REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/778557886
RESUMO
A educação apresenta desafios anuais contínuos; todavia, no Estado de Roraima, tais questões ganham contornos específicos devido à proximidade com os países vizinhos, especialmente a Venezuela. O fluxo migratório em busca de refúgio concentra-se na fronteira com o município de Pacaraima, ao norte do estado e do país. Diante desse cenário, o objeto de investigação desta pesquisa consiste em analisar como os discentes com deficiência (PCDs) e refugiados utilizam as Tecnologias Digitais nos Colégios Estaduais Militarizados (CEMs) de Roraima, especificamente no que tange ao processo epistemológico do uso de Inteligências Artificiais (IAs) no ambiente escolar. A metodologia fundamenta-se na coleta de dados por meio de ferramentas tecnológicas, como questionários e entrevistas. O corpus é analisado sob a luz de Michel Foucault, direcionando-se para a Análise do Discurso (AD) de base foucaultiana, em consonância com pesquisas recentes aplicadas pelo Professor Me. Rubenildo Pereira Oliveira nos CEMs. Observou-se que docentes e discentes (PCDs e refugiados) validam o uso das IAs; entretanto, registraram-se posicionamentos contrários quanto à descontinuidade dessas ferramentas no desenvolvimento das práticas pedagógicas dos referidos colégios.
Palavras-chave: Educação Inclusiva; Refugiados e Migração; PCD (Pessoas com Deficiência); Tecnologias Digitais e IA; Colégios Estaduais Militarizados (CEMs); Análise do Discurso (Foucault); Roraima (Fronteira Brasil-Venezuela); Prática Pedagógica.
ABSTRACT
Education presents continuous annual challenges; however, in the State of Roraima, these issues take on specific dimensions due to its proximity to neighboring countries, especially Venezuela. The migratory flow seeking refuge is concentrated at the border with the municipality of Pacaraima, in the north of the state and the country. Given this scenario, the object of this research is to analyze how students with disabilities (SWD) and refugees utilize Digital Technologies in the Militarized State Schools (CEMs) of Roraima, specifically regarding the epistemological process of using Artificial Intelligence (AI) in the school environment. The methodology is based on data collection through technological tools, such as questionnaires and interviews. The corpus is analyzed through the lens of Michel Foucault, directed toward Foucaultian Discourse Analysis (DA), in line with recent research conducted by Professor Rubenildo Pereira Oliveira (MA) in the CEMs. It was observed that teachers and students (both SWD and refugees) validate the use of AI; however, opposing positions were recorded regarding the discontinuity of these tools in the development of pedagogical practices within these schools.
Keywords: Inclusive Education; Refugees and Migration; PWD (People with Disabilities); Digital Technologies and AI; Militarized State Schools (CEMs); Discourse Analysis (Foucault); Roraima (Brazil-Venezuela Border); Pedagogical Practice.
Introdução
Na fronteira de Roraima com a Venezuela, ao descrever epistemologicamente a relação entre a fronteira geopolítica de nosso país e a ciência, observa-se como essa dinâmica transforma a sociedade e o ambiente escolar na produção de novos saberes. Afinal, ao ensinar um refugiado, aprende-se, simultaneamente, sobre suas origens e cultura. Vale ressaltar que o docente, em seu ambiente de trabalho, muitas vezes encontra-se despreparado perante as barreiras linguísticas. Anteriormente, este profissional ministrava aulas a alunos brasileiros, lidando com limitações específicas de discentes com deficiência (PCDs), demandas estas que eram, porventura, superadas com o auxílio constante do professor mediador em sala de aula.
