REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793321198
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo avaliar e comparar os níveis de autoestima entre homens com experiência de rua acolhidos e não acolhidos em um município do sudoeste da Bahia. Desenvolveu-se uma pesquisa quantitativa, transversal, exploratória e descritiva, conduzida com uma amostra de 24 participantes adultos vinculados a instituições sociais locais. A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário sociodemográfico e da Escala de Autoestima de Rosenberg, sendo os dados submetidos a análises descritivas e estatísticas. Entre os participantes, 45,8% se autodeclararam pretos e 45,8% pardos, 70,8% eram solteiros, 70,8% tinham filhos e 54,2% eram católicos. Quanto à situação de moradia, 45,8% encontravam-se em acolhimento institucional e 54,2% permaneciam em situação de rua. A maioria dos participantes tiveram a classificação de autoestima moderada (75%), seguida de baixa autoestima (20,8%) e alta autoestima (4,2%). Não houve associação entre situação atual de moradia e autoestima (p=0,32). Embora o acolhimento institucional pareça favorecer uma distribuição mais favorável dos escores de autoestima, as limitações amostrais impedem generalizações definitivas, ressaltando a relevância de intervenções de suportes psicossociais voltadas para a reconstrução da identidade e da cidadania desse público.
Palavras-chave: Autoimagem; Pessoas em Situação de Rua; Abrigo; saúde mental.
ABSTRACT
The present study aimed to evaluate and compare self-esteem levels among men with experience of homelessness—both those in institutional care and those still living on the streets—in a municipality in southwestern Bahia. A quantitative, cross-sectional, exploratory, and descriptive study was conducted with a sample of 24 adult participants linked to local social institutions. Data were collected using a sociodemographic questionnaire and the Rosenberg Self-Esteem Scale, and were subsequently subjected to descriptive and statistical analysis. Among the participants, 45.8% self-identified as Black and 45.8% as mixed-race (*pardos*); 70.8% were single, 70.8% had children, and 54.2% were Catholic. Regarding housing status, 45.8% were in institutional care, while 54.2% remained in a situation of homelessness. The majority of participants (75%) were classified as having moderate self-esteem, followed by 20.8% with low self-esteem and 4.2% with high self-esteem. No association was found between current housing status and self-esteem (p=0,32). Although institutional care appears to foster a more favorable distribution of self-esteem scores, the limitations of the sample size preclude definitive generalizations; this underscores the importance of psychosocial support interventions aimed at the reconstruction of identity and citizenship for this population.
Keywords: Self Concept; Housed Persons; Shelter; Mental Health.
1. INTRODUÇÃO
A autoestima pode ser entendida como a avaliação subjetiva que o indivíduo faz de si mesmo, e é refletida em sentimentos de valor pessoal, dignidade e pertencimento social (Marcelino; Elias, 2023). Trata-se de um elemento central para a saúde mental e o bem-estar, influenciado por experiências pessoais, vínculos afetivos, condições socioeconômicas e pela forma como a sociedade reconhece ou exclui determinados grupos (Copatti et al., 2017; Haeffner et al., 2023). Em contextos de vulnerabilidade, como a pobreza extrema, a autoestima tende a ser fragilizada, compromete a identidade e a percepção de sentido existencial (Fernandes, 2015).
Entre os grupos mais impactados por essa vulnerabilidade social, estão as pessoas em situação de rua, cuja vivência é marcada por múltiplas formas de exclusão e estigmatização (Brito; Silva, 2022). Desigualdades estruturais, rupturas de vínculos familiares, desemprego, violência e ausência de políticas públicas eficazes compõem um cenário de exclusão que fragiliza a saúde mental e agrava a baixa autoestima (Brasil, 2009; Mendes; Ronzani; Paiva, 2019). Esse contexto de preconceito social contribui para a violência simbólica e para a internalização de sentimentos de desvalorização, favorecendo o sofrimento psíquico e intensificando o isolamento e a perda de dignidade (Fernandes; Ribeiro, 2022; Campos; Souza, 2013).
Viver nas ruas, em condições de insegurança e desproteção, intensifica os riscos de adoecimento físico e mental (Mendes; Ronzani; Paiva, 2019). E isto reflete em maior prevalência de depressão, ansiedade, transtornos relacionados ao uso de substâncias e doenças infecciosas, agravadas pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde e pela discriminação institucional (Halpern et al., 2017). Em âmbito nacional, pesquisas demonstram que pessoas em situação de rua são frequentemente desumanizadas, sendo vistas como o nível mais baixo‖ da hierarquia social, o que legitima práticas de exclusão (Pereira et al, 2024; Sicari; Zanella, 2018).
Nesse cenário, a autoestima se relaciona diretamente à cidadania (Hutz; Zanon, 2017). Sentir-se parte de uma coletividade e ter os direitos fundamentais respeitados são condições essenciais para a construção da identidade e da dignidade humana (Brito; Silva, 2022; Icse, 2024). Além disso, cada indivíduo desenvolve uma identidade narrativa a partir de suas experiências, o que evidencia a relevância de compreender essas trajetórias na análise de estudos subjetivos, como a autoestima (Torralba, 2022).
Assim sendo, compreender o perfil da autoestima de cidadãos com experiência de rua emerge como de significativa relevância para a ampliação do saber acerca dos impactos psicossociais associados aos diferentes contextos de moradia e acolhimento. Logo, o estudo objetiva avaliar e comparar os níveis de autoestima entre homens com experiência de rua acolhidos e vivendo em situação de rua em um município do sudoeste da Bahia.
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Autoestima: Conceitos, Dimensões e Determinantes
A autoestima pode ser definida como a avaliação global que o indivíduo realiza acerca de seu próprio valor pessoal, envolvendo julgamentos afetivos e cognitivos sobre si mesmo (Zhang et al., 2026). Trata-se de um componente avaliativo do autoconceito, expresso pelos sentimentos e pensamentos de aprovação ou rejeição que o indivíduo mantém em relação a si (Pimentel et al., 2018). Em termos clássicos, Rosenberg (1965) descreveu a autoestima como uma atitude positiva ou negativa em relação ao eu, e sua Escala de Autoestima (RSES) permanece até hoje como o instrumento mais amplamente utilizado para mensuração científica desse construto (García et al., 2019).
Do ponto de vista teórico, a autoestima envolve aspectos afetivos, cognitivos e comportamentais. A dimensão afetiva relaciona-se aos sentimentos de aceitação e apreço por si mesmo; a cognitiva, à percepção do próprio valor e competência; e a comportamental manifesta-se nas atitudes e escolhas relacionadas a esse valor pessoal (Hutz; Zanon, 2017; Marcelino; Elias, 2023). Nesse sentido, níveis mais elevados de autoestima podem estar relacionados a maior autoconfiança, motivação e percepção de pertencimento, enquanto sua fragilização pode associar-se à insegurança, autodepreciação e sentimentos de inadequação (Ghasempour et al., 2025).
Atualmente, a autoestima é compreendida como uma construção multideterminada e dinâmica, não se restringindo à ideia clássica de uma avaliação global do valor pessoal (Rimes; Smith; Bridge, 2023). Essa perspectiva considera que os níveis de autovalorização podem ser continuamente influenciados pelas interações entre o indivíduo e o ambiente social, ajustando-se às experiências, aos feedbacks e aos contextos vivenciados (Hutz; Zanon, 2017). Em um nível coletivo, a autoestima reflete o modo como o sujeito é reconhecido ou marginalizado pela sociedade (Brito; Silva, 2022).
A exclusão, o preconceito e a ausência de reconhecimento social produzem impactos profundos sobre a autoimagem, configurando formas sutis de violência simbólica (Zhang et al., 2024). Dessa forma, a autoestima não deve ser entendida como uma característica completamente estática, mas como uma dimensão que pode sofrer modificações ao longo da vida (Haeffner et al., 2023).
A construção da autoestima está, portanto, relacionada às experiências pessoais, aos vínculos afetivos e aos contextos socioculturais nos quais o indivíduo está inserido (Hutz; Zanon, 2017). Experiências de reconhecimento, acolhimento e sucesso podem favorecer a percepção de valor pessoal, enquanto situações de rejeição, negligência ou violência simbólica podem contribuir para sua fragilização (Martín; Aleman; Morales, 2023).
