REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776497036
RESUMO
A inteligência artificial encontra-se cada vez mais integrada ao cotidiano das pessoas, presente em aplicações como sistemas de recomendação, assistentes virtuais, mecanismos de busca e navegação inteligente. Contudo, apesar dessa ampla disponibilidade, observa-se uma lacuna significativa entre o acesso às tecnologias de IA e seu uso consciente e estratégico por parte de usuários iniciantes. Este artigo investiga as barreiras práticas que dificultam a adoção efetiva da inteligência artificial no dia a dia, a partir de observações empíricas realizadas em contextos profissionais e pessoais. Como resposta ao problema identificado, apresenta-se o desenvolvimento de um material instrucional digital intitulado “IA na Prática: Descubra seu dia a dia”, construído como website interativo por meio da plataforma Lovable, com o objetivo de reduzir a distância entre tecnologia e usuário. A metodologia adotada fundamenta-se na abordagem Design Science Research, contemplando a identificação do problema, a construção do artefato e sua validação funcional. Os resultados indicam que a solução desenvolvida possui potencial para contribuir com a democratização do uso da inteligência artificial, ao transformar conhecimento técnico em experiência acessível e aplicável.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Material Instrucional; Inclusão Digital; Design Science Research; Usabilidade.
ABSTRACT
Artificial intelligence is increasingly integrated into people's daily lives, present in applications such as recommendation systems, virtual assistants, search engines, and intelligent navigation. However, despite this wide availability, a significant gap exists between access to AI technologies and their conscious and strategic use by novice users. This article investigates the practical barriers that hinder the effective adoption of artificial intelligence in everyday life, based on empirical observations made in professional and personal contexts. As a response to the identified problem, the development of a digital instructional material entitled "AI in Practice: Discover Your Daily Life" is presented, built as an interactive website using the Lovable platform, with the aim of reducing the distance between technology and the user. The methodology adopted is based on the Design Science Research approach, encompassing the identification of the problem, the construction of the artifact, and its functional validation. The results indicate that the developed solution has the potential to contribute to the democratization of the use of artificial intelligence, by transforming technical knowledge into an accessible and applicable experience.
Keywords: Artificial Intelligence; Instructional Material; Digital Inclusion; Design Science Research; Usability.
1. INTRODUÇÃO
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa restrita a laboratórios de pesquisa e passou a integrar, de forma silenciosa e contínua, as atividades mais corriqueiras da vida contemporânea. Quando uma pessoa abre um aplicativo de navegação para verificar o melhor trajeto até o trabalho, quando recebe uma sugestão personalizada de filme em uma plataforma de streaming ou quando um filtro de e-mail separa automaticamente mensagens legítimas de spam, a inteligência artificial está operando nos bastidores, sem que o usuário necessariamente perceba sua presença. Como observa Carvalho (2021), não são poucas as situações em que usamos, na maioria das vezes sem darmos conta, modelos criados por algoritmos de IA, em atividades tão rotineiras como ler mensagens de e-mail, lavar roupas ou decidir a que filme assistir em uma plataforma de streaming.
Essa presença crescente e, em grande medida, invisível da IA no cotidiano tem sido amplamente documentada na literatura. Cruz (2022) destaca que a inteligência artificial está presente no cotidiano das pessoas desde questões simples, como enviar uma mensagem para amigos e familiares por meio de um aplicativo, curtir um post nas redes sociais ou receber uma indicação de vídeo, até questões mais recentes como fazer uma consulta médica por teleconsulta ou participar de processos seletivos para empregos. Nolasco et al. (2024) reforçam que a IA está se integrando cada vez mais ao cotidiano, moldando diversos aspectos da vida do cidadão comum, desde assistentes pessoais até recomendações de produtos e serviços.
Entretanto, apesar dessa ampla disponibilidade e integração tecnológica, uma parcela significativa da população ainda não utiliza a inteligência artificial de forma consciente, estratégica ou sequer reconhece sua presença nas ferramentas que já utiliza diariamente. Esse fenômeno, identificado empiricamente pelo autor deste artigo durante sua atuação profissional na área de tecnologia da informação, constitui o problema central desta pesquisa.
Ao longo de anos de trabalho com suporte técnico, infraestrutura e atendimento direto a usuários, tornou-se evidente que o principal obstáculo para a adoção da inteligência artificial não reside na falta de acesso à tecnologia, mas em três fatores de natureza prática: a ausência de conhecimento sobre como utilizar ferramentas de IA, a percepção de que se trata de uma tecnologia complexa e distante da realidade, e a escassez de materiais educativos que apresentem essas ferramentas de forma acessível e aplicada ao cotidiano. Situações como pessoas que preferem perguntar a colegas de trabalho ao invés de consultar um assistente de IA, ou que demonstram insegurança ao tentar formular uma pergunta para um chatbot, foram observadas com regularidade em ambientes profissionais e familiares.
Daguano e Cavichiolli (2024) apontam que produtos e serviços baseados em IA devem conseguir transmitir aos possíveis usuários a percepção de fatores como confiança e praticidade, associados à melhor adoção dessas tecnologias. Quando essa percepção não é construída, a barreira de adoção se mantém, independentemente da qualidade técnica da ferramenta disponível.
Diante dessa constatação, o presente artigo tem como objetivo analisar a lacuna entre a disponibilidade tecnológica da inteligência artificial e seu uso real por parte de usuários iniciantes, investigando as barreiras práticas que impedem essa adoção consciente. Como resposta ao problema identificado, apresenta-se o desenvolvimento de um material instrucional digital intitulado “IA na Prática: Descubra seu dia a dia”, concebido como um website interativo com conteúdo aplicado, interface intuitiva e linguagem acessível, destinado a aproximar o usuário comum das ferramentas de IA já disponíveis.
A relevância deste trabalho reside na contribuição para a democratização do acesso à inteligência artificial, entendida não apenas como disponibilidade tecnológica, mas como capacidade efetiva de uso. Ao transformar conhecimento técnico em experiência prática e compreensível, o material desenvolvido busca provocar uma mudança de comportamento, incentivando o uso ativo e consciente da IA como ferramenta de apoio no cotidiano.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O crescimento da inteligência artificial nas últimas décadas transformou profundamente a maneira como as pessoas interagem com a tecnologia em suas atividades diárias. Carvalho (2021) identifica quatro eixos de avanços tecnológicos que provocaram essa expansão: a extração de dados, por meio de sensores cada vez mais sofisticados; o armazenamento, com capacidades ampliadas e custos reduzidos; a transmissão, impulsionada pela internet das coisas; e o processamento, com computadores mais eficientes e acessíveis. Esses avanços criaram o ambiente necessário para que a IA saísse dos laboratórios e fosse incorporada a produtos e serviços do cotidiano.
Cruz (2022) desenvolve uma análise detalhada sobre como essa incorporação se manifesta na vida prática das pessoas. Segundo a autora, a IA está presente em transações bancárias, nas comunicações do dia a dia, no modo como se acessa serviços de atendimento ao consumidor por meio de chatbots, passando pelas comodidades trazidas pelas assistentes virtuais como Siri, Cortana e Alexa. A autora destaca ainda as quatro ondas da revolução da IA propostas por Kai-Fu Lee: IA de internet, IA de negócios, IA de percepção e IA autônoma, enfatizando que as duas primeiras já fazem parte da realidade cotidiana.
Nolasco et al. (2024) observam que assistentes virtuais como a Siri e a Alexa facilitam tarefas diárias, enquanto algoritmos de recomendação melhoram a experiência de compra e entretenimento. Contudo, os autores alertam para preocupações sobre privacidade e segurança dos dados, uma vez que o uso intensivo de IA pode levar ao monitoramento constante e à coleta de informações pessoais.
Daguano e Cavichiolli (2024) complementam essa perspectiva ao analisar como a popularização de sistemas baseados em IA, como assistentes virtuais inteligentes, chatbots e dispositivos autônomos, tem sido impulsionada por grandes empresas de tecnologia como Microsoft, Google, Apple e Amazon, que priorizam investimentos em IA para garantir a preferência dos usuários.
2.1. Barreiras de Adoção e Experiência do Usuário
Apesar da crescente presença da inteligência artificial no cotidiano, a adoção consciente dessas ferramentas ainda encontra barreiras significativas. Daguano e Cavichiolli (2024) argumentam que o sucesso das aplicações de IA está diretamente ligado à experiência que o usuário tem com o serviço ou produto, e que sistemas devem transmitir ao usuário a impressão de satisfação e utilidade durante a interação, para que exista intenção de uso contínuo dessas tecnologias. Os autores destacam que a percepção de utilidade constitui um fator determinante para a adoção de assistentes virtuais inteligentes.
Essa perspectiva dialoga com a análise de Hassenzahl (2013, apud DAGUANO; CAVICHIOLLI, 2024), segundo a qual a experiência do usuário vai além das propriedades e funcionalidades do produto, envolvendo os sentimentos e momentos positivos que o usuário experimenta ao utilizá-lo. Quando essa experiência é marcada por frustrações, dificuldades de compreensão ou sensação de complexidade, a tendência natural é o abandono da ferramenta.
No contexto específico da inteligência artificial, Cruz (2022) identifica que existe uma percepção recorrente de que a IA é algo complexo, técnico ou distante da realidade cotidiana, o que acaba gerando resistência ou desinteresse. Essa percepção cria uma barreira psicológica e cognitiva que impede a adoção ativa dessas ferramentas, mesmo quando elas já estão disponíveis e acessíveis.
Silva et al. (2024) ampliam essa discussão ao abordar os desafios da inteligência artificial generativa na construção de sistemas computacionais acessíveis. Os autores identificam que existe uma lacuna na aplicação de IAs generativas para a inclusão de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, intensificando barreiras de acessibilidade no ambiente digital. Embora o foco dos autores esteja na acessibilidade para pessoas com deficiência, o princípio subjacente se aplica à adoção da IA de modo geral: quando as ferramentas não são projetadas considerando as necessidades e limitações dos usuários, a exclusão digital se perpetua.
2.2. Inteligência Artificial na Pesquisa e Desafios Éticos
Brasil (2025), em relatório produzido para a CAPES, analisa como a inteligência artificial está transformando a produção de conhecimento científico. O autor destaca que a IA está sendo amplamente utilizada para analisar grandes volumes de dados, identificar padrões complexos e gerar previsões precisas, com aplicações especialmente relevantes em áreas como genômica, climatologia e física de partículas.
Contudo, Brasil (2025) alerta para os desafios éticos associados ao uso da IA, incluindo questões de transparência, confiabilidade e reprodutibilidade dos resultados gerados por algoritmos. O autor menciona preocupações com o uso de ferramentas de IA na educação, que levantam questões sobre a confiabilidade dos métodos de avaliação e do processo de aprendizado.
Carvalho (2021) reforça essa perspectiva ao discutir os riscos, benefícios e o uso responsável da IA. O autor apresenta uma visão equilibrada, reconhecendo que a IA trouxe ganhos econômicos e sociais significativos, permitindo que empresas projetassem produtos mais seguros, baratos e personalizados, que órgãos públicos oferecessem melhores serviços à população. Ao mesmo tempo, Carvalho (2021) alerta para a necessidade de regulamentações adequadas e de uma cultura de uso responsável.
2.3. Democratização da IA e Inclusão Digital
A democratização da inteligência artificial não se limita à ampliação do acesso às tecnologias, mas envolve fundamentalmente a capacitação dos usuários para que possam utilizá-las de forma efetiva. Cruz (2022) observa que a aceleração do uso da IA na vida prática já vinha ocorrendo com rapidez; no entanto, com a pandemia da Covid-19, houve uma exponencialização, empurrando empresas e setor público para usos cada vez mais sofisticados.
Essa aceleração, contudo, não foi acompanhada por um processo equivalente de educação e capacitação dos usuários. Nolasco et al. (2024) destacam a necessidade de que cidadãos e responsáveis pela implementação dessas tecnologias estejam cientes dos impactos na privacidade e na segurança.
Daguano e Cavichiolli (2024) argumentam que o design de experiência do usuário é um aspecto fundamental para o sucesso e a popularização das tecnologias de IA, através do entendimento profundo das necessidades e objetivos do usuário. Quando o material educativo sobre IA é desenvolvido com esses princípios em mente, a probabilidade de adoção efetiva aumenta consideravelmente.
Nesse contexto, o desenvolvimento de materiais instrucionais digitais que apresentem a inteligência artificial de forma acessível, prática e conectada ao cotidiano do usuário emerge como estratégia relevante para a redução das barreiras de adoção identificadas.
3. METODOLOGIA
O desenvolvimento deste trabalho foi conduzido com base na abordagem Design Science Research (DSR), metodologia amplamente utilizada em estudos aplicados que envolvem a criação de artefatos tecnológicos destinados a solucionar problemas reais identificados em contextos práticos. A escolha dessa abordagem se justifica pela natureza do problema investigado: a baixa adoção consciente da inteligência artificial por usuários iniciantes, identificada empiricamente e demandando uma solução prática.
A DSR distingue-se das abordagens tradicionais de pesquisa por não se limitar à compreensão de fenômenos existentes, mas por propor a construção de soluções que, ao serem avaliadas, geram conhecimento aplicável.
3.1. Etapa de Estudos e Identificação do Problema
A primeira etapa consistiu na identificação e delimitação do problema de pesquisa. Diferentemente de problemas identificados exclusivamente por meio de revisão bibliográfica, o problema central deste estudo emergiu da prática profissional do autor, que atua na área de tecnologia da informação com experiência em suporte técnico, infraestrutura e atendimento direto a usuários.
Durante a atuação profissional cotidiana, foram observadas situações recorrentes que evidenciaram a dificuldade de usuários comuns em utilizar ferramentas de inteligência artificial de maneira consciente e produtiva. Pessoas que possuíam smartphones com assistentes virtuais integrados não sabiam como ativá-los. Usuários que acessavam diariamente plataformas de streaming não compreendiam que as recomendações recebidas eram geradas por algoritmos de IA. Profissionais que poderiam otimizar seu trabalho com ferramentas como o ChatGPT preferiam perguntar a colegas, por insegurança em formular perguntas a uma máquina.
O padrão identificado era consistente: a barreira não era tecnológica, mas prática e cognitiva. As pessoas tinham acesso às ferramentas, mas não possuíam o conhecimento prático necessário para utilizá-las.
3.2. Definição dos Objetivos da Solução
Com base no problema identificado, foram definidos os objetivos da solução: criar um material instrucional digital capaz de reduzir as barreiras de entrada no uso da inteligência artificial, tornando-a mais acessível, compreensível e aplicável no cotidiano de usuários iniciantes.
Os objetivos específicos incluíam: demonstrar aplicações reais da IA no dia a dia; facilitar o entendimento de conceitos básicos sem recorrer a linguagem técnica; reduzir a percepção de complexidade; e oferecer orientações práticas de uso que pudessem ser aplicadas imediatamente.
3.3. Desenvolvimento do Produto
A etapa de desenvolvimento do artefato digital foi realizada com o apoio da plataforma Lovable, uma ferramenta de criação baseada em inteligência artificial que permite a construção de websites e aplicações web por meio de interação conversacional. A escolha dessa plataforma se deu por três razões: a agilidade no processo de prototipação, a qualidade visual e técnica do resultado, e a possibilidade de iterar sobre o conteúdo de forma contínua.
A plataforma Lovable utiliza tecnologias web modernas como React, TypeScript e Tailwind CSS, o que garantiu a responsividade do material em diferentes dispositivos. A
estrutura da interface adotou um modelo de navegação em telas sequenciais, com aproximadamente 20 telas cobrindo temas como: o que é inteligência artificial, exemplos de IA no cotidiano (Waze, Netflix, Google, Gmail), como a IA aprende, ferramentas práticas (ChatGPT, Google Gemini), dicas de formulação de perguntas e reflexões sobre uso responsável.
A construção do conteúdo seguiu princípios de comunicação acessível e design instrucional, priorizando linguagem simples, exemplos do cotidiano e elementos visuais. Foram incorporados elementos interativos, como simuladores que demonstram o funcionamento de sistemas de recomendação, dados estatísticos sobre o uso de IA no mundo e exemplos práticos que o usuário poderia reproduzir imediatamente.
A abordagem adotada foi deliberadamente não-teórica. Ao invés de explicar conceitos como redes neurais ou aprendizado de máquina por meio de definições formais, o material optou por demonstrar esses conceitos em funcionamento, por meio de exemplos que o usuário já vivencia.
A aplicação prática do material ocorreu por meio de três canais: compartilhamento em grupos de WhatsApp, divulgação em perfis de tecnologia no Instagram e disponibilização em formato de acesso aberto por meio do link direto do website.
A validação funcional foi conduzida de forma exploratória, considerando critérios como clareza das informações, facilidade de navegação, aplicabilidade dos conteúdos e coerência entre a proposta educativa e a execução. Essa abordagem é consistente com as etapas iniciais da Design Science Research, que prevê ciclos iterativos de construção, avaliação e refinamento do artefato.
4. APRESENTAÇÃO DO SISTEMA
O sistema desenvolvido, intitulado “IA na Prática: Descubra seu dia a dia”, consiste em um website interativo acessível por meio de endereço eletrônico. A plataforma foi projetada para funcionar como um guia prático e visual sobre inteligência artificial, direcionado a usuários que possuem pouca ou nenhuma familiaridade com o tema.
A interface utiliza um design escuro com acentos em tons de ciano e roxo, criando uma identidade visual moderna e tecnológica, ao mesmo tempo em que mantém a legibilidade e o conforto visual. A navegação ocorre de forma linear, com botões de avanço e retorno que permitem ao usuário percorrer as telas no seu próprio ritmo.
Figura 1: Tela inicial do material digital
A primeira tela apresenta o título do material, acompanhado de uma ilustração que remete à inteligência artificial e ao funcionamento do cérebro humano. Badges informativos indicam as características do material: “Interativo”, “Prático”, “Para iniciantes” e “20 telas”. Dados estatísticos de impacto, como “450M de usuários do ChatGPT”, “97% de precisão do Gmail Anti-Spam” e “80% de acertos da Netflix”, servem como elementos de engajamento.
As telas seguintes apresentam exemplos concretos: o Waze como navegação inteligente, a Netflix como sistema de recomendação (cerca de 80% do conteúdo assistido provém de recomendações algorítmicas), o Google como processamento de linguagem natural e o Gmail como filtro inteligente de spam (precisão superior a 97%).
Figura 2: Tela de Apresentação de usos de IA no dia-a-dia
Figura 3: Amostragem de IA no entretenimento aplicado ao dia-a-dia do usuário
Uma seção dedicada apresenta ferramentas de IA que o usuário pode experimentar imediatamente, com destaque para o ChatGPT e o Google Gemini. O material oferece exemplos concretos de prompts e demonstra como pequenos ajustes na formulação de uma pergunta podem gerar resultados significativamente diferentes.
Figura 4: Tela de Análise das principais Assistentes virtuais com IA
O material inclui simuladores interativos que permitem ao usuário experimentar, de forma simplificada, o funcionamento de sistemas de inteligência artificial. As telas finais abordam questões relacionadas ao uso responsável, conectando-se com as preocupações éticas de Brasil (2025) e Carvalho (2021).
Figura 5: Tela de interação com usuário através de um laboratório de IA
5. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados obtidos podem ser analisados em duas dimensões complementares: a dimensão técnica, relativa à qualidade e funcionalidade do artefato construído, e a dimensão social, relativa ao potencial de impacto na redução das barreiras de adoção da inteligência artificial.
Do ponto de vista técnico, o artefato atende aos requisitos definidos na fase de planejamento: interface intuitiva, navegação linear e progressiva, conteúdo aplicado com exemplos do cotidiano, elementos interativos e design responsivo. A utilização da plataforma Lovable mostrou-se adequada, permitindo ciclos rápidos de prototipação e ajuste.
Do ponto de vista social, as observações preliminares indicam que o material possui potencial para reduzir pelo menos duas das três barreiras de adoção identificadas. A primeira, relativa à ausência de conhecimento prático, é abordada diretamente pelo conteúdo instrucional. A segunda, referente à percepção de complexidade, é enfrentada por meio da linguagem acessível e dos exemplos cotidianos.
Cruz (2022) observa que a IA exponencializou a oferta de serviços com a pandemia, mas não houve um processo equivalente de educação e capacitação. O material desenvolvido contribui para preencher essa lacuna. Daguano e Cavichiolli (2024) argumentam que o design de UX envolve o entendimento das necessidades e preferências do usuário para criação de produtos fáceis de usar. O material incorpora esses princípios ao priorizar a experiência do usuário em cada etapa.
O formato de website interativo se mostrou adequado: não requer instalação de aplicativos, pode ser acessado a partir de qualquer dispositivo, permite compartilhamento por meio de um simples link e oferece uma experiência mais envolvente do que documentos estáticos.
5.1. Resultados Esperados e Impacto Social
No âmbito educacional, espera-se que o material possa ser utilizado por professores como recurso complementar. No âmbito da inclusão digital, o material contribui para a redução da assimetria de conhecimento entre usuários avançados e iniciantes. No âmbito profissional, pode servir como recurso de apoio em treinamentos corporativos e programas de transformação digital.
Silva et al. (2024) destacam que a acessibilidade no contexto digital é essencial para que as tecnologias de inteligência artificial possam ser efetivamente inclusivas. O material desenvolvido, ao priorizar a simplicidade e a clareza, contribui para essa agenda de inclusão.
Este trabalho oferece contribuições em dois eixos. No eixo científico, o artigo documenta um processo metodológico de identificação empírica de problema, construção de artefato e avaliação funcional, seguindo os princípios da Design Science Research. A documentação do uso da plataforma Lovable como ferramenta de desenvolvimento constitui contribuição adicional, demonstrando como plataformas baseadas em IA podem ser utilizadas na criação de materiais educativos.
No eixo prático, o material instrucional constitui um recurso educativo aberto, acessível e replicável. A experiência relatada contribui para a reflexão sobre o papel de profissionais de tecnologia na democratização do conhecimento, demonstrando que a produção de conhecimento científico aplicado pode emergir da observação atenta no campo profissional.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo investigou a lacuna entre a disponibilidade tecnológica da inteligência artificial e seu uso efetivo por parte de usuários iniciantes, partindo de um problema identificado empiricamente na prática profissional do autor. A análise confirmou que a principal barreira para a adoção consciente da IA não é de natureza tecnológica, mas prática: as pessoas não sabem como utilizar as ferramentas disponíveis, percebem a tecnologia como complexa e não encontram materiais educativos acessíveis.
Como resposta, foi desenvolvido o material instrucional digital “IA na Prática: Descubra seu dia a dia”, um website interativo construído por meio da plataforma Lovable. O material foi concebido com base nos princípios da Design Science Research, que orientaram desde a identificação do problema até a construção e a validação funcional do artefato.
Os resultados indicam que o material possui potencial para contribuir com a redução das barreiras de adoção identificadas, ao oferecer um recurso educativo que transforma conhecimento técnico em experiência acessível. A abordagem adotada, centrada em exemplos do cotidiano, linguagem simples e elementos interativos, dialoga com as recomendações da literatura sobre experiência do usuário.
É importante reconhecer as limitações deste estudo. A validação realizada foi de natureza exploratória e funcional, sem a aplicação de testes com amostras controladas. Pesquisas futuras poderão incorporar avaliações mais rigorosas, incluindo testes com grupos de usuários, métricas de engajamento e análise de impacto na mudança de comportamento.
Em última análise, este trabalho reafirma que a democratização da inteligência artificial exige mais do que disponibilizar ferramentas: exige criar condições para que as pessoas compreendam, experimentem e incorporem essas ferramentas em suas rotinas. O material desenvolvido é uma contribuição nessa direção, nascida da observação prática e orientada pela convicção de que a tecnologia só cumpre seu papel transformador quando é compreendida e utilizada por todos.
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1 Pós Graduando em Inteligência Artificial e Ciência de Dados - Faculdade Iguaçu