AS LENTES E AS ESTRELAS: UMA CARTOGRAFIA POÉTICA DOS PARADIGMAS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18475423
Lucas Freitas de Souza1
RESUMO
Este artigo empreende uma cartografia teórico-reflexiva dos paradigmas que fundamentam a construção do conhecimento científico, com especial enfoque nas Ciências Sociais. Partindo da concepção kuhniana de paradigma como lente interpretativa que transcende a escolha metodológica, argumenta-se que estas estruturas definem os problemas investigativos legítimos, os métodos válidos e os critérios de validade, funcionando simultaneamente como bússolas orientadoras e fronteiras limitadoras da “ciência normal”. O trabalho mapeia criticamente três tradições paradigmáticas centrais: o paradigma positivista/quantitativo, voltado à generalização e causalidade; o paradigma interpretativo/qualitativo, focado na singularidade e nos significados dos atores sociais; e o paradigma sociocrítico, comprometido com a emancipação social. Mediante revisão teórica, demonstra-se como cada paradigma configura uma relação específica entre sujeito e objeto do conhecimento, produzindo tipos distintos de saber. Conclui-se que o rigor científico reside não na ilusória neutralidade, mas na consciência reflexiva do enquadramento paradigmático adotado, defendendo que o avanço do conhecimento emerge da tensão dialógica e da evolução entre paradigmas, e não da hegemonia de um modelo único.
Palavras-chave: Paradigmas Científicos, Ciência Normal, Pesquisa Qualitativa, Pesquisa Quantitativa, Construção do Conhecimento.
ABSTRACT
This article undertakes a theoretical-reflective cartography of the paradigms that underpin the construction of scientific knowledge, with special focus on the Social Sciences. Starting from the Kuhnian conception of paradigm as an interpretive lens that transcends methodological choice, it is argued that these structures define legitimate research problems, valid methods, and validity criteria, simultaneously functioning as guiding compasses and limiting boundaries of “normal science”. The work critically maps three central paradigmatic traditions: the positivist/quantitative paradigm, oriented toward generalization and causality; the interpretive/qualitative paradigm, focused on the singularity and meanings of social actors; and the sociocritical paradigm, committed to social emancipation. Through theoretical review, it is demonstrated how each paradigm configures a specific relationship between subject and object of knowledge, producing distinct types of understanding. It is concluded that scientific rigor resides not in illusory neutrality, but in reflexive awareness of the adopted paradigmatic framework, arguing that the advancement of knowledge emerges from the dialogical tension and evolution among paradigms, rather than from the hegemony of a single model.
Keywords: Scientific Paradigms, Normal Science, Qualitative Research, Quantitative Research, Knowledge Construction.
1. INTRODUÇÃO
Em sua jornada pelo desconhecido, o espírito científico não caminha sobre a terra firme da observação pura, mas navega por mares interpretativos já cartografados. Esses mapas do pensamento, batizados por Kuhn (2018) como paradigmas, são os alicerces invisíveis — quase a poesia silenciosa — que orientam, validam e conferem legitimidade à prática científica em sua era. Um paradigma é, assim, a constelação de teorias, métodos e valores compartilhados por uma comunidade de investigadores, funcionando como um “modelo ou padrão aceito” que define quais enigmas são dignos de investigação, como decifrá-los e o que se considerará uma resposta válida.
Num contexto científico marcado pela crescente complexidade dos fenômenos sociais e por demandas de interdisciplinaridade, a reflexão sobre os paradigmas que fundamentam nossa produção de conhecimento torna-se particularmente urgente. As chamadas “guerras dos paradigmas”, que por décadas opuseram abordagens quantitativas e qualitativas, deram lugar a discussões mais matizadas sobre complementaridade metodológica, integração paradigmática e o surgimento de perspectivas dissidentes (Creswell, Clark, 2013; Johnson, Onwuegbuzie, Turner, 2007). Neste cenário, revisitar a noção kuhniana de paradigma oferece uma chave fundamental para compreender tanto a estabilidade quanto as transformações do conhecimento científico.
Neste cosmos ordenado, o paradigma exerce uma função análoga às estruturas ideológicas que fundam um discurso na linguística (Fiorin, 2000; Gregolin, 1995): é o solo comum onde floresce o sentido e o reconhecimento mútuo entre os pares. Ele rege a chamada ciência normal, conduzindo o labor dos pesquisadores não em direção ao verdadeiramente novo, mas sim ao aperfeiçoamento e articulação do já conhecido. Contudo, essa estabilidade paradigmática, ainda que essencial para conferir rigor e foco, carrega consigo uma dualidade: se por um lado consolida a autoridade e o poder explicativo de uma visão de mundo, por outro pode engendrar uma quietude intelectual, confinando o olhar do cientista aos fenômenos e métodos já consagrados. Dessa tensão, entre a estrutura necessária e o horizonte limitado, surge uma interrogação fundamental: de que modo a eleição de um paradigma influencia não apenas os caminhos da investigação, mas a própria gestação e leitura do objeto estudado?
A opção por uma “cartografia poética” justifica-se pela natureza mesma do objeto em análise: os paradigmas não são meros esquemas operativos, mas constelações de sentido que organizam nosso olhar sobre o mundo. Como sugere Morin (2005a), compreender a complexidade do conhecimento científico exige não apenas rigor analítico, mas também sensibilidade para as metáforas que estruturam nosso pensamento. Assim, as imagens das lentes, estrelas e mapas que percorrem este artigo buscam capturar a dimensão ao mesmo tempo técnica e existencial da escolha paradigmática. Um ato que é tanto metodológico quanto ético, tanto cognitivo quanto político.
Este artigo busca contribuir para esse debate através de uma análise teórico-reflexiva que tem como objetivo principal mapear as implicações epistemológicas, metodológicas e axiológicas dos principais paradigmas nas Ciências Sociais. Mais especificamente, almeja-se: (1) analisar a função dos paradigmas como estruturas que simultaneamente possibilitam e limitam a produção de conhecimento; (2) cartografar as três principais tradições paradigmáticas destacando seus pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos; e (3) argumentar que o rigor científico contemporâneo depende menos da ilusória neutralidade do que da consciência reflexiva do enquadramento paradigmático adotado e de sua explicitação transparente.
Para desenvolver esses argumentos, o artigo organiza-se em quatro partes principais. Primeiro, examina-se a concepção kuhniana de paradigma e sua função ambivalente na ciência normal, como bússola orientadora e fronteira limitadora. Em seguida, analisam-se as três principais tradições paradigmáticas nas Ciências Sociais, explorando como cada uma configura uma relação distinta entre sujeito e objeto do conhecimento. Na terceira parte, discutem-se abordagens contemporâneas como os métodos mistos e as críticas provenientes das epistemologias feministas, pós-coloniais e decoloniais. Por fim, apresentam-se considerações sobre o rigor científico na era da complexidade paradigmática, defendendo que o avanço do conhecimento reside na tensão criativa entre paradigmas, e não na hegemonia de um único modelo.
2. A CARTOGRAFIA DO OLHAR: PARADIGMAS COMO BÚSSOLAS E FRONTEIRAS NA CIÊNCIA
Toda pesquisa nasce e se desenvolve sob a égide de paradigmas que silenciosamente a orientam. Eles condensam axiomas, teorias, normas e valores que, em um dado tempo histórico, delimitam o que pode ser reconhecido como conhecimento legítimo pela comunidade científica (Coutinho, 2011). Assim como um enunciado só se torna discurso quando partilha condições de inteligibilidade, a pesquisa só adquire sentido quando se inscreve em um horizonte comum de pressupostos. Na linguística, a compreensão emerge do reconhecimento mútuo das estruturas ideológicas que sustentam o dizer (Fiorin, 2000; Gregolin, 1995; Maingueneau, 2008); na sociologia, essas mesmas estruturas atravessam, de modo reflexivo, os argumentos, os sujeitos e a própria sociedade, produzindo-se e reproduzindo-se reciprocamente (Giddens, Sutton, 2017). No campo científico, o paradigma cumpre função análoga: é ele que torna possível a validação, o reconhecimento e a circulação do saber em um determinado espaço-tempo.
Conforme formulado por Kuhn (2018), o paradigma designa o conjunto de compreensões compartilhadas que organiza o modo de pensar e praticar a ciência em contextos específicos. É, portanto, aquilo que define, em última instância, os modos de produção do conhecimento científico (Giddens, Sutton, 2017, p. 46). Trata-se de teorias e métodos consagrados como corretos, não por sua neutralidade, mas por serem considerados os mais eficazes frente a alternativas concorrentes (Kuhn, 2018; Rashid, et al., 2019). Esses referenciais funcionam como regras do jogo científico: ao segui-las, o pesquisador encontra as condições de validade de seu trabalho perante seus pares (Guba, Lincoln, 1994). Como em um quebra-cabeça, não lhe cabe questionar a forma das peças ou a razão de sua existência, mas ajustá-las ao arranjo previamente reconhecido como legítimo (Bartelmebs, 2012). É nesse gesto disciplinado, simultaneamente limitador e produtivo, que o conhecimento científico se torna possível.
O paradigma orienta a chamada ciência normal e conduz, de modo quase imperceptível, o olhar do cientista para métodos, técnicas, instrumentos e interpretações previamente consagrados como legítimos, exercendo um domínio que tende à totalização do pensar científico (Santos, 2008). Nesse horizonte, a pesquisa não se volta prioritariamente à invenção do novo, mas à reafirmação das estruturas já estabelecidas, buscando confirmar o próprio paradigma que a sustenta (Giddens, Sutton, 2017). O êxito científico passa, assim, pela verificação das correspondências entre pressupostos instituídos e fenômenos observados, funcionando como ratificação de suas virtudes internas (Morin, 2005a), mais do que como abertura à descoberta inédita (Kuhn, 2018). Como observa Bartelmebs (2012), longe de instaurarem o novo de forma deliberada, as experiências não se orientam pelo inédito, mas operam no gesto paciente de refinar, estabilizar e tornar mais nítido o conhecimento já disponível.
Ao instituir um paradigma, a ciência não apenas define procedimentos e critérios metodológicos, mas também seleciona os problemas considerados dignos de investigação, erigindo-os como os únicos passíveis de reconhecimento e incentivo pela comunidade científica. A recusa ou o afastamento dessas balizas tende a conduzir à deslegitimação tanto do estudo quanto de seu autor, ao passo que a dificuldade em ajustar um objeto às expectativas paradigmáticas não compromete o paradigma em si, mas recai sobre o cientista, entendido como incapaz de resolver adequadamente o quebra-cabeça proposto (Kuhn, 2018). Assim, no interior das disciplinas, os paradigmas dominantes delimitam não apenas como a ciência deve ser feita, mas também até onde o pensamento pode ir, exigindo que dados, teorias e interpretações se alinhem, em última instância, à ordem de sentido que os precede.
Embora implique uma restrição inegável do campo de atuação da ciência, não são apenas as leis e teorias que a sustentam: os procedimentos e usos do paradigma também se mostram indispensáveis, pois, tão decisivos quanto aqueles, moldam a prática científica e produzem efeitos de igual força estruturante (Kuhn, 2018). Os pressupostos paradigmáticos inerentes a cada ciência são impostos aos iniciados logo no começo de suas jornadas científicas. Seu ingresso, aceitação e pertencimento a este grupo está, logo de início, atrelado a aceitação do que lhe apresentado. São, desta forma, moldados conforme as delimitações estabelecidas pelo paradigma. Este processo leva ao desenvolvimento, semelhante ao expresso por Mills (1982, 2009b), de uma nova imaginação ou olhar que, quando estabilizado e compreendido, passará a visualizar e a correlacionar os fenómenos que estão ao alcance da visão do cientista ao paradigma. O que se torna visível a um sujeito não depende apenas do que se oferece ao olhar, mas também dos esquemas visuais e conceituais que sua experiência prévia lhe ensinou a reconhecer (Kuhn, 2018). É neste processo que se adquire a capacidade de observar e interpretar o objeto, seu contexto e suas ações sob um novo prisma (Resende, 2019; Resende, et al., 2021). A este ponto, é preciso esclarecer que qualquer tema pode se transformar em objeto de estudo e, conforme relembra Durand (2015), o que realmente define a investigação é o enfoque, a perspectiva ou o ângulo que o pesquisador escolhe adotar para desenvolvê-la.
O paradigma estabelece os contornos do que pode ser legitimamente investigado, na medida em que apenas certos problemas se mostram inteligíveis à luz de seus pressupostos. A ciência normal, nesse sentido, avança de forma cumulativa: seu êxito é, em grande parte, antecipado pela adesão aos objetos, métodos e fundamentos previamente reconhecidos como válidos. Quanto maior o alinhamento às diretrizes paradigmáticas, maiores são as chances de sucesso do estudo e, por conseguinte, de reconhecimento do cientista por sua comunidade de pares (Kuhn, 2018).
Embora possa parecer paradoxal, é assim que a ciência normal se desenvolve: não pela busca deliberada do inédito, mas pela repetição sistemática e pelo refinamento analítico de problemas já definidos como solucionáveis (Kuhn, 2018). A investigação opera menos como abertura ao novo e mais como articulação entre paradigmas estabelecidos e fenômenos por eles autorizados. A novidade emerge apenas quando, no interior desse quadro, surgem anomalias, tais como situações inesperadas, não previstas pelas hipóteses formuladas nem explicáveis pelos instrumentos disponíveis. Somente quando tais esforços de ajuste fracassam é que o novo se impõe como evidência.
Esse funcionamento produz efeitos ambíguos. De um lado, a acumulação de sucessos consolida a ciência normal como autoridade legítima sobre determinados fenômenos; de outro, estreita o horizonte de seus praticantes, induzindo-os a uma especialização restrita ao que o paradigma permite ver e pensar. Tal dinâmica confere rigidez à ciência e fomenta resistências à mudança paradigmática, frequentemente sustentadas pelo temor que toda transformação provoca (Kuhn, 2018; Harari, 2016). Como resultado, a ciência corre o risco de se tornar autorreferente e etnocêntrica, orientando-se menos pelo benefício social e mais pela afirmação de seus próprios critérios de validade e pela consagração de seus agentes.
A resistência às mudanças paradigmáticas nasce de uma formação que molda o olhar e, sobretudo, a capacidade de produzir sentido sobre aquilo que se vê. Não se trata apenas de perceber, mas de interpretar e acolher novas formulações que desafiam a rigidez da ciência normal. Como no discurso, o sentido só se constitui quando há, ainda que parcialmente, o compartilhamento das estruturas ideológicas que o sustentam; sem essa base comum, a novidade torna-se ininteligível ou inaceitável (Gregolin, 1995). Mesmo diante de evidências de esgotamento, o apego ao paradigma vigente pode impedir que o novo produza sentido, conduzindo à sua negação. Mudar de paradigma implica reaprender a ver: redefinir o que é visível e admissível, incorporando novas teorias, métodos e técnicas (Kuhn, 2018).
A transição paradigmática, contudo, não se dá de modo pacífico. Ela avança gradualmente no coletivo, conquistando adesões aos poucos, mas é abrupta no plano individual, pois não há passagem suave entre formas de ver (Kuhn, 2018). Trata-se de um despertar do “sono dogmático” (Kant, 1988), no qual os antigos filtros interpretativos se desfazem para dar lugar a outros, próprios do novo paradigma (Weber, 2011; Kuhn, 2018). O cientista não passa a habitar um mundo diferente, mas a enxergar de outro modo o mesmo mundo: aquilo que antes permanecia obscuro se ilumina, revelando-se sob novas configurações de sentido (Kuhn, 2018). O mundo, assim, permanece o mesmo e, ao mesmo tempo, torna-se outro, transformado pela tradução conceitual que o torna inteligível.
Mudar de paradigma é um gesto que convoca coragem e aposta: ao atravessar esse limiar, o cientista se lança em um território ainda não dominado, exposto às sanções simbólicas da ciência normal da qual se afasta. Tal travessia exige empenho intelectual para assimilar novas orientações, pois um paradigma não se limita a alterar o modo de ver; ele reconfigura teorias, métodos e técnicas, redefine os problemas considerados científicos e impõe outras formas de legitimação do saber. Nesse processo, torna-se necessário conviver com a incerteza e cultivar um novo artesanato intelectual, capaz de operar na fronteira entre ordem e desordem (Mills, 2009a, 2009b).
Apesar das resistências, as mudanças paradigmáticas são inevitáveis e constitutivas do avanço científico. Sem elas, a ciência normal tende a encerrar-se em um movimento autorreferente de confirmação contínua, pouco fértil à inovação. Essas rupturas raramente resultam de um único acaso, mas de uma constelação de contingências, tentativas e erros, reconhecida apenas por aqueles preparados para percebê-la (Feyrabend, 1977; Mlodinow, 2015). Em geral, o novo emerge do risco assumido por quem desafia consensos, propondo outras formas de ver, novos instrumentos ou teorias, muitas vezes a elevado custo pessoal e institucional. O único princípio capaz de não cercear o progresso é a liberdade de experimentar tudo (Feyrabend, 1977). Ainda assim, longe de significar abandono do rigor, tal abertura exige vigilância crítica permanente, evitando que a ciência se reduza a uma “receita para a estagnação” (Giddens, Sutton, 2017, p. 46). É nesse exercício ousado, de pensar além dos limites estabelecidos e explorar as margens, que frequentemente nascem os insights capazes de reorientar o mundo conhecido (Mills, 1982, 2009b).
Contudo, vale ressaltar novamente, o paradigma em si não é um mal imposto a ou pela ciência, mas, em síntese, a forma como os membros da ciência normal irão lhe impor pode, efetivamente, transforma-lhe em um mal. A ciência precisa do paradigma para manter a validade de seus estudos, mas, para além, também necessita se conservar próxima a sociedade e as questões que desta se originem. Desenvolve-se a si mesma e a seus paradigmas em um movimento recíproco com a história e a sociedade (Aires, 2011). Não é um processo de mão única, mas, via de mão dupla (Giddens, Sutton, 2017), na qual se evidencia ativa a constante de Heráclito (Rocha, 2004; Bezerra, 2021; Alves de Souza, 2008). Conforme as coisas mudam, também os problemas e o padrões se modificam, o que exige, de mesmo modo, que a ciência evolua e modifique sua forma de atuação e validação de seus experimentos (Kuhn, 2018).
É importante ter em mente que um paradigma não se apresenta de forma única. Transforma-se e se modifica, por força da conjuntura histórica a qual está envolto e de acordo com o período temporal em que se apresenta, de forma a orientar o desenvolvimento das pesquisas conforme o momento histórico em que atua (Leavy, 2014). Semelhante ao apresentado por Santos (2008), há um processo evolutivo, onde, frente a evolução, a mudança se coloca como necessária.
Por força deste caráter histórico-evolutivo, acabam por constituir ao decorrer do tempo novas perspectivas que podem ser, como visto, completamente diferentes das então instituídas, a configurar novas formas de se desenvolver a ciência e novas ramificações, ou complementares as já existentes. A historicidade da ciência não fornece a ela apenas os fundamentos para a evolução, também lhe proporciona estabilidade e reconhecimento. A ela, por força das conjunturas de seu desenvolvimento, atrela-se o método em uma relação de dependência e evolução recíprocas. O progresso da ciência e o desenvolvimento de seus métodos não reduz a importância e função do paradigma, pelo contrário, é o que possibilita novas formulações paradigmáticas (Afonso, 2014).
3. O CIMENTO E A SEMENTE: PARADIGMAS NA ARQUITETURA DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Na ampla e permanentemente aberta arquitetura do conhecimento humano, o paradigma se afirma como o elemento estruturador que confere coesão ao conjunto, funcionando como uma liga discreta que articula fragmentos dispersos de dados, teorias e métodos em uma configuração inteligível. Longe de se reduzir a um esquema operativo, ele atua como matriz organizadora e instância de legitimação, oferecendo um campo comum de sentido no qual se alinham pressupostos conceituais, práticas investigativas e critérios valorativos, compondo um mesmo universo epistemológico (Coutinho, 2011). É nesta adesão a critérios comuns de produção, interpretação e validação que uma investigação encontra sua coerência interna e, não menos importante, seu reconhecimento intersubjetivo perante a comunidade dos pares. A validade de um estudo, assim, não repousa exclusivamente na descoberta que anuncia, mas na fidelidade a um modo de questionar o mundo, a uma gramática da descoberta que antecede e possibilita qualquer resposta.
Nas Ciências Sociais, este organizador do fazer científico se reveste de uma rica polissemia terminológica. Fala-se em tradição, perspectiva, programa de pesquisa ou paradigma, termos que, embora distintos em suas nuances, convergem para um mesmo núcleo: a ideia de um referencial orientador que simultaneamente ilumina e delimita o campo do visível e do pensável (Coutinho, 2011). Estas matrizes são como lentes sociais, nas quais se fundem saberes, valores e disposições comuns, moldando desde a definição dos problemas dignos de estudo até os modos legítimos de produzir dados e tecer interpretações. É no calor das disputas entre estas lentes que se consolidou, como mapa provisório de um território movediço, um relativo consenso em torno de três grandes constelações paradigmáticas: o paradigma positivista, frequentemente associado à abordagem quantitativa; o paradigma interpretativo, íntimo das perspectivas qualitativas; e o paradigma crítico ou sociocrítico, de vocação emancipatória (Puig, 2009; Arnal, Del Rincón, Latorre, 1992; Guba, Lincoln, 1994; Morin, 2005b). Estas não são meras caixas de ferramentas metodológicas, mas expressões de cosmovisões distintas sobre a natureza da realidade, da ciência e do sujeito que conhece.
3.1. O Sonho da Medida: o Paradigma Positivista e a Quantificação do Social
O positivismo nasceu sob o céu estrelado e previsível das ciências formais e naturais, onde a regularidade dos fenômenos convidava à formulação de leis e modelos matemáticos de elegante precisão. Seu deslocamento para o terreno pantanoso e complexo das Ciências Humanas e Sociais representou um empreendimento audacioso, uma tentativa de importar para o reino do humano o rigor e a previsibilidade que tanto prestígio concederam ao conhecimento da natureza (Aron, 2000). Auguste Comte, seu profeta, sonhou com uma “física social”, advogando a unificação metodológica como caminho supremo para a legitimação científica da sociologia (Ávila, 1976; Giddens, 2008).
Contudo, o objeto social resiste, teimosamente, aos determinismos rígidos. Diferente da pedra que cai ou da reação química que se repete, os fenômenos sociais são atravessados por historicidade, contingência e sentido (Ávila, 1976). Esta complexidade não é um acidente de percurso, mas a textura mesma da realidade que estas ciências buscam compreender (Bock, Furtado, Teixeira, 2005). Como lembram Giddens e Sutton (2017), estudar a vida social é dialogar com sujeitos reflexivos, capazes de interpretar e ressignificar suas próprias ações, o que estabelece uma diferença radical em relação às ciências da natureza. Aqui, o pesquisador não observa de um exterior impassível; estabelece uma relação dialógica com seu objeto, numa circulação reflexiva de sentidos que interroga tanto o fenômeno quanto o próprio observador (Giddens, Sutton, 2017). Esta possibilidade reflexiva, estranha ao laboratório clássico, tensiona os alicerces do positivismo, que erige a objetividade científica sobre um pressuposto fundante: a separação rigorosa entre sujeito e objeto. Pressupõe um mundo externo, mensurável e independente, a ser conhecido por instrumentos estruturados que testam teorias, hipóteses e variáveis em busca de explicações gerais e verificáveis (Rosário, 2016; Crotty, 1998).
Sob esta égide, consolidou-se a primazia dos métodos quantitativos, dedicados a identificar regularidades e relações de causalidade no tecido social. A metodologia quantitativa estrutura-se sobre dados numéricos e estatísticos, que podem ser tanto o ponto de partida quanto o produto final da investigação (Mussi, et al., 2019). Seu objetivo central é dimensionar, responder a perguntas de magnitude, frequência e abrangência. Para isso, opera com populações (conjuntos mensuráveis) e amostras (recortes representativos), visando generalizações controladas (Pereira, 2014). O survey, instrumento emblemático desta abordagem, pode assumir finalidades descritivas, explicativas ou analíticas, mas sempre como parte de um desenho metodológico mais amplo (Pereira, Ortigão, 2016).
No coração desta lógica estão as variáveis, atributos que assumem valores passíveis de tratamento estatístico (Pereira, 2014). Elas organizam o caos aparente dos dados empíricos, funcionando como dispositivos de controle analítico que medeiam a relação entre teoria, objeto e, inevitavelmente, os valores do pesquisador. Quando conduzida com rigor, a pesquisa quantitativa é capaz de produzir informações poderosas e amplas. No entanto, seu cuidado metodológico não assegura, por si só, a generalização automática para outros contextos (Richardson, 2012). Seu interesse recai sobre o coletivo, onde a quantificação permite ordenar e identificar padrões a partir de grandes números (Minayo, Sanches, 1993). Contudo, os significados que emergem não são propriedade intrínseca dos números, mas fruto do trabalho interpretativo do pesquisador, orientado por suas matrizes teóricas e paradigmáticas (Babbie, 2001; Gatti, 2004).
E é neste ponto que a força da medida encontra seu limite poético. Como adverte Santos (2008), o rigor científico fundado exclusivamente na precisão matemática corre o risco de empobrecer aquilo que busca explicar. Ao reduzir o fenômeno social a variáveis, retifica-se sua forma, simplifica-se sua textura e subtrai-se sua espessura histórica e simbólica. É um rigor que, ao afirmar a autoridade do cientista, pode eclipsar a singularidade do real, produzindo um conhecimento formalmente exato, por vezes cego à complexidade do mundo e ao valor humano da própria aventura científica. A vida social, com sua volatilidade e densidade, frequentemente escapa à grade da quantificação, gerando resultados amplos, porém superficiais (Aires, 2011).
3.2. A Escuta do Sentido: o Paradigma Interpretativo e a Profundidade Qualitativa
Foi justamente na fronteira do indizível pelos números que germinou outra forma de conhecer. Se o paradigma positivista olha para as constelações, traçando mapas do céu noturno, o paradigma interpretativo inclina-se sobre o brilho singular de cada estrela, interessado na história íntima de sua luz. A abordagem qualitativa, sua expressão metodológica, surge do reconhecimento de que o mundo social é um tecido de significados em contínua tessitura, e que compreendê-lo exige mergulhar na complexidade de experiências, contextos e intenções (Waillerstein, 2007).
Aqui, a realidade não é um dado externo e estático, mas uma construção dinâmica, ancorada em memórias do passado e projetada em futuros possíveis (Richardson, 2012; Suassuna, 2009). Esta mutabilidade contínua, intensificada na contemporaneidade, faz da volatilidade uma marca constitutiva do fenômeno social, relativizando a pretensão de generalizações universais (Mussi, et al., 2019). A pesquisa qualitativa, portanto, valoriza a diversidade e a perspectiva dos atores sociais, concedendo-lhes voz para além de sua condição de meros números em uma estatística (Bauer, Gaskell, Allum, 2002). Propicia uma aproximação única entre objeto e observador, permitindo uma circulação de sentidos que pode refinar e validar as interpretações do pesquisador (Moraes, La Torre, 2006).
Esta proximidade, contudo, não é um mar tranquilo. Se por um lado é fonte de riqueza empírica, por outro expõe a investigação a riscos específicos. As estruturas ideológicas e os valores do pesquisador – sempre presentes em qualquer ciência – podem exercer uma influência mais direta e persuasiva, induzindo respostas que confirmem suas teorias prévias ou moldando a interação de modo a obter o que se espera ouvir (Giddens, Sutton, 2017). Daí a exigência de uma reflexividade aguda, um compromisso ético do investigador em vigiar sua própria posição, evitando a parcialidade e a influência indevida, ao mesmo tempo em que cria um espaço de confiança para a fala autêntica (Martins, 2021; Minayo, 2014). Aceita-se, nesta tradição, que o pesquisador é parte do mundo que estuda, e que seus valores são elementos constitutivos do processo de conhecimento, e não uma falha a ser eliminada – uma distinção fundamental em relação ao ideal positivista de neutralidade.
Enquanto a pesquisa quantitativa busca compreender a totalidade para, a partir dela, iluminar o singular, a qualitativa parte da especificidade de um fenômeno histórico, atribuindo importância à sua singularidade, tal como propunha (Weber, 1999, 2015). Sua generalização não é estatística, mas analítica, construída pela comparação de múltiplos casos específicos dentro de um mesmo fenômeno. Seu produto não são leis causais, mas interpretações e configurações que buscam compreender não apenas o “que”, mas o “como” e o “porquê” (Minayo, Sanches, 1993). É uma ciência que explica relações mais do que quantifica fatos, assumindo que as ações humanas são permeadas de sentidos atribuídos pelos próprios atores.
Para tal, dispõe de um arsenal flexível e criativo: entrevistas, etnografias, estudos de caso, análises históricas, documentos pessoais, imagens. A escolha das ferramentas não é arbitrária; depende das questões de pesquisa, que por sua vez emergem do contexto em análise (Aires, 2011). O processo é indutivo e maleável: as interrogações e hipóteses se desenvolvem e se reformulam ao longo da investigação, servindo mais como balizas de orientação do que como estruturas rígidas a serem comprovadas (Suassuna, 2009). Trabalha, assim, em duas direções simultâneas: sistematizando teoria e método, e ao mesmo tempo inventando seu caminho, abandonando veredas e abrindo novas direções (Minayo, Sanches, 1993). Seus pressupostos básicos são descrever, compreender e explicar a profundidade dos fenômenos em seu contexto natural.
3.3. O Compromisso com a Transformação: o Paradigma Sociocrítico
Das insuficiências percebidas tanto no positivismo quanto no interpretativismo — um por seu distanciamento acrítico, outro por seu potencial relativismo — brotou uma terceira voz, carregada de urgência política. O paradigma sociocrítico ou emancipatório tem suas raízes na filosofia marxista e na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, bebendo das reflexões de Adorno, Horkheimer, Marcuse e, sobretudo, de Habermas (Coutinho, 2011). Encontra também eco potente na pedagogia da libertação de Paulo Freire.
Sua grande inovação é tornar explícita e central a dimensão da ideologia no processo investigativo. Para esta perspectiva, não há neutralidade ou desinteresse possível. Todo investigador está socialmente situado e, consciente ou inconscientemente, defende os interesses de um grupo social (Coutinho, 2011). O conhecimento não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para a emancipação e a transformação das estruturas injustas da sociedade. A pesquisa, portanto, não se limita a interpretar o mundo (seja medindo-o ou compreendendo seus sentidos), mas engaja-se ativamente em transformá-lo.
Metodologicamente, aproxima-se da abordagem qualitativa em sua valorização do contexto e das narrativas dos sujeitos. No entanto, a inclusão da componente ideológica e do compromisso político confere-lhe um caráter profundamente interventivo e dialógico (Coutinho, 2011). A relação pesquisador-pesquisado é reconfigurada; o “objeto” torna-se sujeito colaborador do processo de investigação-ação. O rigor aqui se alia à práxis, exigindo do pesquisador um comprometimento reflexivo constante com seu papel de intelectual transformador, mantendo sempre vivo o vínculo entre teoria e prática (Loza, et al., 2020).
3.4. Pontes e Tensões: Métodos Mistos e as Críticas Contemporâneas
Da convivência, por vezes conflituosa, entre estes grandes paradigmas, emergiu uma tendência sintetizadora: a pesquisa de métodos mistos. Ancorada filosoficamente no pragmatismo, esta abordagem busca superar as chamadas “guerras dos paradigmas” combinando, de forma intencional e sistemática, instrumentos qualitativos e quantitativos dentro de um mesmo estudo (Johnson, Onwuegbuzie, Turner, 2007; Creswell, Clark, 2013). Seu objetivo é a complementaridade: usar os dados quantitativos para generalizar resultados qualitativos, ou usar a profundidade qualitativa para explicar e dar sentido a relações estatísticas, ou ainda buscar a convergência entre achados de naturezas distintas para corroborar conclusões (Galvão, Pluye, Ricarte, 2017).
Esta articulação, no entanto, não é uma panaceia. Exige um desenho de pesquisa muito cuidadoso e uma justificativa clara sobre como e por que a mistura enriquece a compreensão do problema. Determinados objetos e questões podem continuar a exigir um enfoque paradigmático específico (Farias, Filho, et al., 2019). Os métodos mistos representam, antes, o reconhecimento de que a complexidade do social pode demandar um olhar multifocal, capaz de apreender tanto a amplitude quantitativa quanto a profundidade qualitativa.
Embora a trajetória histórica tenha contribuído para a consolidação dos grandes paradigmas científicos, esse processo não os torna imunes ao exame crítico. Ao contrário, é justamente sua sedimentação que torna mais visíveis as fissuras, os silêncios e as zonas de sombra que atravessam suas promessas de cientificidade. As críticas contemporâneas não visam sua negação absoluta, mas tensionam seus fundamentos, revelando limites epistemológicos, políticos e metodológicos que exigem permanente revisão.
No caso do positivismo, questiona-se sobretudo a crença na neutralidade e na objetividade como valores absolutos. Mostra-se que toda observação é inevitavelmente atravessada por teorias, valores e posicionamentos socialmente situados. Quando a quantificação é erigida a critério supremo de validade, tende a reduzir a complexidade do mundo social a variáveis empobrecidas, convertendo o método em fetiche. Além disso, sua linguagem técnica, ao se apresentar como neutra, pode ocultar relações de poder e produzir um conhecimento funcional à gestão e ao controle social, mais do que à compreensão crítica ou à emancipação (Santos, 2008; Morin, 2005a).
O paradigma interpretativo, por sua vez, é frequentemente interpelado pelo risco do relativismo radical e pela chamada crise de representação. A valorização do singular, das experiências situadas e dos significados locais, embora constitua sua principal força, pode fragilizar a capacidade de identificar e criticar padrões estruturais de dominação. Ademais, a proximidade entre pesquisador e pesquisado, celebrada como virtude metodológica, não está isenta de ambivalências. A pretensão de “dar voz” pode, em certas circunstâncias, reproduzir formas sutis de violência epistêmica, apropriando-se das narrativas dos sujeitos ou silenciando-as sob a mediação do discurso científico (Denzin, Lincoln, 2006).
Já o paradigma sociocrítico enfrenta o desafio de não converter seu compromisso emancipatório em dogmatismo analítico. A centralidade da crítica às estruturas de dominação pode, por vezes, subordinar a investigação empírica a esquemas teóricos totalizantes, pouco sensíveis às ambiguidades do cotidiano, às contradições da experiência social e às novas formas de agência e poder que emergem em sociedades complexas e altamente diferenciadas.
Para além dessas críticas internas, emergem questionamentos transversais que colocam em xeque a própria cartografia paradigmática ocidental. As epistemologias pós-coloniais e decoloniais denunciam o eurocentrismo que estrutura as tradições científicas dominantes e propõem uma ecologia de saberes, capaz de reconhecer e valorizar os conhecimentos produzidos por grupos historicamente subalternizados, frequentemente excluídos do cânone científico (Santos, 2018). As epistemologias feministas, por sua vez, introduzem a noção de conhecimento situado, recusando tanto a neutralidade abstrata quanto o relativismo absoluto, ao afirmar que toda perspectiva é parcial, mas que essa parcialidade constitui a condição de um olhar mais responsável, crítico e politicamente implicado. Por fim, as abordagens pós-estruturalistas e pós-humanistas deslocam o foco exclusivo no sujeito humano soberano, incorporando à análise as redes de actantes humanos e não humanos — como tecnologias, objetos e outros seres vivos — na constituição do social, ampliando o horizonte analítico das Ciências Sociais (Latour, 2012).
3.5. O Rigor na Vigília
A escolha final por um paradigma e sua expressão metodológica é, em última instância, um ato profundamente pessoal e formativo, produto da iniciação do pesquisador a uma determinada comunidade de pensamento e, em alguns casos, de sua corajosa rebeldia contra ela (Mussi, et al., 2019). Seja qual for o caminho escolhido, a exigência de clareza, transparência e rigor descritivo permanece inegociável. Todos os procedimentos devem ser descritos de forma que o leitor possa acompanhar, avaliar e, se desejar, replicar o percurso investigativo (Canzonieri, 2010).
Reconhecer as limitações e críticas a cada paradigma não implica sua rejeição, mas convoca a uma vigilância epistemológica constante. A pesquisa social contemporânea é desafiada a explicitar seus pressupostos, dialogar com perspectivas dissidentes, evitar sínteses apressadas e assumir responsabilidade pelas consequências do conhecimento que produz. O horizonte que se desenha não é o da vitória final de um paradigma sobre os outros, mas o de uma coabitação tensionada e criativa, onde o rigor científico se mede menos pela ortodoxia metodológica e mais pela capacidade de sustentar uma conversação crítica, humilde e poeticamente responsável com a complexidade infinita do humano. Como bem sintetiza Santos (2008), a tarefa ética da ciência social reside justamente nisto: não permitir que o método cegue aquilo que pretende esclarecer. Entre a arquitetura imponente do paradigma e a semente inquieta da dúvida, constrói-se, dia após dia, o sempre provisório e necessário edifício do entendimento do mundo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A jornada de reflexão empreendida neste artigo reitera a premissa fundamental de que a pesquisa científica é uma atividade intrinsecamente paradigmática. Longe de ser um exercício neutro e autônomo, o processo de construção do conhecimento é profundamente moldado pelas lentes teóricas, metodológicas e axiológicas que o investigador adota, seja de forma consciente ou inconscientemente. Como demonstrado, os paradigmas funcionam como os alicerces invisíveis da ciência normal, fornecendo não apenas um conjunto de instrumentos, mas todo um universo de problemas legítimos, critérios de validade e horizontes de interpretação. Eles são, na essência, o que torna o discurso científico compreensível e partilhável dentro de uma comunidade específica, à semelhança de qualquer estrutura ideológica que confira sentido a um enunciado.
Se na introdução nos interrogávamos sobre como a eleição paradigmática influencia a gestação e leitura do objeto estudado, a análise desenvolvida permite agora responder que essa influência é total e constitutiva. Os paradigmas não são moldes externos aplicados a uma realidade pré-existente, mas são as próprias condições de possibilidade para que certas realidades se tornem visíveis e inteligíveis como objetos científicos. A análise dos principais paradigmas nas Ciências Sociais — positivista, interpretativo e sociocrítico — revelou como cada um deles configura uma relação distinta entre sujeito e objeto, define diferentes critérios de rigor e produz tipos específicos de conhecimento, desde a generalização estatística até à compreensão profunda de contextos singulares ou à emancipação social.
É importante reconhecer que este trabalho, como qualquer exercício cartográfico, apresenta suas próprias limitações e escolhas de enfoque. A análise concentrou-se nos três paradigmas mais consolidados, deixando em segundo plano abordagens emergentes como as epistemologias pós-humanistas, os novos materialismos e as perspectivas decoloniais em sua radicalidade prática. Ademais, o caráter teórico-reflexivo do artigo poderia ser complementado por estudos empíricos que investiguem como os pesquisadores, em diferentes áreas e contextos institucionais, negociam na prática suas filiações paradigmáticas. A ênfase nas Ciências Sociais também significa que especificidades de outras áreas do conhecimento, como as ciências naturais em sua relação com os paradigmas computacionais ou as humanidades em seu diálogo com a virada afetiva, não foram exploradas em profundidade.
Estas limitações, contudo, apontam para fecundas direções de investigação futura. Seria profícuo: (1) desenvolver estudos empíricos sobre a socialização paradigmática de pesquisadores, investigando como se dá, em diferentes disciplinas e contextos nacionais, o processo de adoção, hibridização ou resistência a paradigmas; (2) aprofundar a análise das epistemologias do Sul (Santos, 2018) e das críticas decoloniais, examinando não apenas sua crítica aos paradigmas ocidentais, mas também suas propostas metodológicas concretas e seus desafios de implementação institucional; (3) investigar os desafios éticos e epistemológicos da pesquisa inter e transdisciplinar, onde múltiplos paradigmas precisam cooperar para enfrentar problemas complexos; e (4) mapear as transformações paradigmáticas induzidas pelas tecnologias digitais e pela ciência de dados, interrogando como os big data e a inteligência artificial estão reconfigurando as noções de objetividade, generalização e interpretação.
Esta compreensão traz implicações concretas para a prática científica. Sugere-se que a formação de pesquisadores deva incluir não apenas o domínio de métodos, mas uma educação paradigmática explícita — um treinamento para reconhecer os pressupostos de diferentes tradições, transitar criticamente entre elas e justificar reflexivamente as escolhas realizadas. A emergência de abordagens mistas e a histórica tensão entre paradigmas não sinalizam a falência de nenhum deles, mas sim a maturação de uma consciência epistemológica que reconhece que a complexidade do real, particularmente do real social, exige uma pluralidade de olhares. A escolha metodológica deixa, assim, de ser vista como uma adesão dogmática a um único caminho para se tornar uma decisão estratégica, informada e reflexiva, guiada pela natureza da questão de pesquisa.
Para além da prática individual, a consciência paradigmática tem consequências institucionais. Num contexto marcado pela complexidade crescente dos problemas sociais e ambientais, pela urgência da interdisciplinaridade e pelo questionamento das hierarquias epistêmicas tradicionais, esta visão pluralista e reflexiva dos paradigmas oferece um caminho produtivo. Ela questiona os critérios muitas vezes estreitos de excelência científica, sugere a valorização de formatos alternativos de divulgação que explicitam os caminhos percorridos, e apoia a criação de espaços de diálogo interparadigmático onde diferentes formas de conhecimento — incluindo saberes tradicionais, locais e comunitários — possam se encontrar e fertilizar mutuamente.
Conclui-se, portanto, que o avanço do conhecimento científico não reside na ilusória busca por um ponto de vista absoluto ou na superação definitiva dos paradigmas, mas sim na contínua reflexividade sobre os seus fundamentos e implicações. O maior rigor de uma investigação pode medir-se não pela suposta neutralidade que alcança, mas pela transparência com que explicita o enquadramento paradigmático que a orienta, reconhecendo tanto o seu poder iluminador quanto as suas sombras inevitáveis. Assumir esta natureza paradigmática da ciência é fortalecê-la, transformando-a num empreendimento mais humilde, crítico e, em última análise, mais rico e capaz de dialogar com a complexidade mutável do mundo que se propõe a estudar.
Entre a arquitetura imponente do paradigma e a semente inquieta da dúvida, constrói-se, dia após dia, o sempre provisório e necessário edifício do entendimento do mundo. Como cartógrafos de territórios movediços, os cientistas sociais aprendem a navegar com múltiplos mapas, sabendo que cada lente revela algumas estrelas e oculta outras. O futuro que se anuncia não é o do mapa definitivo, mas o da arte de cartografar — uma prática humilde, crítica e poeticamente responsável com a complexidade infinita do humano e sua incessante busca por sentido. O futuro da investigação aponta assim não para a hegemonia de um paradigma, mas para a sua contínua conversação, tensionamento e evolução, num processo tão dinâmico e complexo quanto a própria realidade que busca compreender.
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1 Doutor em Sociologia. Mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Violência. Bacharel em Direito, Ciência Política e Ciências Econômicas. Licenciado em Filosofia e em Letras - Português. Analista em Ciência e Tecnologia no CNPq. Pesquisador Colaborador no CICS.NOVA.UÉvora e na Border: Conhecimento e Inovação. E-mail: [email protected].