REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/773818534
RESUMO
O presente artigo analisa o processo de formação histórica do município de Bezerros, no Agreste pernambucano, com ênfase na origem da primitiva capela de São José, posteriormente elevada à condição de matriz do curato local. Considerando a relevância cultural e histórica do município — atualmente reconhecido por tradições festivas como o carnaval e a figura do papangu, bem como pela produção artesanal de máscaras e pela comercialização de bolos típicos —, o estudo propõe revisitar criticamente as narrativas historiográficas sobre sua fundação religiosa. Para isso, realiza-se um confronto entre fontes literárias de caráter memorialista, amplamente baseadas em tradição oral popular, e fontes primárias paroquiais dos séculos XVIII e XIX. O levantamento bibliográfico contempla obras como Anais Pernambucanos (Pereira da Costa), a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (IBGE), a Cronologia Pernambucana (Nelson Barbalho) e estudos locais posteriores, que atribuem a construção da capela aos irmãos José e Francisco Bezerra, além de mencionarem personagens como Terciano, Zenóbio Torres e Brayner como proprietários ou intermediários fundiários. Em contrapartida, a pesquisa documental, baseada em registros de batismos, casamentos e óbitos da Matriz de São José dos Bezerros, identificou apenas menção isolada a Zenóbio e ausência de registros coevos sobre Terciano, bem como constatou a presença da família Brayner apenas a partir de 1797, o que enfraquece sua suposta atuação nas primeiras décadas do século XVIII. Por outro lado, observou-se participação expressiva da família Bezerra em eventos religiosos, especialmente na cerimônia de crisma de 1782, além de registros de sepultamentos na capela-mor atribuídos a privilégios herdados de um ancestral, indicando possível vínculo direto do capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos com a construção ou reforma do templo. Conclui-se que parte significativa das versões tradicionais apresenta lacunas e inconsistências quando confrontada com documentação primária, reforçando a necessidade de revisão crítica das narrativas históricas baseadas apenas em memória oral, bem como a importância das fontes paroquiais para reconstituir com maior rigor a formação religiosa e social de Bezerros.
Palavras-chave: agreste; Bezerros; fontes primárias; historiografia; tradição oral.
ABSTRACT
This article analyzes the historical formation process of the municipality of Bezerros, in the Agreste region of Pernambuco, with emphasis on the origin of the primitive chapel of Saint Joseph, later elevated to the status of the parish church of the local curacy. Considering the cultural and historical relevance of the municipality—currently recognized for festive traditions such as Carnival and the figure of the papangu, as well as for the artisanal production of masks and the commercialization of traditional cakes—the study proposes a critical reassessment of the historiographical narratives regarding its religious foundation. To this end, a comparison is made between literary sources of a memorialist nature, largely based on popular oral tradition, and primary parish sources from the eighteenth and nineteenth centuries. The bibliographic survey includes works such as Anais Pernambucanos (Pereira da Costa), the Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (IBGE), the Cronologia Pernambucana (Nelson Barbalho), and later local studies that attribute the construction of the chapel to the brothers José and Francisco Bezerra, while also mentioning figures such as Terciano, Zenóbio Torres, and Brayner as landowners or intermediaries. In contrast, the documentary research—based on baptism, marriage, and death records from the Parish of Saint Joseph of Bezerros—identified only an isolated reference to Zenóbio and no contemporary records concerning Terciano, and further found that the Brayner family appears in the documentation only from 1797 onward, which weakens claims of their involvement in the early decades of the eighteenth century. On the other hand, the Bezerra family was found to have had significant participation in religious events, particularly in the confirmation ceremony of 1782, as well as burial records in the chancel attributed to privileges inherited from an ancestor, suggesting a possible direct connection between Captain Francisco Bezerra de Vasconcellos and the construction or renovation of the temple. It is concluded that a significant portion of the traditional versions presents gaps and inconsistencies when confronted with primary documentation, reinforcing the need for a critical reassessment of historical narratives based solely on oral memory, as well as highlighting the importance of parish sources for reconstructing with greater rigor the religious and social formation of Bezerros.
Keywords: Agreste; Bezerros; historiography; oral tradition; primary sources.
INTRODUÇÃO
O município de Bezerros, situado no Agreste pernambucano, destaca-se, na contemporaneidade, como importante referência cultural do Estado, especialmente pela tradição de suas festividades populares, como o carnaval, marcado pela emblemática figura do papangú. A cidade também se tornou amplamente reconhecida pela produção artesanal de máscaras carnavalescas — elemento simbólico de sua identidade cultural —, bem como pela comercialização de bolos tradicionais da região, práticas que consolidaram Bezerros como polo de expressão artística e de valorização das tradições locais.
Paralelamente a essa relevância cultural atual, Bezerros ocupa posição de reconhecida importância histórica na formação territorial e social do Agreste pernambucano, destacando-se desde o período colonial como espaço de circulação de pessoas, mercadorias e práticas econômicas vinculadas à pecuária, à agricultura e às rotas de interiorização que conectavam o litoral às áreas sertanejas. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a localidade consolidou-se como núcleo de povoamento e referência regional, processo no qual a presença da instituição religiosa católica desempenhou papel estruturante, tanto na organização comunitária quanto na legitimação simbólica do território.
Nesse contexto, a criação da primitiva capela dedicada a São José — posteriormente elevada à condição de matriz do curato — constitui marco central para a compreensão do surgimento e do desenvolvimento histórico de Bezerros. Contudo, apesar da importância desse episódio, observa-se que sua narrativa fundacional permanece amplamente ancorada em tradições orais populares, reiteradas por sucessivas produções literárias e historiográficas, muitas vezes reproduzidas sem confrontação sistemática com documentação primária coeva. Tal circunstância favoreceu a consolidação de versões homogêneas, porém nem sempre consistentes do ponto de vista crítico e metodológico.
Diante disso, torna-se necessário revisitar o tema à luz de uma abordagem historiográfica fundamentada no exame comparativo entre a literatura produzida sobre a origem da capela e as evidências disponíveis em fontes primárias, especialmente registros paroquiais. Assim, este artigo tem como objetivo identificar possíveis inconsistências, lacunas e contradições presentes nas narrativas históricas sustentadas exclusivamente pela tradição oral, buscando delimitar, com maior rigor, o que pode ser efetivamente comprovado documentalmente e o que permanece no campo da memória coletiva não verificada.
HISTORIOGRAFIA E FONTES PRIMÁRIAS SOBRE A FUNDAÇÃO DA MATRIZ DE BEZERROS
A historiografia registra o surgimento da capela de São José dos Bezerros, tema que tem sido objeto de diversos estudos e publicações voltados a esclarecer os acontecimentos relacionados à sua origem, geralmente situada na primeira metade do século XVIII. Contudo, observa-se que parte significativa dessas narrativas fundamenta-se na repetição de referências bibliográficas que, por sua vez, se apoiaram em tradições orais, frequentemente reproduzidas sem a devida confrontação com documentação primária. Nesse sentido, tanto obras de maior relevância quanto produções de menor circulação abordam o assunto mediante versões semelhantes, contribuindo para a consolidação de um discurso historiográfico relativamente homogêneo. Com o intuito de delinear um panorama dessas interpretações, o presente estudo reuniu e organizou cronologicamente algumas dessas produções e seus respectivos relatos.
1958 – Anais Pernambucanos – Trata-se de uma obra histórica composta por dez volumes, publicada trinta e cinco anos após o falecimento de seu autor, Francisco Augusto Pereira da Costa (1851–1923). Consolidada como uma produção historiográfica de reconhecida relevância, insere-se entre os trabalhos de maior fôlego elaborados por um dos mais prolíficos cronistas do Estado. Nela, o autor sistematiza acontecimentos situados entre os anos de 1493 e 1850, conferindo à obra caráter abrangente e tornando-a referência fundamental para os estudos históricos de âmbito regional.
Sobre a cidade de Bezerros e, especialmente acerca das notícias relativas ao surgimento da capela que viria a constituir a Matriz de São José dos Bezerros, Pereira da Costa afirma:
Sobre a origem da localidade e, particularmente, da sua denominação, ocorre o seguinte, segundo a tradição documentada: originalmente, no próprio local em que campeia a cidade, foi situada uma fazenda de criação de gado, que, nas primeiras décadas do século XVIII, pertencia a um Brainer, morador no Recife. Ocorrendo, depois, um fato qualquer, em que se viram implicados dois indivíduos irmãos, José Bezerra e Francisco Bezerra, deu-lhes Brainer homizio na sua fazenda, com muitas recomendações ao seu vaqueiro. José Bezerra levou consigo uma imagem do santo do seu nome e devoção e, apenas instalado, tratou de construir, de parceria com seu irmão, uma capelinha de taipa, coberta de palhas, onde colocou a imagem de São José e a cujo oratório começaram logo os habitantes da fazenda a chamar a capelinha de São José dos Bezerras (PEREIRA DA COSTA, 1958, v. VI, p. 297)
Pereira da Costa, conforme se pode depreender do trecho citado, explicita que a denominada “tradição documentada” atribui a autoria da capela aos irmãos José Bezerra e Francisco Bezerra, sem, contudo, esclarecer sua origem, tampouco apresentar informações acerca de seus ascendentes ou descendentes. O autor acrescenta ainda que: “
Definitivamente domiciliados na localidade, os irmãos Bezerras constituíram família, fizeram-se fazendeiros e acumularam fortuna; e, surgindo em torno da capelinha uma povoação, que, em 1768, como vimos, teve os foros de curato [...] (PEREIRA DA COSTA, 1958, v. VI, p. 297)
1958 – Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – Trata-se de um trabalho organizado por Jurandyr Pires Ferreira, que coordenou uma equipe responsável pela elaboração de um amplo estudo sobre as localidades de Pernambuco, publicado pelo IBGE em 1958, instituição na qual o organizador exercia atividades profissionais.
Na obra, antes mesmo de se abordar o surgimento e os primórdios da povoação de Bezerros, afirma-se que “o modo de formação do agrupamento que viria a resultar na atual cidade dos Bezerros fica a depender da pura e simples tradição” (FERREIRA, 1958, p. 57). Em seguida, o autor acrescenta: “Na medida do que foi possível recolher, na tradição, e no estudo de um quadro existente na igreja matriz, que tem o seu largo valor documentário, remonta a origem da cidade ao ano de 1740” (FERREIRA, 1958, p. 57). Tais afirmações conferem às narrativas apresentadas um caráter predominantemente tradicional, com limitada fundamentação historiográfica e documental, evidenciando a dependência de elementos de memória oral e de referências não sistematicamente verificadas para a reconstrução do surgimento da povoação e de sua capela.
Entre outras informações, o trabalho de Ferreira menciona que uma família teria se fixado na área correspondente ao atual perímetro urbano de Bezerros por volta do ano de 1740, sendo apontados como primeiros habitantes os irmãos Terciano e Zenóbio Torres, os quais teriam dividido as terras da fazenda em outras duas partes. A obra afirma ainda que, após esses primeiros moradores, sucederam-lhes os irmãos José e Francisco Bezerra, aos quais é atribuída a construção da primitiva capela sob a invocação de São José. Menciona-se, por fim, que, ao final do século XVIII, a referida capela encontrava-se em estado de ruína, circunstância que teria motivado sua reconstrução (FERREIRA, 1958, p. 57).
As narrativas apresentadas por Ferreira acerca da capela de São José dos Bezerros mostram-se bastante semelhantes às registradas por Pereira da Costa. O autor admite que recorreu à tradição oral como principal subsídio para a reconstituição dos acontecimentos relacionados ao surgimento desse equipamento religioso.
1982 – Cronologia Pernambucana (volume 5) - O volume V da Cronologia Pernambucana constitui um dos tomos da coleção elaborada pelo escritor e pesquisador pernambucano Nelson Barbalho, na qual o autor reúne e organiza, em ordem cronológica, acontecimentos, personagens e referências históricas relacionadas ao Estado de Pernambuco, com especial atenção à história regional e às tradições locais do Agreste e Sertão. Trata-se de uma obra de caráter compilatório, amplamente utilizada como fonte de consulta na historiografia pernambucana.
Sobre o surgimento da capela de São José dos Bezerros, Barbalho afirma:
Ali, rente ao rio Ipojuca, onde haveria casa grande, senzala, casas para agregados, depósitos para mantimentos, currais, roças, etc., os manos José e Francisco Bezerra ergueriam, sob a invocação de São José, pequena capela, mais tarde reconstruída por seus descendentes [...] (BARBALHO, 1982, v. 5, p. 60)
Fica expresso na narrativa de Barbalho que a construção da capela é atribuída aos irmãos José e Francisco Bezerra, enquanto sua posterior reconstrução ou reforma teria sido realizada por seus descendentes, embora o autor não identifique nominalmente quais teriam sido esses responsáveis.
2005 – Bezerros, seus fatos e sua gente – Obra histórica dedicada ao município de Bezerros, publicada em dois volumes no ano de 2005 pelo professor Ronaldo José Souto Maior. Considerada referência relevante para a memória e para a historiografia local, a publicação aborda, entre outros aspectos, a origem da povoação nas terras correspondentes ao atual município. No tratamento dessa temática, contudo, o autor limita-se a reproduzir as informações apresentadas por Pereira da Costa, transcrevendo integralmente o trecho constante na página 297 do volume VI dos Anais Pernambucanos. Souto Maior diverge apenas da afirmação segundo a qual a fazenda dos Bezerras teria se originado da antiga fazenda dos Torres — grupo frequentemente apontado pela tradição oral como fundador da localidade, sob o argumento de pioneirismo —, mas concorda com o restante da narrativa ao afirmar que: “Contrariando a tradição oral, segundo a qual os Torres foram fundadores dos Bezerros, sobre o qual inexiste qualquer documento, o fato descrito por Pereira da Costa não deixa margem a qualquer dúvida” (SOUTO MAIOR, 2005, v. I, p. 44).
Outra tradição oral, igualmente registrada por Souto Maior acerca da origem da fazenda onde teria sido edificada a capela de São José, apresenta uma variante narrativa que modifica os personagens envolvidos. Para sustentar essa versão, o autor recorre ao volume V da Cronologia Pernambucana, de Nelson Barbalho, segundo a qual Manoel de Torres, identificado como co-sesmeiro, teria fundado a Fazenda dos Currais, posteriormente denominada Fazenda das Torres. Ainda conforme essa tradição, a propriedade teria sido transmitida por herança aos irmãos Terciano e Zenóbio e, segundo memória oral preservada até os dias atuais, estes teriam se desfeito da fazenda, vendendo-a a um Brayner, que, por sua vez, a teria repassado aos irmãos José e Francisco Bezerra, aos quais o autor atribui a construção da primitiva capela (SOUTO MAIOR, 2005, p. 49).
As produções historiográficas mencionadas neste estudo, fundamentadas expressamente em tradições orais populares, procuram reconstituir o surgimento da fazenda que teria dado origem à atual cidade de Bezerros, bem como relatar a edificação de sua primeira capela. Contudo, as datas e os personagens apresentados nesses relatos, quando não corroborados por fontes primárias documentais, permanecem sujeitos a inconsistências, contradições e possíveis refutações. Diante disso, impõe-se o seguinte questionamento: quais documentos históricos disponíveis permitem comprovar tais narrativas ou, eventualmente, contradizê-las?
Antes que este estudo busque esclarecer tal questão, torna-se necessário revisar alguns dos personagens mencionados nas narrativas e, na medida do possível, comprovar suas existências, situando-os temporal e geograficamente no contexto histórico. Para tanto, as fontes primárias localizadas e utilizadas consistiram, sobretudo, em registros constantes nos livros paroquiais da Igreja Matriz de São José dos Bezerros. Não foram identificados, até o presente momento, livros de notas cartoriais ou escrituras de compra e venda que possibilitassem reconstituir com maior precisão o cenário fundiário e os agentes históricos vinculados ao período e à localidade analisados.
Quanto aos irmãos Terciano e Zenóbio, a única menção identificada nos assentos paroquiais de Bezerros consiste em um registro de batismo do ano de 1774, no qual figura apenas um deles, sem que haja, até o momento, referência documental direta ao outro irmão.
João Máximo, filho legítimo de José Francisco e de Ba[...] Thereza, moradores na Fazenda do Mimoso. Foi bati [...] ma [...] aos vinte e três de maio de mil setecentos e [...] [...] santo óleos doze dias de nascido, neto pater [...] [...] nio Ferreira e de Joana da Silva sua mulher, e [...] Zenóbio de Torres e de sua mulher Floren [...], todos os avós naturais de Santo Antão. Foram pa [...] [...] Cardoso, casado, e Anna Maria, viúva [...] [...] drinhos [...] de que fiz este e assinei (Livro de Batismos de Bezerros, 1773-1780, 1774, img. 15)
O documento, única evidência conhecida da existência de um homem chamado Zenóbio naqueles idos, registra um nome incomum na região, sendo, provavelmente, o mesmo indivíduo referido nas narrativas orais, sobretudo por se tratar de um período em que a população de Bezerros ainda era reduzida. Em contrapartida, não foi localizado qualquer registro primário coevo que mencione o irmão Terciano, o que dificulta, até o presente momento, a comprovação documental de sua existência histórica.
A tradição oral também menciona a existência de um indivíduo denominado Brayner, apontado como suposto comprador das terras dos irmãos Terciano e Zenóbio, as quais teriam sido posteriormente revendidas aos também irmãos José e Francisco Bezerra, a quem se atribui a construção da capela de São José dos Bezerros.
No entanto, os registros paroquiais localizados indicam a presença de membros da família Brayner na região apenas a partir de 1797. A menção mais antiga identificada até o momento consta em um assento de casamento celebrado na Matriz de São José dos Bezerros, em 6 de junho de 1797, no qual o Licenciado Antônio José Pereira Brayner figura como testemunha do matrimônio entre Antônio Francisco Frazão e Maria José da Conceição (Livro de casamentos de Bezerros, 1792-1804, 1797, f. 55v). O estudo realizou a leitura de livros paroquiais de batismos, casamentos e óbitos anteriores a 1797, não sendo identificada qualquer menção a indivíduos da família Brayner nesse período.
Sobre os irmãos Francisco Bezerra e José Bezerra, as leituras dos arquivos paroquiais do final do século XVIII registram a presença recorrente de uma família Bezerra, frequentemente envolvida em eventos de casamentos, batismos e, especialmente, na grande cerimônia de crisma ocorrida em 1782 (Livro de batismos de Bezerros, 1780-1788, 1782, img. 22-41). Tal evento religioso foi realizado em dois dias distintos, 9 e 11 de maio, sendo o primeiro, provavelmente, celebrado na povoação de Bezerros. O número de crismados nesse dia chegou a 23 pessoas. Entre os participantes, identificam-se filhos, netos e indivíduos escravizados pertencentes ao capitão Francisco Bezerra de Vasconcelos, destacando-se essa família como a mais expressivamente representada naquele evento religioso.
Essa expressiva participação pode indicar uma ligação mais estreita com a igreja de São José dos Bezerros, possivelmente relacionada à autoria da construção ou a alguma reforma da primitiva capela. Por si só, contudo, a presença no evento religioso não constitui prova conclusiva dessa associação. Entretanto, em leituras de registros de óbitos vinculados à referida igreja, identificam-se outros indícios que apontam para a relevância da figura do capitão Francisco no contexto local.
Foram encontrados alguns registros de óbitos da Matriz de São José dos Bezerros cujo teor menciona um local específico para o sepultamento dos falecidos, como o altar-mor ou a capela-mor da igreja. Alguns desses assentos registram que tal autorização foi concedida pelo bispo, enquanto outros afirmam que o sepultamento ocorreu “por privilégio que tem seu avô do senhor bispo”, e um deles menciona ainda que se deu “por herança de seu avô”, circunstância que chamou a atenção da pesquisa.
Aos três dias do mês de abril de mil setecentos [...] e um anos, faleceu da vida presente Thereza, párv [...] [...] lha legítima de João Rodrigues do Canto e de [...] Maria, moradores neste curato de São José do[...]. Sepultou-se na capela-mor desta matriz [...] vilégio que tem seu avô do senhor bispo [...] [...] ra em hábito branco e foi por minha [...] no sobredito dia, mês e ano supra, [...] [...] tar, fiz este assento que por verdade [...] (Livro de óbitos de Bezerros, 1772-1793, 1791, img. 24)
Fazendo um comparativo com situação análoga ocorrida em Caruaru, observa-se prática semelhante em relação aos filhos e netos de José Rodrigues de Jesus, documentalmente confirmado como construtor da primeira capela do Carurú (atual Caruaru). Sabe-se que José Rodrigues solicitou e obteve permissão do então bispo para que ele e seus familiares fossem sepultados em local privilegiado da capela, denominado altar-mor ou capela-mor. Tal autorização pode ser constatada por meio da leitura dos antigos registros de óbitos daquela localidade.
Sendo semelhantes as práticas observadas em ambos os locais e ocorrendo em período coevo, depreende-se que, em Bezerros, os indivíduos sepultados na capela-mor da igreja tenham alcançado tal privilégio por motivo análogo ao que se verifica no caso de José Rodrigues de Jesus em Caruaru, isto é, em razão de sua vinculação direta à edificação, construção ou reforma daquele equipamento religioso, estendendo-se tal prerrogativa a eles por serem descendentes.
Surge, então, a pergunta sobre quem seria essa pessoa privilegiada, cujos registros mencionam o mérito sem citar o nome. Dessa forma, o estudo empreendeu uma investigação genealógica com o objetivo de identificar o ancestral comum de cinco dos falecidos, chegando-se, ao final, ao seguinte quadro:
Tabela 1 – Registros de óbitos analisados e identificação do ancestral comum (Capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos)
Data | Nome | Pais | Avós |
jul. 1783 | Dionísio | Francisco Bezerra de Vasconcellos e Angélica Rosa | Paternos: Capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos e Mariana de Freitas Lima |
22 fev. 1784 | Theodora | Manoel José de Vasconcellos e Clara Francisca das Chagas | Maternos: Capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos e Mariana de Freitas Lima |
03 abr. 1791 | Thereza | João Rodrigues do Canto e Thereza Maria de Jesus | Paternos: Capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos e Mariana de Freitas Lima |
11 jan. 1838 | Anna Francisca de Jesus | (não identificado) | (não identificado) |
24 set. 1840 | José Joaquim Torres | (não identificado) | (não identificado) |
Os dados coletados na pesquisa genealógica permitiram delinear um panorama acerca do ancestral comum dos falecidos. Entre os cinco registros selecionados, apenas três apresentaram informações suficientes para a reconstrução genealógica.
Os três registros mais antigos, referentes ao óbito de crianças, indicam que o Capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos figura como avô comum entre elas, o que sugere sua possível vinculação direta à construção ou reforma da igreja de São José dos Bezerros, elevada à condição de curato em 1768. Ademais, em outros registros paroquiais nos quais o capitão é mencionado, consta que era natural de Santo Antão (atual Vitória de Santo Antão) e possuía idade compatível para já ser adulto em 1768, uma vez que, na década de 1770, já lhe nasciam netos.
DISCUSSÃO
O debate historiográfico acerca da origem da capela de São José dos Bezerros evidencia um problema recorrente na escrita da história local: a dependência de narrativas literárias baseadas em tradições orais que, ao longo do tempo, foram incorporadas como verdade histórica sem o devido processo de verificação documental. Nesse contexto, observa-se que parte significativa das obras que tratam do surgimento da povoação e de sua capela reproduz versões semelhantes, frequentemente derivadas de um mesmo núcleo narrativo tradicional, reiterado por autores sucessivos e consolidado como discurso historiográfico relativamente uniforme.
Do ponto de vista metodológico, é necessário distinguir a natureza e a função das fontes utilizadas. As produções historiográficas e literárias — como os Anais Pernambucanos de Pereira da Costa, a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros organizada por Ferreira, a Cronologia Pernambucana de Nelson Barbalho e a obra de Souto Maior — configuram-se como fontes secundárias, isto é, interpretações produzidas a partir de relatos prévios, memórias coletivas ou documentos eventualmente acessados pelos autores. Embora essas obras possuam valor historiográfico e sejam relevantes para compreender como se formou a memória histórica de Bezerros, elas não substituem o papel das fontes primárias, pois não constituem, em si mesmas, testemunhos diretos do período analisado.
Nesse sentido, deve-se considerar que a tradição oral, embora não seja descartável, opera como forma de memória social, marcada por reelaborações, deslocamentos temporais e adaptações simbólicas. A oralidade preserva elementos culturais e identitários importantes, mas tende a produzir narrativas estruturadas para explicar origens, legitimar grupos e organizar o passado sob uma lógica coerente e exemplar. Assim, quando não confrontada com documentação coeva, a tradição oral pode cristalizar interpretações anacrônicas ou atribuições indevidas, especialmente em contextos em que a ausência de registros cartoriais e fundiários favorece lacunas explicativas.
No caso de Bezerros, percebe-se que autores como Pereira da Costa e Ferreira explicitam a dependência do testemunho tradicional. Pereira da Costa menciona uma “tradição documentada”, porém não apresenta, no trecho citado, o documento que fundamentaria tal expressão, o que dificulta avaliar o grau de confiabilidade da afirmação. Ferreira, por sua vez, reconhece expressamente que a formação do núcleo urbano “fica a depender da pura e simples tradição”, reforçando que o relato não se sustenta em documentação robusta. Barbalho e Souto Maior, embora apresentem versões semelhantes, igualmente não indicam fontes primárias diretas que comprovem as sucessões de posse descritas na narrativa oral (Torres → Brayner → Bezerra), limitando-se a reproduzir tradições já consolidadas.
A pesquisa documental realizada a partir dos livros paroquiais da Matriz de São José dos Bezerros introduz, portanto, um elemento essencial ao debate: a confrontação crítica entre fontes secundárias e registros primários. Ainda que os livros paroquiais não sejam fontes fundiárias e não esclareçam diretamente transações de compra e venda, eles constituem documentação coeva, produzida no tempo dos acontecimentos e capaz de comprovar a presença de determinados indivíduos, sobrenomes e práticas sociais vinculadas ao espaço paroquial. Dessa forma, os registros de batismos, casamentos e óbitos funcionam como evidências objetivas para confirmar ou relativizar personagens frequentemente mencionados pela tradição.
À luz dessas fontes primárias, parte das narrativas orais encontra confirmação parcial. O registro de batismo de 1774, no qual figura Zenóbio de Torres como avô paterno, constitui evidência concreta da existência histórica de um indivíduo com esse nome, raro na região, o que fortalece a hipótese de que Zenóbio tenha sido personagem real e possivelmente relacionado à tradição oral que o identifica como um dos primeiros moradores. Contudo, tal evidência é limitada: o documento menciona apenas Zenóbio, sem fornecer informações diretas sobre a posse territorial, sobre a fundação da fazenda ou sobre sua relação com o suposto irmão Terciano. A inexistência, até o momento, de registros paroquiais que mencionem Terciano enfraquece a confirmação documental do par de irmãos como fundadores, tal como reiterado por Ferreira e pela memória popular. Assim, o que se confirma é a existência de Zenóbio, mas não se confirma, documentalmente, a estrutura narrativa completa que o associa a Terciano como coproprietário e agente fundador.
Em relação ao personagem Brayner, a documentação paroquial apresenta uma divergência relevante com a tradição. A narrativa oral o coloca como proprietário da fazenda já nas primeiras décadas do século XVIII, anterior à instalação dos irmãos Bezerra. Todavia, a pesquisa identificou a primeira menção documental a membros da família Brayner apenas em 1797, quando Antônio José Pereira Brayner aparece como testemunha em um casamento. Além disso, a leitura de livros anteriores não revelou ocorrências do sobrenome, sugerindo que, ao menos no universo paroquial registrado, a presença dos Brayner na região não se evidencia antes do final do século XVIII. Isso não exclui totalmente a possibilidade de existência anterior de algum Brayner — uma vez que indivíduos poderiam residir em propriedades rurais sem aparecer frequentemente nos registros paroquiais —, mas enfraquece significativamente a narrativa que o coloca como personagem central na origem da povoação. Assim, a tradição oral sobre Brayner não se confirma pelas fontes primárias analisadas, permanecendo como hipótese não comprovada.
Por outro lado, a presença reiterada de indivíduos da família Bezerra nos registros paroquiais do final do século XVIII constitui um dado consistente que dialoga com a historiografia tradicional. A grande participação de filhos, netos e escravizados ligados ao capitão Francisco Bezerra de Vasconcelos na cerimônia de crisma de 1782 indica uma posição social destacada e uma forte inserção religiosa no contexto local. Esse elemento não confirma diretamente a autoria da construção da capela, mas corrobora o pressuposto de que a família possuía influência suficiente para desempenhar papel relevante na estruturação do curato e da vida paroquial.
O dado mais significativo emerge dos registros de óbito que mencionam sepultamentos no altar-mor ou capela-mor, associados a expressões como “por privilégio que tem seu avô do senhor bispo” ou “por herança de seu avô”. Trata-se de um indício relevante, pois a concessão de sepultura em local privilegiado era prática historicamente associada a benfeitores, fundadores ou reformadores de igrejas, bem como a famílias de prestígio que obtinham autorização episcopal. A analogia estabelecida com o caso de Caruaru, no qual José Rodrigues de Jesus é documentalmente confirmado como construtor da capela e, por esse mérito, obteve privilégio sepulcral extensivo aos seus descendentes, reforça a plausibilidade interpretativa de que fenômeno semelhante tenha ocorrido em Bezerros.
A investigação genealógica realizada, ao identificar o capitão Francisco Bezerra de Vasconcelos como avô comum em três registros de óbitos infantis sepultados em local privilegiado, fornece sustentação adicional à hipótese de que esse personagem tenha desempenhado papel central na edificação, reforma ou manutenção da igreja. Essa evidência, ainda que indireta, apresenta consistência superior à narrativa oral, pois deriva de registros primários coevos e de cruzamento genealógico verificável. Ademais, a informação de que o capitão era natural de Santo Antão e possuía idade compatível com a elevação da capela a curato em 1768 contribui para situá-lo historicamente como agente plausível desse processo.
Dessa forma, pode-se afirmar que as fontes primárias analisadas confirmam parcialmente o núcleo da tradição oral ao demonstrar: (a) a existência histórica de Zenóbio de Torres, embora sem comprovar sua atuação como fundador em conjunto com Terciano; (b) a presença consolidada da família Bezerra no cenário local no final do século XVIII; e (c) a existência de privilégios sepulcrais associados aos descendentes do capitão Francisco Bezerra de Vasconcelos, o que sugere vínculo direto com a igreja. Em contrapartida, não se confirma documentalmente: (a) a existência histórica de Terciano Torres; (b) a narrativa sucessória detalhada de transmissão de terras envolvendo Torres, Brayner e Bezerra; e (c) a presença de Brayner no início do século XVIII, já que a documentação paroquial apenas o evidencia no final do século XVIII.
Em síntese, o confronto entre fontes literárias e fontes primárias permite compreender que a tradição oral preservou personagens e estruturas narrativas que podem conter elementos reais, mas cuja coerência histórica exige validação documental. As obras historiográficas analisadas desempenharam papel relevante na cristalização da memória local, mas sua dependência de versões repetidas, sem documentação explícita, demonstra a necessidade de uma abordagem crítica. Assim, a pesquisa baseada em registros paroquiais contribui para reorientar a discussão sobre a origem da capela de São José dos Bezerros, deslocando o debate do campo da narrativa tradicional para o campo da evidência histórica, ainda que reconhecendo as limitações impostas pela ausência de documentação cartorial e fundiária coeva.Parte superior do formulário
CONCLUSÃO
Conclui-se que a análise comparativa entre as narrativas historiográficas sobre a origem da capela de São José dos Bezerros e as fontes primárias disponíveis evidencia limites importantes nas interpretações baseadas exclusivamente na tradição oral popular. Embora obras de referência tenham contribuído para consolidar uma versão relativamente homogênea acerca dos personagens fundadores e da cronologia do surgimento da povoação, observa-se que tais relatos foram, em grande medida, reproduzidos sem o necessário confronto crítico com documentação coeva, o que favoreceu a perpetuação de informações pouco verificáveis e, por vezes, contraditórias.
Os registros paroquiais examinados, apesar de não fornecerem prova direta e definitiva sobre a autoria da construção da primitiva capela, permitem estabelecer parâmetros mais seguros para a reconstrução histórica local. A documentação confirma, por exemplo, a presença recorrente de uma família Bezerra na freguesia de Bezerros ao longo do final do século XVIII, destacando-se o capitão Francisco Bezerra de Vasconcellos como figura de expressiva participação religiosa e social. Além disso, a identificação de sepultamentos realizados na capela-mor, justificados por privilégios atribuídos ao “avô” dos falecidos, constitui forte indício de distinção social e religiosa, sugerindo vínculo direto desse ancestral com a edificação, construção ou reforma do templo, hipótese reforçada pela análise genealógica empreendida.
Por outro lado, a investigação documental não confirmou integralmente alguns elementos recorrentes na tradição oral. A existência do personagem Zenóbio, embora sustentada por um registro paroquial, permanece limitada a menções pontuais, enquanto o suposto irmão Terciano não foi localizado em fontes primárias coevas. De igual modo, a figura do Brayner, frequentemente apresentada como proprietário inicial das terras ou intermediário na cadeia de transmissão fundiária, só aparece documentalmente na região a partir de 1797, o que relativiza a plausibilidade de sua participação direta nos acontecimentos atribuídos às primeiras décadas do século XVIII.
Dessa forma, o estudo demonstra que a história local, especialmente no que se refere às origens de instituições religiosas fundadoras, exige constante revisão metodológica, de modo a distinguir o que pertence ao campo da tradição e da memória coletiva daquilo que pode ser efetivamente comprovado por registros históricos. O cruzamento entre literatura e fontes primárias revela-se, portanto, essencial não apenas para corrigir equívocos historiográficos, mas também para fortalecer a preservação da memória regional em bases mais consistentes.
Por fim, conclui-se que a origem da capela de São José dos Bezerros permanece como tema aberto a investigações futuras, sobretudo diante da ausência de escrituras, livros de notas e documentos fundiários que poderiam oferecer maior precisão sobre a ocupação inicial das terras e seus agentes históricos. Ainda assim, os indícios reunidos a partir da documentação paroquial permitem avançar na compreensão do processo de formação religiosa e social do núcleo inicial de Bezerros, contribuindo para uma historiografia mais crítica, documentada e coerente com a realidade histórica do Agreste pernambucano.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARBALHO de Siqueira, Nelson. Cronologia Pernambucana; subsídios para a história do Agreste e do Sertão – de 1679 a 1697. Vol 5. Recife, Centro de Estudos de História Municipal/FIAM, 1982.
FERREIRA, Jurandyr Pires (Coord.). Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Vol XVIII. Rio de Janeiro: Ed. do IBGE, 1958.
LIVRO DE BATISMOS DE BEZERROS (1773-1780). Familysearch. Disponível em: <https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:3QSQ-G93Z-2QWZ?view=explore&groupId=TH-1961-30020-2198-90&lang=pt>. Acessado em: 16FEV2026.
LIVRO DE BATISMOS DE BEZERROS (1780-1788). Acervo da Igreja Matriz de São José dos Bezerros.
LIVRO DE CASAMENTOS DE BEZERROS (1792-1804). Familysearch. Disponível em: <https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:3QSQ-G93Z-2H66?view=explore&groupId=TH-1961-30020-6112-28&lang=pt>. Acessado em: 16FEV2026.
LIVRO DE ÓBITOS DE BEZERROS (1772-1793). Acervo da Igreja Matriz de São José dos Bezerros.
LIVRO DE ÓBITOS DE BEZERROS (1833-1844). Acervo da Igreja Matriz de São José dos Bezerros.
PEREIRA DA COSTA, Francisco Augusto. Anais Pernambucanos. Vol. 6. Recife, Arquivo Público Estadual, 1958.
SOUTO MAIOR, Ronaldo José. Bezerros, seus fatos e sua gente. v. 1. Recife: Edição do autor, 2005.