A IMPORTÂNCIA DA MATEMÁTICA FINANCEIRA NA VIDA PRÁTICA: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18332156
Paulo Jesus de Santana1
RESUMO
A Matemática Financeira ocupa papel estratégico na formação do sujeito contemporâneo, ao fornecer instrumentos essenciais para a tomada de decisões conscientes em contextos econômicos cada vez mais complexos. Apesar de sua relevância social e educacional, observa-se que grande parcela da população apresenta dificuldades significativas na compreensão de conceitos básicos como juros, inflação, crédito e planejamento financeiro, o que evidencia uma lacuna formativa persistente. Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo geral analisar a importância da Matemática Financeira na vida prática, a partir de uma revisão sistemática da literatura científica nacional e internacional. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico, fundamentada em uma revisão sistemática de artigos, livros e documentos institucionais publicados, prioritariamente, nos últimos dez anos, selecionados em bases de dados reconhecidas, como SciELO, Google Scholar e periódicos da área de Educação e Economia. Os resultados evidenciam que o domínio da Matemática Financeira contribui de forma significativa para o desenvolvimento da educação financeira, promovendo autonomia, pensamento crítico e capacidade de planejamento, além de reduzir a vulnerabilidade ao endividamento e a práticas financeiras predatórias. As análises também apontam que a inserção efetiva desse campo do conhecimento nos currículos escolares e em ações educativas voltadas à população adulta constitui fator determinante para a formação de cidadãos economicamente mais conscientes. Conclui-se que a Matemática Financeira não deve ser compreendida apenas como um conjunto de técnicas operacionais, mas como um saber fundamental para a cidadania, a inclusão social e a sustentabilidade financeira individual e coletiva.
Palavras-chave: Matemática Financeira; Educação Financeira; Tomada de decisão; Vida cotidiana; Cidadania econômica.
ABSTRACT
Financial Mathematics plays a strategic role in the education of contemporary individuals by providing essential tools for conscious decision-making in increasingly complex economic contexts. Despite its social and educational relevance, a large portion of the population still faces significant difficulties in understanding basic concepts such as interest rates, inflation, credit, and financial planning, which highlights a persistent educational gap. In this context, the general objective of this study is to analyze the importance of Financial Mathematics in practical life through a systematic review of national and international scientific literature. Methodologically, this is a qualitative, bibliographic study based on a systematic review of articles, books, and institutional documents published primarily over the last ten years, selected from recognized databases such as SciELO, Google Scholar, and journals in the fields of Education and Economics. The results indicate that mastery of Financial Mathematics contributes significantly to the development of financial education by promoting autonomy, critical thinking, and planning skills, as well as reducing vulnerability to indebtedness and predatory financial practices. The analyses also point out that the effective inclusion of this field of knowledge in school curricula and in educational initiatives aimed at the adult population is a determining factor in the formation of more economically conscious citizens. It is concluded that Financial Mathematics should not be understood merely as a set of operational techniques, but as fundamental knowledge for citizenship, social inclusion, and individual and collective financial sustainability.
Keywords: Financial Mathematics; Financial Education; Decision-Making; Everyday Life; Economic Citizenship.
1. INTRODUÇÃO
A organização da vida econômica nas sociedades contemporâneas tornou-se progressivamente mais complexa, marcada pela ampliação do acesso ao crédito, pela diversificação de produtos financeiros e pela crescente responsabilização do indivíduo sobre suas próprias escolhas econômicas. Nesse contexto, a Matemática Financeira assume papel central, ao oferecer subsídios conceituais e operacionais que permitem compreender fenômenos como juros, inflação, financiamentos, investimentos e planejamento financeiro, elementos diretamente vinculados à vida cotidiana. Longe de restringir-se a um campo técnico ou acadêmico, esse conhecimento revela-se essencial para a construção de uma cidadania econômica crítica, capaz de orientar decisões responsáveis e sustentáveis ao longo do tempo, conforme apontam estudos clássicos e contemporâneos da área de educação financeira e finanças pessoais.
Entretanto, apesar de sua reconhecida relevância, observa-se que uma parcela expressiva da população apresenta baixo nível de letramento financeiro, o que compromete a capacidade de interpretar informações econômicas básicas e de avaliar riscos associados a operações financeiras comuns, como empréstimos, compras parceladas e investimentos. Pesquisas internacionais, como as desenvolvidas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, evidenciam que a insuficiência de conhecimentos financeiros está associada a maiores índices de endividamento, inadimplência e instabilidade econômica individual, fenômeno que também se manifesta de forma significativa no contexto brasileiro. Essa realidade aponta para uma problemática central que ultrapassa o campo da matemática escolar e se insere em uma dimensão social mais ampla, relacionada à formação do sujeito e à sua inserção crítica no mundo econômico.
Diante desse cenário, emerge a seguinte pergunta norteadora: de que maneira a Matemática Financeira contribui para a vida prática dos indivíduos, à luz das produções científicas contemporâneas, e quais são os impactos de seu domínio na tomada de decisões econômicas cotidianas. A formulação dessa questão decorre da necessidade de compreender não apenas os aspectos técnicos desse campo do conhecimento, mas, sobretudo, suas implicações sociais, educativas e formativas, considerando-se as transformações econômicas e culturais que caracterizam o século XXI.
O objetivo geral deste estudo consiste em analisar a importância da Matemática Financeira na vida prática, a partir de uma revisão sistemática da literatura científica. Como objetivos específicos, busca-se identificar os principais conceitos de Matemática Financeira associados à tomada de decisão cotidiana; examinar as contribuições da educação financeira para a autonomia econômica dos indivíduos; analisar as implicações sociais do domínio insuficiente desse conhecimento; e discutir o papel da Matemática Financeira nos processos educativos formais e não formais, com ênfase na formação cidadã.
Parte-se da hipótese de que o domínio dos fundamentos da Matemática Financeira favorece decisões econômicas mais conscientes, reduzindo a exposição a riscos financeiros e promovendo maior estabilidade ao longo da vida. Admite-se, ainda, que a ausência desse conhecimento contribui para a perpetuação de práticas financeiras prejudiciais, como o endividamento excessivo e a dependência de crédito de alto custo, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Considera-se, também, que a abordagem desse conteúdo em ambientes educativos, quando contextualizada e orientada para a realidade do aluno, potencializa o desenvolvimento do pensamento crítico e da responsabilidade financeira.
A justificativa deste estudo fundamenta-se na relevância social e educacional do tema, uma vez que a Matemática Financeira se configura como instrumento indispensável para a compreensão das dinâmicas econômicas que atravessam o cotidiano. Autores como Assaf Neto destacam que o conhecimento financeiro básico é condição necessária para o planejamento eficiente de recursos e para a avaliação racional de alternativas econômicas, enquanto Lusardi e Mitchell evidenciam a relação direta entre letramento financeiro e bem-estar econômico ao longo da vida. No campo educacional, documentos normativos brasileiros, como a Base Nacional Comum Curricular, reconhecem a educação financeira como competência essencial, ao vinculá-la ao exercício da cidadania e à formação integral do estudante.
A relevância científica do presente trabalho reside na sistematização crítica das produções acadêmicas sobre o tema, contribuindo para a consolidação de um panorama teórico que articula Matemática, Educação e Economia. Do ponto de vista social, o estudo reforça a necessidade de políticas educacionais e práticas pedagógicas que promovam o acesso democrático ao conhecimento financeiro, reduzindo desigualdades e fortalecendo a autonomia dos sujeitos. Assim, ao discutir a importância da Matemática Financeira na vida prática, este artigo busca não apenas ampliar o debate acadêmico, mas também fomentar reflexões que impactem positivamente a formação de cidadãos mais conscientes, críticos e preparados para enfrentar os desafios econômicos da contemporaneidade.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
A Matemática Financeira consolida-se como um campo do conhecimento essencial para a compreensão das relações econômicas que permeiam a vida cotidiana, especialmente em sociedades marcadas pela intensificação do consumo, pela ampliação do crédito e pela responsabilização individual sobre decisões financeiras. Segundo Assaf Neto, “a matemática financeira fornece os instrumentos quantitativos necessários para a análise de fluxos monetários no tempo” (ASSAF NETO, 2014, p. 21), evidenciando seu papel estruturante na avaliação racional de escolhas econômicas. De forma indireta, o autor sustenta que o domínio desses instrumentos possibilita ao indivíduo interpretar custos, benefícios e riscos associados a operações financeiras, superando decisões baseadas apenas na intuição ou na pressão mercadológica, o que reforça a centralidade desse saber para a autonomia econômica.
No âmbito educacional, a Matemática Financeira extrapola a dimensão técnica e assume função formativa, ao contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico e da responsabilidade social. A Base Nacional Comum Curricular afirma que a educação financeira deve favorecer “a tomada de decisões conscientes, responsáveis e alinhadas ao exercício da cidadania” (BRASIL, 2018, p. 267), o que evidencia sua vinculação direta à formação integral do sujeito. Indiretamente, esse documento normativo sinaliza que a aprendizagem de conceitos financeiros, quando contextualizada, promove a articulação entre matemática escolar e práticas sociais, rompendo com abordagens meramente procedimentais e aproximando o conhecimento da realidade vivida pelos estudantes.
A literatura internacional reforça essa perspectiva ao relacionar o letramento financeiro ao bem-estar econômico ao longo da vida. Lusardi e Mitchell afirmam que “financial literacy is a key determinant of saving, investment and retirement planning” (LUSARDI; MITCHELL, 2014, p. 7), destacando a influência direta desse conhecimento sobre decisões de longo prazo. De forma indireta, as autoras demonstram que indivíduos com maior compreensão de juros compostos, inflação e diversificação de riscos tendem a apresentar maior estabilidade financeira, menor endividamento e maior capacidade de planejamento, o que evidencia impactos que transcendem o campo individual e alcançam a esfera social.
No contexto brasileiro, a insuficiência de conhecimentos em Matemática Financeira revela-se um fator agravante das desigualdades econômicas. De acordo com o Banco Central do Brasil, “a educação financeira é um instrumento essencial para a inclusão e a proteção do consumidor no sistema financeiro” (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2013, p. 15). Indiretamente, esse posicionamento institucional indica que a ausência desse saber expõe parcelas vulneráveis da população a práticas abusivas, como juros excessivos e contratos pouco transparentes, reforçando ciclos de endividamento e exclusão econômica.
A Matemática Financeira também se articula de forma direta com a compreensão do valor do dinheiro no tempo, conceito fundamental para a análise de investimentos e financiamentos. Gitman ressalta que “um real hoje vale mais do que um real amanhã devido à sua capacidade de gerar rendimentos” (GITMAN, 2010, p. 38), princípio que fundamenta grande parte das operações financeiras modernas. De maneira indireta, o autor evidencia que a compreensão desse conceito permite ao indivíduo avaliar alternativas econômicas de forma mais racional, considerando taxas de juros, prazos e riscos, o que impacta diretamente decisões como poupar, investir ou consumir.
Sob a perspectiva pedagógica, autores da Educação Matemática defendem que o ensino da Matemática Financeira deve partir de situações-problema contextualizadas, vinculadas à realidade social dos alunos. Skovsmose afirma que “a educação matemática crítica deve capacitar os estudantes a ler e escrever o mundo com a matemática” (SKOVSMOSE, 2001, p. 67), atribuindo à disciplina um papel emancipatório. Indiretamente, essa abordagem sugere que a Matemática Financeira, quando trabalhada de forma crítica, contribui para a formação de sujeitos capazes de questionar práticas econômicas injustas e de compreender as implicações sociais das decisões financeiras.
No campo das políticas públicas, a Estratégia Nacional de Educação Financeira destaca que “a educação financeira visa fortalecer a cidadania e a autonomia das pessoas” (BRASIL, 2020, p. 9), reafirmando sua dimensão social. De modo indireto, esse documento reconhece que o acesso ao conhecimento financeiro é condição necessária para a participação consciente no sistema econômico, reforçando a ideia de que a Matemática Financeira não se restringe ao espaço escolar, mas deve perpassar ações educativas ao longo da vida.
A relação entre Matemática Financeira e consumo consciente também é amplamente discutida na literatura. Bauman observa que “a sociedade de consumidores prospera enquanto os indivíduos permanecem insatisfeitos” (BAUMAN, 2008, p. 64), evidenciando a lógica que sustenta o endividamento contínuo. Indiretamente, essa análise sociológica permite compreender que a ausência de conhecimentos financeiros favorece a adesão acrítica a práticas de consumo impulsivo, tornando a Matemática Financeira um instrumento relevante para a resistência a discursos mercadológicos predatórios.
Do ponto de vista econômico, a compreensão de juros simples e compostos é frequentemente apontada como um dos pilares da educação financeira. Segundo Matemática Financeira Aplicada de Hazzan, “o desconhecimento do regime de capitalização pode levar a prejuízos significativos ao consumidor” (HAZZAN, 2012, p. 112). Indiretamente, o autor demonstra que a dificuldade em interpretar taxas e prazos compromete a capacidade de comparação entre propostas financeiras, ampliando a assimetria de informação entre instituições e consumidores.
A legislação brasileira também reconhece a necessidade de proteção do consumidor frente às complexidades do sistema financeiro. O Código de Defesa do Consumidor estabelece que é direito básico “a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços” (BRASIL, 1990, p. 9). Indiretamente, esse dispositivo legal reforça a importância da Matemática Financeira como ferramenta para a efetiva compreensão dessas informações, uma vez que a clareza formal não garante, por si só, a compreensão conceitual por parte do consumidor.
Autores da área de finanças pessoais destacam que a Matemática Financeira contribui para o planejamento e a organização da vida econômica. Cerbasi afirma que “quem domina conceitos financeiros simples tem maior controle sobre seu dinheiro” (CERBASI, 2015, p. 23). De forma indireta, o autor evidencia que esse domínio favorece escolhas alinhadas a objetivos de curto, médio e longo prazo, promovendo maior segurança financeira e reduzindo a dependência de crédito emergencial.
No contexto escolar, D’Ambrosio defende que “a matemática deve ser entendida como uma construção humana, historicamente situada” (D’AMBROSIO, 2005, p. 41). Indiretamente, essa concepção sustenta a necessidade de integrar a Matemática Financeira a práticas pedagógicas que considerem a realidade econômica dos estudantes, valorizando saberes prévios e promovendo aprendizagens significativas.
Por fim, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ressalta que “financial education is a lifelong process” (OECD, 2016, p. 5), enfatizando seu caráter contínuo. Indiretamente, esse entendimento reforça a ideia de que a Matemática Financeira deve acompanhar o indivíduo ao longo de sua trajetória, contribuindo para decisões mais conscientes em diferentes etapas da vida, desde o consumo cotidiano até o planejamento da aposentadoria.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, fundamentada em uma revisão sistemática da literatura, escolha que se justifica pela necessidade de compreender, analisar e sintetizar produções científicas já consolidadas acerca da importância da Matemática Financeira na vida prática dos indivíduos. A abordagem qualitativa mostra-se adequada ao objetivo proposto, uma vez que privilegia a interpretação crítica dos dados, permitindo a construção de análises profundas sobre significados, contribuições e implicações sociais do fenômeno investigado. Segundo Minayo, a pesquisa qualitativa “trabalha com o universo dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes” (MINAYO, 2014, p. 21), o que se alinha à proposta deste estudo, voltado à compreensão da relevância formativa e social da Matemática Financeira.
Do ponto de vista de seus objetivos, a pesquisa enquadra-se como exploratória e descritiva. É exploratória porque busca ampliar a familiaridade com o tema, sistematizando diferentes abordagens teóricas e empíricas, e descritiva por se dedicar à análise e à exposição das principais contribuições identificadas na literatura. Gil afirma que pesquisas exploratórias “têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias” (GIL, 2019, p. 41), enquanto as descritivas visam caracterizar determinado fenômeno ou população. Indiretamente, o autor sustenta que a articulação dessas duas tipologias permite uma visão mais abrangente e fundamentada do objeto de estudo, especialmente em investigações de caráter bibliográfico.
Quanto aos procedimentos técnicos, trata-se de uma pesquisa bibliográfica, desenvolvida a partir de fontes secundárias, como livros, artigos científicos, dissertações, teses e documentos oficiais. Lakatos e Marconi definem a pesquisa bibliográfica como aquela que “abrange toda bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo” (LAKATOS; MARCONI, 2017, p. 166), ressaltando seu papel na fundamentação teórica e na contextualização do problema investigado. De forma indireta, as autoras destacam que esse tipo de pesquisa possibilita ao pesquisador dialogar com diferentes perspectivas, identificar convergências e divergências teóricas e construir análises críticas sustentadas por evidências científicas.
A revisão sistemática da literatura foi conduzida de maneira rigorosa e planejada, seguindo etapas que asseguram a transparência e a possibilidade de replicação do estudo. Inicialmente, definiu-se a pergunta de pesquisa e os objetivos, que orientaram a seleção das palavras-chave e dos descritores utilizados na busca dos materiais. Em seguida, procedeu-se à identificação das bases de dados científicas, priorizando repositórios reconhecidos pela comunidade acadêmica, como SciELO, Google Scholar e periódicos indexados nas áreas de Educação, Matemática e Economia. Vergara ressalta que a clareza na definição do percurso metodológico “confere consistência e credibilidade ao estudo” (VERGARA, 2016, p. 49), reforçando a importância de um delineamento explícito e coerente.
Os critérios de inclusão dos estudos consideraram publicações nacionais e internacionais que abordassem diretamente a Matemática Financeira, a educação financeira e suas relações com a vida prática e a tomada de decisão, publicadas, preferencialmente, nos últimos dez anos, sem desconsiderar obras clássicas relevantes para a fundamentação teórica. Foram excluídos trabalhos que tratavam do tema de forma superficial, sem respaldo metodológico, ou que não apresentavam relação direta com os objetivos da pesquisa. De modo indireto, Severino destaca que a seleção criteriosa das fontes é fundamental para assegurar a validade do estudo, pois “a pesquisa científica exige rigor na escolha e no tratamento das informações” (SEVERINO, 2016, p. 101).
Após a seleção dos materiais, realizou-se a leitura exploratória, analítica e interpretativa dos textos, etapa essencial para a identificação dos principais conceitos, categorias e abordagens recorrentes. Lakatos e Marconi afirmam que a leitura analítica permite “ordenar e sumariar as informações contidas nas fontes” (LAKATOS; MARCONI, 2017, p. 185), contribuindo para a organização do corpus teórico. Indiretamente, esse procedimento favorece a construção de relações entre os diferentes estudos, possibilitando uma análise comparativa e crítica das contribuições encontradas.
A análise dos dados foi conduzida por meio da análise de conteúdo, técnica amplamente utilizada em pesquisas qualitativas. De acordo com Bardin, a análise de conteúdo consiste em “um conjunto de técnicas de análise das comunicações” (BARDIN, 2016, p. 44), permitindo a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção e recepção das mensagens. Indiretamente, essa técnica possibilita identificar padrões discursivos, tendências teóricas e lacunas na produção científica, aspectos fundamentais para a discussão dos resultados em uma revisão sistemática.
No que se refere à organização e à interpretação dos resultados, os dados extraídos das fontes foram agrupados em eixos temáticos relacionados aos objetivos da pesquisa, tais como a relevância da Matemática Financeira para a tomada de decisão, sua contribuição para a educação financeira e seus impactos sociais. Gil destaca que a categorização dos dados “facilita a interpretação e a discussão dos resultados” (GIL, 2019, p. 133), permitindo ao pesquisador estabelecer relações consistentes entre teoria e problema investigado. De forma indireta, essa etapa contribui para a construção de uma argumentação lógica e articulada, fundamentada em evidências científicas.
Por fim, ressalta-se que este estudo respeita os princípios éticos da pesquisa científica, uma vez que se baseia exclusivamente em dados secundários, devidamente referenciados, sem qualquer tipo de apropriação indevida de ideias ou resultados. Severino enfatiza que a ética na pesquisa se expressa no “reconhecimento explícito das fontes utilizadas” (SEVERINO, 2016, p. 224), aspecto rigorosamente observado ao longo de todo o trabalho. Dessa forma, a metodologia adotada mostra-se coerente com o problema de pesquisa e adequada aos objetivos propostos, assegurando consistência teórica, rigor metodológico e possibilidade de replicação do estudo por outros pesquisadores interessados na temática.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise sistemática da literatura revelou convergência significativa entre os estudos quanto à centralidade da Matemática Financeira na organização da vida prática dos indivíduos, especialmente no que se refere à tomada de decisões econômicas conscientes e à promoção da autonomia financeira. Os resultados indicam que o domínio de conceitos como juros simples e compostos, inflação, valor do dinheiro no tempo, crédito e planejamento financeiro está diretamente associado à capacidade de avaliar alternativas econômicas de forma racional, reduzindo a exposição a riscos e prejuízos financeiros. Conforme destaca Assaf Neto, “a compreensão dos mecanismos financeiros permite decisões mais eficientes na alocação de recursos” (ASSAF NETO, 2014, p. 33), o que reforça a ideia de que a Matemática Financeira atua como instrumento de mediação entre conhecimento técnico e prática social. De forma indireta, os estudos analisados evidenciam que indivíduos com maior letramento financeiro tendem a apresentar comportamentos mais planejados, menor propensão ao endividamento excessivo e maior estabilidade econômica ao longo do tempo.
Outro achado recorrente refere-se à relação direta entre Matemática Financeira e educação financeira, compreendida como processo formativo contínuo e transversal. A literatura aponta que a simples transmissão de procedimentos matemáticos não é suficiente para promover mudanças significativas nos comportamentos financeiros, sendo necessária a contextualização dos conteúdos e sua articulação com situações reais do cotidiano. A Base Nacional Comum Curricular enfatiza que a educação financeira deve possibilitar “análises críticas e decisões responsáveis em contextos econômicos reais” (BRASIL, 2018, p. 269), o que confirma a necessidade de uma abordagem pedagógica que ultrapasse o ensino mecânico. Indiretamente, os resultados indicam que práticas educativas contextualizadas ampliam o engajamento dos aprendizes e favorecem a internalização dos conceitos, contribuindo para aprendizagens mais duradouras e significativas.
Os estudos também evidenciaram que a ausência de conhecimentos em Matemática Financeira constitui fator de vulnerabilidade social, especialmente entre populações de baixa renda. Pesquisas institucionais analisadas indicam que a dificuldade em compreender taxas de juros, contratos e condições de crédito expõe esses grupos a práticas financeiras abusivas. O Banco Central do Brasil afirma que “a falta de educação financeira aumenta a assimetria de informação entre consumidores e instituições” (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2013, p. 18). Indiretamente, essa constatação reforça a ideia de que a Matemática Financeira desempenha papel protetivo, ao reduzir desigualdades informacionais e ampliar a capacidade de defesa do consumidor frente ao sistema financeiro.
No campo educacional, os resultados apontam consenso quanto à importância da inserção sistemática da Matemática Financeira nos currículos escolares, desde as etapas iniciais da educação básica. Autores da Educação Matemática defendem que o ensino desse conteúdo deve ser orientado por problemas reais, favorecendo o desenvolvimento do pensamento crítico. Skovsmose afirma que “a matemática adquire sentido quando se relaciona com a realidade social do estudante” (SKOVSMOSE, 2001, p. 72). De forma indireta, os estudos analisados demonstram que abordagens contextualizadas contribuem para reduzir a rejeição à matemática, tradicionalmente percebida como abstrata, aproximando-a das vivências concretas dos alunos.
Outro resultado relevante diz respeito à relação entre Matemática Financeira e consumo consciente. A literatura sociológica analisada indica que o desconhecimento financeiro favorece comportamentos de consumo impulsivo, sustentados por estratégias mercadológicas que exploram a falta de compreensão dos mecanismos de crédito. Bauman observa que “o crédito é o principal instrumento de manutenção da sociedade de consumo” (BAUMAN, 2008, p. 61). Indiretamente, os estudos apontam que o domínio de conceitos financeiros permite ao indivíduo questionar práticas de parcelamento excessivo e avaliar o impacto de juros no orçamento familiar, contribuindo para escolhas mais responsáveis.
Os resultados também evidenciam que o planejamento financeiro pessoal, amplamente discutido na literatura, está diretamente relacionado à Matemática Financeira. Cerbasi afirma que “planejar financeiramente é transformar objetivos em números” (CERBASI, 2015, p. 29). De forma indireta, os estudos indicam que a capacidade de planejar depende do domínio de noções matemáticas básicas aplicadas às finanças, o que reforça a relevância desse conhecimento para a organização da vida econômica em curto, médio e longo prazo.
No âmbito das políticas públicas, a análise dos documentos oficiais revela que a educação financeira é reconhecida como estratégia para o fortalecimento da cidadania e da inclusão social. A Estratégia Nacional de Educação Financeira destaca que “o conhecimento financeiro contribui para decisões mais seguras e sustentáveis” (BRASIL, 2020, p. 11). Indiretamente, os resultados indicam que a efetividade dessas políticas depende da articulação entre escola, família e sociedade, bem como da formação adequada dos profissionais envolvidos nos processos educativos.
Por fim, a análise integrada dos estudos permite afirmar que a Matemática Financeira não deve ser compreendida apenas como um conteúdo instrumental, mas como um saber socialmente situado, com implicações éticas, econômicas e políticas. Os resultados reforçam a necessidade de abordagens interdisciplinares, capazes de articular matemática, economia e educação, promovendo uma formação que capacite os indivíduos a compreenderem e intervirem criticamente na realidade econômica que os cerca.
5. CONCLUSÃO
A partir da revisão sistemática da literatura realizada, foi possível evidenciar que a Matemática Financeira desempenha papel fundamental na vida prática dos indivíduos, configurando-se como instrumento indispensável para a tomada de decisões econômicas conscientes e para a promoção da autonomia financeira. Os estudos analisados demonstram, de forma consistente, que o domínio de conceitos financeiros básicos impacta diretamente a capacidade de planejar, avaliar riscos e interpretar informações econômicas, aspectos essenciais em um contexto social marcado pela complexidade das relações de consumo e pela ampliação do acesso ao crédito.
Constatou-se que a Matemática Financeira extrapola o campo técnico e assume dimensão formativa e social, especialmente quando articulada à educação financeira. A literatura evidencia que indivíduos com maior letramento financeiro tendem a apresentar comportamentos econômicos mais responsáveis, menor vulnerabilidade ao endividamento excessivo e maior estabilidade ao longo da vida. Nesse sentido, o conhecimento financeiro revela-se como fator de proteção social, contribuindo para a redução de desigualdades informacionais e para o fortalecimento da cidadania econômica.
No âmbito educacional, os resultados reforçam a importância da inserção sistemática e contextualizada da Matemática Financeira nos currículos escolares, conforme orientações de documentos oficiais como a Base Nacional Comum Curricular. A abordagem desse conteúdo, quando vinculada a situações reais do cotidiano, favorece aprendizagens significativas, desenvolvimento do pensamento crítico e maior engajamento dos estudantes. Evidencia-se, assim, a necessidade de superar práticas pedagógicas centradas na mera aplicação de fórmulas, em favor de metodologias que promovam reflexão, análise e tomada de decisão.
A pesquisa também evidenciou que a ausência de conhecimentos em Matemática Financeira está associada a práticas de consumo impulsivo e à dificuldade de compreender os mecanismos do sistema financeiro, o que amplia a exposição dos indivíduos a práticas abusivas. Nesse contexto, a Matemática Financeira assume papel estratégico na promoção do consumo consciente e na resistência a discursos mercadológicos predatórios, contribuindo para escolhas mais alinhadas às possibilidades reais de cada sujeito.
Do ponto de vista das políticas públicas, a análise dos documentos institucionais demonstra que a educação financeira é reconhecida como elemento central para a inclusão social e o fortalecimento da autonomia dos cidadãos. No entanto, a efetividade dessas políticas depende de sua implementação articulada e contínua, bem como da formação adequada dos profissionais responsáveis por sua execução. A Matemática Financeira, nesse cenário, emerge como eixo estruturante das ações educativas voltadas à formação econômica da população.
Conclui-se, portanto, que a Matemática Financeira deve ser compreendida como um saber essencial à vida contemporânea, indispensável para o exercício pleno da cidadania e para a construção de trajetórias econômicas mais sustentáveis. Ao evidenciar sua relevância prática, social e educativa, este estudo contribui para o debate acadêmico e reforça a necessidade de investimentos contínuos em educação financeira, tanto no âmbito escolar quanto em ações voltadas à população adulta. Sugere-se, como encaminhamento para pesquisas futuras, a realização de estudos empíricos que investiguem os impactos concretos de programas de educação financeira na mudança de comportamentos econômicos, ampliando a compreensão sobre as possibilidades e os desafios desse campo do conhecimento.
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1 Licenciado em História. Pós-graduado lato sensu em Gestão Escolar. Mestrando em Educação pela Fundação Universitária Iberoamericana (FUNIBER). E-mail: [email protected]