Entretanto, o cenário altera-se com o aluno refugiado que dialoga em uma língua que lhe é natural, o espanhol, mas que se apresenta como um código distinto no contexto escolar local. É nesse ponto que percebemos o problema real: como se processa a "dupla exclusão" (o refugiado que também é PCD) sob o paradigma digital, muitas vezes precário, nas escolas de Boa Vista e cidades fronteiriças de Roraima? Este sistema educacional, frequentemente imposto aos docentes, pode ser analisado sob a ótica de diversas pesquisas nacionais. Nesse sentido, como pesquisador, o Professor Me. Oliveira (2026) afirma que:
Alguns profissionais da área da educação se deparam com pessoas com deficiência (PCDs), não apenas aqueles que atuam nas Salas de Recursos Multifuncionais (SRM), mas também aqueles que estão inseridos nas salas regulares, conforme prevê a legislação brasileira a chamada inclusão. No entanto, muitas vezes, esses educandos, assim como seus educadores, convivem no mesmo espaço físico, mas em mundos distintos. O docente ministra suas aulas, mas alguns não conseguem, de fato, oferecer um ensino com equidade ou qualidade que atenda às necessidades desses estudantes com deficiência. Mesmo com o fornecimento de tecnologias pelo Estado, como tablets ou recursos digitais mais avançados, a inclusão não se concretiza se não houver, de fato, acolhimento e atuação de profissionais devidamente qualificados. (Oliveira, 2025, p. 19)
Percebe-se que essa prática educacional pode promover a emancipação tecnológica, desde que esta seja oferecida a cada docente e aos seus respectivos alunos nos ambientes escolares. Conforme o Scimago Institutions Rankings, fundamentado nas perspectivas de autores como Schuhmacher, Alves Filho e Schuhmacher (2017) e Skantz-Åberg et al. (2022).
Estudos revelam habitualmente limitações significativas nas capacidades dos docentes em se envolverem com as Inteligências Artificiais (IAs) em seu planejamento pedagógico. Nota-se que, por vezes, o uso dessas tecnologias como ferramentas gera resistência ao serem integradas à vida profissional dos educadores.
Epistemologias do Sul e Descolonização
Ao abordar as Epistemologias do Sul no contexto do estado de Roraima, torna-se imperativo, primordialmente, definir os conceitos de descolonização e das próprias Epistemologias do Sul. Estas propõem um resgate dos saberes que foram historicamente marginalizados pelo domínio eurocêntrico. A partir dessa base, é possível fundamentar a importância da "ecologia de saberes" e da "sociologia das emergências". Tais conceitos permitem conferir visibilidade a práticas e conhecimentos que, embora existentes, permanecem invisibilizados pela racionalidade moderna.
Nesse sentido, a discussão sobre a decolonialidade, tema central nas reflexões acadêmicas da Profa. Dra. Mafra (UNESA/RJ) , revela-se essencial. A decolonialidade não se limita à independência política, mas busca a emancipação do pensamento e a valorização das identidades locais. No cenário educacional de Roraima, essa perspectiva é fundamental para compreender o encontro de culturas na fronteira e para validar os novos saberes que emergem do diálogo entre docentes, alunos refugiados e discentes com deficiência (PCDs).
Ao abordar as Epistemologias do Sul e a descolonização, é fundamental referenciar autores que discutem a universalização do conhecimento ocidental. Nesse contexto, Sousa Santos (2022) propõe a adoção de uma pluralidade epistemológica, na qual o reconhecimento de outros saberes não implica, necessariamente, uma resistência absoluta à ciência moderna eurocêntrica. Pelo contrário, o autor argumenta que essa pluralidade traz consigo a memória e as lutas históricas dos povos originários e grupos subalternizados. Assim, busca-se um diálogo em que o conhecimento científico não silencie as experiências e os saberes nascidos das batalhas sociais passadas.
diversidade das lutas é uma fonte de abundantes saberes, de conhecimentos produzidos pelas classes e grupos sociais em sua resistência contra as injustiças estruturais e as múltiplas opressões causadas pela dominação moderna. Tais lutas e saberes confirmam que os três modos principais da dominação moderna são o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado (Sousa Santos, 2022, p.51).
