REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793150700
RESUMO
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica caracterizada por desatenção, impulsividade e hiperatividade. Contudo, a busca por elevado desempenho acadêmico em rotinas universitárias exaustivas tem impulsionado o "doping acadêmico" por meio do consumo não prescrito de psicoestimulantes como o metilfenidato e a lisdexanfetamina. O presente estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática, o uso irracional desses fármacos por estudantes universitários, identificando o perfil epidemiológico, as motivações, as formas de obtenção e os impactos clínicos decorrentes dessa prática. A pesquisa foi conduzida segundo as diretrizes do protocolo PRISMA e da estratégia PICO, com buscas nas bases de dados PubMed, SciELO e Google Acadêmico no recorte temporal de 2016 a 2026, resultando na seleção final de 39 estudos observacionais e transversais. Os resultados apontaram que o metilfenidato esteve presente em 100% dos trabalhos analisados e a lisdexanfetamina em 35%, com prevalências de uso indevido variando de 4,3% a 89,6%, concentrando-se predominantemente na área da Saúde, com destaque para a Medicina (69,2% dos estudos). A obtenção ocorre precipuamente por redes informais de compartilhamento, aquisição comercial sem retenção de receita e consultas de complacência. As principais motivações relatas foram a busca por foco e concentração (95%), a melhoria do desempenho em avaliações (92,5%) e o combate ao cansaço/privação do sono (80%). A discussão evidencia a farmacologização do rendimento acadêmico. Fisiologicamente, a sobrecarga simpática induz taquicardia, elevação da pressão arterial e perda de apetite. Do ponto de vista psíquico, o consumo acarreta insônia crônica derivada da farmacocinética e longa meia-vida dos fármacos, exacerbação da ansiedade, "efeito rebote" com prostração e episódios depressivos, além do "paradoxo cognitivo" por dessensibilização dopaminérgica (down-regulation). Constatou-se ainda o estabelecimento de cascatas farmacológicas através da associação com depressores do sistema nervoso central (álcool, benzodiazepínicos e zolpidem), o que eleva os riscos de depressão respiratória, mascaramento de intoxicações e dependência cruzada. Conclui-se que o uso indiscriminado de psicoestimulantes impõe graves riscos à integridade física e mental dos estudantes, reforçando a urgência de suportes psicopedagógicos nas instituições de ensino e o fortalecimento da atuação do farmacêutico na fiscalização e promoção do uso racional de medicamentos.
Palavras-chave: TDAH; Uso irracional de medicamentos; Metilfenidato; Lisdexanfetamina; Estudantes universitários.
ABSTRACT
Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (ADHD) is a neurobiological condition characterized by inattention, impulsivity, and hyperactivity. However, the pursuit of high academic performance amidst exhausting university routines has driven "academic doping" through the unprescribed consumption of psychostimulants such as methylphenidate and lisdexamfetamine. This study aimed to analyze, through a systematic review, the irrational use of these drugs among university students, identifying the epidemiological profile, motivations, procurement methods, and clinical health impacts resulting from this practice. The research was conducted in accordance with the PRISMA protocol guidelines and the PICO strategy, utilizing searches in the PubMed, SciELO, and Google Scholar databases for the 2016–2026 period, resulting in a final selection of 39 observational and cross-sectional studies. Results revealed that methylphenidate was evaluated in 100% of the selected studies and lisdexamfetamine in 35%, with misuse prevalence ranging from 4.3% to 89.6%, predominantly concentrated in Health Sciences, with a strong focus on Medicine (69.2% of the studies). Procurement occurs mainly through informal peer networks, commercial purchases without prescription retention, and complacent medical consultations. The primary reported motivations were enhancing focus and concentration (95%), improving exam performance (92.5%), and combating fatigue or sleep deprivation (80%). The discussion highlights the medicalization of academic performance. Fisiologically, sympathetic overload causes tachycardia, elevated blood pressure, and loss of appetite. Psychologically, consumption leads to chronic insomnia stemming from the pharmacokinetics and long elimination half-life of the drugs, heightened anxiety, a "rebound effect" marked by exhaustion and depressive symptoms, and the "cognitive paradox" caused by dopamine receptor desensitization (down-regulation). Furthermore, the formation of prescribing cascades was identified through the combined use of central nervous system depressants (alcohol, benzodiazepines, and zolpidem), increasing the risk of respiratory depression, masked intoxication, and cross-dependence. In conclusion, the indiscriminate use of psychostimulants poses severe risks to students' physical and mental health, underscoring the urgent need for psychopedagogical support in academic institutions and reinforcing the role of pharmacists in regulation and promoting the rational use of medicines.
Keywords: ADHD; Irrational drug use; Methylphenidate; Lisdexamfetamine; University students.
1. INTRODUÇÃO
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica caracterizada pela desatenção, impulsividade e hiperatividade, estima-se que a prevalência no Brasil seja de 5% a 8% da população em diferentes regiões (Brasil, 2022; Zheng et al., 2023).
O diagnostico do TDAH é predominantemente clínico e multidisciplinar, não existindo exames laboratoriais e nem de imagem específicos para a sua confrimação (Desidério & Miyazaki, 2007; Mattos, 2001). A avaliação clínica para o diagnóstico do TDAH se baseia estritamente nos parametros do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), em sua quinta edição revisada, dividida em dezoitos critérios sintomáticos, os quais são organizados em dois domínios comportamentais (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007). O domínio da desatenção abrage a falta de foco em detalhes,a dificuldade de manter a atenção e escutar, o não cumprimento de tarefas e instruções, a evitação do esforço mental, a desorganização, a distração fácil, a perda de objetos e o esquecimento de rotinas (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007; Soares et al., 2024). Por sua vez, o domínio da hiperatividade e impulsividade caracteriza-se pela agitação motora, dificuldade em permanecer parado e sentado, incapacidade de relizar atividades calmas, fala excessiva, repostas precipitadas, sensação de estar com o “motor ligado”, impaciencia na espera de turnos e interrupção constante de terceiros (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007; Soares et al., 2024).
Além da presença dos sintomas, o DSM-5-TR estabelece outros quatro critérios clínicos adcionais e obrigatórios (APA, 2022; Mattos, 2001). Primeiramente, os sintomas devem ter surgido antes dos 12 anos de idade, confirmando o caráter precoce do transtorno (APA, 2022; Soares et al., 2024). Em segundo lugar, precisam-se manifestar em pelo menos dois ambientes distintos, como casa, escola ou trabalho (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007). Além disso, deve haver prejuízo claro e significativo no funcionamento social, acadêmico ou profissional (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007). Por fim, exige-se descartar outros transtornos mentais, como ansiedade ou depressão, que possam explicar melhor o caso (APA, 2022; Desidério & Miyazaki, 2007).
De acordo com Zheng et al., (2023), entre os anos de 2015 e 2019, o consumo de medicamentos indicados para o tratamento do TDAH apresentou crescimento médio anual de 9,7% no cenário global, enquanto no Brasil esse aumento foi ainda mais expressivo, atingindo 15,9% ao ano. Soares et al., (2024) evidenciou o uso não terapêutico de psicoestimulantes, especialmente do metilfenidato, entre estudantes universitários, sendo estimado que cerca de 5,8% já utilizaram o medicamento para fins de melhora cognitiva ou desempenho acadêmico.
O tratamento do transtorno pode ocorrer de diversas maneiras de acordo com a necessidade dos pacientes, sendo a via medicamentosa a mais utilizada, como, por exemplo, o metilfenidato (Ritalina), (2-fenil-2-(piperidin-2-il)acetato de metila), que atua no sistema nervoso por meio do bloqueio da recaptação da dopamina e a norepinefrina elevando a concentração desses neurotransmissores nos canais sinápticos, favorecendo o aumento da concentração e desempenho (Psychopharmacology institute, 2022; Andrade et al., 2018; Pedroza, 2021).
O fármaco lisdexanfetamina (Venvanse)®, (2S)-2,6-diamino-N-[(2S)-1-fenilpropan-2-il]hexanamida), também é utilizado para o tratamento do transtorno, sendo um pró-fármaco, trata-se de uma molécula formada por d-anfetamina (1-fenilpropan-2-amina) e l-lisina (Ácido (2S)-2,6-diamino-hexanoico) que após ingerido é quebrado no organismo, liberando d- anfetamina ativa, deste modo faz com que aumente o efeito terapêutico prolongado diminuindo o potencial de abuso (Faraone, 2008).
A estabilidade das funções executivas e do alerta depende do equilíbrio constante entre as vias catecolaminérgicas excitatórias e o sistema inibitório central gerido pelo ácido gama-aminobutírico (GABA), que atua como um “freio” neurológico ao hiperpolarizar os neurônios corticais (Rodrigues et al., 2021). Em individuos sem o transtorno, o consumo inevido dos estimulantes gera uma superativação dopaminérgica e noradrenérgica que supera a capacidade reguladora do sistema GABAérgico (Rodrigues et al., 2021). Essa quebra do mecanismo inibitório resulta na hiperestimulação do sistema nervoso central, culminando em complicações como exaustão, ansiedade e insonia grave (Rodrigues et al., 2021).
Apesar da eficácia clínica comprovada, observa-se o uso não médico dessas substâncias entre universitários, fenômeno referido como ‘doping acadêmico’, motivados pela alta exigência acadêmica, privações de sono e competitividade, muitos estudantes buscam pela automedicação visando a potencialização das capacidades cognitivas e a ampliação de conteúdo absorvido (Soares et al., 2024). O uso é recomendado com acompanhamento de um profissional após o diagnóstico (Soares et al., 2024). O uso irracional e sem necessidade pode causar dependência química e diferentes efeitos colaterais, como, cefaleia, insônia severa e quadros de ansiedade (Brasil, 2022; Lima netto et al., 2024).
Tendo em vista esse cenário, o objetivo deste trabalho é analisar o uso irracional de medicamentos para TDAH em universitário, avaliando os fármacos metilfenidato e lisdexanfetamina, abordando seu consumo não prescrito e os impactos farmacológicos e clínicos do uso indiscriminado.
2. OBJETIVOS
2.1. Objetivo Geral
Analisar por meio de uma revisão sistemática o uso irracional de metilfenidato e lisdexfetamina para o tratamento de TDAH, avaliando-se as motivações para o uso indiscriminado pelos universitários, os efeitos adversos e os impactos para a saúde.
2.2. Objetivos Específicos
Descrever as características farmacológicas e as indicações clínicas do metilfenidato e da lisdexanfetamina no manejo do TDAH;
Identificar na literatura os principais fatores que levam ao uso irracional desses medicamentos, com foco no cenário acadêmico e na prática da automedicação;
Analisar as consequências clínicas e os riscos de dependência associados ao uso indiscriminado desses psicoestimulantes.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
3.1. Delineamento do Estudo
O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática da literatura, elaborada de acordo com as diretrizes do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). O estudo buscou reunir e avaliar criticamente as evidências científicas disponíveis sobre o uso não prescrito e indiscriminado de estimulantes por acadêmicos. As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed, SciELO por serem amplamente reconhecidas e utilizadas em pesquisas científicas na área da saúde. Adicionalmente, utilizou-se o Google Acadêmico como fonte complementar com intuito de ampliar a sensibilidade do rastreamento, capturar publicações regionais e mitigar o viés de publicação (Gusenbauer & Haddaway, 2020; Haddaway et al., 2015). Apesar do Google Acadêmico apresentar menor rigor de indexação do que bases como o PubMed, a inclusão desses achados foi respaldada por uma triagem criteriosa de elegibilidade, garantindo o alinhamento metodológico e a qualidade científica das evidências selecionadas.
Figura 1. Fluxograma demonstrativo dos criterios de seleção e quantidades de artigos.
3.2. Formulação da Pergunta Norteadora
Para a delimitação do escopo e definição da garantia do rigor metodológico na revisão sistemática foi utilizado o modelo de PICO (Population, Intervention/Exposure, Comparison, Outcome). O modelo foi adaptado para estudos observacionais de exposição, onde demonstrou-se de maneira ideal para organizar e estruturar os critérios de elegibilidade desse estudo. O primeiro elemento acrômico é População (P), onde refere-se aos, estudantes de ensino superior (universitários) que são o publico alvo. A Intervenção/ Exposição (I/E) onde refere-se ao uso irracional, automedicação e ao uso indiscriminado dos medicamentos para o tratamento do transtorno, como o metilfenidato e a lisdexanfetamina. O componente de Comparação (C) não foi utilizado visto que o objetivo não é comparar e sim compreender o comportamento para o consumo. Por fim, Desfecho/ Outcome (O) concentrou-se nas motivações acadêmicas para o consumo, a prevalência do uso em ambientes universitários e nos potenciais efeitos colaterais a saúde dos estudantes. A partir desses quatro pilares foi formulada a pergunta norteadora do estudo: “Quais são as principais motivações e os impactos à saúde decorrentes do uso irracional de medicamentos para TDAH entre estudantes universitários?".
3.3. Estratégias de Busca
A estratégia de busca foi elaborada com o objetivo de identificar o maior número possível de estudos relevantes sobre o uso irracional de medicamentos no tratamento do TDAH no ambiente universitário. Para isso, foram utilizados descritores em português e inglês combinados por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, a fim de ampliar e refinar os resultados obtidos. Os descritores empregados serão: TDAH” (ADHD), “uso irracional de medicamentos” (Irrational drug use), “metilfenidato” (Methylphenidate), “lisdexanfetamina” (Lisdexamfetamine) e “estudantes universitários” (university students). Foram incluídos artigos publicados entre 2016 e 2026, disponíveis nos idiomas português, inglês e espanhol, por representarem o período e as línguas com maior relevância científica sobre o tema.
3.4. Critérios de Inclusão
Artigos originais que abordem o uso não médico, recreativo ou para fins de aprimoramento cognitivo (farmacológico) dos fármacos metilfenidato e lisdexanfetamina;
Estudos que foquem na população universitária;
Publicações entre 2016 e 2026 em português, inglês ou espanhol.
3.5. Critérios de Exclusão
Trabalhos duplicados entre as bases;
Estudos que não abordaram diretamente do tema;
Resumos, editoriais, revisões não sistemáticas e cartas ao editor.
3.6. Processo de Seleção dos Estudos
A seleção dos artigos utilizados foi realizada em duas etapas. Na primeira fase, foi realizada a leitura dos títulos e dos resumos da busca inicial para exclusão de artigos duplicados e artigos que não atendam os critérios de inclusão estabelecidos. Na segunda fase, os artigos pré-selecionados foram submetidos a uma leitura minuciosa para a confirmação de elegibilidade final. O processo de triagem das referências foi realizado de forma independente por um único pesquisador em virtude das delimitações operacionais e temporais do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), sendo os casos duvidosos avaliados conjuntamente com a professora orientadora. Para o mapeamento completo, desde a busca inicial até a inclusão final dos artigos, utilizou-se o fluxograma recomendado pelo modelo PRISMA.
3.7. Extração e Análise de Dados
Após a triagem dos artigos, os dados foram organizados detalhadamente em uma planilha operacional. Essa etapa beneficiou com informações essenciais, como: autor, ano de publicação, objetivos, metodologia aplicada, resultados e conclusões. Adicionalmente, foram sintetizadas as propriedades farmacológicas e farmacocinéticas dos psicoestimulantes investigados, com enfâse no Metilfenidato e Lisdexanfetamina, abrangendo o mecanismo de ação, a via de adiminstração, o perfil de biotransformação e a meia-vida de eliminação. A análise foi conduzida de forma qualitativa e crítica, buscando identificar padrões, lacunas e fatores associados ao uso irracional dos fármacos, especialmente metilfenidato e lisdexanfetamina. Por fim, os resultados foram discutidos à luz da literatura científica atual, destacando a importância do papel do farmacêutico na promoção do uso racional de medicamentos, na segurança terapêutica dos pacientes com TDAH e riscos decorrentes ao uso indiscriminado dessas substâncias.
3.8. Aspectos Técnicos
Por se tratar de uma pesquisa baseada exclusivamente em dados secundários, de domínio público, sem envolvimento direto com seres humanos, o presente estudo dispensou a submissão e a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). Mantendo o compromisso com a integridade cientifica, garantindo a correta citação e referenciamento das obras e dos autores, em conformidade com as normas vigentes.
4. RESULTADOS
4.1. Sintese dos Resultados Extraidos (N=39)
A busca sistemática pelas bases de dados selecionadas permitiu a identificação, tiragem e inclusão final de 39 estudos primários que atenderam rigorosamente os critérios de elegibilidade estabelecidos. Para garantir uma análise compreensiva da literatura, os dados extraídos desses artigos foram sintetizados Tabela 1, organizados por autores, ano, país, tamanho amostral, psicoestimulantes investigados, prevalência do uso não médico, motivações relatadas e efeitos adversos.
Tabela 1. Síntese dos resultados extraídos
Autor / Ano | País | Amostra (n) | Fármacos | Prevalência | Principais Motivações | Efeitos Adversos Relatados |
Korn et al. (2019) | Israel | 1.280 estudantes | Metilfenidato / Outros | 17,4% | Rendimento e vigília | Perda de apetite, exaustão |
Santos et al. (2022) | Brasil | 136 estudantes | Metilfenidato | 7,35% | Foco e permanência acordado | Inquietação (22%), arritmia (18,3%) |
Affonso et al. (2016) | Brasil | 400 estudantes | Metilfenidato / Outros | 6,00% | Foco e privação de sono | Boca seca (16%), insônia, cefaleia |
Campos et al. (2020) | Brasil | 142 estudantes | Metilfenidato | 61,30% | Foco e notas em provas | Insônia, cefaleia, taquicardia |
Silva et al. (2018) | Brasil | 205 estudantes | Metilfenidato | 15,6% | Foco e dupla jornada | Tremores, ansiedade, taquicardia |
Nasário & Matos (2022) | Brasil | 243 estudantes | Metilfenidato | 17,3% | Foco e desempenho | Taquicardia, irritabilidade |
Cacozzi et al. (2026) | Brasil | 375 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina | 33,0% | Foco e exames longos | Insônia, cefaleia, efeito rebote |
Moreira et al. (2022) | Brasil | 190 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 33,20% | Foco e rotina extenuante | Insônia, ansiedade, tremores |
Gonzaga et al. (2025) | Brasil | 55 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina | 56,40% | Foco e pressão acadêmica | Insônia, ansiedade, cefaleia |
Souza et al. (2025) | Brasil | 301 estudantes | Metilfenidato / Outros | 29,50% | Foco e vigília | Insônia, ansiedade, taquicardia |
Roedel et al. (2017) | Brasil | 190 estudantes | Metilfenidato | 5,80% | Foco e desempenho | Exaustão física pós-efeito |
Silva et al. (2022) | Brasil | 314 estudantes | Metilfenidato | 15,30% | Pílula milagrosa / estresse | Insônia, ansiedade, sudorese |
Carmignan et al. (2025) | Brasil | 133 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 15,8% | Foco e pressão acadêmica | Insônia, ansiedade, taquicardia |
Rocha et al. (2020) | Brasil | 532 estudantes | Metilfenidato | 28,90% | Foco e notas | Ansiedade, cefaleia, tremores |
Rodrigues et al. (2021) | Brasil | 696 estudantes | Metilfenidato | 4,30% | Foco e sobrecarga | Insônia, ansiedade, alucinações |
Bilitardo et al. (2017) | Brasil | 154 estudantes | Metilfenidato / Outros | 13,30% | Foco | Insônia, alteração de pressão |
Souza et al. (2024) | Brasil | 408 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina | 8,40% | Foco e rendimento | Ansiedade, tremores |
Sorgi et al. (2022) | Brasil | 211 estudantes | Metilfenidato | 42,20% | Foco e vigília | Ansiedade, cefaleia, taquicardia |
Cândido et al. (2020) | Brasil | 378 estudantes | Metilfenidato | 8,20% | Neuroaprimoramento | Taquicardia |
Conceição et al. (2019) | Brasil | 40 estudantes | Metilfenidato | 12,50% | Foco e exames | Insônia, ansiedade, irritabilidade |
Meiners et al. (2022) | Brasil | 349 estudantes | Metilfenidato / Outros | 14,50% | Foco e vigília | Ansiedade, taquicardia, rebote |
Megiani et al. (2023) | Brasil | 304 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 33,90% | Foco e maratonas | Insônia, ansiedade, cefaleia |
Oliveira et al. (2024)a | Brasil | 299 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 29,40% | Foco e cobranças | Insônia, ansiedade, humor deprimido |
Maisonnette & Mansano (2020) | Brasil | 365 estudantes | Metilfenidato | 28,70% | Foco e vigília | Ansiedade, cefaleia, cansaço |
Melo & Souza (2020) | Brasil | 318 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina | 8,20% | Foco em exames | Ansiedade, perda de apetite |
Oliveira et al. (2024)b | Brasil | 131 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 14,50% | Foco no internato | Flutuações de humor |
Pires et al. (2018) | Brasil | 118 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 52,90% | Foco e vigília | Reações adversas gerais |
Carli et al. (2026) | Brasil | 221 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina | 37,70% | Rendimento acadêmico | Insônia, ansiedade, dissociação |
Wille & Salvi (2018) | Brasil | 315 estudantes | Metilfenidato | 28,90% | Desvio em época de prova | Insônia, ansiedade, cefaleia |
Alberto et al. (2017) | Brasil | 150 estudantes | Metilfenidato | 18,00% | Foco e desempenho | Insônia, cefaleia, taquicardia |
Silva & Caldeira (2020) | Brasil | 280 estudantes | Metilfenidato / Outros | 18,60% | Foco e estresse | Cefaleia, náuseas, depressão |
Minniti et al. (2021) | Brasil | 417 estudantes | Metilfenidato | 42,00% | Foco e rendimento | Alteração de humor, elevação da PA |
Franco Netto et al. (2018) | Paraguai | 100 estudantes | Metilfenidato | 45,00% | Foco e vigília | Taquicardia, tremores, fadiga pós |
Tozzi et al. (2020) | Brasil | 200 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 74,50% | Foco na Odontologia | Insônia, cefaleia, taquicardia |
Sant’Ana et al. (2026) | Brasil | 279 estudantes | Metilfenidato / Lisdexanfetamina / Outros | 89,60% | Foco e vigília | Insônia, ansiedade, exaustão |
Hajduk et al. (2024) | Alemanha | 1.010 estudantes | Metilfenidato / Outros | 12,40% | Foco e rendimento | Cefaleia, exaustão física |
Gürü (2025) | Turquia | 135 estudantes | Metilfenidato | 14,80% | Foco e desempenho | Ansiedade, sintomas depressivos |
Ponnet et al. (2021) | Belgica | 661 estudantes | Metilfenidato / Outros | 15,90% | Foco e rendimento | Ansiedade, sintomas depressivos |
Caron et al. (2024) | França | 4.431 estudantes | Metilfenidato / Outros | 9,5% | Automedicação / Foco | Ansiedade, déficits executivos |
4.2. Caracterização de Estudos Incluídos
A aplicação dos critérios de elegibilidade resultou na inclusão 39 estudos primários na análise final publicados entre 2016 a 2026. Quanto a distribuição geográfica, houve um predomínio de pesquisas cientificas na região brasileira (n= 33), acompanhadas por pesquisas feitas em Israel (n=1), Paraguai (n=1), Alemanha (n=1), Turquia (n=1), Bélgica (n=1) e França (n=1).
A totalidade de trabalhos selecionados adotaram um delineamento observacional, quantitativo e transversal, utilizando questionários autorrespondidos de forma presencial e online. As amostras apresentaram uma grande variação numérica de participantes, variando de 40 discentes (Conceição et al., 2019), até grandes amostras com 4.431 estudantes universitários na França (Caron et al., 2024), ultrapassando a marca de 15.000 voluntários.
Em relação a população, observou-se uma marcada concentração em estudantes de Ciências da saúde, ouve uma predominância de estudos no curso de Medicina presentes em 69,2% (n=27), dos quais 41% (n=16) falaram exclusivamente dessa categoria. Os demais cursos da Saúde com representação expressiva foram Farmácia 28,2% (n=11), Enfermagem 25,6% (n=10), Odontologia 12,8% (n=5), Biomedicina 10,3% (n=4). A área do Direito esteve presente em 12,8% (n=5) dos trabalhos, enquanto a Psicologia esteve presente em 7,7% (n=3) dos estudos analisados. Por fim, 28,2% (n=11) dos estudos apresentaram caráter multidisciplinar abrangente, englobando graduandos de diversas áreas das Ciências Humanas, Exatas e Biológicas.
4.3. Prevalência e Padrões de Consumo
O uso indevido dos psicoestimulantes apresentou uma grande variação entre os trabalhos analisados, organizando- se em três faixas:
Prevalência Baixa a Moderada (4,3% a 15,9%): Observada em cursos de psicologia (Roedel et al., 2017 [5,8%]) e em pesquisas internacionais (Hajduk et al., 2024 [12,4%]; Gürü, 2025 [14,8%]; Ponnet et al., 2021 [15,9%]).
Prevalência Alta (16% a 50%): Predominante nos estudantes de Medicina e Direito (Rocha et al., 2020 [28,9%]; Megiani et al., 2023 [33,9%]; Sorgi et al., 2022 [42,2%]; Franco Netto et al., 2018 [45,0%]).
Prevalência Extrema (>50%): Associada a estudos que englobam substancias de acesso livre ou cenários de intenso estresse acadêmico (Campos et al., 2020 [61,3%]; Tozzi et al., 2020 [74,5%]; Sant’Ana et al., 2026 [89,6%]).
4.4. Perfil Farmacológico, Vias de Obtenção e Consumo
Em relação as substancias, o Cloridrato de metilfenidato esteve presente em 100% dos estudos sendo o fármaco mais consumido. O fármaco Dimesilato de Lisdexanfetamina ocupou o segundo lugar (n=14; 35%) mostrando uma tendência de crescimento nos artigos publicados entre 2022 a 2026.
Além dos fármacos de prescrição medica de controle especial, os estudos mostraram consumo de outras substancias para a otimização cognitiva e controle da fadiga, como, outros medicamentos que necessitam de prescrição (atomoxetina), produtos de venda aberta (cafeína em capsulas, energéticos a base de taurina, pó de guaraná e capsulas termogênicas) e substancias de ilícitas e de abuso (Bilitardo et al., 2017; Carmignan et al., 2025; Hajduk et al., 2024; Megiani et al., 2023; Meiners et al., 2022; Melo & Souza, 2020; Moreira et al., 2022; Oliveira et al., 2024b; Sant’Ana et al., 2026; Silva & Caldeira, 2020; Tozzi et al., 2020).
Quanto a forma de obtenção por universitários que declararam fazer uso sem prescrição foi por compartilhamento por redes informais (amigos, colegas e familiares). Alguns universitários citaram também a compra em farmácias sem a devida retenção da receita médica amarela (A3), a compra por via unidades online sem autorização e obtenção de prescrições através de consultas de complacência (Affonso et al., 2016; Cacozzi et al., 2026; Carli et al., 2026; Korn et al., 2019; Megiani et al., 2023; Meiners et al., 2022; Rodrigues et al., 2021; Santos et al., 2022; Silva & Caldeira, 2020; Oliveira et al., 2024a; Tozzi et al., 2020; Wille & Salvi, 2018).
5. DISCUSSÃO
A análise integrada da literatura selecionada responde de forma fundamentada ao problema de investigação deste estudo, demonstrando que o uso irracional de medicamentos para o TDAH no meio acadêmico é motivado pela busca do aprimoramento cognitivo, como a ampliação da concentração, gestão da sobrecarga de tarefas e extensão das horas de estudo. Em oposição a essa busca por maior rendimento, a literatura revela um quadro clínico preocupante, marcado por distúrbios graves do sono, quadros de ansiedade, complicações cardiovasculares e exaustão física provocada pelo desiquilíbrio no sistema nervoso central.
5.1. A Motivações para o Consumo: “A Medicalização do Desemprenho” e a Busca Pelo Neuroaprimoramento
Os dados levantados baseados nos 39 artigos mostram que o consumo de metilfenidato e lisdexanfetamina é a busca por otimização das funções cognitivas, diante de uma rotina acadêmica identificada como exaustiva e com sobrecarga. A necessidade de elevar o foco e a concentração nos estudos foram relatas em 95% dos artigos, a melhoria do desempenho acadêmico em avaliações esteve presente em 92,5% dos estudos analisados.
Tal conceito que reflete os conceitos sociológicos de farmacologização do rendimento e de medicalização da sociedade (Carli et al., 2026). O organismo humano possui uma incapacidade de sustentar uma alta carga horaria de concentração em longas jornadas de estudo, os medicamentos de tarja preta são utilizados pelos alunos como um recurso indispensável para os estudos, sendo considerada a “pílula da inteligência” ou “doping acadêmico” (Carli et al., 2026).
Segundo Ponnet et al., 2021, o uso de estimulantes para a otimização cognitiva pelos universitários é diferente de condutas de abuso impulsivo e recreativo de drogas. Refere-se a uma prática deliberada, planejada e pragmática, na qual os alunos calculam o custo-benefício, aceitando os riscos à saúde em busca de notas mais altas, aprovação em exames ou cumprimento de prazos.
A redução voluntaria de sono para atender as horas acordados (presente em 80% dos estudos) se tornou outro fator primordial para o uso das substancias. Com o objetivo de compensar o tempo insuficiente durante o dia os estudantes recorrem ao uso dos medicamentos para prolongar o período de estudo e afastar o cansaço fisiológico. Com essa pratica, gera um ciclo vicioso de privação do sono, causando desregulação emocional e da memória.
5.2. A Automedicação e a Interface com Sintomas de TDAH Não Diagnosticado
Nos estudos de Caron et al., 2024 e Gürü 2025, evidenciaram que uma parte significativa do consumo “não medico” ou “irracional”, configura-se em uma tentativa de automedicação para sintomas de TDAH que apareceram na infância e passaram despercebidos.
Segundo os estudos, uma parcela dos estudantes universitários já apresentavam dificuldades de atenção, mas nunca tiveram um diagnóstico ou um acompanhamento psiquiátrico formal, depararam-se com a faculdade onde suas estratégias compensatórias se tornam escassos diante da grande demanda acadêmica e complexidade das matérias. Ao terem contato com o estimulante através de amigos ou colegas, esses alunos percebem um grande alivio nos seus déficits de atenção e começam a fazer o uso de forma autônoma e intencional (Rodrigues et al., 2021; Meiners et al.,2022).
Essa realidade expõe falhas tanto na assistência das universidades quanto no sistema único de saúde na assistência à saúde mental, mostrando grandes falhas de triagem, acolhimento e diagnostico para jovens adultos com transtornos de neurodesenvolvimento. Em contrapartida, ressalta o risco da automedicação, uma vez que não tem acompanhamento médico e ajuste correto de doses expõe o estudante a complicações psiquiátricas.
5.3. Vulnerabilidade Seletiva: A Hegemonia do Uso dos Cursos de Medicina e Saúde
A análise minuciosa dos 39 estudos selecionados mostrou que o consumo não medico se predomina em cursos marcados por uma rotina com uma alta carga horaria e de grande exigência performática. Nos estudos, 67,5% focaram em estudantes de medicina chegando em uma prevalência de 89,6% (Sant’Ana et al., 2026), em odontologia 74,5% (Tozzi et al., 2020). Enquanto nos cursos das áreas humanas e sociais, como a psicologia, registraram taxas de uso de 5,8% e 8,2%.
Essa maior vulnerabilidade dos acadêmicos da área da saúde é motivada pela vasta extensão de conteúdos programáticos, que exigem um grande armazenamento de informações teóricas e práticas em pouco tempo (Carli et al., 2026; Megiani et al., 2023). Ademais, na entrada para a clínica e o internato nos anos finais exigem plantões cansativos e grandes privações de sono, tornando-se em uma rotina assistencial (Oliveira et al., 2024b; Sant’Ana et al., 2026). A forte concorrência para a residência medica, atua como um catalisador para o “doping cognitivo”, tornando o clima de grande ansiedade e pressão onde o uso das substancias se torna normal (Carli et al., 2026; Minniti et al., 2021; Souza et al., 2024).
Embora, os estudantes de Farmácia e medicina tenham um maior conhecimento teórico aprofundado da farmacologia e da farmacodinâmica, conhecendo os mecanismos de ação e os riscos de toxicidade, o saber não se torna um elemento protetivo (Conceição et al., 2019; Santos et al., 2022). Pelo contrário, saber induz a uma ilusão de controle das reações, favorecendo o uso irracional desses medicamentos (Megiani et al., 2023; Silva & Caldeira, 2020).
5.4. Impactos Físicos e Cardiovasculares: O Custo da Hiperativação Simpática
A ampliação de dopamina e noradrenalina ocorre de forma distinta nas duas substâncias, o fármaco metilfenidato impede a receptação da Dopamina (DAT) e Noradrenalina (NET) fazendo com que assim tenha mais dopamina e noradrenalina na fenda sináptica, enquanto a Lisdexanfetamina induz uma liberação ativa e continua desses neurotransmissores. O consumo dessas substancias por pacientes neurotipicos que fazem o uso sem prescrição provoca uma estimulação excessiva de receptores adrenérgicos no sistema nervoso central, causando efeitos colaterais recorrentes que afetam órgãos e tecidos.
No sistema cardiovascular, a sobrecarga simpatomimética ocorre de maneira aguda, com taquicardia e palpitações documentadas em 57,5% dos estudos analisados. Esses quadros costumam vir acompanhados da elevação da pressão arterial, além de arritmias (Santos et al., 2022). Em jovens com problemas cardíacos ocultos, ou que combinam as substâncias com agentes sinérgicos, como a cafeína e energéticos, essa hiperestimulação pode causar risco de eventos cardiovasculares.
O uso sem supervisão desencadeia repercussões metabólicas e gastrointestinais. Cerca de 50% da literatura analisada, aponta perda de apetite como um sintoma prevalente, associada a náuseas, dores abdominais e boca seca. O uso continuo do fármaco sem supervisão nutricional leva a perda de peso e déficits nutricionais, que comprometem a disposição física e disposição para a rotina acadêmica de estudos.
5.5. Impactos Psíquicos, Emocionais e Paradoxo Cognitivo
No que tange à saúde mental, os impactos recorrentes do uso não supervisionado mostra-se presente no dia a dia da rotina universitária. Um dos danos demonstrados nos estudos é da insônia crônica e na desestruturação natural do sono, esses danos foram demonstrados em 47,5% dos estudos analisados (Silva et al., 2018; Wille & Salvi,2018; Carli et al., 2026). A dificuldade para dormir deriva-se da via de administração oral e da farmacocinética dos medicamentos, a lisdexanfetamina é um pró-farmaco inativo que, após a absorvição intestinal, passa pela clivagem enzimática pelas esterases eritrocitárias, libertando a d-anfetamina (Rodrigues et al., 2021; Alberto et al., 2017). Esse processo gera uma meia vida de eliminação prolongada (10 a 12 horas), mantendo concentrações plasmáticas elevadas por até 14 horas(Rodrigues et al., 2021; Alberto et al., 2017). Quando ingerida à tarde ou à noite, a substância atinge o pico circulante no horário de repouso, bloqueando a melatonina e o freio inibitório do GABA(Rodrigues et al., 2021; Alberto et al., 2017). Essa hiperestimulação impede a transição para o sono profundo (N3) e a fase REM (Rapid Eye Movement) prejudicando a consolidação da memória e gerando a contradição de estudar por horas sem conseguir fixar o conteúdo (Rodrigues et al., 2021; Alberto et al., 2017).
A superestimulação do SNC atua como um gatilho para desencadear a ansiedade e instabilidade emocional, alteração registrada em 52,5% dos estudos analisados (Maisonnette; Mansano, 2020; Meiners et al., 2022; Oliveira et al., 2024a). A elevação continua da sinalização noradrenérgica e dopaminérgica aumenta os estados de alerta e estresse, desencadeando episódios de ansiedade, pânico, inquietação e mudanças de humor. Essa hipervigilancia constante dos acadêmicos faz com que comprometa a sua saúde mental, dificultando o equilíbrio para a rotina cansativa de estudos.
Outra complicação ocorre quando os níveis plasmáticos do fármaco decaem por estar no termino da sua curva para a eliminação, onde o cérebro vivencia a diminuição transitória de monoaminas na fenda sináptica. Efeito esse conhecido como “efeito rebote”, marcada por prostração física, torpor, incapacidade de sentir prazer, vacuidade mental e episódios depressivos agudos (Cacozzi et al., 2026; Meiners et al., 2022). A oscilação neuroquímica leva o acadêmico para um estado de desgaste conduzindo a exaustão psíquica, reduzindo sua capacidade cognitiva natural para níveis inferiores ao seu padrão habitual.
A pesquisa destaca o chamado “paradoxo cognitivo” associado ao uso crônico dessas substancias em indivíduos sem transtorno. De acordo com o estudo de Caron et al.,(2024), o excesso constante de dopamina no cérebro de pessoas neurotipicas induz uma dessensibilização dos receptores cerebrais (down-regulation), a longo prazo, faz com que os estudantes comecem a apresentar sintomas reais de TDAH (ADHD), como, impulsividade, dificuldade de tomadas de decisões e uma queda continua na sua capacidade cognitiva natural.
5.6. A Cascata Farmacológica e o Consumo Combinado de Psicoativos
Um desdobramento preocupante relatado nos estudos Cacozzi et al., 2026, Moreira et al., 2022 e Sant’Ana et al., 2026, diz respeito a formação de uma cascata farmacológica e ao poli-uso de substâncias. Com intuído de induzir o sono ou de afastarem os sentimentos de agitação e apreensão provocada pelos fármacos (metilfenidato e lisdexanfetamina), o acadêmico recorre a substancias de deprimem o Sistema Nervoso Central SNC (Hajduk et al., 2024; Korn et al., 2019). Utilizando psicotrópicos como benzodiazepínicos e hipnóticos Z, como, Zolpidem, Alprazolam e Clonazepam, com a tentativa de forçar o próprio adormecimento (Hajduk et al., 2024). Nota-se o consumo rotineiro de bebidas alcoólicas e canábis no período noturno como alternativa para desacelerar o ritmo mental, além do uso continuo de analgésicos e opioides para combater a cefaleia associada a tensão decorrentes ao estresse e a vasoconstrição (Hajduk et al., 2024; Ponnet et al., 2021; Bilitardo et al., 2017; Cacozzi et al., 2026).
As interações medicamentosas entre estimulantes e depressores causam sérios riscos à saúde (Cacozzi et al., 2026; Moreira et al., 2022). A combinação de estimulantes com álcool, benzoadiazepínicos, zolpidem ou opioides gera sinergismo depressor no tronco encefálico, aumentando o risco de depressão respiratória, coma e oversdose acidental (Hajduk et al., 2024; Korn et al., 2019). O uso simultâneo dessas substâncias mascara a percepção de intoxicação, induzindo uma falsa sobriedade que leva o aumento das doses e sobrecarrega o sistema cardiovascular com arritmias e crises hipertensivas silenciosas (Ponnet et al., 2021; Santos et al., 2022). Adicionalmente, a coadministração de hipnóticos do grupo Z pode favorecer o surgimento de quadros de amnésia anterógrada e comportamentos motores automáticos (Hajduk et al., 2024). Em paralelo, essse combate neuroquímico diário entre fármacos estimulantes e depressores precipita a tolerância e a deprendência cruzada, exacerbando o efeito rebote mediante a menifestação de sintomas depressivos e ansiosos (Cacozzi et al., 2026; Meiners et al., 2022).
Essa alternância forçada entre o estado de alerda durante o dia e o rebaixamento provocado do estado de alerta a noite estabelece um padrão de dependência nocivo e desafiador (Gürü, 2025; Sant’ana et al., 2026). Essa oscilação entre os estimulantes e depressores afeta o equilíbrio neuroendócrino, favoreceo desenvolvimento da dependência cruzada e aumenta o risco de toxicidade e interações medicamentosas graves (Cacozzi et al., 2026; Moreira et al., 2022).
5.7. O Papel do Farmacêutico, Bioética e Vigilância Sanitária
O acesso facilitado a psicotrópicos sujeitos a controle especial vinculados a Portaria SVS/MS n° 344/1998 sob notificação de receita A3, expõe a vulnerabilidade na rede de vigilância sanitária e na dispensação dos fármacos. A aquisição dos medicamentos sem receita ou por meio de compartilhamento de colegas, amigos e por comercio informal, afronta diretamente a legislação que normatiza o comercio de medicamentos de tarja preta. Nesse cenário, destaca-se a importância do farmacêutico para a conscientização do uso racional de medicamentos. É da responsabilidade desse profissional fazer a devida fiscalização da autenticidade e preenchimento adequado do receituário, impedir comercialização indevida e conscientizar a comunidade acadêmica sobre o uso racional dessas substancias alertando sobre o perigo da automedicação e detectar precocemente os desvios e dependência entre o público jovem.
Do ponto de vista bioético, o avanço do uso de psicoestimulantes suscita debates que vão além dos prejuízos biológicos individuais. A equidade no meio acadêmico é comprometida na medida em que o tratamento tem um custo elevado, como, por exemplo, a lisdexanfetamina, criam uma vantagem acadêmica artificial restrita a alunos com uma renda maior. Adicionalmente, essa pratica impõe uma carga psicologia em alunos neurotipicos que recusam a usar os psicotrópicos, induzindo o sentimento de desvantagem indevida nas avaliações e nas buscas por oportunidades acadêmicas.
A análise dos dados mostra que o uso não prescrito desses medicamentos não se trata de um evento isolado ou puramente recreativo, mas sim de uma pratica socialmente construída e normalizada, impulsionada pela grande exigência de um ensino superior na atualidade.
6. CONCLUSÃO
A realização dessa revisão sistemática permitiu cumprir integralmente os objetivos propostos, ao analisar o uso irracional de metilfenidato e lisdexanfetamina no ambiente universitário. A integração dos dados obtidos reuniu o embasamento necessário para responder de forma direta e fundamentada e pergunta norteadora.
As principais motivações, a literatura evidencia que o uso desses fármacos é impulsionado pela dificuldade no foco e busca pelo rendimento acadêmico, pela busca de notas superiores em avaliações e exames de seleção, e pela privação do sono para extensão de jornadas estudo. Simultaneamente, os artigos revelam que a automedicação é uma estratégia de mitigar dificuldades de atenção relacionadas ao TDAH não identificados previamente, evidenciando lacunas do suporte à saúde dos acadêmicos.
No que tange os reflexos a saúde, os estudos demonstram que a promessa de melhora cognitiva é sobrepujada por danos profundos à integridade física e mental do acadêmico. Sob o aspecto fisiológico, a hiperestimulação do sistema nervoso simpático provoca taquicardia, perda de apetite, instabilidade na pressão arterial, redução ponderal e dores de cabeças tensionais. No aspecto psicológico, o uso indiscriminado resulta em distúrbios graves de sono, picos de ansiedade, labilidade emocional e no esgotamento caracterizado pelo “efeito rebote”, evidenciado por apatia e quadros depressivos quando o fármaco é metabolizado. Alerta-se o poli-uso me substancias, como, álcool e sedativos para o sono, além do risco de alteração crônica da sensibilidade dos receptores dopaminérgicos em indivíduos saudáveis, o que pode levar a déficits de atenção duradouros a longo prazo.
Desse modo, o fenômeno “doping acadêmico” constitui um sintoma desenfreado pela busca de produtividade consolidadas pela alta exigência educacional. O enfrentamento dessa problemática requer uma ação institucional conjunta, por meio de suportes psicopedagógicos nas universidades, e o fortalecimento do papel do farmacêutico na fiscalização e na orientação sobre o uso racional de medicamentos e efeitos adversos.
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LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS
ABNT: Associação Brasileira de Normas Técnicas
DAT: Transportador de Dopamina (Dopamine Transporter)
DeCS: Descritores em Ciências da Saúde
DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
GABA: Ácido gama-aminobutírico
MeSH: Medical Subject Headings
𝐧: Tamanho ou número da amostra
N: Número total
NET: Transportador de Noradrenalina (Norepinephrine Transporter)
nº: Número
PA: Pressão Arterial
PICO: Modelo de estruturação da pergunta de pesquisa (Population, Intervention/Exposure, Comparison, Outcome)
PRISMA: Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses
REM: Rapid Eye Movement
SNC: Sistema Nervoso Central
SVS/MS: Secretaria de Vigilância em Saúde / Ministério da Saúde
TCC: Trabalho de Conclusão de Curso
TDAH: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade
1 Graduanda em Farmácia pelo Centro Universitário Campo Real. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduada em Farmácia pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Doutora em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), com ênfase em Tecnologia Farmacêutica. Professora do Curso de Farmácia do Centro Universitário Campo Real e Professora Colaboradora do Curso de Farmácia da UNICENTRO. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2703438736320965