ADOLESCÊNCIA, ANSIEDADE E PERTENCIMENTO: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA BASEADO EM UMA ATIVIDADE DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

ADOLESCENCE, ANXIETY, AND BELONGING: AN EXPERIENCE REPORT BASED ON A UNIVERSITY EXTENSION ACTIVITY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792901740

RESUMO
A adolescência representa uma importante fase do desenvolvimento humano fortemente influenciada por interações sociais que podem impactar positiva ou negativamente na identidade dos indivíduos. Considerando a preocupação de órgãos governamentais com o crescimento no diagnóstico de psicopatologias neste grupo, este relato descreve a experiência de uma atividade extensionista quanto a relação entre adolescentes, saúde mental e cotidiano, analisando emoções e sentimentos expressos na perspectiva de estudantes da educação básica. Para tal, durante uma semana, uma feira itinerante viajou por quatro municípios do interior do Pará discutindo de maneira lúdica e interativa temas relacionados às ciências do cérebro. Entre as atividades, a identificação e descrição de situações de perigo real ou ansiedade pelos sujeitos permitia compreender como o grupo percebia diferentes contextos (familiar, escolar e social, principalmente) e o que aquilo representava para o indivíduo e o grupo. Manifestações negativas, como: desconforto, insegurança, preocupação, constrangimento, medo, receio e isolamento social foram recorrentes e tipicamente associadas com sintomas de ansiedade, depressão e estresse mental. Estas emoções e sentimentos eram frequentemente associados com relações familiares e rendimento acadêmico. Por outro lado, interações entre os próprios adolescentes expunham maior percepção de aceitação e conexão, caracterizando um senso de pertencimento com efeitos positivos sobre os indivíduos. Conclui-se que compreender a forma como o adolescente percebe e interage com o mundo permite identificar como e quais intervenções em saúde pública podem ser mais adequadas para prevenir o desenvolvimento de problemas de saúde mental neste público.
Palavras-chave: saúde mental; relações sociais; educação em saúde; psicologia educacional; adolescente.

ABSTRACT
Adolescence represents an important stage of human development that is strongly influenced by social interactions, which can have a positive or negative impact on individuals’ identities. Given government agencies’ concern about the rise in diagnoses of psychopathologies among this group, this report describes the experience of an outreach activity focusing on the relationship between adolescents, mental health, and daily life, analyzing the emotions and feelings expressed from the perspective of middle and high school students. To this end, over the course of one week, a traveling fair visited four municipalities in the interior of Pará, discussing topics related to brain science in a playful and interactive manner. Among the activities, the identification and description of situations involving real danger or anxiety by the participants allowed us to understand how the group perceived different contexts (primarily family, school, and social) and what these meant for the individual and the group. Negative manifestations, such as discomfort, insecurity, worry, embarrassment, fear, apprehension, and social isolation, were recurrent and typically associated with symptoms of anxiety, depression, and mental stress. These emotions and feelings were frequently linked to family relationships and academic performance. On the other hand, interactions among the adolescents themselves revealed a greater sense of acceptance and connection, characterizing a sense of belonging with positive effects on the individuals. It can be concluded that understanding how adolescents perceive and interact with the world allows us to identify which public health interventions and, how they should be implemented may be most appropriate for preventing the development of mental health problems in this population.
Keywords: mental health; social relations; health education; educational psychology; adolescent.

1. INTRODUÇÃO

A adolescência constitui uma etapa singular do desenvolvimento humano, caracterizada por intensas transformações físicas, cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, o indivíduo vivencia processos relacionados à construção da identidade, estabelecimento de vínculos, autonomia, pertencimento social e elaboração de expectativas relacionadas ao presente e ao futuro. Essas transformações ocorrem em constante interação com os contextos familiar, escolar, social e tecnológico, tornando a adolescência uma fase especialmente relevante para a promoção da saúde e do bem-estar (World Health Organization, 2025; Ciccia; Meulenbroek; Turkstra, 2009).

Nesse contexto, a saúde mental assume papel fundamental. A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos apresenta alguma condição negativa relativa à saúde mental (Organização Pan-Americana da Saúde [s.d.]). Depressão, ansiedade e distúrbios comportamentais estão entre as principais causas de doenças e incapacidades em adolescentes (World Health Organization, 2025). Os transtornos de ansiedade, especificamente, estão entre as condições mais prevalentes durante a adolescência, muitos deles associados à pressão no desempenho escolar (Blakemore, 2012; Steare et al., 2023), o que pode repercutir não somente sobre a performance acadêmica, mas também nas relações sociais, na participação em atividades cotidianas e na qualidade de vida.

Entretanto, abordar a ansiedade na adolescência requer uma compreensão que ultrapasse a perspectiva exclusivamente diagnóstica. Sentimentos como medo, preocupação, insegurança e apreensão podem fazer parte das experiências cotidianas e não significam, isoladamente, a presença de um transtorno mental. Nesse contexto, fatores sociais e ambientais podem influenciar a experiência de ansiedade na adolescência, contribuindo para manifestações físicas e emocionais, como sentimento de insegurança, preocupação excessiva, medo de não pertencimento e isolamento social (Loades et al., 2020; Racine et al., 2021). A relevância da discussão está, portanto, também na capacidade de reconhecer emoções, compreender suas manifestações, identificar situações de sofrimento e conhecer possibilidades de cuidado e busca de ajuda. A Organização Mundial da Saúde destaca que ambientes familiares, escolares e comunitários protetores, bem como o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e estratégias de enfrentamento, são componentes importantes para o bem-estar dos adolescentes (World Health Organization, 2025).

Seguindo esta premissa, a promoção da saúde mental nessa população também depende da ampliação do conhecimento e da redução de barreiras relacionadas ao reconhecimento do sofrimento e à busca por ajuda, que inclusive pode ocorrer dentro do ambiente escolar não só por professores e demais profissionais da educação, mas também por adolescentes com o devido conhecimento e instrução (Winterton; Dunk; Wiles, 2020; Fazel et al., 2014). No Brasil, a UNICEF tem destacado a importância da escuta e da participação dos próprios adolescentes na construção de estratégias de promoção da saúde mental, conforme evidenciou em pesquisa que identificou a importância de compreender as próprias percepções acerca da saúde mental e dos serviços de cuidado disponíveis, por parte dos jovens (UNICEF Brasil, 2026).

É justamente neste cenário que a divulgação científica e as ações de extensão universitária podem constituir importantes estratégias de aproximação entre ciência e sociedade, abrindo caminho para a promoção de temas, como a saúde mental, mediado também por adolescentes e jovens adultos (Ribeiro et al., 2022). Ao transformar conhecimentos científicos em conteúdos acessíveis, instrutivos, lúdicos e interativos, essas ações possibilitam que temas complexos sejam discutidos de maneira contextualizada e adequada às diferentes faixas etárias (Lula; Andrade; Ruas, 2026; Araujo Coelho et al., 2024), contribuindo assim para atender interesses e necessidades da população geral (Oliveira et al., 2026). Estudos recentes sobre intervenções de educação em saúde mental indicam que ações educativas podem contribuir especialmente para ampliar conhecimentos sobre o assunto entre adolescentes (Oliveira et al., 2024; Leandro Cavalcante et al., 2019).

Foi nesse contexto que se desenvolveu a atividade de extensão aqui relatada, inserida na programação da Semana Nacional do Cérebro da Região do Lago de Tucuruí/PA, realizada em março de 2026. O evento teve como propósito disseminar conhecimentos relacionados ao cérebro e às neurociências por meio de atividades de ensino e extensão, incluindo uma feira itinerante que percorreu quatro municípios da região e contemplou diferentes públicos. As atividades foram estruturadas de forma educativa e interativa, abordando conteúdos relacionados ao funcionamento do sistema nervoso, saúde mental e uso de tecnologias, envolvendo crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Entre os públicos participantes, destacaram-se adolescentes de 13 a 18 anos, provenientes das redes pública e privada de ensino, com os quais foram desenvolvidas abordagens relacionadas à saúde mental, ansiedade e uso de celulares. O contato direto com esse público possibilitou não apenas a transmissão de informações científicas, mas também a observação das diferentes formas de interação dos adolescentes com os temas propostos, favorecendo reflexões acerca de suas percepções, questionamentos e experiências cotidianas.

