assentados, trabalhadores rurais, produtores empresariais, moradores urbanos e gestores públicos possuem demandas distintas e participam de formas diferentes da dinâmica municipal. O planejamento deve criar mecanismos de participação e mediação, evitando que a modernização agrícola beneficie apenas os grupos mais capitalizados.

Como limitação, o estudo baseou-se em pesquisa bibliográfica, análise documental e dados secundários, sem realização de trabalho de campo. Pesquisas futuras poderão aprofundar o tema por meio de entrevistas com agricultores, assentados, gestores públicos e trabalhadores rurais, além de análise cartográfica detalhada da evolução dos usos da terra. Esses procedimentos poderão ampliar a compreensão sobre os impactos da modernização agrícola em escala local.

Conclui-se que a modernização agrícola em Juscimeira-MT deve ser orientada por uma perspectiva territorial crítica, capaz de articular eficiência produtiva, justiça social, permanência rural e sustentabilidade ambiental. O desenvolvimento municipal não pode ser medido apenas pelo aumento da produção, mas pela capacidade de melhorar as condições de vida da população, reduzir desigualdades e garantir que os benefícios da modernização sejam distribuídos de forma mais ampla e equilibrada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECKER, Bertha K. Amazônia: geopolítica na virada do III milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

ELIAS, Denise. Agricultura científica globalizada e fronteira agrícola moderna no Brasil. Confins, Paris, n. 17, 2013. Disponível em: https://journals.openedition.org/confins/8153. Acesso em: 19 jun. 2026.

ELIAS, Denise. Globalização e agricultura: a região de Ribeirão Preto-SP. São Paulo: Edusp, 2003.

FERNANDES, Bernardo Mançano. Entrando nos territórios do território. In: PAULINO, Eliane Tomiasi; FABRINI, João Edmilson (org.). Campesinato e territórios em disputa. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial. In: BUAINAIN, Antônio Márcio (org.). Luta pela terra, reforma agrária e gestão de conflitos no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.

GIRARDI, Eduardo Paulon. Atlas da questão agrária brasileira e cartografia geográfica crítica. Confins, Paris, n. 5, 2009. Disponível em: https://journals.openedition.org/confins/5631. Acesso em: 19 jun. 2026.

GIRARDI, Eduardo Paulon. Proposição teórico-metodológica de uma cartografia geográfica crítica e sua aplicação no desenvolvimento do Atlas da questão agrária brasileira. 2008. Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2008. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/105064. Acesso em: 19 jun. 2026.

GRAZIANO DA SILVA, José. A nova dinâmica da agricultura brasileira. 2. ed. Campinas: Unicamp, Instituto de Economia, 1998.

HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

IBGE. Censo agropecuário 2017: resultados definitivos. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível em: https://censoagro2017.ibge.gov.br. Acesso em: 19 jun. 2026.

IBGE. Censo Demográfico 2022: população e domicílios: primeiros resultados. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 19 jun. 2026.

IBGE. Cidades e Estados: Juscimeira-MT. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mt/juscimeira.html. Acesso em: 19 jun. 2026.

MAPBIOMAS. Coleção 10.1 da série anual de mapas de cobertura e uso da terra do Brasil. São Paulo: MapBiomas, 2026. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/estatisticas/. Acesso em: 19 jun. 2026.

MARTINS, José de Souza. Fronteira: a degradação do outro nos confins do humano. São Paulo: Hucitec, 1997.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Edusp, 2006.

SAQUET, Marcos Aurélio. Por uma geografia das territorialidades e das temporalidades: uma concepção multidimensional voltada para a cooperação e para o desenvolvimento territorial. 2. ed. Rio de Janeiro: Consequência, 2015.

SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

WANDERLEY, Maria de Nazareth Baudel. O mundo rural como um espaço de vida: reflexões sobre a propriedade da terra, agricultura familiar e ruralidade. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.


1 Licenciada em Geografia. Unemat-MT. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail