A RELEVÂNCIA DA MÚSICA NA CULTURA: BREVE DISCUSSÃO

THE RELEVANCE OF MUSIC IN CULTURE: BRIEF DISCUSSION

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776480522

RESUMO
Este artigo discute a relevância da música como elemento central da cultura humana, explorando seu papel na construção de identidades, na transmissão de valores e na promoção de transformações sociais. A música é analisada em suas múltiplas dimensões: como expressão cultural, agente de mudança social e produto da indústria cultural. Aborda-se também o impacto da globalização e da digitalização no acesso e na produção musical, destacando tanto os benefícios quanto os desafios desses processos, como a homogeneização cultural e a mercantilização das expressões artísticas. A música independente e alternativa é apresentada como uma força de resistência e diversidade, capaz de preservar tradições e fomentar inovações. Por fim, o artigo reforça a importância de valorizar a diversidade musical como forma de enriquecimento cultural e de construção de sociedades mais inclusivas e conectadas.
Palavras-chave: Música; cultura; globalização; diversidade cultural; indústria cultural.

ABSTRACT
This article discusses the relevance of music as a central element of human culture, exploring its role in the construction of identities, the transmission of values and the promotion of social change. Music is analyzed in its multiple dimensions: as a cultural expression, an agent of social change and a product of the cultural industry. The impact of globalization and digitalization on access to and production of music is also addressed, highlighting both the benefits and the challenges of these processes, such as cultural homogenization and the commodification of artistic expressions. Independent and alternative music is presented as a force of resistance and diversity, capable of preserving traditions and fostering innovation. Finally, the article reinforces the importance of valuing musical diversity as a way of enriching culture and building more inclusive and connected societies.
Keywords: music; culture; globalization; cultural diversity; cultural industry.

1. INTRODUÇÃO

A música é uma das formas de expressão mais antigas e universais da humanidade, presente em todas as culturas e épocas. Desde os cantos rituais das comunidades primitivas até as complexas produções da indústria musical contemporânea, a música tem desempenhado um papel fundamental na vida humana. Ela não apenas acompanha momentos individuais e coletivos, mas também reflete e molda as identidades culturais, transmitindo valores, histórias e tradições de geração em geração. Sua capacidade de comunicar emoções, ideias e narrativas faz dela um elemento indispensável na construção e na preservação das culturas ao redor do mundo.

A relevância da música na cultura vai além do entretenimento; ela é um fenômeno social e histórico que merece ser analisado. Compreender seu papel permite insights sobre como as sociedades se organizam, como se expressam e como lidam com mudanças e desafios. Além disso, em um mundo cada vez mais globalizado, a música tornou-se uma ferramenta de grande impacto para a conexão entre diferentes culturas, bem como um campo de disputas sobre autenticidade e identidade.

Diante dessa diversidade musical e de sua influência nas culturas, surge a questão: de que maneira a música atua como agente de transformação e preservação cultural, e como sua globalização impacta as tradições locais? A tensão entre a homogeneização cultural promovida pela indústria musical global e a resistência das expressões musicais tradicionais é um ponto central dessa discussão.

Partimos das seguintes hipóteses: a música é um reflexo direto dos valores e das práticas culturais de uma sociedade, servindo como meio de preservação e transmissão de tradições; a globalização da música promove o intercâmbio cultural, mas também pode levar à erosão de expressões musicais locais; e a música desempenha um papel ativo em movimentos sociais, sendo uma ferramenta de resistência e transformação.

Para explorar essas questões, este trabalho adotará uma revisão de escopo bibliográfico, analisando estudos acadêmicos, artigos e fontes secundárias que abordam a relação entre música e cultura. A abordagem será interdisciplinar, incorporando perspectivas da antropologia, sociologia, história e estudos culturais para compreender o fenômeno musical em sua complexidade.

O objetivo central é discutir brevemente o papel da música na cultura e sua influência nas sociedades, explorando como ela contribui para a formação de identidades, a preservação de tradições e a promoção de transformações sociais. A análise buscará destacar a dualidade da música como elemento de união e diversidade cultural, bem como seus desafios em um contexto globalizado. Assim sendo, esta introdução estabelece o cenário para a discussão, apresentando os principais pontos que serão desenvolvidos ao longo do texto.

2. A MÚSICA COMO EXPRESSÃO CULTURAL

A música é um reflexo profundo dos valores, crenças e práticas de uma sociedade, atuando como um espelho que revela aspectos essenciais de sua identidade. Segundo Blacking (1973), a música não é somente um produto cultural, mas uma expressão viva das relações sociais e das experiências humanas. Ela está intrinsecamente ligada ao cotidiano das comunidades, seja em rituais religiosos, celebrações, momentos de luto ou manifestações políticas. Cada gênero musical carrega consigo uma história, uma geografia e um conjunto de significados que o tornam único e representativo de uma cultura específica.

Um exemplo emblemático é o samba no Brasil, que surgiu nas comunidades afro-brasileiras do Rio de Janeiro no início do século XX. De acordo com Sandroni (2001), o samba é fruto de um processo de hibridização cultural, incorporando elementos africanos, europeus e indígenas. Ele não apenas se tornou um símbolo da identidade nacional brasileira, mas também uma ferramenta de resistência e afirmação das raízes africanas em um contexto de marginalização e exclusão social. Da mesma forma, o flamenco na Espanha, conforme descrito por Manuel (2006), é profundamente ligado à cultura andaluza e à história dos ciganos na região. Suas letras, melodias e danças expressam sentimentos de dor, amor e luta, refletindo a experiência de um povo que enfrentou séculos de discriminação.

Nos Estados Unidos, o jazz emergiu no início do século XX como uma expressão cultural única, enraizada nas experiências dos afro-americanos. Como destacado por Gioia (2011), o jazz não apenas revolucionou a música ocidental, mas também se tornou um símbolo de liberdade e inovação, refletindo a luta por direitos civis e a busca por igualdade. Esses exemplos ilustram como a música está profundamente conectada às histórias e identidades das sociedades que a produzem.

Além de refletir valores e crenças, a música também desempenha um papel crucial na preservação da memória coletiva e das tradições orais. Em muitas culturas, a transmissão de conhecimentos e histórias se dá por meio de cantos, ritmos e melodias. Para Nettl (2005), a música oral é uma forma de documentação viva, que mantém vivas as tradições mesmo em sociedades sem escrita. Um exemplo notável é a tradição dos griots na África Ocidental, conforme estudado por Hale (1998). Os griots são contadores de histórias e músicos que preservam a história de suas comunidades por meio de canções e narrativas musicais, garantindo que as gerações futuras mantenham viva a memória de seus antepassados.

No contexto indígena brasileiro, a música também é uma ferramenta essencial para a preservação cultural. Segundo Menezes Bastos (2007), os cantos e rituais dos povos indígenas são formas de transmitir conhecimentos sobre a natureza, a espiritualidade e a organização social. Essas práticas musicais não apenas reforçam os laços comunitários, mas também resistem ao processo de assimilação cultural imposto pela colonização.

Assim, a música se revela como uma expressão cultural multifacetada, capaz de refletir, preservar e transmitir os valores e tradições de uma sociedade. Ela é, nas palavras de Small (1998), uma "performance de relações humanas", que vai além do som e se conecta diretamente com a vida social e cultural de um povo.

3. A MÚSICA COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

A música tem desempenhado um papel crucial como agente de transformação social, atuando como ferramenta de mobilização, resistência e expressão em diversos contextos históricos e políticos. Em movimentos sociais e políticos, a música frequentemente assume um caráter mobilizador, unindo pessoas em torno de causas comuns e amplificando vozes que buscam mudanças. Um exemplo emblemático é o uso de canções de protesto durante o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960. Músicas como "We Shall Overcome" tornaram-se hinos de resistência, simbolizando a luta contra a segregação racial e a opressão (Eyerman; Jamison, 1998). No Brasil, durante a ditadura militar (1964-1985), artistas como Chico Buarque e Geraldo Vandré utilizaram a música para criticar o regime autoritário de forma velada, criando letras que escapavam da censura enquanto transmitiam mensagens de resistência (Napolitano, 2001).

Ademais de sua função mobilizadora, a música também serve como instrumento de denúncia em contextos de opressão. Em regimes totalitários ou em situações de injustiça social, a música muitas vezes se torna um espaço de expressão para aqueles que são silenciados. Por exemplo, na África do Sul, durante o apartheid, músicas como "Nkosi Sikelel' iAfrika" (Deus Abençoe a África) foram usadas como símbolos de luta contra o regime segregacionista, reforçando a identidade e a resistência do povo sul-africano (Ballantine, 1993). No contexto latino-americano, a Nueva Canción, movimento musical que surgiu nos anos 1960 e 1970, utilizou a música para denunciar as desigualdades sociais e a repressão política, com artistas como Violeta Parra (Chile) e Mercedes Sosa (Argentina) tornando-se ícones da resistência cultural (Fairley, 1984).

A música também exerce uma influência significativa na formação de identidades jovens e na criação de subculturas. Desde o surgimento do rock nos anos 1950 até o hip-hop nas décadas de 1970 e 1980, gêneros musicais têm sido centrais na construção de identidades juvenis e na expressão de descontentamento com o status quo. O hip-hop, por exemplo, emergiu nas comunidades marginalizadas de Nova York como uma forma de expressão artística e política, abordando temas como racismo, violência policial e exclusão social (Rose, 1994). No Brasil, o funk carioca e o rap nacional também se consolidaram como vozes de resistência, refletindo as realidades das periferias e questionando estruturas de poder (Vianna, 1988; Souza, 2009).

Esse contexto histórico ilustra como a música transcende seu papel de entretenimento, assumindo funções políticas e sociais profundas, de modo que ela reflete as tensões e os anseios de uma sociedade e atua como catalisadora de mudanças, inspirando indivíduos e comunidades a lutar por transformações. Como destacam Eyerman e Jamison (1998), a música é uma forma de "ação coletiva simbólica", capaz de unir pessoas em torno de ideais comuns e de criar um senso de pertencimento e propósito.

4. A GLOBALIZAÇÃO E A MÚSICA

A globalização, fenômeno marcado pela intensificação das interconexões culturais, econômicas e tecnológicas em escala mundial, trouxe impactos profundos para a música e suas manifestações culturais. Um dos efeitos mais notáveis é a disseminação de estilos musicais além de suas fronteiras originais, possibilitando a fusão de culturas e a criação de novos gêneros. Segundo Middleton (2000), a globalização permitiu que estilos como o hip-hop, originário dos Estados Unidos, se espalhassem pelo mundo, adaptando-se a contextos locais e gerando expressões únicas, como o hip-hop brasileiro ou o francês. Esse processo de hibridização musical evidencia como a música atua como uma ponte entre diferentes sociedades, promovendo o diálogo intercultural e enriquecendo as experiências artísticas globais.

A música, nesse contexto, funciona como um veículo de comunicação que transcende barreiras linguísticas e geográficas. Para Storey (2015), ela é uma das formas mais eficazes de aproximar culturas distintas, pois carrega em si elementos emocionais e simbólicos que ressoam universalmente. No contexto atual, observa-se o sucesso mundial de gêneros como o K-pop sul-coreano, que conquistou fãs em todos os continentes, ou a popularização da música africana, como o “afrobeat”, que influenciou artistas globais. Esses fenômenos ilustram como a música pode servir como um meio de valorização e reconhecimento de culturas que, em outros contextos, poderiam permanecer marginalizadas.

No entanto, a globalização também apresenta desafios significativos, especialmente no que diz respeito à homogeneização cultural e à perda de tradições locais. Segundo Canclini (2008), a massificação de certos estilos musicais, impulsionada pela indústria cultural global, tende a privilegiar padrões comerciais em detrimento da diversidade cultural. Isso pode levar à erosão de expressões musicais tradicionais, que muitas vezes não conseguem competir com a visibilidade e os recursos financeiros dos grandes conglomerados musicais. Num aspecto antagônico, muitas comunidades indígenas ou rurais, práticas musicais ancestrais estão em risco de desaparecimento devido à influência de culturas dominantes e à falta de incentivo para sua preservação.

Ademais, a homogeneização cultural pode resultar em uma perda de autenticidade e identidade. Para Hall (2003), a globalização tende a criar uma "cultura global" que, embora aparentemente inclusiva, muitas vezes apaga as particularidades locais em favor de um padrão universal. Isso é evidente na forma como certos gêneros musicais são apropriados e comercializados sem o devido respeito às suas raízes culturais, como ocorreu com o samba no Brasil ou o reggae na Jamaica. Nesses casos, a música perde parte de seu significado original, tornando-se um produto descontextualizado e voltado para o consumo massivo.

Em contrapartida, autores como Appadurai (1996) argumentam que a globalização também pode fortalecer identidades locais, à medida que comunidades se apropriam de elementos globais e os reinterpretam de acordo com suas próprias tradições. Esse fenômeno, conhecido como "glocalização", é observado em movimentos musicais que combinam influências internacionais com características regionais, como o manguebeat em Pernambuco, que mistura rock, hip-hop e maracatu. Essas iniciativas demonstram que, embora a globalização apresente riscos, ela também oferece oportunidades para a reinvenção e a valorização das culturas locais.

Para Storey (2015), a globalização da música é um processo complexo e multifacetado, que tanto promove o intercâmbio cultural quanto desafia a preservação das tradições locais. Enquanto a música continua a servir como uma ponte entre sociedades, é fundamental refletir sobre como equilibrar a influência global com a proteção das diversidades culturais, garantindo que as vozes locais não sejam silenciadas no processo.

5. A MÚSICA NA CONTEMPORANEIDADE: DISCUSSÃO À LUZ DA LITERATURA

A música na contemporaneidade é profundamente influenciada pelo advento da era digital, que transformou não apenas o modo como ela é produzida e distribuída, mas também como é consumida e apropriada culturalmente. O acesso à música, antes limitado por barreiras geográficas e econômicas, tornou-se quase universal com o surgimento de plataformas digitais como Spotify, YouTube e Apple Music. Essas plataformas democratizaram o acesso, permitindo que pessoas de diferentes partes do mundo explorem gêneros e artistas diversos. No entanto, essa facilidade de acesso também trouxe implicações culturais complexas. Segundo Hesmondhalgh (2020), a digitalização da música gerou uma "cultura da abundância", em que a superoferta de conteúdo pode levar à superficialidade no consumo e à dificuldade de valorização de obras mais profundas ou menos comerciais.

Ademais disso, a música na contemporaneidade é cada vez mais tratada como um produto de consumo, inserida na lógica da indústria cultural. Adorno e Horkheimer (1985), em sua clássica análise da indústria cultural, já alertavam para o risco de a arte ser reduzida a uma mercadoria, perdendo seu potencial crítico e transformador. Hoje, essa crítica permanece relevante, especialmente quando observamos a predominância de algoritmos que privilegiam músicas com apelo massivo, muitas vezes em detrimento de produções independentes ou experimentais. A indústria musical, ao buscar maximizar lucros, tende a padronizar estilos e formatos, o que pode resultar em uma certa homogeneização cultural (Strinati, 2004).

O fenômeno do consumismo cultural por meio da música ganhou novas dimensões com o advento das redes sociais, que transformaram não apenas a forma como a música é consumida, mas também como ela é produzida, promovida e apropriada culturalmente (Warwick, 2015). As redes sociais, como Instagram, TikTok e Twitter, tornaram-se plataformas centrais para a divulgação de artistas e tendências musicais, criando um ecossistema em que a música é constantemente mediada por algoritmos, influenciadores e estratégias de marketing digital. Esse cenário reforça a lógica do consumismo cultural, em que a música é cada vez mais tratada como um produto descartável, moldado para atender às demandas de um mercado ávido por novidades e viralidades.

Um dos aspectos mais marcantes desse fenômeno é a forma como as redes sociais aceleram o ciclo de consumo da música. O TikTok, à guisa de exemplo, têm o poder de transformar trechos de músicas em "sons virais", que são repetidos incessantemente em vídeos curtos. Essa dinâmica gera uma exposição massiva, mas muitas vezes efêmera, em que a música é reduzida a um elemento de fundo para entretenimento rápido. Como aponta Abidin (2021), a cultura do "viral" nas redes sociais privilegia a instantaneidade e a superficialidade, em detrimento de uma apreciação mais profunda e contextualizada das obras musicais. Essa lógica contribui para a banalização da música, que passa a ser valorizada mais por seu potencial de engajamento do que por seu conteúdo artístico ou cultural.

Além disso, as redes sociais intensificaram a mercantilização da música, transformando artistas e suas obras em marcas a serem consumidas. A construção de personas digitais, a monetização de conteúdos e a busca por patrocínios são práticas comuns nesse ambiente, em que a música muitas vezes se torna secundária em relação à imagem do artista. Segundo Marwick (2015), as redes sociais incentivam uma cultura de autopromoção, em que os músicos precisam constantemente se reinventar e se expor para manter a relevância. Esse fenômeno tende a pressionar os artistas quanto a popularização e alcance de suas músicas, bem como reforça a ideia de que a música é um produto como qualquer outro, sujeito às mesmas regras de oferta e demanda que governam o mercado (Hesmondhalgh, 2020).

No entanto, as redes sociais também abriram espaço para movimentos de resistência e contracultura, especialmente por meio da música independente. Artistas que não se enquadram nos padrões da indústria tradicional encontraram nas plataformas digitais uma forma de alcançar públicos globais sem depender de intermediários. Como destaca Baym (2018), as redes sociais permitem que músicos independentes construam comunidades engajadas e fieis, que valorizam a autenticidade e a diversidade cultural. Esses artistas muitas vezes utilizam as redes sociais não apenas para promover suas obras, mas também para discutir questões sociais e políticas, transformando a música em uma ferramenta de conscientização e mobilização.

No entanto, em contraponto a essa tendência, a música independente e alternativa tem ganhado espaço como uma força de resistência e diversidade cultural. Os artistas e coletivos independentes, muitas vezes à margem das grandes gravadoras, utilizam ferramentas digitais para produzir, distribuir e promover suas obras, mantendo viva a pluralidade de vozes e estilos. Segundo Krüger e Trandafoiu (2013), a música independente representa uma forma de contra-hegemonia, questionando os padrões impostos pela indústria e valorizando a autenticidade e a diversidade cultural. Plataformas como Bandcamp e SoundCloud, à guisa de exemplo, têm sido fundamentais para o fortalecimento desses movimentos, permitindo que artistas alcancem públicos globais sem intermediários tradicionais.

A importância da música independente e alternativa reside justamente em sua capacidade de preservar e renovar tradições culturais, ao mesmo tempo em que abre espaço para inovações e experimentações. Em um contexto globalizado, em que a cultura massificada tende a apagar diferenças, a música independente surge como um contraponto essencial, garantindo que a diversidade cultural continue a florescer. Como aponta Negus (1999), a música é um campo de disputas simbólicas, onde diferentes visões de mundo e identidades culturais se encontram e se confrontam. Nesse sentido, a música independente não apenas enriquece o panorama cultural, mas também desafia as estruturas de poder estabelecidas, promovendo uma maior democratização da cultura.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo desta discussão, foi possível evidenciar a relevância da música como um elemento central da cultura humana, capaz de transcender barreiras geográficas, temporais e sociais. Desde suas origens mais remotas, a música tem sido uma forma de expressão que reflete e molda as identidades culturais, transmitindo valores, histórias e tradições de geração em geração. Sua universalidade e versatilidade a tornam uma linguagem única, que conecta indivíduos e comunidades, ao mesmo tempo em que preserva a diversidade cultural.

No contexto contemporâneo, a música desempenha um papel crucial na construção de sociedades mais inclusivas e conectadas. Por meio dela, é possível promover o diálogo intercultural, amplificar vozes marginalizadas e fomentar a empatia entre pessoas de diferentes origens. Os movimentos sociais e artísticos têm utilizado a música como ferramenta de resistência e transformação, demonstrando seu potencial para desafiar estruturas de poder e inspirar mudanças. No entanto, é preciso estar atento aos desafios impostos pela globalização e pela digitalização, que, embora tenham ampliado o acesso à música, também podem levar à homogeneização cultural e à mercantilização excessiva das expressões artísticas.

Diante desse cenário, faz-se necessária uma chamada para a valorização da diversidade musical como forma de enriquecimento cultural. A música independente e alternativa, assim como as tradições musicais locais, devem ser reconhecidas e preservadas como patrimônios culturais essenciais. A pluralidade de vozes, de modo geral, enriquece o panorama cultural global e fortalece a identidade e a autonomia das comunidades. Para isso, é fundamental que haja políticas públicas e iniciativas privadas que incentivem a produção e a difusão de músicas diversas, garantindo que artistas de diferentes contextos tenham espaço para se expressar e alcançar públicos amplos.

Em última análise, a música é mais do que um produto ou uma forma de entretenimento; ela é uma manifestação profunda da criatividade humana e um reflexo das complexidades da vida em sociedade.

Em epitome, valorizar a diversidade musical significa, portanto, valorizar a própria humanidade em sua riqueza e pluralidade.

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1 Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). Pós-Doutor em Gestão do Conhecimento (UFSC). Universidade do Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP). Endereço: Rua Prof. Egídio Ferreira, nº 271, bairro Capoeiras Florianópolis/SC/Brasil, CEP88090-699. E-mail: [email protected]

2 Mestrando em Desenvolvimento e Sociedade pela Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), Campus Caçador/SC. Bacharel em Direito pela Universidade Alto Vale do Rio do Peixe (UNIARP), Campus Fraiburgo/SC. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/00090002-5091-2123

3 Mestre em Desenvolvimento e Sociedade pela Uniarp. Federação das Indústrias e Comércio de Santa Catarina. Caçador. Santa Catarina Brasil. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.0009-0001-0470-8044

4 Doutorando e Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Sociedade  (Uniarp).Graduado em Sociologia e Política (FESP/SP). E-mail: [email protected]

5 Direito e Pedagogia. Mestre em Ciência Jurídica. Doutoranda em Desenvolvimento Regional. Grupo de Pesquisa: Educação, Política e Sociedade. https://orcid.org/0009-0001-9274-030X