AVALIAÇÃO DOS EFEITOS CARDIOVASCULARES DO CONSUMO DO TERERÉ: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

EVALUATION OF THE CARDIOVASCULAR EFFECTS OF TERERÉ CONSUMPTION: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779249766

RESUMO
A Erva-mate (EM), Ilex paraguariensis, é amplamente consumida no Brasil e em outros países sul-americanos nas formas de chimarrão, chá mate e, notavelmente, tereré. Popularmente descrita como estimulante, digestiva e cardiotônica, a planta contém importantes compostos bioativos, como polifenóis (ácidos clorogênico, cafeico e ferúlico) e metilxantinas (cafeína e teobromina).
Este artigo teve como objetivo revisar artigos científicos publicados entre 2000 e 2025; apresentando evidências científicas dos efeitos cardiovasculares do consumo do tereré; Foi realizada uma revisão sistemática da literatura; com busca nas bases de dados Google Acadêmico e PubMed; Foram utilizadas palavras-chave como “Ilex paraguariensis”; “efeitos cardiovasculares”; “cafeína” e “teobromina”; Foram selecionadas 33 referências após aplicação dos critérios de inclusão (acesso aberto e período de publicação) e exclusão (duplicidade); Os resultados demonstram que o consumo da EM está associado a diversos benefícios à saúde cardiovascular e metabólica; incluindo atividade hipocolesterolêmica; melhora do controle glicêmico e redução da gordura corporal e de níveis pressóricos; Tais efeitos são atribuídos aos ácidos fenólicos e metilxantinas; Conclui-se que a revisão evidencia as ações benéficas dos compostos bioativos da EM; demonstrando seu potencial terapêutico como antioxidante e cardioprotetor; Focando no tereré; a literatura científica é escassa; no entanto; os estudos indicam que o consumo da Erva-mate é seguro e bem tolerado pela população.
Palavras-chave: Tereré; Efeitos cardiovasculares; xantinas; polifenóis.Ilex paraguariensis, Erva-mate

ABSTRACT
Yerba mate (YM), Ilex paraguariensis, is widely consumed in Brazil and other South American countries in the forms of chimarrão, mate tea, and notably, tereré. Popularly described as a stimulant, digestive, and cardiotonic, the plant contains important bioactive compounds, such as polyphenols (chlorogenic, caffeic, and ferulic acids) and methylxanthines (caffeine and theobromine).
This article aimed to compile and review scientific literature published between 2000 and 2025, presenting scientific evidence on the cardiovascular effects of tereré consumption.
The methodology employed a systematic literature review, searching the Google Scholar and PubMed databases. Keywords such as "Ilex paraguariensis", "cardiovascular effects", "caffeine", and "theobromine" were used. Thirty-three references were selected after applying inclusion criteria (open access and publication period) and exclusion criteria (duplicity).
Results demonstrate that YM consumption is associated with several cardiovascular and metabolic health benefits, including hypocholesterolemic activity, improved glycemic control, and reduction of body fat and blood pressure levels. These effects are attributed to phenolic acids and methylxanthines.
In conclusion, the review highlights the beneficial actions of YM's bioactive compounds, demonstrating its therapeutic potential as an antioxidant and cardioprotective agent. Focuses on tereré consumption, specific literature is scarce; however, studies indicate that Yerba mate consumption is safe and well-tolerated by the population.
Keywords: Tereré; Cardiovascular effects; xanthines; polyphenols; Ilex paraguariensis; Yerba mate.

RESUMEN
La Yerba Mate (EM), Ilex paraguariensis, es ampliamente consumida en Brasil y otros países sudamericanos en las formas de chimarrão, té mate y, notablemente, tereré. Popularmente descrita como estimulante, digestiva y cardiotónica, la planta contiene importantes compuestos bioactivos, como polifenoles (ácidos clorogénico, cafeico y ferúlico) y metilxantinas (cafeína y teobromina).
Este artículo tuvo como objetivo compilar y revisar publicaciones científicas emitidas entre 2000 y 2025, presentando evidencia científica sobre los efectos cardiovasculares del consumo de tereré.
La metodología empleó una revisión sistemática de la literatura, con búsqueda en las bases de datos Google Académico y PubMed. Se utilizaron palabras clave como “Ilex paraguariensis”, “efectos cardiovasculares”, “cafeína” y “teobromina”. Se seleccionaron 33 referencias después de aplicar criterios de inclusión (acceso abierto y período de publicación) y exclusión (duplicidad).
Los resultados demuestran que el consumo de EM está asociado con diversos beneficios para la salud cardiovascular y metabólica, incluyendo actividad hipocolesterolémica, mejora del control glucémico y reducción de la grasa corporal y de los niveles de presión arterial. Tales efectos se atribuyen a los ácidos fenólicos y metilxantinas.
Se concluye que la revisión evidencia las acciones beneficiosas de los compuestos bioactivos de la EM, demostrando su potencial terapéutico como antioxidante y cardioprotector11. A pesar del foco en el tereré, la literatura específica es escasa; sin embargo, los estudios indican que el consumo de Yerba Mate es seguro y bien tolerado por la población.
Palabras-clave: Tereré, Efectos cardiovasculares, Xantinas, Polifenoles, Ilex paraguariensis, Erva-mate.

1. INTRODUÇÃO

A planta Ilex paraguariensis pertencente à família das Aquifoliaceae, nativa na região Sul Americana, popularmente conhecida como erva mate (EM) é muito consumida na forma de chás, chimarrão e tereré nos países sul americanos como: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, onde se tornou um ícone cultural dessa população. Pela elevada consumação, a planta despertou um grande interesse de estudos e pesquisas que culminaram no isolamento, caracterização química e prospecção de atividades biológicas de compostos bioativos.

Dentre os principais compostos ativos encontrados nas folhas e ramos da planta os compostos com maior concentração são os polifenóis (ácido clorogênico, ác. cafêico e ác. ferúlico) e xantinas (teofilina, cafeína e teobromina) (Meinhart et al., 2010; Bojic et al., 2013), descritos na Figura-1.

Figura 1 - Compostos bioativos encontrados na Erva-mate (Ilex paraguariensis)

Legenda: Ácido clorogênico (1a), ácido cafeico (1b), ácido ferúlico (1c), cafeína (1d), teofilina (1e) e teobromina (1f).

Bebidas típicas contendo a EM permeiam as culturas paranaenses, mato grossense, sul mato grossense e goiana, sendo popularmente associadas à benefícios para a saúde do sistema digestivo, imunológico e cardiovascular. Também sendo considerada estimulante e refrescante, aliviando as altas temperaturas destas regiões do brasil, além de ser uma oportunidade de socialização entre os consumidores, o consumo podendo chegar a 1 ou 2 litros diários (ANTUNES et al. 2026).

Diante do expressivo potencial benéfico da erva mate na prevenção de várias doenças, principalmente as coronarianas, considerando a defasagem de material que aborda o tema os efeitos cardiovasculares do consumo de tereré, este trabalho tem por objetivo reunir e revisar publicações recentes apresentando as evidências científicas.

2. METODOLOGIA

A metodologia empregou uma revisão sistemática da literatura, com busca nas bases de dados Google Acadêmico e PubMed. A busca foi estruturada a partir de descritores controlados e termos indexados nos sistemas DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings). Os termos selecionados foram: 'Ilex paraguariensis', 'Sistema Cardiovascular' (Cardiovascular System), 'Cafeína' (Caffeine) e 'Teobromina' (Theobromine). A utilização desses descritores padronizados garantiu a recuperação de estudos com maior precisão terminológica e relevância científica. Foram selecionadas 34 referências após aplicação dos critérios de inclusão (acesso aberto e período de publicação entre 2000 e 2026) e exclusão (duplicidade e fuga ao tema).

O processo de seleção seguiu as recomendações do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), conforme detalhado na Figura 1. Inicialmente, foram identificados 164 registros nas bases de dados Google Acadêmico e PubMed. Na etapa de triagem, os títulos e resumos foram analisados manualmente, resultando na seleção de 48 estudos potencialmente relevantes. Após a avaliação de elegibilidade mediante leitura integral, foram excluídos os artigos duplicados (n=14), totalizando 34 referências que compuseram a síntese qualitativa final desta revisão.

Fluxograma:

A análise crítica dos estudos incluídos baseou-se na verificação do rigor metodológico e da relevância científica das publicações. Priorizaram-se estudos experimentais, ensaios clínicos e revisões sistemáticas indexadas, garantindo que as evidências discutidas possuíssem robustez técnica. Os dados extraídos focaram na composição fitoquímica da Ilex paraguariensis e nos desfechos clínicos relacionados à pressão arterial, perfil lipídico e metabolismo glicêmico.

3. RESULTADOS

A erva-mate (Ilex paraguariensis St. Hil.) é uma planta da família aquifoliaceae, que ocorre naturalmente em países como Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil (Vieira et al., 2010). É muito utilizada no preparo de bebidas tônicas e estimulantes, como chimarrão, tereré e chá mate.

As referências analisadas foram unânimes em afirmar que a EM apresenta vários benefícios para saúde, quais sejam, atividade antimicrobiana, antioxidante, anti-inflamatória, efeito quimio preventivo (Burris et al., 2012; Almeida et al., 2014; Souza et al., 2015; Colpo et al., 2017). Ensaios in vivo da espécie demonstraram atividade hipocolesterolêmica (Cho et al., 2010; Fernandes, Machado, et al., 2012), prevenção da aterosclerose e de doenças coronarianas (Santiago et al., 2017), melhora o estado clínico do paciente com síndrome metabólica (Hussein et al., 2011), efeito antiobesidade (Lima et al., 2014) e hipoglicemiante (Pereira et al., 2012). Ensaios clínicos também comprovaram sua atividade redutora da gordura corporal em pacientes sobrepeso (Kang et al., 2012; Kim, H. J. et al., 2012), melhora do controle glicêmico e do perfil lipídico em pacientes Diabetes Melitus tipo 2 (DM2) (Klein et al., 2011). Esses benefícios são atribuídos aos dois principais compostos com maior concentração encontrados nas folhas e ramos que são: polifenois (ácido clorogênico, ácido cafêico) e xantinas (cafeína e teobromina) (Heinrichs; Malavolta, 2001; Pomilio et al., 2002; Meinhart et al., 2010; Bojic et al., 2013).

O consumo de erva-mate teve grande potencial para reduzir fatores intermediários para doenças cardiovasculares em estudos intervencionais em animais e humanos (Yu et al., 2015). Observou-se também a melhora da viscosidade sanguínea e da microcirculação que foi observada em 142 indivíduos suplementados com chá de erva-mate (5g/dia) (Cardoso et al. 2016). Além disso, doenças cardiovasculares reduzidas foram observadas em 95 mulheres na pós-menopausa que consumiram mais de 1 L/dia de infusão de erva-mate (Da Veiga et al., 2018). Assim, o chá de Ilex tem grande potencial para ser usado como ingrediente preventivo ou terapêutico contra doenças cardiovasculares.

Um importante ácido fenólico encontrado na EM, vindo da via do ácido chiquímico, é o ácido ferúlico (AF). Segundo Cooper-Leavitt et. al (2015), o AF ao chegar ao intestino é convertido pela microbiota intestinal em ácido diidroferúlico (ADF), este por sua vez em células entérica, estimulando a produção do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1) um hormônio que estimula a secreção de insulina de forma dependente da glicose, inibe a secreção de glucagon e retarda o esvaziamento gástrico, contribuindo para a homeostase da glicose.

Como a cafeína é um dos compostos bioativos da EM, precisamos entender seu mecanismo de ação. A cafeína interage com diferentes receptores no sistema cardiovascular de forma dose-dependente. Doses ocasionais ou muito altas de consumo de cafeína podem aumentar o risco de arritmias porque podem levar à inibição da fosfodiesterase (PDE). A inibição da PDE leva a um aumento no nível de adenosina monofosfato cíclico (AMPc) nos cardiomiócitos, o que por sua vez resulta na fosforilação da proteína quinase A (PKA). Outro mecanismo da cafeína que aumenta a fosforilação da PKA nos cardiomiócitos é o aumento da liberação de noradrenalina (NA) das terminações nervosas simpáticas. NA, por meio de receptores β1-adrenérgicos, estimula a produção de AMPc. PKA, ao ativar os receptores de rianodina (RyR), estimula o fluxo de saída de Ca2+ do retículo sarcoplasmático (SR) para o citoplasma. Curiosamente, a cafeína desencadeia a liberação de Ca2+ reduzindo o limiar para ativação luminal de Ca2+ do RyR (CARDOSO et al. 2021).

Assim, a cafeína aumenta direta e indiretamente a liberação de Ca2+ do SR. Aumentos no Ca2+ intracelular são potencialmente pró-arrítmicos por meio da automaticidade da célula marcapasso atrial e após atividade desencadeada induzida por despolarização. Outro mecanismo pelo qual a cafeína pode aumentar o risco de arritmia é aumentando a sensibilidade do miofilamento ao Ca2+. Por outro lado, a cafeína é um inibidor da acetilcolinesterase (AChE), que aumenta a concentração de acetilcolina (ACh), que, ao estimular o receptor M2, reduz o nível de AMPc na célula. Além disso, a cafeína pode inibir a atividade do receptor de inositol 1,4,5-trifosfato (IP3R), o que pode reduzir o influxo de Ca2+ do SR para o citoplasma. Outro mecanismo importante de ação da cafeína é o antagonismo não seletivo dos receptores de adenosina: A1R, associado à inibição da atividade neuronal e A2AR, envolvido em processos de envelhecimento, neurotoxicidade, imunossupressão e controle motor (MARTÍNEZ-PINILLA; OÑATIBIA-ASTIBIA; FRANCO, 2015).

Nos átrios, a adenosina exerce efeitos anti-β-adrenérgicos diretos e indiretos. A ativação da corrente de potássio ativada pela adenosina (IKADO), via A1R, leva ao encurtamento da duração do potencial de ação e da refratariedade, facilitando assim os mecanismos de reentrada e arritmias atriais. A super expressão de A1R está associada à bradicardia, condução retardada através dos nodos sinoatrial e atrioventricular, arritmia atrial e hipertrofia ventricular. A adenosina, por sua vez, através de A2AR estimula os RyR que controlam parte do fluxo intracelular de Ca2+ do local de armazenamento do SR. Levando isso em consideração, o antagonismo não seletivo de A1R e A2AR pela cafeína é caracterizado pela atividade antiarrítmica, uma vez que não só pode inibir o início da Fibrilação Atrial (FA), mas também pode impedir sua propagação pelos átrios por meio do aumento da refratariedade (COVA et al. 2015).

Em síntese, o mecanismo de ação da cafeína exerce um perfil duplo no sistema cardiovascular, quando consumida em doses baixas à moderada, pode ser benéfico, pois auxilia na performance atlética e a na função cardíaca. No entanto se consumida em altas doses ou ocasionalmente por indivíduos sensíveis à substância, pode desencadear processos arrítmicos, bem como, insônia, ansiedade, inquietação, confusão mental, desidratação, vertigem e cefaleia (Cardoso Júnior; Morand, 2016).

Devido à alta capacidade absortiva rápida e quase por completa pelo estômago, até 90%, incidindo o pico de concentração plasmática entre 20 e 40 minutos logo após a ingesta. A meia vida da cafeína pode variar de 3 a 10 horas, portanto, níveis tóxicos podem ser alcançados rapidamente e permanecer por período prolongado. O fígado é responsável pelo metabolismo da cafeína, por meio de processos de N-desmetilação, acetilação e oxidação, isso explica porque substâncias que usam a mesma via metabólica, como o álcool e certos fármacos, podem prolongar a meia-vida da cafeína em até 72%, potencializando os efeitos e os riscos associados (GEBARA, 2019).

A erva mate também é rica em teobromina, que também está presente em outras bebidas popularmente conhecidas como energéticas como o cacau (Theobroma cacao L.), guaraná (Paullinia cupana Kunth), chá-verde (Camellia sinensis) (COVA et al. 2015). A teobromina e a cafeína são metilxantinas que podem formar complexos de empilhamento não covalentes com o Trifosfato de Adenosina (ATP) (Gattuso et al., 2011). Na verdade, a teobromina e a cafeína são capazes de se ligar a DNA em concentrações milimolares (Johnson et al., 2012) e a teobromina também pode interagir com o RNA (Johnson et al., 2003). No entanto, as consequências fisiológicas completas dessas descobertas ainda não são conhecidas. Uma hipótese levantada GIL et al. (1994), posteriormente, confirmada por Martínez-Pinilla et al. (2015), propõe a interação sustentada com o DNA e o RNA após o consumo de metilxantinas no cacau pode levar à indução ou repressão da expressão genética.

Um novo alvo diferencial das metilxantinas é a poli(ADPribose)polimerase-1 (PARP-1), uma enzima nuclear que é pouco inibida pela cafeína, mas significativamente inibida pela teobromina (Geraets et al., 2006). Assim sendo, Ahmad et al. (2015) apresentaram recentemente que a inibição da PARP-1 reduz expressivamente a inflamação dos pulmões causada pela γ-carragenina. Outro estudo demonstrou recentemente evidências na neovascularização em um modelo animal de asma (Wagner et al., 2015). Para Martínez-Pinilla et al. (2015), a teobromina tem a capacidade de redução da neovascularização de tumores que crescem no processo de metástase para linhagem HCV-29 (urotelial humana), B16-F10 (melanoma) e adenocarcinoma ovariano.

Além dos efeitos anti-inflamatórios e antitumoral, já mencionados, a teobromina apresenta efeitos cardiovasculares independente da interação com os receptores de adenosina. Os resultados do ensaio clínico NCT01481389 (COVA et al. 2015) demonstraram que a teobromina pode estar associada ao aumento expressivos dos níveis plasmáticos de HDL e a diminuição dos níveis de LDL, impactando positivamente na saúde cardiovascular dos participantes que consumiram cacau, que possui altos teores de teobromina.

Segundo Bojic et al. (2013), dentre os principais compostos ativos encontrados nas folhas e ramos da planta as duas classes de metabólitos secundários com maior concentração são os polifenóis, como o ácido clorogênico (CGA) e o ácido cafeico (CA) e xantinas, como a cafeína e a teobromina. O ácido clorogênico comprovadamente apresenta efeitos terapêuticos anti-inflamatórios, antioxidante, antitumoral, antipatógenos, e age especialmente em condições relacionadas a doenças metabólicas e processos de envelhecimento celular. Também expressa funções de neuroproteção em distúrbios neurodegenerativos e neuropatia periférica diabética, bem como, atenua doenças cardiovasculares.

A Figura 2, abaixo, ilustra como o CGA exerce sua ação multifuncional em diversas frentes terapêuticas:

Figura 2 - Ácido clorogênico: uma revisão sistemática sobre as funções biológicas, mecanismos farmacológicos e potenciais terapêuticos

Figura 2
Fonte: CARDOSO et al., 2024.
  1. Ação anti-inflamatória: ao atingir as vias NF-KB (Fator Nuclear kappa-light-chain-enhancer de células B ativadas), MAPKs (quinases de proteína ativadas por mitógenos) e JAK (Janus Quinases) que são as principais vias envolvidas nos processos inflamatórios, o CGA as inibe, como menos células e mediadores dos processos inflamatórios ativadas, haverá uma redução do nível inflamatório.

  2. Ação antioxidante: neste caminho o CGA atua ativando vias dependentes e ou independentes da proteína Nrf2 (Fator nuclear eritroide 2 relacionado ao fator 2), as quais exercem função decisória no processo antioxidante. Através dessa ativação o organismo possibilita defesa contra o estresse oxidativo, diminuindo a concentração de espécies radicalares de oxigênio (ROS).

  3. Modulação do metabolismo lipídico: o CGA regula o metabolismo lipídico aumentando a lipólise e a oxidação de ácidos graxos, concomitantemente à supressão da produção de colesterol e ácidos graxos, contribuindo para a normalidade do perfil lipídico.

  4. Modulação do metabolismo da glicose: o CGA promove o aumento da glicólise e inibe a captação e a síntese de glicose, contribuindo beneficamente para o controle da glicemia.

  5. Neuromodulação: através da sinalização de inúmeros neurorreceptores e canais iônicos, o CGA pode influenciar na transmissão neuronal, levando à neuroproteção.

A neuroproteção segundo Medeiros et al. (2021) é devida ao potencial antioxidante da cafeína e dos ácidos fenólicos como o CGA e o CA presentes na Ilex paraguariensis que podem ser cruciais na prevenção da doença de Parkinson.

Para Nguyen et. al (2024), o CGA pode exercer a função de hipotensor, reduzindo a pressão arterial de ratos espontaneamente hipertensos, na forma de dose dependente. Isso porque o mecanismo de ação do CGA, faz a vasodilatação através da supressão da atividade de NADPH oxidase (NOX), inibe a síntese de ROS, e eleva o oxido nítrico (NO), atenuando os efeitos dos distúrbios cardiovasculares.

Outro efeito cardioprotetor do CGA, de acordo com Nguyen et. Al (2024), ocorre na regulação das vias NF-kB e PPAR α (receptor ativado por proliferadores de peroxissomo alfa), pelo CGA que reduz a expressão de HIF-1 α impedindo a sinalização apoptótica das células cardíacas e consequentemente evitando as lesões miocárdicas pelo fator de necrose tumoral α e a insuficiência cardíaca. Vários estudos têm demonstrado a eficácia do CGA na redução da pressão arterial sistólica (PAS) e pressão arterial diastólica (PAD) em indivíduos levemente hipertensos.

Para Kozuma et al. (2005), a ingestão oral diária de extrato de café verde, produto rico em CGA, nas doses de 93 mg ou 185 mg durante 28 dias, culminou em resultados satisfatórios, diminuindo os níveis da PAS 4,7 mmHg e 5,6 mmHg e PAD 3,3 mmHg e 3,9 mmHg em humanos hipertensos leves, respectivamente. Há muitos estudos e ensaios clínicos demonstrando a eficácia do CGA na redução da pressão arterial, quer seja pelo mecanismo de vasodilatação ou por meio da ativação de receptores muscarínicos de acetilcolina.

4. CONCLUSÃO

Após a análise das literaturas, ficou evidenciada a ação benéfica dos compostos bioativos presentes na erva mate. Embora os estudos apresentem resultados das moléculas separadamente, a junção desses compostos em uma só planta, confere à espécie diversos potenciais terapêuticos, dentre eles, os antioxidantes, anti-inflamatórios, antimicrobiano, hipocolesterolêmicos, quimiopreventivos e cardioprotetores.

Embora a literatura específica sobre o consumo na forma de tereré ainda seja emergente, as evidências apontam para benefícios metabólicos claros que podem auxiliar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Neste sentido, o incentivo ao consumo moderado de tereré pode ser explorado como uma estratégia complementar de saúde pública e educação nutricional, especialmente em regiões como o Sul e Centro-Oeste onde o hábito é culturalmente enraizado, visando a melhoria do perfil lipídico e pressórico da população através de recursos naturais acessíveis.

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1 Graduanda do Bacharelado em Medicina da Unipantanal/Estácio.

2 Graduanda do Bacharelado em Medicina da Unipantanal/Estácio.

3 Farmacêutica. Doutora em Engenharia Biomédica Docente da Unipantanal/Estácio.

4 Farmacêutica. Doutora em Biologia Celular e Molecular Aplicada a Saúde. Docente da Unipantanal.

5 Farmacêutico. Doutor em Farmacoquímica. Docente da Unipantanal/Estácio.