Dessa forma, este relato tem como objetivo apresentar e refletir sobre a experiência por nós vivenciada durante a atividade extensionista, buscando compreender, a partir dessa vivência, aspectos da relação entre adolescência, saúde mental e cotidiano. A experiência é compreendida não apenas como uma oportunidade de divulgação do conhecimento científico, mas também como um espaço de aprendizagem, no qual o contato com os adolescentes possibilitou ampliar a compreensão sobre a importância da escuta, do diálogo e da educação em saúde como estratégias de promoção do bem-estar e de aproximação entre universidade, ciência e comunidade.

2. MÉTODOS E PROCEDIMENTOS

O presente relato é consequência direta da observação, descrição e análise de experiências vivenciadas junto a adolescentes e pré-adolescentes, durante a realização de uma atividade de extensão focada na difusão e democratização do conhecimento científico e promoção à saúde, em centros urbanos e zonas rurais de municípios da Amazônia Paraense. Entre os dias 16 e 22 de março de 2026 a feira itinerante da Semana Nacional do Cérebro percorreu, na mesorregião do Lago de Tucuruí/PA, cerca de 570Km nas seguintes localidades: municípios de Tucuruí, Breu Branco, Novo Repartimento e Goianésia do Pará, além da comunidade quilombola Jutaí (Breu Branco).

A atividade aberta à comunidade local, ocorria das 8h00 às 16h00, através de ações instrutivas, lúdicas e interativas, abordando temas, como: funcionamento do sistema nervoso, neuroplasticidade e aprendizagem, sensações e percepções, saúde mental e abuso do uso de celulares, entre outros. A dinâmica empregada entre os extensionistas e os participantes potencializava as atividades, o engajamento e a percepção de aprendizagem.

Entre crianças em idade de alfabetização e idosos, o público principal era formado por jovens entre 13 e 18 anos de idade, estudantes da rede pública ou privada (com ênfase na primeira) dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. E foi justamente esta faixa em específico que formou o público-alvo deste relato de experiência e suas interações com a atividade relacionada a ansiedade e suas manifestações no dia a dia.

A atividade em questão envolvia a identificação por parte dos indivíduos sobre o que eles entendiam/diferenciavam quanto a “perigo real” e “ansiedade”. No início da ação, era explicado e exemplificado “perigo real” como sendo aquela situação concreta de risco imediato à integridade física e emocional da pessoa. Enquanto “ansiedade” seria uma resposta antecipatória a algo que seria um risco em potencial, podendo ou não acontecer. Os exemplos aplicados deixavam claro que, situações como deparar-se com um animal peçonhento ou com um bandido armado representavam perigo real. Já ficar animado hoje porque iria para uma praia ou encontrar alguém dali alguns dias era ansiedade. Da mesma forma que, preocupar-se com o resultado de uma prova que já havia feito e não sabia o resultado também era ansiedade. Embora esta seja uma simplificação conceitual, ela se mostrou eficaz para o que se efetivamente esperava alcançar com a atividade: promover a interação através do debate e troca de ideias e esclarecimentos entre todos os envolvidos.

Como a atividade era em ambiente aberto e com múltiplos frequentadores, além da intenção de promover debate, especialmente entre os participantes, cada indivíduo recebia duas plaquinhas para facilitar a comunicação e as interações entre todos. Em uma estava escrito PERIGO REAL, na outra ANSIEDADE. Assim, todos podiam participar de uma vez.

Após as explicações e esclarecimentos quanto a atividade, a ação era efetivamente iniciada. Um extensionista apresentava uma situação em uma frase clara e direta, como por exemplo: “Se algo cai perto de você fazendo um barulho estridente e alto, isso é ansiedade ou perigo real?’’. Após isto, os participantes levantavam a plaquinha que melhor representava sua percepção daquela situação. Em seguida, era pedido para um ou outro participante justificar a escolha. Em situações como a do exemplo acima, as respostas e explicações eram consenso coletivo.

