REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780444349
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados nos estudos da Etnografia e História Oral e História de Vida, como metodologias de pesquisa para a Geografia Humanista. Seu propósito é elencar as possibilidades dessas ferramentas de coleta de informações em trabalhos de campo voltados para estudos de grupos sociais e seus comportamentos. A questão norteadora que queremos elucidar com esse texto é de como a Etnografia e História Oral e História de Vida podem ser utilizadas para a pesquisa nas áreas humanas da Geografia, e como utilizá-la. A metodologia para a realização desse trabalho consiste em uma ampla pesquisa bibliográfica em autores nacionais e estrangeiros, bem com o compartilhamento de experiências de campo durante a realização de nossa teste de doutorado, quando esses métodos foram aplicados. A princípio queremos apresentar ao leitor que a Etnografia e História Oral e História de Vida são ferramentas correlatas e complexas que precisam ser compreendidas antes de serem empregadas, mas também são capazes de produzir excelentes resultados no que se refere à coleta de informações em campo, suas principais formas de uso são as observações participativas e as entrevistas ou conversas informais.
Palavras-chave: Geografia Humanista; Etnografia; História Oral; História de Vida; Metodologia; Coleta de informações.
ABSTRACT
This work aims to present the results of studies in Ethnography, Oral History, and Life History as research methodologies for Humanistic Geography. Its purpose is to list the possibilities of these information-gathering tools in fieldwork focused on the study of social groups and their behaviors. The guiding question we want to elucidate in this text is how Ethnography, Oral History, and Life History can be used for research in the human areas of Geography, and how to use them. The methodology for this work consists of extensive bibliographic research on national and international authors, as well as the sharing of field experiences during our doctoral thesis, when these methods were applied. Initially, we want to show the reader that Ethnography, Oral History, and Life History are related and complex tools that need to be understood before being employed, but they are also capable of producing excellent results in terms of information gathering in the field; their main forms of use are participant observation and interviews or informal conversations.
Keywords: Humanistic Geography; Ethnography; Oral History; Life History; Methodology; Information gathering.
INTRUDUÇÃO
Tendo como objetivo entender como a Etnografia, a História Oral e História de Vida podem ser utilizadas para a pesquisa nas áreas humanas da Geografia, e como empregá-las na prática, queremos destacar primeiramente que, ao campo, não se vai destituído de teoria (Turra Neto, 2011). Mas quais são as teorias que o geógrafo humanista precisa dominar para que possa realizar seu trabalho de pesquisa? Essa é questão que queremos ajudar a responder a través da Etnografia, da História Oral e História de Vida.
Aqui pretendemos apresentar ao leitor uma série de autores que desenvolveram e utilizaram essas ferramentas de coleta de informações não só na Geografia, mas também na História, Sociologia e Antropologia, entre outros.
Durante os estudos de pós-graduação percebemos que vários alunos também enfrentavam a dificuldade de não saber qual ou quais metodologias poderiam ser usadas nas pesquisas na área humanista da Geografia. Dessa forma, entendemos que o primeiro passo consistia em aprender a pesquisar, conhecer as metodologias e como aplicá-las.
Quando iniciamos os estudos sobre os espaços sagrados das comunidades evangélicas em Três Lagoas – MS, realizamos uma ampla investigação bibliográfica onde entramos em contato com a etnografia aplicada por meio de observação participativa e a história oral e história de vida, primeiramente através das obras de Turra Neto (2011) e Élvis Christian Madureira Ramos (Ramos, 2017).
Partindo desses e outros autores, descobrimos que embora a Etnografia, muito conhecida como observações participativas, seja amplamente utilizada a mais de um século pelas ciências humanas como a Sociologia, História e Antopologia, na Geografia essa ferramenta está em faze da adaptação e ainda é pouco conhecida (Turra Neto, 2011).
Isso certamente se deve ao fato de que a própria Geografia Humanista e sua vertente a Geografia Cultural, ainda são ramos recentes dessa ciência em todo o mundo, e no Brasil elas são mais novas ainda.
Turra Neto (2011), nos mostra que a Geografia Cultural brasileira ainda está em sua fase inicial e por isso há a necessidade de se adotar metodologias usadas por outras ciências para que possamos atingir nossos objetivos de pesquisas.
É com esse propósito que nos dispomos a apresentar ao leitor esse trabalho sobre a Etnografia, a História Oral e a História de Vida, como metodologia de pesquisa para a Geografia Humanista no Brasil.
1. ALGUNS APONTAMENTOS INICIAIS SOBRE A GEOGRAFIA HUMANISTA
O advento da Geografia Humanista, ocorre a partir de 1970, com a proposta de estabelecer as ligações entre os seres humanos e os lugares onde eles vivem, buscando compreender o ser humano com um todo e o estudo do espaço geográfico como espaço vivido (Rosendahl, 2002 e 2003), (Tuan, 1980), (Claval, 1999) e (Sposito, 2021).
Essa perspectiva humanista defende a dimensão subjetiva e a experiência vivida pelo indivíduo e os grupos sociais. Assim, os geógrafos humanistas propõem uma compreensão do homem, não somente em sua percepção do mundo, mas também pelo imaginário que elabora acerca do meio em que vive (Rosendahl, 2003, p. 03).
O estudo da relação ontológica4 entre o homem suas religiões, culturas, e manifestações sociais e o lugares onde isso acontece, só se tornou possível dentro da Geografia a partir dessa nova percepção do sujeito como ser relacional dentro de seu meio e entre seus grupos sociais (Rosendahl, 2003), (Sposito, 2001) e (Correa, 1995).
O termo Geografia Humanista, foi adaptado, primeiramente, a partir de uma tendência já existente nos anos de 1970 dentro da psicologia e a sociologia, que já se baseavam no rótulo “humanístico” para identificar novos subcampos nas suas disciplinas (Rosendahl, 2002 E 2003), (Seamon, 2020) e (Relph 1981).
De forma mais ampla, o humanismo refere-se a uma crença na unidade da humanidade e no potencial dos seres humanos para melhorar as suas próprias vidas e mundos, fazendo uso cuidadoso e crítico do conhecimento intelectual preciso e de experiências de vida relevantes. As marcas humanistas incluem razão, tolerância, responsabilidade individual e compreensão e ação fundamentadas na experiência pessoal madura. (Seamon, 2020, p. 3, tradução nossa).
Segundo Seamon (2020), os temas-chave da Geografia Humanística são o entendimento multidimensional do ser humano, da vida e da experiência corpórea, sensorial, emocional, cognitiva transpessoal; o uso de Métodos abertos e empáticos; a busca por experiências em primeira mão e a explicação e interpretação das informações obtidas em campo, principalmente no que se refere ao estudo do lugar.
2. A ETNOGRAFIA COMO METODOLOGIA DE PESQUISA NA GEOGRAFIA HUMANISTA
Em nossas pesquisas percebemos que há uma preocupação no campo da Geografia brasileira com metodologias adequadas à compreensão das manifestações da cultura no espaço. Dessa forma, percebemos que as metodologias propostas para a pesquisa vêm, portanto, de outras áreas do conhecimento, como a História, Antropologia, Sociologia, Literatura e a Educação. Essas ciências já se dedicam ao estudo de grupos sociais há mais tempo que a Geografia (Turra Neto, 2011).
Outro elemento importante que descobrimos é que a Geografia Humanista tem seu foco no sujeito e não apenas nos fatos ou dados a serem coletados em campo. Como podemos ver na próxima citação a seguir:
(...) o eixo central da pesquisa são as informações de natureza qualitativa. No caso da Geografia, trata-se de pesquisas que têm seu foco no sujeito, mais do que nos espaços. São pesquisas que se perguntam pelas práticas espaciais, pelas formas de apropriação do espaço, pela territorialização e geograficidade de pessoas e grupos sociais (Turra Neto, 2012, p. 3).
A partir do momento em que o pesquisador passa a concentrar o enfoque nos sujeitos que atuam dentro do espaço geográfico, ele passa a necessitar de uma metodologia que lhe permita conhecer esses sujeitos. Dessa forma, percebemos que a Etnografia apresenta características muito importantes na forma de sua aplicação em campo que permitirão ao pesquisador a melhor coleta e compreensão dessas informações.
Consideramos muito importante que antes do início do processo de pesquisa o estudioso tenha definido a metodologia, ou tenha uma noção básica de como irá trabalhar. Dessa forma queremos contribuir com a definição e orientação do uso da Etnografia dentro da Geografia Humanista.
Como metodologia de pesquisa, a Etnografia tem sua origem na antropologia, através da observação participativa e conversas casuais, também já era utilizada nas áreas da sociologia e literatura desde o século XIX (Salgado, 2015), (Szeremeta, 2017) e (Durkheim, (1968).
A partir da segunda metade do século XX a Etnografia vem ganhando cada vez mais espaço dentro da Geografia Humana, criando uma relação mais próxima com Antropologia Aplicada, Antropologia Cultural, a Etnologia e a Fenomenologia, fazendo surgir uma interdisciplinaridade entre essas ciências. Essas áreas do conhecimento foram pioneiras no estudo das complexidades culturais que existem nas práticas sociais humanas e foram, portanto, as primeiras a desenvolver esse tipo de metodologia (Szeremeta, 2017), (Thomas e Znaniecki, 1918), (Braga, 2006 e 2012), (Polivanov, 2013) e (Durkheim, 1968).
Essa ferramenta deve ser empregada sempre em conjunto com outras técnicas que têm como objetivo o envolvimento com os sujeitos que estão sendo observandos, pois essa é a chave para o entendimento de sua cultura. Ela envolve o contato social direto e continuado com os agentes da investigação (Salgado, 2015).
Trata-se de observar e captar o máximo possível de informações impressões, sentimentos e sensações, das quais o pesquisador está sujeito ao entrar no ambiente que está estudando, é preciso haver um mergulho cultural, um “olhar de dentro” na vida e nos costumes de um determinado grupo, para que se possa captar o máximo possível de informações, vale frisar que o investigador etnográfico não coleta dados, mas sim informações (Salgado, 2015).
Essa grande quantidade de informações também se transforma na maior dificuldade da Etnografia, uma vez coletadas é preciso muito cuidado para sistematizar e organizar tudo aquilo que foi captado; trata-se de um mergulho que irá produzir uma enorme quantidade de material informativo, isso faz com que a tarefa final de formatar, selecionar, organizar e transcrever aquilo que foi colhido no campo seja uma tarefa difícil.
Dessa forma, embora seja uma excelente ferramenta de pesquisa, essa metodologia não é tão fácil quanto parece, pois, quando estamos em campo logo aprendemos que não basta apenas olhar, é preciso participar, daí o termo “observação participativa”; é preciso ganhar a confiança, desenvolver a compreensão e a razão por trás dos processos sociais em que esses grupos estão inseridos na sua vida quotidiana e em suas práticas. Por isso ela requer tempo e dedicação, tanto na coleta das informações quanto na sua posterior organização e transcrição (Esteves, 1998).
Não há um passo a passo de como a Etnografia pode ser aplicada, percebemos que ela se constrói a partir da percepção do pesquisador. É preciso saber estar no ambiente onde serão coletadas as informações. O que o observador buscará fazer é tentar descrever aquilo que testemunhou no modo interacional de um determinado grupo, seus relacionamentos sociais cognitivos e, assim, transpor para uma linguagem e registro científico (Caria, 2017).
Exemplos de autores que se dedicaram a esse mergulho são: Ramos (2017), que estudou os fluxos dos jovens das periferias das cidades de Bauru e Marília, no interior do estado de São Paulo; Émile Durkheim (Durkheim, 1968) em seu estudo sobre os princípios da religiosidade nas tribos aborígenes australianas; e na literatura brasileira temos um ótimo exemplo com Euclides da Cunha em, Os Sertões (Cunha, 1999), no qual descreve com detalhes a vida dos sertanejos e o conflito da Guerra de Canudos.
Esse e vários outros autores aplicaram a observação participativa, e assim puderam entender os grupos humanos à sua volta, seus territórios, suas lutas, a manifestação de sua fé, suas festas, isto é, suas vidas como um todo. Todos eles se impuseram a tarefa de mergulhar nos costumes dos sujeitos estudados.
Esse mergulho nos trará clareza daquilo que realmente acontece dentro das relações sociais; trazendo descobertas capazes de mudar nossos paradigmas e ideias pré-concebidas e/ou preconceitos a respeito de um determinado grupo estudado. “[...] a etnografia tem como objetivo, antes tudo, explicar uma realidade atual, próxima de nós, consequentemente, afetando nossas ideias e nossas ações [...]” (Durkheim, 1968, p. 26, tradução nossa).
Dessa forma, o pesquisador deve estar sempre pronto para usar toda sua percepção, tanto do comportamento do grupo que está estudando quanto nos detalhes do espaço em que esse grupo está atuando (Portelli 2005). A Etnografia permite-nos a percepção da perspectiva socioespacial e simbólica, seja no contexto da sociabilidade, das territorialidades, das escalas, do capital espacial e simbólico e da visibilidade dos grupos que pretendemos estudar (Durkheim, 1968).
Através da etnografia podemos chegar à geografia da vida cotidiana, que não está preocupada apenas com o espaço, pois é transversal e está ligada ao estudo de todas as camadas da sociedade e seus diversos grupos; estuda a forma como os sujeitos se relacionam com os lugares (Ramos, 2017) e (Lindón, 2016).
Para Lindón (2016), essa metodologia traz para a geografia a possibilidade de uma aproximação maior com o sujeito inserido no espaço geográfico, dando uma maior aproximação com nosso objeto de estudo e maior legitimidade na teoria social.
Essa capacidade de entender a interação dos sujeitos com a espacialidade à sua volta provocou uma série de mudanças no pensamento geográfico nas últimas décadas, e ajudaram a elucidar e a revelar as relações sociais, as noções de espaço e os simbolismos que deveríamos investigar.
A concepção de espaço sagrado e espaço vivido ou o porquê de determinadas práticas, as reações às celebrações festivas e ao luto, todas essas novas percepções surgiram a partir da compreensão de como as metodologias deveriam ser utilizadas, a partir de uma visão de dentro das comunidades e isso foi possível graças á Etnografia.
Diante do exposto, chegamos à conclusão de que Etnografia é uma ferramenta que possui um extraordinário potencial para auxiliar na realização de pesquisas na área da Geografia Humanista.
3. HISTÓRIA ORAL E HISTÓRIA DE VIDA COMO METODOLOGIAS DE PESQUISA NA GEOGRAFIA HUMANISTA
Ao tratarmos a especificidade da História Oral e História de Vida, queremos destacar que sua principal caracteristova é a produção e processamento de testemunhos orais coletados através de entrevistas ou conversas casuais. Ela trabalha o conhecimento do passado e das experiências humanas mais comuns, dando voz a todos os atores da história.
Elas nos permitem a construção de uma representação mais próxima dos acontecimentos do passado, na encruzilhada de fatos estabelecidos além dos registros escritos e valorizando as experiências individuais. Seu interesse consiste em revelar tudo o que foi vivido e sentido.
A história oral é caracterizada pela produção e processamento de testemunhos orais. Ela expande o conhecimento do passado para as experiências humanas mais comuns, dando voz a todos os atores da história, qualquer que seja o papel que desempenharam e a marca que deixaram no curso do mundo. A história oral permite construir uma representação mais próxima dos acontecimentos do passado, na encruzilhada de fatos estabelecidos a partir de registros escritos e da experiência individual dos diversos atores do passado. Seu interesse reside não apenas nessa contribuição de fontes complementares aos vestígios do passado, mas também em tudo o que nos revela do passado vivido e sentido. Para além dos factos traumáticos e numa perspectiva de história social e local, o recurso testemunho oral permite introduzir na classe personagens geralmente ausentes da história ensinada e cujas condições de vida constituem o interesse central da história oral: em particular mulheres, crianças, trabalhadores, atores de movimentos sociais, rotas migratórias e culturas minoritárias. (Schnetzer, 2014, p. 3, tradução nossa)
Como nos apresenta Schnetzer, 2014), História Oral e História de Vida são a coleta de informações com as testemunhas dos acontecimentos e que ela amplia as fontes de conhecimento e dá voz aos protagonistas da história. Permitindo cunstruir um conteúdo que vai além daquele coletato apenas nos registros e arquivos oficiais. Está ligada aos acontecimentos do passado, não só os fatos, mas o que foi vivido e sentido pelos atores sociais.
A vida das pessoas passa a ser o interesse central do pesquisador, todos podem atuar como protagonistas dos acontecimentos, pois estamos procurando testemunhos de vida, estamos interpretanto as experiências humanas e dando voz aos que não tem (Schnetzer, 2014).
Essa tambem não é uma metodologia nova, desde o início do século XX já era amplamente utilizada por grandes escritores, tanto das ciencias sociais quanto da literatura, pois elas nos dão a capacidade de revelar os sujeitos em sua integridade, essas metodologias nos propiciam a chance de revelar a sociedade mais próxima de sua realidade (Harrison, 2008).
Para Durkheim (1968), esses métodos de coleta de informações explicam a realidade a partir do ponto de vista dos grupos sociais. Nesse sentido, compreendemos que compete ao pesquisador trazer luz à realidade da vida das pessoas, tornar mais próximo aquilo que muitas vezes parece distante.
Já para Thomas e Znaniecki (1918), essas metodologias podem ser a forma de dar voz às mulheres, mães, viúvas e órfãs. Para eles essa ferramenta permite ver que as vidas individuais e suas experiências tendo uma grande contribuição a dar para a compreensão do mundo social.
A partir da segunda metado do século XX, essas metodologias se estabeleceram como técnica de documentação, principalmente na Europa e posteriormente nos Estado Unidos da América (Andresen, 2015), (Shuhalyova, 2019). Tornando-se cada vez mais um arranjo internacional de pesquisa e de projetos apoiados por entrevistas que estão recebendo cada vez mais reconhecimento por parte de vários segmentos das ciências humanas (Budrich, 2005), (Scherstjanoi, 2008) e (Rostovtsev, 2018).
Queremos destacar, ainda em tempo, que há uma diferença entre História Oral e História de Vida, sendo que a primeira pode ser entendida como um relato, captado em um momento marcado para isso, uma única entrevista, que tem por objetivo narrar um episódio ocorrido em um determinado momento. já a História de Vida, é um processo mais longo de coleta de informações, pois como o próprio nome está dizendo é a história da vida da pessoa. Dessa forma, são necessários uma série de encontros em que o indivíduo fará uso da memória relatando suas experiências, testemunhando aquilo que viu, ouviu e sentiu ao longo de sua vida (Portelli, 2005).
A história oral é um tipo muito singular de situação de entrevista porque o processo de contar histórias em que se baseia é distinto. Há momentos de realização, conscientização e, idealmente, educação e empoderamento durante o processo narrativo (Portelli, 2005,p. 150, tradução nossa).
Essas ferramentas têm sido usada por vários escritores que têm, por exemplo, se dedicado a contar as histórias de vida de inumeras pessoas vítimas das tragélias e conflitos pelo mundo, principalmente das mulheres (Ben-Aharon, 2008), (Penter, 2018) e (Leipzig, 2009).
Esses autores enfatizam também a necessidade da descrição densa do ambiente onde as entrevistas são ralizadas, desde a forma como foram recebidos em cada momento de coleta de informações até os detalhes que envolveram o encontro, tornando-se, assim, uma referência até nossos dias para todos aqueles que pretendem trabalhar a história oral e História de vida como metodolotias de presquisa (Капустян, 2020).
Através da história, as pessoas comuns procuram entender as convulsões e mudanças que vivenciam em suas próprias vidas: guerras, transformações sociais como a mudança de posição da juventude, mudanças tecnológicas ou ou migração pessoal para uma nova comunidade. História de família especialmente pode dar a um indivíduo um forte senso de um relacionamento pessoal muito mais longo. Através da história local uma vila ou cidade busca significado para seu próprio caráter mutável e os recém-chegados pode ganhar um senso de raízes no conhecimento histórico pessoal (Thompson, 1988, p. 22, tradução nossa).
Dentro dessa perspectiva de dar voz às pessoas comuns destacada por Thompson (1988), apresentamos outros autores que fizeram dessa metodologia sua principal ferramenta de coleta de informações dentre eles destacamos: (Shalamov, 1994), onde o autor relata suas experiências de prisioneiros dos campos de trabalho do Gulag, campos de concentração soviéticos; Eldad Ben-Aharon (2017 e 2020), com mulheres que sobreviveram ao genocídio na Armênia em 1915.
Uma das principais autoras desse campo da História Oral e História de Vida é a escritora bielorrussa Svetlana Alexievich com as obras, The unwomanly face of war; na oral history of women in world war II. (A face pouco feminina da guerra; uma história oral das mulheres na Segunda Guerra Mundial, tradução nossa) e Voices From Chernobyl, (“vozes de Chernobyl”, tradução nossa) (Alexievich, 2005 e 2016); esse último trabalho foi o resultado de 500 entrevistas transcritas como monólogos e é considerado uma obra prima da literatura mundial, vencedora do Nobel de Literatura em 2015 (Matthews, 2020, p. 1398, tradução nossa).
Em seus trabalhos podemos perceber a emoção de seus entrevistados, ou pelo menos parte dela, como podemos ver na citação a seguir:
Lyudmilla Ignatenko, esposa de um bombeiro cuja brigada foi a primeira a chegar ao reator, fala sobre a degeneração total da própria pele do marido na semana antes de sua morte, descrevendo um processo tão antinatural que deveríamos nunca tive que testemunhar isso. "Qualquer pequeno nó [em sua cama], isso já era uma ferida nele", diz ela. "Eu cortei minhas unhas até sangrar para que eu não o cortasse acidentalmente." (Alexievich, 2005, p. 23, tradução nossa).
Nesse trecho da obra de Svetlana Alexievich, podemos perceber os detalhes compartilhados pela entrevistada, aqui fica bem claro o uso da história oral como ferramenta para dar voz aos que não tem voz.
A partir da década de 1980, essas metodologias de pesquisa ganharam força e conquistaram, de vez, seu lugar dentro das ciências humanas, principalmente após a publicação de The oral history reader (Perks e Thomson, 1998). Essa obra foi um marco na História Oral e História de Vida, a primeira edição desse livro, em 1998, representou um avanço nas pesquisas nessa área.
Concluímos que essas metodologias podem abrir novas áreas de investigação; podem quebrar barreiras entre gerações, entre os centros de pesquisa e o mundo a sua volta, libertando os pesquisadores dos registros oficiais, sejam governamentais ou não (Thompson, 2002 e 2003).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para concluirmos essa análise, podemos concordar que o pesquisador que pretender adotar essas metodologias deve entender que a Etnografia, a História Oral e a História de Vida se baseiam na interpretação daquilo que foi vivenciado pelos atores sociais. E também, é o registro das muitas mudanças ocorridas nas sociedades e nas culturas. Isso pode ser constatado ouvindo as pessoas comuns e registrando suas lembranças, memórias e experiências de vida.
Essas metodologias têm o potencial de nos dar acesso às experiências daqueles que vivem às margens do poder, e cujas vozes estão ocultas porque suas vidas são muito menos prováveis de serem documentadas (Thompson, 2002).
É um método de pesquisa interdisciplinar, um meio onde várias ciências como a sociologia, antropologia, história, literatura, geografia e até nas ciências biológicas e enfermagem, por exemplo, podem se relacionar e trocar informações e experiências (Miller, 2015), (Obertreis, 2009 e 2012). Várias ciências, antes separadas entre si, podem se encontrar realizando um trabalho comum e cooperativo com o objetivo de trazer à tona as informações necessárias para a construção de nosso conhecimento (Thopson, 2002).
As entrevistas de História Oral e História de Vida, nos permitem ir além dos dados estatísticos, pois as estatísticas não podem nos dizer como as pessoas vivem, elas podem nos fornecer, por exemplo, o número de fiéis em uma determinada congregação, mas não podem dizer porque eles frequentam esse local ou porque realizam um determinado tipo de celebração.
O pesquisador que decidir por usar essas metodologias deve estar disposto a mergulhar no ambiente que está estudando, deve estar pronto a observar até os pequenos detalhes, como foi recebido ao chegar, deve perceber as emoções do momento, os silêncios, a alegria, é preciso que ele participe e se envolva com os sujeitos, para que possa coletar o máximo possível de informações, tendo, é lógico, o cuidado para que seu trabalho não perca o valor científico (Apel, 2015).
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1 Doutorando do Programa de Pós-graduação – Doutorado em Geografia/CPTL/UFMS – Área de concentração, Análise Geoambiental e Produção do Território, linha de pesquisa Dinâmica Territorial na Cidade e no Campo.
2 Doutorando do Programa de Pós-graduação – Doutorado em Geografia/CPTL/UFMS – Área de concentração, Análise Geoambiental e Produção do Território.
3 Prof. Dr. Em Geografia, professor e orientador do Programa de Pós-graduação – Doutorado em Geografia/CPTL/UFMS.
4 Ontologia é a área da filosofia que se dedica ao estudo das propriedades gerais do ser, ontos "ente", o “ser”. Reflexão a respeito do sentido abrangente do ser, como aquilo que torna possível as múltiplas existências (Moraes e Ambrósio, 2007).