Percebe-se que o resgate desses saberes não evoca apenas as dores ou o estigma do passado, mas sim conhecimentos ricos em experiências de vida de gerações que foram, reiteradamente, injustiçadas e oprimidas por estruturas de dominação. No entanto, para compreender essa opressão, é necessário analisar o renascimento e a consolidação dos três pilares da modernidade colonial, que constituem as principais formas de dominação contemporânea: o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado.
Estes eixos operam de forma conjunta, estruturando as relações sociais e educativas, e impondo uma lógica que as Epistemologias do Sul buscam questionar ao dar voz às subjetividades que resistem a esse sistema triádico de exclusão.
Outro autor de relevância para esta discussão é Du Bois (2021), que apresenta uma perspectiva complementar ao debate decolonial. Ao analisar sua obra fundamental, As Almas do Povo Negro (publicada originalmente em 1903 e com edições recentes em 2021), observa-se que seu pilar central reside nos estudos pós-coloniais. O autor explora a dinâmica complexa entre colonizadores e colonizados que persiste mesmo após a independência formal das nações. Para Du Bois, o legado do colonialismo manifesta-se na estrutura social e na subjetividade dos indivíduos.
[...] considera-se que o principal enfoque dos estudos pós-coloniais é a economia política das relações entre colonizadores e colonizados depois da independência (com desenvolvimento dependente, comércio desigual, controle sobre recursos naturais, tutelagem militar, alinhamentos internacionais, imperialismo, assim como o “retorno as fontes” (Sousa Santos, 2022, p. 23).
Sousa Santos (2022) apresenta uma abordagem distinta sobre as Epistemologias do Sul, ao enfatizar não apenas a valorização dos saberes, mas também das práticas locais dos povos indígenas. O autor descreve as vivências históricas e culturais que esses sujeitos integram às sociedades em que vivem, revelando o valor intrínseco de seus conhecimentos. De acordo com Sousa Santos (2022) [...] as ES promovem a recuperação dos saberes populares e vernaculares mobilizados nas lutas, que nunca foram reconhecidos pelo conhecimento científico ou acadêmico.
Nesse viés, reconhece-se que a modernidade ocidental se consolidou sob um alto custo de exploração, resultando na exclusão de diversos grupos nacionais, localizados principalmente na América Latina, Ásia e África. Essa perspectiva permite denunciar o "epistemicídio" o apagamento de conhecimentos não europeus e propõe uma reconstrução decolonial do saber.
Como já descrevemos um pouco sobre Epistemologias do Sul e a descolonização. Vamos agora abortar esses pontos em Roraima. Por ser tratar de um Estado localizados no extremo norte de nosso país, tem suas características próprias. Como a presença constante de povos indígena, como a etnias Macuxi, Wapichana, Yanomami, Taurepang, entre outros, como as Caribenias vindas da Venezuela.
O estado de Roraima traz consigo um cenário muito propícios para destacarmos a Epistemologias do Sul por se tratar de sua localidade, onde a colonialidade do saber ainda produz silenciamentos e conflitos territoriais.
