AUTISMO E DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: CONTRIBUIÇÕES DA PSICOPEDAGOGIA
PDF: Clique aqui
REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.16998001
Daniela Ribeiro Teixeira Santos1
RESUMO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresenta desafios específicos no processo de aprendizagem e requer práticas educacionais adaptadas que respeitem as singularidades de cada sujeito. Diante disso, cresce a necessidade de reflexões interdisciplinares que articulem saúde, educação e desenvolvimento humano, especialmente no contexto escolar. Este trabalho tem como objetivo investigar as contribuições da psicopedagogia no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma revisão integrativa da literatura, abrangendo estudos publicados entre 2012 e 2024. A análise dos textos revelou que as dificuldades enfrentadas por crianças com TEA na escola vão além do aspecto cognitivo, envolvendo barreiras sociais, emocionais, comunicacionais e pedagógicas. Verificou-se que a atuação psicopedagógica se mostra essencial na mediação entre aluno, escola e família, promovendo práticas educativas adaptadas, construídas a partir das necessidades e potencialidades do sujeito. A psicopedagogia, ao considerar a singularidade da criança com autismo, contribui de forma significativa para sua inclusão escolar e desenvolvimento integral.
Palavras-chave: Autismo. Dificuldades de Aprendizagem. Psicopedagogia.
ABSTRACT
Autism Spectrum Disorder (ASD) presents specific challenges in the learning process and requires educational practices adapted to respect the uniqueness of each individual. In this context, there is a growing need for interdisciplinary reflections that connect health, education, and human development, especially within the school environment. This study aims to investigate the contributions of psychopedagogy in addressing learning difficulties in children with Autism Spectrum Disorder. The research was developed through an integrative literature review, covering studies published between 2012 and 2024. The analysis revealed that the difficulties faced by children with ASD in school go beyond cognitive aspects, involving social, emotional, communicational, and pedagogical barriers. The psychopedagogical approach proves to be essential in mediating the relationship between student, school, and family, promoting adapted educational practices built upon the needs and potential of each learner. Psychopedagogy, by considering the singularity of the autistic child, contributes significantly to their school inclusion and overall development.
Keywords: Autism. Learning Difficulties. Psychopedagogy.
1 INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que tangencia, em muitos níveis diferentes, como na comunicação, na interação social e no comportamento do indivíduo. Caracteriza-se por um espectro amplo de manifestações, que mudam desde formas mais simples até quadros que exigem maior suporte. Segundo o DSM-5 que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (2013), o autismo pode ser observado ainda na infância, embora os sinais possam se tornar mais evidentes à medida que as exigências sociais aumentam.
Crianças com TEA geralmente apresentam dificuldades na linguagem verbal e não verbal, padrões restritos e repetitivos de comportamento e uma forma peculiar de perceber e interagir com o mundo. Tais características influenciam diretamente seu processo de aprendizagem, demandando práticas educacionais diferenciadas, sensíveis às suas necessidades. Diante disso, compreender o autismo é fundamental para que profissionais da educação e da psicopedagogia possam atuar de maneira eficaz na promoção da inclusão e no desenvolvimento do potencial de cada discente.
O tema desse artigo surgiu a partir do crescente número de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que enfrentam desafios significativos no ambiente escolar. A escolha por esta temática se deu em razão da vivência prática em contextos educacionais inclusivos, nos quais se observou a necessidade urgente de compreender melhor as dificuldades de aprendizagem associadas ao autismo e o papel fundamental da psicopedagogia na mediação desse processo. O estudo busca refletir e aprofundar os conhecimentos sobre como o psicopedagogo pode atuar de forma eficaz na identificação, acolhimento e intervenção junto as crianças com TEA, contribuindo para seu desenvolvimento global e inclusão escolar significativa.
Esta pesquisa justifica-se pela importância e urgência em discutir as interfaces entre o autismo, as dificuldades de aprendizagem e as práticas psicopedagógicas, uma vez que o número de diagnósticos de TEA aumentou consideravelmente nos últimos anos, conforme estudos nacionais como os de Ferreira & França (2017) e Novaes & Freitas (2024). Ainda há lacunas na formação de professores e psicopedagogos no que se refere às práticas pedagógicas adaptadas, à compreensão das características cognitivas e emocionais do aluno autista, e à elaboração de estratégias que favoreçam o aprendizado. Dessa forma, este trabalho pretende contribuir para o campo da Psicopedagogia, oferecendo reflexões teóricas e práticas para o atendimento a crianças com TEA, favorecendo sua aprendizagem e participação ativa na escola.
O problema de pesquisa que orienta esta produção acadêmica é: Qual o entendimento que a literatura vigente tem acerca das principais dificuldades de aprendizagem apresentadas por crianças com autismo e de que forma a psicopedagogia pode contribuir para superá-las no contexto escolar? A partir desta questão norteadora, buscou-se compreender quais barreiras cognitivas, emocionais e sociais mais implicam na aprendizagem dos estudantes com TEA e de que maneira a atuação psicopedagógica pode favorecer a inclusão e o desenvolvimento dessas crianças.
Diante disso, o objetivo geral deste trabalho é investigar, a partir da literatura, as contribuições da psicopedagogia no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem em crianças com Transtorno do Espectro Autista. Como objetivos específicos, pretende-se: compreender as características do autismo que interferem diretamente no processo de aprendizagem; analisar o papel do psicopedagogo no diagnóstico, acompanhamento e intervenção junto a esses sujeitos e; apresentar estratégias psicopedagógicas eficazes para promover a aprendizagem de crianças com TEA. Esses objetivos serão explorados ao longo dos capítulos que compõem esta pesquisa
Este trabalho está dividido em três capítulos, além da introdução, percurso metodológico, considerações finais e referências. O Capítulo 1 aborda o as características do autismo que interferem diretamente no processo de aprendizagem. O Capítulo 2 trata do papel do psicopedagogo no diagnóstico, acompanhamento e intervenção junto a esses sujeitos. Já o Capítulo 3 discute as contribuições da psicopedagogia frente a essas dificuldades, apresentando práticas de intervenção, recursos didáticos, e a mediação entre escola, família e equipe multidisciplinar.
A metodologia adotada neste trabalho é de natureza qualitativa, com abordagem bibliográfica, a partir da análise de produções acadêmicas, livros e artigos científicos. Os principais autores que fundamentam o estudo são: Ferreira & França (2017), sobre as dimensões do autismo e suas implicações escolares; e Matos et al. (2012), referência nos fundamentos da psicopedagogia. Também foram utilizados documentos legais e orientações educacionais sobre a educação inclusiva, como a Política Nacional de Educação Especial (2008). A pesquisa buscou, por meio da revisão teórica, identificar possibilidades de atuação psicopedagógica que favoreçam o processo de aprendizagem de crianças com TEA, respeitando suas especificidades e promovendo uma educação mais humana, acolhedora e eficaz.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A psicopedagogia é um campo interdisciplinar que estuda o processo de aprendizagem humana, considerando aspectos cognitivos, emocionais, sociais e culturais. Segundo Scoz (1992), a psicopedagogia busca compreender a aprendizagem em sua totalidade, investigando tanto as condições normais quanto patológicas do aprender.
Neves (1991) destaca que a psicopedagogia deve analisar de forma integrada as realidades internas e externas do sujeito, levando em conta as influências da família, da escola e da sociedade. Para Bossa (2000, p. 32), "a psicopedagogia articula o afetivo e o cognitivo, entendendo que aprender é um processo de construção que envolve vínculos e significados".
Nessa perspectiva, Fernández (1991) ressalta que o aprender é uma experiência ativa e relacional, mediada pelo outro e marcada por elementos subjetivos que interferem no desempenho escolar. Portanto, a psicopedagogia não se limita a intervir nos sintomas das dificuldades de aprendizagem, mas busca compreender a raiz do problema e propor estratégias de mediação.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é definido como uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits na comunicação, dificuldades de interação social e comportamentos restritivos ou repetitivos (APA, 2013). Essas características impactam diretamente o processo de aprendizagem, demandando metodologias específicas e personalizadas.
Segundo Bernardi (2019), muitas crianças autistas apresentam dificuldades adicionais, como hipersensibilidade ou hipossensibilidade sensorial, que interferem no engajamento escolar. Isso pode resultar em desafios para acompanhar conteúdos, interagir com colegas e compreender instruções, caracterizando-se como dificuldades de aprendizagem relacionadas ao espectro.
Vygotsky (1997) contribui para o entendimento de que o desenvolvimento cognitivo está ligado ao meio social e cultural. Dessa forma, as crianças com TEA necessitam de mediações pedagógicas e psicopedagógicas que respeitem suas especificidades e, ao mesmo tempo, promovam sua inclusão em práticas educativas coletivas.
A psicopedagogia, ao atuar junto a crianças com autismo, busca compreender como se dá o processo de aprendizagem individual e quais obstáculos estão presentes. Uzêda (2019) enfatiza que o psicopedagogo precisa investigar como o sujeito percebe o mundo, integra informações e organiza suas respostas cognitivas e emocionais. Dessa forma, Oliveira & Albuquerque (2021) defendem o uso de estratégias específicas, como o método fônico para alfabetização, que favorece a associação entre estímulos visuais e auditivos, ampliando as possibilidades de leitura e escrita de alunos com TEA.
3 METODOLOGIA
Este trabalho adota uma perspectiva qualitativa, buscando compreender, de forma aprofundada, a realidade investigada a partir de contextos específicos e da interpretação dos significados atribuídos pelos sujeitos envolvidos. Para alcançar os objetivos propostos, optou-se pela Revisão Bibliográfica como método de pesquisa. Segundo Gil (2008), a abordagem qualitativa se caracteriza por explorar fenômenos sociais, culturais e comportamentais a partir do olhar dos participantes e de seus contextos, utilizando técnicas como entrevistas, observações, grupos de discussão e análise documental. Trata-se de um tipo de investigação que valoriza a subjetividade, a complexidade das relações humanas e as particularidades de cada situação.
A revisão integrativa, finalmente, é a mais ampla abordagem metodológica referente às revisões, permitindo a inclusão de estudos experimentais e não-experimentais para uma compreensão completa do fenômeno analisado. Combina também dados da literatura teórica e empírica, além de incorporar um vasto leque de propósitos: definição de conceitos, revisão de teorias e evidências, e análise de problemas metodológicos de um tópico particular. (Souza; Silva & Carvalho, 2010)
A condução da revisão seguiu as etapas sistematizadas por Mendes, Silveira & Galvão (2008), que incluem: a formulação da pergunta de pesquisa, a seleção criteriosa dos estudos primários, a extração e organização dos dados, a análise crítica dos resultados encontrados, bem como a apresentação final dos achados. Essas fases garantem a consistência do processo investigativo, além de possibilitar uma leitura articulada e reflexiva sobre o conteúdo reunido, conforme ilustrado na Figura 1 deste trabalho.
Figura 1. Fases da revisão bibliográfica
Para garantir a qualidade e a coerência dos estudos selecionados nesta pesquisa, foram definidos previamente critérios bem delimitados de inclusão e exclusão. Esses parâmetros consideraram a pertinência dos trabalhos em relação à temática investigada, o tipo de abordagem metodológica adotada, o período de publicação, bem como a credibilidade científica das fontes. Dentro desse escopo, foram considerados elegíveis para compor o corpus da revisão os artigos originais que tratassem da relação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e as contribuições da psicopedagogia, desde que estivessem acessíveis gratuitamente, tivessem sido publicados entre janeiro de 2012 e junho de 2025, escritos em língua portuguesa e classificados como: estudos de caso, revisões sistemáticas, pesquisas individuais com validade metodológica reconhecida ou análises baseadas em dados avaliativos de programas educacionais.
Por outro lado, foram descartados os materiais que não estivessem disponíveis na íntegra, os que apresentassem duplicidade, bem como textos de caráter opinativo, notas prévias, editoriais, notícias, relatos informais, dissertações, teses e outros documentos que não configurassem produções científicas consolidadas.
A coleta dos materiais foi realizada por meio de busca na base científica Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), considerando o intervalo temporal de janeiro de 2012 a junho de 2025. Para tornar a busca mais precisa, foram empregados descritores, o que possibilitou filtrar os resultados de maneira eficiente. Os termos utilizados como palavras-chave foram: “autismo”, “dificuldade”, “aprendizagem” e “psicopedagogia”, associados entre si pelo operador “AND”, com o objetivo de localizar publicações que dialogassem diretamente com o foco desta investigação.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
A partir dos resultados obtidos nas buscas e considerando os critérios previamente estabelecidos para inclusão e exclusão, iniciou-se a triagem inicial dos materiais. Nessa etapa, procedeu-se à leitura atenta dos títulos e resumos dos artigos identificados, com o intuito de verificar sua correspondência com a temática central da pesquisa. Os estudos que demonstraram coerência com a questão investigativa, apresentando de forma objetiva seus propósitos, abordagem metodológica e principais conclusões, foram selecionados para compor o conjunto preliminar de análise e devidamente contabilizados.
Figura 2. Fluxograma da seleção dos estudos.
Para tornar a apresentação dos estudos incluídos nesta revisão integrativa mais organizada e acessível, optou-se por sistematizá-los no Quadro 1. Os artigos foram distribuídos, conforme o ano de publicação, e acompanhados de informações essenciais como nome dos autores, título do trabalho, metodologia empregada e os objetivos propostos em cada estudo analisado. Essa disposição busca oferecer uma visão clara e objetiva do conteúdo selecionado, facilitando a compreensão do leitor quanto à relevância e ao escopo de cada produção científica.
Quadro 1. Distribuição de produção científica sobre TEA e as contribuições psicopedagógicas.
Nº | ANO | AUTOR | TÍTULO | OBJETIVOS |
01 | 2017 | Ferreira & França | O Autismo e as Dificuldades no Processo de Aprendizagem Escolar | Compreender o processo de aprendizagem da criança autista no ambiente escolar. |
02 | 2021 | Lima | Inclusão e autismo: contribuições da Psicopedagogia | Enfatizar a importância de um currículo centrado em práticas pedagógicas que favoreçam a aprendizagem e a inclusão escolar e social do aluno com autismo, num esforço coletivo, em detrimento das concepções errôneas do déficit e da patologização. |
03 | 2023 | Barcelos & Martins | Contribuições da psicopedagogia no processo de ensino-aprendizagem de crianças com transtorno do espectro do autismo | Verificar como a psicopedagogia pode contribuir no processo de ensino-aprendizagem de crianças com TEA. |
04 | 2012 | Matos et al. | A contribuição de Wallon para o desenvolvimento e aprendizagem da criança autista | Avaliar a Intervenção Pedagógica com base na Teoria de Henri Wallon em educandos com autismo, oportunizando-lhes subsídios para maior interação no convívio social. |
05 | 2024 | Novaes & Freitas | A constituição da criança com autismo: Diagnóstico e suas implicações | Compreender como a questão do diagnóstico do desenvolvimento infantil é tratada por Lev Vigotski em seus estudos sobre a deficiência e, a partir daí, refletir sobre como diagnóstico de autismo tem sido produzido historicamente e seus impactos na constituição da subjetividade da criança que o recebe. |
Fonte: Elaborado pela autora (2025).
Nesses capítulos serão apresentados a análise e discussão dos estudos selecionados na revisão integrativa, a fim de compreender as contribuições da psicopedagogia no enfrentamento das dificuldades de aprendizagem em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Foram considerados cinco trabalhos que, apesar das diferentes abordagens, dialogam entre si no que diz respeito à inclusão escolar, às barreiras enfrentadas por alunos autistas e à atuação do psicopedagogo como mediador no processo educacional.
De modo geral, os textos convergem na compreensão de que o autismo impacta significativamente a aprendizagem, sobretudo pelas dificuldades de comunicação, interação social e flexibilidade de pensamento. Trabalhos como os de Ferreira & França (2017) e Matos et al. (2012) evidenciam essas características, apontando para a necessidade de adaptações metodológicas no ambiente escolar. Barcelos & Martins (2023) ampliam essa discussão ao mostrar que a atuação do psicopedagogo favorece tanto o desenvolvimento cognitivo quanto emocional, especialmente quando mediada pelo afeto e pela escuta ativa.
A partir da análise dos estudos, foi possível constatar que os principais desafios enfrentados por crianças com TEA na escola estão relacionados à falta de preparo docente, à rigidez curricular, à ausência de estratégias de ensino individualizadas e à carência de ações interdisciplinares. Nesse sentido, o papel do psicopedagogo emerge como fundamental na mediação entre os diversos agentes do processo educacional (aluno, escola e família), como reforçado por Cunha (2019), que defende a importância da elaboração de currículos funcionais e do uso de metodologias adaptadas à singularidade do aluno.
Outro ponto relevante está no modo como a psicopedagogia contribui para além do diagnóstico clínico, propondo uma abordagem humanizada, afetiva e contextualizada. Novaes & Freitas (2024), por exemplo, criticam a visão medicalizante do diagnóstico e apontam que o desenvolvimento da criança autista depende do reconhecimento de sua subjetividade, o que é totalmente compatível com os princípios da psicopedagogia. Essa perspectiva também é reforçada por Cunha (2019) ao destacar que o trabalho psicopedagógico deve considerar o sujeito em sua totalidade, não apenas suas limitações, mas também suas potencialidades.
Por fim, os dados analisados permitem afirmar que a psicopedagogia, enquanto prática interdisciplinar e reflexiva, pode promover avanços significativos no processo de ensino-aprendizagem de alunos com TEA. Ao se comprometer com a inclusão escolar de forma ética, afetiva e estratégica, o psicopedagogo torna-se um agente indispensável na construção de uma educação mais justa, equitativa e humanizadora.
4.1 As características do autismo que interferem diretamente no processo de aprendizagem
Mediante as análises dos estudos nota-se que os autores Ferreira & França (2017) descrevem as barreiras cognitivas e sociais que as crianças autistas enfrentam na escola, como dificuldades de socialização, organização, atenção, comunicação verbal e não verbal. Para Novaes & Freitas (2024) aprofundam esse ponto ao mostrar como a ênfase no diagnóstico pode limitar a percepção das potencialidades da criança. O estudo propõe uma leitura cultural e histórica do autismo que se contrapõe à abordagem puramente clínica, enfatizando que a aprendizagem depende da relação com o outro e da participação social.
Para Cunha (2019) o TEA é uma condição complexa, que não apresenta um padrão único, e que se manifesta por meio de três principais áreas de comprometimento: comunicação, interação social e comportamentos repetitivos. O autor detalha sintomas como dificuldade na linguagem, sensibilidade sensorial, alterações na cognição, hiperatividade e estereotipias, que impactam diretamente a aprendizagem. Além disso, ele afirma que o desenvolvimento de habilidades sociais e a autonomia devem preceder o aprendizado acadêmico, uma visão essencial para o planejamento pedagógico de crianças com TEA.
Todavia, Matos et al. (2012) descrevem manifestações comportamentais e cognitivas comuns no autismo, como agitação, isolamento, dificuldades de atenção e linguagem, e ressaltam a importância de compreender essas características para criar intervenções adequadas. Desse modo, os estudos mostram que as dificuldades de aprendizagem no autismo são multifatoriais (neurobiológicas, sociais e afetivas) e que compreendê-las é essencial para elaborar estratégias pedagógicas eficazes e não reducionistas.
4.2 O papel do psicopedagogo no diagnóstico, acompanhamento e intervenção junto a esses sujeitos
Ao que tange a função do psicopedagogo no diagnóstico, acompanhamento e intervenção com as crianças, os autores Barcelos & Martins (2023) apontam o despreparo das instituições e a dificuldade de adaptação metodológica como grandes desafios, além da necessidade de individualizar o ensino com apoio psicopedagógico. Ainda nesse assunto, Ferreira & França (2017) mencionam a carência de professores qualificados e as dificuldades de adaptação à rotina escolar, indicando que o ambiente educacional ainda apresenta barreiras à inclusão efetiva.
Cunha (2019) evidencia que os desafios enfrentados pelos alunos autistas vão além da falta de recursos materiais. Ele cita a falta de formação adequada dos professores, a rigidez dos currículos tradicionais, e a fragilidade da parceria entre escola e família como entraves para uma inclusão real. O autor destaca que o sucesso da aprendizagem depende de um currículo funcional, construído a partir de avaliações individualizadas, e que leve em conta os interesses, necessidades e potencialidades da criança, sempre com o suporte afetivo de educadores preparados.
Novaes & Freitas (2024) argumentam que a hegemonia das práticas biologizantes nas escolas reduz o aluno ao diagnóstico, limitando suas oportunidades de desenvolvimento pleno. Os autores Matos et al. (2012) identificam a resistência de alguns educadores em lidar com comportamentos atípicos e a falta de compreensão sobre a diversidade de manifestações do espectro. Sendo assim, o ambiente escolar ainda precisa avançar na formação de professores, na flexibilização curricular e na construção de práticas inclusivas. A atuação psicopedagógica é fundamental para mediar esse processo e garantir a permanência com qualidade.
4.3 Estratégias psicopedagógicas eficazes para promover a aprendizagem de crianças com TEA
Conforme essa tema Barcelos & Martins (2023) colocam o psicopedagogo como figura essencial tanto para avaliação quanto para intervenção, destacando seu trabalho interdisciplinar com outros profissionais da saúde e educação. Entretanto, Novaes & Freitas (2024) não tratam diretamente do psicopedagogo, mas defendem uma atuação que vá além do diagnóstico clínico, sendo compatível com os princípios éticos e metodológicos da psicopedagogia, ao propor um olhar humanizado, crítico e não reducionista sobre a criança com TEA.
Todavia, para Cunha (2019) apresenta o profissional psicopedagogo como alguém que deve atuar de forma ética, interdisciplinar e sensível, indo além da identificação de dificuldades. Sua proposta é que o psicopedagogo contribua diretamente para a elaboração de práticas educativas inclusivas, adaptadas à singularidade do aprendente autista, e que articule escola, família e equipe multidisciplinar. Para ele, o olhar psicopedagógico deve ser também um olhar afetivo, pois “é para o amor que educamos”.
Matos et al. (2012) apresentam uma atuação que, embora pedagógica, dialoga com os fundamentos psicopedagógicos, especialmente ao aplicar a teoria de Wallon de forma integrada e contextualizada. Desse modo, pode-se notar a partir da análise dos estudos que a atuação do psicopedagogo deve estar centrada na escuta ativa, na mediação entre os saberes (escola, família e equipe de saúde) e na construção de estratégias adaptadas que respeitem a singularidade de cada criança. Ele atua não apenas para "corrigir" dificuldades, mas para potencializar aprendizagens.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve como proposta compreender, por meio de uma revisão bibliográfica, de que maneira a psicopedagogia pode contribuir para o enfrentamento das dificuldades de aprendizagem vivenciadas por crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A análise dos estudos selecionados permitiu identificar que o psicopedagogo exerce um papel essencial no processo de inclusão escolar, atuando como mediador entre o aluno, a escola e a família, e sendo responsável por propor práticas educativas adaptadas às especificidades de cada criança. Ao mesmo tempo, foi possível compreender que a atuação psicopedagógica não deve se limitar ao diagnóstico ou à tentativa de “corrigir” dificuldades, mas sim ampliar possibilidades, respeitando a singularidade de cada sujeito.
As pesquisas consultadas evidenciaram que as dificuldades de aprendizagem no contexto do TEA não se restringem apenas aos aspectos cognitivos, mas envolvem questões emocionais, sociais, sensoriais e comunicacionais. Tais desafios se intensificam quando o ambiente escolar não está preparado para acolher a diversidade, revelando a urgência de formações continuadas para professores, bem como de uma prática psicopedagógica fundamentada, ética e humanizada. Os estudos também apontaram que metodologias e práticas baseadas no afeto e no vínculo são estratégias valiosas no contexto da aprendizagem e da convivência, principalmente quando articuladas por um psicopedagogo que compreende as reais demandas da criança com TEA.
Diante do que foi discutido ao longo do trabalho, os objetivos inicialmente propostos foram alcançados: foi possível compreender as principais características do autismo que interferem na aprendizagem, identificar os desafios enfrentados no contexto escolar e analisar, com respaldo teórico, o papel da psicopedagogia nesse cenário. A questão norteadora da pesquisa — sobre como a psicopedagogia pode auxiliar na superação das dificuldades de aprendizagem no autismo — foi respondida por meio do diálogo entre diferentes autores, que demonstraram que a atuação psicopedagógica é capaz de transformar o percurso educacional dessas crianças, desde que seja pautada pelo respeito, pela escuta ativa e pela construção coletiva do conhecimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (5ª ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.
BARCELOS, Kaio da Silva; MARTINS, Morgana de Fátima Agostini. CONTRIBUIÇÕES DA PSICOPEDAGOGIA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO. Revista Valore, [S. l.], v. 8, p. e-8054, 2023. DOI: 10.22408/reva8020231073e-8054. Disponível em: https://revistavalore.emnuvens.com.br/valore/article/view/1073. Acesso em: 02 jun. 2025.
BERNARDI, M. Autismo: desafios e possibilidades na aprendizagem escolar. São Paulo: Cortez, 2019.
BOSSA, Nádia A. A psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.
BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
FERREIRA, Mônica Misleide Matias; FRANÇA, Aurenia Pereira de. O Autismo e as Dificuldades no Processo de Aprendizagem Escolar. ID on line. Revista de psicologia, [S. l.], v. 11, n. 38, p. 507–519, 2017. DOI: 10.14295/idonline.v11i38.916. Disponível em: https://idonline.emnuvens.com.br/id/article/view/916. Acesso em: 02 jun. 2025.
GIL, Antônio. Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
LIMA, Merianne da Silva. Inclusão e Autismo: contribuições da Psicopedagogia. Cadernos do Aplicação, Porto Alegre, v. 34, n. 2, 2021. DOI: 10.22456/2595-4377.111349. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/CadernosdoAplicacao/article/view/111349. Acesso em: 02 jun. 2025.
MATOS, M. A. de S.; BRAGA, G. V.; STELLI, M. N. M.; CHAVES, N. dos S.; DA SILVA, R. M. M.; JUNIOR, S. V. da S. A contribuição de Wallon para o desenvolvimento e aprendizagem da criança autista. Revista ELO – Diálogos em Extensão, [S. l.], v. 1, n. 1, 2015. DOI: 10.21284/elo.v1i1.2. Disponível em: https://periodicos.ufv.br/elo/article/view/981. Acesso em: 02 jun. 2025.
MENDES, K. D. S.; SILVEIRA, R. C. DE C. P.; GALVÃO, C. M. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto & Contexto - Enfermagem, v. 17, n. 4, p. 758–764, out. 2008.
NEVES, Maria Aparecida. Psicopedagogia: uma introdução. São Paulo: Loyola, 1991.
NOVAES, Daniel; FREITAS, Ana Paula de. A constituição da criança com autismo: Diagnóstico e suas implicações. Rev. Psicopedagogia, v,41, (124):21-32, 2024. Disponível em: https://cdn.publisher.gn1.link/revistapsicopedagogia.com.br/pdf/v41n124a03.pdf. Acesso em: 02 jun. 2025.
OLIVEIRA, J.; ALBUQUERQUE, A. Métodos de alfabetização em crianças com TEA: contribuições da psicopedagogia. Revista Psicopedagogia, v. 38, n. 117, p. 25-36, 2021.
SCOZ, Beatriz. Psicopedagogia e realidade escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.
SOUZA, M. T.; SILVA, M. D.; CARVALHO, R. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein (São Paulo), v. 8, p. 102-106, 2010.
UZÊDA, M. C. Transtorno do espectro autista: diagnóstico e intervenção psicopedagógica clínica. Revista Psicopedagogia, v. 36, n. 109, p. 85-95, 2019.
VIGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
1 Mestranda em Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – IF Baiano. E-mail: [email protected]