REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790779443
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo compreender os desafios vivenciados por mães atípicas e cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com ênfase nos impactos relacionados à sobrecarga emocional, à saúde mental, à qualidade de vida e à necessidade de apoio. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, desenvolvida a partir da análise de produções científicas relacionadas à maternidade atípica, ao cuidado de pessoas com TEA, à sobrecarga emocional e às redes de apoio. A seleção dos estudos considerou critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, sendo os dados analisados a partir da proposta de Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados evidenciaram que as mães e cuidadoras vivenciam diferentes desafios decorrentes das demandas contínuas de cuidado, destacando-se a sobrecarga, o estresse, o sofrimento emocional, as dificuldades relacionadas ao autocuidado e os impactos na qualidade de vida. Também foi identificada a importância das redes de apoio familiar e institucional, cuja ausência ou fragilidade pode intensificar as dificuldades enfrentadas. A análise demonstrou ainda a existência de lacunas relacionadas ao acolhimento e ao suporte direcionado especificamente às mães e cuidadoras, apesar da existência de políticas públicas voltadas às pessoas com TEA. Conclui-se que a atenção à pessoa com TEA deve contemplar também aqueles que exercem o cuidado cotidiano, reconhecendo as mães e cuidadoras como sujeitos de direitos e considerando suas necessidades emocionais, sociais e familiares.
Palavras-chave: Maternidade atípica; Transtorno do Espectro Autista; Sobrecarga emocional.
ABSTRACT
This study aimed to understand the challenges experienced by atypical mothers and caregivers of individuals with Autism Spectrum Disorder (ASD), with emphasis on the impacts related to emotional burden, mental health, quality of life, and the need for support. This is a bibliographic study with a qualitative approach, developed through the analysis of scientific literature related to atypical motherhood, the care of individuals with ASD, emotional burden, and support networks. The selection of studies followed previously established inclusion and exclusion criteria, and the data were analyzed based on Bardin’s Content Analysis framework. The results showed that mothers and caregivers experience various challenges arising from continuous caregiving demands, particularly burden, stress, emotional distress, difficulties related to self-care, and impacts on quality of life. The importance of family and institutional support networks was also identified, as their absence or fragility may intensify the difficulties faced. The analysis further demonstrated the existence of gaps in care and support specifically directed toward mothers and caregivers, despite the existence of public policies aimed at individuals with ASD. It is concluded that attention to individuals with ASD should also encompass those who provide daily care, recognizing mothers and caregivers as rights-bearing individuals and considering their emotional, social, and family needs.
Keywords: Atypical motherhood; Autism Spectrum Disorder; Emotional burden.
1. INTRODUÇÃO
O tecido social e as estratégias sociais desvelaram, ao longo últimas décadas, muitos problemas relacionados à vida da mulher e como atua nos contextos, suas entregas, renúncias e escolhas, principalmente, porque, por muito tempo, foi invisibilizada, não acolhida e silenciada diante das dificuldades impostas pela sociedade. No universo histórico brasileiro, a mulher obteve o direito ao voto em 1932, contudo a história de luta de muitas mulheres que, muito antes dessa data, já defendia a participação social e a ocupação justa de mulheres a espaços sociais, foi apagada substancialmente por muito tempo (Oriá, 2021).
Dentre esses processos, é possível perceber na literatura a dupla jornada que as mães enfrentam quando necessitam desenvolver suas atividades do cotidiano e cuidar dos filhos, principalmente, quando estes possuem algum tipo de transtorno. Assim, busca-se no presente estudo compreender as dificuldades de vida das mães que possuem filho (a) com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enquanto problemática delimitadora que exige estudo, reflexão e análise diante da realidade social.
Face ao problema, mesmo que haja pouca concentração de estudos sobre os sofrimentos que as mães e cuidadores de crianças e jovens com TEA, podemos refletir e redimensionar que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) define a existência de mais de 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil, conforme o Censo 2022 (Brasil, 2025). Isso pode auxiliar na ideia de quantidade de mães e cuidadores que desempenham essa tarefa rotineiramente.
Nesse mesmo estudo, o IBGE (Brasil, 2025, n.p) apontou que “Quase metade das pessoas com diagnóstico de autismo estava no grupo sem instrução e fundamental incompleto”, o que pode indicar a relevante dificuldade que essas pessoas, suas mães e cuidadores enfrentam para acesso e permanência nas escolas para todos, considerando-se que, muitas vezes, “a prioridade pode ser a comunicação; em outros, a adaptação escolar, o desenvolvimento da autonomia cotidiana, o acompanhamento psicológico, a terapia ocupacional ou a fonoaudiologia”, significando assim a presença e participação, principalmente das mães.
Percebe-se, assim, que o problema estudado é atravessado por outros diversos contextos sociais, humanos, políticos e históricos na comunidade em que vivem, pois isso envolve descumprimento de direitos, precarização do trabalho e da vida, adoecimento por acúmulo de atividades e renúncias, principalmente para as mães que serão denominadas, nesta pesquisa, mães atípicas. Para Souza, Rodrigues e Silva (2025, p. 1), “mães atípicas enfrentam elevada sobrecarga emocional e física, manifestando sintomas de estresse, ansiedade, depressão, culpa e solidão.” É diante desse universo de informações preocupantes que se pretende discutir e analisar as perspectivas teóricas.
Ademais, soma-se a isso a desigualdade das responsabilidades de cuidados que recai majoritariamente sobre as mães, intensificando o processo de adoecimento psíquico e vulnerabilidades sociais, recolocando essa problemática como urgente em se discutir, além de outros aspectos, a visibilização dos riscos de adoecimento mental em mães atípicas que enfrentam esses desafios, representando um grupo de risco que exige intervenções e responsabilidade social
1.1. Problema de Pesquisa
Quais são os principais desafios enfrentados por mães e cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) para obter serviços de saúde, apoio social e psicológico, e como esses desafios afetam sua qualidade de vida diante da sobrecarga de cuidados e das múltiplas exigências diárias relacionadas ao cuidado do filho?
1.2. Objetivos
Objetivo geral: Verificar as principais dimensões da sobrecarga, seja ela física, social ou psicológica, vivenciada por mães de filhos atípicos, assim como quais estratégias de enfrentamento e adaptação são desenvolvidas por elas.
Objetivos específicos:
Compreender como o apoio psicológico auxilia nos desafios enfrentados por essas mães de filhos atípicos;
Discutir a necessidade da rede de apoio que abrangem as mães para a prevenção do adoemecimento psíquico.
Pontuar quais estratégias de enfrentamento e adaptação são desenvolvidas por mães de filhos atípicos diante dos desafios do cuidado contínuo.
1.3. Justificativa
A escolha da temática justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão acerca dos desafios vivenciados por mães e cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente diante das mudanças emocionais, sociais, familiares e profissionais decorrentes das demandas contínuas de cuidado. A maternidade atípica pode envolver sobrecarga física e emocional, reorganização da rotina, redução das atividades profissionais e sociais e necessidade constante de acompanhamento das necessidades da pessoa com TEA, aspectos que podem repercutir na qualidade de vida e na saúde mental das mães.
No âmbito social, a relevância do estudo está relacionada à necessidade de dar visibilidade às experiências dessas mulheres, considerando que muitas vezes as necessidades da mãe ou cuidadora permanecem em segundo plano diante da atenção direcionada à pessoa com TEA. A literatura apresentada no próprio estudo aponta a presença de sentimentos de estresse, ansiedade, culpa, solidão e sobrecarga, além das dificuldades relacionadas ao acesso aos serviços de saúde, apoio psicológico e redes de suporte. Dessa forma, compreender essas experiências pode contribuir para uma reflexão mais ampla sobre a importância do acolhimento e da assistência às mães e cuidadores.
No âmbito acadêmico e profissional, a pesquisa mostra-se relevante para a Psicologia por possibilitar uma reflexão sobre os impactos da maternidade atípica na saúde mental e sobre a necessidade de práticas de acolhimento que considerem não apenas a pessoa com TEA, mas também aqueles que participam diretamente de seu cuidado. A análise da produção científica pode contribuir para identificar os principais desafios relatados pelas mães, as redes de apoio disponíveis e as estratégias de enfrentamento e adaptação presentes na literatura.
Assim, a realização desta pesquisa justifica-se pela importância de ampliar a discussão sobre a maternidade atípica e contribuir para a construção de uma perspectiva de cuidado mais integral, capaz de reconhecer as necessidades emocionais, sociais e psicológicas das mães e cuidadores de pessoas com TEA.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Primeira Trajetória Sobre as Mães Atípicas
Desde a promulgação da Carta Magna – Constituição Federal de 1988 –, além dos movimentos sociais de sujeitos e organizações, o princípio da inclusão passou a ser um dever do Estado (Brasil, 1988), com a finalidade de aprimorar o exercício da democracia, a participação social de todos e a representatividade das diferenças.
Nesse sentido, reflete-se que pensar na inclusão de pessoas com TEA é tão importante quanto refletir sobre o papel e a vida das mães e cuidadores dessas pessoas, podendo indicar um relevante sinal para discussões sobre humanização, direitos e deveres sociais, vivências e necessidade de apoio da sociedade para a melhoria das condições nessas relações e situações. É o que se pretende aprofundar neste estudo.
Ao se exemplificar a inclusão de mães atípicas no Sistema Único de Saúde (SUS), cabe perceber que essas pessoas enfrentam diversas dificuldades de acesso aos serviços públicos, principalmente porque enfrentam uma sobrecarga emocional e física devido a atividades extenuantes, reverberando-se pela ausência de infraestrutura adequada (Melo et al., 2025).
Para Moraes (2025, n.p.), 70% das mães atípicas “interrompem atividades profissionais. Para elas, falta acolhimento do Estado e das empresas”. Dessa forma, infere-se que, há uma grande lacuna na sociedade, que impõe e assevera dificuldades às mães que lutam para cuidar de seus filhos e se manter em seus espaços de trabalho.
Portanto, observa-se que os desafios enfrentados pelas mães e cuidadores de pessoas com TEA estão relacionados a diferentes dimensões sociais, emocionais e familiares, destacando-se a sobrecarga decorrente das demandas contínuas de cuidado, as dificuldades de acesso aos serviços e os impactos sobre a vida profissional e pessoal das mães.
2.2. TEA – Breve Visão Histórico-Científica
Conforme Louzada (2024), o Transtorno do Espectro Autista está relacionado a um transtorno do neurodesenvolvimento, podendo ser diagnosticado em diferentes níveis de suporte (I, II e III), sendo eles classificados de acordo com a necessidade de apoio, desde menor até maior necessidade de suporte, especialmente em relação aos déficits na comunicação social e aos comportamentos restritos e repetitivos (DSM Tr-V, 2023). Para Louzada (2024), o termo utilizado atualmente – autismo – originou-se com o psiquiatra suíço Bleuler (1857-1939), no ano de 1910, sendo que a terminologia também é utilizada por Asperger. Ademais, apesar de muitos avanços e estudos na área do TEA, ainda existem preconceitos e paradigmas sociais que se perpetuam por muito tempo, segundo o autor.
Assim, é possível apresentar as contribuições dos estudos publicados pela plataforma digital Autismo e Realidade (2019, online), que classifica como relevantes autores e pesquisadores da história sobre o TEA Leo Kanner, Hans Asperger, Michael Rutter e Lorna Wing. Considera-se relevante apresentar o quadro resumido sobre essas contribuições, principalmente porque esses estudos permitiram reflexões sobre pessoas que enfrentam diferentes dificuldades de comunicação e interação social.
Quadro 1. Principais estudiosos do TEA.
Leo Kanner | Popularizou a noção do autismo como parte da esquizofrenia infantil |
Hans Asperger | Foi o primeiro a entender que o TEA afeta mais meninos |
Michael Rutter | Propôs uma nova definição do distúrbio, como um transtorno mental único, independente da esquizofrenia |
Lorna Wing | Pioneira da visão do autismo como espectro |
Fonte: Brasil (2025)
Portanto, observa-se que a trajetória histórico-científica do autismo passou por importantes evoluções conceituais: partiu de uma visão restrita e associada à esquizofrenia até consolidar-se, com Lorna Wing, sob a perspectiva de espectro. Essa evolução conceitual é fundamental para compreender não apenas o transtorno em si, mas também a forma como a sociedade e as políticas públicas passaram a estruturar o suporte necessário às pessoas com TEA e a seus familiares.
2.3. TEA – Breve Visão Governamental
É basilar iniciar essa informação no âmbito do que a instituição pública formaliza e oferece como rede de proteção e acolhimento. Para o Ministério da Saúde (Brasil, 2025), o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma variação que acompanha a pessoa desde o nascimento, podendo afetar a função neurobiológica, que varia em cada pessoa, e alterar a forma como essa pessoa se comunica e percebe o mundo, assim como suas relações com as demais pessoas.
Portanto, levando-se em consideração inicialmente que, por ser considerado um “espectro”, o TEA indica que podem existir situações e vivências individualizadas que necessitam de olhares e apoio específicos (Dsm-Tr-V, 2023).
Dessa maneira, o Ministério da Saúde (Brasil, 2025), considerando os avanços importantes na área, apresenta o TEA como uma condição estudada no âmbito dos transtornos do neurodesenvolvimento, reconhecendo a variedade de sintomas e condições mentais e físicas particulares. O TEA é classificado e estudado com base no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) (Brasil, 2025).
Para uma visão geral sobre a legislação brasileira relacionada ao TEA, buscou-se uma compilação básica de dados a partir da literatura existente, em conformidade com dados apresentados no estudo de Jorge e Campus (2025), organizados no Quadro 2 como uma linha do tempo. Ressalta-se que o quadro não possui caráter conclusivo, constituindo apenas um recorte legal sobre a temática estudada.
Quadro 2. Recorte legal sobre o Autismo no Brasil
Parâmetro legal/histórico | Ideia central |
Código Civil - Lei n 3.071/1916 | Tratamento diverso a pessoas com deficiência, trazendo caráter discriminatório e incapacitante frente os atos da vida civil |
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) - Lei nº 4.024/1961 | A educação de excepcionais, deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de Educação, a fim de integrá-los na comunidade |
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) - Lei nº 5.692/1971 | Previa educação especial aos alunos com deficiência física e mental, ou que se encontrasse em atraso considerável, entretanto, não previa a inclusão social, mas sim escola especial para essas crianças |
Lacuna temporal em que Jorge e Campus (2025) consideram como relevante e preocupante período de exclusão e discriminação. | |
Constituição Federal de 1988 | Trouxe novos paradigmas de proteção à pessoa com deficiência, trazendo sua proteção em diversos aspectos e capítulos do texto constitucional, por ter como característica o caráter cidadão, visando buscar a inclusão social dos vulneráveis, sendo imprescindível analisarmos os aspectos protetivos trazidos por ela, com destaque especial ao contexto educacional. |
Lei 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente | Trazia viés protetivo e de garantia de direitos através da prioridade absoluta de tratamento a essa faixa etária, diversamente do que ocorria com legislação pretérita que tinha a repressão como paradigma; Surge o dever estatal de atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. |
Novo Código Civil Brasileiro – Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 | Traz trazendo alterações substanciais frente aos deficientes, não os colocando como absolutamente incapazes, possibilitando-os aos exercícios de todos os atos da vida civil em igualdade de condições |
Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011 | Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado, trazendo inúmeros direitos como garantia de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades, não exclusão do sistema educacional geral sob alegação de deficiência, oferta de educação especial preferencialmente na rede regular de ensino e garantia de apoio especializado quando necessário, havendo como objetivo a participação igualitária no aprendizado |
Lei Berenice Piana (12.764/12) - criou a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista | Traz a caracterização do que se entende como pessoa com autismo, no intuito de buscar a elaboração de políticas públicas voltadas ao melhor desenvolvimento |
Lei nº 13.146/2015) - Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência | Enuncia e fixa os princípios norteadores da tutela desse segmento social, com por objeto exercer com igualdade o exercício dos direitos e liberdades fundamentais por pessoa com deficiência |
Jurisprudências - Poder Judiciário | Vem garantindo o direito das pessoas com Transtorno do Espectro Autista |
Fonte: Jorge e Campus (2025)
Dessa visão, o TEA caracteriza-se por comportamentos e particularidades que podem surgir nos primeiros anos de vida, sobretudo relacionados à interação social, à comunicação e a padrões comportamentais específicos.
De acordo com Dalgalarrondo (2019), há a existência da capacidade de reconhecimento das expressões faciais que indicam emoções, além do reconhecimento do tom de voz e da visualização de gestos corporais. Esse processo é entendido no contexto da cognição social, e aponta-se que recém-nascidos (RN) já possuem uma tendência a observar rostos humanos, apresentando preferência pela voz humana, especialmente pela voz da própria mãe. Ressalta-se que o Ministério da Saúde (Brasil, 2025) explica alguns aspectos relacionados à observação de possíveis casos de TEA.
Os especificadores de gravidade podem ser usados para descrever, de maneira sucinta, a sintomatologia atual, considerando que o nível de suporte (1, 2 ou 3) pode variar de acordo com o contexto ou oscilar ao longo do tempo. Indivíduos com melhores habilidades podem experimentar desafios psicossociais diferentes ou até maiores; portanto, as necessidades de serviços só podem ser definidas de forma individual (DSM Tr-V, 2023). O TEA somente pode ser considerado um diagnóstico após avaliação realizada por profissionais qualificados, podendo envolver uma abordagem multiprofissional.
Quadro 3. Alguns aspectos que podem indicar TEA
Sinais de alerta para o autismo | Aspectos importantes |
Ausência de contato visual ou expressões faciais | |
Não responder ao nome até os 12 meses | |
Atraso na fala ou regressão de habilidades já adquiridas | |
Pouco ou nenhum interesse por interações sociais | |
Comportamentos repetitivos (como balançar o corpo ou alinhar objetos) | |
Resistência a mudanças na rotina | |
Hiper ou hipossensibilidade a sons, luzes, texturas |
Fonte: Brasil (2025)
Como vimos, o diagnóstico do TEA deve ser conduzido com atenção, observando-se aspectos como entrevistas, observações e habilidades que envolvem a comunicação, os processos de interação e o comportamento, os quais podem ser avaliados por “psiquiatras, neurologistas e neuropediatras. No entanto, para obter um diagnóstico preciso, a criança que apresenta sinais de alerta passa por uma série de avaliações” (Ravazoli; Pavani; Grigoleto Netto, 2024, p. 69).
Diante dessa realidade, Lopes (2024) afirma que a aprovação da Lei nº 12.764/2012 marca uma nova visão e responsabilidade do Estado e da sociedade sobre as pessoas com TEA, mas foi resultado de muitas lutas, visto que havia, na época, baixa participação de pessoas que defendiam esses direitos.
2.4. A Mãe Atípica e a Diversidade de Cuidadores de Pessoas com TEA
A maternidade é um acontecimento que envolve diversas mudanças e transformações psicológicas, biológicas e sociais da mulher e pode ser vista como um fenômeno particular e específico, pois exige uma experiência individual e única (Piccinini et al., 2008). Considera-se a magnitude da importância dessa fase, visto que, no caso da maternidade atípica, além de todos os processos ligados à maternidade em si, acumulam-se as demais particularidades do filho nas diferentes relações (Gama, 2019).
Diante disso, suscitam-se discussões e reflexões sobre as mães que enfrentam e vivenciam essas realidades, principalmente pelos impactos e mudanças extremas nos aspectos sociais e mentais, que podem ser classificados como um processo de luto que representa simbolicamente esse acontecimento, visto que há situações específicas que podem agravá-lo.
De acordo com Bilato (2025, p. 04), a partir das considerações de Freud (1916), “o luto não se faz necessário apenas pela morte de alguém querido”; contudo, esse acontecimento pode estar caracterizado por fenômenos que apresentam características idênticas e fazem parte do desenvolvimento humano, sendo uma experiência mental e natural.
Para Bilato (2025, p. 04), a pessoa que passa por esse estado pode desenvolver sentimentos dolorosos, causando “afastamento de qualquer atividade que esteja ligada a pensamentos sobre o objeto”, o que está relacionado à “lembrança e memória afetiva criada por essa mãe para com seu filho, antes dele nascer, ao longo da gestação e quando planejado pelos pais”. Nesse contexto, há relevante preocupação sobre o estado emocional das mães após o diagnóstico de autismo e sobre como essa mãe desenvolve uma espécie de luto pelo desejo do filho idealizado, modificando substancialmente sua vida.
Conforme Franco (2009, 2017), a criança idealizada é construída pela imaginação dos pais, por pensamentos preconcebidos sobre uma “perfeição” do filho e, havendo esse processo mental de idealização, quando nasce uma criança com algum tipo de deficiência, há uma consequência imaginária de desconexão entre a figura materna e a criança, causada pela ruptura desse pensamento que foi imaginado.
Nesse contexto, após o diagnóstico do TEA, se, por um lado, há todo um processo de mudança que altera a vida pessoal, familiar e profissional da mãe, considerando o acompanhamento do luto no decorrer de toda a vida, podendo trazer sentimentos de tristeza e aflição (O’Connor, 2023); por outro, as mães necessitam de processos de adaptação às dificuldades e necessidades do filho (O’Connor, 2023), assim como enfrentam, possivelmente, processos de preconceito e vivências burocráticas (Bosa, 2006).
Conforme Soares et al. (2025, p. 339), o momento de apresentação do diagnóstico do TEA “em uma criança desencadeia, na maioria dos casos, um processo emocional profundo e duradouro para as mães, que geralmente assumem o papel principal no cuidado cotidiano”, e isso pode, sobremaneira, causar um processo de sofrimento e dificuldades. Os autores ainda complementam, a partir de uma análise feita sob uma perspectiva crítica, que o sofrimento vai além dos limites da criança, “mas é construído socialmente por um sistema que naturaliza a sobrecarga da mulher e delega a ela a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado” (Soares et al., 2025, p. 345).
Assim, considera-se que, no recebimento do diagnóstico de que o(a) filho(a) possui TEA, inicia-se uma trajetória de muito trabalho para a mãe atípica e de desdobramentos emocionais que podem afetar a família (SER-DH, 2025). “No entanto, uma criança especial em um contexto familiar pode alterar papéis previamente estabelecidos e dar um novo significado a este núcleo” (Lima et al., 2023, n.p.), sendo necessárias responsabilidades compartilhadas, adaptações de rotinas e modificações nas vidas dos envolvidos.
Diante dessas realidades, a mãe atípica e os cuidadores devem atentar para diversas situações construídas e perpetuadas na sociedade e que vão de encontro aos direitos das pessoas com necessidades específicas ou que fazem parte dos grupos das diversidades. Isso pode ser bem evidente porque crianças que não se enquadram nos padrões sociais hegemônicos podem ser expostas a situações de violência, preconceito, indiferença e isolamento. “Para as mães atípicas, cuidadoras de crianças neurodivergentes, essa realidade se sobrepõe à exaustão e às dificuldades da maternidade, que recaem especialmente sobre as mulheres” (Pública, 2025).
Para Vale et al. (2025, p. 20), a sociedade reconhece que “as mães atípicas são exemplos de mulheres ‘guerreiras’”, o que tem tornado cada vez mais invisíveis os impactos que a função de cuidadora tem causado na vida delas. Contudo, é necessário compreender que essa visão necessita ser ressignificada, ampliada e compreendida em todas as suas complexidades. É necessário que os “desafios muito mais severos em decorrência de sua condição socioeconômica que as limitam na obtenção de direitos e acesso aos bens e serviços” (Vale et al., 2025, p. 19) possam ser pensados em equipamentos sociais, programas e projetos que possam atender e melhorar a qualidade de vida, assim como garantir o direito à escuta, ao afeto e ao reconhecimento.
Nesse cenário, Santos et al. (2025) apontam que um dos principais problemas surge quando há o “comprometimento de papéis significativos para as mulheres, que tendem a negligenciar seus próprios cuidados e desejos em favor dos cuidados com o outro”, tendo como consequências negativas situações que contribuem para casos de apagamento, abandono e adoecimento físico e emocional. É possível perceber que essas realidades se reforçam, mas são invisibilizadas perante a sociedade.
2.5. Percepção de Resiliência e Mães Atípicas
Considera-se que, neste ponto, há uma diversidade que possibilita múltiplos estudos, aprofundamentos e debates, pois se trata de casos individuais que reforçam a preocupação de pesquisas mais aproximadas com a realidade, apontando para outros aspectos que estão relacionados à resiliência das mães atípicas com aspectos culturais, econômicos, sociais e outros que exercem influência nos aspectos de vida.
Nesse contexto, é possível considerar que há uma relação e perspectiva de discussão relevante nos aspectos que envolvem a percepção de resiliência e as mães atípicas, em especial aquelas mães que cuidam de pessoas com neurodivergência, caso do TEA, apontando como fundamental para o campo de estudo da Psicologia.
Contudo, cabe frisar as vivências das mães atípicas, quando expostas a uma sociedade excludente e que precariamente possui recursos de apoio que visem enfrentamento os desafios enfrentados, sobrecarga de atividades e condições de saúde (Silva, Ramos e Resgala Jr., 2024). Esses processos são basilares para rediscussão e construção de políticas que atentem para essas condições e permanências de vida.
Dessa maneira, é necessário um olhar ampliado e criterioso considerando-se que a resiliência da mãe atípica, além de constituir uma realidade de fortalecimento emocional, desempenhar variadas funções no cotidiano, é, importante, contudo, desenvolver perspectivas que atentem para a qualidade de vida mental dessas mães (Oliveira et. al, 2025).
Nesse contexto, faz-se importante atentar para as condições que podem ocasionar adoecimento, identificação dos fatores de vivência, suportes e meios institucionais ofertados ou não, estabelecer quais aspectos estão mais relacionados em observância a uma qualidade de vida mútua e familiar (Silva e Oliveira, 2024).
Face a essa realidade, de não se observar apenas um lado da realidade, conforme Borges et. al (2025), alguns aspectos podem ser destacados em relação à resiliência das mães atípicas, principalmente porque inexistência (ou ineficácia) de serviços de apoio a essas mães, ressaltando-se os impactos sobre temas como isolamento, adoecimento psíquico e culpa sobre os problemas. Concorda-se também sobre a inexistência de redes de apoio e como isso vem aprofundando as consequências do problema.
Portanto, a criação de suporte oficial, que avance sobre o suporte informal possivelmente existente, pode melhorar a qualidade de vida que se evidencia alcançar, considerando-se que isso pode fortalecer a resiliência dessas mães diante das vivências e experiências, pois, nesse contexto, por meio das redes de suporte oficial é possível um diálogo, inclusão e melhoria das mães atípicas que cuidam de pessoas com TEA (Souza, Rodrigues e Silva, 2025).
2.6. Políticas Públicas Existentes no Brasil
Nesse contexto, políticas públicas são programas, projetos e ações que garantem os direitos dos cidadãos em diversas áreas, como saúde, educação, assistência social, meio ambiente, cultura, dentre outras (Sordi, 2024), sendo que compete ao Estado prover condições para todas as pessoas.
Para tanto, o Ministério da Saúde (2025, online) compreende a centralidade da família e a considera fundamental para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo da pessoa com TEA, objetivando estabelecer algumas orientações sobre como os serviços públicos devem conduzir políticas de atenção aos pais e cuidadores nesse processo, considerando o acolhimento, o apoio emocional durante todo o processo, a importância da educação em saúde e da autonomia no contexto familiar, assim como o apoio de equipes multiprofissionais como estrutura fundamental. No cenário dessas manifestações, institucionalmente, o Estado deve atentar para situações denominadas agravantes das crises, como sobrecarga de tarefas, mudanças inesperadas na rotina e superestimulação sensorial (Brasil, 2025, online).
Dentre essas situações, registra-se que a mãe de pessoa com TEA desempenha inúmeras tarefas, privando-se, muitas vezes, de atividades da vida pessoal, o que, consequentemente, pode provocar adoecimentos, depressão e outros sofrimentos de ordem emocional (Vilanova, 2022). Na vivência da mãe atípica, pensar em políticas públicas reais que possam auxiliar no cotidiano é necessário, visto que há uma tendência de que pessoas com TEA possuam algum transtorno do processamento sensorial, como a sensibilidade auditiva (Autismo e Realidade, 2024, online).
Compreende-se, então, que essa problemática possui raízes ainda mais profundas, considerando-se que essas mulheres, além de buscarem os direitos de seus filhos, necessitam de políticas existentes que possam acolhê-las como mães solo, que são apagadas e segregadas desde o período da maternidade (Chagas; Silva, 2024). A partir de um olhar crítico, é possível admitir que ainda existem limitações na formulação e no desenvolvimento de políticas específicas voltadas às necessidades das mães atípicas.
Além desses problemas estruturais, é possível perceber um cenário mais agravante que envolve aspectos voltados à ausência de preparação profissional para manejar situações específicas, o isolamento da figura e da importância da mãe atípica, frequentemente ignorada pelas instituições, sobremaneira, aumentado pela falta de comunicação (Melo et al., 2025). Com isso, admite-se uma invisibilização da mulher que parte de uma reflexão histórica e uma desarticulação das reduzidas políticas de atenção e acolhimento às mães atípicas, enquanto principais premissas causadoras dos problemas sociais.
3. METODOLOGIA
3.1. Tipos de Pesquisa
O presente estudo foi conduzido como uma pesquisa bibliográfica. A escolha desse método justifica-se por sua adequação para explorar um tema amplo e multifacetado como os desafios da maternidade atípica. A pesquisa bibliográfica permite analisar e integrar diferentes produções científicas já publicadas, contribuindo para a compreensão teórica do fenômeno e para a construção de reflexões sobre a sobrecarga emocional vivenciada por cuidadores de pessoas com TEA.
A pesquisa bibliográfica é realizada com base em material já publicado, sendo particularmente eficaz na análise de fenômenos a partir de contribuições teóricas já estabelecidas. “Através deste método, podemos reunir, analisar e contrastar diversas perspectivas sobre o assunto, fornecendo uma base robusta para entender os desafios enfrentados na maternidade atípica” (Borges et al., 2025, p. 36-37).
O trabalho possui abordagem qualitativa, uma vez que busca compreender significados, experiências e percepções relacionadas à maternidade atípica e aos desafios vivenciados por mães e cuidadores de pessoas com TEA. A abordagem qualitativa possibilita a compreensão dos fenômenos a partir de seus contextos e significados, considerando os aspectos humanos e sociais relacionados ao objeto de estudo (Helfer; Agnes; Haas, 2019).
De acordo com Rother (2007), nesse sentido, a revisão bibliográfica contribui para a organização e sistematização do conhecimento disponível, além de possibilitar a identificação de conceitos, abordagens e resultados relevantes já apresentados na literatura, oferecendo subsídios teóricos consistentes para o desenvolvimento da pesquisa.
3.2. Procedimentos de Coleta de Dados
Para garantir uma ampla cobertura da produção científica nacional, foram consultadas bases de dados relevantes na área acadêmica. Entre elas, destacam-se a SciELO (Scientific Electronic Library Online) e a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), devido à significativa presença de publicações provenientes do Brasil, permitindo a identificação de artigos científicos e outros documentos relacionados à temática estudada.
A busca foi realizada por meio de descritores relacionados ao tema da pesquisa, combinados por operadores booleanos, com o objetivo de localizar produções que abordassem a maternidade atípica, a sobrecarga emocional e o cuidado de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, priorizando publicações relevantes para a fundamentação teórica do estudo.
3.3. Descritores
Os descritores utilizados foram: “maternidade atípica” OR “autismo”; “saúde mental” AND “mãe”; “mães” AND “apoio social”; “autismo” OR “estresse parental”. Os descritores auxiliaram na organização da busca e na identificação de termos relacionados à temática da pesquisa em fontes e plataformas de busca de produções científicas.
Quadro 4. Critérios de inclusão e exclusão dos estudos
Critérios de inclusão | Critérios de exclusão |
Artigos empíricos, qualitativos ou quantitativos, e artigos de revisão. | Estudos que não estejam de acordo com a temática. |
Estudos cujo foco principal seja a experiência materna com a maternidade atípica. | Publicações cujo texto completo não possa ser recuperado ou acessado. |
Artigos com texto completo disponível para acesso em português. | Artigos duplicados. |
Fonte: Autoria própria (2026)
Dessa forma, a definição rigorosa dos descritores combinada aos critérios de inclusão e exclusão garantiu a seleção de produções científicas alinhadas aos objetivos da pesquisa, assegurando a confiabilidade do corpus documental recolhido.
3.4. Método de Análise de Dados
O método de análise dos dados do material selecionado foi realizado a partir da proposta de Análise de Conteúdo de Bardin (2010), que consiste no levantamento e na análise de publicações científicas sobre a temática proposta, considerando-se um recorte teórico com abordagem qualitativa, estruturado em três fases: 1) pré-análise; 2) exploração do material, categorização ou codificação; e 3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação.
A Análise de Conteúdo constitui uma escolha pertinente para o presente estudo, principalmente por possibilitar a busca e a compreensão dos sentidos presentes nas produções analisadas. Considerando que a pesquisa apresenta abordagem qualitativa, Godoy (1995) considera que a análise dos dados e sua relação com os contextos sociais podem evidenciar aspectos relevantes do fenômeno estudado.
“Na prática as duas funções da análise de conteúdo podem coexistir de maneira complementar. Tal produz-se, sobretudo, quando o analista se dedica a um domínio da investigação ou a um tipo de mensagens pouco exploradas” (Bardin, 2016, p. 19).
Além disso, Minayo (2007, p. 24) enfatiza que a pesquisa qualitativa “trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” e, a partir desse conjunto de fenômenos humanos gerados socialmente, busca compreender e interpretar a realidade. Para Moraes (1999, p. 2), a Análise de Conteúdo representa um trabalho minucioso de interpretação de dados e conduz a “descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, ajuda a reinterpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum”.
Conforme a metodologia proposta por Bardin (2010), o material coletado foi submetido à pré-análise, sendo realizada uma leitura flutuante, com escolha do corpus das produções científicas com base na representatividade e na exaustividade, principalmente para preparação de hipóteses e definição dos objetivos. Na exploração do material, foi realizada a categorização, seguindo-se critérios semânticos, sintáticos, léxicos ou expressivos e, consequentemente, foram realizadas inferências sobre o sentido das ideias identificadas nas produções selecionadas.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A análise dos estudos selecionados permitiu identificar aspectos recorrentes relacionados à experiência das mães e cuidadoras de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente no que se refere à sobrecarga emocional, à saúde mental, à qualidade de vida, às redes de apoio e às estratégias de enfrentamento. Os resultados encontrados foram organizados e analisados de acordo com as categorias temáticas identificadas na literatura.
Para melhor visualização do processo de seleção dos estudos que compuseram a presente pesquisa, apresenta-se, a seguir, a Figura 1 elaborada a partir das etapas de identificação, seleção e inclusão dos trabalhos analisados.
Figura 1. Fluxograma da seleção dos estudos para análise
A análise dos estudos selecionados permitiu identificar diferentes aspectos relacionados aos desafios vivenciados por mães e cuidadores de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), considerando os objetivos, métodos empregados, características das amostras e principais resultados encontrados. Dessa forma, após o percurso de seleção demonstrado na Figura 1 para facilitar a visualização e a compreensão dos estudos que fundamentaram a análise dos resultados, apresenta-se, a seguir, o Quadro 5, contendo a caracterização dos estudos analisados.
Quadro 5. Caracterização dos estudos analisados
Autor/Ano | Objetivo | Método/amostra | Principais resultados |
Faro et al. (2019) | Analisar estresse, sobrecarga materna e suporte familiar. | Estudo com 30 mães. | Mães com estresse apresentaram maior percepção de sobrecarga, enquanto aquelas sem estresse apresentaram maior percepção de suporte familiar. |
Moretto et al. (2020) | Analisar a interferência do meio comunicativo da criança na qualidade de vida materna. | Estudo transversal com 41 mães. | Foram observados elevados índices de insatisfação com a qualidade de vida. |
Vilanova et al. (2022) | Analisar a sobrecarga materna relacionada ao cuidado de crianças com TEA. | Método misto; 51 mães na etapa quantitativa e seis na qualitativa. | 64,7% relataram sobrecarga e 52,9% apresentaram sobrecarga leve a moderada. |
Luna et al. (2023) | Analisar a percepção das mães sobre rede de apoio e autocuidado. | Estudo qualitativo com 29 mães. | Foram identificadas carência de rede de apoio, sobrecarga e necessidade de acolhimento e autocuidado. |
Piovesan, Scortegagna e De Marchi (2015) | Investigar qualidade de vida e sintomas depressivos em mães de indivíduos com TEA. | Estudo com 40 mulheres. | Foi identificada relação negativa entre qualidade de vida e sintomas depressivos. |
Fávero-Nunes e Santos (2010) | Avaliar sintomas depressivos e qualidade de vida. | Estudo transversal com 20 mães. | 15% apresentaram critérios para disforia/depressão e 70% avaliaram positivamente a qualidade de vida global. |
Lima et al. (2024) | Identificar fatores associados ao autoestigma entre mães/cuidadores. | Estudo transversal com 122 participantes. | Foi encontrada prevalência de 63% de autoestigma, associada a aspectos de saúde mental, estresse e qualidade de vida. |
Teixeira et al. (2024) | Compreender repercussões psicossociais da pandemia para mães de crianças com TEA. | Estudo qualitativo com 22 mães. | Foram identificadas ansiedade, angústia, sobrecarga física e emocional e fragilidade da rede de apoio. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026), a partir dos estudos analisados.
Os resultados apresentados no Quadro 5 demonstram que a sobrecarga constitui um dos aspectos mais recorrentes na experiência das mães de crianças com TEA. Faro et al. (2019) identificaram relação entre estresse e maior percepção de sobrecarga materna, ao mesmo tempo em que observaram maior percepção de suporte familiar entre as mães que não apresentavam estresse. Esses achados indicam que a experiência do cuidado não pode ser analisada isoladamente das condições sociais e familiares nas quais a maternidade é vivenciada. A existência ou ausência de pessoas e serviços capazes de compartilhar responsabilidades pode modificar significativamente a maneira como essas mulheres enfrentam as demandas cotidianas.
Essa relação também pode ser observada no estudo de Vilanova et al. (2022), no qual participaram 51 mães na etapa quantitativa e seis na etapa qualitativa. Os resultados demonstraram que 64,7% das participantes se sentiam sobrecarregadas e que 52,9% apresentavam sobrecarga classificada entre leve e moderada. Esses dados evidenciam que o cuidado contínuo pode representar uma importante fonte de desgaste, principalmente quando associado às demais responsabilidades familiares, profissionais e sociais assumidas pelas mulheres.
A dimensão emocional desse processo também aparece nos estudos analisados. Teixeira et al. (2024), ao investigarem as repercussões psicossociais da pandemia da COVID-19 em 22 mães de crianças com TEA, identificaram manifestações de medo, ansiedade, angústia e sobrecarga física, emocional e psicológica, além de fragilidade ou inexistência da rede de apoio. Embora o contexto pandêmico possua características específicas, os resultados contribuem para demonstrar como situações de instabilidade e redução dos serviços disponíveis podem intensificar dificuldades que já fazem parte da rotina de muitas famílias.
A qualidade de vida constitui outro aspecto relevante encontrado na literatura. Moretto et al. (2020), em estudo realizado com 41 mães, identificaram elevados índices de insatisfação com a qualidade de vida entre as participantes. Os resultados demonstram que as demandas relacionadas ao cuidado podem repercutir não apenas sobre o estado emocional das mães, mas também sobre diferentes dimensões de sua vida cotidiana.
Na mesma perspectiva, Fávero-Nunes e Santos (2010), ao avaliarem 20 mães, identificaram critérios para disforia/depressão em 15% das participantes. Apesar de 70% terem realizado uma avaliação favorável de sua qualidade de vida global, apenas 40% estavam satisfeitas com sua saúde. Piovesan, Scortegagna e De Marchi (2015), por sua vez, também identificaram relação negativa entre qualidade de vida e sintomas depressivos, demonstrando que o aumento dos sintomas depressivos esteve associado a uma percepção menos favorável da qualidade de vida.
Esses resultados reforçam a necessidade de compreender a maternidade atípica de maneira ampliada. A presença do TEA na família não significa, por si só, que a mãe desenvolverá sofrimento emocional ou redução da qualidade de vida. Entretanto, quando as demandas de cuidado são acompanhadas por ausência de suporte, dificuldades econômicas, redução das oportunidades profissionais, isolamento social e pouca disponibilidade para o autocuidado, aumentam as possibilidades de repercussões negativas sobre sua saúde e bem-estar.
A rede de apoio apresenta-se, nesse contexto, como um importante elemento relacionado à experiência materna. Luna et al. (2023), em estudo qualitativo realizado com 29 mães, identificaram carência de rede de apoio e concentração das responsabilidades relacionadas ao acompanhamento familiar nas mulheres. As participantes também demonstraram necessidade de espaços destinados ao autocuidado, ao acolhimento e à escuta. Esses resultados dialogam diretamente com Faro et al. (2019), que encontraram maior percepção de suporte familiar entre as mães que não apresentavam estresse.
A ausência ou fragilidade de apoio também foi identificada por Teixeira et al. (2024), especialmente durante a pandemia. Dessa forma, os estudos permitem compreender que a rede de apoio pode desempenhar uma função protetiva diante das demandas da maternidade atípica. Quando familiares, serviços de saúde, instituições educacionais, assistência social e demais equipamentos sociais não conseguem oferecer suporte adequado, existe maior possibilidade de concentração das responsabilidades sobre uma única cuidadora.
Outro aspecto que merece atenção é o autoestigma. Lima et al. (2024), em estudo com 122 mães e cuidadores, identificaram prevalência de 63% de autoestigma entre os participantes avaliados. O estudo também relacionou esse fenômeno a aspectos de saúde mental, estresse decorrente dos desafios cotidianos, dificuldades de assistência e redução da qualidade de vida. Esse resultado amplia a compreensão acerca do sofrimento vivenciado pelas mães, demonstrando que ele não decorre exclusivamente das demandas objetivas do cuidado, mas também das experiências sociais relacionadas à maneira como o autismo é compreendido e recebido pela sociedade.
Nesse contexto, a expressão “mãe guerreira” constitui uma representação social associada à ideia de força, resistência e dedicação diante das dificuldades relacionadas ao cuidado dos filhos. Estudos sobre maternidade apontam que a expressão “mães guerreiras” é utilizada pelas próprias mulheres e por aqueles que convivem com suas experiências, estando relacionada à valorização da capacidade de enfrentar adversidades e assumir responsabilidades pelo cuidado (Mestre; Souza, 2021). No contexto da maternidade de filhos com TEA, Colomé et al. (2024) identificaram que as representações de “mãe forte” e “mãe guerreira” podem contribuir para camuflar o sofrimento e a sobrecarga materna, dificultando que essas mulheres reconheçam suas próprias necessidades e compartilhem as responsabilidades do cuidado. Nesse sentido, a figura da “mãe guerreira”, embora muitas vezes utilizada como forma de reconhecimento e valorização, pode contribuir para invisibilizar as necessidades dessas mulheres quando transforma a resistência e a capacidade de cuidado em uma obrigação permanente. A valorização da maternidade atípica não deve significar a naturalização da sobrecarga. Ao contrário, reconhecer essas mães implica também reconhecer seus limites, necessidades, direitos e demandas por acolhimento.
Os estudos analisados também permitem estabelecer relação entre os resultados encontrados e a discussão sobre políticas públicas apresentada anteriormente. O Brasil possui legislação e políticas voltadas à proteção das pessoas com TEA e à garantia de seus direitos, conforme discutido anteriormente neste trabalho. Entretanto, a literatura evidencia que a existência de direitos direcionados à pessoa com TEA não significa necessariamente que as necessidades de suas cuidadoras estejam plenamente contempladas. Estudos que investigaram a experiência materna apontam a concentração de responsabilidades relacionadas ao cuidado, à busca por atendimento e ao acompanhamento das necessidades da criança, especialmente diante da fragilidade das redes de apoio (Luna et al., 2023; Teixeira et al., 2024).
Essa realidade demonstra uma importante questão: cuidar da pessoa com TEA também exige olhar para quem cuida. A literatura analisada aponta para a necessidade de fortalecimento das redes de apoio e de oferta de espaços de acolhimento, escuta e autocuidado às mães e cuidadoras (Luna et al., 2023; Faro et al., 2019). Nesse sentido, ações de orientação, apoio psicológico, assistência social e fortalecimento das redes de apoio podem contribuir para melhores condições de enfrentamento das demandas relacionadas ao cuidado.
Apesar das diferenças entre os estudos, existe uma convergência significativa quanto à necessidade de ampliar a atenção à saúde das mães. Enquanto pesquisas quantitativas evidenciam a presença de sobrecarga, estresse, sintomas depressivos e alterações na qualidade de vida, estudos qualitativos permitem compreender como essas experiências são vivenciadas no cotidiano (Faro et al., 2019; Vilanova et al., 2022; Luna et al., 2023; Fávero-Nunes; Santos, 2010). Portanto, as diferentes metodologias não devem ser entendidas como perspectivas concorrentes, mas como possibilidades complementares para compreender um fenômeno complexo.
Também foram identificadas diferenças relacionadas aos contextos específicos de cada pesquisa. Alguns estudos concentram-se na sobrecarga e no estresse; outros investigam qualidade de vida, depressão, autoestigma, rede de apoio ou repercussões de situações excepcionais, como a pandemia (Faro et al., 2019; Moretto et al., 2020; Vilanova et al., 2022; Luna et al., 2023; Lima et al., 2024; Teixeira et al., 2024). Essas diferenças demonstram que a maternidade atípica não constitui uma experiência homogênea. Os estudos analisados apontam que aspectos relacionados à disponibilidade de suporte familiar, às condições de cuidado, à saúde mental, à qualidade de vida e ao acesso à assistência podem interferir na experiência das mães e cuidadoras (Faro et al., 2019; Moretto et al., 2020; Luna et al., 2023; Lima et al., 2024).
Outro aspecto observado refere-se às lacunas identificadas a partir do conjunto de estudos analisados. Embora as pesquisas demonstrem a presença de sobrecarga e repercussões emocionais relacionadas ao cuidado, foram encontrados poucos estudos que avaliassem especificamente a efetividade das políticas públicas e dos serviços destinados às mães e cuidadoras. Também se mostra relevante ampliar investigações sobre diferentes condições sociais e familiares, acesso aos serviços e estratégias institucionais de apoio e autocuidado.
Dessa forma, os resultados encontrados demonstram que os desafios da maternidade atípica ultrapassam as demandas diretamente relacionadas ao diagnóstico do TEA. A sobrecarga está associada a uma combinação de fatores relacionados às demandas do cuidado, ao suporte familiar, à saúde mental e à qualidade de vida, sendo potencializada quando as responsabilidades são concentradas sobre a mãe e quando as redes de apoio são insuficientes (Faro et al., 2019; Vilanova et al., 2022; Luna et al., 2023; Teixeira et al., 2024). A literatura analisada demonstra, portanto, que a promoção da qualidade de vida dessas mulheres depende de uma abordagem que considere simultaneamente saúde mental, relações familiares, condições sociais, acesso a serviços, direitos e possibilidades de autocuidado.
Assim, a discussão dos estudos selecionados permite compreender que a mãe atípica não deve ser vista somente como cuidadora da pessoa com TEA, mas como sujeito de direitos e também destinatária das ações de cuidado. O fortalecimento das redes de apoio e a ampliação das ações institucionais são apontados na literatura como aspectos relevantes para reduzir a sobrecarga e favorecer o autocuidado e o enfrentamento das demandas relacionadas ao cuidado (Luna et al., 2023; Faro et al., 2019). Nesse sentido, os resultados sustentam a importância de uma atuação integrada entre saúde, educação, assistência social e demais setores da sociedade, de modo que o cuidado da pessoa com TEA não recaia de maneira quase exclusiva sobre a mãe.
Em síntese, os estudos analisados apontam para cinco elementos centrais: sobrecarga materna, sofrimento emocional, comprometimento da qualidade de vida, fragilidade das redes de apoio e necessidade de maior suporte institucional (Faro et al., 2019; Moretto et al., 2020; Vilanova et al., 2022; Luna et al., 2023; Lima et al., 2024; Teixeira et al., 2024). Esses elementos encontram-se interligados e ajudam a explicar por que a maternidade atípica precisa ser compreendida para além da condição clínica da criança. A atenção às mães e cuidadoras constitui, portanto, parte fundamental de uma perspectiva integral de cuidado e de promoção da saúde e da qualidade de vida das famílias de pessoas com TEA.
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo compreender os desafios vivenciados por mães atípicas e cuidadoras de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), considerando principalmente os impactos relacionados à sobrecarga emocional, à saúde mental, à qualidade de vida e à necessidade de apoio e acolhimento. A partir da pesquisa bibliográfica realizada e da análise dos estudos selecionados, foi possível compreender que a experiência da maternidade atípica é constituída por diferentes dimensões que se relacionam entre si e que ultrapassam as demandas diretamente associadas ao cuidado da criança com TEA. Nesse sentido, compreender a realidade dessas mães significa também considerar suas experiências familiares, sociais, emocionais e profissionais.
Os resultados encontrados demonstraram que a sobrecarga constitui um dos aspectos mais recorrentes na literatura analisada. As responsabilidades relacionadas ao acompanhamento da criança, à organização da rotina, à busca por serviços e ao atendimento das necessidades específicas podem se somar às demais responsabilidades assumidas pelas mães em seu cotidiano. Quando essas atribuições são concentradas predominantemente sobre uma única cuidadora, podem ocorrer repercussões importantes sobre sua qualidade de vida e seu bem-estar. Os estudos analisados também apontaram relações entre sobrecarga, estresse e sofrimento emocional, demonstrando que as condições nas quais o cuidado é realizado possuem papel relevante na experiência dessas mulheres.
Nesse contexto, a saúde mental apresenta-se como uma dimensão que merece atenção. A literatura analisada identificou a presença de sentimentos e condições relacionados ao sofrimento emocional, além de associações entre sintomas depressivos, estresse, sobrecarga e redução da qualidade de vida. Entretanto, os resultados não permitem compreender essas experiências como consequência automática da presença do TEA na família. Ao contrário, demonstram que diferentes fatores podem interferir na forma como cada mãe vivencia a maternidade, entre eles as condições familiares, sociais e econômicas, a disponibilidade de apoio e o acesso aos serviços. Dessa maneira, torna-se inadequado reduzir a experiência da mãe atípica exclusivamente ao diagnóstico do filho, pois suas vivências são construídas em um contexto muito mais amplo.
Outro aspecto evidenciado pelo estudo foi a importância das redes de apoio. Os resultados demonstraram que o suporte familiar e institucional pode exercer papel relevante diante das demandas cotidianas, enquanto sua ausência ou fragilidade pode contribuir para o aumento da sobrecarga. A existência de uma rede de apoio não representa apenas uma forma de auxílio prático, mas também uma possibilidade de acolhimento, escuta e compartilhamento das responsabilidades. Por essa razão, o cuidado com a criança com TEA não deve ser compreendido como uma responsabilidade exclusiva da mãe, sendo necessário reconhecer que a família, os serviços públicos e as demais instituições também possuem importância nesse processo.
A análise permitiu ainda perceber que a qualidade de vida das mães atípicas está relacionada à possibilidade de conciliar as demandas do cuidado com outras dimensões de sua própria existência. Os estudos discutidos ao longo deste trabalho apontaram dificuldades relacionadas ao autocuidado, à vida profissional, às relações sociais e ao bem-estar emocional. Assim, a valorização da mãe atípica não deve ocorrer somente a partir da ideia de força, resistência ou capacidade de superar dificuldades. É necessário reconhecer que essas mulheres também possuem necessidades próprias e que o cuidado destinado à pessoa com TEA precisa estar acompanhado de atenção à pessoa que realiza esse cuidado de maneira cotidiana.
No que se refere às políticas públicas, o estudo evidenciou a existência de importantes dispositivos legais destinados à garantia dos direitos das pessoas com TEA e das pessoas com deficiência. Entretanto, a discussão desenvolvida demonstrou que a existência de legislação não significa que todas as necessidades das mães e cuidadoras sejam efetivamente contempladas. Permanecem desafios relacionados ao acolhimento, à assistência, à saúde mental, à orientação e ao suporte institucional. Dessa forma, os resultados reforçam a necessidade de que a atenção às famílias considere não somente a pessoa diagnosticada com TEA, mas também aqueles que participam diretamente do processo de cuidado.
Nesse sentido, considera-se que o objetivo proposto foi alcançado, uma vez que a análise da produção científica permitiu identificar e discutir os principais desafios relacionados à maternidade atípica, especialmente aqueles associados à sobrecarga, ao sofrimento emocional, à qualidade de vida, ao autocuidado e às redes de apoio. A pesquisa também possibilitou compreender que esses elementos não devem ser analisados de maneira isolada, pois estão relacionados às condições sociais, familiares e institucionais nas quais essas mães estão inseridas.
Como limitação do estudo, destaca-se o fato de a investigação ter sido desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica, utilizando as bases de dados e os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos na metodologia. Dessa forma, os resultados dependem da produção científica disponível e selecionada para análise, não sendo possível afirmar que representem todas as experiências vivenciadas por mães atípicas e cuidadoras de pessoas com TEA. A diversidade dos estudos encontrados, especialmente quanto aos métodos utilizados, número de participantes e contextos investigados, também constitui uma limitação para comparações diretas entre os resultados.
Diante dessas limitações, pesquisas futuras poderão ampliar a investigação sobre as experiências das mães atípicas em diferentes contextos familiares e sociais, buscando compreender de maneira mais aprofundada a relação entre sobrecarga, saúde mental, qualidade de vida e disponibilidade de redes de apoio. Também se mostra pertinente o desenvolvimento de estudos que investiguem de maneira mais específica a atuação dos serviços e das políticas públicas voltados às famílias de pessoas com TEA, especialmente quanto ao acolhimento e às necessidades das mães e cuidadoras.
Por fim, este estudo reforça que cuidar da pessoa com TEA também significa olhar para quem cuida. A mãe atípica não deve ser compreendida apenas a partir de sua função de cuidadora, mas como uma pessoa que possui direitos, necessidades, limites, sentimentos e projetos próprios. Reconhecer essa realidade é um passo importante para superar a invisibilidade que muitas vezes acompanha sua experiência e para favorecer uma perspectiva mais humanizada e integral do cuidado. Espera-se, portanto, que as reflexões apresentadas possam contribuir para ampliar a compreensão sobre a maternidade atípica e fortalecer a necessidade de escuta, acolhimento, apoio e reconhecimento dessas mulheres no âmbito familiar, social e institucional.
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1 Discente do Curso Superior de Psicologia do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Psicologia do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail