REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/773817156
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre a ética da alteridade no pensamento de Emmanuel Lévinas, destacando a relação entre transcendência, infinito e responsabilidade ética. Em contraposição à primazia da ontologia na tradição filosófica ocidental, Lévinas propõe a ética como filosofia primeira, fundada na experiência concreta do encontro com o outro. Nesse horizonte, o rosto de Outrem manifesta uma exterioridade que rompe a totalidade do eu e inaugura uma relação marcada pela responsabilidade. A partir dessa perspectiva, o estudo analisa a relação entre transcendência e ética, evidenciando como a ideia de infinito se manifesta na presença do outro. Em seguida, examina a epifania do rosto como interpelação ética que convoca o sujeito a responder diante da vulnerabilidade de Outrem. Nesse horizonte, a presente reflexão busca destacar a relevância do pensamento levinasiano para a compreensão das relações humanas na contemporaneidade, especialmente no que se refere à responsabilidade ética que emerge no encontro face a face.
Palavras-chave: Emmanuel Lévinas. Ética da Alteridade. Rosto. Infinito. Responsabilidade.
ABSTRACT
This article aims to reflect on the ethics of alterity in the thought of Emmanuel Lévinas, highlighting the relationship between transcendence, infinity, and ethical responsibility. In contrast to the primacy of ontology in the Western philosophical tradition, Lévinas proposes ethics as first philosophy, founded on the concrete experience of encountering the other. Within this framework, the face of the Other manifests an exteriority that breaks the totality of the self and inaugurates a relationship marked by responsibility. From this perspective, the study analyzes the relationship between transcendence and ethics, showing how the idea of infinity manifests itself in the presence of the other. It then examines the epiphany of the face as an ethical interpellation that calls upon the subject to respond to the vulnerability of the Other. Within this framework, this reflection seeks to highlight the relevance of Levinasian thought for understanding human relations in contemporary times, especially regarding the ethical responsibility that emerges in face-to-face encounters.
Keywords: Emmanuel Lévinas; Ethics of Alterity; Face; Infinity; Responsibility.
1. INTRODUÇÃO
A reflexão filosófica de Emmanuel Lévinas (1906-1995) desloca o centro da filosofia da ontologia para a ética, compreendendo-a como dimensão originária da experiência humana. Para o filósofo, a ética não se constitui primordialmente como um conjunto de normas ou princípios abstratos, mas como uma experiência concreta que emerge do encontro com o outro. É na relação face a face com Outrem que o sujeito é interpelado e convocado a responder eticamente. Nesse encontro, a presença do outro rompe o fechamento do eu e inaugura uma relação que ultrapassa as categorias tradicionais do pensamento ontológico.
Em um primeiro olhar, essa perspectiva pode parecer abstrata, justamente porque não se fundamenta em um sistema normativo previamente estabelecido, mas em uma experiência vivida. Contudo, para Lévinas, trata-se de uma experiência fundamental na qual o sujeito é chamado a deslocar-se de si mesmo em direção à alteridade. Esse movimento pode ser compreendido como despojamento do próprio eu que possibilita a abertura à presença do outro e à responsabilidade que dela emerge.
Nesse horizonte, Lévinas afirma que a ruptura com a totalidade constitui a condição para o surgimento da ideia de infinito e para a abertura autêntica à alteridade. Aproximar-se do outro implica, portanto, um movimento de descentralização do eu, marcado pela escuta e pelo acolhimento. Esse gesto exige, simbolicamente, “tirar as sandálias”, abandonar pretensões de domínio e reconhecer a dignidade daquele que se apresenta. Assim, ver o rosto do outro significa também reconhecer a responsabilidade que emerge no interior da relação humana.
Nessa perspectiva, a transcendência não se apresenta como mera contemplação metafísica, mas como um acontecimento que se realiza na relação ética. O rosto do outro manifesta-se como expressão que interpela e convoca o sujeito a uma resposta. Desse modo, a presença do outro questiona a liberdade do eu e introduz uma dimensão de responsabilidade que antecede qualquer decisão deliberada. O rosto torna-se, assim, expressão viva que fala e comunica, enquanto a linguagem adquire sentido no interior da relação ética inaugurada pelo encontro com Outrem.
À luz desse horizonte teórico, o presente artigo se propõe metodologicamente a desenvolver a reflexão em dois momentos principais, a saber: Inicialmente, analisa-se a relação entre transcendência e ética, evidenciando como a ideia de infinito se revela no rosto do outro. Em seguida, examina-se a epifania do rosto como fundamento da responsabilidade ética na relação face a face, buscando explicitar como, em Lévinas, o encontro com o outro inaugura a primazia da ética como dimensão originária da experiência humana.
Portanto, o escopo desta arguição tem como objetivo refletir sobre a ética da alteridade em Emmanuel Lévinas, autor que apresenta uma contribuição significativa para o campo da reflexão filosófica e ética na contemporaneidade, ao deslocar o centro da filosofia da ontologia para a ética. Nesse sentido, a relação com o outro torna-se o ponto de partida da responsabilidade ética, evidenciada na epifania do rosto que convoca o sujeito a responder pela alteridade.
2. TRANSCENDÊNCIA E ÉTICA: O INFINITO QUE SE REVELA NO ROSTO
A reflexão filosófica de Lévinas desenvolve-se a partir de uma crítica às limitações da ontologia tradicional. Ao tratar da ética, o filósofo desloca a atenção do problema do ser para a relação com o outro. Em sua obra Totalidade e Infinito, Lévinas apresenta a guerra como expressão da totalidade, indicando que instaurar a paz exige romper essa lógica de fechamento. Para Lévinas, a superação da lógica da totalidade2 ocorre no encontro com Outrem. Esse encontro inaugura a experiência do face a face, na qual se manifesta uma dimensão que ultrapassa os limites da ontologia: o infinito. O infinito não se apresenta como uma realidade abstrata ou distante, mas revela-se na concretude da relação humana.
A ética levinasiana poderá parecer, às vezes, abstrata a quem não souber entendê-la no que ela é: integralmente, “experiência” – e apenas uma experiência já que, por seu intermédio, submeto-me à prova do despojamento [déprise] – do questionamento do egoísmo do eu; ela não é, de modo algum, um conjunto de preceitos que dizem o que deve ser feito em determinado tipo de situações. Assim, a ética foi descoberta como “filosofia primeira”: por essa expressão, Lévinas pretende que a ontologia, a teoria do ser, entregue a si mesma, não se basta pelo fato de que ela reflete, volta a representar e continua sendo a lei daquilo de que ela está falando, do ser, ou seja, a lei da guerra, na ordem do conceito, que, por sua vez, é sempre “captura” [“prise”] disso mesmo que é abordado por ele. A paz só pode ser encontrada nesta subida além do ser, a partir do próprio ser (Sebbah, 2009, p. 51-52).
Essa proposta filosófica coloca um desafio importante que é expressar, por meio de uma linguagem inevitavelmente ontológica, aquilo que ultrapassa a própria ontologia. O esforço de Lévinas consiste, portanto, em elaborar um discurso capaz de reconhecer o outro em sua transcendência, evitando reduzi-lo às categorias do pensamento.
Assim, a relação com o infinito ultrapassa os limites de um conhecimento puramente intelectual. O infinito manifesta-se como aquilo que excede o pensamento que tenta apreendê-lo. Trata-se de uma realidade que se revela sem jamais se deixar reduzir ao domínio conceitual. Nesse sentido, Lévinas afirma que “pensar o infinito, o transcendente, o estrangeiro, não é pois pensar um objeto. Mas pensar o que não tem os traços do objeto é na realidade fazer mais ou melhor do que pensar” (Lévinas, 2013, p. 36).
Diante de uma cultura marcada pela ideia da morte de Deus, Lévinas sustenta que a relação com o divino não deve ser compreendida a partir de categorias ontológicas ou de provas racionais clássicas. Seu esforço filosófico consiste em repensar essa relação a partir da dimensão ética da existência humana.
Abraçar o des-inte-esse, opor Deus à onto-teo-logia, é conceber uma nova maneira de buscar sentido. E esse só se encontra a partir de uma relação ética, na relação do Mesmo com Outrem: o Outro como totalmente Outro não tem nada em comum com o Mesmo, não pode ser reduzido a uma síntese, a uma teoria do conhecimento, a um saber. A relação entre o Mesmo e Outro é uma diferença do Mesmo para o Outro naquilo que se pode reconhecer como relação ética, uma relação de diferença. Portanto, para Lévinas é evidente, e esta será uma de suas grandes propostas para a ética religiosa, a relação com o outro será ética e esta nunca será subordinada a ontologia (Grzibowski, 2010, p. 34).
A reflexão levinasiana desloca, assim, a questão da transcendência para o campo das relações humanas. O que está em jogo não são as provas da existência de Deus, mas a presença da ideia do infinito no interior do sujeito. Essa ideia ultrapassa o pensamento que a pensa, pois o infinito sempre excede a capacidade do pensamento finito de contê-lo.
Com a noção de infinito presente no sujeito, Lévinas propõe uma nova maneira de compreender o transcendente. Em vez de situá-lo no plano de uma realidade metafísica distante, o filósofo indica que ele se manifesta na relação com o outro.
O questionamento de si é precisamente o acolhimento do absolutamente outro. A epifania do absolutamente outro é rosto em que o Outro me interpela e me significa uma ordem, por sua nudez, por sua indigência. Sua presença é uma intimação para responder. O Eu (Moi) não toma apenas consciência desta necessidade de responder, como se se tratasse de uma obrigação ou de um dever particular sobre o qual ele teria que decidir. Em sua posição mesma ele é integralmente responsabilidade ou diaconia, como no capítulo 53 de Isaías (Lévinas, 2012 p. 53).
Nesse horizonte, a relação com o outro antecede qualquer decisão ou reflexão consciente. “Relacionar-se com o outro ser humano é recebê-lo antes de pensá-lo e antes de decidir ou não por seu recebimento” (Costa, 2000, p. 175). Desse modo, a sensibilidade já nos coloca em relação com o outro antes mesmo que essa relação se torne objeto de decisão ou escolha deliberada.
“A sensibilidade e o recebimento atribuem o outro a mim mesmo, uma atribuição que me afeta antes de ser tema, decisão e ação” (Costa, 2000, p. 175). Por essa razão, a relação com o outro não se fundamenta simplesmente em uma escolha voluntária, mas em uma responsabilidade que antecede a própria liberdade.
O outro que me estende a mão e me interpela com um “me dá um prato de comida” é de “minha incumbência”, mesmo que tematicamente esteja claro que não o seja. É uma “obsessão” (um sentir-se responsável) que atravessa a consciência temática a contrapelo, “estranho estranhamento” de si “um sentir-se mal dentro de sua própria pele) que por uma fração de segundos desequilibra e faz delirar por um mundo sem atos de fala como: “eu te suplico que me dês um prato de comida”. [...] Mas se trata de uma passividade à margem de toda passividade, que se define em termos totalmente diferentes dos da intencionalidade em que o sofrer também é sempre um assumir, isto é, uma experiência sempre adiantada e consentida, uma experiência que já é a origem e o arché” (Costa, 2000, p. 175-176).
Essa compreensão da relação com o outro conduz Lévinas a distinguir entre necessidade e desejo. Enquanto a necessidade parte do sujeito e busca satisfazer suas próprias carências, o desejo metafísico orienta-se para aquilo que o ultrapassa.
A necessidade abre-se sobre um mundo que é para mim, e acaba por retornar a si. [...] O Desejo do Outro – a socialidade – nasce num ser que não carece de nada ou, mais exatamente, nasce para além de tudo o que lhe pode faltar ou satisfazê-lo. No Desejo, o Eu (Moi) põe-se em movimento para o outro, de maneira a comprometer a soberana identificação do Eu (Moi) consigo mesmo [...]. A relação com o Outro questiona-me, esvazia-me de mim mesmo e não cessa de esvaziar-me, descobrindo-me possibilidades sempre novas (Lévinas, 2012, p. 48-49).
Assim, o desejo metafísico manifesta-se como abertura para a exterioridade. Trata-se de um movimento que conduz o sujeito para além de si mesmo, orientando-o para a relação com o outro.
Dito de outro modo, a expressão, antes de ser celebração do ser, é uma relação com aquele para quem eu exprimo a expressão e cuja presença já é adquirida para que meu gesto cultural de expressão se produza. O Outro que está diante de mim não está incluído na totalidade do ser expresso. Ele ressurge por detrás de toda reunião do ser, como aquele para quem eu exprimo isto que exprimo. Eu me reencontro diante do outro. Ele não é nem uma significação cultural, nem um simples dado. Ele é primordialmente sentido, pois ele o confere à própria expressão, e é por ele somente que um fenômeno como o da significação se introduz, de per si, no ser (Lévinas, 2012, p. 50).
Nesse horizonte, a linguagem adquire um papel fundamental na relação com o outro. Ela não se limita a um instrumento de comunicação ou conhecimento, mas constitui o espaço onde se manifesta a relação ética. “O Outro que se manifesta no rosto perpassa, de alguma forma, sua própria essência plástica [...]. Sua manifestação é um excendente (surplus) sobre a paralisia inevitável da manifestação. É precisamente isto que nós descrevemos pela fórmula: o rosto fala (Lévinas, 2012, p. 51).
Assim, o primeiro discurso nasce na própria manifestação do rosto. “Falar é, antes de tudo, este modo de chegar por detrás de sua aparência, por detrás de sua forma, uma abertura na abertura” (Lévinas, 2012, p. 51). Desse modo, a relação com o outro não se limita ao plano do conhecimento, mas inaugura uma dimensão ética que se expressa na responsabilidade e na abertura à alteridade.
Nesse sentido, a reflexão levinasiana conduz à compreensão de que a transcendência não se encontra fora da experiência humana, mas manifesta-se na própria relação com o outro. É precisamente nesse horizonte que Lévinas desenvolve sua reflexão sobre a epifania do rosto, na qual o infinito se revela na presença concreta de Outrem e inaugura o fundamento ético da relação humana.
3. EPIFANIA DO ROSTO E A RESPONSABILIDADE ÉTICA
Como vimos, a filosofia de Lévinas propõe uma profunda reorientação do pensamento filosófico ao colocar a relação com o outro no centro da reflexão. Em oposição às tradições que privilegiaram o conhecimento do ser ou a constituição do mundo pela consciência, Lévinas afirma que o ponto de partida da filosofia deve ser a experiência ética que emerge no encontro com o outro. É nesse contexto que surge um de seus conceitos mais fundamentais: o rosto. Longe de se reduzir a uma simples aparência física ou a um conjunto de traços identificáveis, o rosto expressa a presença do outro em sua alteridade irredutível, revelando uma dimensão que escapa à objetivação e à apropriação pelo pensamento.
Para Lévinas, o encontro com o rosto não é primeiramente um ato de conhecimento, mas uma experiência que interpela o sujeito e o convoca à responsabilidade. O rosto manifesta-se como uma espécie de revelação, uma epifania na qual o outro se apresenta como alguém que não pode ser reduzido às categorias do mesmo. Nessa manifestação, o sujeito é chamado a reconhecer a dignidade e a vulnerabilidade do outro, sendo colocado diante de uma exigência ética que antecede qualquer reflexão teórica ou construção conceitual.
A ética que se faz presente na epifania do rosto é mais que revelação, é experiência: experimentar na transcendência a vergonha e a culpabilidade de uma ingênua liberdade individual e egoísta que tudo pretende agarrar, objetivar e fazer explorar. Mas, é experimentar também a ideia de infinito que é o Outro como limite do eu todo-poderoso, é a aproximação e a manifestação do totalmente Outro. A relação com o rosto é linguagem é doação, bondade e justiça. No face a face, se dá a experiência originária por excelência e, por isso, é ética. (Costa, A., 2013, p. 111).
É nesse sentido que Lévinas afirma: “A epifania do rosto como rosto abre a humanidade” (Lévinas, 2013, p. 208). O rosto apresenta-se, portanto, como o sentido originário da relação com o outro e como o primeiro movimento que rompe a tendência do sujeito de reduzir o outro ao mesmo. Ele revela uma exterioridade radical que resiste à totalização e que funda a possibilidade da ética. A partir dessa perspectiva, a relação ética que nasce do encontro com o rosto não é uma dimensão secundária da filosofia, mas torna-se sua própria base. Assim, para Lévinas, a ética assume o lugar de filosofia primeira, pois é no apelo do rosto do outro que se inaugura o horizonte fundamental da responsabilidade humana.
O rosto na sua nudez de rosto apresenta-me a penúria do pobre e do estrangeiro; mas essa pobreza e esse exílio que apelam para os meus poderes visam-me, não se entregam a tais poderes como dados, permanecem expressão de rosto. [...]. Outrem já seve. Junta-se a mim. Mas junta-me a ele para servir, ordena-me como um Mestre. Ordem que só pode dizer-me respeito na medida em que eu próprio sou mestre, ordem, por conseguinte, que me ordena que mande. [...] A presença do rosto – infinito do Outro – é indigência, presença do terceiro (isto é, de toda a humanidade que nos observa) e ordem que ordena que mande. Por isso, a relação com outrem ou discurso é não apenas o pôr em questão da minha liberdade, o apelo que vem do Outro para me chamar a responsabilidade, não apenas a palavra pela qual me despojo da posse que me encerra, ao enunciar um mundo objectivo e comum, mas também a pregação, a exortação, a palavra profética. (Lévinas, 2013, p. 208, grifo nosso).
Para Lévinas, “o rosto recusa-se à posse, aos meus poderes. Na sua epifania, na expressão, o sensível ainda captável transmuda-se em resistência total à apreensão. Esta mutação só é possível pela abertura de uma dimensão nova” (Lévinas, 2013, p. 192). Lévinas apresenta o rosto, em sua dimensão sensível, contudo, essa sensibilidade não deve ser compreendida como simples dado perceptivo ou como um objeto que se oferece à contemplação do sujeito. Ao contrário, a aparição do rosto marca justamente o limite de toda tentativa de redução do outro a objeto de conhecimento ou de domínio. Embora o rosto se manifeste no plano sensível, ele simultaneamente ultrapassa essa dimensão, pois sua significação não se esgota naquilo que pode ser percebido ou descrito.
Nesse sentido, o rosto3 introduz uma ruptura na lógica tradicional da fenomenologia centrada na intencionalidade do sujeito. Ele não se apresenta apenas como algo que pode ser apreendido pela consciência, mas como aquilo que resiste à totalização e que interpela o sujeito a partir de sua exterioridade. A epifania do rosto revela, portanto, uma presença que não se deixa reduzir a representação. É uma manifestação que mantém sua alteridade intacta, mesmo quando aparece no campo da experiência sensível. Assim, o rosto não apenas se mostra, mas fala, e ao falar, dirige-se ao sujeito em forma de apelo ético.
A epifania do rosto é o convite para a responsabilidade ética e a abertura ao infinito, visto que o rosto vem para além de sua aparência fenomenológica. Então o rosto é o modo como o Outro se apresenta e ao mesmo tempo ultrapassa a ideia que tenho dele, pois o rosto tem sentido próprio. (Costa, A., 2013, p.105).
É precisamente nessa tensão entre visibilidade e transcendência que se constitui a singularidade da experiência do rosto. Ele se apresenta no mundo como algo sensível, mas sua significação ultrapassa qualquer forma que pretenda delimitá-lo ou capturá-lo conceitualmente. A aparição do rosto, portanto, inaugura uma nova dimensão na relação com o outro, uma dimensão na qual o sujeito deixa de ser o centro soberano da experiência para tornar-se aquele que é convocado a responder.
A expressão que o rosto introduz no mundo não desafia a fraqueza dos meus poderes, mas o meu poder de poder. O rosto, ainda coisa entre as coisas, atravessa a forma que, entretanto, o delimita. O que quer dizer concretamente: o rosto fala-me e convida-me assim a uma relação sem paralelo com um poder que se exerce, quer seja fruição quer seja conhecimento. [...]. A nova dimensão abre-se na aparência sensível do rosto. (Lévinas, 2013, p. 192).
A epifania do rosto coloca em questão as estruturas de poder sobre as quais o pensamento ontológico tradicional buscou se sustentar. Em sua dimensão sensível, o rosto convoca a uma relação que não se funda na dominação ou na posse, mas em uma experiência marcada pela fruição. Essa fruição manifesta-se no campo da sensibilidade, abrindo uma nova possibilidade filosófica na qual o rosto, por meio da experiência sensitiva, inaugura uma relação originária.
A profundeza que se abre na sensibilidade modifica a própria natureza do poder que não pode a partir daí apanhar, mas, mas pode matar. [...]. O rosto exprime-se no sensível; mas já impotência, porque o rosto rasga o sensível. A alteridade que se exprime no rosto fornece a única ‘matéria’ possível à negação total. (Lévinas, 2013, p. 192-193).
Diante da manifestação do Infinito que se revela no rosto humano, a relação estabelecida não pode ser compreendida de maneira instrumental. O encontro com o Infinito não ocorre segundo o modelo epistemológico de uma razão totalizante. Ao contrário, a proximidade que se estabelece na sensibilidade e na abertura ao outro.
Esse infinito, mais forte do que o assassínio, resiste-nos já no seu rosto, é o seu rosto, é a expressão original, é a primeira palavra: ‘não cometerás assassínio’. O infinito paralisa o poder pela sua infinita resistência ao assassínio que, duro e intransponível, brilha no rosto de outrem, na nudez total dos seus olhos, sem defesa, na nudez da abertura absoluta do Transcendente. (Lévinas, 2013, p. 193).
Levinas busca restabelecer a relação com o transcendente para além das categorias do ser. Trata-se de pensar a transcendência a partir de um horizonte que não esteja preso à ontologia. Esse novo horizonte é a ética fundada na alteridade. “Pensar o infinito, o transcendente, o estrangeiro, não é, pois, pensar um objecto. Mas pensar o que não tem os traços do objeto é na realidade fazer mais ou melhor do que pensar” (Lévinas, 2013, p. 36). A experiência vivida no face a face torna-se, assim, fundamental para a ética da alteridade, pois implica cuidado e responsabilidade diante daquele que se apresenta.
A epifania do rosto suscita a possibilidade de medir o infinito da tentação do assassínio, não como uma tentação de destruição total, mas como impossibilidade – puramente ética – dessa tentação e tentativa. Se a resistência ao assassínio não fosse ética, mas real, teríamos uma percepção dela com tudo aquilo que na percepção redunda em subjectivo. (Lévinas, 2013, p. 193-194).
“A epifania do rosto é ética. A luta de que o rosto pode ser a ameaça pressupõe a transcendência da expressão. O rosto ameaça de luta como de uma eventualidade, sem que tal ameaça esgote a epifania do infinito, sem que dela formule a primeira palavra” (Lévinas, 2013, p. 194). Nesse sentido, “o infinito apresenta-se como rosto na resistência ética que paralisa os meus poderes e se levanta dura e absoluta do fundo dos olhos, sem defesa na sua nudez e na sua miséria. A compreensão dessa miséria e dessa fome instaura a própria proximidade do Outro” (Lévinas, 2013, p. 194). Assim, a epifania do infinito manifesta-se como expressão e discurso, no qual o ser se apresenta por si mesmo, assistindo à própria manifestação. Para Lévinas,
manifestar-se como rosto é impor-se para além da forma, manifestada e puramente fenomenal, é apresentar-se de uma maneira irredutível à manifestação, como a própria rectidão do frente a frente, sem mediação de nenhuma imagem na sua nudez, ou seja, na sua miséria e na sua fome. No Desejo, confundem-se os movimentos que vão para a Altura e Humildade de Outrem. (2013, p. 194, grifo do autor).
Encontrar um rosto significa ouvir simultaneamente um apelo e uma ordem. O rosto carrega uma exterioridade que não pode ser compreendida a partir de categorias ontológicas. Ele conduz o ser para além de si mesmo, colocando-o diante do outro em uma relação que, antes de tudo, é ética e que, justamente por isso, exige responsabilidade.
Essa responsabilidade ultrapassa aquilo que simplesmente se faz. Ela exige ir além das ações imediatas, pois, em geral, as atitudes humanas já pressupõem algum nível de responsabilidade. Contudo, a responsabilidade provocada pelo rosto amplia-se, retirando o sujeito do seu próprio mundo ontológico e orientando-o para a alteridade.
O rosto abre o discurso original, cuja primeira palavra é obrigação que nenhuma ‘interioridade’ permite evitar. Discurso que obriga a entrar no discurso, começo do discurso que o racionalismo exige com os seus votos, ‘força’ que convence mesmo ‘as pessoas que não querem ouvir e fundamenta assim a verdadeira universalidade da razão’. (Lévinas, 2013, p. 195).
O rosto apresenta-se, portanto, como discurso primordial, palavra que nenhum movimento de retorno ao Mesmo consegue evitar. Esse discurso já é relação e, como tal, convoca à responsabilidade. Não se trata de transformar o outro em objeto ou de falar dele a partir do Mesmo, mas de reconhecer um movimento que ultrapassa o ser, no qual o outro se manifesta em sua epifania.
O que chamamos rosto é precisamente a excepcional apresentação do si por si, sem paralelo com a apresentação de realidades simplesmente dadas sempre suspeitas de algum logro, sempre possivelmente sonhadas. Para procurar a verdade, já mantive uma relação com um rosto que pode garantir-se a si próprio, cuja epifania também é, de algum modo, uma palavra de honra. Toda linguagem, como troca de signos verbais, se refere já à palavra de honra original. O signo verbal coloca-se onde alguém significa alguma coisa a algum outro. Supõe já uma autentificação do significante. (Lévinas, 2013, p. 197).
A relação ética que se estabelece no face a face evidencia a singularidade dessa relação, impedindo que ela se reduza à representação ou à objetivação. Trata-se de uma relação marcada por uma originalidade própria, na qual permanecem vestígios que enriquecem “a univocidade original da expressão, onde o discurso se torna encantamento como oração que se torna rito e liturgia, onde os interlocutores dão por si a desempenhar um papel num drama que começou fora deles. Aí reside o carácter racional da relação ética e da linguagem” (Lévinas, 2013, p. 197).
A linguagem não se origina no interior do Mesmo nem nasce exclusivamente da consciência. Ela provém de outrem e ressoa na consciência, colocando-a em questão. Para Levinas, esse movimento rompe com um pensamento que tende a objetificar, pois desloca o sentido da linguagem para uma relação originária. Assim, a linguagem torna-se significativa a partir da condição sensível do sujeito. Portanto, “um mundo significativo é um mundo em que há Outrem pelo qual o mundo da minha fruição se torna tema com uma significação. As coisas adquirem uma significação racional e não apenas de simples uso, porque um Outro está associado às minhas relações com elas” (Lévinas, 2013, p. 204). No entanto,
é a minha responsabilidade em face de um rosto que me olha como absolutamente estranho [...] – que constitui o facto original da fraternidade. [...] No acolhimento do rosto (acolhimento que é já a minha responsabilidade a seu respeito e em que, por consequência, ele me aborda a partir de uma dimensão de altura e me domina), instaura-se a igualdade. Ou a igualdade produz-se onde o Outro comanda o Mesmo e se lhe revela na responsabilidade; ou a igualdade não é mais do que uma ideia abstracta e uma palavra. Não se pode separar do acolhimento do rosto de que ela é um momento. (Lévinas, 2013, p. 209-210).
O rosto revela uma exterioridade radical que não encontra fundamento no interior do nosso próprio mundo. A relação que se estabelece com ele é mediada pela linguagem, apresentada como palavra que convoca à bondade, à justiça e ao desejo. Antes de qualquer elaboração teórica, impõe-se a relação primeira, cujo caráter ético emerge da palavra originária da alteridade.
A presença do rosto que vem de além do mundo, mas que me empenha na fraternidade humana, não me esmaga como uma essência numinosa, que faz tremer e se faz temer. Estar em relação dispensando-se dessa relação equivale a falar. Outrem não aparece apenas no seu rosto – como um fenómeno sujeito à acção e à dominação de uma liberdade. Infinitamente afastado da própria relação em que entra, apresenta-se aí de chofre como absoluto. O Eu desprende-se da relação, mas no âmbito da relação com um ser absolutamente separado. O rosto em que outrem se volta para mim não se incorpora na representação do rosto. Ouvir a sua miséria que clama justiça não consiste em representar-se uma imagem, mas em colocar-se como responsável, ao mesmo tempo como mais e como menos do que o ser que se apresenta no rosto. Menos, porque o rosto me chama às minhas obrigações e me julga. O ser que nele se apresenta vem de uma dimensão de altura, dimensão da transcendência onde pode apresentar-se como estrangeiro, sem se opor a mim, como obstáculo ou inimigo. Mais, porque a minha posição de eu consiste em poder responder à miséria essencial de outrem, em encontrar recursos. Outrem que me domina na sua transcendência é também o estrangeiro, a viúva e o órfão, em relação aos quais tenho obrigações. (Lévinas, 2013, p. 210-211).
A presença do rosto nos conduz para além do mundo. Acolher o outro como outro significa reconhecê-lo em sua alteridade, na qual a reciprocidade se realiza independentemente de qualquer condição prévia. Somente a partir de uma relação marcada pela infinitude torna-se possível estabelecer uma relação verdadeiramente ética com a alteridade.
A presença do outro exige uma resposta ética. Essa manifestação ocorre por meio do rosto, que interpela o sujeito a ser, sobretudo, bom. “A apresentação do rosto põe-me em relação com o ser. O existir do ser irredutível à fenomenalidade, compreendida como realidade sem realidade efectua-se na inadiável urgência com que ele exige uma resposta” (Lévinas, 2013, p. 208). Assim, o rosto do outro coloca o sujeito em questão diante do ser. O existir manifesta-se no chamado dirigido ao Eu, convocando-o a orientar sua existência em direção ao outro.
Portanto, o sujeito humano, na perspectiva levinasiana, é chamado a abandonar sua posição privilegiada para assumir uma postura de responsabilidade e serviço. Isso significa reconhecer que o outro não pode ser reduzido a um conceito ou dominado pelo pensamento. Um dos princípios centrais da ética de Lévinas consiste justamente na percepção de que o rosto do outro se apresenta exigindo justiça.
A justiça é um “confronto” com “o Outro” de que não se pode “curar”. Em certo sentido é preciso, por um lado, “deixar-se curar” pelo Outro e, por outro lado, “curar o Outro” de si próprio. “Esta crítica de si pode ser compreendida tanto como um descobrimento de sua debilidade, quanto como um descobrimento de sua indignidade: quer dizer, como uma consciência de fracasso, o mesmo como uma consciência de culpabilidade. Em última instância, justificar a liberdade não é comprová-la, mas torná-la justa”. (Costa, 2000, p. 13).
O encontro com o outro constitui, portanto, uma experiência originária na qual se revela o sentido do humano. Essa experiência funda a responsabilidade ética. Acolher o rosto do outro significa viver a justiça em sua dimensão mais profunda. Não se trata apenas de realizar gestos de caridade, mas de assumir uma tarefa profética fundamentada na responsabilidade pelo outro.
Nesse contexto, a justiça não se reduz às estruturas formais ou às práticas jurídicas institucionais. Ela implica um movimento em que o eu sai de si mesmo para acolher o outro em sua alteridade. Entretanto, é importante reconhecer que Lévinas não ignora a importância das instituições sociais e políticas. O filósofo não considera que a justiça possa ser estabelecida apenas pela boa vontade individual. Pelo contrário, ele reconhece a necessidade da mediação das instituições e do Estado para a organização da vida social.
Dessa forma, a ética da alteridade, ao propor uma nova compreensão da relação humana, também interpela as estruturas sociais. Enquanto modelo de uma humanidade possível, ela desafia as instituições a orientarem suas práticas a partir de uma perspectiva antropológica sensível à alteridade. Isso implica promover relações marcadas pela hospitalidade, pela solidariedade e pelo encontro pessoal no face a face. Assim, as organizações humanas devem estar a serviço da dignidade das pessoas, favorecendo o encontro entre os seres humanos. Quando deixam de cumprir essa função, as instituições podem tornar-se instrumentos de opressão e violência. Por isso, a proposta levinasiana exige uma postura ética fundamentada na responsabilidade pelo outro, tanto no âmbito pessoal quanto nas estruturas sociais.
Portanto, a reflexão levinasiana sobre a epifania do rosto revela que a relação ética constitui o fundamento mais originário da experiência humana. No encontro face a face, o rosto do outro manifesta uma alteridade que escapa a qualquer tentativa de apropriação ou redução conceitual, convocando o sujeito a uma responsabilidade que antecede o conhecimento e a própria liberdade. Essa interpelação ética inaugura um horizonte no qual a transcendência não é pensada como realidade distante, mas como presença concreta que se manifesta na vulnerabilidade e na dignidade do outro. Assim, a ética da alteridade proposta por Lévinas não apenas redefine o lugar da filosofia, ao colocar a responsabilidade pelo outro como filosofia primeira, mas também abre um caminho para repensar as relações humanas, a justiça e as instituições sociais a partir da exigência fundamental de acolher o outro em sua infinita singularidade.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Emmanuel Lévinas, por meio de sua proposta filosófica da ética da alteridade, oferece uma contribuição fundamental para a compreensão das relações humanas, deslocando o centro da reflexão filosófica da ontologia para a ética e reconhecendo esta como dimensão originária da experiência humana. Para Lévinas, o infinito não se apresenta como uma realidade abstrata ou distante, mas manifesta-se concretamente no rosto do Outro, cuja presença rompe o fechamento do eu e inaugura uma relação marcada pela responsabilidade. Assim, a transcendência deixa de ser entendida apenas como contemplação metafísica e realiza-se na própria relação ética que se estabelece no encontro face a face.
Nesse horizonte, a epifania do rosto constitui o momento central em que o sujeito é interpelado pela alteridade. O rosto do Outro manifesta uma exterioridade que não pode ser reduzida às categorias do pensamento nem assimilada pelo eu. Ao revelar-se em sua vulnerabilidade, o rosto convoca o sujeito a responder, instaurando uma responsabilidade que antecede qualquer decisão deliberada.
Assim, a responsabilidade pelo Outro constitui o núcleo da ética levinasiana. Trata-se de uma responsabilidade radical, que não depende de reciprocidade e exige do sujeito uma abertura genuína à alteridade. No rosto do Outro, especialmente nas figuras do pobre, da viúva e do estrangeiro, manifesta-se um apelo por justiça que interpela o ser humano a reconhecer a dignidade daquele que se apresenta.
Portanto, em um contexto marcado por diversas formas de indiferença e fragmentação social, a ética da alteridade de Lévinas recorda que a humanidade do ser humano se realiza na responsabilidade pelo Outro. A epifania do rosto não apenas revela o infinito que habita a relação humana, mas inaugura um horizonte ético no qual se tornam possíveis a justiça, a hospitalidade e o cuidado com a vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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GRZIBOWSKI, Silvestre. Transcendência e Ética: um estudo a partir de Emmanuel Lévinas. São Leopoldo: Oikos, 2010.
LÉVINAS, Emmanuel. Humanismo do outro homem. 4ªed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
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MASLOWSKI, Adriano André. Rosto e Intencionalidade: superação ou renovação da fenomenologia?. Santo Ângelo/RS: Metrics, 2021.
SEBBAH, François-David. Lévinas. São Paulo, Estação Liberdade, 2009.
1 Doutor e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria; Pós-graduado em Interdisciplinaridade e Práticas Pedagógicas na Educação Básica pela Universidade Federal da Fronteira Sul; Pós-graduado em Leituras da Bíblia e Mundo Contemporâneo pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões; Pós-graduado em Orientação Educacional pela Faculdade UniBF; Pós-graduado em Psicopedagogia e Educação Inclusiva pela Faculdade UniBF; Bacharel em Filosofia pelo Instituto de Filosofia Berthier; Licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci; Bacharel em Teologia pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões; Licenciado em Pedagogia pela Centro Universitário ETEP. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7521-7771.
2 Para Lévinas, “instaurar a paz equivaleria a abrir e quebrar a totalidade: uma abertura que desfaça a totalidade, que destrua a guerra” (SEBBAH, 2009, p. 47-48
3 Para aprofundar a temática da fenomenologia do rosto em Lévinas recomenda-se a obra: MASLOWSKI, Adriano André. Rosto e Intencionalidade: superação ou renovação da fenomenologia?. Santo Ângelo/RS: Metrics, 2021.