O debate era mais claro e evidente quando ocorria divergência entre as plaquinhas levantadas e os argumentos defendidos por cada indivíduo. Tais divergências surgiam em questões que envolviam aspectos sociais, emocionais e expectativas de responsabilidade aos jovens. As discussões surgiam justamente porque as situações representavam os sentimentos remetidos por elas e, claramente, as experiências e seus significados não eram iguais entre os indivíduos. E foram justamente estas divergências durante a realização do evento que nos levaram a registrar as percepções dos jovens e, desenvolver este relato de experiência.

Sendo um relato de experiência por parte dos autores, não foram utilizados instrumentos formais de coleta de dados. As informações aqui descritas são resultado da observação direta de falas espontâneas e interações vivenciadas durante esta semana de atividades em diferentes localidades, porém com algumas características em comum. Resultados e discussões são apresentados como relatos qualitativos experienciados por uma estudante do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas quanto ao envolvimento, participação, compreensão e afetos apresentados pelos adolescentes na atividade.

As observações vivenciadas eram anotadas em blocos de notas de celulares ou através de relatos em aplicativos de gravação de voz. Os registros descreviam dia, hora, local e detalhamento da situação vivenciada. Ao final do evento, todo o material foi descrito e compilado em arquivo único para posterior análise.

Todos os princípios éticos, morais e legais foram respeitados durante a atividade extensionista. Considerando que os pesquisadores foram meros observadores do ambiente e seus participantes, o presente estudo se enquadra entre as exceções previstas na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2016) que, isenta a necessidade de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Toda a dinâmica foi conduzida de maneira acolhedora e que induzisse a participação dos indivíduos através da aplicação de uma linguagem acessível e uma comunicação verbal e não-verbal agregadora. O uso de recursos visuais, como: pôsteres, imagens e maquetes, auxiliaram de maneira ilustrativa na compreensão das situações apresentadas e narradas pelos extensionistas. Estas condições se mostraram assertivas para que após sinalizar o que sentiam com as placas, os participantes expressassem quais sentimentos e sintomas relacionavam àquele contexto.

Considerando que parte do foco da atividade estava em descrever como os adolescentes se identificavam e vivenciavam sentimentos em situações cotidianas, algumas expressões de manifestações emocionais se mostraram bem recorrentes. Entre as manifestações mais relatadas, merecem destaque: desconforto, insegurança, medo, preocupação, estresse, constrangimento ou receio de se expressar e isolamento social. Embora essas manifestações, tipicamente negativas, não permitam por si só, caracterizar a presença de algum transtorno de ansiedade ou qualquer outro diagnóstico, é importante ressaltar que depressão e ansiedade são alguns dos problemas de saúde mental mais comuns e tendem a iniciar a manifestação de sintomas ainda na adolescência (Solmi et al., 2021).

O contexto das ocasiões em que as emoções negativas e sentimentos relativos mencionados acima ocorriam, em geral envolviam três tipos de situações: ambiente familiar, ambiente escolar e grupo social. Quanto a estes últimos, durante a adolescência, a opinião dos pares e a percepção de aceitação ou rejeição ganham maior importância, fazendo com que situações aparentemente comuns, como: falar em público, expor uma opinião ou admitir uma dificuldade, possam adquirir significado emocional mais intenso. Estas situações estão diretamente relacionadas com o senso de pertencer ao grupo pelos indivíduos, uma vez que, estas conexões são consideradas significativas e confiáveis, gerando fator de proteção em situações estressantes de vida (Critchlow; John; Dunn, 2026).

Este pertencimento em si pode ser conceituado com a fusão de bases experienciais e psicológicas, onde a primeira envolve a aceitação e conexão profunda fazendo-se sentir parte do grupo/ambiente (Hagerty et al., 1992), enquanto a segunda envolve o desejo de fazer parte, moldando a identidade e o bem-estar dos indivíduos (Allen et al., 2021; Maslow, 1943). Estudos sobre desenvolvimento socioemocional indicam que os adolescentes apresentam maior sensibilidade às situações de avaliação social, principalmente entre seus pares, o que impacta diretamente em mudanças na estruturação cerebral nesta fase da vida (Guyer; Lau, 2013). Da mesma forma, Sulimani-Aidan e Kovach (2024), afirmam que o senso de pertencimento na adolescência está associado a melhores adaptações à vida adulta.

Nesse sentido, as manifestações de desconforto e receio, por exemplo, mencionados por alguns durante a atividade podem ser compreendidas não apenas como uma reação individual, mas como uma resposta situada em relações sociais nas quais o jovem procura preservar sua imagem, pertencimento e aceitação. A preocupação, a insegurança e o constrangimento podem, portanto, atuar como sinais de que determinada situação está sendo percebida como socialmente ameaçadora, mesmo quando não existe perigo físico imediato. E para o adolescente, principalmente do sexo feminino, o valor simbólico da própria imagem é muito representativo ao ponto deste tema ser uma importante preocupação que pode estar associada com estresse e depressão (Choukas-Bradley et al., 2022).

Da mesma maneira, a preocupação expressa e recorrente manifestada pelos participantes sobre isolamento social ajuda a compreender como a antecipação do julgamento impacta sua percepção de realidade. Quando o sujeito não se sente pertencente, não se engaja ou conecta com os outros, a deterioração de suas relações sociais tende a provocar falta de segurança identitária (Gamarel et al., 2014). A tendência de viés negativo neste julgamento social por parte do adolescente ajuda a prever comportamentos ansiosos relacionados à redução de sua exposição social, evitação de falar em público ou mesmo de interagir. Diferentes estudos têm demonstrado resultados negativos de saúde mental e isolamento social em jovens, associados a maiores ocorrências, de: depressão (McCallum; McLaren, 2011), abuso de substâncias (Hatchel; Marx, 2018) e ideação/tentativa de suicídio (Brandelli Costa et al., 2017).

Outra interessante característica identificada foi a de ao observarem as respostas indicadas por outros participantes, além dos relatos de emoções associadas, muitos indivíduos passavam a se manifestar abertamente. A percepção que tivemos era a de que aquele momento estava mostrando como a rede de acolhimento invisível entre adolescentes se manifesta. Ao ouvir que muitos de seus sentimentos também eram compartilhados coletivamente, nas mesmas situações, a noção de pertencimento ao grupo parecia reduzir o receio de se expressar. Considerando que a grande maioria dos jovens que participaram das atividades da feira extensionista estavam ali porque haviam sido levados por seus professores, devido aquela ser uma atividade escolar, a escola representa um importante ambiente de desenvolvimento socioafetivo para este público. Estudos tem mostrado que a maior conexão do adolescente com o ambiente escolar está correlacionada com diversas melhorias, como: bem-estar psicológico, desempenho acadêmico, melhores níveis de atividades físicas e menor uso de substâncias, além de menores sintomas de ansiedade e depressão (Wang; Degol, 2016; Weatherson et al., 2018; Raniti et al., 2022). E nitidamente, como os grupos de atividades eram formados quase que completamente por sujeitos que se relacionavam previamente, a sensação de conforto e segurança na expressão de emoções e sentimentos se mostraram mais evidentes.

Por outro lado, o ambiente familiar apareceu regulamente como um agente disparador ou potencializador de estresse entre os adolescentes. As associações mais recorrentes foram aquelas relacionadas à cobrança por bom desempenho escolar e aprovação. Apesar de toda família ter suas particularidades que às tornam únicas, o estilo adotado por pais e responsáveis na criação dos filhos pode ter maior o menor impacto sobre o desenvolvimento social e psicológico do adolescente. Para Baumrind, estes estilos de criação podem ser: autoritário, autoritativo e permissivo (Baumrind, 1971). Enquanto pais permissivos manifestam muito afeto e apoio e pouca exigência de regras e limites, as outras formas de criação tendem a ser diferentes. Os autoritários são o contrário: rígidos e inflexíveis em regras e com pouca demonstração de afeto/apoio. Já os autoritativos são aqueles que equilibram regras e afetos em alto grau, sendo classificados como mais democráticos (Baumrind, 1971).

A natureza da criação dos filhos pode impactar diretamente na autonomia, tomada de iniciativa e desenvolvimento de uma personalidade independente. Em ambientes mais autoritários, o estresse em obedecer reprime a autonomia e impacta na saúde mental dos indivíduos. Crianças de pais autoritários tendem a ter maiores históricos de sofrimento psicológico e maior probabilidade de desenvolverem transtornos, como: depressão e ansiedade (Lin; Guo, 2024; Chyung et al., 2022).

Na adolescência, sendo a mais comum responsabilidade ao indivíduo o rendimento acadêmico e a aprovação escolar, o problema surge quando o desempenho passa a ser percebido como uma condição de reconhecimento ou a busca por não desapontar familiares. Assim, a atividade escolar deixa de ser uma exigência acadêmica e passa a expressar importante valor emocional. Steare e colaboradores (2023) mostraram uma associação entre pressão acadêmica e diferentes problemas de saúde mental na adolescência. Outros estudos sobre relações parentais também indicam que calor emocional, autonomia e formas de controle exercem papel importante na adaptação psicológica dos jovens, enquanto práticas mais negativas podem estar associadas a sintomas mentais prejudiciais (Yap; Jorm, 2015; Gorostiaga et al., 2019).

Nossas observações da realidade exposta pelos adolescentes durante a sinalização das placas e manifestação de argumentos, permite inferir que na visão de muitos indivíduos, as relações familiares estão fortemente atreladas com a necessidade de atender expectativas. Ao mesmo tempo, eventuais dificuldades não só acadêmicas, mas também emocionais ou sociais tendem a ser reprimidas, por não haver este tipo de comunicação no ambiente familiar. Aqui identificamos um grande ponto de preocupação. Considerando que na adolescência a capacidade de mudança do cérebro está potencialmente elevada, respostas neuroplásticas de fortalecimento ou poda de circuitos neuronais são aprendidas ou adaptadas segundo às experiências vivenciadas (Larsen; Luna, 2018; Fuhrmann; Know; Blakemore, 2015), de maneira que, frustrações, ameaças, receios e medos, quando recorrentes, podem deixar marcas de aprendizagem e memória em regiões corticais e subcorticais. Isto impacta diretamente no desenvolvimento cognitivo, emocional e sociopsicológico dos adolescentes (Bethlehem et al., 2022; Steinberg et al., 2018).

Em nossa atividade, a liberdade de fala, além de fortalecer o vínculo de grupo, revelou que medos e receios apresentados por alguns participantes também eram reconhecidos por outros. Esse padrão foi recorrente nas diferentes localidades visitadas. Essa recorrência não permite afirmar que as manifestações observadas sejam idênticas ou independentes da cultura, das condições sociais ou das características de cada comunidade, contudo, sugere que alguns processos próprios da adolescência podem oferecer uma base comum para experiências emocionais semelhantes. Assim, nesse período, a necessidade de pertencimento e a sensibilidade à aceitação ou rejeição social podem fazer com que experiências distintas sejam traduzidas em emoções semelhantes, como: medo, vergonha, insegurança e preocupação com a avaliação dos outros (Guyer; Lau, 2013). O fato de um adolescente reconhecer sua própria experiência na fala de outro participante parece ter produzido, durante a atividade, uma mudança importante: aquilo que inicialmente poderia ser interpretado como uma fragilidade exclusivamente individual passava a ser compreendido como uma experiência compartilhada.

Esse reconhecimento pode reduzir a percepção de excepcionalidade e favorecer a disposição para falar, pedir ajuda e participar. A literatura sobre conexão escolar sustenta justamente a relevância dos vínculos sociais para o bem-estar psicológico dos jovens, indicando que relações positivas com pares e professores constituem importantes fatores protetores (Raniti et al., 2022; Peng; Patterson, 2025). Assim, a recorrência das manifestações de emoções, sentimentos e falas observadas entre os públicos nos diferentes municípios deve ser interpretada menos como prova de uma experiência adolescente universal e mais como indício de que processos desenvolvimentais comuns podem interagir com diferentes contextos culturais e sociais, produzindo respostas semelhantes, mas não necessariamente com o mesmo significado.

Importante salientar também que as manifestações emocionais apresentadas pelos estudantes em muitas situações não se restringiam ao pensamento ou à descrição subjetiva do que sentiam. Em diferentes situações, foram relatadas manifestações físicas típicas de associação ao estresse, como: taquicardia, sudorese, hiperventilação, inquietude e dificuldade de concentração. Do ponto de vista fisiológico, respostas desse tipo são compatíveis com a ativação dos sistemas envolvidos na resposta luta-fuga, particularmente o sistema nervoso autônomo simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA). Diante da percepção de ameaça ou de uma situação de elevada demanda, o organismo pode aumentar a atividade simpática e a liberação de catecolaminas, como adrenalina e noradrenalina, favorecendo alterações cardiovasculares e respiratórias e, preparando o indivíduo para uma resposta do tipo sobrevivência rápida. Em paralelo, a ativação do eixo HHA culmina na liberação de cortisol, que participa da mobilização energética e da adaptação do organismo ao estressor (Charmandari et al., 2003).

Essas respostas não são necessariamente patológicas, elas fazem parte dos mecanismos normais de adaptação e podem ocorrer diante de desafios agudos. O que ganha relevância para a saúde adolescente é a frequência, intensidade, duração e capacidade de recuperação após a exposição ao estressor. Estudos experimentais com crianças e adolescentes mostram que situações de avaliação social podem provocar respostas fisiológicas mensuráveis, incluindo alterações de frequência cardíaca, cardíaca e de cortisol, por exemplo (Bosch et al., 2009; Fann et al., 2026). Além disso, outros estudos sobre adolescência indicam aumento da responsividade biológica a situações de avaliação social durante o desenvolvimento, sobretudo em momentos de antecipação da exposição (van Den Bos et al., 2014). Esses achados ajudam a interpretar as manifestações observadas durante a atividade, especialmente em situações que envolvam exposição, julgamento ou incerteza.

Se considerarmos a prevalência dos transtornos de ansiedade entre 15 e 20% nos adolescentes, do ponto de vista da saúde pública desta população não pode ser negligenciada (Kessler et al., 2012). Tais distúrbios aumentam o risco de tentativas de suicídios, abusos de substâncias e depressão ao longo da vida (Pine et al., 1998; Foley et al., 2006; Jacobson et al., 2008). Diante deste quadro, intervenções de educação em saúde podem e devem ser aplicadas a este público, criando um ambiente acolhedor para compreensão das mudanças típicas desta fase de desenvolvimento, minimizando os impactos negativos possíveis de um autojulgamento rigoroso e, potencializando relações pessoais e experiências coletivas e individualmente benéficas, em especial, ao neurodesenvolvimento.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Apesar de ser um relato observacional, a experiência vivenciada permitiu perceber que é comum aos adolescentes certa vulnerabilidade emocional associada com uma preocupação ansiosa com o julgamento social, a partir de eventos cotidianos. Enquanto o ambiente familiar pode ser potencialmente estressor pelo autojulgamento do adolescente, o ambiente escolar parece ser mais positivo, não pela questão acadêmica (que também é estressora), mas pela presença de pares que contribuem emocionalmente, provocando sensação de pertencimento.

Diante de todas as mudanças marcantes desta fase da vida, aquelas relacionadas ao neurodesenvolvimento se revelam cruciais para a formação da autoimagem e percepção de seu papel na sociedade, pelos adolescentes. Assim, a exposição a determinadas situações e ambientes com alguma frequência, pode contribuir positiva ou negativamente com a formação da identidade de cada um. E isso pode impactar por toda a vida daquele indivíduo. Portanto, considerando a crescente preocupação dos órgãos governamentais mundiais com a saúde mental deste grupo, compreender como o adolescente enxerga o mundo, segundo sua perspectiva e, se relaciona com ele, nos permite identificar que tipo de intervenções em saúde pública pode ser mais adequadas para prevenir o desenvolvimento de problemas de saúde mental nesta população e facilitar sua interação social para além de seus pares.

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1 Graduanda em Licenciatura em Ciências Biológicas. Instituto Federal do Pará, campus Tucuruí. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-9589-0918. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Enfermeira/Cirurgiã-dentista. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-0815-5001. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutor em Psicologia. Professor Titular Instituto Federal do Pará, campus Tucuruí. Chefe do Laboratório de Neuroquímica e Comportamento. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2686-2982