Nesse processo, a validação social e a forma como o indivíduo é percebido pelos outros participam da construção da identidade e da autoimagem (Hutz; Zanon, 2017; Pimentel et al., 2018). Assim, a autoestima também pode refletir a maneira como o sujeito se percebe diante das relações sociais e do reconhecimento ou marginalização vivenciados em seu contexto (Brito; Silva, 2022; Zhang et al., 2024).
2.2. Autoestima em Pessoas em Situação de Rua
A autoestima e o autoconceito podem ser influenciados pela experiência de viver em situação de rua, considerando as condições de vulnerabilidade e as experiências sociais que permeiam essa trajetória (Braga; Brito; Garcia, 2024). A exposição frequente ao julgamento social, à indiferença e à rejeição pode comprometer a percepção de valor pessoal, favorecendo sentimentos de inferioridade, inutilidade e desesperança (Patrício et al., 2019).
Nesse contexto, aspectos relacionados à segurança, ao estigma e ao isolamento social podem exercer influência sobre a forma como essas pessoas percebem a si mesmas e se relacionam com os outros (Fleury et al., 2021). As repercussões da situação de rua também podem ser observadas em diferentes dimensões do bem-estar, incluindo a conectividade social, o estresse, a resiliência e a experiência emocional (Ghasempour et al., 2025). Estudos apontam que pessoas em situação de rua podem apresentar níveis inferiores de bem-estar geral quando comparadas a pessoas domiciliadas, embora também possam recorrer à espiritualidade e à religiosidade como estratégias de enfrentamento diante das adversidades vivenciadas (Ahuja et al., 2020).
Apesar das adversidades, pessoas em situação de rua também desenvolvem formas de reafirmar sua identidade e seu valor pessoal, por meio da fé, dos vínculos comunitários e das experiências de resistência construídas no cotidiano (Gramajo et al., 2023). A presença de estigma, exclusão e fragilização dos vínculos pode interferir na autopercepção e nas relações sociais, podendo também constituir barreiras para o acesso a serviços e direitos (Paiva; Guimarães, 2022).
Entretanto, estudos apontam a existência de processos de resistência simbólica, nos quais indivíduos ressignificam experiências estigmatizantes e reconfiguram a percepção sobre si mesmos como estratégias de enfrentamento e sobrevivência (Mostert; Greef, 2022; Radcliffe et al., 2026). A investigação dessas experiências é essencial para compreender os mecanismos internos de enfrentamento e preservação do eu em contextos de desumanização (Stringfellow et al., 2016). Reconhecer essas dinâmicas é essencial para construir abordagens que não reforcem a culpabilização individual, mas que valorizem a potência subjetiva que resiste à exclusão (Coldibeli; Paiva; Batista, 2023).
2.3. Autoestima em Indivíduos Abrigados
Pesquisas evidenciam que a estabilidade proporcionada pelos serviços de acolhimento pode influenciar a percepção que pessoas com experiência de rua possuem sobre si mesmas, ao oferecer condições de maior segurança, conforto e previsibilidade (Pereira et al., 2024; Rice et al., 2022). A passagem por espaços de acolhimento pode proporcionar condições estruturais distintas daquelas vivenciadas nas ruas, favorecendo a recuperação da confiança e a construção de maior estabilidade emocional.
Esse contexto pode contribuir para a redução de sentimentos de desvalorização e isolamento, favorecendo processos de revalorização da própria existência e de fortalecimento do sentimento de pertencimento social (Ra et al., 2023). A presença de redes de apoio também constitui um elemento relevante nesse processo. Enquanto a ausência de suporte social e familiar pode intensificar a vulnerabilidade emocional, as relações estabelecidas em ambientes de acolhimento podem favorecer resiliência, esperança e melhores condições de saúde (Fajardo-Bullón; Pérez-Mayo; Esnaola, 2021).
Da mesma forma, o acesso a programas de reinserção social, cuidados em saúde e atividades comunitárias pode favorecer a percepção de autoeficácia, fortalecer a autoestima e contribuir para a reconstrução da identidade pessoal (Costa; Souza; Souza, 2019). Nesse sentido, os possíveis efeitos positivos do acolhimento sobre a autoestima podem estar relacionados à redução do estresse associado à sobrevivência nas ruas, à construção de vínculos comunitários e à ampliação das oportunidades de recuperação e desenvolvimento da autoeficácia (Pilla; Park-Taylor, 2022).
Entretanto, o acolhimento institucional não está isento de limitações e ambivalências (Sicari; Zanella, 2018). A experiência institucional pode envolver, simultaneamente, condições capazes de favorecer e de fragilizar a autoestima. Embora a oferta de proteção material possa reduzir a sensação de vulnerabilidade, a existência de regras institucionais, horários fixos, mecanismos de vigilância e outras formas de regulação pode produzir sentimentos de institucionalização e restrição da autonomia individual (Karadzhov, 2023; Loubière, 2022).
Dessa forma, a experiência de acolhimento não é necessariamente vivenciada de maneira uniforme, podendo assumir diferentes significados de acordo com as características da instituição e com a trajetória de cada indivíduo (Thornhill et al., 2026; Murthy; Stapleton; McHugh, 2021). Apesar dessas limitações, o acolhimento institucional pode constituir um ambiente mais estruturado e protetivo em comparação a determinadas condições vivenciadas nas ruas, oferecendo oportunidades para o fortalecimento psicológico, a reconstrução de projetos de vida e o estabelecimento de vínculos sociais (Marinucci et al., 2023).
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracterizou-se como quantitativo, de natureza exploratória e descritiva, de corte transversal. Este projeto fez parte do projeto maior intitulado “(Sobre)Vivências na rua: As subjetividades e experiências de pessoas em situação de rua”, realizado no período de agosto a novembro de 2025 em três instituições na cidade de Vitória da Conquista, Bahia, Brasil. Duas instituições oferecem abrigo definitivo ou temporário. A terceira instituição caracteriza-se como um serviço de atendimento socioassistencial destinado a pessoas em situação de rua, oferecendo alimentação (café da manhã, almoço e jantar), acesso a instalações para higiene pessoal, corte de cabelo e distribuição de roupas. Diferentemente das demais instituições participantes do estudo, não disponibiliza alojamento ou pernoite, de modo que os indivíduos atendidos permanecem em situação de rua.
A população investigada correspondeu a homens adultos em situação de rua ou com trajetória de vida marcada por essa condição (experiência de rua), acolhidas em instituições. Foram incluídos homens, com idade igual ou superior a 18 anos, que estivessem em situação de rua no momento da coleta ou que possuíssem histórico dessa condição, ainda que se encontrassem em instituições de acolhimento. Os critérios de exclusão foram: pessoas com limitações cognitivas graves ou condição psíquica que impedissem a compreensão adequada das perguntas, indivíduos em intoxicação aguda por substâncias psicoativas e aqueles que, a qualquer momento, se recusassem ou desistissem de participar.
Inicialmente, foi aplicado um questionário sociodemográfico elaborado pelos pesquisadores, contemplando variáveis como idade, sexo, estado civil, cor/raça autodeclarada, escolaridade, número de filhos, tempo em situação de rua, motivos que levaram à inserção nessa condição, prática religiosa e vínculos familiares.
Subsequentemente, foi utilizada a Escala de Autoestima de Rosenberg (Rosenberg Self-Esteem Scale – RSES), que foi criada por Morris Rosenberg, em 1965, para avaliar o nível global de autoestima dos indivíduos. No Brasil, esse instrumento foi traduzido e validado por Dini, Quaresma e Ferreira (2004), mantendo boa consistência interna. A escala consistiu em 10 itens, com afirmações positivas e negativas, respondidos por meio de uma escala de Likert de 4 pontos, variando de “discordo totalmente” a “concordo totalmente”. Os itens 2, 5, 6, 8 e 9 tiveram escore invertido. A pontuação total variou de 10 a 40, sendo que escores entre 10 e 25 indicaram baixa autoestima; entre 26 e 29, autoestima média; e entre 30 e 40, alta autoestima (Garcia et al., 2019).
A aplicação do questionário e da escala foi realizada por meio de entrevistas presenciais, conduzidas pelos pesquisadores, os quais foram previamente treinados. Nas instituições de acolhimento definitivo, as entrevistas tiveram duração aproximada de 30 minutos e foram realizadas em uma sala disponibilizada pela direção, com o entrevistador de frente para o participante. Já na instituição de serviço socioassistencial sem oferta de pernoite, as entrevistas ocorreram em local reservado e seguro, após o café da manhã, geralmente no momento de espera para o banho. Todos os participantes que desejaram e concordaram em participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme a Resolução nº 466/12.
Os dados foram tabulados em planilhas eletrônicas no programa Microsoft Excel® 2020 e, em seguida, submetidos a tratamento estatístico com o auxílio do software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), versão 25.0. A etapa inicial compreendeu a aplicação de estatística descritiva, visando à caracterização da amostra por meio da apresentação de frequências absolutas e relativas, medidas de tendência central (média e mediana) e de dispersão (desvio-padrão, valores mínimos e máximos).
Foram consideradas como variáveis independentes os aspectos sociodemográficos e contextuais, incluindo idade, sexo, identidade de gênero, cor/raça, nível de escolaridade, estado civil, tempo de vivência em situação de rua e presença de filhos. As variáveis dependentes corresponderam aos escores e à classificação da Escala de Rosenberg. Essas informações permitiram identificar diferenças entre subgrupos e examinar possíveis associações com os construtos subjetivos analisados. Para avaliar as associações foi utilizado o teste exato de Fisher e considerado o valor de significância de p<0,05.
O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros e aprovado com CAAE 91580225.8.0000.5146 e número do parecer 7.857.140.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Responderam a Escala de Autoestima, 24 homens com experiência de rua, com idades entre 31 e 66 anos e média de idade de 48,08 anos (± 10,07). Da amostra, 45,8% se autodeclararam pardos e 45,8% pretos, 70,8% eram solteiros, 70,8% tinham filhos e 54,2% eram católicos. Quanto à escolaridade, observou-se predomínio de baixa escolaridade, com a maioria tendo o ensino fundamental incompleto (79,2%).
Esse resultado pode ser contextualizado pelas desigualdades sociais e raciais que atravessam a realidade brasileira. No estudo de Gontijo et al. (2024), realizado com 390 pessoas em situação de rua em Belo Horizonte, também foi observado predominância de participantes pretos e pardos, além de elevada frequência de baixa escolaridade. De maneira semelhante, Silva et al. (2021), ao analisarem dados nacionais do Cadastro Único e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, identificaram predominância da população negra nas duas bases investigadas. Essas aproximações mostram a relevância de considerar a dimensão racial na caracterização da população em situação de rua. Entretanto, como o presente estudo não investigou associações entre cor ou raça e autoestima, não é possível afirmar que essas características tenham influenciado os escores encontrados.
Em relação ao tempo de permanência nas ruas, 41,7% referiram ter mais de cinco anos e 33,3% entre dois e cinco anos. Entre os motivos relacionados à experiência de situação de rua, 25,0% relataram conflitos familiares e 25,0% uso de substâncias, seguidos de perda do emprego (20,8%), outros motivos (20,8%) e problemas de saúde (8,3%). No momento da coleta, (45,8%) encontravam-se em acolhimento institucional e (54,2%) permaneciam em situação de rua.
Quando analisado pela situação de moradia, a maioria dos acolhidos se declararam pardos (54,5%), solteiros (81,8%), tinham filhos (72,7%), ensino fundamental incompleto (81,8%), católicos (81,8%), com mais de 2 anos de experiência de rua (91%) e o principal motivo foi perda de emprego (27,3%). Já aqueles em situação de rua, a maioria se declarou preto (53,8%), solteiro (61,5%), com filhos (69,2%), com ensino fundamental incompleto (76,9%), cristãos (46,2%), com mais de 5 anos de situação de rua (38,5%) e quanto aos motivos, conflitos familiares e uso de substâncias foram os mais citados, 30,8% cada. Os dados de caracterização da amostra podem ser melhor analisados na Tabela 1.
Tabela 1. Caracterização da amostra quanto a situação de moradia, Acolhidos x Em situação de Rua, Vitória da Conquista, 2025
Variável | Acolhido | Em situação de rua | Total | |||
| n | % | N | % | N | % |
Etnia | ||||||
Preta | 4 | 36,4 | 7 | 53,8 | 11 | 45,8 |
Parda | 6 | 54,5 | 5 | 38,5 | 11 | 45,8 |
Branca | 1 | 9,1 | 1 | 7,7 | 2 | 8,4 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Estado Civil | ||||||
Solteiro | 9 | 81,8 | 8 | 61,5 | 17 | 70,8 |
Separado/Divorciado | 2 | 18,2 | 4 | 30,8 | 6 | 25 |
Em união estável | 0 | 0 | 1 | 7,7 | 1 | 4,2 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Filhos | ||||||
Sim | 8 | 72,7 | 9 | 69,2 | 17 | 70,8 |
Não | 3 | 27,3 | 4 | 30,8 | 7 | 29,2 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Nível de Escolaridade | ||||||
Ensino Fundamental Incompleto | 9 | 81,8 | 10 | 76,9 | 19 | 79,2 |
Ensino Médio Completo | 0 | 0 | 3 | 23,1 | 3 | 12,5 |
Nunca estudou | 2 | 18,2 | 0 | 0 | 2 | 8,3 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Religião | ||||||
Católico | 9 | 81,8 | 4 | 30,7 | 13 | 54,2 |
Cristão | 1 | 9,1 | 6 | 46,2 | 7 | 29,2 |
Evangélicos | 0 | 0 | 1 | 7,7 | 1 | 4,2 |
Sem religião | 1 | 9,1 | 2 | 15,4 | 3 | 12,5 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Tempo de rua | ||||||
menos de 6 meses | 1 | 9,1 | 2 | 15,4 | 3 | 12,5 |
6 meses a 1 ano | 0 | 0 | 2 | 15,4 | 2 | 8,3 |
1 a 2 anos | 0 | 0 | 1 | 7,7 | 1 | 4,2 |
2 a 5 anos | 5 | 45,5 | 3 | 23,1 | 8 | 33,3 |
mais de 5 anos | 5 | 45,5 | 5 | 38,5 | 10 | 41,7 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Motivo | ||||||
Conflitos familiares | 2 | 18,2 | 4 | 30,8 | 6 | 25 |
Perda de emprego | 3 | 27,3 | 2 | 15,4 | 5 | 20,8 |
Uso de substâncias | 2 | 18,2 | 4 | 30,8 | 6 | 25 |
Problema de saúde | 2 | 18,2 | 0 | 0 | 2 | 8,4 |
Outros | 2 | 18,2 | 3 | 23,1 | 5 | 20,8 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025
Os conflitos familiares e o uso de substâncias psicoativas foram os motivos mais frequentemente relatados para a experiência de situação de rua, ambos correspondendo a 25,0% da amostra. Esses achados dialogam com a literatura que identifica a fragilização dos vínculos familiares e o uso de substâncias como aspectos relevantes das trajetórias de vulnerabilidade social (Santos; Evangelista, 2022). Entretanto, considerando o delineamento transversal e o caráter descritivo desta investigação, não é possível estabelecer relações causais entre esses fatores e os níveis de autoestima dos participantes.
Quanto à classificação da autoestima, 75,0% dos participantes apresentaram autoestima moderada, 20,8% baixa autoestima e 4,2% alta autoestima. Quando analisado de acordo com a situação de moradia, 81,8% dos acolhidos e 69,2% dos em situação de rua apresentaram autoestima moderada, enquanto a baixa autoestima foi proporcionalmente mais frequente entre aqueles que permaneciam em situação de rua (30,8%) em comparação aos acolhidos (9,1%). O único caso de alta autoestima identificado, ocorreu entre os participantes acolhidos. Não houve associação estatisticamente significativa entre a situação atual de moradia e a classificação da autoestima (p = 0,327). Os dados descritos podem ser melhor observados na Tabela 2.
Tabela 2. Classificação da autoestima de acordo com a situação de moradia atual, Vitória da Conquista, 2025
Autoestima | Acolhido | Em situação de rua | Total | |||
Classificação | n | % | N | % | n | % |
Baixa | 1 | 9,1 | 4 | 30,8 | 5 | 20,8 |
Moderada | 9 | 81,8 | 9 | 69,2 | 18 | 75,0 |
Alta | 1 | 9,1 | 0 | 0,0 | 1 | 4,2 |
Total | 11 | 100 | 13 | 100 | 24 | 100 |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
No que concerne à classificação da autoestima, ao estratificar esses escores segundo a condição de moradia, observa-se que, embora a maioria de ambos os grupos se situe na faixa moderada (81,8% dos acolhidos e 69,2% daqueles em situação de rua), a baixa autoestima foi expressivamente mais elevada entre os indivíduos em situação de rua (30,8%) em comparação aos acolhidos (9,1%), grupo no qual também se concentrou o único registro de alta autoestima. Embora a análise inferencial não tenha apontado significância estatística, pode ser reflexo das limitações amostrais, essa tendência descritiva faz sentido à luz da literatura. Tal como destacam Costa e Machado (2021), o acolhimento institucional atua como um importante amortecedor das vulnerabilidades extremas das ruas, provendo uma base de segurança material e social que favorece a estabilização do autoconceito. Ainda, corroborando com essa perspectiva, Santos e Farias (2018) argumentam que, embora o abrigo sozinho não apague todo o histórico de exclusão, ele é um espaço essencial para resgatar a dignidade humana.
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. A dificuldade de recrutamento de pessoas em situação de rua, decorrente da recusa de potenciais participantes, mesmo após esclarecimentos sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa e a realização de novos convites, contribuiu para o tamanho reduzido da amostra. Essa condição, associada à amostragem por conveniência, limita a representatividade dos participantes e a possibilidade de generalização dos achados. Outra limitação refere-se à ausência de uma avaliação padronizada do estado cognitivo dos participantes, o que pode ter favorecido vieses de informação, especialmente de memória, comprometendo a precisão de alguns dados autorreferidos. Apesar dessas limitações, o estudo contribui para a compreensão da autoestima de homens com experiência de rua, oferecendo subsídios para novas investigações e para o desenvolvimento de estratégias de cuidado voltadas a essa população.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo evidenciaram o predomínio de níveis moderados de autoestima entre homens com experiência de rua, independentemente da condição atual de moradia. Observou-se maior frequência de baixa autoestima entre os participantes que permaneciam em situação de rua, enquanto o único indivíduo classificado com alta autoestima encontrava-se em acolhimento institucional. Entretanto, essas diferenças devem ser interpretadas com cautela, uma vez que o tamanho reduzido da amostra e as limitações da análise estatística não permitem estabelecer conclusões consistentes sobre a associação entre acolhimento institucional e níveis de autoestima.
Os achados reforçam a importância de compreender o acolhimento institucional como parte de uma estratégia ampliada de proteção e cuidado, que não se restrinja à oferta de abrigo e ao atendimento das necessidades básicas, mas contemple também as dimensões psicossociais relacionadas à autoestima, à autonomia, ao fortalecimento dos vínculos sociais e à reconstrução de projetos de vida. Nesse sentido, o estudo contribui para ampliar a compreensão da autoestima de pessoas com experiência de rua e aponta para a necessidade de ações intersetoriais que articulem assistência social e saúde mental, respeitando as singularidades e as trajetórias dessa população.
DECLARAÇÃO DE USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA):
Este trabalho contou com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial generativa, Chat GPT versão gratuita e Gemini 3 Flash na versão Plus, exclusivamente para apoio na revisão gramatical, organização textual e aprimoramento da redação acadêmica. Foi utilizado o Open Evidence para auxiliar na descoberta de estudos relevantes dentro da temática. Todo conteúdo foi revisado criticamente pelos autores, que permanecem integralmente responsáveis pelas informações apresentadas, interpretações realizadas e conclusões obtidas, conforme a portaria CNPq nº 2.664/2026.
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1 Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Mestra, Pesquisadora do Laboratório de Pesquisas Qualitativas Interdisciplinares em Saúde (LabQuali), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Doutora, Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto Afya Faculdade de Ciências Médicas de Vitória da Conquista. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail