PANORAMA DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA ENTRE UNIVERSITÁRIOS BRASILEIROS: UM ESTUDO NA UFMA

OVERVIEW OF FINANCIAL EDUCATION AMONG BRAZILIAN UNIVERSITY STUDENTS: A STUDY AT UFMA

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776439560

RESUMO
A educação financeira é um fator central para o bem-estar econômico individual e para o desenvolvimento social, sobretudo em um contexto de crescente acesso ao crédito, complexidade dos produtos financeiros e elevados níveis de endividamento no Brasil. O presente estudo teve como objetivo mensurar o nível de educação financeira dos estudantes da UFMA, identificar diferenças entre grupos sociodemográficos e gerar subsídios para futuras estratégias de intervenção educacional. A metodologia consistiu na aplicação on-line de um questionário estruturado com dez itens de conhecimento financeiro, validado por especialistas, obtendo-se 721 respostas. A análise dos dados foi realizada por meio do modelo logístico de dois parâmetros da Teoria de Resposta ao Item (TRI), complementada por testes de unidimensionalidade, consistência interna, funcionamento diferencial dos itens e testes estatísticos comparativos. Os resultados indicam que o instrumento apresenta adequada qualidade psicométrica e ausência de viés entre grupos. Observou-se baixo nível geral de educação financeira, com apenas 2,9% dos estudantes no nível máximo da escala, além de diferenças significativas associadas a gênero, renda, escolaridade dos pais e área de formação. Conclui-se que há lacunas relevantes no conhecimento financeiro dos estudantes da UFMA, reforçando a necessidade de programas educacionais inclusivos e direcionados aos grupos mais vulneráveis.
Palavras-chave: Educação financeira; Universitários; Teoria de Resposta ao Item; Conhecimento financeiro; Finanças pessoais.

ABSTRACT
Financial education is a key factor for individual economic well-being and social development, especially in a context of increasing access to credit, complex financial products, and high levels of indebtedness in Brazil. The present study aimed to measure the level of financial education among UFMA students, identify differences between sociodemographic groups, and generate subsidies for future educational intervention strategies. The methodology consisted of applying an online questionnaire with ten items on financial knowledge, validated by experts, obtaining 721 responses. Data analysis was performed using the two-parameter logistic model of Item Response Theory (IRT), complemented by tests of unidimensionality, internal consistency, differential item functioning, and comparative statistical tests. The results indicate that the instrument has adequate psychometric quality and no bias between groups. A low overall level of financial education was observed, with only 2.9% of students at the maximum level of the scale, in addition to significant differences associated with gender, income, parental education, and field of study. It is concluded that there are significant gaps in the financial knowledge of UFMA students, reinforcing the need for inclusive educational programs targeted at the most vulnerable groups.
Keywords: Financial education; University students; Item Response Theory; Financial knowledge; Personal finance.

1. INTRODUÇÃO

A falta de educação financeira é um desafio persistente em várias esferas da sociedade, onde conceitos financeiros básicos não são devidamente ensinados em instituições educacionais. Como resultado, muitos indivíduos se formam sem o domínio do gerenciamento financeiro, levando ao endividamento precoce entre os jovens. Esta é a principal característica da situação financeira dos jovens e pode ser resolvido a partir do aumento da educação financeira (Zaimovic et al., 2023).

A inclusão da educação financeira na educação infantil é um avanço notável. Entretanto, uma questão preocupante é que os universitários de hoje frequentemente não foram expostos a esse conhecimento durante sua trajetória educacional, o que resulta em uma lacuna no planejamento financeiro dos jovens. É nesse momento que a maior parte deles passa a ter contato mais efetivo com a necessidade de gerenciar o seu próprio dinheiro e acesso ao crédito, com ofertas facilitadas de cartão de crédito, e a educação financeira contribui para o início de uma vida profissional mais organizada financeiramente.

Existe uma falsa impressão de que o nível de educação financeira é proporcional ao nível de escolaridade dos indivíduos, mas quando pessoas com maior escolaridade são submetidas a questões específicas de conhecimento financeiro apresentam notas similares a pessoas com níveis de escolaridade inferior (Silva et al., 2017b).

Essa ideia é ainda mais forte quando a área de formação tem relação com finanças. No entanto, o que se observa na prática é que mesmo nesses cursos existe uma lacuna entre o conhecimento de finanças e uma vida financeira equilibrada. Isso se deve ao fato de que não basta ter conhecimento financeiro, pois é preciso ter as atitudes certas para que o conhecimento adquirido se reflita no comportamento financeiro (Vieira; Moreira Júnior; Potrich, 2020).

Além disso, o ensino de finanças nos cursos de graduação costuma ser voltado para a gestão de empresas e, muitas vezes, não se faz a relação com as finanças pessoais. Com isso, são entregues ao mercado profissionais formados, alguns futuros empreendedores, que não sabem fazer uma boa gestão do seu próprio dinheiro e isso pode acabar se refletindo negativamente na gestão dos seus negócios (Daskalakis, 2025).

Desse modo, a educação financeira deve ser incorporada nos cursos de ensino superior, pois indivíduos educados financeiramente têm a capacidade de tomar decisões informadas e resolver problemas em diversas áreas do conhecimento (Leal; Santos; Costa, 2020; Meneses, 2020). Nesse sentido, é necessário adotar abordagens práticas para o ensino da educação financeira no ambiente acadêmico, mesmo nos cursos que não tenham relação com finanças, fortalecendo a atuação da universidade como educadora financeira (Leal; Santos; Costa, 2020).

Contudo, antes de definir como abordar a educação financeira com os estudantes universitários, é preciso identificar o quanto eles sabem sobre o assunto. Assim, essa pesquisa tem como objetivo medir o nível de educação financeira dos estudantes da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a fim de ter um panorama da situação atual e propor medidas de melhoria direcionadas às necessidades específicas desses alunos.

É crucial considerar o papel desses futuros profissionais em suas respectivas áreas de atuação, compreender como os estudantes lidam com questões financeiras, pois o desenvolvimento da educação financeira capacita o indivíduo a tomar decisões financeiras pessoais com maior sabedoria, resultando em habilidade e confiança (Niehues et al., 2023).

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. A Importância da Educação Financeira

Educação financeira é o processo pelo qual as pessoas melhoram seu entendimento sobre produtos e conceitos financeiros, administrando suas finanças de maneira consciente, avaliando os riscos envolvidos em cada decisão, a fim de garantir seu bem-estar financeiro. Consiste na habilidade dos indivíduos tomarem as melhores decisões financeiras, no curto e longo prazo, conforme seus próprios interesses (Mandell; Klein, 2009). Tem um papel preventivo e controlador do endividamento, bem como aumento da poupança e investimento (Silva et al., 2017a; Vieira; Moreira Júnior; Potrich, 2019).

A educação financeira é uma ferramenta de política pública, econômica e social que, se bem desenvolvida, proporciona vantagens significativas para os indivíduos e as organizações, como uso consciente da renda, redução do endividamento e aumento dos investimentos, contribuindo para o crescimento da economia a patamares mais sólidos (Mette, 2015). Atividades para melhorar o nível de educação financeira podem contribuir para reduzir a vulnerabilidade à pobreza através da melhoria na capacidade de gerenciamento de risco das famílias, aumento da poupança, estímulo ao empreendedorismo e acesso formal ao crédito (Yang et al., 2025).

Embora tenha sua importância amplamente reconhecida, somente um terço da população mundial é alfabetizada financeiramente (Sconti; Caserta; Ferrante, 2024). Este resultado é ainda mais grave entre os jovens que apresentam níveis de conhecimento financeiro mais baixo quando comparados a outras faixas etárias (Méndez-Prado et al., 2023; OECD, 2020).

O baixo nível de educação financeira entre os jovens é preocupante e é muito importante desenvolver estratégias específicas para esse grupo, pois os jovens são os que mais movimentam a economia, estando relacionados à maior intenção empreendedora e sucesso empresarial (Mireku; Appiah; Agana, 2023; Zaimovic et al., 2023).

O acesso mais fácil ao crédito e as atitudes mais permissivas em relação a dívidas contribuem potencialmente para os problemas financeiros dos jovens (Johan; Rowlingson; Appleyard, 2021). Além disso, Mireku et al. (2023) destacam que a oferta crescente de esquemas de enriquecimento rápido e programas de financiamento estudantil fazem com que este grupo tenha uma demanda urgente de melhoria do nível de alfabetização financeira, dado o seu papel estratégico como futuros gestores.

A necessidade de educar financeiramente os cidadãos é amplamente reconhecida em diversos países pelo mundo, devido à percepção de fatores como a crescente complexidade e variedade dos produtos financeiros, o aumento na expectativa de vida das pessoas e as mudanças na composição e distribuição da renda (Ribeiro, 2020; Sconti; Caserta; Ferrante, 2024).

O conhecimento adequado de gestão das finanças pessoais pode reduzir a impulsividade para compras, proporcionando aumento do autocontrole e mitigando os efeitos negativos das compras sem planejamento (Veiga et al., 2019), com isso, minimiza a necessidade de estratégias para proteger o consumidor financeiro (Pereira; Cavalcante; Crocco, 2019). Cidadãos mais conscientes das suas decisões de consumo são menos propensos à inadimplência e mais capazes de realizar adequadamente a gestão dos seus recursos (Vieira; Moreira Júnior; Potrich, 2019).

A educação financeira auxilia na gestão dos gastos, poupança, seguros, investimento e obtenção de renda com foco em previdência, na diferenciação entre despesas essenciais e desnecessárias, no planejamento patrimonial, na avaliação da viabilidade de tomar empréstimos ou financiamentos para realizar projetos de investimento, avaliação de risco e retorno dos produtos de investimento, como potencializar os rendimentos com as aplicações certas respeitando o perfil de risco de cada um, formação de reserva de emergência para lidar com imprevistos (Pereira; Cavalcante; Crocco, 2019). Dessa forma, o aumento do nível de educação financeira da população traz diversos benefícios para as famílias e para a economia do país, pois com pessoas que sabem usar o dinheiro de modo consciente crescem as chances de um desenvolvimento econômico sustentável.

A capacidade de lidar de maneira eficaz com questões financeiras desempenha um papel importante na vida de um indivíduo e na estabilidade econômica de uma sociedade como um todo. Focar os esforços nos jovens, nomeadamente nos estudantes universitários, é bastante importante, pois estes representam o futuro da economia mundial. As más decisões tomadas hoje podem afetar para sempre não somente o bem-estar individual dos jovens, mas também o futuro da economia (Cull; Whitton, 2011).

2.2. Educação Financeira no Brasil

Educação financeira é um termo que vem ganhando destaque nos últimos anos com a percepção de que a população precisa saber lidar melhor com questões relacionadas ao dinheiro para que o país possa crescer de maneira sustentável. A partir dos anos 2000, organismos internacionais passaram a defender a inclusão financeira como um fator significativo no combate à pobreza, passando a ser reconhecida como a habilidade do século XXI (Sconti; Caserta; Ferrante, 2024). No Brasil, se tornou política pública de caráter permanente em 2010 com a instituição da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF) (Ribeiro, 2020).

O endividamento das famílias é uma questão preocupante no cenário brasileiro, transcendo faixas etárias específicas. São 76,6 milhões de brasileiros inadimplentes no país, o maior nível registrado nos últimos três anos (Serasa, 2025). Um problema social que não se limita à realidade brasileira, decorrente do uso do crédito para financiar um estilo de vida que supera o nível de renda das famílias, ocasionado pela falta de educação financeira (Torres; Montoya; Benítez, 2024).

A sexta edição do Raio X do Investidor Brasileiro demonstrou que 58% da população brasileira não conhece ou utiliza nenhum tipo de investimento e esse percentual sobe para 75% nas pessoas das classes D e E (Anbima, 2023). Embora os resultados tenham melhorado em relação ao ano anterior, para todas as faixas de renda, ainda estamos longe de um cenário ideal.

Entre as práticas de organização financeira adotadas pelos brasileiros é possível identificar um comportamento reativo, que inclui o corte de despesas consideradas desnecessárias. Além disso, cerca de 72% dos brasileiros têm feito ou já fizeram reservas para investimentos ou poupança. No entanto, o estudo revela que não há uma cultura generalizada de busca por cursos ou educação financeira no país, sendo essa prática adotada por apenas 3 em cada 10 consumidores (Serasa, 2023).

Grande parte da população brasileira não possui uma cultura de poupança ou conhecimentos suficientes para escolher investimentos de acordo com seu perfil e possuir maior conhecimento financeiro contribui para a tomada de decisões de consumo e investimentos mais eficiente (Carneiro et al., 2022).

A formação profissional desempenha um papel crucial no progresso social e econômico de uma nação. Dessa forma, é essencial a implementação de abordagens de educação financeira, visando o avanço da sociedade (Barnard; Pittz; Vanevenhoven, 2019). Contudo, a implementação eficaz de políticas como essa enfrentam ainda alguns desafios, como a integração adequada nos sistemas de ensino e a necessidade de medir o impacto a longo prazo.

3. METODOLOGIA

3.1. Coleta de Dados

A coleta de dados foi conduzida por meio de um questionário, desenvolvido com base em uma revisão sistemática da literatura, combinando itens de pesquisas já existentes com outros elaborados a partir das definições encontradas na literatura. Os itens 1, 2, 3 e 4 são de Vieira et al. (2020), os itens 5 e 6 são de elaboração própria e os itens 7, 8, 9 e 10 são de Shih e Ke (2014). Os itens apresentam apenas uma única resposta correta e foi incluída a alternativa “não sei” para evitar que o respondente chute uma resposta qualquer quando não tem certeza. O questionário completo é apresentado no Quadro 1. As respostas corretas a cada pergunta estão sinalizadas com um (*).

Antes de iniciar a aplicação do instrumento, o questionário passou por duas etapas de avaliação teórica: análise de especialistas e pré-teste. Na análise por especialistas, foram consultados 3 profissionais com experiência em finanças, sendo: um assessor de investimentos, um economista analista CNPI e um psicólogo especialista em finanças pessoais. Todos os itens foram aprovados pelos especialistas consultados.

Quadro 1 – Questionário da pesquisa

Item

Alternativas

1. Imagine que a alíquota aplicada à sua caderneta de poupança seja de 6% ao ano e a taxa de inflação é de 10% ao ano. Depois de um ano, quanto você conseguirá comprar com o dinheiro desta conta?

a. Mais do que hoje

b. Exatamente o mesmo

c. Menos que hoje*

d. Não sabe

2. Normalmente, qual ativo apresenta as maiores flutuações ao longo do tempo?

a. Conta poupança

b. Ações*

c. Títulos do governo

d. Não sabe

3. Quando um investidor distribui seus investimentos entre diferentes ativos, o risco de perder dinheiro:

a. Aumenta

b. Diminui*

c. Continua sem alteração

d. Não sabe

4. Um empréstimo com prazo de 15 anos normalmente exige pagamentos mensais mais elevados do que um empréstimo de 30 anos, mas o valor total dos juros pagos no final do empréstimo será menor. Esta afirmação é:

a. Verdadeiro*

b. Falso

c. Não sabe

5. Como saber se é mais vantagem amortizar um empréstimo/financiamento ou investir o dinheiro e continuar pagando as parcelas mensalmente?

a. É sempre mais vantajoso quitar um empréstimo antecipadamente

b. Comparando a taxa de juros do empréstimo com a taxa de juros de onde investiria o dinheiro

c. Comparando o custo efetivo total (CET) com a taxa de juros de onde investiria o dinheiro*

d. Não sabe

6. Qual das opções abaixo NÃO é considerado um título de renda fixa?

a. fundos imobiliários*

b. CDB

c. Tesouro direto

d. Não sabe

7. Os juros auferidos em contas poupança são isentos de impostos.

a. Verdadeiro*

b. Falso

c. Não sabe

8. Investir $ 1.000 por ano durante 10 anos renderá a mesma quantia de dinheiro que investir $ 2.000 por ano durante 5 anos se a taxa de juros for a mesma para ambos os investimentos.

a. Verdadeiro

b. Falso*

c. Não sabe

9. É financeiramente vantajoso pedir dinheiro emprestado para investimento se a taxa de juros do empréstimo for inferior ao retorno esperado.

a. Verdadeiro*

b. Falso

c. Não sabe

10. No longo prazo, as pessoas podem esperar ganhar mais dinheiro investindo em ações do que investindo dinheiro em títulos públicos.

a. Verdadeiro*

b. Falso

c. Não sabe

Fonte: Elaboração própria

Finalizada essa etapa, realizou-se o teste-piloto a fim de verificar os aspectos relativos à composição do instrumento e fazer os devidos ajustes antes da aplicação com a amostra-alvo. O pré-teste foi realizado com o questionário já na plataforma do Google Forms a fim de verificar como os respondentes se comportavam no processo de resposta.

Participaram desta etapa alunos do curso de administração da UFMA, do campus de São Luís. Nessa fase, foi possível perceber a importância de reforçar para os respondentes que não era preciso se preocupar caso não soubessem a resposta certa, deixando-os mais à vontade para responder conforme seu nível de conhecimento atual. Além disso, foram verificados ajustes de formatação na apresentação das perguntas para garantir o resultado esperado.

Este questionário foi enviado para todos os alunos da UFMA através do Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA) e pelas coordenações de curso. Também foram distribuídos cartazes no campus da cidade universitária Dom Delgado, em São Luís, onde há maior número de estudantes e cursos. A coleta de dados aconteceu entre os meses de janeiro e abril de 2024, obtendo um total de 721 respostas. Isso representa aproximadamente de 4% dos alunos da UFMA.

3.2. Análise de Dados

A medida do nível de educação financeira dos alunos da UFMA é dada pelo modelo logístico de dois parâmetros (2PL) da Teoria de Resposta ao Item (TRI), representado matematicamente pela equação 1.

P ( U i j = 1 | θ j ) = 1 1 + e D a i ( θ j b i )

Onde,

Uijé a variável dicotômica que assume valor 1 quando o indivíduo responde corretamente e 0 quando erra;

θjé o valor do traço latente (habilidade) do indivíduo j;

P ( θ j ) é a probabilidade do indivíduo j responder corretamente o item i;

ai é o parâmetro de discriminação do item i;

bi é o parâmetro de dificuldade do item i;

D é um fator de escala constante, igual a 1 se os parâmetros dos itens forem estimados na métrica logística

e é uma constante matemática igual a 2,71828.

O parâmetro de discriminação explicita a correlação do item com o traço latente, servindo como um indicador de qualidade do item. Seu valor deve ser positivo e, idealmente, maior que 0,70. Quanto maior o valor de a, maior a capacidade de discriminação do item (Barbetta et al., 2014). O parâmetro de dificuldade (b) de cada categoria de resposta, como o próprio nome sugere, indica o nível de dificuldade do item. Os itens com parâmetro “b” maiores demandam maior nível de conhecimento financeiro dos respondentes.

A principal vantagem na utilização da TRI é a possibilidade de incluir novos itens no instrumento, ampliando a sua capacidade de medição. Dessa forma, é possível construir testes adaptativos, que permitem acompanhar a evolução do nível de educação financeira das pessoas. Acompanhar essa evolução é de interesse dos educadores e decisores políticos, sendo importante dispor de uma medida padronizada para identificar barreiras ao bem-estar financeiro e ajudar em soluções que permitam escolhas financeiras eficazes (Huston, 2010).

Além da Teoria de Resposta ao Item, que foi usada para definir o nível de educação financeira dos estudantes, foram realizados testes para verificar a qualidade do instrumento e adequação aos pressupostos da TRI, como unidimensionalidade e independência entre os itens.

A qualidade do instrumento foi verificada pelos indicadores RMSEA (root mean square error of approximation), TLI (Tucker–Lewis index) e CFI (comparative fit index). RMSEA é um índice de ajuste absoluto que avalia a distância entre um modelo hipotético e um modelo perfeito, enquanto TLI e CFI são índices de ajuste incremental que comparam o ajuste de um modelo hipotético com um modelo de referência (Xia; Yang, 2019). A unidimensionalidade foi verificada através da análise paralela e análise fatorial.

Uma vez constatada a adequação do instrumento aos pressupostos da TRI, os itens são posicionados em uma escala interpretável que possibilita a compreensão do nível de dificuldade de cada aspecto de educação financeira abordado no instrumento. O nível para fixação de cada item na escala corresponde ao ponto onde a probabilidade acumulada de responder corretamente o item é ≥ 60%, sendo a probabilidade de resposta no nível anterior ≤ 50%, considerando um desvio-padrão de 0,5 entre os níveis (Leite et al., 2024).

Segundo Spenassato (2017), um instrumento de avaliação deve ser imparcial entre os grupos de respondentes para garantir assim um resultado justo. O presente artigo analisa os resultados em 3 grupos distintos: sexo, faixa etária e estado civil. Para se verificar se o instrumento de avaliação não apresenta resultados diferentes entre os membros de um grupo, foi realizado o teste de funcionamento diferencial do item (DIF).

O teste de DIF consiste em verificar se um determinado item apresenta comportamento diferente entre os respondentes de um grupo. O item pode apresentar dois tipos de comportamento diferentes. Quando o item apresenta níveis de dificuldades diferentes entre os membros do grupo, parâmetro d, chamamos de DIF Uniforme. Nesse caso, dois respondentes de mesma proficiência (θ) têm dificuldades diferentes para responder ao mesmo item. O outro tipo de DIF é o de discriminação, parâmetro a, nesse caso o item varia o nível de discriminação entre os membros do grupo. Esse DIF é conhecido como DIF Não Uniforme. A existência de DIF implica na impossibilidade de utilização do item na avaliação.

Após a verificação do nível de educação financeira, foram utilizados os testes ANOVA, t-Student e post-hoc de Tukey para verificar a significância dos resultados obtidos e auxiliar na comparação entre as variáveis analisadas.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Análise do Instrumento de Conhecimento Financeiro

Inicialmente foi realizada uma análise dos indicadores de qualidade do instrumento RMSEA, TLI e CFI. RMSEA < 0,06, CFI e TFI > 0,95 indicam que os dados apresentam um bom ajuste ao modelo (Xia; Yang, 2019). Os resultados obtidos para o instrumento de conhecimento financeiro são apresentados na Tabela 1. Com base nesses indicadores e nos critérios apresentados, esse instrumento apresenta um bom ajuste ao modelo.

Tabela 1 – Indicadores de qualidade do instrumento

RMSEA

TLI

CFI

0,026303

0,981383

0,98552

Fonte: Elaboração própria

O teste de consistência interna, que verifica a independência dos itens, indica que os itens são independentes quando a relação entre eles é < 0,3. Como pode ser observado na Tabela 2, todos os itens de conhecimento financeiro atenderam ao critério de independência. Isso é importante para determinar a qualidade do instrumento, pois demonstra que a resposta de um item não é influenciada pela resposta de nenhum outro item apresentado, permitindo avaliar cada tema de forma independente. A independência entre os itens é um pressuposto para a utilização de modelos unidimensionais da TRI.

Tabela 2 – Teste de consistência interna do instrumento de conhecimento financeiro

1

-0,18105

-0,18935

-0,16254

-0,033

-0,18749

-0,12959

-0,12911

0,004988

-0,11809

-0,18105

1

-0,21946

-0,13678

-0,08742

-0,19313

-0,13466

-0,17742

-0,13847

-0,03347

-0,18935

-0,21946

1

-0,07292

-0,0512

-0,10956

-0,09281

-0,09009

-0,09156

-0,1096

-0,16254

-0,13678

-0,07292

1

0,008638

-0,13131

-0,06858

0,026191

-0,00871

-0,12716

-0,033

-0,08742

-0,0512

0,008638

1

-0,12339

-0,02813

-0,05473

-0,05895

-0,07131

-0,18749

-0,19313

-0,10956

-0,13131

-0,12339

1

-0,04604

-0,03678

-0,16414

-0,0649

-0,12959

-0,13466

-0,09281

-0,06858

-0,02813

-0,04604

1

-0,12907

-0,01411

-0,0271

-0,12911

-0,17742

-0,09009

0,026191

-0,05473

-0,03678

-0,12907

1

-0,11923

-0,04616

0,004988

-0,13847

-0,09156

-0,00871

-0,05895

-0,16414

-0,01411

-0,11923

1

-0,07733

-0,11809

-0,03347

-0,1096

-0,12716

-0,07131

-0,0649

-0,0271

-0,04616

-0,07733

1

Fonte: Elaboração própria

Para verificar a adequação dos dados ao modelo unidimensional da TRI, realizou-se a análise paralela dos itens de conhecimento financeiro, ou seja, se todas as respostas são orientadas pelo nível de conhecimento financeiro dos participantes ou se são influenciadas por outras variáveis. A Figura 1 apresenta o resultado dessa análise. O ponto de corte é representado pela linha vermelha, com o número de fatores destacados acima dessa correspondendo ao número de componentes indicado para explicar o modelo. Por essa análise, o modelo pode ser explicado por um único fator, confirmando a proposição teórica de um modelo unidimensional.

Figura 1 – Análise paralela dos itens de conhecimento financeiro

Gráfico, Gráfico de linhas

Descrição gerada automaticamente
Fonte: Elaboração própria

Esse resultado se confirma também pela análise fatorial, apresentada na Tabela 3, onde todos os itens possuem carga fatorial acima de 0,30 e estão todos no mesmo sentido (com o mesmo sinal).

Tabela 3 – Análise fatorial

Item

F

h2

I1

0,674224

0,454578

I2

0,777502

0,604509

I3

0,658726

0,433920

I4

0,462033

0,213475

I5

0,424134

0,179889

I6

0,623099

0,388253

I7

0,449355

0,20192

I8

0,478791

0,229241

I9

0,423279

0,179165

I10

0,406097

0,164915

Fonte: Elaboração própria

O teste de verificação de DIF utilizou a estatística SABIC para decidir sobre a existência ou não de DIF. Foi aplicado o teste nos grupos Sexo, Faixa Etária e Estado Civil. O resultado obtido é que não foi encontrado evidências de existência de nenhum tipo de DIF (Uniforme e Não Uniforme) em todos os grupos avaliados. Assim, o instrumento de avaliação pode ser considerado justo e imparcial.

4.2. Estimação dos Parâmetros dos Itens

Os parâmetros de dificuldade (b) e discriminação (a) dos itens de conhecimento financeiro, bem como os erros padrões, estimados a partir da análise do modelo 2PL são apresentados na Tabela 4. O parâmetro de discriminação é um indicador da qualidade do item para avaliar os respondentes com diferentes níveis de conhecimento (Giacomelli et al., 2021). Seu valor deve ser positivo e, idealmente, maior que 0,70. Quanto maior o valor de a, maior a capacidade de discriminação do item. Dessa forma, todos os itens utilizados para avaliar a dimensão de conhecimento financeiro estão adequados quanto ao seu nível de discriminação.

O parâmetro b representa o nível de dificuldade do item. Para interpretar esses dados, antes é preciso destacar que os resultados da TRI são gerados em uma escala (0,1), onde a média é igual a zero e o desvio padrão igual a 1. Por isso, são apresentados números negativos nesta coluna, que representam os itens com nível de conhecimento abaixo da média para a amostra utilizada.

Tabela 4 – Parâmetros dos itens

 Item

a

SE(a)

b (0,1)

SE(b1)

b (50,10)

I1

1,554

0,163

-0,527

0,107

45

I2

2,104

0,233

-0,805

0,165

42

I3

1,490

0,159

-0,869

0,118

41

I4

0,887

0,109

-0,555

0,081

44

I5

0,797

0,124

1,925

0,104

69

I6

1,356

0,143

-0,295

0,093

47

I7

0,856

0,107

0,250

0,079

52

I8

0,928

0,111

-0,054

0,080

49

I9

0,795

0,103

-0,095

0,077

49

I10

0,756

0,101

-0,072

0,076

49

Fonte: Elaboração própria

A fim de melhorar a compreensão dos resultados obtidos, utiliza-se uma transformação linear dos dados para que as análises do nível de conhecimento financeiro sejam expressas em números positivos. Assim, a escala (0,1) foi convertida para uma escala (50,10) com base na equação 2.

b 1 = 10 × b + 50

Onde,

b1 = parâmetro de dificuldade na escala (50,10)

b = parâmetro de dificuldade na escala (0,1)

Após a transformação da escala, os novos parâmetros de dificuldade são expressos na escala (50,10). Observa-se que o item 3 é o mais fácil, que pergunta ‘Quando um investidor distribui seus investimentos entre diferentes ativos, o risco de perder dinheiro: aumenta, diminui ou continua sem alteração?’, demonstrando que a grande maioria dos respondentes entende os efeitos da diversificação dos investimentos na redução do risco.

Por sua vez, o item 5 é considerado o mais difícil do questionário apresentado. Este item questiona “se é mais vantagem amortizar um empréstimo/financiamento ou investir o dinheiro e continuar pagando as parcelas”. Apenas 20% dos respondentes acertaram esse item. A maioria das pessoas não atenta para os custos adicionais de empréstimos que tornam o custo efetivo da dívida maior do que a taxa de juros cobrada inicialmente.

4.3. Posicionamento dos Itens na Escala

O conhecimento financeiro consiste na compreensão geral que cada pessoa possui sobre conceitos financeiros (Zaimovic et al., 2023). Envolve questões como gestão do dinheiro, inflação, taxas de juros, diversificação, investimento, cartões de crédito, escolha de produtos financeiros e aposentadoria (Johan; Rowlingson; Appleyard, 2021). Cada uma dessas temáticas envolve questões das mais simples até as mais complexas e a escala proposta demonstra isso. A Tabela 5 apresenta os itens posicionados em uma escala, com seis níveis, e cada item está relacionado à sua temática principal.

Essa percepção das temáticas e do nível de dificuldade de cada item auxilia no planejamento de atividades de educação financeira, que podem ser programadas de acordo com as limitações específicas de cada grupo (Vieira; Moreira Júnior; Potrich, 2020).

Tabela 5 – Posicionamento dos itens na escala

Score

Item

Temática

(50,10)

(0,1)

   

45

-0,5

2

Normalmente, qual ativo apresenta as maiores flutuações ao longo do tempo?

Investimento

 

3

Quando um investidor distribui seus investimentos entre diferentes ativos, o risco de perder dinheiro:

Diversificação

 

47,5

-0,25

1

Imagine que a alíquota aplicada à sua caderneta de poupança seja de 6% ao ano e a taxa de inflação é de 10% ao ano. Depois de um ano, quanto você conseguirá comprar com o dinheiro desta conta?

Inflação

 

50

0

4

Um empréstimo com prazo de 15 anos normalmente exige pagamentos mensais mais elevados do que um empréstimo de 30 anos, mas o valor total dos juros pagos no final do empréstimo será menor. Esta afirmação é:

Taxas de juros

 

52,5

0,25

6

Qual das opções abaixo NÃO é considerado um título de renda fixa?

Investimento

 

55

0,5

8

Investir $ 1.000 por ano durante 10 anos renderá a mesma quantia de dinheiro que investir $ 2.000 por ano durante 5 anos se a taxa de juros for a mesma para ambos os investimentos.

Taxas de juros

 

9

É financeiramente vantajoso pedir dinheiro emprestado para investimento se a taxa de juros do empréstimo for inferior ao retorno esperado.

Taxas de juros

 

10

No longo prazo, as pessoas podem esperar ganhar mais dinheiro investindo em ações do que investindo dinheiro em títulos públicos

Investimento

 

57,5

0,75

7

Os juros auferidos em contas poupança são isentos de impostos.

Investimento

 

75

2,5

5

Como saber se é mais vantagem amortizar um empréstimo/financiamento ou investir o dinheiro e continuar pagando as parcelas mensalmente?

Taxas de juros

 

Fonte: Elaboração própria

4.4. Avaliação da Amostra

A Tabela 6 apresenta a distribuição da amostra e o score médio por faixa etária. A maior parte da amostra é composta por jovens até 29 anos (68,5%), sendo o grupo que apresenta a menor média na avaliação de conhecimento financeiro. Pesquisas anteriores destacam os jovens como um grupo vulnerável devido ao fácil acesso ao crédito e grande oferta de produtos e serviços diversos, aliado à pouca experiência em lidar com o dinheiro (Méndez-Prado et al., 2023; OECD, 2020).

Embora o teste ANOVA tenha mostrado que a diferença de conhecimento financeiro não é significativa entre as faixas etárias (F(4,701) =1,79; p=0,273), investir na melhoria do nível de educação financeira dos jovens é extremamente importante, pois essa deficiência não tem sido compensada ao longo da vida. Aprender sobre educação financeira no início da vida adulta gera melhores chances de evoluir como um adulto de sucesso (Chawla; Bhatia; Singh, 2022). Além disso, é importante desenvolver estratégias específicas para esse grupo, pois os jovens são os que mais movimentam a economia, estando relacionados à maior intenção empreendedora e sucesso empresarial (Mireku; Appiah; Agana, 2023; Zaimovic et al., 2023).

Tabela 6 – Nível de educação financeira por faixa etária

Faixa etária

Quant

%

Score médio

Menor 17

11

1,5%

44,7

Jovens (18-29 anos)

483

67,0%

49,8

Adultos (30-39 anos)

141

19,6%

50,2

Adultos (40-49 anos)

53

7,4%

51,4

50+

31

4,3%

51,6

Não informaram

2

0,3%

45,8

Total

721

100%

50,0

Fonte: Elaboração própria

Na avaliação do nível de educação financeira conforme o gênero (Tabela 8), O teste t para amostras independentes mostrou que existe diferença significativa entre o conhecimento financeiro de homens e mulheres (M = 6,24 vs. 4,66), t (690) = 5,53; p < 0,001). O gênero tem sido considerado um forte preditor no nível de educação financeira das pessoas, destacando as mulheres como um grupo vulnerável nesse aspecto (Dogra; Kaushal; Sharma, 2023; OECD, 2020). No entanto, não há estudos conclusivos sobre os motivos para o menor nível de educação financeira entre as mulheres.

Tabela 7 – Nível de educação financeira conforme o gênero

Sexo

Quant

%

Score médio

Feminino

347

48,1%

46,6

Masculino

373

51,7%

53,2

NA

1

0,1%

50,0

Total

721

100%

50,0

Fonte: Elaboração própria

Com relação à influência do estado civil no nível de educação financeira dos estudantes, o teste ANOVA mostrou que não houve diferença significativa [F(3,699) =2,42; p=0,065]. No entanto, a média dos solteiros e divorciados é ligeiramente menor do que dos casados e viúvos e as mulheres solteiras possuem menor nível de conhecimento financeiro.

Pesquisas têm demonstrado que indivíduos casados são mais propensos a envolver-se em práticas positivas de poupança em relação aos solteiros e que mulheres solteiras apresentam comportamento financeiro negativo em relação aos outros grupos, mas independente do estado civil, pessoas que participam de programas de educação financeira tem melhor desempenho financeiro, independente de gênero (Lee; Kelley, 2023).

O teste ANOVA mostrou que foi encontrada diferença significativa do conhecimento financeiro em relação a escolaridade da mãe [F(3,689) = 4,99; p < 0,05]. Por meio do post-hoc de Tukey, encontrou-se diferença significativa (p < 0,05) entre pós-graduação (M = 6,40; DP = 2,23) e ensino fundamental (M = 5,24; DP = 2,31). E entre pós-graduação e ensino médio (M = 5,31; DP = 2,53); (p < 0,05). Porém, não houve diferença significativa ao comparar com o ensino superior (p = 0,078).

Com relação ao grau de escolaridade do pai, o teste ANOVA mostrou que foi encontrada diferença significativa do conhecimento financeiro [F(3,656) = 3,84; p < 0,05]. Por meio do post-hoc de Tukey, encontrou-se diferença significativa (p < 0,05) entre pós-graduação (M = 6,29; DP = 2,23) e ensino fundamental (M = 5,15; DP = 2,37). Porém, não houve diferença significativa ao comparar com o ensino médio (p = 0,396) e o ensino superior (p = 0,776).

Esses resultados confirmam que a família tem forte influência no nível de educação financeira (Böhm et al., 2023; Johan; Rowlingson; Appleyard, 2021), considerando que indivíduos com maior escolaridade praticam comportamentos financeiros mais positivos (Lee; Kelley, 2023).

O teste ANOVA mostrou que foi encontrada diferença significativa do conhecimento financeiro em relação a renda familiar [F(3,704) = 26,97; p < 0,001]. Por meio do post-hoc de Tukey, encontrou-se diferença significativa (p < 0,001) entre renda acima de 10 salários-mínimos (M = 7,40; DP = 2,08) e renda até 2 salários-mínimos (M = 4,80; DP = 2,40). E entre renda acima de 10 salários-mínimos e renda entre 3 a 5 salários mínimos (M = 5,71; DP = 2,38); (p < 0,001). Porém, não houve diferença significativa ao comparar com a renda de 6 a 10 salários-mínimos (p = 0,195).

De forma análoga, observa-se os efeitos da renda pessoal no nível de educação financeira dos estudantes. O teste ANOVA mostrou que foi encontrada diferença significativa do conhecimento financeiro em relação a renda individual mensal [F(4,703) = 12,30; p < 0,001]. Por meio do post-hoc de Tukey, encontrou-se diferença significativa (p < 0,001) entre renda acima de 5 salários-mínimos (M = 7,26; DP = 2,23) e sem renda própria (M = 4,92; DP = 2,43). Entre renda acima de 5 salários-mínimos e renda até 1 salário-mínimo (M = 5,46; DP = 2,35); (p < 0,001). Entre renda acima de 5 salários-mínimos e renda entre 2 a 3 salários mínimos (M = 6,00; DP = 2,47); (p = 0,05). Porém, não houve diferença significativa ao comparar com a renda de 4 a 5 salários-mínimos (p = 0,079).

Observa-se que, quanto maior a renda, maior o nível de educação financeira dos alunos e aqueles que não possuem renda apresentam menor resultado. De acordo com Böhm et al. (2023), o simples fato de possuírem alguma experiência profissional, independente da renda, possui impacto positivo na medida em que aumenta o conhecimento econômico geral dos alunos, que terá influência no seu nível de conhecimento financeiro.

Analisou-se ainda a relação entre a área de formação e o nível de conhecimento financeiro dos alunos (Tabela 8). O teste ANOVA mostrou que foi encontrada diferença significativa do conhecimento financeiro para as diferentes áreas de conhecimento dos cursos [F(8,690) = 10,10; p < 0,001]. Por meio do post-hoc de Tukey, encontrou-se diferença significativa (p < 0,001) entre cursos da área de ciências sociais aplicadas - gestão (M = 6,49; DP = 2,04) e cursos da área de linguística, letras e artes (M = 3,94; DP = 2,42). Entre cursos da área de ciências sociais aplicadas - gestão e cursos da área de ciências humanas (M = 4,80; DP = 2,45); (p < 0,001). Entre cursos da área de ciências sociais aplicadas - gestão e demais cursos da área de ciências sociais aplicadas (M = 4,97; DP = 2,50); (p < 0,001). Entre cursos da área de ciências sociais aplicadas - gestão e cursos da área de ciências exatas (M = 5,51; DP = 2,41); (p < 0,05). Porém, não houve diferença significativa ao comparar com os cursos da área de ciências da saúde (p = 0,995); cursos da área de ciências agrárias (p = 0,445) cursos de engenharias (p = 0,985) e cursos de pós-graduação (p = 0,291).

Tabela 8 – Nível de educação financeira por área de formação

ÁREA

Quant

Participação

Média TRI

Ciências sociais aplicadas - Gestão

146

20,2%

54,0

Ciências da saúde

81

11,2%

52,6

Engenharias

23

3,2%

52,4

Ciências exatas

139

19,3%

50,3

Pós-graduação

45

6,2%

50,0

Ciências agrárias

27

3,7%

49,6

Ciências sociais aplicadas

101

14,0%

48,0

Ciências humanas

66

9,2%

47,1

Linguística, letras e artes

84

11,7%

43,8

Não informado

9

1,2%

54,0

Total

721

100,0%

50,0

Fonte: Elaboração própria

Os alunos dos cursos de gestão se destacam pelo maior nível de educação financeira em comparação com a maioria dos outros cursos. Isso pode ser atribuído ao fato de que esses estudantes são expostos a conteúdos relacionados à conhecimentos financeiros, planejamento e tomada de decisões de maneira mais frequente (Johan; Rowlingson; Appleyard, 2021). Estudantes de administração e contabilidade tem maior probabilidade de saber sobre juros, spreds, poupança e investimentos (Almeida; Costa, 2023).

Por sua vez, os cursos de engenharia e ciências exatas apresentaram desempenho similar aos cursos de saúde. Embora o conhecimento matemático possa estar associado ao conhecimento financeiro objetivo, o conhecimento financeiro refere-se às percepções do indivíduo sobre seu conhecimento financeiro e, quando existe uma incompatibilidade entre conhecimento financeiro percebido (subjetivo) e real (objetivo), isso pode resultar em excesso de confiança financeira, que tem sido associado a comportamentos financeiros mais inadequados (Lee; Kelley, 2023).

Uma análise geral da amostra demonstra que a maior parte dos alunos da UFMA apresenta baixo nível de educação financeira. Dos 721 respondentes, somente 21 alunos (2,9%) estão no nível máximo de conhecimento financeiro medido pelo instrumento apresentado. Dessa forma, é importante desenvolver estratégias para melhorar o nível de educação financeira dos universitários, abrangendo todas as áreas de formação e não apenas cursos voltados para gestão (Almeida; Costa, 2023).

5. CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo reforçam o cenário já destacado na literatura internacional: a educação financeira permanece insuficiente entre jovens adultos, mesmo em contextos universitários. A aplicação da Teoria de Resposta ao Item (TRI) representa uma contribuição teórica relevante, ao oferecer um instrumento psicometricamente robusto, isento de vieses e capaz de mensurar o nível de conhecimento financeiro com maior precisão. O posicionamento dos itens em escala interpretável amplia o potencial de uso do instrumento em estudos futuros, permitindo comparações longitudinais e a construção de testes adaptativos.

Do ponto de vista empírico, os achados evidenciam lacunas significativas no conhecimento financeiro dos estudantes da UFMA e revelam desigualdades associadas a gênero, renda, escolaridade dos pais e área de formação. Esses resultados trazem contribuições práticas fundamentais: permitem direcionar ações educativas mais eficientes, identificar públicos prioritários e subsidiar o desenvolvimento de políticas institucionais de capacitação financeira. Destaca-se, ainda, que mesmo estudantes de cursos de gestão — potencialmente mais expostos ao tema — apresentam limitações relevantes, indicando que a formação acadêmica atual não supre plenamente as competências financeiras necessárias.

Diante disso, torna-se imprescindível que a universidade avance na implementação de programas de educação financeira baseados em evidências, sensíveis às necessidades dos grupos mais vulneráveis e integrados às práticas pedagógicas dos cursos. Recomenda-se, também, que pesquisas futuras ampliem a análise para atitudes e comportamentos financeiros, a fim de compreender melhor o vínculo entre conhecimento, práticas cotidianas e bem-estar financeiro.

Ao fortalecer a alfabetização financeira no ensino superior, contribui-se não apenas para decisões individuais mais conscientes, mas também para a formação de profissionais capazes de atuar de forma mais responsável e crítica em seus contextos sociais e econômicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Fernando; COSTA, Orlando. Perspectives on financial literacy in undergraduate students. Journal of Education for Business, v. 98, n. 1, p. 1–8, 2 jan. 2023.

BARBETTA, Pedro Alberto et al. Aplicação da Teoria da Resposta ao Item uni e multidimensional. Est. Aval. Educ., v. 25, n. 57, p. 280–302, 2014.

BARNARD, A.; PITTZ, T.; VANEVENHOVEN, J. Entrepreneurship education in US community colleges: a review and analysis. Journal of Small Business and Enterprise Development, v. 26, n. 2, p. 190–208, 2019.

BÖHM, Patrik et al. Determinants of Financial Literacy: Analysis of the Impact of Family and Socioeconomic Variables on Undergraduate Students in the Slovak Republic. Journal of Risk and Financial Management, v. 16, n. 4, 2023.

CARNEIRO, M. T. et al. Educação financeira: uma análise das publicações em periódicos brasileiros no período de 2003 a 2018. Gestão & Planejamento, v. 23, n. 1, p. 490–509, 2022.

CHAWLA, Deepak; BHATIA, Shikha; SINGH, Sonali. Parental influence, financial literacy and investment behaviour of young adults. Journal of Indian Business Research, v. 14, n. 4, p. 520–539, 1 jan. 2022.

CULL, M.; WHITTON, D. University Students’ Financial Literacy Levels: Obstacles and Aids. The Economic and Labour Relations Review, v. 22, n. 1, p. 99–114, maio 2011.

DASKALAKIS, Nikolaos. Assessing the Relative Financial Literacy Levels of Micro and Small Entrepreneurs: Preliminary Evidence from 13 Countries. Journal Risk and Financial Management, v. 18, n. 283, p. 1–21, 2025.

DOGRA, Pallavi; KAUSHAL, Arun; SHARMA, Rishi Raj. Antecedents of the Youngster’s Awareness About Financial Literacy: A Structure Equation Modelling Approach. Vision, v. 27, n. 1, p. 48–62, 1 fev. 2023.

GIACOMELLI, S. C. et al. Development of a Food-Based Diet Quality Scale for Brazilian Schoolchildren Using Item Response Theory. Nutrients, v. 13, n. 9, p. 3175, 2021.

HUSTON, S. J. Measuring Financial Literacy. The Journal of Consumer Affairs, v. 44, n. 2, p. 296–316, 2010.

JOHAN, Irni; ROWLINGSON, Karen; APPLEYARD, Lindsey. The Effect of Personal Finance Education on The Financial Knowledge, Attitudes and Behaviour of University Students in Indonesia. Journal of Family and Economic Issues, v. 42, n. 2, p. 351–367, 2021.

LEAL, S. C.; SANTOS, D. V.; COSTA, P. S. Perfil de Educação Financeira dos Discentes de Graduação e Pós-Graduação de Instituições de Ensino Superior Brasileiras. Revista de Casos e Consultoria, v. 11, n. 1, p. 1–26, 2020.

LEE, Y. G.; KELLEY, H. H. Financial perceptions and financial behaviors across marital status and gender. Family And Consumer Sciences Research Journal, v. 52, n. 2, p. 86–101, 2023.

LEITE, Maria Silene Alexandre et al. A new tool for evaluating supply risk management. Production, v. 34, p. e20240005, 2024.

MANDELL, L.; KLEIN, L. S. The impact of financial literacy education on subsequent financial behavior. Journal Of Financial Counseling And Planning, v. 20, n. 1, p. 15–24, 2009.

MÉNDEZ-PRADO, Silvia M. et al. An Assessment Tool to Identify the Financial Literacy Level of Financial Education Programs Participants’ Executed by Ecuadorian Financial Institutions. Sustainability, v. 15, n. 2, 2023.

MENESES, P. R. A. Propostas para a educação empreendedora em escolas públicas de ensino fundamental. TCC—João Pessoa: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba, 2020.

METTE, Frederike Monika Budiner. The Financial Education as a Strategic Instrument to give Sustainability to the Brazilian Economic Growth. International Journal of Business & Marketing, v. 1, n. 1, p. 43–52, 2015.

MIREKU, Kwame; APPIAH, Francis; AGANA, Joseph Akadeagre. Is there a link between financial literacy and financial behaviour? Cogent Economics & Finance, v. 11, n. 1, p. 2188712, 2023.

NIEHUES, ALD et al. Personal financial literacy level of Brazilian college students. Revista de Gestão e Secretariado-GESEC,v. 14, n. 3, p. 2814–2835, set. 2023.

OECD. OECD/INFE 2020 International Survey of Adult Financial Literacy, [S.l.: S.n.]. Disponível em: www.oecd.org/financial/education/launchoftheoecdinfeglobalfinancialliteracysurveyreport.htm. Acesso em: 6 fev. 2024.

PEREIRA, Fernando; CAVALCANTE, Anderson; CROCCO, Marco. Um plano nacional de capacitação financeira: o caso brasileiro. Economia e Sociedade, v. 28, n. 2, p. 541–561, 2019.

RIBEIRO, Cristina Tauaf. Agenda em políticas públicas: a estratégia de educação financeira no Brasil à luz do modelo de múltiplos fluxos. Cadernos Ebape,BR, v. 18, n. 3, p. 486–497, 2020.

SCONTI, A.; CASERTA, M.; FERRANTE, L. Gen Z and financial education: Evidence from a randomized control trial in the South of Italy. Journal of Behavioral and Experimental Economics, v. 112, p. 102256, 2024.

SERASA. Finanças regionais: as diferenças na relação com o dinheiro entre os estados do Brasil: Serasa Comportamento. São Paulo: Serasa, 2023. Disponível em: https://www.serasa.com.br/imprensa/serasa-comportamento/. Acesso em: 24 out. 2023.

SERASA. Mapa da inadimplência e renegociação de dívidas. São Paulo: [S.n.]. Disponível em: https://www.serasa.com.br/limpa-nome-online/blog/mapa-da-inadimplencia-e-renogociacao-de-dividas-no-brasil/. Acesso em: 3 jun. 2025.

SHIH, T. Y.; KE, S. C. Determinates of financial behavior: insights into consumer money attitudes and financial literacy. Serv Bus, v. 8, p. 217–238, 2014.

SILVA, Tarcísio Pedro da et al. Financial education level of high school students and its economic reflections. Revista de Administração, v. 52, n. 3, p. 285–303, 2017a.

SILVA, G. O. et al. Alfabetização financeira versus educação financeira: um estudo do comportamento de variáveis socioeconômicas e demográficas. Revista de Gestão, Finanças e Contabilidade, v. 7, n. 3, p. 279–298, 2017b.

SPENASSATO, Débora. Manutenção do banco de itens para testes adaptativos computadorizados aplicados em avaliações de alto impacto. Tese—Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2017.

TORRES, V. G. L.; MONTOYA, M. M. V.; BENÍTEZ, R. L. Financial education, materialism and the value of money: its effect on college students’ indebtedness. Revista Iberoamericana para la Investigación y el Desarollo Educativo, v. 15, n. 29, p. 1–27, 2024.

VEIGA, Ricardo Teixeira et al. Validação de Escalas para Investigar a Gestão Financeira Pessoal. REVISTA BRASILEIRA DE GESTÃO DE NEGÓCIOS, v. 21, n. 2, p. 332–348, 2019.

VIEIRA, K. M.; MOREIRA JÚNIOR, F. J.; POTRICH, A. C. G. ndicador de educação financeira: proposição de um instrumento a partir da teoria da resposta ao item. Educação & Sociedade, v. 40, n. 1, p. 1–33, 2019.

VIEIRA, K. M.; MOREIRA JÚNIOR, F. J.; POTRICH, A. C. G. Measuring financial literacy: proposition of an instrument based on the item response theory. Ciência e Natura, v. 42, n. 1, p. 1–34, 2020.

XIA, Y.; YANG, Y. RMSEA, CFI, and TLI in structural equation modeling with ordered categorical data: the story they tell depends on the estimation methods. Behavior Research Methods, v. 51, n. 1, p. 409–428, 2019.

YANG, Z. et al. Can financial education programs alleviate household vulnerability to poverty? Evidence from the JinHui financial education project in China. International Review of Finance, v. 25, p. 1–22, 2025.

ZAIMOVIC, Azra et al. Mapping Financial Literacy: A Systematic Literature Review of Determinants and Recent Trends. Sustainability, v. 15, n. 12, 2023.


1 Bacharel em Administração pela Universidade Federal do Maranhão. E-mail: [email protected]

2 Docente do curso de Administração da Universidade Federal do Maranhão. E-mail: [email protected]

3 Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: [email protected]

4 Docente do curso de Administração da Universidade Federal do Maranhão. E-mail: [email protected]