REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/773541503
RESUMO
Este artigo investiga o gerenciamento de impressões e o trabalho de face (face-work) de Jair Messias Bolsonaro em contextos de crise institucional, especificamente durante os desdobramentos de sua prisão preventiva em 2025. Fundamentado na perspectiva dramatúrgica de Erving Goffman (1959, 1967), o estudo analisa como um ator político de alta visibilidade mobiliza diferentes máscaras sociais para mitigar ameaças à sua face moral em cenários de assimetria de poder. O corpus documental compreende dois registros microinteracionais distintos: (1) o diálogo com a autoridade policial acerca da violação de dispositivo eletrônico e (2) o Termo de Audiência de Custódia perante a magistratura. A metodologia, de natureza qualitativa e interpretativista, foca na análise de veículos de sinais (sign-vehicles), como hesitações paralinguísticas, escolhas lexicais mitigadoras e ajustes na performance narrativa. Os resultados demonstram uma alternância estratégica de "máscaras” – de “inocência performada" e de "réu formal e obediente" –, cujas inconsistências narrativas revelam a fragilidade da performance sob vigilância judicial. Conclui-se que a gestão identitária em contextos de responsabilização legal opera como um processo calculado de ajuste interacional, essencial para a preservação da legitimidade política diante da transição do papel de líder para o de custodiado.
Palavras-chave: Trabalho de Face. Máscaras sociais. Microssociologia. Pragmática. Jair Bolsonaro.
ABSTRACT
This article investigates the impression management and face-work of Jair Messias Bolsonaro in contexts of institutional crisis, specifically during the developments of his pre-trial detention in 2025. Grounded in Erving Goffman’s dramaturgical perspective (1959, 1967), the study analyzes how a high-visibility political actor mobilizes different social masks to mitigate threats to his moral face in scenarios of power asymmetry. The documentary corpus comprises two distinct micro-interactional records: (1) the dialogue with the police authority concerning the violation of an electronic monitoring device and (2) the Custody Hearing record before the judiciary. The methodology, qualitative and interpretative in nature, focuses on the analysis of sign-vehicles, such as paralinguistic hesitations, mitigating lexical choices, and adjustments in narrative performance. The results demonstrate a strategic alternation of "masks"—ranging from "performed innocence" to a "formal and obedient defendant"—whose narrative inconsistencies reveal the fragility of the performance under judicial surveillance. It is concluded that identity management in contexts of legal accountability operates as a calculated process of interactional adjustment, essential for preserving political legitimacy during the transition from the role of leader to that of detainee.
Keywords: Face-work. Social masks. Microsociology. Pragmatics. Jair Bolsonaro.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Este artigo foi elaborado como parte das atividades de conclusão da disciplina de Pragmática, ministrada na pós graduação em estudos Linguísticos (PPGEL), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Seu objetivo é apresentar e discutir conceitos relevantes da área, aplicando-os à análise proposta ao longo do trabalho, de modo a consolidar os conhecimentos desenvolvidos durante a disciplina.
A prisão preventiva de Jair Messias Bolsonaro, ocorrida em 22 de novembro de 2025, após a tentativa de violação de seu dispositivo de monitoramento eletrônico, transcende o debate estritamente jurídico para configurar-se como um fenômeno de aguda crise simbólica e performática. O episódio, marcado pela transição do regime domiciliar para o fechado, impôs ao ex-mandatário o desafio de gerir sua imagem pública em um cenário de acentuada vulnerabilidade e assimetria de poder. Sob a perspectiva dramatúrgica de Erving Goffman (1959, 1967), a esfera política é compreendida como um palco onde atores públicos mobilizam fachadas estratégicas para mitigar ameaças à sua face moral durante interações institucionais reguladas.
Este artigo propõe uma análise pragmática e microinteracional do trabalho de face (face-work) de Bolsonaro, tomando como corpus dois recortes interacionais distintos: (1) a abordagem técnica realizada por uma autoridade policial e (2) a audiência de custódia presidida por uma magistrada. Tais cenários constituem o que Goffman denomina "encontros interacionais", palcos nos quais o ator deve atuar fazendo uso de veículos de sinais (sign-vehicles) – incluindo hesitações, escolhas lexicais e controle emocional – para sustentar uma autoimagem socialmente aceitável diante de audiências com diferentes poderes de sanção.
A pesquisa adota uma abordagem qualitativa de caráter interpretativista, focada na descrição de evidências empíricas que revelam a alternância estratégica de máscaras sociais. O problema central reside na tensão entre a identidade política prévia de Bolsonaro – construída sobre pilares de autoridade e resiliência – e sua nova condição de sujeito custodiado, o que exige constantes processos de quebra e reparação de performance (corrective practices).
Assim, ao contrastar a informalidade mitigadora da primeira interação com o rigor formal da segunda, este estudo investiga como as dinâmicas de poder e a disputa de sentidos operam na preservação da face em contextos de responsabilização legal, oferecendo um estudo de caso ilustrativo sobre as táticas de autoproteção simbólica em regimes de vigilância judicial.
1. AS CONTRIBUIÇÕES DE GOFFMAN PARA A PRAGMÁTICA LINGUÍSTICA
A virada linguística do século XX coloca a linguagem no centro da Filosofia e das Ciências Humanas. Nela, ocorre “A virada pragmática” que avança em focar, na prática interativa, performativa – “A Pragmática é um tango para dois” (Green, 1996) – e situada da linguagem humana. Habermas (2012, p. 34) explica que “A virada pragmática é a consequência inevitável da virada linguística, pois esta desloca o foco da consciência individual para os processos intersubjetivos de entendimento mediados pela linguagem”.
Retomando as principais referências da filosofia da linguagem para o advento da pragmática linguística, Marlow (2019, p. 124) afirma que os anos 70 marcaram a divisão entre a semântica estruturalista e a pragmática, alargando “a abrangência da linguística para o campo social e contextual, histórico e ideológico, discursivo e intencional, demarcando várias possibilidades teóricas que podem ser interdisciplinares, inclusive com outras ciências”.
Assim, o sociólogo Erving Goffman e suas análises da interação face a face, da noção de face, dos enquadramentos e da participação discursiva foram amplamente incorporados aos estudos linguísticos, sobretudo nas vertentes interacionais, sociopragmáticas e nos estudos de polidez (Fernandes, 2005). Na década de 1980, a pragmática linguística, já consolidada com John Austin (1962), John Searle (1969) e Paul Grice (1975), passa a dialogar com a microssociologia de Erving Goffman (1967) para entender a dimensão social dos atos de fala e ritual da linguagem.
Especialmente na obra “A Representação do Eu na Vida Cotidiana” (1959), Goffman usa a metáfora do teatro para mostrar como os indivíduos “atuam” em diferentes contextos, regulando impressões e papéis sociais. Já em “Rituais de Interação” (1967), o sociólogo analisa os pequenos gestos, deferências e comportamentos que sustentam a ordem social nas interações face a face.
Lins, com base em Reyes, aponta que, para uma análise pragmática da interação humana, “é preciso voltar-se para o usuário e observar sistematicamente o que ele, o usuário, faz ao usar a língua. [...] somos nós que comunicamos, não nossas mensagens, porque a Pragmática trata de nós, os falantes” (Lins, 2025, p. 18). É neste sentido que as teorias de Goffman se mostram eficientes para interpretar como os atores sociais, especialmente figuras públicas, como líderes políticos, gerenciam sua imagem moral e comportamental em situações de tensão, crise social ou risco de reputação. O caso analisado – a prisão preventiva de Jair Bolsonaro e sua posterior interação com uma policial e uma juíza – permite observar, nas interações humanas sob essas teorias, como a imagem pública do réu é gerida e protegida quando em crise.
1.1. A Teoria da Face e o Trabalho de Face (Face Work)
A ideia de "face" segundo Goffman (1967) diz respeito ao valor social positivo que uma pessoa busca afirmar para si nas interações. A face não se limita a uma imagem pessoal, mas é um conceito que é socialmente estabelecido, dependendo da aceitação alheia e das normas que regem cada situação de interação. De acordo com o autor, sempre que alguém participa de um encontro social, essa pessoa apresenta uma face com a qual deseja ser aceito, isto é, uma sequência lógica de expressões, comportamentos e atitudes que sustentam sua representação em dada situação. Assim, a face surge como a consequência simbólica dessa conduta: ela expressa o que o indivíduo deseja comunicar sobre si mesmo e o que espera que outros reconheçam.
Quando essa face é ameaçada – seja devido a um erro, contradição, acusação ou conduta considerada imprópria – acontece o que Goffman (1967) chama de risco ou ameaça à face (face-threatening act - FTA). Nesses casos, as pessoas acionam estratégias verbais e não verbais de trabalho de face (face-work), ou seja, ferramentas discursivas, comportamentais e emocionais que têm como objetivo manter, restaurar ou reconstruir sua face (Goffman, 1967). Para Goffman ([1955, p. 213] 1967, p. 5-31) o face-work pode envolver: evasões ou desvios temáticos; justificativas ou narrativas reparadoras; apelos à autoridade moral própria; performances de humildade ou vitimização; reposicionamentos hierárquicos na interação.
Essa teoria se conecta com o material examinado, uma vez que a arguição com uma policial e a audiência de custódia representam ocasiões extremamente ritualizadas, nas quais Bolsonaro é compelido a se defender de acusações formais, enquanto também atua de forma a proteger sua reputação pública, ou seja, sua face social. Nesse cenário, sua imagem política – historicamente forjada como a de um líder de direita forte, perseguido, incorruptível e injustiçado – entra em conflito com o sistema institucional que o enquadra como réu. Portanto, as escolhas lexicais, os silêncios, as hesitações e os vieses narrativos de Bolsonaro podem ser compreendidos como planejamento tático de máscaras para salvaguardar sua imagem diante das autoridades governamentais e do público em geral, mesmo que de forma indireta ou mesmo inconsciente.
1.2. A Teoria das Máscaras e a Perspectiva Dramatúrgica
Na sua teoria, Goffman (1959) propõe que a vida social funciona como uma peça de teatro. Dentro dessa metáfora operacional, temos: o palco frontal (frontstage), onde ocorrem performances públicas, cuidadosamente controladas (Goffman, 1959, p. 22); os bastidores (backstage), onde os atores relaxam, admitem falhas, negociam versões e preparam suas performances (Goffman, 1959, p. 23); o público, que legitima ou rejeita as identidades assumidas (Goffman, 1959, p. 17); o papel social, como conjunto de expectativas que orienta a performance (Goffman, 1959, p. 27); e por fim, a máscara, a persona que o ator veste para interpretar seu papel diante dos outros (Goffman, 1959, p. 34).
Para Goffman (1959), a vida pública funciona como uma performance contínua em que os indivíduos assumem simultaneamente os papéis de atores, personagens e espectadores, criando performances moldadas pelas expectativas sociais e pela imagem que desejam projetar. Nessa perspectiva dramatúrgica, as máscaras são entendidas não como mentiras, mas como ferramentas fundamentais de organização social, pois permitem ao sujeito adaptar gestos, posturas e falas para funcionar de forma eficaz e manter a estabilidade da interação, incorporando valores socialmente reconhecidos.
Sendo assim, a mudança de contexto – palcos e bastidores – pode requerer novas máscaras e atuação especial – a de líder permanente, vítima, cidadão honesto, perseguido politicamente, ingênuo, arrependido ou colaborador, entre outras possíveis – e, em momentos de crise, esses ajustes tornam-se cada vez mais intensos no sentido de se adaptar à situação e garantir a preservação da face, que é entendida como o valor social positivo do indivíduo (Goffman, 1967).
Desta forma, a máscara atua como ferramenta performática indispensável para manter a credibilidade do personagem, controlar as impressões e enfrentar a pressão da situação. Neste contexto, os comportamentos de Jair Bolsonaro perante a policial encarregada da inspeção de equipamentos e, posteriormente, sob custódia, perante uma juíza, revelam o uso alternado e estratégico de diferentes máscaras - ora conciliatória, ora de vítima, ora desafiadora - que sustentam seus esforços para preservar-se simbolicamente e manter sua imagem política, moral e jurídica.
Como visto, a máscara não representa falsificação, mas um instrumento de inteligibilidade que orienta comportamentos, delimita possibilidades e estabelece expectativas, funcionando como uma fachada que o indivíduo possui e que, simultaneamente, o conduz. (Goffman, 1967). No caso de Jair Bolsonaro, suas performances diante da policial responsável pela verificação da tornozeleira e, posteriormente, diante do juizado, refletem a necessidade de ajustar fachadas distintas a contextos específicos, já que cada enquadre exige uma máscara própria para manter coerência performática e preservar a face. Entender essas máscaras significa compreender seu trabalho de gestão identitária em meio à crise, uma vez que performances idealizadas buscam oferecer versões polidas e moralmente aceitáveis, ao mesmo tempo em que ocultam contradições que poderiam fragilizar sua credibilidade, especialmente quando a vigilância judicial exige reparos constantes na atuação.
Como toda interação envolve risco de fracasso – seja por informações inesperadas, contestação da audiência, intervenção da autoridade ou expressão emocional inadequada –, momentos como a abordagem policial ou a audiência de custódia intensificam o perigo de desidealização, revelando a rapidez com que o ator reorganiza máscaras para evitar a perda de legitimidade, reforçando, como destaca Goffman (1959), que o controle da informação é central para sustentar qualquer fachada. Vejamos:
Expressões dadas (expressions given): Referem-se às mensagens intencionais e planejadas pelo ator para comunicar a versão oficial do papel que deseja projetar, incluindo justificativas verbais e narrativas coerentes com sua máscara. Segundo Goffman (1959), o indivíduo controla deliberadamente apenas uma parte das informações que transmite, focando naquelas que servem para sustentar sua fachada pública. No contexto analisado, são as explicações explícitas fornecidas às autoridades para validar sua conduta.
Expressões emitidas (expressions given off): Compreendem sinais não intencionais que escapam ao controle consciente do ator, como hesitações, lapsos, microgestos ou inconsistências narrativas. Essas pistas são fundamentais para a análise, pois podem contradizer a máscara pretendida e revelar informações que o indivíduo tenta ocultar ou gerenciar com dificuldade. No estudo, manifestam-se nas flutuações cronológicas e silêncios que fragilizam a performance.
Gerenciamento de impressões (impression management): Constitui o esforço estratégico para dirigir e regular as impressões que os outros formam do ator, moldando a percepção do público por meio de sinais que sustentam o papel desejado. Envolve a escolha de léxicos mitigadores, tons de voz e enquadramentos discursivos que buscam manter a definição da situação favorável ao indivíduo. É a tática central para evitar o colapso da identidade social em situações de crise.
Táticas de proteção de face (avoidance process): São estratégias em que os participantes de uma interação cooperam para ignorar ameaças, perguntas incômodas ou deslizes que poderiam provocar embaraço ou perda de reputação. O ator utiliza essas salvaguardas para evitar o agravamento de atos que poderiam expô-lo negativamente, preservando a estabilidade da face moral diante de provocações.
Práticas corretivas (corrective practices): Referem-se aos procedimentos adotados para reparar danos simbólicos e restaurar a face após um incidente ou ruptura na performance. Incluem correções narrativas, retratações e mudanças de tom destinadas a recuperar o controle da interação e minimizar o impacto de falhas na uniformidade da atuação.
Veículos de sinais (sign-vehicles): São os meios pelos quais a performance é efetivamente transmitida, funcionando como transportadores de significado social. Abrangem a "maneira" do ator, como ritmo da fala, pausas, silêncios estratégicos, postura corporal e controle do olhar. São recursos interacionais indispensáveis para conferir autenticidade à máscara e regular a intensidade da fachada diante de diferentes audiências.
A análise das máscaras em Goffman (1959) evidencia que a identidade pública é uma construção estratégica e mutável, ajustada continuamente na interação, e que, no caso de Bolsonaro, aparece em performances que alternam entre poder lesado, vitimização e disciplinamento, todas voltadas à manutenção de uma linha comportamental coerente e socialmente reconhecível. Para Goffman (1959), a máscara não oculta o rosto, mas o molda, protegendo o self e mediando a relação entre o indivíduo e as expectativas normativas; por isso, compreender as máscaras acionadas por Bolsonaro em sua abordagem policial e durante a prisão é fundamental para interpretar seus esforços de preservação da face diante da perda de autoridade e das ameaças ao eu social.
A Tabela 1, a seguir, destaca algumas das máscaras teorizadas por Goffman (1959) que são relevantes para este estudo.
Tabela 1: Alguns tipos de máscaras a partir de Goffman (1959)
Tipo de Máscara (categoria analítica) | Conceito original (Goffman, 2002) | Características principais / O que representa |
Máscara de Performance Pública (Front-Stage) | Fachada | Representa a identidade social projetada ao público; segue normas sociais; controla expressões e comportamentos para manter uma impressão coerente e desejada. |
Máscara de Papel Institucional / Profissional | Papel Social / Desempenho de Papel | Representa a identidade vinculada a funções, instituições e cargos; segue expectativas formais do papel; cria previsibilidade na interação. |
Máscara de Conveniência Social / Adaptativa | Manejo da Impressão | Adapta situações para evitar conflitos, corresponder à audiência, suavizar tensões ou ajustar-se aos contextos; regula sinais transmitidos e emitidos. |
Máscara de Autopreservação / Proteção da Face | Estratégias defensivas / Salvaguarda da Face | Representa a tentativa de evitar humilhação, exposição ou perda de face; envolve desculpas, desvios, controle emocional e autodefesa simbólica. |
Máscara Privada / íntima (Back-Stage) | Bastidores | Representa o espaço íntimo onde o ator relaxa, desmonta a performance pública e expressa ações que seriam inadequadas para o palco e seu público; revela o self menos regulado. |
Máscara Híbrida / de Transição entre Papéis | Quebra de Regiões / Colisão de Audiências | Representa a gestão de conflitos quando papéis sociais diferentes colidem; ocorre em transições entre palco e bastidores, ou quando diferentes audiências se encontram. |
Fonte: Elaboração dos autores
A Tabela 1 resume os tipos de máscaras sociais inspiradas na estrutura dramatúrgica de Goffman (1959). Cada uma delas constitui uma forma especial de gestão de impressão, um mecanismo central na teoria do autor. Goffman argumenta que a vida social é estruturada como um teatro, onde “cada indivíduo, ao interagir com outros, procura controlar a definição da situação e a impressão transmitida” (Goffman, 1959, p. 13). Dessa forma, as máscaras não são acessórios superficiais: são estratégias fundamentais para a manutenção da ordem social, para a proteção da face e para a regulação das relações.
Interessante ainda verificar que a máscara institucional/profissional e a máscara privada/íntima revelam dois espaços diferentes na vida social: o palco ou a cena pública e os bastidores. Uma máscara profissional surge quando um indivíduo desempenha funções institucionais – como no trabalho, na escola ou em uma situação formal – e precisa demonstrar competência e controle emocional. Uma máscara íntima surge em um ambiente de confiança, entre aliados, onde o sujeito pode relaxar e expressar sentimentos, sem receio de vir a ser reprovado.
A Tabela 1 também destaca como alternamos constantemente diferentes maneiras de nos apresentarmos e como essas máscaras são essenciais para entendermos como nos relacionamos e nos posicionamos no mundo social.
3. ANÁLISE E DISCUSSÃO
A interação entre Jair Messias Bolsonaro e a policial responsável por verificar sua tornozeleira eletrônica é analisada sob a perspectiva goffmaniana, considerando que, conforme Goffman (1959), toda interação funciona como uma cena em que os indivíduos performam identidades para proteger sua própria face. Segue-se uma transcrição do diálogo de ambos5:
Policial: Equipamento 85916-5.
Policial: O senhor usou alguma coisa para queimar isso aqui?
Bolsonaro: Eu meti ferro quente aí.
Policial: Ferro quente?
Bolsonaro: Curiosidade.
Policial: Que que ferro foi? Ferro de passar?
Bolsonaro: Não, ferro de soldar, solda.
Policial: Ferro de solda, aquele que tem uma ponta? Bolsonaro: Sim.
Policial: Está certo. O senhor tentou puxar a pulseira também?
Bolsonaro: Não, não, não, a pulseira não.
Policial: Não?
Bolsonaro: Não rompi a pulseira não. Fica tranquila aí!
Policial: Tá. Pulseira aparentemente intacta, mas o case violado.
Policial: Que horas que o senhor começou a fazer isso, seu Jair?
Bolsonaro: Ah já era final da tarde.
Policial: Final da tarde? Está certo. Essa tampa chegou a soltar ou não?
Bolsonaro: Não, não soltou não.
Bolsonaro: Tô, tô limpando aqui.
Assim, busca-se compreender como o ex-presidente administra sua imagem diante de uma situação de ameaça – a suspeita de violação legal – por meio do exame de indicadores performáticos como aspectos paralinguísticos, escolhas lexicais de caráter justificativo, gestos e expressões corporais, estratégias narrativas de autoproteção e formas de negociação de poder simbólico com a autoridade presente, além da identificação do tipo de máscara social mobilizada.
Essa abordagem evidencia não apenas o conteúdo verbal da interação, mas o caráter performático da atuação de Bolsonaro, que controla informações e, como um ator, encena um personagem para preservar sua reputação em um contexto de crise de imagem. Assim, temos, na Tabela 2, o trabalho de Face de Bolsonaro na interação com uma policial.
Tabela 2: Padrões de Performance e Preservação de Face: Interação Bolsonaro-Policial
Categoria Analisada | Evidências do Corpus (Trechos da Transcrição) | Interpretação Goffmaniana (Face-work, Estratégia Performática) | Tipo de Máscara Utilizada |
Tom de voz, pausas e hesitações | “Ah já era final da tarde.” (pausa longa); silêncio antes de responder sobre a hora. | As pausas funcionam como mecanismo de proteção de face: permitem ganhar tempo e evitar contradições. É um face-work corretivo típico (Goffman, 1955/1959). | Máscara do acusado prudente — calculado, cauteloso. |
Escolhas lexicais justificativas ou mitigadoras | “Curiosidade.” / “Tô, tô limpando aqui” / “Fica tranquila aí.” | O léxico minimiza a gravidade da conduta e tenta construir uma imagem de docilidade para preservar a face moral. | Máscara do cidadão inofensivo — dócil, leve, obediente. |
Gestualidade e postura inferidas da fala | Repetição de “não”; referência a “limpar” a tornozeleira. | O gesto sugerido (“limpar”) comunica normalidade e controle, afastando a imagem de infração intencional. O corpo compõe a performance de autocontenção. | Máscara do sujeito controlado — não agressivo, não impulsivo. |
Estratégias narrativas de autoproteção | “Curiosidade.” / “Fica tranquila aí.” / “Não, não, não.” | Ele se apresenta como curioso, infantilizado e cooperativo. São defensive practices que suavizam responsabilidade e evitam deterioração da face. | Máscara da inocência performada — infantilização estratégica. |
Respostas às figuras de autoridade | Respostas breves, apaziguadoras; ausência de enfrentamento. | Ele dramatiza respeito e autocontrole no frontstage, preservando a face diante da autoridade policial. | Máscara do acusado respeitador – submisso à autoridade. |
Negação ou deslocamento da responsabilidade | “Não rompi a pulseira não.” | Ele dissocia o ato cometido do ato mais grave, admitindo o mínimo possível. Preserva a face através de negações seletivas. | Máscara do cumpridor parcial das regras. |
Controle da impressão | Justificativas vagas; pausas longas; respostas pouco detalhadas. | Ele regula o fluxo de informação (Goffman, 1959), revelando apenas o suficiente para manter coerência narrativa. | Máscara do honesto cauteloso – alguém “sincero”, porém comedido. |
Fonte: Elaboração dos autores
A avaliação da interação mostra que Bolsonaro utiliza um conjunto de táticas teatrais para gerenciar sua reputação em um contexto extremamente sensível. Ao variar entre dúvidas, explicações técnicas, leve ironia, gestos moderados e uma atitude que parece cooperativa, ele apresenta diferentes personas – cidadão obediente, autoridade ofendida, vítima de confusões – visando principalmente reduzir a acusação e proteger sua imagem perante a policial e qualquer espectador do registro em vídeo.
Percebe-se que, apesar de a agente manter a comunicação de maneira respeitosa, assertiva e direta, Bolsonaro busca amenizar a caracterização do evento, atenuando sua culpa e apresentando atitudes que têm como objetivo diminuir a gravidade simbólica da violação. Essa atuação evidencia o que Goffman (1955; 1959) define como gestão da imagem e regulação de dados, mostrando uma apresentação pessoal cuidadosamente elaborada para prevenir um colapso de identidade social. Em resumo, a análise da interação revela que a administração da imagem, além de ser um aspecto secundário, representa um elemento fundamental na prática política – principalmente quando o agente está sob uma ameaça iminente.
Em paralelo, o estudo sobre a relação entre Jair Messias Bolsonaro e a magistrada encarregada da audiência de custódia busca entender de que maneira o ex-chefe do executivo utiliza elementos verbais, conforme descritos no Termo de Audiência de Custódia “via videoconferência” (Anexo 1), quando foi entrevistado pessoal e reservadamente, para gerenciar sua imagem em frente a uma figura de autoridade institucional que possui maior relevo hierárquico e simbólico do que a agente que fez a avaliação inicial da tornozeleira.
De maneira similar à interação anterior, os conceitos de Goffman – em especial palco, estilos sociais, imagem pública e trabalho de face – são utilizados para analisar de que forma Bolsonaro constrói sua identidade diante do judiciário, quando há um risco significativo de comprometimento da imagem e uma necessidade acentuada de manter sua autoimagem.
Para efeito de sintetizar os dados, a Tabela 3 resume a análise com ênfase nas escolhas lexicais mitigadoras ou justificativas, estratégias narrativas de autoproteção, e respostas a figuras de autoridade, e tipos de máscaras utilizadas, tendo em vista que a análise se utiliza do documento que registrou o encontro analisado.
Tabela 3: Padrões Interacionais na Audiência de Custódia: Interação Bolsonaro-Juíza
Categoria Analisada | Evidências do Corpus (Trechos da Transcrição) | Interpretação Goffmaniana (Face-work, Performance, Estratégia) | Tipo de Máscara Utilizada |
Tom de voz e postura diante da autoridade judicial | Citações diretas de respostas curtas, indicando tom controlado, ausência de confronto; postura formal. | Em ambiente de alta institucionalidade, Bolsonaro maximiza o frontstage, controlando emoções, gestos e ritmo da fala para preservar sua face. | Máscara do réu formal e obediente - disciplinado diante da Justiça. Bolsonaro negou abuso das autoridades e se submeteu a exame de corpo de delito. |
Estratégias discursivas de afastamento da culpa | “Não tinha intenção de fuga” | Minimiza responsabilidade e constrói um eu “não culpável” para dissociar intenção e ação, protegendo a face moral. | Máscara do agente mal-interpretado - alguém que “não quis fazer nada errado”. |
Justificativas e racionalizações | “Faz uso de vários medicamentos” | Reenquadra a situação como técnica, banal ou acidental. Tenta demonstrar racionalidade e pragmatismo, reduzindo a gravidade jurídica. | Máscara do gestor responsável - técnico, prático, racional. |
Apelos à reputação e trajetória pública | Referências sutis ao histórico político, ao comportamento público e ao compromisso institucional. | Reforça uma identidade social prévia como mecanismo de amparo à própria face (backing moral), usando sua biografia para sustentar credibilidade. | Máscara da autoridade moral - aquele cuja trajetória “fala por si”. |
Controle emocional intensificado | Fala cadenciada, ausência de irritação, foco em autocontenção. | Realiza forte controle expressivo (Goffman, 1959), típico de situações em que qualquer deslize pode causar deterioração da face. | Máscara do autocontrolado exemplar - domínio emocional absoluto. |
Respostas a perguntas sensíveis ou incriminatórias | Respostas minimalistas, econômicas; evita detalhamento; desvia sem confrontar. | Controla ou oculta informações que possam ameaçar a face, entregando apenas o necessário. | Máscara do comunicador econômico - fala pouco para não se comprometer. |
Construção de imagem perante audiência ampliada (juíza + sociedade) | Escolhas lexicais técnicas, postura moderada, neutra. | Calculada a performance para duas esferas simultâneas: institucional (juíza) e midiática (público externo). Mantém frontstage de racionalidade. | Máscara da figura pública racional - estrategista, moderado, “estadista”. |
Fonte: Elaborado dos autores
Conforme Tabela 3, a interação mostra um deslocamento evidente de máscara: Bolsonaro abandona o tom de “curiosidade” que apresentou à policial e adota uma postura mais técnica, controlada e deferente. Contudo, esse ajuste performático revela um ponto crítico: a contradição entre sua narrativa anterior e aquela produzida diante da juíza, especialmente sobre o horário em que iniciou a violação da tornozeleira, o que evidencia o esforço de gerenciamento de impressão e reconstrução de sua face diante da autoridade judicial. Essa contradição torna-se peça essencial da análise dramatúrgico-goffmaniana: ao ajustar suas falas a diferentes públicos (policial e magistrada), Bolsonaro alterna máscaras para preservar sua face, e gera inconsistências entre as respectivas performances.
E mais, a interação entre Bolsonaro e a juíza mostra uma mudança notável no comportamento social do réu quando comparado à interação com a policial. Frente à figura máxima da audiência de custódia, a atitude do ex-presidente se torna mais reservada, sua maneira de falar mais lenta, suas explicações mais detalhadas e sua postura mais tensa, revelando um esforço para gerenciar e controlar as impressões. De acordo com a abordagem dramatúrgica de Goffman, a reunião com a juíza representa o aspecto mais desafiador de toda a circunstância, motivo pelo qual Bolsonaro ajusta sua apresentação – agora de forma mais séria, mais cuidadosa, com uma ênfase maior em expressar lógica e domínio sobre si mesmo.
A flutuação narrativa – o evento que transita do “final da tarde” na abordagem policial para a “meia-noite” na audiência judicial – não deve ser lida meramente como uma falha de memória, mas como um lapso na uniformidade da atuação. Segundo a lógica goffmaniana, tal discrepância revela a fragilidade da máscara quando o ator é forçado a reorganizar o fluxo de informações para atender a audiências com diferentes poderes de sanção. Portanto, essa diferença entre as duas versões fortalece o argumento de Goffman de que o intérprete modifica seu comportamento de acordo com a plateia e a possibilidade de perder a reputação. Dessa forma, a avaliação evidencia que a sessão judicial não só amplifica a demanda por autoproteção simbólica, mas também revela os limites e vulnerabilidades da atuação, destacando aspectos críticos que são fundamentais para entender as dinâmicas de preservação da imagem no âmbito político e judiciário.
A análise microinteracional revela que a eficácia das máscaras mobilizadas por Bolsonaro depende intrinsecamente do manejo dos veículos de sinais (sign-vehicles), integrando o que Goffman define como o controle da "maneira" na performance social. Na abordagem policial, a pausa longa e o silêncio que antecedem a resposta sobre o horário da infração ("Ah já era final da tarde") não devem ser lidos como meros lapsos de memória, mas como mecanismos de proteção de face que permitem ao ator ganhar tempo para calibrar a narrativa e evitar fissuras imediatas no gerenciamento de impressões. Já no cenário de alta institucionalidade da audiência de custódia, a transição para uma fala cadenciada, marcada por um tom controlado e pela ausência de irritação, sinaliza um esforço deliberado de autocontenção e domínio emocional absoluto. Esse contraste entre a entonação mais fluida e mitigadora utilizada com a agente e o tom severamente econômico perante a magistrada demonstra como o ritmo e as hesitações operam como táticas para sustentar a máscara do "réu formal e obediente", minimizando a percepção de agressividade e tentando restaurar a face moral em um palco de elevado risco simbólico.
A avaliação conjunta das duas interações - inicialmente com a agente da lei encarregada de analisar a tornozeleira eletrônica e, em seguida, com a magistrada durante a audiência de custódia - revela, de maneira constante, o funcionamento do dispositivo teatral abordado por Goffman (1959) no controle das impressões e na salvaguarda da imagem. Em diversas situações, Bolsonaro utiliza diferentes máscaras, ajustando sua voz, postura, palavras e táticas de narrativa conforme o nível de perigo para sua imagem e o tipo de autoridade com a qual precisa se relacionar.
Na primeira cena com a agente policial, a atuação se organiza principalmente ao tentar atenuar a seriedade da infração: a entonação é descontraída, as interrupções indicam a procura por explicações, e o argumento da “curiosidade” serve como uma estratégia suavizadora que tenta manter a imagem de uma pessoa que não agiu de má-fé. Já na audiência de custódia, na presença de uma figura legal que tem controle imediato sobre sua liberdade, a atuação muda. Pelo registro do Termo de Audiência de Custódia, tem-se acesso a respostas com maior nível de seriedade e reserva, e as defesas se apresentam como relatos que apelam à vulnerabilidade, ao cansaço e à falta de intenção de cometer o crime.
Esta alteração na performance destaca um aspecto fundamental da dramaturgia social: a expressão é dependente do contexto e necessita do suporte da máscara apropriada para a interação. As divergências entre as duas histórias - principalmente sobre o momento em que Bolsonaro relata ter começado a danificar o aparelho, dizendo à policial que aconteceu “no final da tarde”, mas afirmando à juíza que foi “quase à meia-noite” – demonstram a inconstância nas ações quando o indivíduo precisa adaptar rapidamente seu comportamento diante de variados públicos. Segundo Goffman (1959), erros na gestão da informação revelam lacunas na uniformidade da atuação e forçam o agente, neste caso Bolsonaro a adotar medidas corretivas para tentar recuperar a confiabilidade de sua imagem.
Dessa forma, a análise mostra que as máscaras não só mudam de acordo com a situação, mas também que a pressão entre elas evidencia o esforço constante – e nem sempre frutífero – de controle da impressão. Ao destacar essas mudanças de performance, a análise proporciona uma interpretação sociolinguística e dramatúrgica sólida da crise de imagem de Bolsonaro, evidenciando que, frente à ameaça institucional, a manutenção da imagem se configura como um processo extremamente calculado, mas também suscetível ao exame público. Observamos uma ativação estratégica de máscaras que operam como mecanismos de preservação da face em um enquadre interacional altamente assimétrico, onde a hierarquia institucional exige um controle expressivo rigoroso.
Uma máscara de respeito é ativada por meio de respostas concisas, pedidos de desculpas e uma postura não confortativa que demonstra respeito pela instituição da lei, visando manter sua imagem moral. Por fim, a máscara estratégica adaptativa surge quando ele compara sua mensagem ao juiz com a mensagem transmitida à polícia, revelando uma atitude construída pelo público e um nível percebido de consciência. Juntas, essas máscaras destacam um complexo processo de gestão de impressões que corresponde ao que Goffman (1959) descreve como estratégias de trabalho facial para evitar a deterioração da identidade social em contextos de alta exposição pública.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo demonstra que a gestão da crise de imagem de Jair Bolsonaro, por ocasião da sua prisão preventiva, ocorrida em novembro de 2025, transcende a esfera jurídica, configurando-se como um fenômeno dramatúrgico no qual a preservação da legitimidade política depende da capacidade do ator de alternar máscaras de autoridade e vulnerabilidade perante diferentes profissionais do judiciário. A análise microinteracional confirmou que a gestão identitária não é um aspecto secundário, mas um elemento fundamental da prática política, especialmente quando o agente enfrenta uma ameaça iminente à sua face moral.
A pesquisa revelou que o ex-mandatário mobiliza um trabalho de face (face-work) contínuo para sustentar uma imagem socialmente aceitável em cenários de nítida assimetria de poder. A transição entre a máscara de “inocência performada” (na interação policial) e a de “réu formal e obediente” (na audiência de custódia) ilustra o esforço deliberado do réu de ajustar a fachada pública às normas e expectativas de cada enquadre institucional. Essa alternância estratégica revela a tensão estrutural entre sua identidade política prévia e sua nova condição de sujeito custodiado e regulado pelo Estado.
Um dos achados centrais deste estudo é a identificação de rupturas na performance decorrentes da pressão interacional. A flutuação narrativa observada especificamente na discrepância cronológica entre o "final da tarde" e a "meia-noite" funciona como evidência empírica de um lapso na uniformidade da atuação do réu. Segundo a lógica goffmaniana, tais inconsistências expõem a fragilidade da máscara quando o ator é forçado a reorganizar o fluxo de informações para atender a audiências com diferentes capacidades de sanção.
Em última análise, a investigação demonstra que crises de reputação reestruturam completamente a dinâmica expressiva da persona, integrando veículos de sinais (sign-vehicles) como escolhas lexicais, silêncios estratégicos e controle emocional como táticas de autoproteção simbólica. Por fim, o estudo conclui que, para figuras públicas em contextos de responsabilização legal, o uso de recursos dramáticos e a reavaliação constante da identidade projetada são imperativos para a manutenção da credibilidade em palcos de elevado risco institucional.
Em suma, o “baile de máscaras” protagonizado por Jair Bolsonaro no contexto de sua prisão preventiva representa bem a metáfora do “tango a dois” (Green, 1996) e revela que a encenação social não é um mero artifício acessório, mas a própria substância da gestão identitária em cenários de crise institucional. Conclui-se, portanto, que este baile de personas constitui um processo calculado de ajuste interacional, evidenciando que, em regimes de responsabilização legal, a alternância de fachada é uma tática fundamental para a tentativa de preservação da legitimidade e da face em um palco de elevada assimetria de poder.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Termo de audiência de custódia. Petição n. 14.129/DF. Juíza Auxiliar: Luciana Yuki Fugishita Sorrentino. Brasília, DF, 23 nov. 2025.
CNN Brasil. Veja vídeo de Bolsonaro admitindo que violou tornozeleira eletrônica | AGORA CNN. YouTube, [2min24seg] 22 nov. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xV5eKEVffZQ. Acesso em: 5 fev. 2026.
FERNANDES, Cleudemar Alves. Contribuições de Erving Goffman para os estudos linguísticos. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 8, n. 1, p. 147–164, 2005.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 20 ed. Rio de Janeiro: Vozes, [1959] 2018.
GOFFMAN, Erving. Rituais de interação: ensaios sobre o comportamento face a face. Tradução de Fábio Rodrigues Ribeiro da Silva. Petrópolis: Vozes, [1967] 2011.
GOFFMAN, Erving. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de análise. Trad. Gentil Avelino Titton. Petrópolis: Vozes, [1974] 2012.
GREEN, Georgia M. Pragmatics and natural language understanding. New Jersey: Lawrence Erbaulm, 1996.
HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Tradução de Luiz Repa. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
LINS, Maria da Penha Pereira (Org). De pragmática e de discurso: questões contemporâneas. São Carlos: Pedro & João Editores, 2025.
MARLOW, Rosani. Territórios da pragmática na linguística. In: LINS, Maria da Penha Pereira Lins; CAPISTRANO Junior; MARLOW, Rosani. O lugar na linguística: percursos de uma (r)evolução (Orgs.). Vitória: PPGEL-UFES / GM Gráfica e Editora, 2019.
ANEXO 1: Termo de Audiência de Custódia
1 Doutorando em Linguística - Universidade de Brasília (UnB). E-mail: [email protected].
2 Doutora em Linguística – Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). E-mail: [email protected].
3 Doutora em Estudos Linguísticos. Professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Espírito Santo. Brasil. E-mail: [email protected]
4 Doutorando em Linguística pela Universidade de Brasília E-mail: [email protected]
5 Transcrição da Interação com a Policial (Transcrição livre do recorte 0:16-1:24ss)