Baseado nas descrição dos conflitos socioambientais de Rocha e Melo, quando descreve no seu artigo sobre a Colonialidade do Poder em seu estudo, baseados nas ideias de Aníbal Qzuijano, quando cita sobre violações dos direitos dos povos indígenas, descreve que:
Diante de sucessivos conflitos socioambientais e violações de direitos de povos e comunidades tradicionais, vê-se a manifestação da Colonialidade do Poder através da institucionalização da violência colonial, perpetuada pelo Estado, como método de dominação dos corpos. A questão do Marco Temporal, tese jurídica originada no Supremo Tribunal Federal (STF), em 2009, no momento em que era julgada a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, é exemplo dessa opressão. O argumento propõe a fixação de um marco temporal para a delimitação das terras de povos tradicionais, de maneira que só poderão ser demarcadas aquelas que já eram ocupadas ou disputadas em 05 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. (Rocha e Melo, 2024, p 09)
Além de descrever as citações de Aníbal (2009):
A colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial do poder capitalista. Sustenta-se na imposição de uma classificação racial/étnica da população do mundo como pedra angular do referido padrão de poder e opera em cada um dos planos, meios e dimensões, materiais e subjectivos, da existência social quotidiana e da escala societal. (Aníbal , 2009, p.73)
Percebe-se que os conflitos territoriais transcendem a disputa pela terra, configurando-se como embates culturais profundos. Ao descrever os conflitos históricos que houve, retoma-se a análise da base colonial de poder, uma vez que a sociedade roraimense carrega raízes consolidadas de desigualdade. Tal estrutura manifesta-se claramente na concentração fundiária e na subalternização dos saberes indígenas, preteridos em favor de um modelo desenvolvimentista de matriz eurocêntrica e capitalista. Nesse contexto, a terra não é apenas um recurso produtivo, mas um território epistemológico onde diferentes visões de mundo colidem: de um lado, a lógica da acumulação; de outro, a vivência comunitária e a preservação da memória dos povos originários.
Cidadania Digital
É possível inferir que a cidadania digital pode até existir no Estado de Roraima; contudo, afirmar que ela está, de fato, inserida na sociedade roraimense — especialmente nas escolas e nos Colégios Estaduais Militarizados (CEMs) — é uma tarefa complexa. Tal dificuldade não decorre da ausência total de tecnologias, mas da complexidade logística e estrutural da região. Somente neste ano, obteve-se a interligação efetiva do sistema de energia local ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Nesse cenário, percebe-se que a infraestrutura de fibra óptica e os cabeamentos que promovem a evolução digital ainda são precários. Em muitas localidades, o acesso é inexistente; onde há conexão, esta ocorre via satélite, cujo alto custo financeiro inviabiliza a manutenção e o acesso para a maioria da população, evidenciando um abismo digital que compromete a democratização do conhecimento.
O Contexto de Roraima e a Crise Migratória
É imperativo considerar que o impacto do fluxo migratório em Roraima transcende a esfera socioeconômica ou o mercado de trabalho operacional, repercutindo profundamente nas unidades de ensino municipais e estaduais. Este fenômeno não deve ser analisado apenas sob uma perspectiva quantitativa; trata-se, primordialmente, da introdução de uma nova língua nos ambientes escolares. Assim, discentes que antes mantinham contato com o espanhol apenas como uma disciplina estrangeira curricular, passam a conviver diariamente com o idioma de forma nativa. Essa interação contínua promove a difusão e, por vezes, a alteração de dialetos e práticas comunicativas, ressignificando a vida escolar e as relações sociais desses estudantes.
Ao analisarmos o modelo dos Colégios Estaduais Militarizados (CEM) em Roraima, especificamente no contexto de fronteira com a Venezuela, é possível articular a analítica do poder disciplinar de Michel Foucault com as proposições de Byung-Chul Han acerca do novo regime de informação e do controle algorítmico. A ascensão dos CEMs em solo roraimense não se justifica apenas pela localização geográfica no Norte do Brasil, mas por integrar um cenário geopolítico peculiar. Sob a lente de Han (2022), observamos uma transição do regime disciplinar, onde o educando nos PCDs refugiados e nativos usam a farda como forma de disciplina, amando muitas vezes sua doutrina de respeito e ordem, além de estar focado na energia e no adestramento dos corpos para um modelo de controle que incide sobre a psique, não podemos citar que eles sabem que são monitorados frequentemente. Tal perspectiva é fundamental para compreender a tríade tecnologia, educação e inclusão, que abarca alunos nativos e refugiados, ambos com Deficiência (PCD).
O regime de informações apontado por Han (2022) revela que o poder contemporâneo é exercido por meio do processamento de algoritmos e dados, explorando a mente em detrimento do corpo físico. Este ensaio propõe que a inovação dos CEMs não representa um retorno ao passado, mas uma fase híbrida: nela, aplica-se o rigor físico para viabilizar a docilidade necessária à coleta de dados e à conformidade algorítmica o "corpo dócil" transmutado em "psique datificada".
Nessa conjuntura, Noronha (2024, p. 2) afirma que "o corpo passa a operar como um sistema aberto, porque em contato permanente com ferramentas, em vez de fechado". Percebe-se que o controle se torna smart e invisível, lembrando que, quando descrevemos esse linhamento, fica claro que esse coação ao se tratar do poder smart que vem configurado como sedução, deixa a crer contraditória no texto. Mas vale lembrar que no, no CEM, essas duas forças coexistem: o aluno obedece à farda (disciplina), mas também é monitorado pela plataforma (psicopolítica). Os sujeitos experienciam uma sensação ilusória de liberdade enquanto são monitorados. Han expande o pensamento foucaultiano ao descrever que:
O capitalismo da informação se apropria das técnicas de poder neoliberais. Em oposição às técnicas do poder do regime disciplinar, não trabalham com coação e interdições, mas com estímulos positivos. Exploram a liberdade, em vez de a reprimir. Conduzem nossa vontade a âmbitos inconscientes, em vez de romper com ela com violência. O poder disciplinar repressivo dá lugar a um poder smart, que não dá ordens, mas sussurra, que não comanda, mas que nudge, quer dizer, que dá um toque com meios sutis para controlar o comportamento. Vigiar e punir, as características do regime disciplinar de Foucault, dão lugar a motivar e otimizar. No regime de informação neoliberal, a dominação se dá como liberdade, comunicação e Community, comunidade. (HAN, 2022, p.09)
Diferente de Foucault, em que o poder é ostensivo, o sistema smart substitui o "vigiar e punir" pelo "motivar e otimizar". No campo educacional, essa lógica flerta com o que a literatura denomina enshittification (degradação técnica e ética das plataformas). A plataformização da educação prioriza a captura de dados para fins corporativos, muitas vezes esvaziando o valor pedagógico real. Em contrapartida, Selwyn (2022) propõe um "giro pós-crítico", instando as comunidades a construírem alternativas tecnológicas sustentáveis e focadas na justiça social. Sob essa lente, os CEMs representam a hibridização da ortopedia disciplinar foucaultiana com a psicopolítica digital.
A tecnologia assistiva nos ambientes de trabalho e escolares, frequentemente apresentada como ferramenta de inclusão, pode atuar, paradoxalmente, como um dispositivo de ortopedia disciplinar. Sensores e interfaces alimentam o "inconsciente digital", monitorando o comportamento do aluno em níveis pré-reflexivos. Conforme Noronha (2024), a nova geração, embora nascida na era digital, carece de percepção crítica sobre os mecanismos de exploração subjacentes a essas ferramentas.
Pachamama, ao discutir a Internet das Coisas (IoT), descreve como as conexões em rede passam a envolver não apenas pessoas, mas territórios e biodiversidade, alterando a própria condição do habitar e criando uma arquitetura reticular. Essa complexidade exige o que Silva, Santos e Santos (2024) definem como cidadania digital: um engajamento político que vai além do acesso técnico, combatendo as desigualdades sociais. Para os CEMs em Roraima, não basta garantir o dispositivo; é preciso desvelar os riscos dos ambientes digitais. Sobre a responsabilidade estatal, o CGI.br (2024a, p. 32) destaca:
Os formuladores de políticas públicas precisam abordar as brechas em termos de habilidades, segurança e Direitos Humanos para construir um ambiente social favorável para as pessoas à medida que elas se conectam online pela primeira vez. Esta será uma responsabilidade não apenas para os formuladores de políticas públicas no domínio das tecnologias da informação e comunicação (TIC), pois exigirá uma responsabilidade coletiva que se estende a todos os ministérios e órgãos reguladores, bem como ao setor privado e à sociedade civil. Pedimos aos formuladores de políticas públicas que sejam mais ousados do que foram em outros momentos ao conectar os desconectados e construir um ambiente social de apoio para um mundo online vibrante e inclusivo (CGI.br, 2024a, p.32).
A conectividade deve ser "significativa". A mera presença de ferramentas tecnológicas, sem um suporte ético e pedagógico, torna-se inoperante ou até nociva. Silveira (2017) reforça que as tecnologias não são neutras; elas carregam propriedades políticas que modulam a opinião pública através de algoritmos opacos, funcionando como "caixas-pretas" de vigilância.
Nesse cenário, surge o debate sobre o "ECA Digital". Alinhando-se à Lei 15.211/25, busca-se atualizar o Estatuto da Criança e do Adolescente para a era da hiperconectividade, exigindo transparência dos implementadores de tecnologia. Piovesan e Miolaro (2025), baseando-se em Max Fisher (A Máquina do Caos), evidenciam o embate entre a legalidade e o lucro das big techs, que utilizam algoritmos para manipular a atenção. Proteger a infância nesse ambiente é um dever constitucional (Art. 227, CF/88).
A Barreira Linguística e Cognitiva
O autor Oliveira em sua pesquisa de dissertação nos CEMs, faz uma ressalva que:
[...} não basta somente capacitar os professores, mas que o governo Estadual de Roraima, ofereça condição metodológica com as tecnologias disponíveis hoje nas web ou em plataforma digital aos seus professores que atuam diretamente com alunos Pcds nas Escolas Estadual e nos Colégios Estaduais Militarizados, com Tecnologia Assistiva que venha contribuir para o desenvolvimento intelectual dos seus alunos Pcds, considerando suas necessidades específicas na Educação Inclusiva. .( Oliveira, 2025, p. 55)
Oliveira (2026), em sua pesquisa, propõe um questionamento acerca das diretrizes do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) e investiga de que maneira esta perspectiva contribui para a ressignificação do uso da Tecnologia Assistiva (TA). O foco reside na educação inclusiva para discentes com deficiência (PCDs), considerando a nova configuração educacional que as unidades de ensino vivenciam em seus contextos escolares. Ressalta-se que, apesar da precariedade infraestrutural já mencionada, o ambiente escolar tem abrigado tecnologias assistivas que transcendem o atendimento exclusivo aos educandos PCDs nacionais. Tais ferramentas alcançam, de forma transversal, os alunos refugiados, auxiliando na superação de barreiras linguísticas e cognitivas, e promovendo uma inclusão mais equânime no cenário educacional contemporâneo.
Desafios Éticos e Práticas Docentes
A abordagem desses temas revela-se invariavelmente delicada, visto que o cerne da questão não reside apenas no ato de formar ou capacitar tecnicamente o educador. Conforme aponta Oliveira (2026) em sua pesquisa, fundamentando-se em Bessant (2000), a problemática central reside na capacidade de saber escolher. Essa perspectiva sugere que a prática pedagógica, especialmente em contextos de alta complexidade como o de Roraima, exige do docente uma postura reflexiva e ética na seleção de ferramentas e metodologias que realmente promovam a inclusão, indo além da mera execução de treinamentos padronizados. quando cita que:
A escolha por esse método se justifica pelo desejo de aprofundar a compreensão sobre a formação docente para a inclusão escolar. Como as fundamentações inspiradas nas contribuições de Bressan (2000), onde este estudo busca interpretar os dados em um contexto mais amplo, propondo um olhar analítico e aprofundado sobre o objeto investigado. ( Oliveira, 2025, p. 76)
A complexa interseccionalidade vivenciada por essas unidades de ensino, desde a chegada dos novos alunos provenientes da Venezuela, revela o despreparo do corpo docente. Atualmente, os professores enfrentam o desafio de se capacitarem não apenas para atender às necessidades dos discentes com deficiência (PCDs) nacionais, mas também dos alunos PCDs refugiados. Torna-se imperativo que as metodologias de ensino incorporem práticas de acolhimento que assegurem, de fato, a integração desses estudantes, garantindo a justiça social no ambiente escolar roraimense.
Considerações Finais
Para conclusão analisamos uma visão das Epistemologias do Sul e da Análise do Discurso de Foucault, e o que leva a desafiar pedagogicamente os tecnológicos nas Unidades de ensino em Roraima diante do fluxo migratório venezuelano. Destacando dois pontos essências enfrentada por alunos PCDs e também refugiados da Venezuela, vivenciando nossa precariedade da infraestrutura digital e a falta de preparo para esse acolhimento educacional, por parte de nossos docentes, que impactam a justiça social e a emancipação tecnológica. Finalizamos que o acolhimento desse Desenho Universal para aplicar na aprendizagem e o recolher esses saberes decoloniais será fundamental para rescrever uma nova a Tecnologia Assistiva para que possam de fato promover e acolher efetivamente em nossas unidades de ensino em Roraima. Ressaltando que, a hibridização do modelo dos Colégios Estaduais Militarizados em Roraima, apontou a sofisticação de ferramentas tecnológica controle, onde a ortopedia disciplinar foucaultiana se solidifica nesse mesmo alinhamento da psicopolítica que Han cita em seus estudos. Ao evoluir o "corpo dócil" em "psique danificada", de um lado o Estado de Roraima que exerce um poder de vigiar (vigilância), que eleva o físico, agarrando a subjetividade de educandos nativos (brasileiros) e refugiados por meio da plataformização. Olhando essa convergência entre farda e algoritmo, amplia-se o imperativo que traz o ECA Digital como também as políticas de cidadania atuem como contrapesos éticos e jurídicos. Portanto, é assim que essa tecnologia sumirá deixando sua existência de dispositivo de domesticação invisível para transformar em uma ferramenta eficaz de autonomia social, trazendo enfim essa liberdade que é a nossa inclusão efetiva.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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Oliveira, Rubenildo Pereira. Tecnologia assitiva e práticas inclusivas: reflexões sobre a formação continuada de professores dos colégios estaduais militarizados em Roraima / Rubenildo Pereira Oliveira.- Rio de Janeiro, 2025. Acesso em: 04/04/2026
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. In: SANTOS, Boaventura, MENESES, Maria P. (Orgs.). Epistemologias do sul. São Paulo: Cortez, 2010. p. 75-117. Acesso em: 04/04/2026
SOUSA SANTOS, B. d. Descolonizar: abrindo a história do presente. São Paulo: Autêntica; Boitempo, 2022. Acesso em: 04/04/2026
WEBER, M. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. São Paulo: L&PM, 2019. Acesso em: 04/04/2026
O autor declara que foi utilizado IA generativa para correção ortográfica
1 Doutorando em Educação e Mestre em Educação (UNESA, 2025). Possui uma formação multidisciplinar que transita entre a Pedagogia, Letras/Espanhol, Letras/Português, Psicologia e Terapia Ocupacional e Terapia Sistêmica Familiar. Especializou-se em áreas críticas da inclusão, como Neuropsicopedagogia Clínica, Intervenção ABA aplicada ao TEA e Terapia Ocupacional voltada para a Saúde Mental. Atua profissionalmente na Rede Estadual de Ensino, Como Assessor Pedagógico responsável pelo setor de Estágio Curricular Supervisionado na Secretaria Adjunta de Educação Básica na SEED juntamente com as IES . Além de suas contribuições onde destacam-se pelo estudo da Tecnologia Assistiva e pela gestão das Salas de Recursos Multifuncionais, fundamentais para a efetivação da Educação Inclusiva no Ensino Fundamental.
2 Doutoranda em Educação e Mestra em Educação (UNESA, 2025). ORCID iD: https://orcid.org/0009-0008-9757-1227. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail