REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793588359
RESUMO
A função mastigatória desempenha um papel importante na alimentação e na qualidade de vida das pessoas idosas, podendo sofrer alterações ao longo do envelhecimento. Este estudo teve como objetivo analisar as alterações da mastigação em idosos e seus impactos na qualidade de vida. Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, conduzida conforme as recomendações do PRISMA 2020. As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Web of Science, LILACS, SciELO e Cochrane Library, considerando estudos publicados entre 2020 e 2025. Foram selecionados dez estudos, cujos resultados foram analisados de forma descritiva. As principais alterações identificadas foram a perda de pares oclusivos funcionais, a redução da força muscular oral, as dificuldades para morder e mastigar, a xerostomia e os problemas relacionados às próteses dentárias. Sete estudos identificaram associação entre alterações mastigatórias e pior percepção da qualidade de vida, com repercussões nas escolhas alimentares, no estado nutricional, na satisfação durante as refeições e no bem-estar. Conclui-se que as alterações da função mastigatória podem comprometer a alimentação e estar associadas à pior qualidade de vida em idosos, evidenciando a importância da avaliação mastigatória e do cuidado multiprofissional.
Palavras-chave: Idoso; Mastigação; Qualidade de Vida.
ABSTRACT
Masticatory function plays an important role in food intake and quality of life among older adults and may undergo changes during aging. This study aimed to analyze masticatory alterations in older adults and their impacts on quality of life. A systematic literature review was conducted according to the PRISMA 2020 recommendations. Searches were performed in the PubMed/MEDLINE, Web of Science, LILACS, SciELO, and Cochrane Library databases, considering studies published between 2020 and 2025. Ten studies were selected, and their results were analyzed descriptively. The main alterations identified were loss of functional occlusal pairs, reduced oral muscle strength, difficulties in biting and chewing, xerostomia, and problems related to dental prostheses. Seven studies identified an association between masticatory alterations and poorer perceived quality of life, with repercussions on food choices, nutritional status, satisfaction during meals, and well-being. It is concluded that alterations in masticatory function may compromise food intake and be associated with poorer quality of life among older adults, highlighting the importance of masticatory assessment and multidisciplinary care.
Keywords: Elderly; Chewing; Quality of Life.
1. INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional é uma realidade crescente no Brasil devido ao aumento do número de pessoas idosas ao longo dos anos. Esse crescimento está relacionado à maior expectativa de vida e às mudanças nas condições de vida da população. Em 2017, o Brasil contava com aproximadamente 30,2 milhões de pessoas idosas, evidenciando o avanço do envelhecimento populacional no país. Esse cenário também traz novas demandas para os serviços de saúde, considerando as mudanças que acompanham o avanço da idade e que podem interferir na capacidade funcional e na qualidade de vida dessa população (Escorsim, 2021).
Essas mudanças podem afetar a autonomia, a função e a qualidade de vida de pessoas idosas. A mastigação constitui uma função importante para a saúde, pois participa do processo alimentar e se relaciona à qualidade de vida. As alterações e dificuldades mastigatórias podem ser de caráter multifatorial, envolvendo condições de saúde, características socioeconômicas e acesso aos serviços ao cuidado (Krause et al., 2023).
O processo mastigatório é fisiológico e complexo, A mastigação é responsável pela fragmentação dos alimentos e pela sua mistura com a saliva, favorecendo a formação do bolo alimentar e facilitando a deglutição, favorecendo a formação do bolo alimentar e sua preparação para a deglutição. Seu funcionamento depende da integração e harmonia entre estruturas dentárias, musculares e mecanismos de controle dos movimentos orais. Alterações nesses componentes podem comprometer o processamento dos alimentos e exigir adaptações durante a alimentação (Sekundo et al., 2024).
Entre os fatores relacionados à função mastigatória, destacam-se as condições dentárias e a capacidade de produção de força pelos músculos envolvidos na mastigação. A perda dentária e o comprometimento funcional podem dificultar o processamento dos alimentos, tornando relevante compreender a relação entre as condições bucais e a saúde geral. Nesse contexto, as alterações musculares e a sarcopenia integram aspectos que merecem atenção no cuidado à população idosa (Rodolfo et al., 2025).
As repercussões das dificuldades mastigatórias também podem alcançar o processo de alimentação e o estado nutricional dos idosos. A limitação para processar determinados alimentos pode favorecer mudanças nas escolhas alimentares, com preferência por consistências mais macias e possível redução da variação da dieta. Dessa forma, a preservação da mastigação deve ser considerada no cuidado nutricional durante o envelhecimento, por sua relação com a ingestão de nutrientes e com a manutenção da saúde geral (Lettieri et al., 2025).
Além dos aspectos físicos, a saúde bucal envolve experiências subjetivas que influenciam o cotidiano das pessoas. Alterações de mastigação, desconforto e dor podem acompanhar sentimentos de vergonha e constrangimento, mostrando que as repercussões das condições bucais ultrapassam suas manifestações clínicas. Considerar a percepção da própria pessoa contribui, portanto, para compreender suas necessidades e os impactos dessas condições sobre o bem-estar (Salvador; Toassi, 2021).
Portanto, esta revisão tem como objetivo analisar as evidências disponíveis na literatura sobre as alterações da mastigação em idosos e seus impactos na qualidade de vida, buscando identificar as principais alterações mastigatórias descritas e compreender de que maneira essas condições podem repercutir na qualidade de vida dessa população.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, direcionada com base em recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020), a qual possui o objetivo de identificar e sintetizar as evidências disponíveis acerca das alterações da mastigação em idosos e suas repercussões na qualidade de vida. A questão norteadora foi elaborada considerando a população de interesse, o fenômeno investigado e o desfecho do mesmo, logo, foi formulada da seguinte forma: Quais são as alterações da mastigação identificadas em idosos e quais são seus impactos na qualidade de vida dessa população?
Em seguida, a busca pelos estudos foi realizada por meio das bases de dados de livre acesso: PubMed/Medline, Web of Science, LILACS, SciELO e Cochrane Library, levando em consideração as publicações disponíveis do ano de 2020 até o ano de 2025. Os descritores controlados e termos livres utilizados foram relacionados aos conceitos de população idosa, mastigação e qualidade de vida. Além de serem selecionados a partir dos vocabulários controlados Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), complementados por termos identificados na literatura. Ademais, os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, e as estratégias foram adaptadas às especificidades de cada base de dados. No Quadro 1 estão apresentadas as estratégias de busca completas, incluindo os descritores, termos livres, operadores booleanos e respectivos resultados.
Quadro 1. Descritores e estratégias de busca utilizadas nas bases de dados para identificação dos estudos.
BASE DE DADOS | DESCRITORES/TERMOS | ESTRATÉGIA DE BUSCA | Nº DE ESTUDOS |
PUBMED/MEDLINE | Mastication; Chewing; Masticatory Function; Older adults; Elderly; Aged; Quality of life; Oral health-related quality of life. | (mastication OR chewing OR "masticatory function") AND ("older adults" OR elderly OR aged) AND ("quality of life" OR "oral health-related quality of life") | 2 |
WEB OF SCIENCE | Mastication; Chewing; Masticatory Function; Older adults; Elderly; Aged; Quality of life; Oral health-related quality of life. | (mastication OR chewing OR "masticatory function") AND ("older adults" OR elderly OR aged) AND ("quality of life" OR "oral health-related quality of life") | 7 |
LILACS/BVS | Mastigação; Mastication; Chewing; Função Mastigatória; Masticatory Function; Idoso; Idosos; Elderly; Older Adults; Qualidade de vida; Quality of life; Qualidade de vida relacionada à saúde bucal; oral health-related quality of life. | (mastigação OR mastication OR chewing OR "função mastigatória" OR "masticatory function") AND (idoso OR idosos OR elderly OR "older adults") AND ("qualidade de vida" OR "quality of life" OR "qualidade de vida relacionada à saúde bucal" OR "oral health-related quality of life") | 1 |
SCIELO | Mastigação; Mastication; Chewing; Função Mastigatória; Masticatory Function; Idoso; Idosos; Elderly; Older Adults; Qualidade de vida; Quality of life; Qualidade de vida relacionada à saúde bucal; oral health-related quality of life. | (mastigação OR mastication OR chewing OR "função mastigatória" OR "masticatory function") AND (idoso OR idosos OR elderly OR "older adults") AND ("qualidade de vida" OR "quality of life" OR "qualidade de vida relacionada à saúde bucal" OR "oral health-related quality of life") | 0 |
COCHRANE LIBRARY | Mastication; Chewing; Masticatory Function; Older adults; Elderly; Aged; Quality of life; Oral health-related quality of life. | (mastication OR chewing OR "masticatory function") AND ("older adults" OR elderly OR aged) AND ("quality of life" OR "oral health-related quality of life") | 0 |
TOTAL | — | — | 10 |
Fonte: autores do estudo (2026).
A estratégia de busca foi estruturada a partir de três conjuntos principais de termos: idosos, mastigação e qualidade de vida. Foram empregados sinônimos e variações terminológicas para ampliar a sensibilidade da busca e reduzir a possibilidade de perda de estudos relevantes. As combinações utilizadas em cada base foram registradas integralmente em planilhas do Google Planilhas, permitindo a reprodução da estratégia de identificação dos estudos.
Foram incluídos estudos originais que apresentaram entre os seus participantes, indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos e que investigaram alterações da função mastigatória e sua relação com a qualidade de vida na população referida. Foram considerados estudos publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, com texto completo disponível e de livre acesso. Excluídos estudos que não contemplaram a população idosa em sua metodologia ou que não abordaram a função mastigatória e/ou a qualidade de vida, além de revisões de literatura, revisões sistemáticas, metanálises, cartas ao editor, editoriais, relatos de caso, resumos de eventos, trabalhos acadêmicos não publicados como artigos científicos e estudos duplicados. Também foram excluídos artigos que, após a leitura na íntegra, não apresentaram dados compatíveis com a questão de pesquisa.
Os registros identificados nas bases de dados foram exportados e organizados para identificação. Foi realizada a triagem dos títulos e remoção por repetição, em seguida feita a leitura de resumos, considerando os critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Os estudos potencialmente elegíveis foram submetidos à leitura do texto completo. Não houve divergências durante o processo de seleção, tudo foi resolvido por consenso entre os revisores. O processo completo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos foi apresentado em fluxograma, conforme as recomendações do PRISMA 2020.
Fluxograma PRISMA. Etapas de identificação, exclusão e inclusão dos artigos analisados na revisão.
Para a extração dos dados, foi utilizado um instrumento padronizado, elaborado pelos pesquisadores, contendo informações referentes ao título, autor, ano de publicação, objetivos, delineamento metodológico, métodos e instrumentos utilizados para avaliação da função mastigatória, instrumentos empregados para avaliação da qualidade de vida além dos principais resultados relacionados à associação entre alterações mastigatórias e qualidade de vida. Os dados extraídos foram organizados em planilha e foram analisados de forma descritiva.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os 10 estudos selecionados foram organizados de acordo com suas principais características metodológicas e clínicas, que subsidiaram a elaboração do Quadro 2, que apresenta os títulos, autores, ano de publicação, objetivo, instrumentos utilizados para avaliação da mastigação e da qualidade de vida e principais resultados identificados.
Quadro 2. Caracterização dos estudos incluídos na revisão sistemática sobre alterações da mastigação em idosos e seus impactos na qualidade de vida.
TÍTULO | AUTOR/ANO | OBJETIVO | MASTIGAÇÃO | QUALIDADE DE VIDA | RESULTADOS |
Does Masticatory Ability Contribute to Nutritional Status in Older Individuals? | Fujimoto, K. et al., 2020 | Comparar fatores bucais em três testes mastigatórios em idosos, identificando componentes objetivos e subjetivos para orientar o cuidado nutricional. | A capacidade mastigatória foi avaliada por três métodos: eficiência objetiva, pela liberação de glicose após mastigar gelatina por 20 segundos; escore mastigatório, por questionário sobre 25 alimentos; e satisfação subjetiva, por escala visual analógica (VAS). Também foram avaliados apoios oclusais, pressão da língua e da bochecha e força oclusal. | A qualidade de vida não foi mensurada diretamente por um instrumento específico. O estudo abordou sua possível relação com a mastigação, considerando a satisfação mastigatória e o estado nutricional, avaliado pelo índice de massa corporal (IMC). | A eficiência mastigatória objetiva esteve associada ao número de apoios oclusais molares e à pressão da língua. O escore mastigatório apresentou associação com o número de apoios oclusais, a pressão da bochecha e o IMC, enquanto a satisfação mastigatória esteve associada à idade e ao IMC. |
Age related impairments in ingestion from a large population based-sample | Hennequin, M. et al., 2024 | Avaliar alterações da função oral com a idade, validar um questionário on-line de autorrelato e investigar sua relação com evitação alimentar, xerostomia, IMC e qualidade de vida relacionada à saúde bucal. | A função mastigatória foi avaliada por questionário de autorrelato baseado na Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF) e, na validação, por unidades funcionais posteriores e teste com goma de mascar bicolor. Também foram investigadas dificuldades de manipulação oral, salivação e deglutição. | A qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) foi avaliada pelo GOHAI, com 12 itens sobre função, aspectos psicossociais e dor ou desconforto; escores ≤50 indicaram pior QVRSB e de 57 a 60, melhor QVRSB. Também foram avaliados xerostomia pelo Inventário de Xerostomia (XI), índice de massa corporal (IMC) e evitação alimentar por dificuldades para mastigar ou engolir. | As dificuldades nas funções bucais aumentam com a idade, especialmente a partir dos 80 anos. Os itens avaliados pela Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF) associaram-se à qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), à xerostomia, ao índice de massa corporal (IMC) e à evitação alimentar (p < 0,001). As dificuldades mastigatórias estiveram relacionadas à pior QVRSB e à restrição de alimentos. |
Lip and tongue strength associated with chewing patterns in aging population | Huang, Y. et al., 2023 | Investigar a associação da força dos lábios e da língua com o padrão de mastigação na população idosa. | O padrão mastigatório foi avaliado pelo tempo e número de ciclos ao consumir um biscoito de amido de milho; a força da língua e dos lábios, pelo Iowa Oral Performance Instrument (IOPI). | A qualidade de vida relacionada à saúde foi abordada como aspecto associado ao desempenho mastigatório, mas não foi mensurada diretamente por um instrumento específico neste estudo. | Maior pressão da língua associou-se a menor tempo de mastigação (p = 0,01) e menos ciclos mastigatórios (p = 0,03). As pressões dos lábios e da língua também apresentaram correlação significativa (p < 0,0001). |
Assessment of Age-Related Changes on Masticatory Function in a Population with Normal Dentition | Kim, S. et al., 2021 | Oferecer dados basais específicos por idade para uso clínico. | O desempenho mastigatório foi medido pela liberação de glicose após 20 segundos de mastigação, e a capacidade de ingestão alimentar, por questionário. Também foram avaliados força de mordida, área de mordida posterior, unidades dentárias funcionais, dentes remanescentes e pressão da língua. | A qualidade de vida relacionada à saúde bucal foi avaliada pelo instrumento OHIP-14. A capacidade de ingestão alimentar (FIA) também foi investigada subjetivamente por questionário. | Com o avanço da idade, houve redução significativa da pressão da língua, da força de mordida, da área de mordida posterior, das unidades dentárias funcionais e da capacidade de ingestão alimentar. |
Dysphagia and masticatory performance as a mediator of the xerostomia to quality of life relation in the older population | Lu, T., et al., 2020 | Investigar a associação entre xerostomia e qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), analisando o papel mediador da condição dentária, da condição oclusal, da disfagia e do desempenho mastigatório. | O desempenho mastigatório foi avaliado com goma que muda de cor, mastigada por dois minutos e classificada em cinco níveis, de muito bom a muito ruim. Também foram avaliados dentes naturais e funcionais e contatos oclusais posteriores. | A qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) foi avaliada pelo GOHAI, com 12 itens sobre função física, aspectos psicossociais e dor ou desconforto; escores maiores indicam melhor QVRSB. Também foram investigadas xerostomia por questionário específico e disfagia por instrumento de rastreio de dificuldades de deglutição. | Os resultados sugerem que alterações na mastigação e na deglutição podem contribuir para a relação entre xerostomia e pior qualidade de vida relacionada à saúde bucal. |
Factors associated with oral health-related quality of life of institutionalized elders | Oliveira, L. F. S. et al., 2020 | Avaliar a correlação entre OHIP-14 e GOHAI e investigar, numa perspectiva multicêntrica, os fatores associados ao comprometimento da QVRSB. | A função mastigatória foi avaliada pelo limiar de deglutição, definido pelo número de ciclos mastigatórios necessários para mastigar 3,7 g de amendoim torrado até o participante sentir-se pronto para engolir. Idosos sem dentes e sem próteses foram considerados incapazes de mastigar e receberam zero ciclos. | A qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) foi avaliada por dois instrumentos: o OHIP-14, no qual escores mais elevados indicam maior impacto negativo, e o GOHAI, no qual escores mais elevados indicam melhor QVRSB. Também foram investigadas a autopercepção da saúde geral e bucal, as condições dentárias e o uso e a necessidade de próteses. | OHIP-14 e GOHAI apresentaram forte correlação inversa (r = −0,671; p < 0,001). Pior qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) pelo OHIP-14 associou-se ao sexo feminino, mais dentes hígidos, pior autopercepção da saúde geral e bucal e menor limiar de deglutição. Melhor QVRSB pelo GOHAI associou-se a mais dentes obturados, melhor autopercepção bucal e maior limiar de deglutição (p < 0,05). |
Oral health conditions in active older adults: a cross-sectional study in Governador Valadares, MG, during the 2018/2019 period | Ribeiro, C. S. C. et al., 2025 | Analisar as condições de saúde oral de idosos ativos residentes em Governador Valadares-MG. | A mastigação foi avaliada por questionário sobre satisfação autorreferida. Também foram examinados dentes cariados, perdidos e obturados (CPOD), além do uso e da necessidade de próteses dentárias. | A qualidade de vida foi investigada pela satisfação com a vida, alimentação e sorriso e pela autoavaliação da saúde geral, sem relato de instrumento específico validado para qualidade de vida relacionada à saúde bucal. | Os autores destacam que a percepção positiva da mastigação e do sorriso contrasta com as condições clínicas observadas, sugerindo que a autopercepção pode não refletir adequadamente a saúde bucal. |
Oral function and its association with nutrition and quality of life in nursing home residents with and without dementia: A cross-sectional study | Van De Rijt, L.J.M. et al., 2021 | Comparar a função bucal, o estado nutricional e a qualidade de vida (QoL) entre residentes com e sem demência e examinar as associações entre essas variáveis. | A mastigação foi avaliada por entrevista com residentes ou cuidadores sobre sua qualidade e o tipo de dieta. Também foram investigados dentes naturais, unidades oclusais (OU), uso de próteses, deglutição, xerostomia e dor orofacial. | A qualidade de vida foi avaliada pelo EQ-5D-5L; a qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), pelo OHIP-14 nos participantes capazes de responder; e o estado nutricional, pela versão reduzida da Miniavaliação Nutricional (MNA-SF). | Residentes com demência apresentaram piores condições bucais e nutricionais. A pior mastigação associou-se ao pior estado nutricional e à pior qualidade de vida geral e relacionada à saúde bucal (QVRSB; p < 0,05). No modelo multivariável, foi o único fator bucal associado ao estado nutricional; o modelo explicou 28% da variância. |
How Do Changes in Oral Health and Chewing Efficiency Affect the Changes of Oral-Health-Related Quality of Life of Nursing-Home Residents in the Short Term? | Zenthofer, A. et al., 2021 | Avaliar como as mudanças na saúde bucal e na eficiência mastigatória afetam as mudanças na qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) de residentes de instituições de longa permanência ao longo de seis meses. | A eficiência mastigatória foi avaliada com goma de mascar bicolor após 20 ciclos, por análise visual e digital. Também foram examinados dentes remanescentes, pares oclusivos funcionais, tipo e condição das próteses e necessidades de tratamento odontológico. | A qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) foi avaliada pelo Índice de Avaliação da Saúde Bucal Geriátrica (GOHAI), no início e após seis meses, em 108 idosos institucionalizados na Alemanha, com idade média de 82,0 ± 9,5 anos. | Em seis meses, a redução dos pares oclusivos funcionais de 7,7 para 4,9 associou-se à pior qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB). Entre usuários de próteses, a piora protética e maiores necessidades odontológicas também se associaram à pior QVRSB (p < 0,05). |
The Effects of Dental Status and Chewing Efficiency on the Oral-Health-Related Quality of Life of Nursing-Home Residents | Zenthofer, A. et al., 2020 | Avaliar a relação da condição dentária e da eficiência mastigatória com a qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB) de idosos institucionalizados. | A eficiência mastigatória foi avaliada com goma bicolor após 20 ciclos. Também foram examinados a condição dentária, número de dentes, pares oclusivos funcionais e condição das próteses. | Qualidade de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), avaliada pelo índice SC-GOHAI. Foram analisados 143 idosos residentes em instituições de longa permanência na Alemanha | A análise univariada identificou associação entre eficiência mastigatória e QVRSB. |
Fonte: autores do estudo (2026).
A análise dos estudos demonstrou pouca diversidade quanto aos delineamentos metodológicos empregados. Foram identificados oito (8) estudos transversais (80%), um (1) estudo longitudinal (10%) e um (1) estudo com acompanhamento dos participantes ao longo de seis meses, com componente de validação metodológica associado à análise transversal (10%). Não foram encontrados estudos de caso-controle ou estudos de coorte. Observou-se, portanto, a predominância de estudos transversais, indicando maior utilização de abordagens voltadas à investigação das características mastigatórias e sua relação com diferentes aspectos da saúde da população idosa em um momento específico. Abordagens representadas no Gráfico 1.
Gráfico 1. Distribuição dos estudos incluídos segundo o delineamento metodológico.
Quanto às características dos participantes, os estudos analisados envolveram 17.843 idosos, com faixa etária entre 60 a 84 anos. A maioria dos estudos avaliou indivíduos de ambos os sexos, enquanto oito (8) estudos apresentaram predominância de participantes do sexo feminino. Em relação aos contextos investigados, foram identificadas populações provenientes de países como Alemanha, China, Japão, Reino Unido, Brasil e França, sendo parte significativa da população investigada idosos identificados em hospitais locais e residentes em instituições de longa permanência, evidenciando diferentes contextos de envelhecimento e condições de saúde entre os participantes. Características organizadas no Quadro 3.
Quadro 3. Características da população analisadas nos estudos.
Estudo | Amostra | Idade | Sexo | Local |
Zenthöfer et al. (2020) | 150 | 82+ | 112 - Mulheres 38 - Homens | Alemanha |
Lu et al. (2020) | 1.076 | 65+ | 768 - Mulheres 308 - Homens | China |
Kim et al. (2021) | 106 | 61 - 71+ | 52 - Mulheres 44 - Homens | China |
Fujimoto et al. (2020) | 100 | 65+ | 47 - Mulheres 53 - Homens | Japão |
Zenthöfer et al. (2021) | 108 | 82+ | 88 - Mulheres 26 - Homens | Alemanha |
Van de Rijt et al. (2021) | 111 | 65+ | 69 - Mulheres 42 - Homens | Reino Unido |
Oliveira et al. (2021) | 344 | 60+ | 206 - Mulheres 138 - Homens | Brasil |
Huang et al. (2023) | 70 | 65 - 74 | 35 - Mulheres 35 - Homens | China |
Hennequin et al. (2024) | 15.354 | 60 - 80+ | Ambos os sexos, não possível mensurar quantidade específica | França |
Ribeiro et al. (2025) | 64 | 60+ | 41 - Mulheres 23 - Homens | Brasil |
No que se refere à avaliação da função mastigatória, os estudos utilizaram diferentes métodos e instrumentos para identificar alterações nessa função. Entre os procedimentos empregados, destacaram-se os testes objetivos de desempenho/eficiência: goma de mascar de duas cores de Schimmel, goma com liberação de glicose (gluco sensor GS-II) e contagem de tempo e ciclos mastigatórios, utilizando biscoito de amido de milho ou amendoim; os estruturais/funcionais: pressão de lábios e língua, unidades/pares oclusivos funcionais (UO, PFU e FTU) e força oclusal; e, subjetivos: itens (morder, mastigar, manipular alimento, salivar, engolir) adaptados da Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF), Capacidade de Ingestão Alimentar (FIA) e Qualidade subjetiva da mastigação e da deglutição (boa, moderada ou ruim).
As avaliações contemplaram aspectos relacionados à eficiência mastigatória, desempenho durante a trituração dos alimentos, número de ciclos mastigatórios, força e coordenação dos movimentos mastigatórios e/ou outras características descritas pelos autores.
A partir da análise dos estudos, foram identificadas diferentes alterações da função mastigatória entre os idosos, como dificuldades para morder e mastigar, redução de força de língua, dor orofacial, evitação de alimentos mais sólidos (carnes, vegetais crus e pão de crosta) e, a mais evidente entre elas, a perda de pares oclusivos funcionais, que esteve presente em nove dos dez estudos e mostrou o efeito mais consistente sobre a qualidade de vida.
Zenthöfer et al. (2021), por meio do seu estudo longitudinal, acompanharam a perda de pares oclusais de idosos institucionalizados por seis meses e, como resultado, os autores observaram a piora no Índice de Avaliação da Saúde Bucal Geriátrica (GOHAI), sugerindo que ter mais pares oclusivos aumenta a confiança para mastigar mesmo quando o idoso precisa de mais tempo. A redução da eficiência mastigatória é a consequência funcional dessa perda. Corresponde à menor capacidade de fragmentar e misturar o alimento, que depende da trituração na superfície oclusal e da formação do bolo pela língua. Na prática, o idoso mastiga por mais tempo e com mais ciclos, e o alimento chega à deglutição menos preparado.
A fraqueza dos músculos orais agrava esse quadro, uma vez que a atrofia muscular reduz a pressão da língua, a força de mordida e a área de contato posterior. Huang et al.(2023) mostraram que quanto menor a força da língua, mais ciclos e mais tempo de mastigação são necessários.
Ademais, alguns estudos também identificaram associação entre alterações mastigatórias e uso de próteses mal adaptadas, soltas, quebradas ou inadequadas (perdem estabilidade e retenção, causam dor e desconforto e deixam de repor a função), xerostomia (sem saliva suficiente, o bolo alimentar se forma mal, a mastigação e a deglutição ficam difíceis e o uso da prótese piora), disfagia, demência e institucionalização, indicando que a função mastigatória pode ser influenciada por diferentes condições relacionadas ao envelhecimento.
Gráfico 2. Principais alterações da função mastigatória identificadas nos estudos incluídos.
Em relação à qualidade de vida, os estudos utilizaram diferentes instrumentos e estratégias de avaliação, sendo identificados quatro (4) instrumentos. Entre eles, destacam-se o Índice de Avaliação da Saúde Bucal Geriátrica (GOHAI), o Perfil de Impacto da Saúde Bucal (OHIP-14) e o EuroQol 5 Dimensões 5 Níveis (EQ-5D-5L). Os domínios avaliados compreenderam aspectos físicos, funcionais, sociais, emocionais e relacionados à alimentação, de acordo com os instrumentos empregados em cada estudo.
O GOHAI foi empregado por cinco grupos de autores, dentre eles destacam-se os achados de Hennequin et al. (2024) que observaram, após aplicação do instrumento, que cada item do comprometimento funcional (morder, mastigar, triturar, salivar) dos indivíduos se associou a uma pior percepção na qualidade de vida e saúde bucal, sendo os resultados mais negativos proporcionais à idade avançada. Ademais, Luo et al. (2020) e Oliveira et al. (2021) também perceberam associação de uma pior percepção com a ausência de pelo menos 20 dentes funcionais e a presença de mais dentes obturados à uma melhor percepção bucal e qualidade na alimentação.
Diante disso, a análise desses resultados e dos demais autores evidenciou que as alterações da mastigação se associam à diferentes repercussões na qualidade de vida dos idosos. Entre os impactos identificados, destacam-se a pior Qualidade de Vida Relacionada à Saúde Bucal (QVRSB) quando há comprometimento de mastigar, morder, engolir ou salivar, presença de disfagia, estado nutricional fragilizado e dificuldade na comunicação e alimentação. Foram observadas repercussões relacionadas à dificuldade ou limitação para consumir determinados alimentos, alteração das escolhas alimentares, redução da satisfação durante as refeições, restrição da participação social e comprometimento de aspectos relacionados ao bem-estar e à autonomia.
Gráfico 3. Principais repercussões das alterações mastigatórias sobre a qualidade de vida dos idosos.
A síntese dos achados demonstrou que sete (7) dos estudos identificaram associação entre alterações da mastigação e pior percepção da qualidade de vida, enquanto três (3) estudos não encontraram associação direta: dois não avaliaram qualidade de vida em sua pesquisa e um, que mediu a satisfação com a vida, não observou relação com a mastigação, que foi bem avaliada apesar da perda dentária elevada.
Ademais, a perda de suporte oclusal posterior foi o fator mais recorrente (9 estudos), seguida de próteses inadequadas ou necessidade protética elevada (5), estado nutricional (5) e institucionalização (4). Esses achados indicam que a função mastigatória, a condição das próteses e a nutrição se relacionam entre si e com a qualidade de vida, principalmente em idosos institucionalizados.
De modo geral, os resultados apontaram que alterações na função mastigatória podem repercutir não somente sobre o processamento dos alimentos, mas também sobre aspectos relacionados à alimentação, à participação social, à autonomia e ao bem-estar dos idosos. Além da identificação das alterações mastigatórias e de suas repercussões sobre a qualidade de vida, destaca-se a necessidade de ampliar as discussões acerca das possibilidades de reabilitação da função mastigatória em idosos.
Além disso, observou-se heterogeneidade entre os estudos quanto às características das amostras, aos métodos empregados para avaliação da função mastigatória e aos instrumentos utilizados para mensuração da qualidade de vida. Essa diversidade metodológica deve ser considerada na interpretação dos resultados, especialmente na comparação entre os achados dos diferentes estudos.
De forma geral, os estudos analisados contribuíram para demonstrar a relação existente entre a função mastigatória e a qualidade de vida na população idosa, evidenciando diferentes manifestações das alterações mastigatórias e suas possíveis repercussões no cotidiano desses indivíduos.
4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa permitiu compreender como as alterações da função mastigatória podem comprometer a alimentação, podendo estar associada a uma piora na qualidade de vida. Suas repercussões ultrapassam o processo alimentar e vão envolver preferências individuais por alimentos, satisfação durante as refeições e bem-estar geral. Entretanto, essa relação não se apresentou de maneira uniforme, evidenciando a importância de considerar as condições que podem afetar esse processo, podendo ser bucais, nutricionais e funcionais de cada indivíduo.
O objetivo de analisar as alterações da mastigação em idosos e seus impactos na qualidade de vida foi alcançado, permitindo compreender a importância dessa função para o cuidado integral na terceira idade. Para a Fonoaudiologia, os achados permitiram compreender a necessidade de observar tanto o desempenho mastigatório quanto às dificuldades percebidas durante a alimentação, que podem ocorrer de maneira multifatorial e necessitam de avaliação específica. Este achado poderá contribuir para o planejamento de intervenções multidisciplinares, conectando o acompanhamento odontológico, fonoaudiológico e nutricional, favorecendo assim, a identificação das dificuldades e o planejamento terapêutico levando em consideração as especificidades bucais, funcionais e nutricionais de cada paciente.
A predominância de estudos transversais e as diferenças entre as amostras e os instrumentos utilizados limitaram a comparação dos resultados e o estabelecimento de relações de causa e efeito. Assim, recomenda-se a realização de pesquisas longitudinais e a adoção de critérios de avaliação mais uniformes, para aprofundar a compreensão das alterações mastigatórias e suas repercussões ao longo do envelhecimento. Preservar a função mastigatória deve, portanto, integrar as ações de cuidado voltadas à alimentação, ao conforto e à qualidade de vida da população idosa.
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1 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Discente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Docente do Curso Superior de Fonoaudiologia da Universidade do Estado do Pará. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail