ANÁLISE DE QUARTO DE DESPEJO, DE CAROLINA MARIA DE JESUS, NA PERSPECTIVA DE MICHEL FOUCAULT

AN ANALYSIS OF QUARTO DE DESPEJO (THE SLUM DWELLER´S DIARY), BY CAROLINA MARIA DE JESUS, FROM THE PERSPECTIVE OF MICHEL FOUCAUT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779244413

RESUMO
Este estudo tem como foco a análise de Quarto de despejo: diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. Com reconhecimento literário tardio, a autora consolidou-se como um importante símbolo de resistência e luta, especialmente em um contexto histórico marcado pela invisibilização e desvalorização da autoria feminina negra. Como base teórica, este trabalho fundamenta-se nos pressupostos da análise do discurso, a partir de Eni Orlandi (2001) e Michel Foucault (1993), cujas contribuições possibilitam compreender as relações entre linguagem, poder e sociedade. Ademais, recorremos a Frazão (2023), que oferece subsídios relevantes acerca da trajetória de vida da autora. O método adotado consiste em uma pesquisa descritiva de natureza documental, a qual possibilitou a análise do discurso na obra, evidenciando sua relevância não apenas para o público em geral, mas, sobretudo, para mulheres em situação de vulnerabilidade social, especialmente mulheres negras e pobres. Esperamos, com este estudo, contribuir para o incentivo à leitura e à produção de pesquisas no campo da análise do discurso, ampliando o reconhecimento da obra e da importância de vozes femininas historicamente marginalizadas.
Palavras-chave: Discurso; Carolina Maria de Jesus; Protagonismo feminino.

ABSTRACT
This study focuses on the discourse analysis of the work Quarto de Despejo: diário de uma favelada, by Carolina Maria de Jesus. Despite her late literary recognition, the author established herself as an important symbol of resistance and struggle, especially within a historical context marked by the invisibility and devaluation of women's presence. As a theoretical framework, this study is grounded in the principles of discourse analysis, drawing on Eni Orlandi (2001) and Michel Foucault (1993), whose contributions enable an understanding of the relationships between language, power, and society. Furthermore, the study relies on Frazão (2023), who provides relevant insights into the author's life trajectory.The method adopted consists of a descriptive documentary research approach, which made it possible to analyze the discourse present in the work, highlighting its relevance not only for the general public but especially for women in situations of social vulnerability, particularly Black and poor women. This study aims to encourage reading and the production of research in the field of discourse analysis, expanding the recognition of the work and the appreciation of historically marginalized voices.
Keywords: Discourse; Carolina Maria de Jesus; Female protagonism.

1. INTRODUÇÃO

A luta feminina vem ganhando cada vez mais força, com o objetivo de conquistar espaço na sociedade de maneira igualitária e justa, uma vez que, ao longo da história, as mulheres vivenciaram uma realidade marcada pela desigualdade e pela injustiça, sobretudo, quando comparada à vivência masculina, ainda permeada por privilégios e vantagens. Em contrapartida, observamos na escrita de Carolina Maria de Jesus a ousadia em abordar temas sensíveis e polêmicos em uma sociedade ainda marcada por comportamentos patriarcais, machistas e misóginos.

Este artigo objetiva analisar o discurso da autora Carolina Maria de Jesus à luz da perspectiva teórica de Michel Foucault, que enfatiza a relação entre poder, discurso e produção de verdade. Tal abordagem mostra-se especialmente pertinente na análise da obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, na medida em que permite compreender como o discurso dessa escritora, enquanto sujeito historicamente marginalizado, emerge em um contexto de dominação. Nesse sentido, a perspectiva foucaultiana contribui para evidenciar as estruturas de poder que operam sua exclusão social, ao mesmo tempo em que possibilita analisar as formas pelas quais a autora resiste e subverte tais estruturas por meio de sua escrita.

Inicialmente, consideramos pertinente conhecermos a trajetória de vida de Carolina Maria de Jesus, a fim de compreendermos sua relevância para a sociedade brasileira. Sua história constitui fonte de inspiração para mulheres que seguem na luta por justiça social e por igualdade em uma sociedade profundamente desigual. Nesse sentido, apresentamos, de forma sucinta, a biografia da autora, com o objetivo de melhor compreendermos seu papel e contribuição histórica e social.

Apresentamos, nesta pesquisa, a representatividade feminina negra da autora Carolina Maria de Jesus evidenciada em suas obras, especialmente em Quarto de despejo, que retrata a vida de mulheres negras e pobres na favela do Canindé, destacando suas lutas, dificuldades e formas de resistência.

Na sequência do artigo, será realizada a análise do discurso na obra em questão, com o apoio da literatura, à luz da perspectiva teórica de Michel Foucault. Partimos do entendimento de que, para o autor, a análise do discurso é fundamental para compreender como o poder se manifesta e opera por meio das práticas discursivas, influenciando a produção do conhecimento, a constituição das subjetividades e as relações sociais. Nesse sentido, o discurso não se limita a uma forma de comunicação, mas configura-se como uma prática social que produz efeitos de verdade e de poder.

Na conclusão deste trabalho, será apresentada uma breve reflexão acerca da importância de Carolina Maria de Jesus para a vida das mulheres brasileiras, destacando sua representatividade, especialmente para as mulheres negras, que enfrentam processos de exclusão, discriminação e violência.

2. BREVE BIOGRAFIA DE CAROLINA MARIA DE JESUS

De acordo com Carolina Maria de Jesus, sua trajetória foi marcada pela pobreza, pela resistência e pela luta por reconhecimento literário. Segundo Dilva Frazão, “Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, em 14 de março de 1914. Neta de pessoas escravizadas e filha de uma lavadeira analfabeta, a autora cresceu em uma família composta por mais sete irmãos” (FRAZÃO, 2023, p. 1).

A infância de Carolina Maria de Jesus foi marcada pela pobreza, pelas dificuldades financeiras e pelas desigualdades sociais vivenciadas por famílias negras no início do século XX. Filha de uma lavadeira analfabeta e neta de pessoas escravizadas, Carolina cresceu em um ambiente de grandes limitações materiais. Apesar disso, demonstrou desde cedo grande interesse pelo conhecimento, especialmente pela leitura e pela escrita. Mesmo tendo frequentado a escola por pouco tempo, conseguiu desenvolver uma relação significativa com os livros, fato que posteriormente influenciaria sua formação como escritora. Sua infância também foi marcada pelo trabalho precoce no campo, resultado das condições econômicas enfrentadas por sua família, experiência que contribuiu para a construção de sua consciência crítica sobre a pobreza e a exclusão social. Segundo Frazão (2023):

Na infância, Carolina recebeu incentivo de Maria Leite Monteiro de Barros, uma das freguesas de sua mãe, para frequentar a escola. Aos sete anos, ingressou no Colégio Allan Kardec, onde cursou apenas a primeira e a segunda séries do ensino fundamental. Apesar do breve período de escolarização formal, desenvolveu grande interesse pela leitura e pela escrita. Em 1924, sua família mudou-se para Lageado em busca de melhores condições de vida, local em que Carolina trabalhou como lavradora em uma fazenda. Em 1927, retornaram para Sacramento. (FRAZÃO, 2023, p. 2).

A trajetória de Carolina Maria de Jesus foi permeada por constantes deslocamentos e pela necessidade de enfrentar diferentes formas de exclusão social. Ainda jovem, precisou trabalhar em atividades árduas para garantir a própria sobrevivência e a de sua família. As experiências vividas nesse período contribuíram para a formação de sua consciência crítica sobre a pobreza, a desigualdade e a marginalização social, temas que mais tarde se tornariam centrais em sua escrita autobiográfica. A perda da mãe e a mudança para a capital paulista também representam momentos decisivos em sua trajetória, evidenciando os desafios enfrentados por mulheres negras em busca de melhores condições de vida:

Em 1930, Carolina mudou-se com a família para a cidade de Franca, em São Paulo, onde trabalhou como lavradora e empregada doméstica. Aos 23 anos, enfrentou a morte da mãe, acontecimento que marcou profundamente sua trajetória. Posteriormente, decidiu ir para a capital paulista, passando a trabalhar como faxineira. Em 1948, mudou-se para a favela do Canindé, onde viveu com seus três filhos. (FRAZÃO, 2023, p. 4).

Mesmo vivendo em condições de extrema pobreza na favela do Canindé, Carolina Maria de Jesus manteve uma relação intensa com a leitura e a escrita. A autora transformava os materiais recolhidos durante o trabalho de catadora em fonte de conhecimento, demonstrando que a literatura representava, para ela, uma forma de resistência e sobrevivência. Seus registros cotidianos revelam não apenas as dificuldades enfrentadas na favela, mas também seu desejo de conquistar reconhecimento como escritora. Nesse contexto, sua aproximação com o jornal Folha da Manhã simboliza uma importante tentativa de inserção no meio literário e jornalístico da época:

Na favela, trabalhava como catadora de papel e mantinha o hábito de ler tudo o que recolhia, além de registrar em cadernos suas experiências cotidianas. Em 1941, motivada pelo desejo de tornar-se escritora, dirigiu-se à redação do jornal Folha da Manhã levando um poema de sua autoria em homenagem a Getúlio Vargas. O poema foi publicado em 24 de fevereiro daquele ano, acompanhado de sua fotografia. (FRAZÃO, 2023, p. 7).

A escrita de Carolina Maria de Jesus começou a ganhar reconhecimento público a partir do momento em que seus textos passaram a circular nos jornais da época. Seus relatos sobre a fome, a pobreza e a realidade vivida na favela do Canindé chamaram atenção pela autenticidade e pela força crítica presente em sua narrativa. O encontro com o jornalista Audálio Dantas representou um marco decisivo em sua trajetória literária, pois possibilitou que seus escritos alcançassem maior visibilidade no cenário nacional. A publicação de trechos de seus diários despertou o interesse do público e da imprensa, contribuindo para consolidar Carolina como uma importante voz da literatura brasileira. Como afirma Frazão (2003):

Com o passar do tempo, Carolina passou a frequentar regularmente a redação do jornal, tornando-se conhecida como ‘Poetisa Negra’. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas conheceu a autora durante uma reportagem sobre a favela do Canindé. Ao ler os cadernos de Carolina, ficou impressionado com a força de sua escrita. Em 19 de maio de 1958, parte de seus diários foi publicada no jornal Folha da Noite, alcançando grande repercussão. No ano seguinte, a revista O Cruzeiro também divulgou trechos de seus escritos. (FRAZÃO, 2023, p. 10)

Em 1960, foi lançado o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, organizado por Audálio Dantas. A obra tornou-se um grande sucesso editorial, com ampla repercussão nacional e internacional. Graças ao êxito do livro, Carolina deixou a favela e adquiriu uma casa no bairro Alto de Santana, em São Paulo. Também recebeu homenagens da Academia Paulista de Letras e da Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1961, viajou para a Argentina, onde recebeu a condecoração “Orden Caballero del Tornillo”. Posteriormente, publicou outras obras importantes, como Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1965).

A publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada representou um marco na literatura brasileira, pois trouxe visibilidade à realidade das populações marginalizadas por meio da escrita de Carolina Maria de Jesus. A obra destacou-se pela autenticidade de seus relatos e pela denúncia das desigualdades sociais vivenciadas na favela, conquistando repercussão nacional e internacional. O sucesso editorial permitiu que Carolina alcançasse reconhecimento intelectual e melhorasse temporariamente suas condições de vida. Além disso, sua produção literária consolidou-se como uma importante contribuição para a literatura negra e periférica brasileira, ampliando a representatividade de mulheres negras no cenário literário. Conforme Frazão (2023):

Em 1960, foi lançado o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, organizado por Audálio Dantas. A obra tornou-se um grande sucesso editorial, com ampla repercussão nacional e internacional. Graças ao êxito do livro, Carolina deixou a favela e adquiriu uma casa no bairro Alto de Santana, em São Paulo. Também recebeu homenagens da Academia Paulista de Letras e da Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1961, viajou para a Argentina, onde recebeu a condecoração “Orden Caballero del Tornillo”. Posteriormente, publicou outras obras importantes, como Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1965). (FRAZÃO, 2023, p. 11).

Apesar do sucesso literário, Carolina Maria de Jesus não conseguiu estabilidade financeira e, algum tempo depois, retornou à condição de catadora de papel. Em 1969, mudou-se para um sítio em Parelheiros, na cidade de São Paulo, onde viveu seus últimos anos afastada do mercado editorial. Faleceu em 13 de fevereiro de 1977, em São Paulo.

Embora Carolina Maria de Jesus tenha alcançado reconhecimento nacional e internacional com a publicação de suas obras, especialmente Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, o sucesso literário não foi suficiente para garantir estabilidade financeira permanente. A autora enfrentou novamente dificuldades econômicas e o afastamento progressivo do mercado editorial, evidenciando as desigualdades estruturais que atingiam mulheres negras e periféricas no campo literário.

Seus últimos anos foram vividos de forma mais isolada, distante da visibilidade que havia conquistado anteriormente, o que demonstra a fragilidade do reconhecimento destinado a escritores oriundos das camadas populares:

Apesar do sucesso literário, Carolina Maria de Jesus não conseguiu estabilidade financeira e, algum tempo depois, retornou à condição de catadora de papel. Em 1969, mudou-se para um sítio em Parelheiros, na cidade de São Paulo, onde viveu seus últimos anos afastada do mercado editorial. Faleceu em 13 de fevereiro de 1977, em São Paulo. (FRAZÃO, 2023, p. 12).

Carolina Maria de Jesus foi uma mulher extraordinária e destemida, cuja trajetória simboliza resistência, coragem e superação diante das desigualdades sociais, raciais e de gênero. Mesmo enfrentando a pobreza, a fome e a exclusão social, nunca abandonou o desejo de escrever e registrar a realidade vivida na favela. Sua determinação em transformar a própria experiência em literatura fez de sua voz uma das mais importantes da literatura brasileira, sobretudo por denunciar as injustiças sociais e dar visibilidade à vida da população marginalizada

3. ANÁLISE DO DISCURSO NA OBRA QUARTO DO DESPEJO: DIÁRIO DE UMA FAVELADA SOB A PERSPECTIVA DE MICHEL FOUCAULT

Quando refletimos sobre a obra de Carolina Maria de Jesus, percebemos uma forte proximidade entre a realidade das favelas retratada por ela e os bairros periféricos da atualidade, evidenciando a permanência de diversas mazelas sociais. Em seu texto, a autora não apenas narra o próprio cotidiano, mas constrói uma escrita que ultrapassa o âmbito do relato pessoal. Sua obra não se configura como um simples desabafo ou como um meio de ascensão social; ao contrário, o diário assume um caráter de denúncia social. Um exemplo dessa dimensão denunciativa pode ser observado quando a autora afirma que:

Os políticos só aparecem aqui em épocas eleitorais. O senhor Cantidio Sampaio quando era vereador em 1953 passava os domingos aqui na favela. Ele era tão agradável. Tomava nosso café, bebia nas nossas xicaras. Ele nos dirigia as suas frases de viludo. Brincava com nossas crianças. Deixou boas impressões por aqui e quando candidatou-se a deputado venceu. Mas na Câmara dos Deputados não criou um projeto para beneficiar o favelado. Não nos visitou mais. (JESUS, 1993, p, 28).

Nesse trecho, podemos identificar a preocupação de Carolina Maria de Jesus com a realidade de sua época que, infelizmente, pouco ou quase nada mudou atualmente. A questão da falta de consciência crítica do eleitor permanece em debate, uma vez que o ciclo de práticas corruptas continua se reproduzindo, permitindo que determinados políticos se perpetuem no poder por meio de sucessivas reeleições. Além disso, as favelas, assim como outros grupos socialmente vulnerabilizados, seguem sendo frequentemente percebidas como “o outro”, demostrando as profundas desigualdades sociais historicamente enraizadas no país. Nesse sentido, a escrita de Carolina ultrapassa seu tempo, revelando-se ainda atual ao denunciar estruturas de exclusão, marginalização e invisibilidade que persistem na sociedade brasileira.

Nesse viés de entendimento, compreendemos que o discurso não é neutro, pois reflete e, ao mesmo tempo, constrói as relações de poder e exclusão em uma sociedade. Como afirma Eni Orlandi (2001), “na análise de discurso, envolve também a ideologia”. (ORLANDI, 2001, p. 80/81). Assim, entendemos que todo discurso está atravessado por uma visão de mundo, a qual se relaciona diretamente com as formas de organização social. A relação entre discurso e ideologia constitui, portanto, um aspecto fundamental para compreender como a linguagem pode ser mobilizada tanto para a manutenção quanto para a contestação das estruturas de poder. Nesse sentido, ao analisar produções como as de Carolina Maria de Jesus, percebemos como o discurso pode funcionar como instrumento de denúncia, dando visibilidade a sujeitos historicamente marginalizados e tensionando as hierarquias sociais estabelecidas.

Michel Foucault (1982) define o poder como ação, isto é, “uma ação sobre outra ação possível” (FOUCAULT, 1982, p. 243). Nessa perspectiva, o poder não é entendido como uma substância ou uma faculdade que se possui, mas como algo que se exerce nas relações. Ele se constitui, portanto, na dinâmica entre indivíduos, como uma ação que incide sobre outra ação, orientando, limitando ou possibilitando condutas. Segundo Michel Foucault, “as relações de poder não se limitam à luta de classes, embora também estejam articuladas aos mecanismos ideológicos do Estado” (FOUCAULT, 1982, p. 243), trata-se de uma rede de relações que atravessa diferentes esferas da vida social. Nesse sentido, é fundamental destacar a dimensão macro do poder articulada à instituição familiar na obra de Carolina Maria de Jesus. Em seus escritos, é possível observar como as relações familiares também são atravessadas por assimetrias de poder, marcadas por condições de gênero, classe e sobrevivência, revelando que o exercício do poder não se restringe às instâncias formais, mas se manifesta também no cotidiano e nas estruturas mais íntimas da vida social.

Na obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus, observa-se a representação de uma configuração familiar centrada na figura materna. Trata-se de um arranjo em que a mãe ocupa o papel central na manutenção e organização da vida doméstica, sendo responsável pelo sustento e cuidado dos filhos. Esse modelo se aproxima do que Naiff (2014) descreve “como uma estrutura familiar composta basicamente pela mulher, seus filhos e, eventualmente, outros parentes, na qual a presença masculina aparece de forma provisória e instável. ” (NAIFF, 2014, p. 5). Nesse contexto, o homem não assume um papel contínuo de responsabilidade, reforçando a sobrecarga feminina e evidenciando as desigualdades de gênero. Podemos identificar essa configuração no trecho a seguir:

Cheguei na rua Frei Antônio Santana de Galvão 17, trabalhar pra dona Julita. Ela disse pra eu não iludir com os homens que eu posso arranjar outros filhos e que os homens não contribuem pra criar filho. Sorri e pensei: em relação aos homens eu tenho experiências amargas. Já estou na maturidade, quadra que o senso já criou raízes. (JESUS, 1993, p.34).

A responsabilidade feminina pela manutenção da família é evidenciada de forma contundente na obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus. Nesse contexto, a mulher assume integralmente o sustento e o cuidado dos filhos, sobretudo diante da ausência ou da presença instável das figuras masculinas, que muitas vezes não participam efetivamente da vida familiar. Tal realidade pode ser observada no seguinte trecho: “Eu pensava nas roupas por lavar. Na Vera. E se a doença fosse piorar? Eu não posso contar com o pai dela. Ele não conhece a Vera. E nem a Vera conhece ele” (JESUS, 1992, p. 45). A partir dessa passagem, comprova-se não apenas a sobrecarga materna, mas também a solidão enfrentada por essas mulheres, que precisam lidar simultaneamente com o trabalho, o cuidado e a insegurança cotidiana. Dessa forma, a narrativa de Carolina explicita as assimetrias de gênero e as condições precárias que atravessam as estruturas familiares nas camadas socialmente marginalizadas.

A afirmação acima ainda permite compreender que a mulher, no contexto retratado por Carolina Maria de Jesus, desempenhava um papel central e indispensável na estrutura familiar. Ao assumir sozinha a responsabilidade de criar e educar os filhos, sua atuação configura-se como um verdadeiro ato de resistência diante das adversidades impostas pela pobreza e pela exclusão social. Em uma realidade marcada pela escassez, cabia a essa mulher garantir a sobrevivência dos filhos, providenciando alimento, vestuário e cuidados básicos, mesmo diante de condições extremamente precárias. Assim, sua trajetória apresenta-se não apenas a sobrecarga materna, mas também a força e a resiliência necessárias para enfrentar um cotidiano de privações, conforme descrito no trecho a seguir:

Quando eu faço quatro pratos penso que sou alguém. Quando vejo meus filhos comendo arroz e feijão, o alimento que não está ao alcance do favelado, fico sorrindo à toa. Como se eu estivesse assistindo um espetáculo deslumbrante. (JESUS, 1993, p. 55).

Foucault descreve como determinadas formas de discurso se tornam predominantes em certos períodos históricos, constituindo o que denomina “formações discursivas”, responsáveis por estabelecer aquilo que é considerado verdadeiro, legítimo ou aceitável em uma sociedade. Nesse sentido, o discurso não apenas reflete a realidade, mas também a organiza e a regula, definindo quais vozes podem ser ouvidas e quais são silenciadas. Sob essa perspectiva, a escrita de Carolina Maria de Jesus se configura como um gesto de ruptura.

Ao narrar a realidade da favela, a autora tensiona essas formações discursivas hegemônicas, trazendo à tona experiências historicamente marginalizadas e invisibilizadas. Sua obra desloca o olhar dominante ao conferir centralidade à vivência de sujeitos excluídos, transformando a favela, frequentemente silenciada, em espaço de enunciação e denúncia social.

Mesmo diante de inúmeras adversidades, observamos, nos enunciados do diário de Carolina Maria de Jesus, uma compreensão das relações de poder que resiste aos moldes pré-estabelecidos da família idealizada. Sua escrita aponta formas alternativas de organização familiar e de sobrevivência, que se distanciam dos padrões normativos e revelam estratégias concretas de existência em contextos de vulnerabilidade. Nesse sentido, a narrativa de Carolina não apenas denuncia as desigualdades, mas também afirma a capacidade de agência dos sujeitos marginalizados, especialmente das mulheres, que reinventam cotidianamente suas formas de viver e sustentar suas famílias, como observamos no trecho a seguir:

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer espécie de trabalho para mantê-los. E elas [as mulheres da favela] tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos sossegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. Não casei e não estou descontente. Os que preferiu me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis (JESUS, 1993 p.18).

Nesse trecho, Carolina Maria de Jesus expõe as condições em que vivem as mulheres da favela, marcadas por violências cotidianas, conflitos nos barracões e relações conjugais permeadas por tensões. Sua escrita revela um ambiente de instabilidade e sofrimento, no qual as mulheres estão frequentemente submetidas a agressões e à precariedade das relações afetivas. Ao mesmo tempo, o diário expressa a perspectiva de uma mulher negra que, embora inserida nesse contexto de exclusão, não se conforma com ele. Há, em sua narrativa, um movimento constante de reflexão e de desejo de superação, demonstrando a busca por outras possibilidades de existência. Assim, sua escrita articula denúncia e resistência, ao dar visibilidade à realidade da favela e, simultaneamente, afirmar o anseio por transformação e dignidade.

Para Michel Foucault, ao analisarmos o poder, é fundamental considerar o indivíduo como agente de suas próprias ações, e não como um sujeito meramente passivo ou totalmente subordinado à vontade de outro. Nessa perspectiva, “o poder se exerce entre sujeitos livres, isto é, entre indivíduos, sejam eles individuais ou coletivos, que dispõem de um campo de possibilidades no qual diferentes condutas, reações e modos de comportamento podem emergir.” (FOUCAULT, 1982, p. 245). Essa concepção permite compreender que, mesmo em contextos marcados por desigualdades, como os retratados por Carolina Maria de Jesus, os sujeitos não estão completamente destituídos de ação. Ao contrário, eles elaboram estratégias, tomam decisões e constroem formas de resistência dentro das condições que lhes são impostas, evidenciando que o exercício do poder está sempre atravessado por possibilidades de resposta e transformação.

Para Michel Foucault, o discurso não se limita a um conjunto de palavras, mas configura-se como uma prática social capaz de produzir e organizar a realidade. Nesse sentido, o discurso atua na constituição dos sujeitos, das verdades e das relações de poder que atravessam a sociedade. À luz dessa perspectiva, a escrita de Carolina Maria de Jesus ultrapassa o simples registro de experiências individuais. Seu diário constitui uma forma de ação e intervenção no mundo, na medida em que questiona e desestabiliza estruturas de poder historicamente consolidadas. Ao dar visibilidade à vida na favela, Carolina não apenas narra sua realidade, mas também a inscreve no campo do discurso, rompendo silenciamentos e afirmando a potência política de sua voz.

Para Foucault, o poder possui também um caráter produtivo, uma vez que não se limita à repressão, mas atua de maneira dinâmica sobre os sujeitos. Como afirma o autor, o poder “incita, induz, desvia, facilita ou torna mais difícil, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, ele coage ou impede absolutamente, mas é sempre uma maneira de agir sobre um ou vários sujeitos ativos” (FOUCAULT, 1985, p. 243). Essa concepção amplia a compreensão tradicional do poder, revelando que ele opera por meio de múltiplas estratégias e atravessa as relações sociais de forma difusa. Assim, ao analisar a obra de Carolina Maria de Jesus, é possível perceber como, mesmo em contextos de vulnerabilidade, o poder não apenas limita, mas também produz possibilidades de ação, influenciando comportamentos, escolhas e formas de resistência que emergem no cotidiano da vida na favela.

Para Michel Foucault, as relações de poder não são estáticas, mas se reconfiguram conforme as necessidades e as realidades de cada contexto social. Elas se adaptam às condições específicas de tempo e espaço, produzindo modos distintos de governar, controlar e organizar as ações dos indivíduos. Como explicita Roberto Machado (2006):

A mecânica do poder que se expande por toda a sociedade, assumindo as formas mais regionais e concretas, investindo em instituições, tomando corpo em técnicas de dominação. Poder esse que intervém materialmente, atingindo a realidade mais concreta dos indivíduos – o seu corpo -, e se situa no nível do próprio corpo social, e não acima dele, penetrando na vida cotidiana, e por isso pode ser caracterizado como micropoder ou subpoder. (MACHADO, 2006, p.168)

Nesse sentido, ao analisarmos a obra de Carolina Maria de Jesus, percebemos que o cotidiano da favela é atravessado por relações de poder específicas, que moldam a vida social, as relações familiares e as estratégias de sobrevivência de seus habitantes.

A análise foucaultiana também se concentra no processo de subjetivação, ou seja, na maneira como os indivíduos se constituem como sujeitos em relação às relações de poder que os atravessam. Segundo Michel Foucault, o poder não apenas limita ou disciplina, mas também participa da formação da subjetividade, moldando comportamentos, identidades e formas de agir no mundo. A escrita de Carolina Maria de Jesus exemplifica esse processo de subjetivação.

Por meio de seu diário, ela constrói sua própria identidade enquanto sujeito ativo, denunciando injustiças, registrando experiências e afirmando sua presença em um espaço social que frequentemente tenta silenciar e marginalizar vozes como a sua. Assim, sua obra evidencia como a produção de discurso pode ser simultaneamente um ato de resistência e um mecanismo de afirmação da subjetividade frente às estruturas de poder.

Em resumo, a análise do discurso de Carolina Maria de Jesus à luz das concepções de Michel Foucault comprova que sua escrita constitui um verdadeiro ato de resistência. Ao narrar sua vivência na favela, Carolina expõe as estruturas sociais de poder que marginalizam indivíduos e grupos, revelando desigualdades e mecanismos de exclusão. Ao mesmo tempo, seu diário permite a construção de uma voz própria, potente e autônoma, mostrando que mesmo sujeitos historicamente silenciados podem afirmar sua subjetividade e atuar como agentes capazes de intervir, questionar e transformar a realidade que os cerca.

Na perspectiva de Michel Foucault, a análise do discurso não tem como objetivo revelar um sentido oculto ou uma verdade última presente em um enunciado. Em vez disso, busca compreender a formação discursiva, isto é, as regras, condições e convenções que tornam determinado discurso possível em um tempo e espaço específicos. Foucault propõe analisar como os discursos são produzidos, distribuídos, selecionados e apropriados, destacando que cada enunciado está inserido em redes de relações de poder. Essa abordagem permite identificar não apenas como certas ideias e narrativas se tornam dominantes, mas também como produzem efeitos concretos sobre os indivíduos e a sociedade, moldando comportamentos, definições de verdade e modos de existência.

Aplicando essa perspectiva à obra de Carolina Maria de Jesus, é possível compreender que seu diário não é apenas um relato pessoal, mas um discurso que questiona normas sociais, denuncia exclusões e cria espaço para a subjetividade e resistência de indivíduos marginalizados.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com este trabalho, buscamos construir uma perspectiva ampla sobre a representação da mulher negra na obra de Carolina Maria de Jesus, articulando reflexões provenientes tanto das teorias discursivas foucaultianas quanto de reflexões das desigualdades sociais da mulher negra, enfatizando a relação entre poder, discurso e produção de verdade. Nosso objetivo foi compreender como a autora, a partir de sua experiência de vida, constrói uma narrativa que revela as condições de marginalização, as desigualdades estruturais e, ao mesmo tempo, as estratégias de resistência adotadas pelas mulheres negras em contextos de pobreza e exclusão social.

Para fundamentar nossa análise, iniciamos pelo exame da vida e trajetória de Carolina Maria de Jesus, destacando sua vivência na favela do Canindé, espaço que não apenas moldou sua experiência cotidiana, mas também constituiu o principal cenário de seus escritos. Essa contextualização é fundamental para compreender que a obra da autora não se limita a um relato pessoal, mas se configura como documento social e testemunho de um contexto histórico marcado por profundas desigualdades. Ao acompanhar sua trajetória desde a infância até o reconhecimento literário, percebemos como as experiências de trabalho, maternidade e sobrevivência moldaram sua percepção do mundo e sua sensibilidade crítica diante das relações de poder. A análise do discurso em Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, à luz dos estudos de Michel Foucault exibindo exclusões históricas.

Portanto, a leitura da obra de Carolina Maria de Jesus à luz de Foucault nos permite compreender que o discurso não é neutro, mas sim uma prática que constrói e questiona relações de poder. A autora revela as estruturas sociais que marginalizam, expõe as contradições do cotidiano e, ao mesmo tempo, cria alternativas de existência. Seu diário, nesse sentido, não apenas documenta uma realidade específica, mas também se configura como um instrumento de resistência e afirmação da subjetividade feminina negra.

Ao refletirmos sobre a obra de Carolina Maria de Jesus à luz da análise do discurso de Michel Foucault, torna-se ainda mais evidente a complexidade das relações de poder que atravessam seu texto. Compreender a escrita de Carolina implica, antes de tudo, situá-la no contexto de sua própria experiência de vida na favela, onde as condições de pobreza, exclusão e desigualdade estruturam o cotidiano de seus habitantes.

Nesse cenário, a obra adota uma abordagem crítica, na qual o relato pessoal se transforma em denúncia social. Cada enunciado de Carolina evidencia como as estruturas de poder, tanto macro quanto micro, operam sobre indivíduos e grupos marginalizados, influenciando suas condições de existência, relações familiares e oportunidades de sobrevivência. Ao narrar sua realidade, a autora não apenas documenta a experiência cotidiana, mas também tensiona os discursos dominantes, dando visibilidade a sujeitos historicamente silenciados e desafiando normas sociais estabelecidas.

Dessa forma, o diário de Carolina Maria de Jesus constitui-se como prática discursiva que articula denúncia, resistência e afirmação da subjetividade, permitindo compreender que o poder não é apenas repressivo, mas também produtivo, moldando comportamentos, relações e possibilidades de ação dentro de um contexto de extrema vulnerabilidade.

É notável que, apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas ao longo de sua vida, Carolina Maria de Jesus mantém uma postura crítica, revelando-se como alguém que conhece a realidade social “na própria pele” e compreende o funcionamento do “mundo” político dentro de sua comunidade. Essa percepção aguçada permite à autora analisar e denunciar não apenas as desigualdades estruturais, mas também as dinâmicas de poder que regulam a vida cotidiana na favela.

Ao longo dos enunciados de sua obra, identificam-se diversos momentos de resistência à violência simbólica, econômica e física a que os moradores são submetidos. Por meio de sua escrita, Carolina evidencia a opressão sofrida e simultaneamente produz formas de contestação, questionando normas sociais, relações familiares e hierarquias impostas. Dessa forma, o diário se torna não apenas um registro da experiência individual, mas uma prática discursiva que denuncia injustiças e afirma a agência de sujeitos marginalizados, transformando a literatura em um instrumento de visibilidade e resistência social.

Por fim, no campo do exercício do poder, observa-se que, embora o título do diário sugira uma leitura centrada na luta de classes, o desenvolvimento do relato revela a presença constante de complexas relações de forças discursivas. A escrita de Carolina Maria de Jesus evidencia tanto a resistência ao poder dentro de sua rede quanto o exercício do poder enquanto forma de agência, pois o diário apresenta enunciados que demonstram como essas relações se articulam, se tensionam e se reproduzem no cotidiano da favela.

Em outras palavras, a obra não se limita a narrar experiências de opressão; ela constrói um espaço de reflexão sobre os mecanismos de poder, evidenciando como sujeitos marginalizados podem se posicionar e intervir em suas próprias vidas. Analisar Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada à luz dos conceitos de discurso de Michel Foucault permite compreender que a escrita de Carolina Maria de Jesus não é apenas testemunho, mas prática social e política.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ORLANDI, E. P. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos. Campinas, SP: Pontes editores, 1990.


1 Docente do Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Pará (PPGEL/UFPA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente de mestrado no Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Pará (PPGEL/UFPA). Graduada em Letras/Língua Espanhola pela da Universidade Federal do Pará (UFPA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail