CETICISMO ORGANIZADO E FALIBILISMO NA EPISTEMOLOGIA DE ALBERTO OLIVA: IMPLICAÇÕES PARA A COMPREENSÃO DA RACIONALIDADE CIENTÍFICA

ORGANIZED SKEPTICISM AND FALLIBILISM IN ALBERTO OLIVA’S EPISTEMOLOGY: IMPLICATIONS FOR UNDERSTANDING SCIENTIFIC RATIONALITY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789703759

RESUMO
A ciência é frequentemente compreendida, tanto no senso comum quanto em determinados discursos acadêmicos, como um campo produtor de verdades definitivas e indiscutíveis. No entanto, abordagens epistemológicas contemporâneas têm questionado essa visão ao enfatizar o caráter falível, histórico e crítico do conhecimento científico. Nesse contexto, o presente artigo tem como problema epistemológico investigar de que modo a concepção de ciência proposta por Alberto Oliva tensiona a noção tradicional de ciência como produtora de verdades absolutas, ao defender a falibilidade do conhecimento científico e o ceticismo organizado como fundamentos da racionalidade científica. O objetivo consiste em analisar as principais concepções epistemológicas do autor, com ênfase no ceticismo organizado, na crítica ao epistemologismo e na relação entre ciência e contexto social. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica, fundamentada na análise interpretativa de obras centrais de Oliva e de entrevistas concedidas pelo autor. A análise sugere que a perspectiva epistemológica de Oliva contribui para uma compreensão crítica da ciência, ao reafirmar sua racionalidade sem absolutizá-la, enfatizando o papel da crítica, da revisão permanente e da historicidade na produção do conhecimento científico.
Palavras-chave: Filosofia da ciência; Ceticismo organizado; Falibilidade científica; Racionalidade científica.

ABSTRACT
Science is often understood, both in common sense and in certain academic discourses, as a field that produces definitive and indisputable truths. However, this understanding has been challenged by epistemological approaches that emphasize the fallible, historical, and critical nature of scientific knowledge. In this context, this article investigates how Alberto Oliva’s conception of science challenges the traditional notion of science as a producer of absolute truths by defending the fallibility of scientific knowledge and organized skepticism as fundamental components of scientific rationality. The objective is to analyze the author’s main epistemological conceptions, with emphasis on organized skepticism, the critique of epistemologism, and the relationship between science and social context. Methodologically, this study adopts a qualitative, theoretical-bibliographical approach based on the interpretative analysis of Oliva’s major works and interviews. The analysis suggests that Oliva’s epistemological perspective contributes to a critical understanding of science by reaffirming its rationality without absolutizing it, highlighting the role of criticism, continuous revision, and historicity in the production of scientific knowledge.
Keywords: Philosophy of Science; Organized Skepticism; Scientific Fallibility; Scientific Rationality.

1. INTRODUÇÃO

A reflexão acerca da natureza da ciência e dos critérios que fundamentam sua racionalidade ocupa lugar central nos debates contemporâneos da epistemologia. Ainda que amplamente reconhecida por suas realizações teóricas e práticas, a ciência é, não raras vezes, compreendida como um domínio produtor de verdades definitivas, estáveis e imunes à contestação. Tal compreensão tende a obscurecer os limites epistemológicos do conhecimento científico, assim como a dimensão histórica, social e falível de suas teorias.

No campo da filosofia da ciência, diferentes autores têm problematizado essa visão absolutista, enfatizando que o conhecimento científico não alcança certezas finais, mas constitui um empreendimento racional marcado pela provisoriedade, pela revisão contínua e pela abertura à crítica. É nesse horizonte que se insere o pensamento de Alberto Oliva, cuja produção epistemológica se destaca por questionar concepções dogmáticas da ciência e por enfatizar o papel do ceticismo organizado e da falibilidade como traços constitutivos da racionalidade científica.

Entretanto, a defesa do caráter falível da ciência levanta uma questão epistemológica central: de que modo é possível reconhecer os limites do conhecimento científico sem comprometer sua credibilidade e seu estatuto diferenciado em relação a outras formas de crença? Essa tensão entre falibilidade e racionalidade torna-se particularmente relevante em contextos nos quais a ciência é ora absolutizada, ora relativizada de forma acrítica.

Diante disso, o presente artigo assume como problema epistemológico investigar de que modo a concepção de ciência proposta por Alberto Oliva tensiona a noção tradicional de ciência como produtora de verdades definitivas, ao defender a falibilidade do conhecimento científico e atribuir ao ceticismo organizado um papel central na racionalidade científica. Tal problematização permite examinar em que medida o pensamento do autor contribui para uma compreensão crítica da ciência, afastando-se tanto do dogmatismo quanto do relativismo epistemológico.

O objetivo do trabalho consiste em analisar as principais concepções epistemológicas de Alberto Oliva acerca da ciência, com ênfase na noção de ceticismo organizado, na crítica ao epistemologismo e na relação entre ciência e contexto social. Para tanto, adota-se uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-bibliográfica, fundamentada na análise interpretativa de obras centrais do autor e de entrevistas por ele concedidas.

A relevância deste estudo justifica-se pela contribuição do pensamento de Oliva para os debates contemporâneos da filosofia da ciência e, em particular, para o campo do ensino de ciências, ao fornecer subsídios para uma compreensão da ciência como empreendimento racional, crítico e historicamente situado. O artigo encontra-se organizado da seguinte forma: inicialmente, discutem-se os fundamentos do ceticismo organizado; em seguida, analisam-se as concepções de racionalidade científica e falibilidade presentes na obra do autor; por fim, examinam-se suas implicações para a compreensão da ciência e de seus limites epistemológicos.

2. CONCEPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE ALBERTO OLIVA SOBRE A CIÊNCIA

2.1. A Ciência Como Empreendimento Intelectual Falível

A concepção de ciência apresentada por Alberto Oliva enfatiza a impossibilidade de a atividade científica alcançar verdades definitivas. Tal perspectiva é explicitada quando o autor afirma que “a constatação de que não há como se estabelecer a verdade, já que existe sempre o espectro do contraexemplo a ameaçar uma teoria, torna a ciência um empreendimento intelectual marcado pela possibilidade de mesmo a mais testada e consolidada teoria vir a se revelar falsa” (OLIVA, 2019, p. 288). Essa formulação desloca o entendimento tradicional da ciência como domínio da certeza para uma compreensão pautada pela provisoriedade.

Pode-se observar que essa caracterização da ciência como empreendimento falível não implica, necessariamente, a desqualificação do conhecimento científico. Ao contrário, o reconhecimento da possibilidade permanente de erro sugere uma forma específica de racionalidade, na qual a revisão e a crítica funcionam como mecanismos internos de avanço. Assim, a falibilidade aparece menos como deficiência e mais como condição estrutural do fazer científico.

No entanto, essa compreensão suscita tensões relevantes, sobretudo quando considerada fora do campo epistemológico especializado. A ênfase na falibilidade pode ser interpretada, em certos contextos sociais, como indício de fragilidade epistêmica da ciência, especialmente quando utilizada de maneira descontextualizada em debates públicos. Tal risco indica a necessidade de distinguir entre provisoriedade epistemológica e ausência de critérios de validação.

Nesse sentido, a leitura da falibilidade como marca constitutiva da ciência requer a consideração dos procedimentos rigorosos que regulam a aceitação e a rejeição de teorias. O fato de uma teoria poder ser refutada futuramente não implica que todas as teorias disponíveis no presente possuam o mesmo estatuto cognitivo. A diferenciação entre teorias mais ou menos corroboradas permanece central para a racionalidade científica.

No âmbito educacional, essa concepção pode contribuir para superar abordagens dogmáticas, ao apresentar a ciência como processo histórico e racional em construção. Contudo, a incorporação dessa perspectiva exige mediações didáticas cuidadosas, a fim de evitar a leitura da ciência como saber instável ou arbitrário.

Dessa forma, a noção de ciência como empreendimento falível, tal como apresentada por Oliva, pode ser interpretada como proposta de reconfiguração do estatuto do conhecimento científico, sem que isso implique negar sua autoridade epistemológica. O desafio consiste em articular criticamente a provisoriedade com a confiabilidade do conhecimento produzido.

2.2. O Ceticismo Organizado e o Questionamento Permanente

A noção de ceticismo organizado ocupa posição central na epistemologia de Alberto Oliva. O autor afirma que “o espírito crítico, imprescindível a qualquer processo de busca de conhecimento, precisa fazer parte de uma teoria geral da racionalidade” e que o “ceticismo organizado, o questionamento diuturno de tudo, é a mola propulsora das grandes conquistas intelectuais” (OLIVA, 2019, p. 288). Essa formulação associa diretamente crítica e racionalidade científica.

A defesa do ceticismo organizado por Oliva permite questionar concepções contemporâneas que confundem crítica epistemológica com negacionismo científico. Diferentemente de um ceticismo indiscriminado, trata-se de uma atitude estruturada, regulada por critérios racionais e orientada pela busca de melhores explicações. Assim, o questionamento não se apresenta como negação do conhecimento, mas como elemento constitutivo de sua produção.

Entretanto, a defesa do questionamento permanente exige esclarecimentos conceituais adicionais. O risco de confusão entre ceticismo epistemológico e descrédito generalizado do conhecimento é socialmente significativo, sobretudo em contextos marcados pela circulação de informações não verificadas. A qualificação do ceticismo como “organizado” parece desempenhar papel fundamental na prevenção desse equívoco.

A crítica formulada por Oliva às crenças sustentadas sem exame rigoroso é ilustrada quando afirma que “poucas pessoas se preocupam em determinar se as razões que invocam e se as evidências que recolhem são adequadas e suficientes para acreditarem no que acreditam” (OLIVA, 2011, p. 6). Essa observação aponta para uma dimensão ética e cognitiva do ceticismo, associada à responsabilidade epistemológica.

No campo educacional, o ceticismo organizado pode ser interpretado como competência formativa central, desde que acompanhado de critérios claros de julgamento racional. Estimular o questionamento sem explicitar os parâmetros que o orientam pode levar à banalização da crítica ou ao relativismo acrítico.

Assim, a noção de ceticismo organizado por Oliva sugere uma concepção de crítica que não se esgota na dúvida, mas se articula com a busca de justificações melhores. O desafio teórico e pedagógico consiste em preservar o caráter crítico da ciência sem dissolver os fundamentos que sustentam sua credibilidade.

2.3. Racionalidade Científica e Falibilismo

A relação entre racionalidade científica e falibilismo constitui outro eixo central da reflexão de Oliva. Essa associação torna-se explícita quando o autor afirma que “mesmo que a verdade sobre alguma coisa seja conquistada por uma teoria, o cientista não tem como sabê-lo” (OLIVA, 2019, p. 288). Tal afirmação desloca a racionalidade científica do campo da certeza para o da conjectura criticamente controlada.

A racionalidade, nessa perspectiva, não se define pela posse de fundamentos últimos, mas pela disposição permanente à revisão de hipóteses à luz de novas razões e evidências. O conhecimento científico assume, assim, caráter provisório, sem que isso implique abdicação de critérios de avaliação rigorosos. O falibilismo aparece como princípio regulador da prática científica.

É possível identificar nessa concepção aproximações com o racionalismo crítico, sobretudo na rejeição do justificacionismo. Contudo, a recusa de fundamentos absolutos não elimina a normatividade da ciência. Diferenciações entre teorias mais ou menos corroboradas continuam a desempenhar papel central na dinâmica científica.

No ensino de ciências, essa abordagem pode contribuir para deslocar o foco da memorização de resultados para a compreensão dos processos argumentativos que sustentam as teorias. A ciência passa a ser apresentada como atividade intelectual situada, marcada por conjecturas, testes e revisões.

Essa concepção também permite uma leitura menos idealizada do papel do cientista, afastando a imagem de autoridade infalível. O erro passa a ser reconhecido como parte inerente da construção do conhecimento, não como falha moral ou incompetência intelectual.

Assim, a articulação entre racionalidade e falibilismo proposta por Oliva pode ser interpretada como tentativa de redefinir os critérios da racionalidade científica, preservando o rigor metodológico sem recorrer a fundamentos metafísicos ou garantias absolutas.

2.4. Popper, Kuhn e a Posição Híbrida de Oliva

A posição epistemológica de Alberto Oliva é explicitada quando o autor se define como “metade popperiano e metade kuhniano” (OLIVA, 2019, p. 287). Tal autodefinição indica uma tentativa de articular elementos normativos da racionalidade científica com descrições históricas das práticas reais da ciência.

A referência a Popper sugere a incorporação da crítica e da refutabilidade como critérios centrais da epistemologia científica. Já a aproximação com Kuhn aponta para o reconhecimento do papel dos paradigmas, das comunidades científicas e das rupturas históricas no desenvolvimento do conhecimento científico.

Essa articulação, no entanto, evidencia tensões conceituais relevantes. O ideal popperiano de crítica contínua parece contrastar com a descrição kuhniana da ciência normal, caracterizada por relativa estabilidade paradigmática e ausência de questionamento radical. A convivência dessas perspectivas não elimina o conflito, mas reconhece a complexidade do fenômeno científico.

Pode-se sugerir que a posição híbrida adotada por Oliva não busca resolver definitivamente essa tensão, mas assumi-la como traço constitutivo da ciência. A racionalidade científica pode comportar tanto momentos de adesão paradigmática quanto episódios de crítica e ruptura.

No ensino de ciências, essa leitura integrada permite evitar narrativas simplistas, seja do progresso linear contínuo, seja do relativismo paradigmático. A ciência pode ser apresentada como processo dinâmico, marcado por consensos, crises e reconstruções.

Assim, a articulação entre Popper e Kuhn proposta por Oliva pode ser interpretada como esforço de superação de dicotomias rígidas, sem reduzir a ciência a um único modelo epistemológico.

2.5. Crítica Ao Epistemologismo e à Absolutização da Ciência

A crítica ao epistemologismo constitui um dos momentos mais contundentes da reflexão de Oliva. O autor afirma que “a preocupação com a verdade e a justificação não passa de uma ilusão epistemologista” quando desconsidera os determinantes sociais da produção do conhecimento (OLIVA, 2019, p. 293). Tal crítica dirige-se a reconstruções idealizadas da ciência, desconectadas de suas práticas históricas concretas.

Essa posição sugere que abordagens excessivamente normativas tendem a ignorar o papel das comunidades, das instituições e dos contextos sociais na dinâmica científica. A ciência, segundo essa leitura, não pode ser compreendida apenas por seus critérios internos de validação, mas também por suas condições de produção.

Entretanto, a crítica ao epistemologismo suscita questões relevantes quanto ao estatuto da verdade científica. A rejeição de concepções absolutistas não implica, necessariamente, o abandono da verdade como ideal regulador. A distinção entre absolutização e normatividade mínima torna-se central nesse ponto.

No campo educacional, essa discussão mostra-se particularmente sensível. Apresentar a ciência como socialmente situada pode contribuir para uma formação crítica, mas também exige cuidado para evitar relativizações indevidas que enfraqueçam a distinção entre ciência, ideologia e pseudociência.

A não absolutização da ciência, tal como sugerida por Oliva, pode ser interpretada como recusa ao infalibilismo, não como rejeição da racionalidade científica. A ciência permanece distinta de outros discursos justamente por submeter suas afirmações a controle crítico intersubjetivo.

Dessa forma, a crítica ao epistemologismo pode ser compreendida como convite à modéstia epistemológica, sem que isso implique dissolução dos critérios que sustentam a autoridade cognitiva da ciência.

3. MATERIAL E MÉTODOS

A presente investigação caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza exploratória, com delineamento bibliográfico. A opção por esse tipo de pesquisa justifica-se pelo objetivo de compreender e analisar concepções epistemológicas, as quais demandam interpretação aprofundada de fundamentos teóricos, conceitos e argumentos, não sendo passíveis de tratamento quantitativo.

O corpus da pesquisa foi constituído por produções teóricas de Alberto Oliva, selecionadas com base em sua relevância para a filosofia da ciência e para a compreensão de suas principais concepções acerca da racionalidade científica. Utilizaram-se como fontes primárias a obra Filosofia da Ciência (OLIVA, 2003) e a entrevista intitulada “Quiçá às vezes perto da verdade, só que sempre longe da certeza!”, publicada na revista Em Construção: arquivos de epistemologia histórica e estudos de ciência (OLIVA, 2019). Complementarmente, recorreram-se a textos de apoio de outros autores da filosofia da ciência, especialmente Karl Popper e Thomas Kuhn, com o intuito de contextualizar e aprofundar as análises.

A seleção das obras privilegiou textos nos quais Alberto Oliva aborda explicitamente questões relacionadas à racionalidade científica, ao falibilismo e ao ceticismo organizado. O critério de escolha fundamentou-se na relevância das publicações para a compreensão de sua epistemologia e na recorrência dessas categorias em sua produção intelectual.

Os procedimentos metodológicos envolveram a leitura sistemática, analítica e interpretativa das obras selecionadas, orientada pela identificação de categorias epistemológicas centrais, tais como: ceticismo organizado, racionalidade científica, falsificacionismo, paradigmas científicos e crítica ao epistemologismo. A análise seguiu uma perspectiva hermenêutico-interpretativa, buscando apreender o sentido dos argumentos apresentados por Oliva, bem como suas articulações e tensões com correntes clássicas da filosofia da ciência.

A organização e interpretação dos dados textuais fundamentaram-se na análise teórica qualitativa, permitindo não apenas a descrição das ideias do autor, mas também sua problematização crítica. Essa estratégia possibilitou evidenciar os limites, as potencialidades e as contribuições do pensamento de Oliva para a compreensão da ciência como um empreendimento intelectual historicamente situado e socialmente condicionado.

4. DISCUSSÃO

A análise das concepções epistemológicas de Alberto Oliva revela uma compreensão da ciência que se distancia de leituras simplificadoras ou dogmáticas do conhecimento científico. Ao reconhecer a ciência como um empreendimento intelectual humano, o autor enfatiza tanto a necessidade de critérios racionais de justificação quanto o caráter provisório e falível das teorias científicas. Essa posição confere centralidade à noção de ceticismo organizado, entendida não como negação do conhecimento, mas como condição indispensável para o avanço científico.

Diferentemente de concepções que associam o ceticismo à paralisia epistemológica, Oliva atribui a ele um papel dinamizador no processo científico. O questionamento sistemático das teorias, das evidências e dos métodos possibilita a identificação de falhas explicativas e a superação de conjecturas menos satisfatórias por teorias com maior conteúdo informativo e poder explicativo. Nesse sentido, o ceticismo organizado aproxima-se da racionalidade crítica defendida por Karl Popper, especialmente no que diz respeito à rejeição da ideia de confirmação definitiva das teorias científicas.

Contudo, a aproximação de Oliva ao falsificacionismo popperiano não implica adesão irrestrita a uma concepção estritamente normativa da ciência. Ao dialogar com Thomas Kuhn, o autor reconhece que o desenvolvimento científico não pode ser plenamente compreendido apenas a partir de critérios lógicos e metodológicos, sendo necessário considerar os contextos históricos, sociais e institucionais nos quais a ciência é produzida. Essa articulação entre racionalidade epistemológica e historicidade permite compreender a ciência como um processo marcado tanto por continuidades quanto por rupturas paradigmáticas.

A posição assumida por Oliva, ao se declarar “metade popperiano e metade kuhniano”, deve ser interpretada como uma tentativa de superar dicotomias clássicas da filosofia da ciência. Ao invés de optar entre uma concepção puramente racionalista ou uma leitura fortemente sociologizada da ciência, o autor propõe uma abordagem integrada, capaz de reconhecer a coexistência de critérios epistêmicos e de condicionantes extraepistêmicos na construção do conhecimento científico. Essa postura revela-se particularmente fecunda para a análise das diferenças metodológicas e epistemológicas entre as ciências naturais e as ciências sociais.

Nesse contexto, a crítica de Oliva ao epistemologismo assume relevância central. Ao problematizar a ideia de que a ciência se define exclusivamente pela busca da verdade e pela justificação lógica, o autor chama atenção para os limites de concepções que desconsideram os determinantes sociais dos processos de elaboração e validação das teorias. Tal crítica não implica o abandono da racionalidade científica, mas sim sua ampliação, incorporando dimensões históricas, políticas e ideológicas que influenciam a produção do conhecimento.

A afirmação de que “a ciência não é absoluta” deve, portanto, ser compreendida à luz dessa perspectiva ampliada. Para Oliva, a impossibilidade de estabelecer verdades definitivas não desqualifica a ciência, mas constitui justamente uma de suas características fundamentais. A abertura permanente à refutação e à revisão confere ao conhecimento científico um caráter dinâmico e autocorretivo, distinguindo-o de outras formas de crença que não se submetem a critérios rigorosos de crítica e testabilidade.

A distinção proposta por Oliva entre ciências formais e ciências empíricas reforça essa compreensão. Enquanto as ciências formais operam em sistemas logicamente estruturados, nos quais a coerência pode ser condição suficiente para a justificação, as ciências empíricas lidam com fenômenos do mundo, exigindo não apenas consistência interna, mas também adequação empírica. Nesse intervalo entre o conhecimento demonstrativamente certo e o conhecimento empírico universalmente verificado, situa-se um campo de crenças corroboradas provisoriamente, característico da prática científica.

Ao reconhecer que a ciência possui uma identidade própria, mas não está isolada da sociedade, Oliva reafirma a necessidade de analisar as relações entre ciência, tecnologia e contexto social. A produção científica, embora orientada por critérios racionais, é permeada por interesses, disputas e influências institucionais que afetam a formação de consensos na comunidade científica. Essa compreensão contribui para uma visão mais realista da ciência, evitando tanto sua idealização quanto sua desqualificação relativista.

No campo do ensino de ciências, as implicações dessas reflexões são significativas. Ao compreender a ciência como um empreendimento racional, porém provisório e historicamente situado, abre-se espaço para práticas pedagógicas que valorizem o questionamento, a argumentação e a análise crítica das teorias científicas. A abordagem epistemológica proposta por Oliva oferece subsídios para uma educação científica que vá além da transmissão de conteúdos prontos, promovendo a compreensão da ciência como um processo em constante construção.

Assim, a discussão apresentada evidencia que as concepções de Alberto Oliva contribuem de maneira substantiva para os debates contemporâneos da filosofia da ciência e para a reflexão sobre o ensino de ciências. Ao equilibrar rigor epistemológico e sensibilidade histórica, o autor oferece ferramentas conceituais importantes para problematizar o conhecimento científico e fortalecer uma postura crítica frente às práticas científicas e educacionais.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das obras e entrevistas do autor evidenciou uma perspectiva crítica que se distancia tanto de posturas dogmáticas quanto de concepções relativistas extremas, reafirmando a importância da racionalidade científica sem absolutizá-la.

Os resultados da pesquisa indicam que Oliva concebe a ciência como uma atividade humana marcada pela provisoriedade das teorias e pela possibilidade permanente de revisão. O ceticismo organizado, nesse contexto, configura-se como uma atitude epistemológica fundamental para o avanço do conhecimento, uma vez que promove o questionamento sistemático das crenças e a busca contínua por critérios racionais de justificação. Longe de negar a cientificidade, essa postura fortalece o fazer científico ao reconhecer seus limites e potencialidades.

Outro aspecto central identificado diz respeito à articulação proposta por Oliva entre racionalidade epistemológica e historicidade da ciência. Ao dialogar criticamente com Karl Popper e Thomas Kuhn, o autor reconhece tanto a relevância dos critérios lógicos e metodológicos quanto o papel dos paradigmas, das rupturas e dos fatores sociais no desenvolvimento científico. Essa abordagem híbrida contribui para uma compreensão mais ampla e realista da ciência, superando visões que a apresentam como um sistema neutro, linear e desvinculado de contextos históricos e socioculturais.

A crítica de Oliva à noção de ciência absoluta revela-se particularmente relevante para os debates epistemológicos contemporâneos. Ao problematizar a ideia de verdade como algo definitivo e imutável, o autor não nega a busca por conhecimento confiável, mas alerta para os riscos de concepções que desconsideram a influência de fatores sociais, políticos e ideológicos na produção científica. Essa perspectiva permite compreender a ciência como um processo dinâmico, pautado por conjecturas e refutações, no qual o conhecimento se constrói de forma progressiva e sempre passível de revisão.

No campo do ensino de ciências, as contribuições de Alberto Oliva mostram-se especialmente significativas. Sua abordagem epistemológica oferece fundamentos para práticas pedagógicas que valorizem o desenvolvimento do pensamento crítico, a compreensão da ciência como construção humana e a reflexão sobre seus limites e implicações sociais. Ao reconhecer a ciência como um empreendimento racional, porém não absoluto, abre-se espaço para uma formação científica mais crítica, reflexiva e comprometida com a compreensão contextualizada do conhecimento.

Conclui-se que o pensamento de Alberto Oliva constitui uma contribuição relevante para a filosofia da ciência e para o ensino de ciências, ao promover uma visão equilibrada entre rigor epistemológico e sensibilidade histórica e social. Suas reflexões possibilitam não apenas uma melhor compreensão da natureza da ciência, mas também o fortalecimento de uma postura crítica frente às teorias, práticas e discursos científicos, aspecto indispensável para a produção responsável do conhecimento na contemporaneidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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