A METAFÍSICA E SUAS NUANCES E A CONTRIBUIÇÃO DA PSICANÁLISE E DA PSICOLOGIA ANALÍTICA

METAPHYSICS AND ITS NUANCES AND THE CONTRIBUTION OF PSYCHOANALYSIS AND ANALYTICAL PSYCHOLOGY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793246342

RESUMO
Desde os primórdios a curiosidade humana sobre temas que envolvem as emoções, cujos temas ainda não consolidados pela ciência atuante, porém nos causam indignações por algo que sentimos em nossas mentes, sensações corporais do qual atribuímos às nossas almas. Sendo as fontes dessas inquietações os pensamentos, as mentes, as falas, que dentro dos processos, o centro são os nossos cérebros, no sentido de consciência que nos colocam como parte ou totalidade de algo maior.
O cérebro ainda é um desconhecido, mas passível de muitas histórias e especulações, porém com o advento da ciência sua exploração desperta um início de nos compreendermos nossos funcionamentos, apesar de insipiente e estarmos no início de uma exploração que esperamos que seja algo de propositivo na evolução humana.
Palavras-chave: Transcendência; Psicanálise; Individuação; Inconsciente; Espiritualidade; Consciência; Pensamento; Mente; Emoções; Razão; Cérebro.

ABSTRACT
Since the beginning, human curiosity about topics involving emotions, whose themes have not yet been consolidated by active science, but cause us indignation for something we feel in our minds, bodily sensations that we attribute to our souls. The sources of these concerns are the thoughts, the minds, the speeches, which within the processes, the center is our brains, in the sense of consciousness that places us as part or totality of something greater. The brain is still unknown, but subject to many stories and speculations, but with the advent of science its exploration awakens a beginning of understanding our workings, although incipient and we are at the beginning of an exploration that we hope will be something purposeful in human evolution.
Keywords: Transcendence; Psychoanalysis; Individuation; Unconscious; Spirituality; Consciousness; Thought; Mind; Emotions; Reason; Brain.

1. INTRODUÇÃO

Teríamos consciência se não fosse o pensamento, ou o pensamento é formado pela consciência? São indagações que ainda não conseguimos responder, mas estamos à caminho, diante dos estudos correlacionados às questões que impedem o alcance de tais afirmações. Tabus, senso comum e aspectos dos mais variados são empecilhos para que avancemos sobre tais temas, mas não são impeditivos para que possamos progredir superando preconceitos seculares.

Reportando-nos à caverna de Platão e à sua analogia com o sair das sombras para o reino da iluminação, nota-se que muita indignação foi criada diante do novo e da realidade das coisas. Até mesmo pelo fato das sombras, que representavam espectros de imagens refletidas que davam a sensação de movimentos; portanto, poderíamos dizer que representavam projeções dos visionários em relação às suas realidades ambientais. Mesmo aquele que se aventurou em direção à saída, enfrentando o ofuscar das luzes, poderia ter relatado sua visão ainda distorcida das imagens vislumbradas, dificultando o relato, pois a linguagem utilizada podia estar relacionada à conscientização de algo vislumbrado em contraste com a realidade dos prisioneiros das sombras.

Assim estamos nós diante das pesquisas e das conjecturas dos eventos: diante de estar cônscio ou simplesmente construindo imagens através do ato de pensar, relatando com as elaborações limitadas da linguagem.

2. ENRRE O METAFÍSICO E O FILOSÓFICO

No caminhar filosófico, a metafísica recebeu várias contribuições. No período pré-socrático os elementos da natureza (terra, água, fogo e ar), eram pesquisados na busca de se encontrar algo que fosse ligado a essência. Com Platão, o corpo era algo que não possuía valor, e sim a alma, e a ideia de que o que vivemos aqui é uma sombra produzida por uma ambiência perfeita. Com Aristóteles, temos a ideia de um motor imóvel que moveu todas as coisas, em que o ato primeiro moveu-nos enquanto potência, e isso ganhou notoriedade ao longo dos séculos.

Ao mover dos séculos, principalmente com Rene Descartes, a razão passa a ser o foco de todas as atenções. O mundo não mais caminhava para uma teleologia, mas a razão seria a totalidade de todas as coisas, já que ela projetava todas as nossas realidades.

Percebemos que há uma mudança, do transcendente para o imanente. O transcendente vai sendo esvaziado, enquanto o imanente vai se enchendo através das correntes filosóficas que vão surgindo como o empirismo, o sistema kantiano em que a moral vai sendo ressignificada, o modelo hegeliano de absolutismo, até chegarmos a Heidegger, Nietzsche, em que o vazio (nihil) vai ocupando a vida do homem hodierno.

É neste contexto que nasce a Psicanálise, fruto do trabalho de Sigmund Freud, que conjuntamente com Jung, debruçam-se sobre a descoberta do inconsciente e aprofundam sobre a simbologia nas diversas culturas dos continentes. Ambos percebem que havia um adoecimento da alma, e os remédios e os procedimentos médicos não eram suficientes para “curar” o que doía no mais profundo do ser.

A metafísica em seus primórdios conduzia o ser “além” do temporal, mas a evolução histórica baniu o que viria no “pós-tempo”, e se ocupou mais do “carpe diem”. Foi justamente isso que Freud e Jung descobriram em suas pesquisas. Conforme JUNG (2008, p.102-103):

Essas forças interiores advêm de uma fonte profunda que não é alimentada pela consciência nem está sob seu controle. Na mitologia antiga, essas forças eram chamadas de mana, ou espíritos, demônios e deuses, e estão tão ativos hoje em dia como no passado. Se eles se ajustam aos nossos desejos, falamos em boa sorte ou inspiração feliz e congratulamo-nos por sermos “pessoas tão sábias”. Se as forças nos são desfavoráveis, referimo-nos à nossa pouca sorte, dizemos que alguém está contra nós ou que a causa dos nossos infortúnios deve ser patológica, daí por diante. A única coisa que nos recusamos a admitir é que dependemos de “forças” que fogem ao nosso controle.

Os esforços empreendidos pela psicanálise no sentido de ajudar o ser humano a lidar com forças desconhecidas que habitam dentro do homem, mas que as vezes passavam de maneira desapercebida, marcou o século XX, pois a contribuição dessa epistemologia colaborou para sanar muitos problemas da alma, trazendo assim a reconciliação do sujeito consigo mesmo, levando-o a um processo de transformação, que podemos considerar como transcendente.

Ao propor sua teoria sobre eros e thanatos, Freud demonstrou que só há dois caminhos a serem trilhados, o de vida e o de morte. Para entendermos isso, ARENDT (1997, p.19) especifica: “A vida constantemente ameaçada pela morte não é vida, uma vez que nunca deixa de se correr o risco de perder o que é, aquilo que até sabe que tem de perder um dia”.

Se nos determos à vida prosseguimos, mas se fixarmo-nos ao que perdemos, então nos prendemos à morte. E o transcender está ligado à vida, ao que se espera, ao que será melhor do que o dia de hoje. O existencialismo talvez tenha se perdido neste sentido de thanatos, que conduz ao esvaziamento e à perda (nihil).

O transcender nesse sentido pode estar ligado ao rompimento intelectual muitas vezes introjetado conforme JUNG ([19--], posição 221) nos apresenta: “O homem foi roubado de transcendência pela miopia dos superintelectuais. Como eles, ele caiu vítima da inconsciência. Mas a tarefa do homem é o posto exato disso: tornar-se consciente dos conteúdos que pressionam desde o inconsciente”.

Jung nos traz sua teoria da Individuação, em síntese é o caminho que o sujeito faz para estar mais próximo de si mesmo e de uma realidade superior a ele mesmo, também nominou como Self. Essa ideia também se aproxima muito do conceito de transcendência, de ir além. A princípio a transcendência parece algo que se movimente para fora de si, mas segundo Jung, é o caminho de regresso ao interior, que permite ao homem se encontrar consigo mesmo e com o Ser transcendente. De acordo com CAZELLI (2023, p.313) refletimos:

O processo de individuação, na visão junguiana, parte do pressuposto de que nossa energia psíquica possui um télos, ou seja, uma finalidade, um caminho, um objetivo, em uma palavra: um sentido. A realização desse sentido seria um processo natural e qualquer coisa que o impeça, motivo de adoecimento. A realização desse processo se dá sob orientação do Self, o arquétipo da totalidade. Como o objetivo do processo de individuação é atingir a totalidade, isso significa, dentro da Psicologia Junguiana, que existe um “eixo ego-Self”, ou seja, uma ligação entre essas duas instâncias psíquicas, de forma que a instância superior possa guiar a inferior em direção a ela mesma, visando a autorrealização do sujeito. Essa ligação é responsável pelo trânsito da energia psíquica, ora em direção ao ego – a consciência –, ora em direção ao Self e aos conteúdos inconscientes.

O filósofo Henri Bergson também intuía sobre esta questão da individuação, a alma não está apenas ligada a temporalidade, ao chronos, mas se movimenta na interioridade do sujeito, que é capaz de levá-lo além de realidades que estão no presente, para ele a duração, estaria ligado a processos que o tempo não pode tirar, que estão eternizados na memória, e que também projeta para um futuro. Conforme PINTO (2025, p.89) Bergson nos apresenta:

Quando o espírito se observa interiormente, ele é capaz de compreender a sua realidade mais profunda. A realidade da interioridade coincide com a própria duração, ou seja, com a existência. A duração bergsoniana é o tempo como fluxo contínuo, um devir irreversível e imprevisível, cujos momentos se interpenetram e se fundem, perceptível somente pela intuição. Todo sujeito psicológico que se examina interiormente, e que se esforça de afastar-se do modo habitual de auto apreender-se, ou seja, o espacial, percebe imediatamente essa duração real agindo nele. Segundo Bergson, no Ensaio, “existe uma realidade que podemos sentir por dentro, pela intuição e não pela simples análise. É a nossa própria pessoa no seu fluxo através o tempo.

Desta maneira, a individuação encontra um caminho promissor para compreender a transcendência, porque enquanto no existencialismo, a razão ocupa a centralidade pela racionalização, na individuação há um resgate, as origens, no resgata a dimensão da alma, do interior como Platão e Aristóteles, divergindo apenas no viés teleológico, na individuação, na “consciência do Eu mais profundo”, de maneira introvertida, a razão se encontra com a alma, se curva diante de algo que lhe é maior. Conforme PAIVA (2005) apud PINTO (2025, p.13) temos:

Ora, a origem é a interioridade, mas considerada não apenas como o lugar da subjetividade, e assim como o núcleo de toda realidade. É este o sentido que Bergson confere à noção de vida e que faz com que vejamos aí algo mais do que o vitalismo ou biologismo. O ser é processo temporal que se manifesta como interioridade vital, um movimento absoluto cujo teor concreto escapa a qualquer apreensão conceitual. Esta é a razão pela qual a metafisica, assim reinstaurada, coloca-se além da dicotomia realismo/idealismo, dilema interno à configuração simbólica habitual no conhecimento filosófico.

Podemos associar a ideia de Individuação de Jung com a transcendência. O encontro da razão e da alma. Neste sentido podemos pensar também a questão da espiritualidade, que conecta todo o nosso ser a uma realidade que transfigura a vida humana. Esse trajeto nos leva a traduzir na vida uma linguagem gestual, que imbuída de um valor essencial, reluz na vida em sua forma mais nobre que é o amor. BENTO XVI (2005, § 5) colabora para o nosso entendimento:

Isto depende primariamente da constituição do ser humano, que é composto de corpo e alma. O homem torna-se realmente ele mesmo, quando corpo e alma se encontram em íntima unidade; o desafio do Eros pode considerar-se verdadeiramente superado, quando se consegue esta unificação. Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. O epicurista Gassendi, gracejando, cumprimentava Descartes com a saudação: « Ó Alma! ». E Descartes replicava dizendo: « Ó Carne! ». Mas, nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor — o Eros — pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza.

A transcendência do homem se dá através do amor, não enquanto sentimento relacional, mas enquanto valor que acrescenta à sua vida um sentido, e este sentido se move em direção aos semelhantes, isso tem um profundo sentido espiritual e ao mesmo tempo é um caminho de individuação, pois, nos remente àquilo de melhor que trazemos em nossa alma. Para o filósofo Bergson, em seu livro As duas fontes, o amor é o objetivo teleológico que a alma humana busca. Conforme BERGSON (2008) apud PINTO (2025, p.204), podemos pensar:

Fundadores e reformadores de religiões, místicos e santos, heróis obscuros da vida moral que tivemos ensejo de encontrar em nosso caminho e que ao nosso ver se igualam aos maiores, todos lá estão: arrastados por seu exemplo, nós nos juntamos a eles como a um exército de conquistadores. São conquistadores, com efeito; eles quebraram a resistência da natureza e alcançaram a humanidade a novos destinos... É verdade que se descêssemos até a raiz da própria natureza, talvez nos apercebêssemos de que é a mesma força que se manifesta diretamente, voltando-se sobre si mesma, na espécie humana uma vez constituída, e que atua depois indiretamente, por intermédio de individualidades privilegiadas, para impelir a humanidade para a frente.

O aspecto do amor como fonte de transcendência que Bergson chamou de elã vital preenche uma lacuna filosófica que durante décadas havia sido deixada de lado, e resgatadas por este autor, que nos permite entender e compreender o que tanto a Psicanálise, quanto a Psicologia Analítica nos apresentou como o reconciliar do inconsciente. Nos permitindo refletir que é o amor, enquanto Eros que nos possibilita dissolver os traumas, vencer o medo da perda, thanatus, para caminharmos em de nossa origem apropriada. Nesse sentido, PINTO (2025, p.206), ajuda-nos a refletir tal realidade:

Em As Duas Fontes, Bergson, com o conceito de almas abertas, reelabora a sua tese de elã vital (desenvolvida em A Evolução Criadora) e articula o paralelismo de elã do amor. Assim, Bergson concebe o amor como processo criador da vida, do próprio elã vital. Em suma, tanto o elã vital quanto o elã do amor revelam duas inclinações naturais da vida humana: o registro biológico e o registro moral. Esses dois registros alcançam, nas personalidades raras, nas almas abertas, o seu máximo potencial de evolução: o de fazer dessa humanidade biológica uma superhumanidade – humanidade divina - capaz de transfigurar a moral fechada em moral aberta e dinâmica. Nessa supra moral, o amor é o fundamento e impulso de toda a ação moral. Contudo, esse processo evolutivo e transformador concretiza-se mediante uma tensão, uma pressão, em analogia a uma luta, a um combate e à negação da própria natureza humana.

O romper com o próprio medo, com o que nos leva a perda, é um dos passos primordiais para se alcançar esse transcender que nos conduz ao amor enquanto valor. É um romper com as introjeções que em muitos momentos nos paralisaram, levando-nos a viver um minimalismo da vida humana e de sua potencialidade, refletindo num vazio existencial. O vazio se supera com o regresso a essência, nela estão os arquétipos que precisamos para nos reinventarmos a cada momento da história. Nela estão contidos os elementos necessários para desenvolvermos a resiliência. Para isso, FRANZ (1988, p.35) elucida a determinação que devemos ter para se reconstruir integralmente.

Tanto a "perda da alma" quanto o fenômeno de um "espírito invasor" podem ser psicologicamente observados ainda hoje no cotidiano de todos os homens. A "perda da alma" aparece sob a forma de um desânimo ou de um esmorecimento repentino. Perde-se a alegria de viver, sente-se vazio e debilitado, tudo parece sem sentido. Observando melhor, especialmente os sonhos, pode-se verificar que grande parte da energia psíquica escoou para o inconsciente, não estando mais, por essa razão, à disposição do Eu.

Tarefa árdua, mas ao mesmo tempo prazerosa, permitirmos nos ouvir, deixar as vozes ensurdecedoras de lado, e percebermos a força vital que move a humanidade. Assim, JUNG (2008, p.26) nos ensina:

Temos, algumas vezes, uma poderosa sensação de que o Grande Homem quer alguma coisa de nós, estabelecendo algumas tarefas especiais para cumprirmos. Nossa reação positiva a esta experiência pode ajudar-nos a adquirir forças para nadar contra a corrente do preconceito coletivo, levando a sério nossa própria alma.

3. O CONSCIENTE E A MENTE

Para Sócrates, para que nos tornemos cônscios de algo, precisamos estar cientes de nossa ignorância, pois admitir que não se sabe é o início do processo de se conscientizar. Em nosso mergulho evolutivo, passamos pelas mais diversas situações temporais para que pudéssemos chegar à atualidade de conhecimentos exclusivos para uma minoria de curiosos preocupados com suas capacidades cognitivas, intelectuais e sociais, na convivência de opositores do nada, com narrativas vazias, interlocutores de frases feitas e replicadores do outro. Citação, DEHAENE (2024, p. 11): “Haveria uma prova melhor de que a atividade mental não pode ser reduzida ao mundo da matéria? De que a mente é feita de um material diferente? Como poderia a mente, que é livre para voar, ter surgido de um cérebro tão preso à terra?”.

São indagações sem respostas, mas de muitas suposições; um estímulo para que possamos sair da caverna e nos dedicar às pesquisas, dentre muitos outros que passam por dúvidas ao longo do pensamento humano. Porém, Descartes, o pioneiro na descoberta do "Penso, logo existo", teve em sua consciência existencial o que lhe permitiu avançar no mecanismo do ato e em suas capacidades de questionar suas realidades. Citação, DESCARTES (1632-1633), apud DEHAENE (2024, p. 12):

Descartes apresentou uma perspectiva totalmente mecânica sobre o funcionamento interno do corpo. Somos autônomos sofisticados, escreveu esse ousado filósofo. Nossos corpos e cérebros funcionam como uma coleção de “órgãos musicais”: instrumentos musicais comparáveis aos encontrados em igrejas antigas, com enormes foles que mandavam um fluido especial chamados “espíritos animais” para um receptáculo e, em seguida, para uma grande variedade de tubos, cujas combinações geravam os ritmos e a música referentes a nossas ações.

Apesar da integralidade em sua materialidade apresentada com suas analogias, ficava claro que se tratava, na visão de Descartes, de substâncias diferentes, cuja atuação da glândula pineal interagia, sendo independentes entre a matéria e o espírito, estabelecendo sua dualidade dicotômica que prevaleceu e prevalece; assim, separava-se a imaterialidade do espírito do corpo material, conceito até então presente no senso comum das pessoas.

Diante de muitas afirmações, assim como negações, temos a citação de DEHAENE (2024, p. 17):

A consciência é uma palavra que foi desgastada, tornada escorregadia por um milhão de línguas... Talvez devêssemos banir a palavra por uma década ou duas, até que possamos desenvolver termos mais precisos para os vários usos que “consciência” hoje torna obscuros”. (Psychology, the Science of Mental Life (1962) de George Miller).

Portanto, por muitos anos a palavra foi evitada (ou "proibida"), pois acreditava-se que nada acrescentava às ciências do conhecimento, sendo um termo que não se explicava e denotava ser descartável para o momento. De um tempo para cá, o enigma surge com estudos recentes da neurociência e suas correlatas, submergindo a palavra consciência dentro de uma dimensão da qual não tínhamos conhecimento. Principalmente com Freud em sua psicanálise, surgem o consciente e o inconsciente, causando perplexidade em muitos contestadores. Citação, DEHAENE (2024, p. 19):

O acesso consciente é também a porta de entrada para formas mais complexas de experiências conscientes. Na linguagem do dia a dia, frequentemente fundimos nossa consciência com nosso senso de identidade – o modo como o cérebro cria um ponto de vista, um “Eu” que olha para seu entorno a partir de um ponto específico relevante. A consciência pode também ser recursiva: nosso “Eu” pode olhar para si mesmo, comentar sua própria atuação, a saber quando não sabe algo. A boa notícia é que mesmo esses sentidos de consciência de nível elevado já não são inacessíveis à experimentação. Em nossos laboratórios, aprendemos a quantificar aquilo que o “Eu” sente e relata, tanto a respeito do seu entorno quanto a seu próprio respeito.

Para Freud, tornar o inconsciente consciente tinha o propósito de estimular o pensar sobre nossa interioridade, e assim reconhecer nossas atitudes, movimentos, conflitos e a interação com o outro e conosco mesmos. Hoje, pelo visto, a reconhecemos e mensuramos do ponto de vista do que produzimos como energia que manipulamos e utilizamos; antes, havia um verdadeiro desconhecimento sobre seu uso, do qual ficamos prisioneiros da exterioridade como realidade, desconhecendo o que somos nós.

Para DEHAENE (2024), Watson baniu o inconsciente como percepção na psicologia como ciência. Esse distanciamento perdura, pois se tratava apenas de comportamento, ou seja, manifestações em relação à exterioridade dentro de uma posição dogmática, mas que caiu por terra quando falamos do ser em sua interioridade intrínseca.

Por sua vez, hoje sabemos que uma circuitaria envolvente em todo o cérebro compõe o conjunto da formação cerebral de forma organizada em relação ao todo, que absorve não apenas o crânio, mas todo o corpo humano. Não podemos afirmar que se tem todo conhecimento sobre a consciência, mas caminha-se para uma identificação, mesmo de rudimentos primários, para uma concepção maior sobre o tema.

De acordo com (DEHAENE), dentre as mais diversas definições e sentidos sobre o que é a consciência, muitas vezes confundida com atenção, ouvir e até falar, é com Damásio que se coloca que consciência é o ato do “eu” reconhecer-se, ou seja, o conhecimento de si é o início de sua percepção existencial no tempo e espaço no qual está inserido. Até pelo fato de não ser apenas um atributo do ser humano, pois na Declaração sobre a Consciência (7 de julho de 2012), há indícios de que os animais, em função de seus substratos neurológicos e testes, têm a possibilidade de ter capacidade de perceber-se.

Apesar de ser uma percepção em relação ao externo, como um filtro de relação entre o dentro e o fora, nota-se que, conforme citação de DEHAENE (2024, p. 140): “A consciência age como um mecanismo de medição discreta, que nos proporciona um único vislumbre do vasto mar subterrâneo de processamentos inconscientes”.

Vamos fazer um paralelo com as teorias freudianas sobre seus princípios de realidade e de prazer para entender suas ideias quanto às formulações do consciente e inconsciente. Veja que quando fala de prazer, está falando do orgânico quanto às sensações do corpo; e o princípio de realidade é o que percebe em sua exterioridade, com captação do real ou da imaginação distorcida do que se apresenta. Exemplo: Imagine que está com fome e vê um lanche delicioso. O princípio do prazer te impulsiona a querer comer o lanche imediatamente para satisfazer sua vontade ou fome. O princípio de realidade, ao mesmo tempo, faz você lembrar que está fazendo dieta e que comer o lanche pode estragar seus planos. É ele que te faz pensar nas consequências e decidir se vale a pena ou não comer o lanche.

Diferente do impulso, em que não se pensa — o objetivo é saciar-se, e só depois pensar nas consequências, ou simplesmente não lembrar ou não se sentir culpado pelo ato —, tal mecanismo vira uma questão de sobrevivência; daí as consequências, por repetição, serem desastrosas.

Mas o interessante é a ideia do mecanismo até então estudado por Freud. Veja que na constituição dos neurônios permeáveis, impermeáveis, perceptivos e outros, ele fazia uma relação entre suas capacidades de retenção, impermeabilização e sensibilidade de forma qualitativa e quantitativa. Em sua relação com a energia (Qn) acumulada ou distribuída, havia uma relação com a descarga, cujos neurônios tinham uma necessidade de descarregar para suas catexias ou relaxações no sentido de motilidade. FREUD (1996, p. 366/367).

De forma sequencial, os neurônios permeáveis terminam nos neurônios impermeáveis; dependendo do “Qn” envolvido ou acumulado, pode-se gerar sofrimento ou dor. A resolução é a descarga para que a motilidade ocorra em função da intensidade dos estímulos causadores do prazer ou desprazer. Importante salientar que os estímulos podem ser endógenos e exógenos, ou seja, de intensidade ou pensamentos internos do organismo ou de fora. Sendo os endógenos controlados pelo sistema nervoso autônomo e pelo sistema endócrino, e os exógenos também controlados pelo sistema nervoso e o periférico. O endógeno mantém o equilíbrio interno do organismo (homeostase), e o exógeno, a interação com o ambiente externo e sua adaptação a ele.

O que Freud define como consciência é justamente a percepção do interno com o externo no processo de socialização em que o animal humano está em construção. O estado de excitação por acúmulo de energia catexiada pode produzir ativações de desejos por imagens mnêmicas, causadoras de surtos alucinatórios por ações reflexas impulsivas sem controles. FREUD (1996, p. 371/372). Citação DAMÁSIO (1996, p. 264):

Na maior parte dos casos de funcionamento perceptivo regular, os sistemas somatossensorial e motor encontram-se envolvidos, a par do sistema sensorial adequado aos objetos que são percebidos. Isso é o que sucede mesmo quando o sistema sensorial em questão é o componente exteroceptivo – ou seja, voltado para o exterior – do sistema somatossensorial. Quando você toca um objeto, ocorrem então dois conjuntos de sinais locais a partir de sua pele. Um diz respeito à forma e à textura do objeto; o outro, às zonas do corpo que são ativadas pelo contato com o objeto e pelo movimento do braço ou da mão. Acrescente a tudo isso que, dado o objeto poder criar uma resposta corporal subsequente, relativa ao seu emocional, o sistema somatossensorial é novamente ativado pouco depois dessas respostas. A quase inevitabilidade do processamento corporal, independente do que estejamos fazendo ou pensando, é evidente. É muito provável que a mente não seja concebível sem algum tipo de incorporação, uma noção que tem lugar de destaque nas propostas teóricas de George Lakoff, Mark Johnson, Eleonor Rosch, Francisco Varela e Gerald Edelman, e, evidentemente, nas nossas propostas.

O que denota que o corpo é a representação perceptiva de realidades internas e um mecanismo de defesa para realidades externas, porém um receptor neurológico formado por átomos que gravitam em ondas e partículas na interação com o ambiente ao qual está exposto; portanto, conscientizar-se é algo profundo que vai além do que sentimos ou desejamos.

Outro autor que navegou em suas conjecturas foi BERGSON. Quando inicia sua fala com o significado de consciência, traz à baila a inteligência, ou seja, a capacidade de inteligir sobre seu funcionamento, dizendo que é ela que nos inicia no mundo interior, pois nos dá os sentidos; porém BERGSON (2014, p. 81) diz: “...se podemos falar assim, a razão, que nos revela as verdades superiores, os princípios eternos”. Citação, BERGSON (2014, p. 82):

A CONSCIÊNCIA – A consciência é a faculdade por meio da qual tomamos conhecimento do que chamamos aqui de fatos psicológicos. Esses fatos, como sabemos, caracterizam-se por não serem localizáveis no espaço, mas sim se ocuparem da duração. Não estando situados no espaço, não podem produzir impressão nos órgãos dos sentidos; e entretanto nos são conhecidos, pois falamos deles, pois existe uma ciência que os estuda, pois, por fim, cada um de nós sabe muito bem que é capaz, num determinado momento, de dizer o que se passa dentro de si, o que experimenta, o que pensa, o que quer e o que sente. É essa luz interior, esse sentido interior que não tem órgão, que chamamos de consciência. É uma faculdade de observação, mas de observação interna” [...] “...é saber se a consciência é uma faculdade especial ou se ela seria simplesmente a forma comum a todos fatos psicológicos.

Portanto, como um religioso coloca de forma subjetiva uma questão de não localização física, assim definindo como algo psicológico, ou seja, uma situação meramente mental, coloca-se em dúvida se todos os fatos psicológicos são conscientes. Abre-se um leque de conjecturas de algo que apenas especulava sobre o assunto para um determinado fim, claro que se fundamentando em alguns filósofos contemporâneos com a filosofia do inconsciente para tal relação. Precisamos entender que era um defensor da não existência do inconsciente, pois dizia BERGSON (2014, p. 86): “Portanto, não há lembranças inconscientes: há estados fisiológico que podem dar origem, em certos casos, a estados psicológicos”.

Acreditava em um todo manifestante, assim como memórias, inteligir para entender suas teorias a ponto de resgatar a substância Aristotélica de que, BERGSON (2014, p. 90), “A consciência nos revela a existência de uma substância que cada um de nós chama de eu ou mim”. A consciência é a forma constituída do ser de qualidades dessa substância, pois conhecemos da matéria apenas qualidades. Resumindo, sua ideia de consciência se baseava em pensamentos de filósofos empiristas de sua contemporaneidade de que, segundo eles, citação BERGSON (2014, p. 97), “...o eu não existiria por si mesmo como substância ou força ativa; o eu seria apenas uma palavra.” O que de fato ocorre são fatos psicológicos em ação, como sentimentos, ideias, lembranças que temos em nossas memórias, nada mais do que a soma da totalidade de sensações e lembranças. Sua conclusão é de que BERGSON (2014, p.105):

Devemos concluir que a consciência nos faz perceber, acima dos fenômenos que se produzem na alma, por trás dos fatos psicológicos que se sucedem, que passam, que vão se substituindo uns aos outros, um eu uno e idêntico, um eu substância e causa ao mesmo tempo.

A consciência para o autor são constituições de lembranças que vão sendo constituídas sujeitas no tempo por uma questão perceptiva e de sentidos, cuja tradução para ele é o significado de alma. Dado que a influência cartesiana imperava no pensamento de então, pois DESCARTES (1596-1650), apud COTTINGHAM (1999, p.37), citando o final da Sexta Meditação, diz:

Existe uma grande diferença entre a mente e o corpo, dado que o corpo é sempre, por sua própria natureza, divisível, enquanto a mente é absolutamente indivisível. Pois, quando considero a mente, ou a mim mesmo, enquanto seja apenas uma coisa pensante, sou incapaz de distinguir quaisquer partes em mim mesmo. [...] em contraste com isso, não existe coisa corpórea ou extensa que eu possa imaginar que, em meu pensamento, não possa facilmente dividir em partes. E é justamente esse fato que me faz entender que tal coisa é divisível. Bastaria este argumento para me mostrar que a mente é completamente diferente do corpo, mesmo que eu já não o soubesse disso a partir de outras considerações. (AT VII 85-6: CSM II 59).

Como a alma e o corpo são distintos, mas intrínsecos em sua totalidade, sendo o corpo divisível e a mente indivisível, tem-se a visão da consciência ser um atributo da alma, portando sua subjetividade metafísica de algo psicológico para explicar suas manifestações físicas.

Quando nos deparamos com a atualidade entre o racional e o emocional, as conjecturas a respeito permanecem na dicotomia entre razão e emoção, conceito básico cartesiano. A ponto de dizer que a mente emocional é mais rápida do que a racional. O que nos leva a acreditar que as atitudes e atos emocionais são sujeitos a impulsos de sobrevivência, enquanto a racionalidade é uma conquista para situações coletivas sociais. GOLEMAN (2012, p. 305). Interessante como sua colocação difere em alguns pontos dos demais, pois GOLEMAN (2012, p. 305) diz: “A constatação de que é preciso agir tem de ser automática e, de tal forma, que não chegue nunca ao nível da consciência. Somos tomados por uma reação emotiva “rápida e rasteira”, normalmente muito antes de sabermos, com exatidão, o que se passa”.

Então aspectos pulsionais antecedem os instintos, cuja sobrevivência é prioridade no agir; ou seja, registros mnêmicos filogenéticos em nosso inconsciente prevalecem quanto ao racional que foi adquirido mais à frente, sujeito à coletividade na formação do social. Citação, GOLEMAN (2012, p. 307):

A mente racional, por outro lado, em geral não decide que emoções devemos ter. Ao contrário, nossos pensamentos em geral nos chegam como um fait accompli. Diante disso, o que a mente racional pode fazer é controlar o curso de nossa reação. Salvo exceções, não decidimos quando ficar furiosos, tristes, etc.” (fait accompli: Tradução de algo consumado ou decisão já tomada).

O que nos remete a Freud quando de suas colocações em que diz que o impulso — seu significado está em aberto — antecedia os instintos, portanto ainda passível de estudos a serem desvelados. Mas foi com NICOLELIS (2020, p.11), com sua teoria de que o cérebro é o grande criador de tudo, que em seu Capítulo 1 "NO PRINCÍPIO”, diz:

No princípio, havia apenas um cérebro de primata. E de suas profundezas, graças às misteriosas tempestades eletromagnéticas – originárias de um emaranhado de dezenas de bilhões de neurônios moldado por uma tão inédita quanto única caminhada evolucionária –, a mente humana emergiu. Ilimitada, irrestrita, imensa. Envolto em uma interminável combustão e expansão, esse novo tipo de plasma neural, nunca antes visto no universo, logo se fundiu em um contínuo. Desse amálgama surgiu o andar ereto, a destreza manual, a linguagem oral, a escrita, a capacidade de formar enormes entrelaçamentos sociais, o pensamento abstrato, as mais variadas ferramentas e tecnologias, a introspecção, a consciência e, enfim, o livre-arbítrio.

Deposita-se no cérebro todo o início da vida mental do animal humano, assim definido pelos efeitos de algo da concretude palpável na formação do corpo como resultados de fenômenos físicos e químicos (aos quais chama de eletromagnéticos) aos quais estamos sujeitos. Pela definição, ainda é uma forma em transição sujeita às alterações do comportamento da natureza que nos compõe, e deixa claro que é uma estória sobre a criação, portanto conjecturas de provocações que ocorrem em uma boa hora para reflexões profundas na busca de nossa identidade como ser.

4. O CÉREBRO E O PENSAMENTO

Faremos uma viagem entre muitas conjecturas sobre o cérebro. Porém, escolhemos a citação de TIEPPO (2021, p. 19) para abrir o título sobre o cérebro, pois exprime tudo que pensamos sobre tal viagem.

O cérebro controla todos os aspectos da vida humana. De acordo com pesquisas e estudos recentes, fica cada vez mais evidente que tudo o que vemos, ouvimos, cheiramos, digerimos, falamos, sentimos e pensamos depende da atuação do cérebro. Isso inclui como agimos e nos comportamos, nossas crenças, memórias e desejos, nossa motivação e até nossa própria identidade.

Sabemos de nossas potencialidades, conquistas nas mais diversas áreas do conhecimento. Avançamos em tecnologias, linguagens, pensadores e compiladores artificiais no acúmulo de informações que aceleram as pesquisas, aumentando a velocidade das coisas e diminuindo os prazos das ações (ou realizações), o que pode ser benéfico ou desastroso, de acordo com as intenções.

De acordo com DEHAENE (2024), quando temos a consciência de algo, o pensamento, em sua expressão de pensar, tem uma duração em seu desenvolvimento. Assim como, a grande falácia de Lacan quando diz que o inconsciente é uma linguagem, pois não é estruturado como Linguagem (ou Língua), e sim como um decaimento exponencial.

Para que o pensamento pudesse ser expresso, houve a necessidade de o Homo desenvolver a linguagem, através de gestos, ruídos, sons, gritos, silvos, assobios, imitando a natureza dos animais do qual estava inserido.

Do ponto de vista antropológico, não há um início ou uma forma para definir o início da linguagem, pois são muitas as teorias. Mas hoje sabemos que sua função é universal, dentro de todas as maneiras e modos de expressões. Citação BÜHLER (2011, p. 27): “Tríplice é a função da linguagem humana: enunciar, desencadear e representar”.

Sendo o pensamento interiorizado a partir da consciência expressada em sentimentos, sensações, emoções, percepções, a linguagem é a manifestação que deu forma ao pensamento, portanto, o pensar precede a linguagem. Citação, DEHAENE (2024, p. 163):

Os exames de neuroimagem promoveram uma inovação na pesquisa sobre a consciência. Revelaram como a atividade cerebral acontece à medida que uma informação acessa a consciência e como essa atividade é diferente no processamento inconsciente. A comparação desses dois estados revela aquilo que eu chamo “marca distinta da consciência”: uma marca confiável de que o estímulo foi percebido conscientemente.

Conforme DEHAENE (2024), observou-se que o estímulo invade outras áreas do cérebro como um circuito elétrico, com ativação das áreas parietais e pré-frontais de forma distinta. Enquanto o eletroencefalograma mostra formas de ondas, é interessante notar que após o estímulo, há um tempo de um terço de segundo, um pequeno atraso de tempo em relação ao exterior. Portanto, uma explosão nos circuitos envolvidos e de forma sincronizada ocorre em todo o processo, pois todo o cérebro é envolvido em toda sua dominação sobre as informações.

Com ferramentas apropriadas, o homem vai entrando nos meandros do funcionamento do cérebro. Graças às imagens, vão desnudando os mistérios da consciência. Foi com um pesquisador israelense de nome Kalanit Grill-Spector que mesmo diante de ferramentas deficitárias observou que, Citação DEHAENE (2024, p. 167):

Nos centros visuais mais elevados do córtex, porém, no giro fusiforme e na região occipitotemporal lateral, apareceu uma íntima correlação entre ativação do cérebro e relatos conscientes. Essas regiões estão envolvidas em organizar categorias de imagens de rostos, objetos, palavras e lugares, e em criar uma representação invariante de sua aparência. Parecia que, sempre que a ativação alcançava esse nível, era plausível que a imagem se tornasse consciente.

Observa-se que todos os sentidos estão interligados de forma sincrônica. Assim como os olhos através das imagens, os ouvidos por captação sonora, a pele com seus sensores captores, todos foram desenvolvidos para percepção da exterioridade do ser para sua sobrevivência no meio ambiente. Para isso, foram sendo desenvolvidas sensações e intuições, como meio de captação de movimentos, mesmo que invisíveis aos nossos sentidos, motivo talvez de ter sido aventado um terceiro olho pelos antigos.

Nem todos os cérebros armazenam de forma consciente as mesmas imagens, dependendo do interesse de cada um. Mesmo assim, os registros inconscientes ocorrem, cujos registros são armazenados sem a consciência do sujeito. Citação, DEHAENE (2024, p. 175): “No capítulo “Sondando pensamentos inconscientes”, vimos como, durante a piscadela atencional, palavras não vistas continuam a ativar seus significados”.

Portanto para DEHAENE (2024), durante o aprendizado, o sujeito tem seu tempo para assimilação, pois a cada estímulo, um de cada vez, são captados em seus milésimos de segundos, pois a concentração é uma de cada vez, em seu tempo. Já dizia Descartes em suas observações que atribuía à glândula Pineal e seus movimentos, porém hoje refutadas como mera especulação dedutiva.

Em toda sua evolução, desde os Egípcios, passando pelos Gregos, toda a Idade Medieval e Média, desembocamos na década de 80 com o advento das imagens que possibilitaram enxergar além dos cadáveres como fonte de pesquisas. Citação TIEPPO (2021, p. 45):

Tais imagens foram revolucionárias para a compreensão do funcionamento do cérebro, possibilitando uma visão mais dinâmica do sistema nervoso, com diversos planos e cortes. Inicia-se, assim, o estudo do funcionamento cerebral não só em plano cirúrgico ou em cérebros com lesões e funcionamento anormal, mas do cérebro saudável e em diferentes atividades, como na fala espontânea, na leitura, no pensamento, no raciocínio, ou seja, na utilização das funções executivas.

Consequentemente, as descobertas de medicamentos antidepressivos que complementaram a eficácia dos tratamentos e também na resolução de tratamentos emocionais com reflexos no tratamento de depressões, ansiedades, pânico, fobias, psicoses, esquizofrenias, etc. É importante salientar que a grande explosão foi na década de 90 com interesses nos estudos da neurociência e outras ciências correlatas, tendo o cérebro como centro de comando e executor do corpo humano, com suas circuitarias abrangentes. TIEPPO (2021, p. 47).

Temos que admitir que houve um avanço significativo no processo de aprendizagem. Porém, as escolas estão na esteira de retrocessos político-ideológicos, cujo foco é apenas o poder, em função de complexos de inferioridade calcificados na ignorância do ser, gerando ansiedades passíveis de cura através de uma boa educação de base.

E que, ao contrário das divisões em especializações, a fusão entre a neurociência, biologia, neuropsicologia, anatomia, embriologia, estudos das células, a física e as psicologias, teremos uma junção objetivando os estudos dos cérebros com mais proficiência nos estudos do sistema nervoso e suas implicações em todo organismo vivo. Hoje dividimos o cérebro em lobos constituídos de quatro partes, ou seja, Citação TIEPPO (2021, p. 208):

1 - O lobo occipital, que se localiza na parte de trás da cabeça, responsável pela visão; 2 – O lobo parietal, responsável pela recepção e processamento dos estímulos sensoriais; 3 – O lobo temporal, responsável pela memória, emoção, linguagem; 4 – O lobo frontal, responsável pelo processamento motor e também pelo planejamento, estratégia, controle inibitório, regulação emocional, entre outros.

O cérebro, dentro de sua plasticidade, tem seu funcionamento integrado. Portanto, as localizações são mais amplas do que apenas uma classificação, apesar dos estudos até então executados, o que requer mais aprofundamento nas pesquisas futuras, para derrubada de mitos criados que ainda prevalecem sobre o não conhecimento. Citação CAPRA (1982, p.263):

A plasticidade e flexibilidade interna dos sistemas vivos, cujo funcionamento é controlado mais por relações dinâmicas do que por rígidas estruturas mecânicas, dão origem a numerosas propriedades características que podem ser vistas como aspectos diferentes do mesmo princípio dinâmico – o princípio de auto-organização. Um organismo vivo é um sistema auto-organizador, o que significa que sua ordem em estruturas e função não é imposta pelo meio ambiente, mas estabelecida pelo próprio sistema. Os sistemas auto-organizadores exibem um certo grau de autonomia; por exemplo, eles tendem a estabelecer seu tamanho de acordo com princípios internos da organização, independentemente de influências ambientais. Isso não significa que os sistemas vivos estejam isolados do seu meio ambiente; pelo contrário, interagem continuamente com ele, mas essa interação não determina sua organização. Os dois principais fenômenos dinâmicos da auto-organização são a autorrenovação – a capacidade dos sistemas vivos de renovar e reciclar continuamente seus componentes, sem deixar de manter a integridade de sua estfrutura global – e a autotranscendência – a capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução.

Portanto, sujeitos às mudanças físicas como temperaturas, energias, alterações metabólicas, cujas trocas estabelecem sua sobrevivência no meio ambiente, cuja flutuação é o papel central em sua manutenção, em que o processo da homeostase ocorre com a adaptação ao meio em que vive. CAPRA (1982, p.266).

O que demonstra nossa capacidade adaptativa e evolutiva, à qual estamos sujeitos em função das mudanças a que estamos expostos, assim como nosso cérebro em suas particularidades construtivas. Pois a visão do mecanicismo impôs tal relação, mas não é assim que funciona o todo do qual fazemos parte, o que me faz concordar que a IA não vai superar o homem, pois ele, o homem é o comandante de sua criação. A questão da mente como resolução da interação da construção neural, citação DAMÁSIO (1996, p. 256):

Pode parecer exagero sugerir que a mente depende das interações cérebro-corpo em termos de biologia evolutiva, ontogenia (desenvolvimento individual) e funcionamento atual. Mas o leitor não deve desanimar. O que estou sugerindo é que a mente surge da atividade nos circuitos neurais, sem sombra de dúvida, mas muitos desses circuitos são configurados durante a evolução por requisitos funcionais do organismo. Só poderá haver uma mente normal se esses circuitos contiverem representações básicas do organismo e se continuarem a monitorar os estados do organismo em ação. Em suma, os circuitos neurais representam o organismo continuamente, à medida que é perturbado pelos estímulos do meio ambiente físico e sociocultural, e à medida que atua sobre esse meio. Se o tema básico dessas representações não fosse um organismo ancorado no corpo, é possível que tivéssemos alguma mente, mas duvido de que fosse a mente que agora temos.

Afirma Damásio que, apesar da contribuição do corpo para a mente, não significa que a mente se encontra no corpo, mas que ele contribui para uma mente normal. É importante dizer que temos em nossas memórias representações de experiências adquiridas, assim como herdadas do ponto de vista da filogenética e toda a ontologia registrada. Portanto, a capacidade de associação entre os armazenamentos, fluidez, velocidade e compilação, faz com que a mente atualizada tenha o pensamento (latência) sobre algo, que, assim elaborado pela linguagem (manifesto), se expressa para se comunicar, criar, propor, idealizar algo. Daí a importância de uma gestação programada e bem alimentada, para construção de organismos nutridos e, assim, expressar suas potencialidades no mundo das ideias.

O que dizia Freud sobre o Pensamento e Realidade. É importante se situar dentro da visão de uma ciência que questionou estruturas seculares com sua psicanálise e suas implicações com os sistemas até então. Citação, FREUD (1996, p. 385):

...o objetivo e o fim de todos os processos de pensamento é o estabelecimento de um estado de identidade, a transmissão de uma catexia Qn[sic], emanada do exterior, a um neurônio catexiado a partir do ego. O pensamento cognitivo ou judicativo procura uma identidade com uma catexia corporal, ao passo que o pensamento reprodutivo procura uma identidade com uma catexia psíquica do próprio sujeito (com experiência do próprio sujeito). O pensamento judicativo opera antes do reprodutivo, fornecendo-lhe facilitações já prontas para a migração associativa posterior. Quando, uma vez concluído o ato do pensamento, a indicação da realidade chega à percepção, obtém-se então um juízo de realidade, uma crença, atingindo-se com isso o objetivo de toda essa atividade.

A fala do Juízo é a base do comportamento corporal, portanto, primário como sensações e imagens motoras de si próprios, em que nenhuma experiência sexual produzirá efeitos enquanto o sujeito ignorar a sensação sexual; observa-se que isso ocorre antes da puberdade em seu início. FREUD (1996, p. 385).

Implicando, assim, no processo primário de um ego catexiado de uma influência menor em relação aos atos reprodutivos do pensamento. O que coloca que o pensamento tem como objetivo as sensações corporais, porém, distancia-se da realidade, pois os impulsos regidos pelos neurônios impermeáveis não permitem pensar no instante da descarga, em que se armazena Qn, porém ocorre no repensar, o mesmo que ocorre nos sonhos. Citação, FREUD (1996, p. 603), sobre as condições das percepções de funcionamento dentro do seu sistema:

Por intermédio das qualidades desse sistema, este não desprovido de qualidade. Por intermédio das qualidades desse sistema, a consciência, que fora até então um órgão sensorial apenas para as percepções, tornou-se também um órgão sensorial para parte de nossos processos de pensamento. Assim, existem agora, por assim dizer, duas superfícies sensoriais, uma voltada para a percepção, e a outra, para os processos de pensamento pré-conscientes.

O que se tenta fundamentar são as influências do estado em que o Ego se relaciona com a exterioridade de forma não qualitativa e as implicações do pensamento catexiado no inconsciente, em que nos sonhos se realizam, e os resquícios das lembranças atuam em estados de vigília na busca da completude de esvaziamento, que muitas vezes agem sem o juízo (capacidade de julgamento), em relação aos atos do pensamento. FREUD (1996, p. 603).

Uma abordagem no sentido de pensamentos reprodutivos diante de processos primários do animal humano adormecido, que, através dos impulsos e das consequentes realidades advindas dos desejos e prazeres, cujo juízo não consciente atua nos comportamentos sociais e familiares. Corroborando com o tema, temos as características de uma mente emocional desenvolvida por GOLEMAN (2012, p. 305):

A mente emocional é muito mais rápida do que a racional, agindo irrefletidamente, sem parar para pensar. Essa rapidez exclui a reflexão deliberada, analítica, que caracteriza a mente racional. No curso da evolução humana, essa agilidade, muito provavelmente, teve como objetivo exclusivo à mais básica decisão: ao enfrentar um animal, decidir, em frações de segundos: eu o como ou ele me come? As espécies que não foram capazes de uma reação imediata tiveram pouca probabilidade de deixar uma progênie que passasse adiante seus genes de atuação.

São reações que foram desenvolvidas a partir da sobrevivência dos mais fortes, portanto, são percepções herdadas das sensações advindas de realidades outras do homem. Veja que, diante de uma reação emocional provocada pelo pensamento, logo após o ato, você diz: por que fiz isso? É o princípio de realidade atuando com a razão no questionamento da emoção. Citação, GOLEMAN (2012, p. 305): “A constatação de que é preciso agir tem de ser automática e, de tal forma, que não chegue nunca ao nível da consciência.”

Percebe-se que estamos falando do movimento do pensar emocional, cujos mecanismos estão nas esferas do inconsciente, portanto, muito mais rápido do que o consciente, pois o pensar na sobrevivência são heranças filogenéticas das quais desconhecemos ou apagamos com a socialização da nossa ontologia. Para tanto, a conquista da razão foi se sobrepondo ao meio ambiente, pois se dependêssemos dela, não teríamos sobrevivido como espécie.

Motivo pelo qual, hoje, na socialização, aquele que não controla suas reações emocionais em relação ao racional, implica ser um sujeito descontrolado, destoando da maioria, portanto, um coxo diante de suas realidades. Citação GOLEMAN (2012, p. 308), complementando:

Essa lógica do coração – ou da mente emocional – é muito bem descrita por Freud, quando ele fala do “processo primário” de pensamento. É a lógica religiosa e da poesia, da psicose e da criança, do sonho e do mito (como disse Joseph Campbell, “os sonhos são mitos particulares, os mitos são sonhos públicos”). O processo primário é a chave para a abertura do significado de obras como Ulisses, de James Joyce: no processo primário do pensamento, as livres associações determinam o fluir de uma narrativa, um objeto simboliza outro, um sentimento vem sob a forma de outro sentimento, que toma seu lugar, o todo é representado por suas partes. Tudo é atemporal e não há causa nem efeito. No processo primário, na verdade, não existe o interdito, porque tudo é possível. A psicanálise aplicada é, em parte, a arte de buscar o significado dessas substituições, decifrando e desenredando-as.

O que faz com que a mente emocional nos remeta à criança, em que Freud percebeu que diante de um adulto se esconde a criança que foi. Despertar o adormecido do ser despertará as emoções manifestas de seus conflitos adormecidos, mas que despertam a todo instante, cujas emoções refletem nos relacionamentos com os outros e consigo mesmo.

Sendo a mente racional o despertar sempre atuante do passado que se torna presente, pois a mente é atemporal. É importante dizer: são manifestações de memórias com a capacidade de associação em função das representações simbólicas de atuação, despertando reações das mais diversificadas possíveis e inimaginadas, quando não conscientizadas. Citação, GOLEMAN (2012, p. 309): “Na mecânica da emoção, cada sentimento tem um diferente repertório de pensamentos, de reações e mesmo de memórias. Esse repertório emocional específico se torna mais dominante nos momentos de intensa emoção”.

O que nos leva a concluir a importância da educação de nossas crianças, seja de fato, e as interiorizadas latentes que se manifestam sem juízo. A promoção e o conhecimento das emoções nos exercícios diários dentro do meio familiar e nas escolas como parâmetros de relação com o outro. Um ressignificar do aprendizado para que, como sociedade, possamos sobreviver aos surtos de muitos que, insatisfeitos com a própria vida, despejam no outro as culpas de suas indignações e raivas

5. CONCLUSÃO

O que nos leva a refletir que o breve retorno não está em moradas fora de nós, mas dentro de nossa interioridade, na busca do conhecimento de suas origens como ser: compilados antropológicos, religiosos, como fragmentos deixados. A psicologia comportamental, fundante na sobrevivência social, amplia a curiosidade nas pesquisas, ampliando assim o despertar do Self. Como diria Freud, no mais profundo do arcaico o reconhecimento da alma. Assim, pacificar o ser primário para conter o ser secundário, cheio de emoções das quais não consegue conciliar com a razão, desequilibrando-se da tal inconsciência, não consciente.

Por mais paradoxal que seja, nossa semelhança com os primatas é significativa, assim como a de outros animais, mas nos constituímos uma espécie dominante que se volta contra o próprio humano. Citação, FOLEY (2003, p. 51):

O fato de a mente humana conseguir isso talvez seja mais uma demonstração de até que ponto os humanos desenvolveram um cérebro sutil e poderoso. Esse cérebro é um dos símbolos da diferença existente entre os humanos e o restante do reino animal. Ele é várias vezes maior do que deveria ser, e é óbvio que é essencial à sobrevivência e ao sucesso evolutivo dos humanos. O cérebro humano moderno pesa aproximadamente 1400 gramas. De modo geral, o peso do cérebro está estreitamente relacionado ao peso corporal total de um animal, e se os humanos tivessem um cérebro do tamanho esperado para um animal de nosso porte, esse cérebro pesaria cerca de quinhentos gramas.

A importância do pensamento consiste na formulação da consciência para o despertar da evolução, mas o que vemos atualmente é a involução de processos retrógrados voltados à paixão por algo obscuro que contradiz as conquistas humanas em suas tecnologias, ferramentas desenvolvidas para auxiliar a mente humana. Porém, a ignorância e os mantras de insatisfações permeiam um estado de negação profundo nos conflitos daqueles que desconhecem como chegamos até aqui.

A destituição da concepção temporal, em que a emoção atemporal se confunde com o racional, na busca de reparações históricas na visão particular de vítimas ou algozes, gera uma cadeia de lutas infundadas com resquícios de vinganças que nos levam ao niilismo da vida, pois prisioneiros de um tempo de memórias atuando como realidade, são as causas das mazelas que alimentam as guerras intermináveis.

A pergunta é: Quando nos tornaremos humanos ou verdadeiros humanos de fato?

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1 Psicanalista Freudiano – Psicanálise Dinâmica – Academia de Psicanálise e Ciência Humana - São Paulo – Graduado em Filosofia (licenciatura Plena) pelo Centro Universitário Claretiano (CEUCLAR). Pós-Graduação em “Psicologia Clínica: Psicanálise”, pela Universidade de Araraquara (UNIARA). Pós-Graduação em “Antropologia e Neuropsicanálise”, pela Faculdade Unyleya de Brasília. Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Psicanálise e Pós-Doutorado em Psicanálise da Educação na Brunner World University. Pesquisador Literário, Escritor e Participações com Artigos Científicos em Livros. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Tecnólogo em Análise de Sistemas (Unilins – Universidade de Lins), Filosofia (CEUCLAR – Centro Universitário Claretiano), Teologia (Faculdade Dehoniana - Taubaté). Pós-graduação em Filosofia Clínica (INSTITUTO PACKTER), Pós-graduação em Psicologia e Sexualidade (UNIARA) e Pós-graduação em Psicologia Clínica - Psicanálise (UNIARA). Doutorado e Pós-doutorado em Psicanálise na Emil Brunner World University, Escritor e Palestrante. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.